domingo, 2 de agosto de 2026

O elogio biográfico do dinâmico Dr. Amílcar de Sousa, médico pioneiro do naturismo, vegetarianismo e frugivorismo. 1919.

Nas primeiras décadas do séc. XX, certamente a época mais frondosa de revistas, almanaques e jornais em Portugal, em Fevereiro de 1919 nascia o Eclético, um quinzenário de moral educação física, psíquica, artística e social editado por José Inácio Silva, naturista e redigido por Lourenço de Melo, com sede na Rua dos Anjos, nº 3, Lisboa, hoje bastante raro nos seus oito números, e praticamente desconhecido. Naturalmente homenageou quem na altura era o mais destacado médico naturista e vegetariano (e preferentemente frugívoro e talvez vegano ), o Dr. Amílcar de Sousa (1876-1940), fundador em 1911 da Sociedade Vegetariana de Portugal e da Sociedade Vegetariana Editora (mais de 30 livros editados), e que deu à luz durante muito anos a revista O Vegetariano e o Almanaque Vegetariano Ilustrado de Portugal e Brasil, nos quais, além de ter congregado valiosos colaboradores, escreveu centenas de artigos bem substanciais,  além de conferências, artigos em jornais do Porto e de Lisboa, traduções e livros, numa actividade transbordante e à qual dedicamos os últimos artigos no blogue.

Eis o belo texto, que partilhamos da transcrição no nº 4, de Abril de 1919, 'O Vegetariano:

                                  AMÍLCAR de SOUSA 

«Iniciador e propagador do movimento Naturo-vegetarista português, tem levado até ao sacrifício a difusão do Amor e da Harmonia. Mestre esclarecido na ciência Naturopatia e discípulo dedicado da Natureza, tem mostrado pelo exemplo a eficácia de sua doutrina. Reconhecendo que a alimentação carnívora e o uso do vinho e do tabaco são contrários às leis naturais, tornou-se um paladino audaz [ver nota] e intrépido na campanha de regeneração física, e, combatendo não só a gula, como a malvadez da sociedade que sacrifica aos seus apetites a vida dos animais, mostrou quão perversa é a civilização que nos leva a imolar inocentes vítimas para satisfação de erróneos apetites.
Os seus artigos, cheios de sinceridade e convicção, têm chegado a todos os cantos do globo, e por sua influência se tem publicado no velho e no novo mundo dezenas de publicações vegetarianas e naturistas.
A sua fé e o seu exemplo tem animado centenas de adeptos a fundar colónias naturistas [certo exagero...], onde vivem livres de preconceitos, alegres na simplicidade de seu viver, alimentando-se de frutos e banhando-se ao sol.
Amílcar de Sousa, dedicado propagandista da alimentação natural, trabalhador incansável na sua profissão de médico, tem salvo da morte de dezenas moribundos que a ciência das drogas não pode remir.
Amigo dedicado e consciente de todos os que sofrem, exerceu quase gratuitamente, durante de dez anos, a clínica naturista; e, sem pílulas nem pastilhas, tão somente pelos concelhos e dieta natural, ele, pioneiro intrépido bem, tem desviado da morte muitos daqueles que zombaram das suas palavras.
Médico consciente e autorizado, escritor distinto [bastantes sensível e poético], orador convincente e agradável, leva a sua influência aos cantos mais longínquos da Índia às regiões da África e às florescentes cidades da América e do Brasil [em Janeiro de 1920, 1ª vez], e bem próximo de nós, na vizinha Espanha, o nome do Dr. Amílcar de Souza é pronunciado com entusiasmo e ardor [e de facto vários dos seus livros sido traduzidos para espanhol].
Felizmente para a humanidade sofredora, a semente das suas doutrinas tem-se desenvolvido com animadora progressão. Hoje, mercê dos seus esforços e da sua constância, aliados a uma perseverança que só a fé na Verdade que propaga lhe poderia incutir, dezenas de milhares de criaturas se abstém de fumar, de beber vinho e de atrofiar o organismo com carnes e panaceias que a nossa civilização ainda a fomenta e a sociedade tolera.
O dr. Amílcar Sousa, tem sido, pois um valioso e dedicado amigo de todos os que sofrem e um prestimoso colaborador de todos os que trabalham, interpretando o sentir de todos os seus admiradores, O Eclético aqui lhe testemunha a sua admiração pelo carinho e desinteresse com que tem posto todas as suas faculdades ao serviço de tão elevada causa.»

Nota: Em 1920, a abrir, qual Juízo do Ano, o número de Janeiro d' O Vegetariano, escrevia Amílcar de Sousa numa linguagem bastante devotada ou mesmo religiosa, em suma como apóstolo duma causa sacralizante: «Um ano a mais conta este Mensário de Saúde que, por mercê de circunstâncias verdadeiramente felizes, tem conseguido o favor do público. A sua acção, a dentro da sociedade actual, tem sido beneficiente pois que tem conduzido muitas pessoas para o caminho da vida higiénica e da vida moral. Cada ano que passa é, para todos os mesteirais desta obra regenerativa, mais um motivo de satisfação íntima, em virtude da divulgação operada, das doutrinas científicas defendidas nesta revista. Não nos pesa na consciência reflectida o menor enfraquecimento da cruzada encetada (...)
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