Os três últimos capítulos das Raizes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, da Dalila Pereira da Costa, são, como os outros bem valiosos: Espírito Santo e Angeologia, Uma Angeologia gnóstica, e o conclusivo Consciência da História.
O capítulo Espírito Santo e Angeologia é bastante ousado e diremos mesmo heterodoxo, pois pressupondo em Camões o conhecimento do hermetismo e gnosticismo de feição islâmica relatado pelos seus poetas e místicos, e sabendo que eles testemunham caminhos vividos de aventura espiritual e iluminação pelos sufis iranianos, Dalila atribui-os também a Camões, vendo-os manifestados, por dos exemplo, na percepção da Inteligência Agente, ou Espírito Santo, e seus anjos.
Oiçamos Dalila Pereira da Costa considerando tanto a poesia lírica como a epopeia em Camões dentro de uma fenomenologia angélica e cósmica: «a consciência duma mesma energia movendo o cosmos nas suas esferas e o homem na sua alma, estará à obra, solidária e unidamente, na sua [de Camões] antropologia e cosmologia; será esse um dos sentidos da alta pedagogia angélica concedida por Tétis a Vasco da Gama e seus navegantes, na visão suprema no cume do alto monte da «ínsua divina».[vulgo, ilha do Amor, ou Amores, ou ainda ilha Namorada]

Prosseguindo, Dalila, em parte baseada na longa hermenêutica da espiritualidade iraniana de Henry Corbin, e um pouco talvez em Carl G. Jung, verá nessa individuação, ascensão e iniciação dada pelo Anjo, ou Tétis, heterodoxamente identificado ao Espírito Santo, o encontro do ser humano com o seu verdadeiro eu, que afirma como supra-pessoal [o que alguns de natureza mais mística contestarão], e que é o Anjo nela, visão e posição que encontramos por exemplo em Shorawardi, o mestre dos ishraqis.
«Em todos [ou muitos] os relatos do sufismo, de fonte gnóstica o Anjo do Conhecimento é identificado ao Espírito Santo; Natureza perfeita, ou Inteligência agente, como o Dador. A angeologia sendo aqui inseparável do processo de individuação, ou libertação perfeita da alma, como face a face último do homem com o seu eu verdadeiro, supra-pessoal; todo o processo vindo ainda estruturado numa teoria de âmbito e limites cosmológicos.»
Em seguida Dalila aceita e entra numa linha gnóstica, influenciada ou então semelhante a Henry Corbin:
«Esta angeologia relacionando-se mais com a concepção gnóstica do Christos-Angelicos, do que com a concepção eclesial dogmática [da Igreja Católica]. Reconhecer a sabedoria doada pelo Anjo ou Espirito Santo, será em que consiste o conhecimento na tradição oriental: doação iniciando-se pelo seu apelo directo.»
Controversa esta parte final, estreitando talvez demasiado o conhecimento ao Anjo, pois também pode ser pelo imam, mestre ou sheikh, e não clarificando taxativamente o "apelo directo", que embora seja na direcção descente, pois é Tétis que chama e dará a mão condutora a Vasco da Gama, também pressupõe a ascendente na alma que aspira e que chama e merece pelo esforço e heroismo, da lei da morte se libertando.
Prossegue numa zona pouco conhecida entre nós e mesmo em geral, o maniqueísmo, e que nos apresenta sem fontes contextualizadoras, e talvez haja nisto influência do controverso livro O Desembarque dos Maniqueus na ilha de Camões, de António Telmo:
«Havendo ainda nesta tradição, uma referência a partir do Espírito Santo e Anjo Gabriel, à "Virgem da Luz" do maniqueísmo, como figura de Sophia divina, que na gnose, é identificada ao Espírito Santo.
Vemos assim, que fundas implicações da sabedoria e da tradição religiosa portuguesa, estarão implicadas na figura divinizada da mulher, na poesia lírica de Camões, como figura angélica e na sua poesia épica, como ninfa mor: a figura feminina surgindo como a doadora da sabedoria suprema, iniciadora dos mistérios invisíveis do céu.»
Após esta parte algo mais sincrética, na identificação e função da Sophia ou Sabedoria Divina, Anjo Gabriel ou Espírito Santo, e talvez algo exagerada, pois a visão obtida por Vasco da Gama não será a da verdadeira Sabedoria Suprema, à qual nem ele nem Dante nem a maioria dos iniciados tem acesso, Dalila avança para outra zona da espiritualidade portuguesa que ainda hoje, após tanto séculos de devoções e cultos, controvérsias e colóquios (e participei em alguns), continua semi-desconhecida, admitindo que tais concepções orientais e gnósticas, vindas do Egipto teriam entrado nos tempos paleo-cristãos em Portugal, e vingado no culto do Espírito Santo até ao séc. XVI, quando por suspeitas de heterodoxia ele foi ocultado ou afastado, ao tempo da Contra Reforma e Inquisição.
Abordando em seguida o Anjo em Portugal vê-los-á representados nos principais monumentos religiosos, "por vezes entre os reis portugueses, com eles intervindo na história, nela providencialmente manifestando a vontade de Deus", destacando "o culto do Anjo de Portugal, como Arconte enviado em missão junto duma Nação" e como ele teve a função de "protector e zelador" até D. João IV ter declarado Nossa Senhora da Conceição a Padroeira de Portugal.
Dalila admitirá por fim o eventual contacto de Camões no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, do qual o seu tio foi Abade, com o culto dos Anjos (e S. Teotónio, o amigo de D. Afonso Henriques, recomendara tomá-los como modelos) e do Arcanjo de Portugal, este representado nas igrejas de Ordem e festejado anualmente no seu dia com grande solenidade, para além da liturgia nas missas ser celebrada pelos Crúzios em sintonia ou comunhão com a participação invisível dos coros angélicos.»
Possam os anjos externos e o interno brilharem mais na nossa alma e ser!
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