Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, 1990, realizou uma hermenêutica valiosa de Camões e d'Os Lusíadas e do ser e missão Portugal, investigando com sensibilidade e originalidade as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas (nestas em especial a influência do mestre persa Avicena), demonstrando em sucessivos capítulos do seu livro ser a epopeia camoniana uma obra gnóstica e iniciática . Já lhe dedicamos três artigos e partilhamos neste último alguns dos parágrafos mais valiosos, dado que é obra esgotada e rara, e de uma querida amiga já nos mundos espirituais...
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domingo, 16 de agosto de 2026
A visão do lume clarissimo, revelado pela Ninfa Angélica a Vasco da Gama, após a sua ascensão: o "Segue-me firme e forte, com prudência", como mantra da iniciação heróica de Vasco da Gama
As influências do culto da Deusa Mãe, e sobretudo da tradição celta e irlandesa nas suas narrativas de viagens em busca das ilhas afortunadas e imortais são factos históricos, pelo menos nas traduções e adaptações que os monges de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra realizaram ou conheceram. Já os relatos visionários do médico e filosofo persa Avicena não o são tanto. Contudo Dalila assumirá a influência persa nem que seja pelo avicenismo da época e a similitude das descrições contidas nele com as de Dante e a Divina Comédia, Camões e os Lusíadas, citando até outro grande mestre iraniano Shorawardi e assim escreve com a sua sensibilidade, estilo e hermenêutica tão numinosa:
«Na chegada dos nautas à Ilhas, logo à primeira vista, «três fermosos outeiros se mostravam,/ erguidos com soberba graciosa», canto IX, 53. No Relato do Pássaro, de Avicena, são nove os cumes da montanha cósmica, e no relato de Shorawardi, são onze, também como graus iniciáticos a vencer; aqui, no relato de Camões, estão resumidos a três, neles se dando sucessivos momentos duma única iniciação; como lugar privilegiado, nessa montanha, centro do mundo. Sempre concedidos por Tétis, a ninfa «enchendo a terra e o mar de maravilha» ao capitão, em gesto de pedagoga sagrada, mistagoga:«Tomando-o pela mão o leva e o guia,/ pera o cume de monte alto e divino,/ No qual uma rica fábrica se erguia/ De cristal toda e de ouro puro e fino/ A maior parte aqui passam o dia/ Em doces jogos e em prazer contínuo;/ Ela nos paços logra seus amores,/ As outras pelas sombras, entre flores», canto IX, 87.
União a que se seguirá o ágape, como confirmação de comunhão sagrada, celebrada em «abundantes mesas de altos manjares excelentes sentam dois a dois, amante e dama (...) Outras, à cabeceira, de ouro fino,/ Esta com a bela Deusa o clara Gama». Canto X. 23. Este será o primeiro grau de iniciação, pelos dons do paraíso terreal no seu gozo; simbolizando os Pequenos Mistérios. No seguinte monte se dará o outro grau de iniciação, como transcensão da terra e visão do mundo celeste nas suas esferas e signos astrais; conhecimento beatífico e escatológico, desde já e agora concedido neste êxtase, como gozo ante-mortem aos navegantes lusíadas; simbolizando os Grandes Mistérios, nos dons do paraíso celeste [ e mais do que isso a comunhão com a Unidade ou a Divindade.]
De notar que esta iniciação suprema, se fará aqui para Vasco da Gama, tal como para Dante na Divina Comédia e no relato de Avicena, numa mesma visão e vivência cosmológica, através das esferas celestes até ao ponto de passagem entre o mundo físico e mundo transfísico; no empíreo, pura transcendência. Assim revelará a Ninfa ao Capitão, que veio «Pera lhe descobrio da unida Esfera/Da terra imensa e mar não navegado/ Os segredos, por alta profecia,/ O que esta Nação só mereceria» canto IX, 86. Havendo aqui assim uma especial eleição de Portugal, através do capitão e herói Vasco da Gama.
E ainda, tal como para Dante e Avicena, para este supremo conhecimento, urgiu perfazer uma derradeira ascese, largar de todo, os resíduos humanos, como Mal aderente aos er, pecados que impediam, tal espelho embaciado, a perfeita reflexão da verdade de Deus. No poeta italiano, ela se fez pela penosa travessia dos círculos do Inferno, subida ao monte do Purgatório, até à chegada ao paraíso; aqui na epopeia de Camões, pela passagem através desse outro Abyssum antropocósmico, o Mar Tenebroso, o «Profundo», como prova já vencida do Inferno; e depois ainda, o Purgatório podendo aqui ser visto como esta outra subida ao monte sob a conduta do seu guia angélico, Tétis: « Segue-me firme e forte, com prudência,/ Por este monte espesso, tu cos demais»/ Assim lhes diz, e o guia por um mato/ árduo, difícil, duro a humano trato», canto X, 76.
Para Dante, esta subida como via purgativa, se fará com a constante intervenção do Anjo e sob a conduta sucessiva de Virgílio, Matilde e Beatriz: nessa montanha elevando-se numa ilha do oceano astral; se subida que pedirá essa total transformação do peregrino, purgação, como progressiva aquisição da liberdade [interior, em relação a apegos e receios]. A mesma experiência existencial, e simbolizada igualmente por uma subida, se expressará neste monte da ilha de Os Lusíadas. O símbolo, é o universal; através dele se unirão os relatos de Camões, Dante e Avicena: pela sabedoria árabe [melhor, persa e islâmica] na sua feição esotérica.»
Comparando a passagem de Dante pelo Purgatório, " Cantarei este segundo reino onde a alma humana se purifica e torna digna de subir ao céu", Dalila prossegue com as analogias em Camões: «Tal como no Purgatório [de Dante], este episódio passado na Ilha de Vénus, tem o caracter da fase iluminativa dum processo místico [ou melhor, iniciático], onde se dão as visões imaginativas [ou dos planos subtis psíquicos ou por vezes já arquétipos ou fundacionais]; preferentemente, pela sua cor e brilho, comparadas às pedras preciosas, como já aqui se notou: tal esse campo esmaltado de esmeraldas e rubis, descrito por Dante e por Camões como o "doce colorido de safira oriental". Até a esse dom supremo concedido pela Ninfa, na visão do globo suspenso no ar «que o lume/ Claríssimo por ele penetrava (...) Uniforme, perfeito, em si sustido,/ Qual enfim o Arquétipo que o criou.» [Uma excelente descrição do Cosmos primordial iluminado pelo lume claro do Logos, boa para se meditar.]
Que o ensino desta visão será de essência escatológica e cosmológica, tal o da Divina Comédia, aqui na epopeia camoniana a Ninfa o declarará:« O trasunto, reduzido/ Em pequeno volume, aqui te dou/ Do mundo aos olhos teus, para que vejas/ Por onde vás e irás e o que desejas», canto X. 87,89. Como contemplação prévia dum futuro percurso a fazer pela alma na sua ascensão post-mortem aos céus. O que por Dante, é contemplado in corpore, ainda em vida e na companhia de Beatriz, sua dama angélica e S. Bernardo em êxtase místico, Vasco da Gama o contempla aqui nesse erguido cume, na companhia da sua Ninfa angélica: a máquina do mundo, idêntica aquela apresentada na Divina Comédia e seu empíreo. «Este orbe que primeiro vai cercando/ Os outros mais pequenos quem em si tem,/ Que está com luz tão clara radiando/ Que a vista cega, e a mente vil também»: como limite do mundo profano e começo do mundo transcendente, ele será já a Luz incriada, nunca conhecida na Terra, nem no mais radioso Sol do meio dia, e como tal impossível de suportar aos olhos humanos ainda impuros: como o contemplar da verdade, face de Deus. [Ousada especulação de Dalila sobre os níveis da luz, dos quais na tradição iniciática persa o primordial chamado é nur e-Nûr, Luz da Luz.]
Aqui se dando assim o começo da passagem da via iluminativa à unitiva, tal a declarada por Dante que regressa [ao chegar ao] ao fim do Purgatório: «puro e preparado a subir até às estrelas».
Poderemos assim considerar esta iniciação como a heróica, prémio de uma via levada a cabo, como ofício, onde a potência se igualará assim à virtus. Neste século português de Quinhentos, como aquele por excelência do Herói, a iniciação será aquela que compete a essa figura consagrada, e como tal, aqui a Vasco da Gama [meu antepassado] e seus companheiros navegantes; como detentores duma das mais altas qualificações da alma, a coragem. Aliás, é a específica consagração do herói que ressalta dos relatos da história portuguesa cantados pelo Capitão ou pela Ninfa profética, na sua longa serie nomeada através dos séculos passados ou futuros : fundadores, reis, guerreiros. Mortos ou ainda vivos ou consagrados nesse ofício, à pátria [Como ela está perdida com tão fracos desgovernantes]. Há nesses heróis pela sua virtus, como qualidade especialmente detida e prezada pelo homem e mulher renascentista, algo que os aproximará da santidade: aquela que também nimba Vasco da Gama no cume do alto monte.»
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