Nas primeiras décadas do séc. XX, certamente a época mais frondosa de revistas, almanaques, jornais em Portugal, em Fevereiro de 1919 nascia, o Eclético, um quinzenário de moral educação física, psíquica, artística e social editado por José Inácio Silva, naturista e redigido por Lourenço de Melo, com sede na Rua dos Anjos, nº 3, Lisboa, hoje bastante raro nos seus oito números, e praticamente desconhecido. Naturalmente, homenageou quem na altura era o mais destacado médico naturista e vegetariano, o Dr. Amílcar de Sousa (1876-1940), o fundador em 1911 da Sociedade Vegetariana de Portugal e da Sociedade Vegetariana Editora (mais de 30 livros editados), e que deu à luz durante muito anos a revista O Vegetariano, o Almanaque Vegetariano Ilustrado de Portugal e Brasil, nos quais escreveu centenas de artigos bem substanciais, além de conferência, traduções e livros valiosos, numa actividade transbordante à qual dedicamos os últimos artigos no blogue.
Eis o belo texto, que partilhamos da transcrição no nº 4, de Abril de 1919, d 'O Vegetariano:
AMÍLCAR de SOUSA
«Iniciador e propagador do movimento Naturo-vegetarista português, tem levado até ao sacrifício a difusão do Amor e da Harmonia. Mestre esclarecido na ciência Naturopatia e discípulo dedicado da Natureza, tem mostrado pelo exemplo a eficácia de sua doutrina. Reconhecendo que a alimentação carnívora e o uso do vinho e do tabaco são contrários às leis naturais, tornou-se um paladino audaz e intrépido na campanha de regeneração física, e, combatendo não só a gula, como a malvadez da sociedade que sacrifica aos seus apetites a vida dos animais, mostrou quão perversa é a civilização que nos leva a imolar inocentes vítimas para satisfação de erróneos apetites.
Os seus artigos, cheios de sinceridade e convicção tem chegado a todos os cantos do globo, e por sua influência se tem publicado no velho e no novo mundo dezenas de publicações vegetarianas e naturistas.
A sua fé e o seu exemplo tem animado centenas de adeptos a fundar colónias naturistas, onde vivem livres de preconceitos, alegres na simplicidade de seu viver, alimentando-se de frutos e banhando-se ao sol.
Amílcar de Sousa, dedicado propagandista da alimentação natural, trabalhador incansável na sua profissão de médico, tem salvo da morte de dezenas moribundos que a ciência das drogas não pode remir.
Amigo dedicado e consciente de todos os que sofrem, exerceu quase gratuitamente, durante de dez anos, a clínica naturista; e, sem pílulas nem pastilhas, tão somente pelos concelhos e dieta natural, ele, pioneiro intrépido bem, tem desviado da morte muitos daqueles que zombaram das suas palavras.
Médico consciente e autorizado, escritor distinto, orador convincente e agradável, leva a sua influência aos cantos mais longínquos da Índia às regiões da África e às florescentes cidades da América e do Brasil, e bem próximo de nós, na vizinha Espanha, o nome do Dr. Amílcar de Souza é pronunciado com entusiasmo e ardor.
Felizmente para a humanidade sofredora, a semente das suas doutrinas tem-se desenvolvido com animadora progressão. Hoje, mercê dos seus esforços e da sua constância, aliados a uma perseverança que só a fé na Verdade que propaga lhe poderia incutir, dezenas de milhares de criaturas se abstém de fumar, de beber vinho e de atrofiar o organismo com carnes e panaceias que a nossa civilização ainda a fomenta e a sociedade tolera.
O dr. Amílcar Sousa, tem sido, pois um valioso e dedicado amigo de todos os que sofrem e um prestimoso colaborador de todos os que trabalham, interpretando o sentir de todos os seus admiradores, O Eclético aqui lhe testemunha a sua admiração pelo carinho e desinteresse com que tem posto todas as suas faculdades ao serviço de tão elevada causa.»
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