terça-feira, 1 de setembro de 2026

Efemérides do Encontro do Oriente e Ocidente, da primeira semana de Setembro, para nossa inspiração ou comunhão.

 1-IX. Desce à Terra, segundo a tradição inconfirmável aventada pelo historiador Dhirendra Nath Pal, Sri Krishna, para os Vaishnavas a oitava incarnação de Deus (Vishnu), em Mathura, em 1603 a.C. Ao ser atribuída a virgindade a sua mãe abre de certo modo ou pioneiriza os fundamentos para outras imaculadas concepções, tais como as de Gautama, o Buddha e Jesus, o Cristo. O seu ensinamento principal é dado ao príncipe Arjuna em dezoito cantos do poema Bhagavad Gita, Canto do Bem Amado, o qual foi enriquecido ao longo dos séculos por milhares de comentários valiosos, já que os seus ensinamentos de ética, das vias da Yoga e acerca do ser humano, natureza  e Divindade são bastante belos e elevados. As orações curtas ou jaculatórias (mantras), mais famosas dedicadas a Krishna e sua mulher Radha (avatarização ou manifestação da deusa Lakshmi) são: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare; Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. A mais interna é Om Sri Vishnu Narayana, ou apenas Om Narayana, e todas são cantadas e utilizadas pelos seus devotos denominados Vaishnavas os quais, por desenvolverem bastante a união ou Yoga devocional, Bhakti, são chamados bhaktas. Nas minhas peregrinações pela Índia participei com intensidade espiritual (mumuksha) em algumas dessas exaltações no e ao Amor divino, nomeadamente em locais (com seus templos e ashrams) da tradição Vaishanava, tal o mais carregado da sua presença, Brindaban, donde Krishna teria partido para o mítico e paradisíaco Vaikunta e seu oceano de Amor, numa pioneira ascensão aos céus.

                                      


 Chega a Lisboa, em 1503, da sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama, transportando nas treze naus muita riqueza. Do primeiro ouro trazido de Quíloa mandou lavrar D. Manuel ao genial Gil Vicente um vaso consagrado a Deus, e eis a Custódia de Belém, bela imagem do arquétipo santo Graal, com a ave ou sopro do Espírito Santo perpassando nos doze apóstolos, cavaleiros, signos ou sentidos, uma das obras-primas da ourivesaria lusa, hoje um ícones do Museu Nacional de Arte Antiga.
                                            
António Tenreiro em 1523 parte neste dia de Ormuz, na embaixada enviada ao Châh Esmâ'il da Pérsia. De lá seguirá para o Egipto das pirâmides e Alexandria mas, não conseguindo barco, voltou a Ormuz e Goa. O historiador Gaspar Correia caracteriza-o: «Sabia muitas falas e fora com Baltazar Pessoa ao Xeque Ismael e tinha grande entendimento dos costumes dos mouros e orações, com que se atrevia andar entre eles e era esforçado de espírito», bela definição do arquétipo dos melhores viajantes portugueses, ecuménicos, dialogantes, fiéis ou cavaleiros do Amor, pioneiros da Religião Universal do Espírito e do Amor. Em fim de Setembro de 1528 partiu de novo, a pedido de Cristóvão Mendonça, capitão de Ormuz, para saber o que acontecia com as tropas rumes (turcas) e informar o rei de Portugal, e assim atravessa os desertos arábicos, primeiro só com um guia, depois numa cáfila, cruzando muitas aldeias de muçulmanos e cristãos nestorianos, jacobitas e caldeus. Passou junto do monte Ararat na Turquia onde lhe mostraram no cimo os restos da arca de Noé mas, apesar de instado a descortiná-la, e bem porfiando, só enxergava neve, pelo que se desculpou de ver mal. «Natural de Coimbra, homem nobre», como diz o historiador Diogo Couto, chegado a Lisboa após uma viagem rápida e perigosa de três meses foi bem acolhido pelo rei, recebendo uma tença e o hábito da Ordem de Cristo, mas um dia ao sair da casa do antigo governador na Índia Diogo Lopes Sequeira levou umas estocadas de desconhecidos, a mando do filho de Diogo de Melo, que lhe iam custando a vida. Deixou o seu interessante Itinerário, uma obra prima da nossa literatura de Viagens, da época dos Descobrimentos.
                                    
                                     
Nasce neste dia 1 em Calcutá em 1896 Swami Bhaktivedanta Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, movimento devocional ou do desenvolvimento do Amor Divino muito conhecido das capitais europeias pelas suas danças ao som repetido do mantra Hare Krishna, Hare Rama e pelo seu ênfase numa vida natural e não-violenta, dedicada a Deus na manifestação ou avatarização de Krishna e da sua consorte Radha. Gerou, até 1977, uma vasta literatura de espiritualidade indiana e da via do Amor, a Bhakti Yoga, destacando-se os seus comentários à Bhagavad Gita e aos Bhakti Sutra de Narada, os quais tenciono também proximamente editar uma co-tradução com Satchitananda Dhar, comentada por mim, assim contribuindo para um aumento de Prem bhakti, do amor a formas pessoais de Deus, a partir da tradição imemorial indiana, hoje ainda viva...
                          
Nasce Armando Martins Janeira neste dia em 1914, em Felgueiras, Bragança, e foi provavelmente o primeiro português a subir ao sagrado monte Fuji (o que eu também realizei, bem arduamente.) Formado em Direito, foi cônsul e  embaixador em alguns países e em especial no Japão, onde viveu dez anos, sendo autor de valiosa obra comparativista e orientalista, e um grande conhecedor e amante da tradição e alma japonesa, e em especial de Wenceslau de Moraes, sobre o qual escreveu, entre vários artigos, opúsculos, livros, uma Antologia, e um magnífico e original livro, o Peregrino, em papel de arroz e personalizado com um postal original escrito por Wenceslau de Moraes, uma típica toalhinha japonesa, uma estampa original do séc. XIX, e publicidade da época de Tokushima, onde Wenceslau vivera os últimos anos. O seu mais extenso e melhor livro biográfico sobre Wenceslau, de 1954, é o Jardim do Encanto Perdido. Aventura Maravilhosa de Wenceslau de Moraes no Japão. Mas o que descreve mais pessoalmente o Japão que conheceu e amou é de 1956, o Caminhos da Terra Florida. A gente, a paisagem, a arte japonesa. Já nas Figuras de Silêncio, de 1981, a sua obra mais  consagradas à história das relações luso-nipónicas, e em particular às principais individualidades portuguesas de tal encontro e aventura, escreve: «O maior problema de Portugal, desde há, pelo menos, um século e meio, tem sido combinar o passado com o presente, isto é, distinguir no passado o que é vivo do que é morto, para incorporar no presente os valores ainda vivos, com força e ricos de conteúdo (...) Deve-se acentuar que em Portugal não existe em lugar público memória alguma de qualquer grande vulto japonês. Já sugeri, para um dos nossos jardins públicos, o busto de Bashô, o maior poeta nipónico. Esperemos que a ideia vá por diante, para assim retribuirmos o carinho japonês às nossas Figuras, e como meio de manter vivo por estas o interesse dos japoneses». Este desejo continua virtual... O centenário do seu nascimento foi há poucos anos comemorado pela Câmara Municipal de Cascais e pela sua mulher Ingrid Bloser Martins, a qual tem mantido a sua memória e obra, em sucessivas mostras e ciclos de conferências. Uma parte  significativa do espólio foi doado por ela, a preparar traduções e edições de inéditos, à Biblioteca da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo. As suas mais de vinte obras contém muita sabedoria e clamam por leitores e comentadores. Para sair à luz neste blogue, escrevi na véspera dos 107 anos do seu nascimento um texto biográfico e bibliográfico que poderá ler...
                                    
Fundado neste dia em 1919, em Pangim, o jornal Diário da Noite passará a ser dirigido em 1950 por António de Meneses, nascido em 1915, um Fiel do Amor da cultura Portuguesa,
mantendo por diversos modos essa chama bruxuleante em Goa, sem nunca ter contudo vindo à terra original lusa. Convivi com ele em sua casa no bairro das Fontainhas em duas das peregrinações na Índia e senti bem a sua alma, tão luminosa quanto a desta «Princesa jovem e bela, sorridente e feliz. Princesa de sonho e de lenda... chama-se Maria Teresa de Bourbon e Parma» e que viera orar, emocionar-se e chorar diante das relíquias de S. Francisco Xavier em velha Goa.
 
2-IX. Diogo Botelho, experimentado piloto mas ambicioso de ser capitão de fortaleza, parte numa fusta com uns poucos de homens de Dabul rumo a Lisboa, em 1535, para dar a boa nova ao rei D. João III do início da construção da fortaleza de Diu, há muito desejada, e para lhe provar o seu valor. Toda a construção do baixel de cinco metros e meio de comprimento e a preparação da viagem foi feita à revelia das autoridades, fingindo Diogo Botelho que ia levar soldados para Diu e depois daí para uma praça perto. Quando se viu com os planos tirados in loco nas mãos, lançou-se a navegar, com uma cota de armas debaixo da camisa para o que desse e viesse da tripulação talvez furiosa com as perspectivas da travessia sempre perigosa de tantos mares em embarcação tão frágil. Com a ajuda de mais dois mareantes, com umas espadeiradas aqui e umas doenças acolá, a viagem épica fez-se e em Maio de 1536 Lisboa via chegar admirada a pequena fusta do ousado Diogo Botelho, que mesmo assim não conseguiu que o rei lhe atribuísse a capitania rendosa duma fortaleza a que se julgava com capacidade e direito, e que só no fim da vida, inchado de tanta água com que se envolvera, é que receberá. O ilustre historiador Quirino da Fonseca, na sua bela obra Viagens Maravilhosas, de 1935, consagrará o 1º capítulo a Diogo Botelho e à sua fusta, mas não se esquecerá do mestre Afonso cirurgião, de Francisco Rodrigues, João Baptista e do corajoso explorador do Tibete, padre Bento de Góis.
                                          
3-IX. Vicente de Santo António, natural de Faro,  que, como disse numa carta, "se criara e vivera em Lisboa nas delícias e ociosidades dela"  mas que "por tão vários caminhos e inopinados rodeios o Senhor guiou a sua alma", chamando-o a religioso e, como era bem dotado intelectual e artisticamente, decide 
embarcar para o México e depois as Filipinas, onde professa na Ordem dos Recolectos de Santo Agostinho, partindo em seguida para missionar no Japão, desembarcando em Cochi em 1623, na província de Kagoshima, donde depois de muitos trabalhos, viagens, disfarces e perigos na partilha do Cristianismo, então já estigmatizado,  é preso, torturado e por fim queimado vivo, em Nagasaki, neste dia 3, de 1632, vindo a ser beatificado por Pio IX em 7 de Julho de 1867. Em 3 de Setembro de 1965, em Albufeira, Algarve, houve grande Festa e cortejo alegórico do Beato Vicente de Santo António, no dia da Bênção da sua primeira imagem, título aliás do livro que o Pároco de Albufeira, Padre José M. Semedo Azevedo, publicou  muito bem ilustrado. Na altura, o edil de Nagasaki, Yoshitake Moroya, associou-se e lamentou o sucedido, garantindo que a memória do beato viverá eternamente no coração de Nagasaki, terra que, bem ou mal, teve a ventura de ser a sua derradeira morada," o sangue derramado ficará embebido em terra de Nagasaki, onde se erguerá a árvore da paz  e da amizade luso-nipónica, cada vez mais crescida e frondosa. Ao morrer, depois de dois anos de cativeiro, o Beato Vicente terá, se é vero, exclamado para os seus companheiros de martírio: "Viva a Fé de Jesus Cristo! Ânimo, soldados valerosos! Ânimo, cavaleiros de Cristo! Viva a sua Santa Fé," expressões invulgares ao invocarem não a fé em Jesus, mas a fé santa ou santificadora de Jesus, e esta tanto quando a manifestara na Palestina (hoje em dia tão assassinada e em genocídio), como perenemente sente, tem, conhece. O que sentiu diante das cerimónias budistas e shintoístas a que assistiu, não sabemos...
Pagela ou santinho do Beato Vicente.
O Arcebispo D. Francisco Garcia, natural de Alter do Chão, e que andou 50 anos na Índia a persuadir hindus e cristãos de S. Tomé dos princípios e doutrinas da Igreja de Roma, para o que estava bem dotado pois sabia grego, hebraico, caldaico, siríaco, canarim, sânscrito e indostânico, já com 18 anos como arcebispo da Serra, entra pelo túnel estreito e simplificador da morte neste dia em 1659. O Homem das 33 Perfeições, editado em Lisboa em 1958 pelo notável jesuíta José Wicki, é a obra que lhe sobreviveu, tecida de contos indianos por ele traduzidos e com pequenas máximas suas. Uma nota biográfica pelo P. Jacinto de Magistris, de 1660, lembra que «cada dia dizia a missa porque, dizia ele, nem queria que as almas do purgatório se queixassem dele (...) Além da missa que dizia, ouvia outra de joelhos, visitando entre dia a sua capelinha. Sendo prelado conservou sempre o exercício da vida religiosa em se alevantar pela manhã cedo, em fazer sua oração mental, exames, ler a lição espiritual e outros exercícios religiosos.» Bons exemplos da aspiração e zelo de fazer o bem e de maior ligação a Deus...
Nasce em Damão, na Índia portuguesa, António Sérgio, neste dia em 1883. Livre-pensador, pedagogo e democrata, com vasta obra de pensador e escritor, foi preso e exilado pelo regime de Salazar, mas mesmo assim a sua obra era lida, discutida e sentida como uma luz na obscuridade política. Foi um grande propugnador dos princípios do cooperativismo em Portugal. O movimento da Seara Nova e a sua revista, onde funcionava justificadamente uma secção Oriental, na qual colaboraram alguns dos nossos indianistas (Adeodato Barreto, Tello Mascarenhas), devem-lhe muito, e as suas tertúlias literárias eram fecundas. Os seus estudos de história e os vários volumes dos Ensaios foram contributos importantes para equilibrar a mitificação exagerada na história de Portugal, embora por vezes sofrendo dum excessivo pendor racionalista-positivista, como aconteceu, por exemplo, nas polémicas acerca do Sebastianismo e do Messianismo, ou sobre Leonardo Coimbra, que no entanto bem exigiam um maior rigor metodológico como ele propugnava. Os seus comentários tecidos à História Trágico-Marítima são dedicados «À memória do Infante D. Pedro, de D. Francisco de Almeida, de D. João de Castro, de Diogo de Couto, de Luís Mendes de Vasconcelos, contrários à ideia de fazer conquistas, de multiplicar fortalezas».
                                       
Sadhu Sundara Sing, um Sikh, nasce em 1889, em Patiala. Recebe na sua demanda o apelo de Jesus, converte-se ao anglicanismo e manifesta a sua poderosa e original ligação a Cristo, missionando por fora da Índia, até desaparecer nos Himalaias numa das suas idas ao Tibete. Dirá: «A terra acumula o calor do sol, e este brota quando batemos uma pedra contra outra. Igualmente, os pensadores cristãos receberam a luz do sol da justiça, e os hindus tem a sua parte no Espírito Santo. Há coisas magníficas no hinduísmo, mas a luz perfeita vem do Cristo. De igual modo, todo o homem, quer seja cristão ou não, vive do Espírito Santo, mesmo se lhe é dado um outro nome. O Espírito Santo não está reservado para um só povo... Nós podemos absorver o Espírito Santo pela oração... Os místicos muçulmanos e hindus cometeram o erro de se querer aniquilar no Espírito universal, como um rio que se deita num oceano. O ideal consiste em viver no Espírito e não em se perder nele». Todavia esta última asserção não se aplica a muitos dos místicos, pois muitos sentiram e afirmaram a imortalidade do espírito humano e a sua capacidade de religação  ou mesmo união com a Divindade...

4-IX. O P. Francisco Xavier recebeu em Goa (1548) o P. Baltazar Gago e apreciando a sua coragem "crística", unitiva, enviou-o para o reino do Bungo (Oita) no Japão (em 1552), onde se notabilizou ao conseguir tornar-se amigo do dáimio, ao evitar que as mães pobres matassem as filhas, ao criar um hospital para leprosos e pobres, ao convencer, depois de longas e repetidas práticas e interrogações dois mestres budistas, que baptizados passam a ser Paulo e de Barnabé, duma melhor lei religiosa do Criador do Mundo, e ao converter uns milhares de japoneses durante muitos anos. Aos 68 anos, o corpo já cansado dos esforços físicos e tensões que custava a vida num país de samurais sempre em guerra e das discussões religiosas, despede-se deste mundo de tão controversas opiniões, já em Goa, neste dia 4, em 1583.
 A 4-IX-, de 1812, em Inglaterra, John Brande Morris, que se destacará como um conhecedor de línguas do Médio Oriente e um apaixonado pelo Cristianismo literal e asceticamente radical, tendo após alguns anos passado do anglicanismo para o catolicismo, onde exerceu as suas funções discretamente até partir desta terra em 1880. Além de  traduções de S. Efrém e de S. João Crisóstemo escreveu uma obra que espelha a sua audácia evangélica: Ensaio para a conversão dos Hindus cultos e filosóficos, em 1843, e que foi premiada pelo Arcebispo de Calcutá, e traduzida até em francês, surgindo em 1849, no tomo XVIII, das Demonstrations Evangeliques. A obra (online no original) demonstra contudo um razoável conhecimento da religião e filosofia indiana, o que não deve ser alheio ao notável sanscritólogo Horace Hayman Wilson (1786-1860), a quem Brande Norris agradece inicialmente, patenteando ainda uma boa capacidade de diálogo maiêutico, estabelecido entre os dois interlocutores, um cristão e um hindu, no qual tenta demonstrar que os Vedas tem uma origem humana, ou então provêm de alguma revelação angélica e que tudo tem de passar pelos sentidos. Crê contudo que tudo o que Moisés disse é infalivelmente verdadeiro, e que houve uma tradição primordial que depois de Noé ficou bastante fendida, embora tanto a tradição grega, pitagórica e platónica como a indiana a reflictam em bastantes aspectos, tentando prová-lo com semelhanças entre a lei mosaica e as leis de Manu, e com várias citações dos primeiros padres da Igreja gregos e latinos. Termina apelando a que, além do incenso material, a Índia possa oferecer o espiritual, e que deixe de adorar o homem mas só o verdadeiro Deus. Este último reparo tem sempre actualidade, já que o culto dos gurus ou pujaris na Índia dos nossos dias é frequentemente exagerado, como podemos comprovar em tantos pequenos vídeos que circulam nas redes sociais.

5-IX. Baptismo de três príncipes mogóis, órfãos, entregues pelo imperador Jahanguir aos missionários jesuítas, em 1610, em Agra, Índia, com grandes cerimónias. O capitão-de-mar inglês Hakwins (1º embaixador de Inglaterra enviado à Índia entre 1609 e 1611, antes de Thomas Roe), apesar de inimigo dos jesuítas, pois era anglicano, resolve participar «para honrar a nação inglesa» levando a cavalo a bandeira de S. Jorge. Em vão esperarão contudo os jesuítas que o imperador Jahangir, filho do universalista Akbar e da princesa indiana rajput cognominada de Mariam-uz-Zamani, de grande beleza, sabedoria e compaixão (na imagem a dar à luz Jahangir) passasse da tolerância e abertura parcial ao cristianismo a uma conversão plena.
                                             


Chega na nau Capitânia à Índia, neste dia 5 em 1673, depois duma viagem áspera na qual muitos dos vinte e sete missionários jesuítas pereceram, o jovem missionário lisboeta, filho de um nobre importante, o 20º governador da capitania do Rio de Janeiro,  e que se tornará, após uma vida abnegada e dura, São João de Brito. Em Goa, João de Brito prossegue o seu noviciado, conclui o exame final de Teologia, adopta o regime vegetariano típico dos brâmanes e yogis e parte corajoso e entusiasta em 1674. para os trabalhos dos missionários na Missão de Madurai. De Setembro de 1688 a Abril de 1690 esteve em Portugal, mas não o conseguiram reter no seu imenso amor à Índia, aos Indianos e certamente à Religião e à Divindade, regressando para receber a palma do martírio em 1693, certamente um dos santos portugueses que realmente mais o foram...
                           
Nasce neste dia 5-IX-1888 o pensador, filósofo e professor Sarveppali Radhakrishnam, que deixará vasta obra de comparativismo religioso e filosófico valorizador da tradição espiritual indiana, tendo-se dado com alguns mestres, nomeadamente o gurudeo Ranade, tal como ficou gravado num filme dos anos 50, agora online. Afirmará ainda antes de ser Presidente da República da Índia, de 1962 a 1967: «Nem o Leste nem o Oeste político receberam a missão de fazer a educação da humanidade. Nós os pensadores, que estamos acima dessa embrulhada, temos o dever, quando todas as pontes estão cortadas, de servir de pontes não só entre o Leste e o Oeste, mas entre as verdades parciais e complementares que cobrem as filosofias opostas... O real é a essência da alma. O objectivo do ser humano é a união com esta realidade, o que será obra não só da razão, mas de toda a personalidade. Devemos abraçar o real não só pelo pensamento, mas de todo o nosso ser. Não se trata de ter ideias, mas de transformar o seu eu e de renovar o seu ser. Pela contemplação, transformamos o homem todo inteiro e assimilamo-lo à natureza do objecto», ou ser espiritual.
                            
Madre Teresa de Calcutá, ao fim duma vida dedicada a servir os
mais fracos e desprotegidos com resultados valiosos, neste dia em 1997, deixa a vestimenta azul e branca das Missionárias da Caridade que cobria o seu pequeno mas valoroso corpo e parte para os outros mundos como alma luminosa e brevemente santificável pela heroicidade com que manifestou as virtudes cristãs perante situações tão adversas e lastimáveis. A grande Índia soube prestar-lhe um funeral de Estado, dando mais uma vez mostras do seu ecumenismo milenário e do seu culto dos mahatmas, as grandes almas, neste caso em amor, compaixão e serviço, e embora não tanto em realização mística mesmo assim confessou-me, quando estive com ela em Calcuta em 1995, que se não fosse a hora de meditação-contemplação matinal praticada não teria forças para aguentar o dia inteiro.

6-IX. Chegam ao porto de S. Lucar na Espanha, ao fim de três anos da árdua 1ª viagem de circum-navegação, em 1522, Sebastian del Cano e 18 tripulantes no navio Vitória, entre os quais está o marinheiro português Francisco Rodrigues e o cosmógrafo humanista italiano António Pigafetta, este o que desenha e descreve a viagem. Pelo caminho desta odisseia tremenda ficaram dezenas de homens, como os destemidos cientistas e sábios capitães Fernão de Magalhães ("conhecia o mar como as suas mãos") e Duarte Pacheco e o contramestre Leone Pancaldo.
                                           
Nasce em 1618, Sant Prannath, em Jamnagar, no Gujarate, Índia. Sendo discípulo de Devchandra Ji Mahraj, o fundador da Pranami ou Nijanand Sampradaya, foi enviado para a Pérsia e países islâmicos, onde conviveu durante cinco anos com muitos mestres e teólogos, compreendendo os pontos de afinidade ou mesmo unidade entre Hinduísmo e Islão. Tornou-se o 2º guru da fraternidade Nijanand, ou Prannath, em 1655 quando o seu mestre o apontou como o seu sucessor. Estudou e praticou a espiritualidade que une as diferentes confissões e crenças e dotado de grande aura espiritual iluminou muitos seres no caminho, nomeadamente na costa ocidental da Índia, tendo contactos com os portugueses e os cristãos em Diu. Em 1668 esteve de novo por quatro anos nas terras e povos do Golfo Pérsico e depois estabilizou com algumas centenas de discípulos na zona de Surate. Perante a política cada vez mais opressiva do fanático imperador Aurangzeb, resolveu transmitir-lhe a mensagem do amor e da unidade das religiões e após 16 meses em Delhi não conseguiu mais que ele se admirasse por haver hindus com tantos conhecimentos do Islão, mas não o recebendo pessoalmente. Não deixou porém até ao fim da sua vida de opor-se ao extremismo e fundamentalismo de Aurangzeb, juntando-se a regentes indianos que lutavam contra ele. Podemos considerá-lo, com Dara Shikoh, um dos pioneiros da Unidade das Religiões através de estudos comparativos linguísticos, filosóficos e místicos ou iniciáticos. As suas obras, tais como Raas e Prakash estão cheias de Bhakti e de Mumuksha, isto é, de amor a Deus e aspiração de iluminação e libertação. Quando se reuniam em Pana os membros do grupo que liderava, também denominado Pranami, não tinham rituais nem diferenças de castas e religiões, liam-se textos do Corão e do Bhagavata Purana e meditavam na Divindade Suprema e no Amor Divino que nos faz ultrapassar as diferenças e separatismos. Algo incompreendido pelo comum islâmico ou hindu, teve a coragem de afirmar sempre a Divindade una e como chegara o tempo de tal Unidade destacar-se da pluralidade religiosa. Mais pioneira corajosa e forte a sua afirmação, bem digna da nossa meditação assimilativa, que o satguru, o verdadeiro mestre, era quem abraçava todas as religiões. Todavia privilegiavam Krishna ou mesmo Adi ou o primordial Narayana, Adinarayana, do qual podemos ouvir uma utilização mântrica actual valiosa em https://www.youtube.com/watch?v=aYZWvbqaq3k . Via o caminho devoto, piedoso ou espiritual tendo como base o amarem-se todos os seres e considerar-se a Divindade como a protectora comum deles. O livro sagrado, emanado dos lábios de Shri Prannathji e recolhido pelos seus discípulos,  intitula-se Kuljam Swaroop, e além de valorizar muito o Amor de Deus e o Amor a Deus, descreve o mundo divino e o que nele há de Lila, jogo de Amor, de Deus com os seus devotos.
  Rui Freire de Andrade, que fora governador de Damão e Chaul, general do mar de Ormuz, costa da Pérsia e da Arábia, vencedor de muitas batalhas, tanto em terra com em mar, «homem capacíssimo por valor, por destreza», ainda que por vezes rigoroso em excesso, um dos defeitos de grandes lutadores e governadores de então, morre em Goa neste dia em 1636. Na época, ele, Nuno Álvares Botelho e António Teles de Meneses distinguiram-se como capitães da armada ao superarem a superioridade numérica dos holandeses e ingleses pela sua perícia, coragem e dedicação. O seu estoicismo era inteiro, como nos conta o historiador da Ásia Portuguesa Manuel Faria e Sousa: numa luta «mandando dar Santiago em copiosos inimigos, respondeu o capitão Vilano que não tinha gente. Passado adiante, voltou a ordenar que dessem Santiago e nessa ocasião lhe penetrou uma bala pela barriga», mas dizia «não é nada, estou são».
                                                
Nasce Helmuth von Glasenapp neste dia em 1891 em Berlim. Orientalista com vastíssima obra publicada até 1963, quando desencarna, foi professor de Civilização Indiana e História Comparada das Religiões em quatro universidades, aprofundando sobretudo o Hinduísmo, o Jainismo e o Budismo, dirá: «A educação é necessária para fazer duma criança submetida a impulsões variadas e contraditórias, um adulto obedecendo às leis de moral... Mas tal faz-se num desenvolvimento progressivo, ao longo de toda a vida, para ela se realizar plena e verdadeiramente. De igual modo a realização espiritual faz-se por graus de disciplina e concentração interior até que a harmonia da alma com o divino se estabeleça».

7-IX. Narra na sua Quarta das Décadas da Ásia o historiador João de Barros que no ano de 1524 havia uma conjunção de todos os planetas na casa de Peixes o que, segundo muitos astrólogos da Europa, prognosticava dilúvio geral ou de muita parte da terra. Sucedendo então neste dia 7 um maremoto na terceira viagem de Vasco da Gama, o almirante vendo os marinheiros atemorizados, berrou: «Amigos, prazer e alegria, o mar treme de nós, não hajais medo, que isto é tremor de terra». Alguns, receavam já não encontrar costa onde desembarcar, mas a voz da Razão, calma e amorosa, do notável comandante Vasco da Gama prevaleceu. Fernando Pessoa na sua Mensagem, poema ritual celebrador e invocador das grandes almas de Portugal, ergueu-o como mítico Argonauta numa ascensão impressionante. Mais recentemente Dalila Pereira da Costa, em 1990, dedicou a aventura e iniciação de Vasco da Gama e seus companheiros um valioso livro, que temos comentado no blogue, As Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, onde destaca as pré-helénicas, as celtas, as iranianas e Vicena, e as do Fiéis do Amor e Dante.
Na margem do rio Ypiranga D. Pedro (como retrata o quadro de Pedro Américo, já de 1888) lança o brado da Independência do Brasil em 1822. Nascera o milagre duma nova nação, verdadeira síntese de terras, povos, almas e civilizações tão diferentes mas irmanadas daí em diante numa fusão notável, riquíssima de potenciais, muitas já realizadas mas ainda com assimetrias de níveis de vida e rendimentos exageradas. É o Dia da Independência do Brasil.
                                    

                                           
Nasce em Dhamrai, Bengala oriental, hoje Bangla Desh, neste dia 7-IX-1887, Gopinath Kaviraj, um dos melhores intérpretes da sabedoria indiana, nomeadamente shivaísta e advaitica, e que a realizará profundamente. Professor de Filosofia, considera-a apenas como «um degrau para a mais elevada fonte de verdadeiro conhecimento que é a revelação, pois o intelecto só pode remover dúvidas e perversões a fim de tornar a mente pronta a receber a Verdade», que é Uma e está para além de todas as formulações, sendo este mundo relativo o campo de acção do Absoluto. O seu mestre impulsionador no caminho foi um famoso yogui, Vishuddhananda Paramahansa (1853-1937), conhecido pelos poderes psíquicos que possuía e que teve o seu ashram num Tibete então maravilhosamente livre para a circulação dos yoguis das diferentes tradições; depois esteve em Benares ou Varanasi, como Paramahamsa Yoganananda narra na sua sempre recomendada Autobiografia de um Yogi. Na sua vida Gopinath Kaviraj foi sobretudo um scholar, um investigador e, apenas secundariamente,  bibliotecário, reitor, professor. E como cedo se aposentou do funcionalismo do Estado tornou-se um yogui profundo e deixou uma vasta obra publicada onde perpassa tanto o seu grande saber de sânscrito e de filosofia indiana como o amor devocional, bhakti prema. Para ele a Cultura era a Philosophia Perenis, uma Tradição espiritual ininterrupta embora dividida em sectores ou subcampos. Outro investigador e yogui muito semelhante na grande qualidade a ele foi gurudev Ranade (18-I-1842 a 16-I-1901).