O texto que vamos apresentar-se refere-se a uma ilha grega que é habitada só por monges, distribuídos por vinte mosteiros magníficos e pequenos eremitérios, e que é coroada pela montanha mais sagrada da tradição ortodoxa, que eu já há muitos anos também peregrinei (2.000), sendo interdita às mulheres (e os homens apenas poucos dias a podem visitar), embora uma tenha conseguiu entrar disfarçada, a valiosa investigadora e escritora Marise Choisy, publicando em 1929, Un mois chez les hommes.
Daria ou Darya Dugina, sem abdicar da sua identidade feminina subiu à montanha na sua dimensão espiritual, e animada pelo seu optimismo escatológico, de matriz cristã ortodoxa, e profundamente conhecedora delas, mas não só, pois referencia-o em filósofos da revolta, como Nietzche e Cioran, e em filósofos da Tradição perene, tais René Guénon e Julius Evola, e partilha algumas notas, reflexões e intuições, realçando a necessidade de termos menos dispersão e maior concentração para conseguirmos elevar-nos na nossa alma ao Intelecto puro e ao espírito (nous), e recebermos ou contemplarmos as energias ou bênçãos divinas, ou mesmo o Uno, o Bem, o Absoluto, a Divindade e assim podermos resistir a tanta força negativa, cultivando interiormente o bem e a nossa ligação vertical e axial.
Monte Athos, princípio feminino, apofatismo e otimismo escatológico
1. O «Athos das mulheres»: peculiaridades da consciência feminina
É sabido que as mulheres não são admitidas na Montanha Sagrada. Há algo de justo nisto. A tal propósito, pode-se lembrar o starez [ancião ou mestre] Paisios, do Monte Athos. Recentemente li um dos seus textos e encontrei uma citação que descreve com acurácia a condição normal da consciência feminina. Se ela não se encontra num estado de oração, funciona assim:
«Constantemente as nossas orientações deslocam-se para uma e outra frequência. No momento em que o asceta está pronto para chegar a algo de comovente, - «click!». Muda a sua sintonia para qualquer outra coisa. No momento em que se lembra de algo de espiritual -«click!» - de novo vem-lhe à mente outra coisa. É assim que o inimigo confunde continuamente o cristão. Se a pessoa percebe como o diabo trabalha, libertar-se-á de muitas coisas».
Aqui estamos a falar do diabo, dos instrumentos do diabo, que tenta distrair as pessoas, mudando continuamente as suas mentes. Analisando a nossa consciência, e, mais amplamente, aquela das mulheres, podemos dizer que o mesmo click acontece constantemente em nós. O próprio facto de não ser permitido às mulheres irem à Santa Montanha do Athos permite-nos antecipar o mundo singular da mente masculina, do milagre masculino. Este é o valor. Significa a capacidade de concentrar-se e focar-se no essencial, ou seja, Cristo. [ou Deus].
Se olharmos a mulher por um outro lado, há uma outra dimensão nela muito importante, como escreveu Tatyana Mikhajlovna Goricheva [1947-2025]. Trata-se da predisposição natural das mulheres para a teologia apofática e a experiência mística. Não obstante a distância da mulher em relação à mente analítica masculina, e de um intelecto árido, que pode dividir o mundo diúrnico em "sim-não", "estranho-próprio", a mulher tem uma abertura à teologia apofática. Dentro de si ela nutre, por assim dizer, o próprio Athos feminino". Este é o seu espaço ideal e se conseguir superar a modalidade da tentação constante devida à passagem da atenção de um para outro, se passar ao majestoso mundo místico interior, se esforçar-se por reunir um outro nível - mais profundo, mas sempre essencialmente feminino - pode tornar-se participante da teologia apofática.
Tatyana Mikhajlovna Goricheva afirma que para as mulheres esta profunda penetração na dimensão interior pode, por vezes, superar a sequência masculina de queda e re-ascensão. Cita o exemplo de Maria Egípcia. Esta é uma imagem estupenda de uma grande mulher virtuosa cristã, que demonstra como a ascensão de uma mulher do abismo da queda, do fundo, é incrivelmente difícil, mas, de qualquer forma, possível.
Portanto, simultaneamente à sua capacidade de mudar, a mulher pode também ser extraordinariamente sensível à teologia apofática e à experiência mística da saída deste mundo em direção a um mundo diferente. Isso acontece nela seja através da oração, seja através da capacidade de visões espontâneas. Se lermos as vidas dos santos, podemos encontrar nelas exemplos de manifestações da própria Divindade e das energias divinas associadas às santas, ao mesmo tempo que exemplos da contemplação mais elevada.
Paradoxos do abandono
Gostava de citar uma hipótese interessante sobre a qual refleti ultimamente e à qual dediquei várias lições e participações: a hipótese do optimismo escatológico. Como nasceu essa hipótese? Nasceu quando me deparei pela primeira vez com o livro VII da República de Platão, em que se discute a necessidade do filósofo de descer novamente à caverna, após tê-la já abandonada. Eu não conseguia entender um ponto: porque, se o filósofo estava profundamente infeliz naquela caverna, deveria para lá voltar, descer novamente, após ter descoberto o verdadeiro mundo das ideias, fora da caverna escura, húmida e inóspita, repleta de fantasmas e de sombras? Diga-se de passagem, poucos estudiosos do platonismo prestaram suficiente atenção a esta pergunta. Porque o filósofo desce? Esta decida é o aspeto mais substancial no mito platônico da caverna.
Além disso, lendo os neoplatónicos, notei a desordem ontológica destes, pelo facto de que foram jogados neste mundo material corpóreo, o qual, em confronto com os mundos intelectuais das ideias e do verdadeiro ser, é deturpado e insignificante, e leva apenas à decadência e a alterações. Neles, todavia, é possível encontrar também uma apologia de tal abandono deste mundo, o reconhecimento da necessidade de estar no corpo como parte do plano harmonioso da Mente [ou Intelecto agente Universal]. Isso pode ser considerado como optimismo escatológico.
A seguir, na teologia cristã, quando conheci as obras dos santos Pais [ou Padres] e dos grandes teólogos, descobri novamente o tema do abandono do homem neste mundo pecaminoso, mas ao mesmo tempo a necessidade de permanecer nele, viver nele, mesmo resistindo a ele. Apesar de todas as condições vinculantes deste mundo, é necessário resistir ao mal e aceitar o mundo, cultivando o bem dentro de si mesmo.
Muito bem, quando eu lia filósofos modernos pós-cristãos, como Emil Cioran ou Friedrich Nietzsche, eu via neles o mesmo problema: o desespero de serem lançados no mundo da matéria, mas, ao mesmo tempo, a vontade de superá-la. Assim, pouco a pouco veio-me à mente o termo “otimismo escatológico”.
Os três postulados do optimismo escatológico
Segui o optimismo escatológico de Platão através dos neoplatónicos, o neoplatonismo cristão, Hegel até Nietzsche, Evola e Cioran. Esse fenómeno, na minha opinião, encontra-se também no Athos. O ápice desse fenómeno é a fórmula de são Soliane, o Atonita [1886-1937] com a sua máxima “Mantém o teu espírito no inferno e não desesperes nunca”, da qual uma bela interpretação é dada pelo starez Sofrónio (Sakharov).
Quais são os fundamentos deste optimismo escatológico?
O primeiro postulado: o que nos circunda, o que nos é dado, tudo o que percebemos como dado imediato da realidade é uma ilusão. Ou, para usar as palavras de Soliane Atonita, um inferno.
O segundo aspecto ou postulado desta visão do mundo: o fim do mundo é o fim da ilusão. Aqui podemos recordar René Guénon, que escreveu: “O fim do mundo não é jamais e não poderá jamais ser outra coisa senão o fim de uma ilusão”.
O terceiro postulado: mesmo sabendo que tudo é finito, que somos lançados nesta ilusão, que estamos separados das nossas origens, que estamos no inferno, devemos, mesmo assim, e apesar de tudo, agir para a eternidade; estar aqui, para criar uma vertical transcendente em oposição a este mundo – o mundo do pecado, do ilusório, do mal. Devemos resistir ao inferno, àquele “click!”, segundo, Paísio do Monte Athos [ou Atonita,1924-1994], que o diabo provoca em nós – e sobretudo nas mulheres – a cada minuto de cada dia, a cada segundo, para que desviemos o olhar da contemplação do Supremo. Mais ao alto em relação a nós está a alma, a Mente [diremos o Intelecto superior, ou mesmo espírito, o nous grego, e aqui a tradução italiana falhou ao dar mente] e o Uno. Todas as hipóstases neoplatónicas de Plotino. Importante: não apenas o Uno apofático. Para passar ao Uno, devemos ainda realizar uma longa e difícil ascensão, que exige “romper o nível”, superar o horizonte humano, passar do corpo à alma, depois à Mente[-Intelecto agente-Espirito], e ainda além – além dos limites internos da Mente até a contemplação directa das energias divinas. Essa ruptura superior do nível pertence já ao reino da teologia apofática.
Optimismo escatológico e apofatismo cristão
Quando comecei a reflectir sobre a relação entre o optimismo escatológico e a tradição cristã, dei-me conta de que é na teologia apofática que o optimismo escatológico se manifesta mais plenamente. Aqui há uma consciência da vaidade, da pobreza ontológica, da finitude deste mundo, da caducidade do “a nós tangível” que nos circunda-nos que nos parece natural. Ao mesmo tempo, a ação do apofatismo irrompe no mundo “aqui”, mas é dirigida para o mundo “lá”, um lançar-se desesperado e brusco da consciência. Isso corresponde ao terceiro princípio do optimismo escatológico: mesmo sabendo que tudo é finito, que tudo é ilusório, agir em nome da eternidade. Descobre-se que o comportamento de base do optimismo escatológico está extremamente ligado à teologia apofática. A experiência mística inicia-se quando ainda se está no mundo da ilusão, não para além deste.
Um ponto importante: a teologia apofática não pode ser considerada uma etapa determinada. É opinião comum, na história da filosofia e da teologia, que se deva inicialmente dominar o método da teologia catafática – falar de Deus através das categorias do mundo para elevá-las a um grau de perfeição – e apenas depois passar à teologia apofática como passo sucessivo, mais alto. Todavia, na esfera da experiência mística não existe um tempo linear, no sentido em que estamos acostumados a pensar no nosso mundo, que, gostava de lembrar, não é nada senão ilusão. A sequência: “primeiro a catafática, depois a apofática” não é temporal. Ambas as abordagens são sincrónicas, simultâneas. Não são fases diferentes de um mesmo processo, são duas orientações originariamente diferentes.
O homem começa o seu retorno à fonte quando concebe a ideia de ter já atingido o ponto extremo da matéria, agora deve virar-se e começar o processo de ἐπιστροφή (epistrophé) ou seja, de ascensão em direção ao Uno. Este retorno ou conversão começa no próprio momento em que uma pessoa se dá conta de estar enterrada no mais profundo da ilusão. Então deve afastar-se do fundo, sair, escalar, voltar à superfície. É aqui que realiza uma “ruptura de nível”, escolhendo bruscamente o ausente no lugar do presente, do disponível, do concedido. Neste primeiro gesto está já orientado, não ao catafático, mas ao apofático. Eis onde começa a teologia apofática. Tudo torna-se inferno, e nada mais. Mas o otimista escatológico não se desespera. Repõe a esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo [ou na Providência divina].
No contexto cristão propriamente dito, o modelo de ascensão é muito parecido àquele neoplatónico. O percurso de contemplação, o movimento em direção à eternidade, é descrito detalhadamente por João da Escada (são João Clímaco), por Simão o Novo Teólogo, por Gregório Palamas e pelos autores da Dobrotolubiya[1]. Particularmente próximo à teologia apofática e diretamente ligado a ela, está o ensinamento palamita sobre as "energias incriadas" do Deus incognoscível. A filosofia de Palamas pode ser considerada uma versão do optimismo escatológico – sobretudo a sua ideia de submissão da mente ao coração e do coração, por sua vez, a Deus e às energias divinas.
Estes são apenas os traços iniciais, os esboços daquilo sobre o qual estou trabalhando. Quiçá desenvolverei um curso de lições dedicadas a estes conceitos. Mas espero que os contornos estejam claros. Isso é aquilo que eu gostava de compartilhar convosco.
Uma última coisa: gostaria de agradecer a todos os participantes, porque a conferência de hoje fez-me escrever um caderno inteiro de anotações e em cada relação encontrei teses para mim muito importantes, que deverão ser ulteriormente desenvolvidas. (Nomeadamente por nós seus leitores e admiradores]
Enfim, esta conferência distinguiu-se pelo facto de estar muito próxima e ao mesmo tempo muito distante da vida. Próxima na medida em que estamos envolvidos na eternidade e distante na medida em que o mundo que nos circunda é uma ilusão.»
Este capítulo do livro Optimismo escatológico, da tradução italiana dada à luz por Maurizzio Murelli, dem 2023, na Aga Editrice, Milano, Darya Aleksandrova Dugina. La Mia Visione del Mondo. Ottimismo Escatologico foi traduzido por por Daniella Paez Coelho, com pequena participação e revisão de Pedro Teixeira da Mota. Anote-se que Alexander Dugin concordou com o acrescento no título e que além da nota do Editor, inicial, encerra com uma postilla ou apostilha posfacial, bem valiosa de Eliseo Bertolasi, antropólogo, especialista da Rússia e analista geopolítico para a Vision & Global Trends e que conviveu bastante com Daria, Darya ou Dasha.
Insere-se (perenemente) nas homenagens que lhe foram prestadas mundialmente no quarto aniversário da data - 20 Agosto de 2022 - do seu martírio pela causa da Verdade e da Liberdade, na Rússia sagrada, Europa tradicional e Filosofia Perene de que Darya era e é uma representante valiosa e inspiradora, nomeadamente com seu mantra do optimismo escatológico
Saibamos "concentrar-nos, alingar-nos e elevar-nos animicamente, resistir ao mal e participar no mundo rumo à multipolaridade, cultivando o bem interiormente, corajosamente", como ela nos segreda...
Muita Luz, Amor e Poder na alma espiritual de Dasha, para inspiração sua, nossa e da Humanidade!



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