Um dos capítulos mais importantes da valiosa hermenêutica d'Os Lusíadas realizada pela Dalila Pereira da Costa é intitulado o Duplo Celeste ou a Natureza Perfeita e nele ela cinge mais nua ou directamente o mistério do espírito e do Anjo, em Camões, e pena é que tendo-se realizadas várias comunicações ou palestras nas recentes comemorações camonianas, a sábia e algo heterodoxa Dalila nunca tenho sido referida.
Façamos-lhe justiça e transcrevamos o capítulo na sua totalidade:
«Neste episódio da Ilha Namorada, coroando a epopeia de Camões, o que haverá é essa sabedoria oriental; e na sua angeologia própria uma possível suspeita de heterodoxia para o mundo ocidental cristão; pois colocando em causa o seu monoteísmo e todo o dom de revelação e imortalidade doada aos homens pela sua perfeita união, identificação com o Cristo da Ressurreição e fonte de toda a Revelação. Imortalidade e revelação que, nessa outra sabedoria oriental, lhe será doada na sua perfeita união, identificação com o seu Anjo.
[Dalila valoriza assim na gnose e sufismo islâmico - a sabedoria oriental- , que perpassa em Avicena e em Camões, a ligação de cada alma ao Anjo, ao seu Anjo, contrastando-a com a doutrina ortodoxa cristã que tem apenas em Jesus o intermediário. Quanto já a colocar em causa o monoteísmo, não nos parece tanto, mas sim mais a Trindade, sem que os Anjos e demais espíritos celestiais, embora de algum modo deuses, não anulem a primordialidade Divina ou mesmo a sua Providência por eles realizada nas esferas pluridimensionais do Universo.]
Alquimia, mística, profecia e angeologia pedagógica se ligando neste processo. Pois aquilo que cada navegante e seu capitão realizam nesta ilha será o acto supremo de conhecer seu anjo e com ele se unir, para sua imortalidade. A alma só tomando consciência de si mesma, como Anima, poderá conhecer o seu anjo, ou duplo celeste. Ascese e auto-conhecimento, como prova necessária, de que a imagem e cenário será essa sua subida através dum mato «árduo, difícil, duro a humano trato». E ainda depois, a doação aos homens seus semelhantes, do conhecimento de revelação aí merecido e exaurido.
Será, supomos, esta suspeita de heterodoxia, que teria levado Camões à forma críptica com que revestiu uma sabedoria iniciática neste episódio. E sabedoria que estará dada e transmitida sob a imagística primeira, comum e aparente, dum bucolismo renascentista e duma mitologia e cenografia naturalista, tal a da Antiguidade clássica. A nostalgia do Paraíso vertendo-se no Renascimento muito preferentemente em formas bucólicas e pastoris.
[Dalila acentua a unicidade relacional de cada alma, com o seu anjo, ou duplo celeste, constituindo ela o cerne da imortalidade. A viagem é iniciática tanto pelo auto-conhecimento como pela ascese e coragem que os argonautas têm de manifestar para chegarem à ilha e ao seu Anjo. E assinala a prudência com que Camões revestiu de aparência bucólica e mitológica a sua visão esotérica ou iniciática, algo heterodoxa para a Igreja Católica.]
Assim, nos pares de Navegantes e Ninfas que realizam seu enlace pelas «sombras, antre as flores» e seu capitão e Tétis, que o realizam nos «altos paços», se esconderá, sob uma primeira e fácil imagem erótica, o mais exacto processo espiritual de comunhão, como enlace dum ser humano, imortal e angélico, em díade: como perfeição já atingida sobre a terra, antes daquela na morte. A natureza não terrena destas ninfas e seu dom aos navegantes, o dirá Camões, quando da partida da ilhas:
«Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente
Por mais que o Sol o Mundo aquente». C. X, 143.
[Dalila faz uma exegese bastante ousada ao considerar como «o mais exacto processo espiritual de comunhão» não a relação com o Mestre mas sim o «enlace dum ser humano, imortal e angélico, em díade», com a sua contraparte angélica, e vai mais longe de novo no seu voo algo heterodoxo, enaltecendo-a «como perfeição já atingida sobre a terra, antes daquela na morte», parecendo assim erguer o iniciado ou unido à sua natureza celeste acima do comum cristão que aguardará por uma perfeição post-mortem. Como se ver e unir-se a tal natureza seja em si o principal.]
Ninfas, como duplos celestes e iniciadoras: e entre todas a «Mor», da qual Vasco da Gama, é o companheiro na subida à montanha cósmica, como viagem ascética e mística. Subida, em ascensão mental, Tétis surgindo aqui na mesma função gnóstica e soteriológica do Arcanjo Gabriel nas visões de Daniel, do Arcanjo Uriel no Livro V de Esdras, do Arcanjo Gabriel em Tobias e o Anjo do Antigo Testamento, de Beatriz na Divina Comédia, ou de Hay ibn Yaqzan no relato visionário de Avicena. Tétis será aqui como este personagem do mestre islâmico, o Vivens e Vigilans, tal como o seu nome indica. Havendo n'Os Lusíadas, como nesse relato da sabedoria oriental islâmica [de Avicena], uma angeologia fundamental, ela ainda partindo duma pneumatologia: que por ela, revelará todo o parentesco celeste da alma humana.
[Dalila realça a função iniciática do Anjo, de Beatriz e de Tétis, relembrando também textos hebraicos que a contém nascidos do contacto ou influência da pneumatologia e angeologia persa, e aponta para a identidade celestial do espírito humano que lhe permitirá a união com o seu Anjo, em "ascensão mental", ou meditação, o que cada um de nós deve um dia merecer, ad astra per aspera e conseguir, assumir o mais indelevelmente possível.]
Notemos ainda em relação a Camões, uma só e unânime concepção antropológica e escatológica, presente, actuante e estruturante em toda a sua poesia, lírica, e épica. Para o poeta, a alma minha gentil» que subiu ao céu, tal Beatriz para Dante, e as mulheres amadas por todos os Fedeli de Amor, são suas metades angélicas e iniciadoras no mais alto mistério, o do conhecimento pelo amor.
[Eis uma das mais ousadas hermenêuticas da Dalila, em especial se a aplicássemos a todas as mulheres amadas por Camões: em todas estaria a ver a sua metade angélica, ou apenas nas que amou mais, ou em especial nos poemas em que tal veio ou tradição dos Fiéis do Amor se aperfeiçoou mais?
Algumas vias hermenêuticas de se aprofundar tal sentir e ver celestial na relação amorosa: Luís de Camões, na sua relação amorosa, vê a natureza celeste da amada? Ou graças a esse amor recíproco, a natureza celeste de cada um dos pares vem ao de cima ou torna-se sensível, perceptível? Ou são as mulheres que transmitem essa possibilidade de ligação com o Anjo ou natureza celestial delas?]
No regresso à pátria, como prémio do acto heróico da descoberta desse caminho do Oriente terrestre, o que ganham os navegantes lusíadas na Ilha do Amor, será sua natureza perfeita, como completude terrena e celeste, que lhe concederá a eternidade. Esse, o prémio que lhe irão também levar a seus semelhantes na pátria amada e por ela, ao mundo. Oculto no primeiro sentido humano e naturalista, o que se conterá nesses dois últimos cantos da Epopeia, como relato realizado e concedido complementarmente em dois registos paralelos e harmónicos, será de facto uma angeologia, que por ela, completará o total sentido dessa Epopeia.
Havendo assim, entre as múltiplas e todas as legítimas leituras desses dois episódios últimos, como leitura histórica, mitológica, geográfica, literária, filológica ... uma outra possível, hermética, por acto de exegese dos símbolos. E que neste episódio atingirá todo o seu sentido de liturgia: como arte hierática, tendo como fim a transmutação do homem. Só depois dessa transmutação, os heróis poderão regressar à pátria.
Demanda do Oriente qual a via? Perguntará o gnóstico, filósofo hermético ou iniciado. Camões, como um deles, a encobre nessas vestes ou roupagens de nosso mundo natural; e depois ainda a dá como etapa necessário para esse regresso à pátria terrestre, como dom supremo concedido pela Ninfa mistagoga a esses heróis navegantes.
Podei-vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, pera a Pátria amada.
Assim lhe disse; e logo movimento
Fazem da Ilha alegre e namorada. C. X, 143.
[Dalila explicita de novo que toda a simbologia e liturgia hierática dos dois cantos finais tende à transmutação (e iniciação) do homem, e o que os argonautas iniciados receberam é «a sua natureza perfeita, como completude terrena e celeste», a qual lhes concede a eternidade, ou dito de outro modo, com a qual eles viverão eternamente ,e que levam consigo no regresso para partilhar com os portugueses.
Quantos a conseguiram conservar, quantos a conseguiram receber dos iniciados Luís de Camões, Vasco da Gama e navegantes, directamente por transmissão viva, ou através de subtis transmissões e intuições ao longo de tantos séculos de leituras e exegeses de Os Lusíadas?]
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