Dalila Pereira da Costa no seu livro Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, mostra-nos Vasco da Gama, nos dois últimos cantos d'Os Lusíadas, sob a orientação de Tétis, sua guia e iniciadora feminina, a realizar a sua ascensão espiritual e iluminação cósmica, e finaliza assim o capítulo abordado no artigo anterior: «Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação nele, no seu mais fundo abissal», e em seguida amplifica algo dramática e abissalmente os efeitos desse encontro: «Tal foi também para Camões e esses poetas italianos, o conhecido [fundo abissal] da mulher amada. É uma morte iniciática o que provoca a sua contemplação: poderoso choque que levará o amante a outro nível espiritual da vida: ou o fará morrer. Dirá Dante: «transformar-se-á em nobre coisa ou morrerá» (Vita Nova, 11, 19) (...)
Explicitará, após esta algo dramatizada, a ser tomada à letra, avaliação das consequências possíveis da contemplação da Mulher divina, da Shakti, e da sua revelação iluminante, que: «Na linguagem hermética, esta mulher que tal poder poder tem, é a Nossa Eva Oculta. À sua aparição, o amante fica como morto, "foge, se a morte te aborrece" (recomenda Dante na Vita Nova, XV, 4). O que esta mulher realiza na vida do amante, é de de facto tornar essa força antropocósmica, o amor, de latente a activa: como um seu acordar: daí, o sentido de Vita Nova: morte, a que se segue vida verdadeira, como imortalidade iniciática.»
Dalila Pereira da Costa vê assim no homem a intensificação psico-somática da capacidade de reconhecer-acolher-intuir o Amor como um despertar, ou impulsionar, provocado pela sua amada, guia e iniciadora, abrindo-o à plena energia "antropocósmica, imortalizante".
Na realidade subtil, como alguns sabem, desde Pitágoras e Dante, o Amor foi dito mover todas as esferas, embora poucos as deixemos animarem-se dele (amor) suficientemente para nos libertarmos de tanto condicionamento e apreensão, ignorância e falsas identificações.
Um salto grande será dado, ainda que não plenamente explicado por Dalila, ao abordar ou melhor mencionar em seguida o Rebis, o Andrógino, a unificação das duas polaridades no ser, objectivo alquímico que a maioria das pessoas ignora fora da constatação das qualidades de natureza mais feminina e masculina que possuem: «Poder-se-á ainda notar o carácter hermético desta função da mulher, como união perfeita, entre amante e amada, nos Fiéis do Amor: como realização do andrógino, Rebis, em todo seu valor e natureza transcendental então possuído. [Bem difícil de se abranger e avaliar dentro de cada um e na unidade dos dois feitos um...].
Daí ainda, o alto significado do soneto de Camões já citado: "Transforma-se o amador na coisa amada". Tanto para os Fiéis do Amor, como para os [poetas] provençais, se dará esta realização, da união perfeita [mais, poeticamente ou a certos níveis anímicos] Dante dirá "assim eu sou Ela" e Camões "Olhai-me a mim, que sou feitura vossa". Para o poeta italiano como para o poeta português, este amor provoca uma sujeição do espírito vital, com todos os seus liames, à terra, ao destino. A amada sendo aqui empossada dum poder de iluminação e libertação»
Compreendemos assim melhor a morte iniciática pela Dalila e os nossos mestres do Amor afirmada, pois morrem os amores menores, os liames, o que brota do espírito vital e astral mediano, as provações e limitações do destino são ultrapassados pelo desabrochar do amor pleno, que assim liberta e ilumina, tanto mais que o poeta manifesta um optimismo escatológico (como nos nossos dias Daria Dugina bem desenvolveu], ainda que sujeito a erros e má fortuna do seu amor ardente, mas que como o sol acaba sempre por triunfar das nuvens, conforme Dalila lembra, nos sonetos CXVI e CCXII, ao concluir este capítulo, Os Fiéis do Amor.
Realcemos porém ainda a identificação mais forte, quase advaitica (ou não dual), o "eu sou Ela" de Dante, pois um dos mantras dados pelos mestres indianos dos Upanishads (no Isha Upanishad, v. 16) e ao longo dos séculos realizado, ou apenas repetido mentalmente como oração, aspiração e auto-sugestão, é So ham asmi, Eu sou Ele, sou o Espírito, Brahman...
Aqui em Dante é "eu sou Ela", mas se no Ela se realiza (como parece denotar a maiúscula empregada) também a Divindade, o princípio feminino divino, a Shakti, ou a Santa Sophia, na amada, então há uma unificação mais plena e divina.
O dito camoniano é igualmente unificador e profundo mas diferente : Camões «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa»:
"Olhai-me", injunção para uma acto de visão e contemplação, mas o "mim" em seguida introduz como que um segundo sujeito, ou um reforço e aprofundamento do Eu que é visto, contemplado pela amada, a mestra, ou até a Natureza angélica, apelando a uma relação amorosa e unitiva que não fique na aparência corporal e psíquica mas chega ao cerne e centelha do Ser.
Podemos considerar em termos do caminho espiritual iniciático que o «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa», é um bom mantra para não nos dispersarmos tão facilmente para fixarmos melhor a substância psíquica nas meditações e contemplações que fazemos, rumo ao segundo sujeito ou Espírito, ou ao eixo vertical com o Anjo, a Inteligência agente, o Amor.
O "feitura vossa", tem também um nível bem esotérico e iniciático, pois indica que o amante é modelado ou feito por ela, feito à imagem e semelhança do que ela como mestre de Amor desperta nele espiritualmente e psico-somáticamente, uma ousada ou heterodoxa afirmação da re-criação do ser humano, algo ocultada sobre o mais discreto e materializado termo "feitura".
"Olhai-me a mim, que sou feitura vossa", quererá dizer ainda que o olhar amoroso da amada faz-me ou torna-me segundo o modelo primordial do Amor unificador: - Sou um convosco e modelado por vós e o Amor. Somos uma unidade, na identidade suprema, na Unidade.
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