sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Uma Angeologia Gnóstica, em Camões, n' Os Lusíadas, segundo a hermenêutica de Dalila Pereira da Costa e Pedro Teixeira da Mot.

                                                              

O penúltimo capítulo das Raizes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, de Dalila Pereira da Costa, é dos mais concentrados e valiosos, e dado o livro estar esgotado e inacessível na net, mereceria até uma transcrição completa além de uma boa hermenêutica. Oiçamos a nossa querida amiga, tão discreta quão sábia e sibílica:

«Para terminar, notemos que n'Os Lusiadas, tal como no relato visionário de Avicena, será fundamental o regresso da alma (aqui a dos navegantes) à sua pátria original sob a conduta de seu guia celeste (aqui as ninfas) Por isto o episódio da Ilha namorada, será a chave da epopeia camoniana, nela concedendo-lhe todo o sentido último e finalidade, como aventura espiritual interior, inserida numa aventura histórica.»
[Dalila, num dos capítulos anteriores, Os três relatos de Avicena, resumira-os três, segundo a transcrição de Henry Corbin, em dois deles dando-se a ascensão dos sete cumes de montanha axial ou Qaf, no Oriente, do peregrino guiado pelo Anjo, e das aves por si mesmas, com a visão do cosmos divino e do Rei, e no terceiro relato, de aventuras e traições, culminando com o retiro e ocultação no Oriente de um dos heróis gémeos.]
Todo este episódio estando impregnado de angeologia gnóstica, note-se que a ideia de um paredro [guia ou conselheiro] celeste, ou Natureza perfeita de cada ser humano, seu companheiro e guia salvador, é concepção fundamental da angeologia de Avicena, notadamente, mas também de Sohrawardi e toda a gnose [entenda-se irfan, gnose ou esoterismo islâmico, que não gnosticismo]. E será, julgamos, esta concepção que também se revela no cenários e dramaturgia da «ilha alegre e namorada».
A notar ainda que nesse relato de Avicena, há três degraus angélicos, os Anjos Inteligências, Anjos celestes e Anjos terrestres; supomos que Camões teria aqui representado estes últimos para povoarem sua ilha. Será ainda a mesma repartição angélica a que se faz no Livro da Ascensão de Isaías, texto cristão gnóstico, onde o profeta ascende em êxtase ao firmamento na companhia de seu anjo. [Ver nota 1 no fim]
Como concepção fundamental da gnose, este encontro de cada ser humano com seu duplo celeste, aqui de cada Navegante com sua Ninfa, só se pode realizar por uma saída do cosmos, como acto de transcendência, ou chegada ao Oriente, na referência gnóstica [dos ishraqis, da Luz (Nûr) iluminante, iranianos], em  oposição ao Ocidente: será este acto o que se iniciará com a súbita aparição da Ilha aos Navegantes. É assim, dotadas de inteligência e conhecimento, que essas Ninfas e entre todas a "mor" se mostrarão aos Navegantes, concedendo-lhes uma comunicação divina de eleição: e esta ainda de carácter nacional, específica, transindividual.
Será esta comunicação e estado gozado na transcendência desta Ilha, nomeadamente no cume do seu último monte, o que possibilitará o êxtase e toda a visão escatológica e cosmológica dada a Vasco da Gama e seus companheiros. É uma pedagogia o que as ninfas-anjos ministram aqui aos navegantes e suprema,  e finalmente, Tétis, por essa visão no segundo monte.

Como Inteligência agente, da Teologia de Aristóteles, glosada por Avicena, aqui se dará um segundo nascimento dos navegantes, em amor mútuo, entre a alma humana e a inteligência angélica, como amor perfeito de amante e amada. [Nota 2]  Na poesia lírica de Camões, este acto se dará entre o poeta e a mulher amada; mas sempre na idêntica referência transcendente duma pedagogia então como a de um Fiel do Amor.

[Importante este relembrar e realçar que é o amor pleno entre o amante e amada, ou entre a alma e a Inteligência divina agente ou Espírito Santo, o que permite a ascensão e visão interior]

Outra perspectiva, e esta ligando-se peculiarmente a uma das diretrizes mais fundas e actuantes na religião dos portugueses, como já aqui notamos, será essa identificação no sufismo e gnosticismo [correcto será gnose, irfan] (e assim no pensamento de Avicena) do Espírito Santo com a Inteligência agente, e toda a sua pedagogia se soteriologia: como mistério de revelação e conhecimento.

A notar, também, será que no relato de Os Lusíadas, como nos relatos visionários do sufismo, tais os de Avicena, Soharawardi, etc., haja semelhantemente o sincronismo do encontro da alma com seu eu celeste e guia, identificado ou simultâneo com seu acordar e que sua ascensão celeste se una a um cenário cosmológico e escatológico: como anúncio de sua plena futura visão e usufruição a ser gozada post-mortem: esse «trasunto, reduzido/ Em pequeno volume». [A visão subtil, acessível corporalmente e em pequeno, transposta ou em trasunto (cópia fiel), do Cosmos harmonioso]

Semelhança ainda marcada entre estes relatos e o de Camões, por um mesmo convite directo e pessoal, expressado pelo Anjo à Alma, aqui  por Tétis a Vasco da Gama, convite feito em toda a autoridade de mestre a discípulo, e pedindo-lhe a coragem necessária e força da alma, a própria duma iniciação:

"Segue-me firme e forte, com prudência,/ Por este monte espesso, tu cos demais - Assi lhe diz, e o guia por mato, / Árduo, difícil, duro a humano trato" C. X. 76

Tétis, como anjo mistagogo, conduz o capitão e seus companheiros, para fora deste mundo, como Ocidente terrestre, ao seu Oriente, que espiritualmente se lhe contraporá: e será este o fim verdadeiro e secreto da sua viagem; dando-se aqui a descoberta desse almejado Oriente, extra-terrestre.

[Um dos parágrafos mais cruciais do episódio enquanto descrição e simbolização da experiencia espiritual,  iniciação e visão dos fins últimos da viagem do descobrimento do caminho marítimo do Oriente: chegou-se também espiritualmente ao Oriente do Oriente. O que quis Camões simbolizar, o que quis Dalila ver e o que queremos nós  realizar quanto ao encontro dos portugueses com as entidades angélicas ou espirituais? E quanto ao encontro com o Oriente do Oriente? O que fazemos ou vivemos por isso?]

Fernando Pessoa, com toda a sua adesão pessoal confessada ao gnosticismo [ou mais à gnose, sobretudo cristã e templária], e o conhecimento de um dos seus princípios fundamentais, o da prexistência, teria intuído na Mensagem o cenário da Ascensão de Vasco da Gama: [Nota 3

"Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vae, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abysmo à alma do Argonauta."»

 Nota 1: O Livro da Ascensão de Isaías, que se pode ler na internet em inglês, um apócrifo de visionarismo profético cristão dos primeiros séculos do Cristianismo,  relata a imaginada ascensão dele até ao 7º céu, no cap. VI, 13 apresenta uma repartição angélica algo diferente, mais tingida do dualismo judaico-cristão: «13. E o anjo que foi enviado para fazê-lo ver não era deste firmamento, nem era dos anjos de glória deste mundo, mas viera do sétimo céu»; ora o firmamento é subtil e não deste mundo físico, onde está (cap. 10) o regente deste mundo Sammael Satan e onde os seus anjos-demónios lutam entre si]

Nota 2. Pela Inteligência agente, pelo Espírito divino e santo, pela Inteligência angélica, ou mesmo pelo Logos,  se dá o renascimento ou religação em visão e amor  entre a alma humana e o espírito angélico (ou a ninfa, a fravashi, a huri, e muito se poderia dizer aqui e agora), ou entre o amante e amada, ou mesmo as almas afins, ou gémeas mesmo.  

Nota 3. Transcrevemos a estância toda, pois Dalila abreviara-a pela exiguidade do livro, não passando os quatro versos iniciais, também importantes e sgnificativos, tanto mais que Fernando Pessoa sempre valorizou a intuição e admitiu a frequente ignorância do artista ou escritor das implicações e correspondências do que criou. Neste caso, porque mostra o efeito espiritual da ascensão em vida e morte de Vasco da Gama no firmamento subtil dos deuses e dos mundos em luta, que param e silenciam, entram na Pax in excelsis, enquanto na Terra o simples pastor deixa de soprar a flauta de Pan e do seu verbo e entra em visão extática do Céu acolher Vasco da Gama em corpo de luz de Glória, como a dos trovões. Muito mais se poderia hermeneutizar, pois Fernando Pessoa, na linha de Antro de Quental e de Joaquim de Araújo, reconheceu que morrer é ser iniciado. E deu essa segunda iniciação a Vasco Gama (antepassado de tantos portugueses), complementando a primeira que lhe reconhecera  Luís de Camões, e assim se posicionou como o super-Camões, que desde jovem, na mística revista A Águia, da Renascença Portuguesa, declarara querer ser ou ser. No próximo artigo concluiremos estas aproximações ou entradas nos tesouros orientais d'Os Lusíadas, sob a égide dos mestres da imortal civilização iraniana e da tradição espiritual portuguesa, e em especial Luís de Camões e Dalila Pereira da Costa, que saudamos luminosamente com gratidão, admiração e amor! 

                                 

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