Abordando, nas fontes possíveis da Ilha Namorada, o fundo celta e irlandês das viagens em demanda da ilha Bem Aventurada, «habitada por mulheres sagradas doadoras da imortalidade aos homens» , tal a Navegação de Maeduin, que serviu de modelo à Viagem de S. Brandão, publicada entre nós pelos monges de Alcobaça, tal como foi o Conto de Amaro, e ainda a Navegação de Bran filho de Fébal, cristianizada na Vita gloriosissima confessoris Christi Brandani abbatis, e que Camões poderia ter lido no códice existente no scriptorium da mosteiro de santa Cruz em Coimbra, ou já do séc. XII, o manuscrito irlandês do Lebor na Huidre, Dalila compara neste último texto «a eleição e elevação à categoria sagrada imortal dum homem, realizada por uma mulher sacerdotisa, àquela outra realizada por Tétis na pessoa do herói Vasco da Gama. O mundo dessa ilha que na epopeia céltica se chama ilha Bem aventurada, ilha das Fadas, Emain Ablach, Ilha dos Frutos, Avalon, Ilha Afortunada: é a ilha da deusa Dana, e de seu povo, os Viventes, Thuata Dé Dananann onde reinam essas mulheres, avatares da deusa, como Prostitutas Sagradas, doadoras de juventude e imortalidade aos homens: «Ilha namorada de Camões».
Vamos agora transcrever algumas passagens valiosas, relembrando que, após ter-se interrogado sobre as possíveis leituras de Camões (na peugada do Dr. António Cuz), e a possível existência de obras (filosofia, medicina, gnose) de Avicena, na biblioteca de Santa Cruz em Coimbra, dado que os frades agustinianos o conheciam e valorizavam, e que Camões terá frequentado, ao estudar o Curso de Artes, tanto mais que tinha um familiar como geral do mosteiro, o D. Bento de Camões, Dalila, seguindo na peugada de Henry Corbin, que traduziu e comentou bem o Relato visionário de Avicena, admite que tal relato terá sido uma das fontes, tal como a Divina Comédia, de Dante, para o cerne de Os Lusíadas, para o episódio da Ilha Namorada e a descrição da iniciação de Vasco da Gama. No sentido de realçar a corrente avicenizante em Portugal, tanto mais que a influência directa do relato visonário de Avicena não é evidente, refere a existência de obras de Avicena nas livrarias do Infante D. Pedro, rei D. Duarte e Frei Diogo de Murça, nos séculos XV e XVI.
Dalila Pereira da Costa aproxima-se então de um dos controversos mistérios da mística iluminativa persa e de Avicena e, seguindo Etiénne Gilson e o P. de Vaux, nomeia «o avicenismo latino, para o distinguir desse augustiniano avicenizante, pela diferença que surge mais vincada na angeologia; a interpretação augustiniana [augustiniano avicenizante] transferindo para Deus a função iluminativa da Inteligência agente, a marcará assim pela ortodoxia; ao passo que a comparação desta Inteligência agente no avicenismo latino com o Anjo Gabriel identificado ao Espírito Santo, constituía para o augustinismo avicenizante uma suspeita de heresia oriental, porque aproximando-se da gnose», ou porque ia em contrário à doutrina da Trindade estabelecida a partir dos concílios do IV século, de ser uma pessoa divina e não angélica.
Assim esta identificação do Espírito Santo a um Arcanjo feita pelos teólogos e espirituais islâmicos, tal Avicena (e a que Henry Corbin parece-nos ter aderido] e que faz parte do avicenismo latino, parecerá estranha ou herética a muito cristão, mas se observarmos bem ser o Arcanjo Gabriel a anunciar o nascimento de Jesus a Maria e a transmitir-lhe o influxo divino gerador e que ele foi também quem transmitiu o Alcorão ao profeta Maomé, e que a doutrina do Espírito Santo e a sua fixação humana como terceira pessoa da Trindade foi controversa e lenta, pode admitir-se o considerar-se o Arcanjo Gabriel o seu principal transmissor ou revelador, ou filosoficamente a Inteligência Agente na sua função iluminativa, tanto em Maria, como em Maomé, como em todos os seres que o merecerem, tal como alguns espirituais islâmicos conseguiram e testemunharam.
Já na visão ortodoxa cristã, de S. Agostinho e dos frades e teólogos agostinhos avicenizantes, tal Inteligência agente ou activa competia apenas a Deus e era Dele que descia para iluminar o intelecto humanos receptivo, recusando-se a intervenção angélica ou a complexa angeologia avicenista.
Ora para Dalila, em Camões, a Ninfa Tétis representa a Inteligência agente, na sua função iluminativa de Vasco da Gama e dos seus companheiros. Mas não poderá ela representar esotericamente o vero Eu espiritual dele próprio, que lhe apela: «Despertai já do sono do ócio ignaro;/Que o ânimo de livre, faz escrevo: (...) e o incita a seguir «o caminho da virtude,/ Alto e fragoso/ Mas no fim alegre e deleitoso» c. X. 92,93.
2 comentários:
Muitas graças, Pedro
Graças. Boas inspirações dalilianas.
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