sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa e a iniciação da Ilha dos Amores. As fontes celtas e persas na inspiração de Camões. Avicena e o Anjo e o Espírito Santo.

 Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana,   1990, realizou uma hermenêutica valiosa d'Os Lusíadas e de Portugal, investigando com argúcia as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas, nestas em especial a influência do mestre persa Avicena, demonstrando em sucessivos capítulos do seu ensaio ser uma obra  gnóstica e iniciática. 
Para Dalila para além dos aspectos concretos e históricos  da maior parte d'os Lusíadas  «outra realidade haverá escondida no seu fim, de carácter numinoso, como propriamente o mistério, irrompendo súbito no seu penúltimo canto, a «ilha angélica pintada», considerando que a expedição dos argonautas lusitanos à Índia é «uma descida aos Infernos, como prova de iniciação suprema, tal a de Ulisses no canto XI da epopeia de Homero, ou de Eneias  no livro VI da epopeia de Virgílio, ou passagem de Vasco da Gama e seus marinheiros pelo «Profundo» Abismo, ou Mar Tenebroso e chegada ao Paraíso Terreal, «ilha divina» no canto IX de Os Lusíadas. E para este sentido último da aventura marítima, apontarão ainda e sempre, as «naus da iniciação», da Mensagem», de Fernando Pessoa.
Já lhe consagramos dois artigos: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/03/dalila-pereira-da-costa-e-as-raizes.html.
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/08/as-influencias-iranianas-e-sufis-em.html
As Raízes Arcaicas... está dividida em três partes: I - Lusíadas e Pré-Helenos, II - Raízes arcaicas d' Os Lusíadas (ou entre o Mediterrâneo e o Atlântico),  III, Raízes islâmicas n' Os Lusíadas, seguindo-se ainda 17 breve capítulos, como pode ver na imagem:

                                       

Abordando,  nas fontes possíveis da Ilha Namorada, o fundo celta e irlandês das viagens em demanda da ilha bem aventurada, «habitada por mulheres sagradas doadoras da imortalidade aos homens«, tal a Navegação de Maeduin, que serviu de modelo à viagem de S. Brandão, publicada entre nós pelos monges de Alcobaça, tal como foi o Conto de Amaro, e ainda a Navegação de Bran filho de Fébal, cristianizada na Vita gloriosissima confessoris Christi Brandani abbatis, e que Camões poderia ter lido no códice existente no scriptorium da mosteiro de santa Cruz em Coimbra, ou já do séc. XII, o manuscrito irlandês do Lebor na Huidre, Dalila compara neste último texto «a eleição e elevação à categoria sagrada imortal dum homem, realizado por uma mulher sacerdotisa, aquela outra realizada por uma mulher sacerdotisa, àquela outra realizada por Tétis na pessoa do herói Vasco da Gama. O mundo dessa ilha que na epopeia céltica se chama ilha bem aventurada, ilha das Fadas, Emain Ablach, Ilha dos Frutos, Avalon, Ilha Afortunada: é a ilha da deusa Dana, e de seu povo, os Viventes, Thuata Dé Dananann onde reinam essas mulheres, avatares da deusa, como Prostitutas Sagradas, doadoras de a juventude e imortalidade aos homens: «Ilha namorada de Camões».

Vamos hoje destacar e transcrever algumas passagens valiosas e  comentar brevemente, relembrando que, após ter-se interrogado sobre as possíveis leituras de Camões ( na peugada do Dr. António Cuz), e  a possível existência de obras (filosofia, medicina, gnose) de Avicena, na biblioteca de Santa Cruz em Coimbra, dado que os frades agustinianos o conheciam e valorizavam, e que  Camões terá frequentado, ao estudar o Curso de Artes, tanto mais que tinha um familiar como geral do mosteiro D. Bento de Camões, Dalila, seguindo na peugada de Henry Corbin, que traduziu e comentou bem o Relato visionário de Avicena,  admite que tal relato terá sido uma das fontes, tal como a Divina Comédia, de Dante,  para o cerne de Os Lusíadas, o episódio da Ilha Namorada e a descrição da iniciação de Vasco da Gama. Neste sentido avicenizante refere a existência de livros de Avicena nas livrarias do Infante D. Pedro, rei D. Duarte e Frei Diogo de Murça, nos séculos XV e XVI.

Dalila Pereira da Costa, aproxima-se de um dos mistérios importantes da mística iluminativa persa e de Avicena,  e seguindo Etiénne Gilson e o P. de Vaux, diferencia «o avicenismo latino, para o distinguir desse augustiniano  avicenizante, pela diferença que surge mais vincada na angeologia; a interpretação augustiniana transferindo para Deus a função iluminativa da Inteligência agente, a marcará assim pela ortodoxia; ao passo que a comparação desta Inteligência agente no avicenismo latino com o Anjo Gabriel identificado ao Espírito Santo, constituía para o augustinismo avicenizante uma suspeita de heresia oriental, porque aproximando-se da gnose», ou porque ia em contrário à doutrina da Trindade estabelecida a partir dos concílios do IV século, de ser uma pessoa divina e não angélica.

Assim esta identificação do Espírito Santo a um Arcanjo feita pelos teólogos e  espirituais islâmicos, tal Avicena (e que Henry Corbin parece-nos ter aderido] parecerá estranha ou herética a muito cristãos, mas se observarmos bem que o Arcanjo que anuncia o nascimento de Jesus a Maria e lhe transmite o influxo divino gerador é Gabriel e que este foi também quem transmitiu o Alcorão ao profeta Maomé, e que a doutrina do Espírito Santo e a sua fixação humana como terceira pessoa da Trindade foi controversa e lenta, pode-se admitir o considerar-se o Arcanjo Gabriel o seu principal transmissor ou revelador, ou filosoficamente como a Inteligência Agente na sua função iluminativa, tanto em Maria, como em Maomé, como em todos os seres. 

Já na visão ortodoxa cristã e de S. Agostinho e dos frades e teólogos agostinhos avicenizantes, tal Inteligência agente ou activa competia apenas a Deus e era dele que descia para iluminar o intelecto humanos receptivo, recusando-se a intervenção angélica ou a complexa angeologia avicenista. Para Dalila, em Camões, a Ninfa Tétis  representa a Inteligência gente, na sua função iluminativa de Vasco da Gama e dos seus companheiros.



 

Mas, se para além deste conhecimento por parte de Camões, e dos Fedeli d'Amor, notadamente de Dante, com toda a sua teoria

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