segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Efemérides selecionadas da última semana de Agosto, do encontro entre o Oriente e o Ocidente.

                                      Do artigo no blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/07/agosto-e-as-suas-efemerides-do-encontro.html, selecionei da última semana estas, com leves aumentos ou melhorias. Boas inspirações e realizações: Talent de bien faire!

24-VIII.    Nasce em Nova Goa, em 1904, Lúcio de Miranda. Licenciou-se em Ciências Matemáticas em Coimbra e exerceu o professorado nos Açores, Lourenço Marques e por fim, desde 1938, em Goa. Publicou livros e artigos valiosos em jornais, nomeadamente em Ponta Delgada. Em 1936, na ilha de S. Miguel dá à luz Índia e Indianos, com sete valiosos capítulos: Singularidades do Espírito Hindu; Mahatma Gandhi, Tolstoi e Gandhi; Tagore, o poeta; Shantiniketan. Buda, Duas Figuras da Índia Portuguesa (Abade Faria e Manuel António de Sousa, o heróico rei do Barué.). Acerca de Tolstoi e Gandhi escreve: «Reconhecendo assim a divindade de Jesus, o Mahatma procurou colher nos ensinamentos do Novo Testamento as forças que lhe permitiriam libertar-se dos preconceitos do velho brahmanismo decrépito», mas deveria ter referido ainda os ensinamentos nativos dos Jainas, da ahimsa ou não-violência..

Gandhi, visto por Domingos Rebelo, no livro de Lúcio Miranda.
                                         
26-VIII. Frei Mauro do mosteiro de S. Catarina do monte de Sinai,
enviado pelo sultão do Cairo a Roma, chega a Lisboa neste dia em 1504 e entrega a carta do papa Júlio II para o rei D. Manuel, com as ameaças que o sultão do Egipto fizera de destruir os lugares santos de Jerusalém, se ele não interviesse para impedir o progresso das conquistas portuguesas no Oriente. D. Manuel, satisfeito pelo temor turco, sossega o frade, a quem dá boas esmolas para o convento, e sugere ao papa que os reis cristãos europeus devem atacar o sultão para libertar os Lugares Santos («para que todos movessem as asas da sua potência contra este bárbaro, que com suas infiéis forças tinha tiranizado o santuário da nossa Redenção»), o que ele qualquer dia fará, se Deus aprouvesse, ao «entrarem suas armadas no mar Roxo, até irem destruir a casa de abominação de Mafamede, injúria e opróbio da religião cristã». 
Esta cruzada em que entrariam outros reis europeus falhou, mas o plano continuava vivo, aliás já alimentado pelo próprio Colombo, como o indica o título duma sua obra: Profecias que juntou o Almirante D. Cristóvão Colombo, da recuperação da santa cidade de Jerusalém e o descobrimento das Índias, dirigidas aos Reis católicos, onde está escrito: «Certamente que sabemos que Joaquim [de Fiora], o abade calabrês, preveu que de Hispania há-de trazer sua origem o que há-de restaurar a fortaleza de Sião». Afonso de Albuquerque pensou realizar tal cruzada, mas será D. Estêvão da Gama quem em 1541 internando-se pelo Mar Vermelho, tentará em vão destruir as esquadras turcas no Suez (pois só as suas de pouco calado chegaram lá), depois de ter armado alguns cavaleiros junto ao mosteiro de S. Catarina do monte de Sinai, conseguindo isso sim ajudar o reino cristão da Preste João a sobreviver às ameaças islâmicas. 
                                             
Uma carta do P. Polanco, secretário de S. Inácio de Loiola, em Roma, escrita neste dia em 1553, aconselha o editor das cartas missionárias que «quanto às cartas da Índia essa história de Xaca (Sakya Muni, o Buddha) pode-se omitir». Quanto às do P. Luís Fróis sobre o budismo chinês: «Nessa carta prolixa, é preciso ter cuidado de muitas descrições longas e cortá-las impiedosamente... É preciso suprimir muitos dos traços respeitantes a seitas e superstições dos pagãos». Eram censuras tanto aos valores orientais como às aculturizações e logo causando uma perda da dimensão ecuménica e dialogante tão necessária, desde sempre, no encontro e confronto entre várias religiões e tradições.
                                               
Assado a fogo lento, morre em Omura no Japão, em 1624, o beato
Miguel de Carvalho, natural de Braga, estudante na Universidade de Coimbra e desde 1602 em Goa, onde foi mestre de Teologia. Até que foi movido a partir para o Japão disfarçado de soldado, onde aprendeu japonês e exerceu um apostolado às escondidas e perigoso, até ser preso e, por fim, receber a coroa de mártir, com grande desprendimento, coragem e alegria, que ele não sabia se era por sua insensibilidade se pela eficácia da graça de Deus, como relatou numa sua carta, uns dias de morrer, onde diz ainda: «Em breve espero receber de Nosso Senhor, esta grande mercê de dar a vida por seu amor, coisa que tanto desejo que de nenhuma maneira o posso explicar... Amem-se muito entre si e tenham grande paz e concórdia uns com os outros, ajudando-se em tudo o que puderem, uns aos outros, com isto os ajudará sempre e acrescentará o todo poderoso Deus».
                                             

Nasce neste dia 26 de Agosto, de 1854, nos arredores de Trivandrum, aquela alma que se tornará conhecida como Sri Narayana Guru, um grande pesquisador do conhecimento e da realização espiritual, tendo estudado até aos 10 anos no antigo sistema de gurukula, aprendendo só de um mestre. Formou-se em Literatura Sânscrita e Filosofia Vedanta. Não quis casar-se e partiu em busca de mestres e ensinamentos, vivendo depois seis anos numa gruta solitário e em meditação. Sendo reconhecido como um mestre e dotado do poder de abençoar, construíram-lhe um ashram que ele consagrou a Shiva, embora O considerasse acima de raças, religiões e castas. Valorizava muito a limpeza e a pureza, o não se beber álcool, e o discutir não para se ganhar, mas para conhecer ou tornar conhecido. Teve uma grande acção pela igualdade e fraternidade dos seres, sendo um dos inspiradores de Gandhi na valorização dos intocáveis. Granjeou muitos discípulos e foi visitado por grandes seres que o elogiaram, tal como Rabindranath Tagore, que dele escreveu em 22-XI-1921: «Visitei muitas partes do mundo. Durante tais viagens tive a sorte de contactar muitos santos e mestres. Mas tenho de admitir que nunca alguém espiritualmente superior a Swami Sri Narayana Guru, de Kerala, ou que esteja a par com ele na realização espiritual. Estou certo que nunca esquecerei a sua face iluminada pela luz da glória divina auto-refulgente e os seus olhas yoguicos fixando a visão num ponto remoto do longínquo horizonte.»
                                      
Nasce em Skopye na Albânia, em 1910, Madre Teresa. Na Índia
desde 1929, a sua energia amorosa activa e a abnegação das Missionárias da Caridade (já por todo o mundo) têm suplantado as melhores expectativas de apostolado cristão e de assistência social nas populações mais desfavorecidas do Oriente, e daí estendendo-se a todo o mundo. «Ver Jesus no mais pobre dos pobres e amá-lo», eis a tenção delas, cumprida com a dádiva do amor casto. Há também umas poucas de irmãs dedicadas à vida contemplativa. Estive com ela algumas vezes no seu centro em Calcutá e senti bem o amor e determinação que emanavam do seu pequeno corpo.

                               
27-VIII. Neste dia em 1542, depois de reforçado por um contingente de turcos com espingardas e bombardas, Gráne, o emir de Harar, ataca os 300 portugueses (combatentes e artesões) da expedição de D. Cristóvão da Gama de auxílio ao Preste João (na Etiópia) e em fera batalha morrem heróica e abnegadamente os irmãos Onofre e António Abreu e muitos outros. Depois de terem sido várias vezes derrotados, os somalis e otomanos triunfavam finalmente pelo seu maior número, e Miguel Castanhoso, o cronista da expedição (da qual fez parte o famoso religioso etíope João Bermudes), sai ao anoitecer acompanhando a Imperatriz Espiga do Evangelho e os sobreviventes em retirada. D. Cristóvão da Gama, o filho do descobridor do caminho marítimo para Índia, 30 anos, ferido, com mais 12 guerreiros portugueses fica para trás, no dharma ou dever dos Cavaleiros do Amor e de Cristo, de proteger e não fugir, tentando aguentar a retirada da Imperatriz. A expedição portuguesa à Etiópia conseguirá o seu objectivo: destruir os invasores do reino do Preste João. Seis meses depois o imperador Cláudio, com a ajuda dos 200 portugueses que restam, derrota e mata o Gráne (Ahmad Gragn), terminando o maior aperto sofrido pelo reino cristão do Preste João na história.
                                               
       D. Cristóvão da Gama, por Leopoldo de Almeida, no Padrão dos Descobrimentos, em Belém.
Nos dias seguintes, a 28 ou 29 de Agosto, com um braço partido e uma coxa trespassada, D. Cristóvão da Gama é preso e, recusando a rebaixar-se, morre decepado, jovem de 27 anos e sentindo o apoio da presença divina, no Anjo ou em Jesus Cristo, e assim a sua alma cavaleiresca e abnegada liberta-se radiosa para arder em muitos corações. Os historiadores Miguel Castanhoso (em 1564), Pêro Pais, Gaspar Correia, Diogo de Couto e Elaine Sanceau descreveram este culminar heróico da gesta de mais de um ano, iniciada com Pêro da Covilhã em 1488, e que terminará anos mais tarde com a expulsão dos jesuítas e do Patriarca Afonso Mendes em 1634, devido a serem demasiado controladores. Sem resultados lucrativos, a aventura do Preste João foi fiel à sua origem e conservou-se nos domínio dos ideais e das legendas. Richard Burton, no seu First Footsteps in East Africa, considera D. Cristóvão da Gama como «the most chivalrous soldier of a chivalrous age». E ainda em 1955, o subchefe do protocolo da corte do imperador da Etiópia perguntava ao embaixador português e meu tio Alfredo Lencastre da Veiga: «Mas afinal D. Cristóvão da Gama era um homem ou um semi-deus?», respondendo o embaixador: «Era um herói», confirmando a hierarquização grega e clássica, e o dito de Camões acerca aqueles que da lei da morte se vão libertando... Saibamos manter abnegação, coragem e amplidão nas nossas almas e vida...
José António Ismael Gracias (1857-1919).
Nasce em Loutolin, Salsete, em 1857, J. A. Ismael Gracias, e veio a ser um dos grandes génios do ensino, da historiografia e do direito na Índia Portuguesa, tendo cumprido numerosas incumbências oficiais, desde professor e secretário privado de Governadores a director da Biblioteca Nacional de Goa, pertencendo e sendo homenageado por várias agremiações científicas nacionais e estrangeiras, deixando uma vasta obra em livros, artigos, relatórios, catálogos, exposições, destacando-se as suas colaborações sobre os portugueses na Índia, tal D. Juliana Dias da Costa e o bispo D. António de Noronha. em jornais e revistas, como Era Nova, O Heraldo, no Insituto de Coimbra, Boletim da Sociedade de Geografia, Ocidente, e sobretudo d'O Oriente Português. Ao escrever a biografia do historiador Filipe Nery Xavier, e de quem foi o sucessor, na introdução à  reedição do Bosquejo Histórico das Comunidades, dada à luz em 1903, valorizou muito o culto das efemérides históricas e a celebração dos centenários dos génios da humanidade, pois optimisticamente acreditava que o tempo das guerras e das armas findara e que seriam os livros, os exemplos e a sabedoria a reger os povos.
 
Swami Pratyagatmananda Saraswati nasce  neste dia 27 de Agosto de 1880 em Chanduli, Burdwan, Índia. Formou-se em Filosofia e começou como professor no National Council of Education, tendo Sri  Aurobindo como seu colega. Ensinou no Ripon College filosofia,  matemática e física, sendo o editor do jornal Servant. Foi um yogi e profundo conhecedor do sânscrito, do Tantra e do Shabda, ou seja dos mistérios da palavra e do som, tendo ajudado John Woodroffe nos seus pioneiros livros ocidentais sobre o tantrismo. Bom conhecedor da ciência moderna, conciliou-a bem com os dados da espiritualidade indiana. No seu Japasutram (1961, excelente quanto aos mistérios do som e das letras) diz-nos que a «Filosofia não é meramente conhecimento sumarizado, mas é Sabedoria em evolução. O fim da sabedoria é chegar,  o mais próximo possível, a uma vista completa do que chamamos "o vivo e lúcido todo da Realidade" e a sua culminação é atingida na medida em que o fim pode ser realizado para além da sombra de se duvidar e debater. Como um famoso sruti diz: "Todos os dilemas do coração dissolvem-se e todas as dúvidas do intelecto desaparecem quando a Realidade como imanente e transcendente é vista". Sruti (ouvida, escritura revelada) usa a palavra drste, para "visto". Aqui "visto" significa visão que é totalmente conclusiva e última».
30-VIII. 
 Um bom livro sobre Abhishiktananda
O P. Henri le Saux nasce neste dia em 1910 na França. Chegará à Índia em 1948 como um monge beneditino e mais tarde receberá o nome de Abhishiktananda, que significa um ser feliz na devoção, e será um dos grandes artífices do encontro do hinduísmo e o cristianismo, primeiro no ashram de Shantivanam, no Sul da Índia (que eu conheci bem, pois estive nele um mês), e depois como eremita nos Himalaias, onde desaparecerá misteriosamente num dia de 1973). Entrará para a posterioridade luminosa, com os seus escritos, tal como o Ponto de encontro Hindu-Cristão - dentro da Gruta do Coração, e com os que o conheceram mais intima ou iniciaticamente. Um belo filme de Patrice Chagnard, Swamiji, un voyage interieur foi-lhe dedicado em 1984 (https://youtu.be/gfaGa8nMcMs?si=rHgYLOuj7i0w4Pdx). No seu comentário ao Pai-Nosso, dirá com conhecimento uma evidência que o cristão normal ainda não consciencializou: «Jesus apareceu no mundo, não para ensinar ideias mas para transmitir aos seres humanos uma experiência, a sua própria experiência de ser Filho de Deus; e depois, continuando a avançar a partir desta sua experiência e pela sua eficácia, levá-los a realizarem e a integrarem na sua própria consciência essa condição que é também a deles, a de serem filhos de Deus. 
A tarefa essencial do ser humano é redescobrir a sua fundação (ground), redescobrir a sua própria origem no centro do seu ser, redescobrir na sua própria origem o Eu na sua origem. A Tradição Védica dá a este mistério último do ser o nome de Brahman, a realidade inefável que está escondida por detrás de todas as coisas e ao mesmo tempo penetra todas as coisas e que é a fonte de tudo o que existe, o absoluto que está simultaneamente para além e por dentro do que é limitado, o sagrado, o numinoso, o que é revelado no segredo último de tudo. (Conforme a Kena Upanishad.
Prefácio à obra  Method of Contemplative Prayer do P. James Borst, um livro recomendado por Bede Griffith, de Shantivanam.

  31-VIII. Abel Henri Joseph Bergaigne, nasce em 1838 em Vimy, França e será um notável orientalista, professor de sânscrito e de civilização indiana, publicando estudos linguísticos e manuais de aprendizagem, traduzindo textos, como 40 hinos dos Vedas e interpretando-os com profundidade e sabedoria, e escrevendo sobre a religião e a liturgia védica. Se aprendera com Eugène-Louis Hauvette-Besnault, também ensinou vários futuros indianistas entre os quais o nosso Guilherme de Vasconcelos Abreu, o companheiro de Antero de Quental, que com ele dialogou sobre a sabedoria oriental até pouco antes de Antero morrer. Francisco Adolfo Coelho, na sua Bibliografia Critica de História e Literatura, vol. I, 1873-1875, assinala a publicação em França do Brahmini Vilasa com tradução e notas de Bergaigne, e transcreve um resumo dela: «O Brahmini-Vilasa  é apenas uma recolha de estâncias independentes, reunidas sem ordem em quatro rubricas gerais. As do 1º livro dizem respeito à moral e à sabedoria prática; as do 2º as alegrias e dores do amor; as do 3ª são as lamentações de alguém que perdeu a mulher; enfim, as do 4º tem como assunto a devoção a Krishna. Sentenciosas, eróticas, elegíacas e místicas elas inspiram-se praticamente de todos os temas com os quais a imaginação dos Hindus se compraz, e apresentam como que um resumo de toda a sua poesia gnómica». Abel Bergaigne, apenas teve cinquenta anos de vida nesta terra de demanda, mas bem fecundos...
D. António Barroso, nascido em Barcelos em 1854, ordenado já com 25 anos em 1879, foi um dos grandes evangelizadores de Moçambique de 1891 a 1897, em 1898 está em Meliapor na India e é consagrado bispo do Porto em Agosto 1899, vindo a morrer neste último dia de Agosto em 1918, na sua diocese no Porto,  onde regressara após sofrer perseguições republicanas anti-clericais desde 1910, com dois exílios. Em 1917 citado a tribunal, pronuncia a sua famosa frase ao colocar a cruz no peito: «Vamos lá, Senhor! Convosco irei alegre para o cárcere, ou para a morte».

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