segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Daria Dugina: "Monte Athos, princípio feminino, apofatismo e optimismo escatológico". Elevação anímica, resistir ao mal e participar no mundo, cultivando o bem interiormente.

    O texto que vamos apresentar-se refere-se a uma ilha grega que é habitada só por monges, distribuídos por vinte mosteiros magníficos e pequenos eremitérios, e que é coroada pela montanha mais sagrada da tradição ortodoxa, que eu já há muitos anos também peregrinei  (2.000),  sendo interdita às mulheres (e os homens apenas poucos dias a podem visitar), embora uma tenha conseguiu entrar disfarçada, a valiosa investigadora e escritora Marise Choisy, publicando em 1929, Un mois chez les hommes.
Daria ou Darya Dugina, sem abdicar da sua identidade feminina subiu à montanha na sua dimensão espiritual, e animada pelo seu optimismo escatológico, de matriz cristã ortodoxa, e profundamente conhecedora delas, mas não só, pois referencia-o em filósofos da revolta, como Nietzche e Cioran, e em filósofos da Tradição perene, tais René Guénon e Julius Evola, e partilha algumas notas, reflexões e intuições, realçando a necessidade  de termos menos dispersão e maior concentração para conseguirmos elevar-nos na nossa alma ao  Intelecto puro e ao espírito (nous), e recebermos ou contemplarmos as energias ou bênçãos divinas, ou mesmo o Uno, o Bem, o Absoluto, a Divindade e assim podermos resistir a tanta força negativa, cultivando interiormente o bem e a nossa ligação vertical e axial.

Monte Athos, princípio feminino, apofatismo e otimismo escatológico

 

1. O «Athos das mulheres»: peculiaridades da consciência feminina

É sabido que as mulheres não são admitidas na Montanha Sagrada. Há algo de justo nisto. A tal propósito, pode-se lembrar o starez [ancião ou mestre] Paisios, do Monte Athos. Recentemente li um dos seus textos e encontrei uma citação que descreve com acurácia a condição normal da consciência feminina. Se ela não se encontra num estado de oração, funciona assim:
«Constantemente as nossas orientações deslocam-se para uma e outra frequência. No momento em que o asceta está pronto para chegar a algo de comovente, - «click!». Muda a sua sintonia para qualquer outra coisa. No momento em que se lembra de algo de espiritual -«click!» - de novo vem-lhe à mente outra coisa. É assim que o inimigo confunde continuamente o cristão. Se a pessoa percebe como o diabo trabalha, libertar-se-á de muitas coisas».
Aqui estamos a falar do diabo, dos instrumentos do diabo, que tenta distrair as pessoas, mudando continuamente as suas mentes. Analisando a nossa consciência, e, mais amplamente, aquela das mulheres, podemos dizer que o mesmo click acontece constantemente em nós. O próprio facto de não ser permitido às mulheres irem à Santa Montanha do Athos permite-nos antecipar o mundo singular da mente masculina, do milagre masculino. Este é o valor. Significa a capacidade de concentrar-se e focar-se no essencial, ou seja, Cristo. [ou Deus].
Se olharmos a mulher por um outro lado, há uma outra dimensão nela muito importante, como escreveu Tatyana Mikhajlovna Goricheva [1947-2025]. Trata-se da predisposição natural das mulheres para a teologia apofática e a experiência mística. Não obstante a distância da mulher em relação à mente analítica masculina, e de um intelecto árido, que pode dividir o mundo diúrnico em "sim-não", "estranho-próprio", a mulher tem uma abertura à teologia apofática. Dentro de si ela nutre, por assim dizer, o próprio Athos feminino". Este é o seu espaço ideal e se conseguir superar a modalidade da tentação constante devida à passagem da atenção de um para outro, se passar ao majestoso mundo místico interior, se esforçar-se por reunir um outro nível - mais profundo, mas sempre essencialmente feminino - pode tornar-se participante da teologia apofática.
Tatyana Mikhajlovna Goricheva afirma que para as mulheres esta profunda penetração na dimensão interior pode, por vezes, superar a sequência masculina de queda e re-ascensão. Cita o exemplo de Maria Egípcia. Esta é uma imagem estupenda de uma grande mulher virtuosa cristã, que demonstra como a ascensão de uma mulher do abismo da queda, do fundo, é incrivelmente difícil, mas, de qualquer forma, possível.
Portanto, simultaneamente à sua capacidade de mudar, a mulher pode também ser extraordinariamente sensível à teologia apofática e à experiência mística da saída deste mundo em direção a um mundo diferente. Isso acontece nela seja através da oração, seja através da capacidade de visões espontâneas. Se lermos as vidas dos santos, podemos encontrar nelas exemplos de manifestações da própria Divindade e das energias divinas associadas às santas, ao mesmo tempo que exemplos da contemplação mais elevada.
Paradoxos do abandono
Gostava de citar uma hipótese interessante sobre a qual refleti ultimamente e à qual dediquei várias lições e participações: a hipótese do optimismo escatológico. Como nasceu essa hipótese? Nasceu quando me deparei pela primeira vez com o livro VII da República de Platão, em que se discute a necessidade do filósofo de descer novamente à caverna, após tê-la já abandonada. Eu não conseguia entender um ponto: porque, se o filósofo estava profundamente infeliz naquela caverna, deveria para lá voltar, descer novamente, após ter descoberto o verdadeiro mundo das ideias, fora da caverna escura, húmida e inóspita, repleta de fantasmas e de sombras? Diga-se de passagem, poucos estudiosos do platonismo prestaram suficiente atenção a esta pergunta. Porque o filósofo desce? Esta decida é o aspeto mais substancial no mito platônico da caverna.
Além disso, lendo os neoplatónicos, notei a desordem ontológica destes, pelo facto de que foram jogados neste mundo material corpóreo, o qual, em confronto com os mundos intelectuais das ideias e do verdadeiro ser, é deturpado e insignificante, e leva apenas à decadência e a alterações. Neles, todavia, é possível encontrar também uma apologia de tal abandono deste mundo, o reconhecimento da necessidade de estar no corpo como parte do plano harmonioso da Mente [ou Intelecto agente Universal]. Isso pode ser considerado como optimismo escatológico.
A seguir, na teologia cristã, quando conheci as obras dos santos Pais [ou Padres] e dos grandes teólogos, descobri novamente o tema do abandono do homem neste mundo pecaminoso, mas ao mesmo tempo a necessidade de permanecer nele, viver nele, mesmo resistindo a ele. Apesar de todas as condições vinculantes deste mundo, é necessário resistir ao mal e aceitar o mundo, cultivando o bem dentro de si mesmo.
Muito bem, quando eu lia filósofos modernos pós-cristãos, como Emil Cioran ou Friedrich Nietzsche, eu via neles o mesmo problema: o desespero de serem lançados no mundo da matéria, mas, ao mesmo tempo, a vontade de superá-la. Assim, pouco a pouco veio-me à mente o termo “otimismo escatológico”.
Os três postulados do optimismo escatológico
Segui o optimismo escatológico de Platão através dos neoplatónicos, o neoplatonismo cristão, Hegel até Nietzsche, Evola e Cioran. Esse fenómeno, na minha opinião, encontra-se também no Athos. O ápice desse fenómeno é a fórmula de são Soliane, o Atonita [1886-1937] com a sua máxima “Mantém o teu espírito no inferno e não desesperes nunca”, da qual uma bela interpretação é dada pelo starez Sofrónio (Sakharov).
Quais são os fundamentos deste optimismo escatológico?
O primeiro postulado: o que nos circunda, o que nos é dado, tudo o que percebemos como dado imediato da realidade é uma ilusão. Ou, para usar as palavras de Soliane Atonita, um inferno.
O segundo aspecto ou postulado desta visão do mundo: o fim do mundo é o fim da ilusão. Aqui podemos recordar René Guénon, que escreveu: “O fim do mundo não é jamais e não poderá jamais ser outra coisa senão o fim de uma ilusão”.
O terceiro postulado: mesmo sabendo que tudo é finito, que somos lançados nesta ilusão, que estamos separados das nossas origens, que estamos no inferno, devemos, mesmo assim, e apesar de tudo, agir para a eternidade; estar aqui, para criar uma vertical transcendente em oposição a este mundo – o mundo do pecado, do ilusório, do mal. Devemos resistir ao inferno, àquele “click!”, segundo, Paísio do Monte Athos [ou Atonita,1924-1994], que o diabo provoca em nós – e sobretudo nas mulheres – a cada minuto de cada dia, a cada segundo, para que desviemos o olhar da contemplação do Supremo. Mais ao alto em relação a nós está a alma, a Mente [diremos o Intelecto superior, ou mesmo espírito, o nous grego, e aqui a tradução italiana falhou ao dar mente] e o Uno. Todas as hipóstases neoplatónicas de Plotino. Importante: não apenas o Uno apofático. Para passar ao Uno, devemos ainda realizar uma longa e difícil ascensão, que exige “romper o nível”, superar o horizonte humano, passar do corpo à alma, depois à Mente[-Intelecto agente-Espirito], e ainda além – além dos limites internos da Mente até a contemplação directa das energias divinas. Essa ruptura superior do nível pertence já ao reino da teologia apofática.
Optimismo escatológico e apofatismo cristão
Quando comecei a reflectir sobre a relação entre o optimismo escatológico e a tradição cristã, dei-me conta de que é na teologia apofática que o optimismo escatológico se manifesta mais plenamente. Aqui há uma consciência da vaidade, da pobreza ontológica, da finitude deste mundo, da caducidade do “a nós tangível” que nos circunda-nos que nos parece natural. Ao mesmo tempo, a ação do apofatismo irrompe no mundo “aqui”, mas é dirigida para o mundo “lá”, um lançar-se desesperado e brusco da consciência. Isso corresponde ao terceiro princípio do optimismo escatológico: mesmo sabendo que tudo é finito, que tudo é ilusório, agir em nome da eternidade. Descobre-se que o comportamento de base do optimismo escatológico está extremamente ligado à teologia apofática. A experiência mística inicia-se quando ainda se está no mundo da ilusão, não para além deste.
Um ponto importante: a teologia apofática não pode ser considerada uma etapa determinada. É opinião comum, na história da filosofia e da teologia, que se deva inicialmente dominar o método da teologia catafática – falar de Deus através das categorias do mundo para elevá-las a um grau de perfeição – e apenas depois passar à teologia apofática como passo sucessivo, mais alto. Todavia, na esfera da experiência mística não existe um tempo linear, no sentido em que estamos acostumados a pensar no nosso mundo, que, gostava de lembrar, não é nada senão ilusão. A sequência: “primeiro a catafática, depois a apofática” não é temporal. Ambas as abordagens são sincrónicas, simultâneas. Não são fases diferentes de um mesmo processo, são duas orientações originariamente diferentes.
O homem começa o seu retorno à fonte quando concebe a ideia de ter já atingido o ponto extremo da matéria, agora deve virar-se e começar o processo de ἐπιστροφή (epistrophé) ou seja, de ascensão em direção ao Uno. Este retorno ou conversão começa no próprio momento em que uma pessoa se dá conta de estar enterrada no mais profundo da ilusão. Então deve afastar-se do fundo, sair, escalar, voltar à superfície. É aqui que realiza uma “ruptura de nível”, escolhendo bruscamente o ausente no lugar do presente, do disponível, do concedido. Neste primeiro gesto está já orientado, não ao catafático, mas ao apofático. Eis onde começa a teologia apofática. Tudo torna-se inferno, e nada mais. Mas o otimista escatológico não se desespera. Repõe a esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo [ou na Providência divina].
No contexto cristão propriamente dito, o modelo de ascensão é muito parecido àquele neoplatónico. O percurso de contemplação, o movimento em direção à eternidade, é descrito detalhadamente por João da Escada (são João Clímaco), por Simão o Novo Teólogo, por Gregório Palamas e pelos autores da Dobrotolubiya[1]. Particularmente próximo à teologia apofática e diretamente ligado a ela, está o ensinamento palamita sobre as "energias incriadas" do Deus incognoscível. A filosofia de Palamas pode ser considerada uma versão do optimismo escatológico – sobretudo a sua ideia de submissão da mente ao coração e do coração, por sua vez, a Deus e às energias divinas.
Estes são apenas os traços iniciais, os esboços daquilo sobre o qual estou trabalhando. Quiçá desenvolverei um curso de lições dedicadas a estes conceitos. Mas espero que os contornos estejam claros. Isso é aquilo que eu gostava de compartilhar convosco.
 
Uma última coisa: gostaria de agradecer a todos os participantes, porque a conferência de hoje fez-me escrever um caderno inteiro de anotações e em cada relação encontrei teses para mim muito importantes, que deverão ser ulteriormente desenvolvidas. (Nomeadamente por nós seus leitores e admiradores]
Enfim, esta conferência distinguiu-se pelo facto de estar muito próxima e ao mesmo tempo muito distante da vida. Próxima na medida em que estamos envolvidos na eternidade e distante na medida em que o mundo que nos circunda é uma ilusão.»
Este capítulo do livro Optimismo escatológico, da tradução italiana dada à luz por Maurizzio Murelli, dem 2023, na Aga Editrice, Milano, Darya Aleksandrova Dugina. La Mia Visione del Mondo. Ottimismo Escatologico foi traduzido por por Daniella Paez Coelho, com pequena participação e revisão de Pedro Teixeira da Mota. Anote-se que Alexander Dugin concordou com o acrescento no título e que além da nota do Editor, inicial, encerra com uma postilla ou apostilha posfacial, bem valiosa de Eliseo Bertolasi, antropólogo, especialista da Rússia e analista geopolítico para a Vision & Global Trends e que conviveu bastante com Daria, Darya ou Dasha.
Insere-se (perenemente) nas homenagens que lhe foram prestadas mundialmente no quarto aniversário da data - 20 Agosto de 2022 - do seu martírio pela causa da Verdade e da Liberdade, na Rússia sagrada, Europa tradicional e Filosofia Perene de que Darya era e é uma representante valiosa e inspiradora, nomeadamente com seu mantra do optimismo escatológico 
                                            
Saibamos "concentrar-nos, alingar-nos e elevar-nos animicamente, resistir ao mal e participar no mundo rumo à multipolaridade, cultivando o bem interiormente, corajosamente", como ela nos segreda... 
Muita Luz, Amor e Poder na alma espiritual de Dasha, para inspiração sua, nossa e da Humanidade! 

domingo, 23 de agosto de 2026

Tomar sagrada: imagens da Igreja de S. Francisco, em Tomar, do séc. XVII. Breve hermenêutica.

      Imagens de uma peregrinação a Tomar e às suas igrejas e convento de Cristo: Igreja  de S. Francisco.
  Fundado o Convento por ordem ou autorização do rei D. Filipe III em 1624  por frades franciscanos provenientes do eremitério de Santa Cita, a construção da Igreja de correrá de 1628 até 1636, tal como regista uma lápide na capela-mór, a qual foi contudo algo invadida em 1945, quando se instalou no seu centro, atrás das quatro colunas torsas ou em espiral,  um grande calvário proveniente do mosteiro das Trinas, na Madragoa, Lisboa. Que pinturas e talha existiriam antes, o que foi destruído pelo tempo, a incúria e os seus possuidores ou usufrutuários militares desde a extinção das ordens religiosas em 1834 desconhecemos...
A igreja tem um bom grupo de paroquianas que animam a Igreja e o culto, e chegamos na manhã de Domingo à mesma hora, 10.00, que o frade franciscano que iria celebrar a Eucaristia. Não visitamos o claustro do convento.
Há algumas pinturas murais do séc. XVII valiosas e belas, tal como alguma estátuas, destacando-se uma do mestre Jesus muito animada, uma de S. Francisco e outra de S. Iria, a principal santa com raízes míticas grade
Uma nossa Senhora toda de branco, provavelmente casamenteira abençoa também, mas inegavelmente é o mestre de Jesus, que mesmo açoitado e feito Ecce Homo,  Senhor da Paixão e doador do sangue purificador do pentagrama das Chagas, quem mais transborda do subtil amor...














Na terra e céu principal dos cavaleiros Templários e da Ordem de Cristo, Tomar, não podia faltar o brasão franciscano, na igreja da Ordem, ou não tivessem sido eles, no dizer abalizado de Jaime Cortesão, a outra coluna da edificação religiosa e espiritual dos Descobrimentos, certamente com muita limitação humana. Daí as cinco chagas de Jesus, de S. Francisco Xavier, do Padre Pio e dos demais que sofrem religiosamente, transmutadoramente, ao lado das cinco quinas de Portugal, sustentada pelos Anjos e Arcanjos que ao longo dos séculos nos têm inspirado. Lux Amor!

sábado, 22 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: A revelação do Amor na iniciação feminina nos Lusíadas e na Divina Comédia. O optimismo escatológico de Camões, A iniciação na Unidade.,

    Dalila Pereira da Costa no seu livro Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, mostra-nos Vasco da Gama, nos dois últimos cantos d'Os Lusíadas, sob a orientação de Tétis, sua guia e iniciadora feminina, a realizar a sua ascensão  espiritual e iluminação cósmica, e  finaliza assim o capítulo abordado no artigo anterior: «Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação nele, no seu mais fundo abissal», e em seguida  amplifica algo dramática e abissalmente os efeitos desse encontro: «Tal foi também para Camões e esses poetas italianos, o conhecido [fundo abissal] da mulher amada. É uma morte iniciática o que provoca a sua contemplação: poderoso choque que levará o amante a outro nível espiritual da vida: ou o fará morrer. Dirá Dante: «transformar-se-á em nobre coisa ou morrerá» (Vita Nova, 11, 19) (...) 
Explicitará, após esta algo dramatizada, a ser tomada à letra, avaliação das consequências possíveis  da contemplação da Mulher divina, da Shakti, e da sua revelação iluminante, que: «Na linguagem hermética, esta mulher que tal poder poder tem, é a Nossa Eva Oculta. À sua aparição, o amante fica como morto, "foge, se a morte te aborrece" (recomenda Dante na Vita Nova, XV, 4). O que esta mulher realiza na vida do amante, é de de facto tornar essa força antropocósmica, o amor, de latente a activa: como um seu acordar: daí, o sentido de Vita Nova: morte, a que se segue vida verdadeira, como imortalidade iniciática.»
Dalila Pereira da Costa vê assim no homem a intensificação psico-somática da capacidade de reconhecer-acolher-intuir o Amor como um despertar, ou impulsionar, provocado pela sua amada, guia e iniciadora,  abrindo-o  à plena energia "antropocósmica, imortalizante". 
Na realidade subtil, como alguns sabem, desde Pitágoras e Dante, o Amor foi dito mover todas as esferas, embora poucos as deixemos animarem-se dele (amor) suficientemente para nos libertarmos de tanto condicionamento e apreensão, ignorância e falsas identificações.
Um salto grande será dado, ainda que não plenamente explicado por Dalila, ao abordar ou melhor mencionar em seguida o Rebis, o Andrógino, a unificação das duas polaridades no ser, objectivo alquímico que a maioria das pessoas ignora fora da constatação das qualidades de natureza mais feminina e masculina que possuem: «Poder-se-á ainda notar o carácter hermético desta função da mulher, como união perfeita, entre amante e amada, nos Fiéis do Amor: como realização do andrógino, Rebis, em todo seu valor e natureza transcendental então possuído. [Bem difícil de se abranger e avaliar dentro de cada um e na unidade dos dois feitos um...]. 
Daí ainda, o alto significado do soneto de Camões já citado: "Transforma-se o amador na coisa amada". Tanto para os Fiéis do Amor, como para os [poetas] provençais, se dará esta realização, da união perfeita [mais, poeticamente ou a certos níveis anímicos] Dante dirá "assim eu sou Ela" e Camões "Olhai-me a mim, que sou feitura vossa". Para o poeta italiano como para o poeta português, este amor provoca uma sujeição  do espírito vital, com todos os seus liames, à terra, ao destino. A amada sendo aqui empossada dum  poder de iluminação e libertação» 
Compreendemos assim melhor a morte iniciática pela Dalila e os nossos mestres do Amor afirmada, pois morrem os amores menores, os liames, o que brota do espírito vital e astral mediano, as provações e limitações do destino são ultrapassados pelo desabrochar do amor pleno, que assim liberta e ilumina, tanto mais que o poeta manifesta um optimismo escatológico (como nos nossos dias Daria Dugina bem desenvolveu], ainda que sujeito a erros e má fortuna do seu amor ardente, mas que como o sol acaba sempre por triunfar das nuvens, conforme Dalila lembra, nos sonetos CXVI e CCXII, ao concluir este capítulo, Os Fiéis do Amor.
Realcemos porém ainda a identificação mais forte, quase advaitica (ou não dual), o "eu sou Ela" de Dante, pois um dos mantras dados pelos mestres indianos dos Upanishads (no Isha Upanishad, v. 16) e ao longo dos séculos realizado, ou apenas repetido mentalmente como oração, aspiração e auto-sugestão, é  So ham asmi, Eu sou Ele, sou o Espírito, Brahman...  
Aqui em Dante é "eu sou Ela", mas se no Ela se realiza (como parece denotar a maiúscula empregada) também a Divindade, o princípio feminino divino, a Shakti, ou a Santa Sophia, na amada, então há uma unificação mais plena e divina.
O dito camoniano é igualmente unificador e profundo mas diferente : Camões «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa»: 
"Olhai-me", injunção para uma acto de visão e contemplação, mas o "mim" em seguida introduz como que um segundo sujeito, ou um reforço e aprofundamento do Eu que é visto, contemplado pela amada, a mestra, ou até a Natureza angélica, apelando a uma relação amorosa e unitiva que não fique na aparência corporal e psíquica mas chega ao cerne e centelha do Ser. 
Podemos considerar em termos do caminho espiritual iniciático que o  «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa», é um bom mantra para não nos dispersarmos tão facilmente para fixarmos melhor a substância psíquica nas meditações e contemplações que fazemos, rumo ao segundo sujeito ou Espírito, ou ao eixo vertical com o Anjo, a Inteligência agente, o Amor. 
O "feitura vossa", tem também um nível bem esotérico e iniciático, pois indica que o amante é modelado ou feito por ela, feito à imagem e semelhança do que ela como mestre de Amor desperta nele espiritualmente e psico-somáticamente, uma ousada ou heterodoxa afirmação da re-criação do ser humano, algo ocultada sobre o mais discreto e materializado termo "feitura".
"Olhai-me a mim, que sou feitura vossa", quererá dizer ainda que o olhar amoroso da amada faz-me ou torna-me segundo o modelo primordial do Amor unificador: - Sou um convosco e modelado por vós e o Amor. Somos uma unidade, na identidade suprema, na Unidade. 

                                              

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: para o Fiel do Amor, o Amor é uma força cósmica, encarnada numa mulher divinizado. Hermenêutica das "Raízes arcaica.s da epopeia portuguesa camoniana"

                                                                            

Avancemos, após três artigos já publicados no blogue,  na nossa transcrição e hermenêutica das Raízes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, obra onde Dalila Pereira da Costa partilha a suas valiosas compreensões e intuições de alguns dos grandes mistérios da espiritualidade  e particularmente na tradição persa, na de Dante e dos Fiéis do Amor e em Camões e sua poesia lírica e épica.

A sua tese fundamental é a de que as mulheres amadas, ou as ninfas, ou as mestras iniciáticas, são "tipificações" da natureza angélica, da Inteligência Agente, da santa Sophia, do Amor. 

Dalila relembra a tradição italiana dos Fiéis do Amor, que também têm sido denominados Cavaleiros do Amor, desenvolvida exemplarmente por Dante com Beatriz e discerne-a em Camões, em alguns sonetos famosos de grande amor, considerando que em tal divinização da mulher se encontra a mesma realidade que na ninfa Tétis,  a exemplo de Beatriz, a iniciadora de Dante, 

Escreve então: «A figura do Anjo, como Inteligência agente, se apresentará nos Fedeli d'Amor tal como nos poetas e místicos persas e iranianos, tipificada igualmente numa figura feminina: que realizará para eles a sua completude perfeita, como seres humanos. Seria esta, a religião secreta de Dante e seus companheiros, assim como a de Camões.»

 "Tipificada igualmente numa figura feminina" escreveu Dalila. Eu talvez mais realisticamente diria: manifestada, avatarizada numa mulher (em vez de figura). Ou poderia mesmo dizer incarnada, ou então pelo menos personalizada numa mulher concreta.

Há contudo uma pluridimensionalidade neste processo de realização da natureza angélica, seja nossa, seja da mulher amada, a qual não se consegue discernir facilmente e que Dalila embora tocando aqui e acolá não afirma ou resolve claramente, pois na realidade são níveis bastante elevados tanto de amor como de realização espiritual e que geralmente são ignorados ou então silenciados, ocultados, ficando apenas para os iniciados ou os amorosamente beatificados e iluminados.  

«Assim  Beatriz para Dante na Vita Nova e Divina Comédia, Giovanna para Guido Cavalcante, ou aquela que para Dino Compagna é l'amorosa Madonna Intelligenza», Laura para Petrarca, Natércia para Camões - serão a tipificação feminina dessa Inteligência agente. E a união do poeta com esse anjo do conhecimento, é uma união de amor e com todos os sinais duma experiência pessoal vivida. Não pura alegoria, abstração esangue ou metáfora. Todas essas mulheres cantadas pelo Fedeli d'Amor, foram mulheres reais e concretas, vivendo sobre a terra contemporaneamente aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes: como aparições aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes; como aparições aos poetas da Sophia Intelligencia, Sabedoria, iniciando-se [ou iniciando-os] nos mistérios do conhecimento supremo, o do Amor. Tal ainda mais tarde, no Romantismo alemão, Suzete Gontard para Hölderlin. Função sacerdotal continuando a de Diotima, no Banquete de Platão.
Dando-se assim por parte desses poetas, uma sublimação, transmutações desses seres femininos, e não uma sua abstração. Eles viam, através de sua beleza, que sempre foi cantada em termos de louvor sagrado, da mulher terrestre, o ser angélico.
Esta concepção dos Fiéis do Amor, com todo o processo de revelação e sublimação individual através da pedagogia do Anjo estaria assim em oposição ao cristianismo oficial da Igreja, como a única detentora, depositária, da revelação. Comunidade de poetas e místicos que se manifestará como corrente espiritual secreta, desde o próximo Oriente no séc. XII, Shorawardi [1154-1191], século XI, Avicena [980-1037], etc., depois através da Itália no século XIII até Portugal no século XVI.»

Dalila prossegue depois na observando em Camões a distinção do amor carnal e do amor espiritual (talvez algo dualisticamente, pois a coincidentia oppositorum é fulcral) e a «imaginação criadora como a força da transmutação dos dado sensíveis», imaginação à qual deveremos acrescentar a visão espiritual (algo que Dalila, seguindo Corbin, por vezes não realiza),  a qual permite ser a «mulher elevada à esfera do divino, e assim partilhando de todo o seu mistério insondável, inviolável ao humano», elevação dela por graça, visão, sentimento e poder.

Dalila, considerando quase irrelevante saber-se a identidade histórica das mulheres amadas por Camões na sua poesis, tanto mais que no amor cortês se devia guardar em segredo a identidade da amada, afirma «o facto relevante, como para todo o Fiel de Amor, será a transmutação que o poeta realizou sobre uma mulher sua contemporânea, real, elevando-a a figura angélica, como metade transcendente de seu ser terreno, ou reflexo no tempo - pela força transmutadora da imaginação criador». [Não apenas, mas também visão sentida interiormente] «Fermosos olhos, que na idade nossa/ Mostrais do céu, certissimos sinais,/ Se quereis conhecer quanto possais/ Olhai-me a mim, que sou feitura vossa (...) E se ver-vos nesta alma, enfim, quiserdes,/ Como num claro espelho, ali vereis/ Também vosso angélico e sereno» (XXXIII).

Em seguida aborda Dalila Pereira da Costa o mistério cerne da iniciação, o Amor, e escreve: «Camões cantará nos seus sonetos, o amor tal o ensino de Platão no Banquete e no Fedro; e como já tinha sido cantado por Dante e os Fideli d'Amor: força cósmica, encarnada numa mulher divinizada. Será ela, tal Diotima do Banquete, que surge como a iniciadora dos homens nesse caminho do conhecimento supremo. Um mesmo movimento de transcensão haverá, subida do humano ao transhumano, celeste, percorrendo os sonetos de Camões, mas marcando-os por esse tom inconfundível e único da nostalgia paradisíaca portuguesa, a saudade; quer se expresse como desejo de regresso à pátria, terra primeira, (...) quer se expresse como desejo de união do amante com a amada, alma angélica que vive no céu, ou nessa pátria celeste. [Ou que vive na terra...]
E será ainda e sempre esse mesmo movimento que marcará o fim, como completude atingida, da aventura de Vasco da Gama n'Os Lusíadas, sob a conduta da Tétis, seu guia, iniciadora feminina, levando-o a uma ascensão espiritual.
Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação a ele, no seu mais fundo abissal. Aí já se tendo ultrapassado o nível profano.»

Possamos nós sentir, intuir e  ver o Amor como  força cósmica, e que encarna na mulher amada e, erguida do seu fundo e potencial, angélica e divina. E vice-versa... O que está em cima é como o que está em baixo para se realizar o milagre da unidade da natureza perfeita ou celeste.

Continuaremos no artigo final. Lux, Amor, Amor!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Minha Filha - Aletheia", por Alexander Dugin. A 20/8/2026, aniversário da trágica morte de Daria ou Dasha Dugina.

 Minha Filha - Aletheia.

Eis-nos com uma hermenêutica muito poética, bela e espiritual gerada e dada por Alexander Dugin acerca da alma e as ideias, a morte e a missão de sua filha mártir Daria Dugina Platonova, um símbolo filosófico vivo da Verdade, Aletheia, e ainda como comungarmos com ela e intensificar o seu Optimismo Escatológico, nestes tempos de fim [das ilusões sobre este] mundo, e de desvelamento mais intenso do rosto ou visão da Verdade, Justiça e Amor, para os que lutam interna e externamente, para um mundo multipolar harmonioso.
   «Nossos amigos — os amigos italianos de Dasha, amigos da Rússia, amigos da minha família — decidiram honrar a memória de Daria Dugina neste 20 de agosto de 2026, o aniversário de sua trágica morte, com um festival intelectual — um festival filosófico, musical, criativo.
Estou emocionado que a memória da Dasha não esteja a apagar-se. Os seus textos estão sendo publicados, as suas ideias continuam a ser discutidas, a sua figura não está a murchar.
Platão disse que as ideias ou voam ou morrem. As ideias de Dasha estão voando alto. Elas estão a inspirar outros para grandes feitos. Não creio que se trate de um fenômeno de massa, embora na Rússia todos já conheçam Dasha. As ruas foram nomeadas em  homenagem a ela; monumentos foram erguidos em sua honra; canções e poemas, ilustrações e festivais, museus e exposições são dedicados a ela.
No entanto, Dasha continua a ser um símbolo incomum. Ela inspira, acima de tudo, aquelas pessoas diferenciadas que, embora habitem o mundo moderno, não pertencem a ele e estão separadas dele em virtude da diferença na sua natureza interior. [Mundo, valores e qualidades espirituais mais presentes neles]
A própria Dasha era diferente. E ela expressou essa consciência numa de suas principais ideias: o otimismo escatológico — ser activo no mundo, e até parcialmente aberto a ele, com a clara consciência de que o fim deste mundo está mais próximo do que nunca.
Além disso, Dasha é um símbolo filosófico. Não é por acaso que o escultor Dmitry Alexandrov, amigo de Dasha, criou um monumento a ela que a retrata com um livro. O livro não tem título, mas eu acho que é de Platão. [Ou os seus livros, ou o Livro em si...]

Dasha tinha muitos talentos e facetas, mas a filosofia era a mais importante para ela. Se uma pessoa conseguir encontrar uma entrada aberta para o palácio fechado da filosofia, nunca preferirá outra coisa. Dasha encontrou tal entrada. E ela estabeleceu-se para sempre no palácio cerrado da filosofia.
O festival realizado em homenagem a Dasha neste mês de agosto foi chamado Dasha-Aletheia. Com esse nome, os organizadores provavelmente queriam enfatizar a dimensão filosófica da figura de Dasha. Desta vez não se trata da sua religião, da sua visão política, da sua criatividade musical e poética, ou do seu patriotismo ativo, mas sim de filosofia.
Vou tentar compartilhar algumas reflexões nessa direção.
Heidegger interpretou a palavra grega aletheia como "desocultamento" (Unverborgenheit). Se a verdade é desvelamento, então é o ocultamento que vem primeiro. A verdade nunca nos é simplesmente dada. Deve ser buscada. A verdade exige esforço, descoberta, revelação, a abertura da revelação [perseverança].  O que é primário em Ísis é o seu véu. Mas o véu de Ísis não é uma máscara, como se estivéssemos lidando apenas com um sujeito disfarçado de outro. Ninguém sabe o que realmente está escondido atrás do véu.
O mundo ortodoxo conhece a Mãe de Deus de Kikkos, um ícone que se encontra num mosteiro no Monte Kikkos, em Chipre. Este ícone é único porque o seu rosto está permanentemente escondido dos olhos humanos por um manto e uma moldura especiais. Segundo a tradição, olhar para o ícone pode ser perigoso. Há o relato bem conhecido do Patriarca Gerasimos de Alexandria, que em 1699 ousou levantar ligeiramente o manto e ficou imediatamente cego. Ele foi curado só após um arrependimento sincero. Segundo outro relato, acredita-se que o ícone possui uma graça tão poderosa que é simplesmente perigoso para uma pessoa vê-lo na sua totalidade.
Da mesma forma, a verdade, aletheia, é aquilo que é perigoso ver na sua totalidade. Ninguém sabe o que está por trás do véu…
Quando uma pessoa morre, ela vai além do véu. Não se deve perturbar o falecido de forma insistente. É preciso aprender a honrar reverentemente o véu. Portanto, o "desvelamento" da verdade deve ser entendido não como ousar olhar por detrás do véu, mas como circunavegá-lo reverentemente. É uma dança hermenêutica. [Para ser feito em tudo, de maneira sagrada...]
Se formos falar da aletheia de Dasha, sobre a verdade de Dasha, então aproximar-se dela exige que mantenhamos alguma distância.
Acredita-se que os textos mais comoventes da história tenham sido escritos sobre o amor. Provavelmente isso é verdade. No entanto, pensadores e poetas alcançaram o auge de sua capacidade de descrever a dor emocional quando perderam suas filhas. Com respeito à profundidade absoluta da tragédia, nada se compara à Consolatio de Cícero. Foi inspirada pelo tratado Sobre o Luto (Περὶ πένθους) do platónico grego Crantor. Crantor escreveu este texto como  consolação para o seu amigo Hipócrates. Lactâncio disse muito apropriadamente sobre Cícero — e eu [Dugin] poderia facilmente aplicar essas palavras a mim mesmo —:
"M. Tullius na sua Consolação diz ter sempre lutado contra a Fortuna e de tê-la superado quando repelia bravamente os ataques dos inimigos: nem mesmo então se deixou vencer por ela, quando foi expulso de sua casa e perdeu sua pátria; mas, quando perdeu sua filha mais querida, confessa-se vencido pela Fortuna de forma vergonhosa: "Cedo" – diz ele – "aqui, levanto a mão."
John Donne também dedicou uma das maiores obras da poesia inglesa e mundial à morte da filha de seu amigo Robert Drury, Elizabeth. Ele chamou-a d' A Anatomia do Mundo e escreveu sobre a "decadência do mundo." Após a morte de uma filha amada, o mundo desmorona nas costuras. Já não é inteiro; está fragmentado e disperso em todas as direções. Para um homem, nada pode substituir a aletheia de sua filha. O mundo não existe mais. Não somos mais. Já não somos mais o que éramos.
A morte dela ensinou-nos caramente o que tu [o mundo] és
Corrupto e mortal na tua parte mais pura.

A morte da própria filha está no cerne de todo o gênero de Consolatio. Em russo, a palavra é uteshenie. Na língua russa, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é chamado de 'Uteshitel’, o “Consolador” ou “Consolador.” Somente o Consolador é capaz de ajudar um homem a suportar a perda mais terrível.
Os cátaros tinham um ritual chamado Consolamentum: beijar a testa de Sophia, Sabedoria, que é a Consolatrix, a Confortadora. Ela é a que está em mente nos versos trágicos de Nerval:
mon front est rouge encore du baiser de la reine.           
a minha testa ainda está vermelha do beijo da rainha."
Para Dante, o Consolador era Beatriz.
A notável e sensível Princesa Vittoria Alliata, que era amiga de Daria, disse que Daria pertence ao arquétipo de Beatriz, à Tradição da Donzela [Anjo, Musa]
Quando aquilo que é mais importante e amado foi ocultado ou desapareceu, a consolação deve ser buscada na própria ocultação. Este é o mistério do véu. A tradição é bela quando existe, mas é mil vezes mais bela quando não existe — ainda assim, contra todas as probabilidades, permanecemos fiéis a ela. Todos esqueceram; nós lembramos. Todos aceitaram a partida de Sophia, mas para nós isso causa um sofrimento inimaginável. Não precisamos de um mundo sem a sua luz. Apenas a dor selvagem pode nos confortar. Este é o optimismo escatológico. [Cultive a comunhão interior e aja com coragem]
Agora, um pouco mais sobre o significado do termo aletheia. Para os gregos, Lethe é o rio do esquecimento, do esquecimento, e "a-" é um prefixo negativo. Assim, a-letheia é lembrança. Neste ponto, podemos recorrer a Platão. Nos ensinamentos de Platão, o conhecimento é anamnesis, ou seja, lembrança ou recordação. A alma tem uma natureza celestial. Ela encontra-se no corpo quando cai, desce. Anseia retornar à sua terra natal. Se sua recordação é forte, então também é a sua atratação para os céus, o seu anseio pela Luz, pela eternidade, pelas ideias. Segundo Platão, é isso que define o filósofo: o anseio pelos céus, pelo retorno. O mundo dos corpos, a vida terrena, é o esquecimento. Para se viver aqui, é preciso ter esquecido da verdadeira vida. Mas a lembrança causa dor. É a nostalgia, que em grego significa a memória dolorosa de um lugar, do seu lugar natural. A dor e a lembrança estão entrelaçadas. [A saudade é o sinónimo luso.]  A verdade (aletheia) é aquilo que recordamos com dor. Assim, mais uma vez, os temas convergem: lembramos de Dasha com dor no dia em que ela subiu ao céu como um pássaro de fogo. Recolhemos [ou relembramos] a verdade. Lembramo-nos de nós mesmos. [Enquanto seres espirituais, e então em tal meditação podemos alcançar alguma visão interior ou comunhão com o espírito imortal de Dasha.]
As origens do teatro estão no culto ao herói. Os antigos gregos se reuniam na tumba de um herói para honrar sua memória em um momento específico. Eles formariam um círculo, cantariam hinos sagrados, usariam máscaras e fariam oferendas. Acreditava-se que o espírito imortal do herói, por um breve momento, respiraria através de seus pulmões, ouviria através de seus ouvidos e voaria nas asas de suas vozes. Dasha é, sem dúvida, uma verdadeira heroína. E a memória dela está gradualmente a tornar-se um ritual.
O próprio Platão fundou a sua escola num bosque dedicado ao sagrado herói Academus. Lá, o povo da pólis reunia-se para honrar a sua memória, para proporcionar ao herói a oportunidade de olhar para este mundo e respirar o seu ar [ou éter]. Foi em nome do herói Academus que os homens atenienses piedosos  realizavam as suas discussões filosóficas. Isso mais tarde se tornou-se a origem de todas as academias do mundo. O nome do herói não é esquecido — a-letheia.
Tanto está interrelacionado com a Dasha, tanto está sendo ligado a ela. Ela era filósofa; encenava performances teatrais maravilhosas; escrevia música e compunha poesia. Era uma pessoa muito gentil e sincera. E conjuntamente era uma pessoa que sofria profundamente. Talvez isso se devesse à sua memória do mundo superior e à sua recusa em comprometer-se com os pesados determinismos do mundo inferior.
A memória de Dasha não está a dissipar-se. A nossa guerra  gerou muitos heróis. Mas Dasha continua especial — diferenciada — entre eles. O seu feito e o seu sacrifício são santificados pela presença próxima da própria verdade.
Quando  pensas em Dasha, lês os seus livros, ouves sua voz e a sua música, e olha suas fotografias, percebes que a verdade está perto — ao alcance das mãos…
Lá, além do fino véu da morte…
Cedo, en manu tollo .
Ad caelum tollo. 
"Cedo (chega), ergo as mãos, 
Ao céu ergo.
Alexander Dugin,
20 de agosto de 2026

My Daughter - Aletheia, by Alexander Dugin. 20/8/2026, anniversary of the tragic death of Daria or Dasha Dugina.

                           My Daughter  - Aletheia [Truth].

Here we have a very poetic, beautiful, and spiritual hermeneutics generated and given by Alexander Dugin about the soul and ideas, the death and mission of his martyr daughter Daria Dugina Platonova, a living philosophical symbol of Truth, Aletheia, and also how to commune with her and intensify her Eschatological Optimism, in these times of the end [of illusions about this] world, and of a more intense unveiling of the face or vision of Truth, Justice, and Love, specially for those who fight internally and externally for a multipolar and better world and Mankind.

 «Our friends — Dasha’s Italian friends, friends of Russia, friends of my family — have decided to honor the memory of Daria Dugina on this 20th of August, 2026, the anniversary of her tragic death, with an intellectual festival — a philosophical, musical, creative festival.

I am touched that Dasha’s memory is not fading. Her texts are being published, her ideas continue to be discussed, her figure is not withering.

Plato said that ideas either soar or they die. Dasha’s ideas are soaring. They are inspiring others to great feats. I don’t think that we’re talking about the masses, although in Russia pretty much everyone now knows about Dasha. Streets have been named after her; monuments to her have been raised; songs and poems, illustrations and festivals, museums and expositions are dedicated to her.

Nevertheless, Dasha remains an unusual symbol. She inspires, above all, those differentiated people who, although they dwell within the modern world, do not belong to it and are separate from it by virtue of the difference in their inner nature.

Dasha herself was differentiated. And she expressed this consciousness in one of her main ideas: eschatological optimism — being active in the world, and even partially open to it, with the clear awareness that this world’s end is nearer than ever before.

Furthermore, Dasha is a philosophical symbol. It is no coincidence that the sculptor Dmitry Alexandrov, a friend of Dasha’s, created a monument to her which depicts her with a book. The book has no title on it, but I think that it is Plato. [Or her books, and the Book...]

Dasha had many talents and sides to her, but it was philosophy that was foremost for her. If a person manages to find an open entrance into the closed palace of the philosophy, they will never prefer anything else. Dasha found such an entryway. And she forever settled in the closed palace of philosophy.

The festival being held in Dasha’s honor this August has been called Dasha-Aletheia. With this name, the organizers most likely wished to emphasize the philosophical dimension of Dasha’s figure. This time, it is not about her religion, her political worldview, her musical and poetic creativity, or her active patriotism, but namely about philosophy.

I shall try to share some thoughts in this direction.

Heidegger interpreted the Greek word aletheia as “unconcealment” (Unverborgenheit). If truth is unconcealment, then it is concealment that comes first. Truth is never simply given to us. It must be sought out. Truth demands effort, discovery, disclosure, the opening up of revelation. [perseverance] What is primary about Isis is her veil. But Isis’ veil is not a mask, as if we were merely dealing with one subject dressed up as another. No one knows what is truly hidden behind the veil.

The Orthodox world knows the Kikkos Mother of God, an icon which is found in a monastery on Mount Kikkos in Cyprus. This icon is unique in that its face is permanently hidden from human eyes by a special shroud and frame. According to tradition, gazing upon the icon can be dangerous. There is the well-known account of Patriarch Gerasimos of Alexandria, who in 1699 dared to slightly lift the shroud and was immediately struck blind. He was healed only after sincere repentance. According to another account, it is believed that the icon possesses such powerful grace that it is simply dangerous for a person to see it in its entirety.

Likewise, truth, aletheia, is that which it is dangerous to see in full. No one knows what is behind the veil…

                                 

When a person dies, they go beyond the veil. One must not disturb the deceased too insistently. One must learn to reverently honor the veil. Therefore, the “unconcealment” of truth is to be understood not as daring to look behind the veil, but as reverently circumambulating it. It is a hermeneutic dance. [To be done in all, in a sacred way...]

If we are to speak of Dasha’s aletheia, about Dasha’s truth, then nearing it demands that we keep some distance.

It is believed that the most poignant texts in history have been written about love. That is probably true. Yet thinkers and poets have reached the pinnacle of their ability to describe emotional pain when they lost their daughters. With respect to the absolute depth of tragedy, nothing compares to Cicero’s Consolatio. It was inspired by the treatise On Grief (Περὶ πένθους) by the Greek Platonist Crantor. Crantor wrote this text as a condolence for his friend Hippocles. Lactantius said very aptly of Cicero — and I could easily apply these words to myself —:

M. Tullius in sua Consolatione pugnasse se semper contra fortunam loquitur eamque a se esse superatam cum fortiter inimicorum impetus retudisset: ne tum quidem se ab ea fractum cum domo pulsus patria caruerit; tum autem, cum amiserit carissimam filiam, victum se a fortuna turpiter confitetur: “Cedo” – inquit – “en manum tollo.”

[Marcus Tullius Cicero] in his Consolatio speaks of how he had always fought against fate and prevailed, such as when he courageously repelled the onslaughts of his enemies; that even when he was exiled from his home and deprived of his homeland, fate did not break him. But when he lost his most beloved daughter, he shamefully admitted defeat to fate: “I give up,” he says, “I throw up my hands.”

John Donne also dedicated one of the greatest works in English and world poetry to the death of his friend Robert Drury’s daughter, Elizabeth. He called it An Anatomy of the World and wrote of the “decay of the world.” After the death of a beloved daughter, the world falls apart at the seams. It is no longer whole; it is fragmented and dispersed in all directions. For a man, nothing can replace the aletheia of his daughter. The world is no more. We are no more. We are no longer what we were.

Her death hath taught us dearly that thou [the world] art

Corrupt and mortal in thy purest part.

The death of one’s daughter lies at the heart of the whole genre of Consolatio. In Russian, the word is uteshenie. In the Russian language, the Holy Spirit, the Third Person of the Holy Trinity, is called the Uteshitel’, the “Consoler” or “Comforter.” Only the Comforter is capable of helping a man endure the most terrible loss.

The Cathars had a ritual called the Consolamentum: kissing the forehead of Sophia, Wisdom, who is the Consolatrix, the Comforter. She is the one in mind in Nerval’s tragic verses:

mon front est rouge encore du baiser de la reine.

my brow is still red with the queen’s kiss.

For Dante, the Comforter was Beatrice.

The remarkable and soulful Princess Vittoria Alliata, who was friends with Daria, has said that Daria belongs to the archetype of Beatrice, to the Maiden-Tradition.

When that which is foremost in importance and beloved has been concealed or has vanished, consolation must be sought in the concealment itself. This is the mystery of the veil. Tradition is beautiful when it exists, but it is a thousand times more beautiful when it does not — yet, against all the odds, we remain faithful to it. Everyone has forgotten; we remember. Everyone has come to terms with Sophia’s departure, but for us this causes unimaginable suffering. We have no need for a world without her light. Only wild pain can comfort us. This is eschatological optimism. [Cultivate the inner communion and act courageously]

Now for some more about the meaning of the term aletheia. For the Greeks, Lethe is the river of oblivion, of forgetfulness, and “a-” is a negative prefix. Thus, a-letheia is remembrance. On this point, we can turn to Plato. In Plato’s teachings, knowledge is anamnesis, that is remembrance or recollection. The soul has a heavenly nature. It finds itself in the body when it falls, descends. It yearns to return to its homeland. If its recollection is strong, then so too is its draw towards the heavens, its longing for light, for eternity, for ideas. According to Plato, this is what defines the philosopher: longing for the heavens, for return. The world of bodies, earthly life, is oblivion. To be living here, one must have forgotten about the true life. But remembrance causes pain. It is nostalgia, which in Greek means the painful memory of a place, of one’s natural place. Pain and remembrance are intertwined. Truth (aletheia) is that which we recall with pain. Thus, once again, the themes converge: we remember Dasha with pain on the day she soared into the sky like a firebird. We recollect the truth. We remember ourselves [as spiritual beings, and then, in such meditation, we can achieve some inner vision or communion with the immortal spirit of Dasha.]

The origins of theater lie in the cult of the hero. The ancient Greeks would gather at a hero’s tomb to honor his memory at a specific time. They would form a circle, sing sacred hymns, don masks, and make offerings. It was believed that the hero’s immortal spirit would, for a brief time, breathe through their lungs, hear through their ears, and soar on the wings of their voices. Dasha is, without a doubt, a true hero. And memory of her is gradually becoming a ritual.

Plato himself founded his school in a grove dedicated to the sacred hero Academus. There, the people of the polis would gather to honor his memory, to provide the opportunity for the hero to look upon this world and breathe its air. It was in the name of the hero Academus that the pious Athenian men held their philosophical discussions. This later became the origin of all the academies of the world. The hero’s name is not forgotten — a-letheia.

So much is connected to Dasha, so much is being linked to her. She was a philosopher; she staged wonderful theater performances; she wrote music and composed poetry. She was a very kind and sincere person. And along with this, she was a person who suffered deeply. Perhaps this was due to her memory of the higher world and her unwillingness to compromise with the heavy determinisms of the lower world.

Dasha’s memory is not dissipating. Our war has yielded many heroes. But Dasha remains special — differentiated — among them. Her feat and her sacrifice are sanctified by the near presence of truth itself.

                                             


When you think of Dasha, read her books, listen to her voice and her music, and look at her photographs, you realize that the truth is near — within arm’s reach…

There, beyond the thin veil of death…

Cedo, en manus tollo.

Аd caelum tollo.

“I give up, I throw up my hands.”

Up to the heavens.  [Cícero]

— Alexander Dugin,

20 August 2026