Como Inteligência agente, da Teologia de Aristóteles, glosada por Avicena, aqui se dará um segundo nascimento dos navegantes, em amor mútuo, entre a alma humana e a inteligência angélica, como amor perfeito de amante e amada. [Nota 2] Na poesia lírica de Camões, este acto se dará entre o poeta e a mulher amada; mas sempre na idêntica referência transcendente duma pedagogia então como a de um Fiel do Amor.
[Importante este relembrar e realçar que é o amor pleno entre o amante e amada, ou entre a alma e a Inteligência divina agente ou Espírito Santo, o que permite a ascensão e visão interior]
Outra perspectiva, e esta ligando-se peculiarmente a uma das diretrizes mais fundas e actuantes na religião dos portugueses, como já aqui notamos, será essa identificação no sufismo e gnosticismo [correcto será gnose, irfan] (e assim no pensamento de Avicena) do Espírito Santo com a Inteligência agente, e toda a sua pedagogia se soteriologia: como mistério de revelação e conhecimento.
A notar, também, será que no relato de Os Lusíadas, como nos relatos visionários do sufismo, tais os de Avicena, Soharawardi, etc., haja semelhantemente o sincronismo do encontro da alma com seu eu celeste e guia, identificado ou simultâneo com seu acordar e que sua ascensão celeste se una a um cenário cosmológico e escatológico: como anúncio de sua plena futura visão e usufruição a ser gozada post-mortem: esse «trasunto, reduzido/ Em pequeno volume». [A visão subtil, acessível corporalmente e em pequeno, transposta ou em trasunto (cópia fiel), do Cosmos harmonioso]
Semelhança ainda marcada entre estes relatos e o de Camões, por um mesmo convite directo e pessoal, expressado pelo Anjo à Alma, aqui por Tétis a Vasco da Gama, convite feito em toda a autoridade de mestre a discípulo, e pedindo-lhe a coragem necessária e força da alma, a própria duma iniciação:
"Segue-me firme e forte, com prudência,/ Por este monte espesso, tu cos demais - Assi lhe diz, e o guia por mato, / Árduo, difícil, duro a humano trato" C. X. 76
Tétis, como anjo mistagogo, conduz o capitão e seus companheiros, para fora deste mundo, como Ocidente terrestre, ao seu Oriente, que espiritualmente se lhe contraporá: e será este o fim verdadeiro e secreto da sua viagem; dando-se aqui a descoberta desse almejado Oriente, extra-terrestre.
[Um dos parágrafos mais cruciais do episódio enquanto descrição e simbolização da experiencia espiritual, iniciação e visão dos fins últimos da viagem do descobrimento do caminho marítimo do Oriente: chegou-se também espiritualmente ao Oriente do Oriente. O que quis Camões simbolizar, o que quis Dalila ver e o que queremos nós realizar quanto ao encontro dos portugueses com as entidades angélicas ou espirituais? E quanto ao encontro com o Oriente do Oriente? O que fazemos ou vivemos por isso?]
Fernando Pessoa, com toda a sua adesão pessoal confessada ao gnosticismo [ou mais à gnose, sobretudo cristã e templária], e o conhecimento de um dos seus princípios fundamentais, o da prexistência, teria intuído na Mensagem o cenário da Ascensão de Vasco da Gama: [Nota 3]
Nota 1: O Livro da Ascensão de Isaías, que se pode ler na internet em inglês, um apócrifo de visionarismo profético cristão dos primeiros séculos do Cristianismo, relata a imaginada ascensão dele até ao 7º céu, no cap. VI, 13 apresenta uma repartição angélica algo diferente, mais tingida do dualismo judaico-cristão: «13. E o anjo que foi enviado para fazê-lo ver não era deste firmamento, nem era dos anjos de glória deste mundo, mas viera do sétimo céu»; ora o firmamento é subtil e não deste mundo físico, onde está (cap. 10) o regente deste mundo Sammael Satan e onde os seus anjos-demónios lutam entre si]
Nota 2. Pela Inteligência agente, pelo Espírito divino e santo, pela Inteligência angélica, ou mesmo pelo Logos, se dá o renascimento ou religação em visão e amor entre a alma humana e o espírito angélico (ou a ninfa, a fravashi, a huri, e muito se poderia dizer aqui e agora), ou entre o amante e amada, ou mesmo as almas afins, ou gémeas mesmo.
Nota 3. Transcrevemos a estância toda, pois Dalila abreviara-a pela exiguidade do livro, não passando os quatro versos iniciais, também importantes e sgnificativos, tanto mais que Fernando Pessoa sempre valorizou a intuição e admitiu a frequente ignorância do artista ou escritor das implicações e correspondências do que criou. Neste caso, porque mostra o efeito espiritual da ascensão em vida e morte de Vasco da Gama no firmamento subtil dos deuses e dos mundos em luta, que param e silenciam, entram na Pax in excelsis, enquanto na Terra o simples pastor deixa de soprar a flauta de Pan e do seu verbo e entra em visão extática do Céu acolher Vasco da Gama em corpo de luz de Glória, como a dos trovões. Muito mais se poderia hermeneutizar, pois Fernando Pessoa, na linha de Antro de Quental e de Joaquim de Araújo, reconheceu que morrer é ser iniciado. E deu essa segunda iniciação a Vasco Gama (antepassado de tantos portugueses), complementando a primeira que lhe reconhecera Luís de Camões, e assim se posicionou como o super-Camões, que desde jovem, na mística revista A Águia, da Renascença Portuguesa, declarara querer ser ou ser. No próximo artigo concluiremos estas aproximações ou entradas nos tesouros orientais d'Os Lusíadas, sob a égide dos mestres da imortal civilização iraniana e da tradição espiritual portuguesa, e em especial Luís de Camões e Dalila Pereira da Costa, que saudamos luminosamente com gratidão, admiração e amor!
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