quinta-feira, 6 de maio de 2021

Al-Kadir. Poemas em português & Celebration of Al-Qadr, Night of Power, in english, video

Considerando-se em 2021 a noite de 5 para 6 de Maio como a primeira  das dez últimas noites do mês do Ramadão a correspondente no calendário arábico à primeira  transmissão do Alcorão ao profeta Mohammed, em Dezembro de 610, denominada Laylatul Qadr, Al-Qadr ou Al-Kadir, crendo-se que por parte de uma entidade celestial, denominada de Jibril, ou Gabriel, tal noite (ou noites, pois terá sido numa ímpar, ou seja a 21, 23, 25, 27 ou 29 do mês) é ou são consideradas muito auspiciosa para orações e meditações, já que as ligações entre os mundos espirituais ou divinos e os humanos estarão mais abertas, intensificadas, possíveis, trabalháveis.

                                              

Depois de ter partilhado para o blogue a notícia da Noite de Poder, com uma mensagem do líder espiritual do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, mais alguns pensamentos tradicionais sobre al-Qadr, nomeadamente a sura corânica e uma frase do 1º Imam dos Shiaa, Ali ibn Abi Taleb, casado com Hazrat Fatimah, a filha de Maomé, durante a noite fiz três meditações, com breves escritos-poemas e uma gravação orativa e meditativa de alguns minutos, que encontrará no fim...
Boas inspirações.

02:15.

Al Qadr, al Kadir,
  Alma minha, abre-te à Divindade
 Ao Espírito, ao Amor, à Verdade,
    À Sabedoria, à escrita certa e justa.
Noite de poder, noite de revelação,
Aos Anjos e mestres nossa devoção.
 Vinde ó bênçãos dos níveis interiores
Vinde ò realizações divinas em nós.



4:10

Noites de poder que nos acordam
 Com sonhos de desprendimento:
Realiza que nada é meu ou teu.
Noites de poder, oportunidade de trabalho
  Pelo despertar maior do nosso ser:
Eu desperto plenamente o Amor divino.


6:35

Madrugada de poder e de revelação:
Esta aspiração ardente a Deus que nasce em nós,
Esta aspiração intensa a que o Amor brilhe em nós,
Esta gratidão imensa pela comunhão anímica,
Esta escrita divina que se realiza entre nós,
Tudo nos faz clamar pela Divindade e seu Amor e Ser.

                  

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Noite de Kadir, Al-Kadr night. Noite de poder. Message of the Ayatollah Ali Khamenei

 Realizando-se hoje a noite sagrada de Al- Kadir, a noite mais sagrada do Ramadam, e de todo o ano islâmico, na qual se homenageia o mestre oculto ou o anjo  que transmitiu os primeiros versos do Corão, ou tal inspiração e ocorrência, e que deve ser bem aproveitada em meditação e oração, vamos antes de mais transcrever uma mensagem do líder espiritual do Irão Ali Khamenei, transmitida há momentos

A message from the spiritual leader of Iran, Ayatollah Khamenei:

«The Nights of Destiny are the peak of Ramadan, and we have reached this peak. We should use this unique opportunity of seeking intercession, supplicating, praying, and pleading the Lord of the world. This praying, intercession and crying are bounties from God to you. Appreciate them. [As noites do Destino são o pico do Ramadão e chegamos a esse cume. Devemos usar esta oportunidade única para procurarmos realizar intercessões, suplicações, orações e pedidos ao Senhor do Mundo. Este orar, interceder e clamar  são graças de Deus para ti. Aprecia-as.]
Pray for yourself and everyone. Narrations say that when you pray, believe in its fulfillment. God is pure Munificence, but sometimes we aren’t ready to absorb divine Mercy. By seeking forgiveness, paying attention & pleading, we should prepare ourselves for receiving divine Mercy. [Ora por ti e por todos. Os ensinamentos que nos foram narrados dizem que devemos acreditar no que se pede ou ora. Deus é generosidade pura, mas por vezes não estamos preparados para absorver a Misericórdia Divina. Procurando perdoar, prestando atenção e esforçando-nos, devemos preparar-nos para receber a Misericórdia divina.  

I ask all of you dear ones to please pray for me. [Peço-vos, queridos, que por favor orem por mim.] #QadrNight

Quotations received from Shahara Islam Fatema, of Bangla Desh:
"𝑻𝒉𝒆 𝒏𝒊𝒈𝒉𝒕 𝒐𝒇 𝑸𝒂𝒅𝒓 𝒊𝒔 𝒃𝒆𝒕𝒕𝒆𝒓 𝒕𝒉𝒂𝒏 𝒂 𝒕𝒉𝒐𝒖𝒔𝒂𝒏𝒅 𝒎𝒐𝒏𝒕𝒉𝒔".  A noite da revelação vale mais que mil meses. Alcorão. Sura Al-Qadr, 3.

"Everything has a treasure and the treasure of the poor is al¬Qadr. Everything has a helper and the helper of the weak is al¬Qadr. Everything has an ease and the ease of those in difficulty is al¬Qadr . Everything has a chief and the chief of knowledge is al-Qadr".  [Tudo tem o seu tesouro e o tesouro do pobre é a noite do poder. Tudo tem um ajudante e o ajudante do fraco é a noite do Poder. Tudo tem um facilitador e quem facilita o que está a passar por dificuldade é a noite de Poder. Tudo tem um chefe e o chefe do conhecimento é al-Qadr, a noite de poder.]

Quotation from Ali, 1º Imam Shia... Citação de Ali, o º Imam Shia...

Boas inspirações. Ore mais esta noite, cante, chore e arda em amor e aspiração e, por fim, silencie e receba....

terça-feira, 4 de maio de 2021

A ORAÇÃO, de Bô Yin Râ. Das Gebet. Cap. I. Tradução de Pedro Teixeira da Mota.

                                      A ORAÇÃO

                                    por Bô Yin Râ.

Tradução de Pedro Teixeira da Mota, de esta obra muito valiosa a partir da versão alemã e das traduções inglesas e francesas. Agradeço à Claudia Lopes ter-me transcrito uma versão manuscrita que redigira há uns anos e que serviu de base. Esperemos que a prossiga com certa regularidade.

A 1ª edição foi dada à luz em 1926 em Leipzig pela editora Richard Humel Verlag. Hoje as obras de Bô Yin Râ estão editadas pela Kober Verlag Ag Bern.

                                                                     *******

A VÓS,

QUE QUEREIS APRENDER A ORAR

                                                            

                                                           **********

          Cap. I                                 

                                            O MISTÉRIO DA ORAÇÃO

Segundo o antigo relato sagrado, os discípulos do carpinteiro sábio, do grande “Rabbi” da Nazaré, teriam vindo procurá-lo uma vez com a pergunta:

                           “Senhor, ensina-nos a orar.”

 À qual - diz-nos a antiga narrativa – o  unido a Deus mestre da Vida os teria advertido a não mais recitarem as longas litanias tradicionais, à maneira dos que não sabem, mas antes usarem somente as palavras simples e maravilhosamente belas que pronunciam ainda hoje os lábios de todos aqueles que, sob uma forma religiosa ou outra, professam ou crêem professar o ensinamento cheio de amor do grande homem de Deus.

No entanto até aos nossos dias são ainda muito poucas as pessoas que sabem realmente orar, e é mais raro ainda encontrar uma pessoa que sabe o que significa orar da alta e sacra maneira que o grande Ser amante queria ver adoptada.

Ora bem, conhecem-se em verdade as palavras que ele, segundo a antiga narração, recomendou aos seus discípulos usarem só que agora “palreiam-se” também estas palavras, tal como anteriormente outras orações às quais ele não abonava especialmente. –

A profanação não é atenuada, pelo facto de a pessoa falar num tom de grande unção, - e mesmo uma sensibilidade reverente ao sentido que o pensamento pode retirar das magníficas palavras não é de modo algum suficiente para ao repeti-las convertê-las numa verdadeira “oração”.

Parece portanto que se tornou de novo necessário ensinar o que realmente é “orar” em verdade, - de ensinar como é que das palavras da língua humana uma “oração” pode emergir, e que segredo profundo a oração oculta!-

A arte sacerdotal sagrada de criar “Orações” e de verdadeiramente orar, tornou-se hoje quase perdida e assim onde hoje ainda está em uso é contudo praticada tão mecanicamente, despida de vida e supersticiosamente

Mas mesmo aqueles que crêem ainda orar, só vêm na oração imploração da divindade, acção de graças ou louvores e não sabem que estes elementos podem-se encontrar numa oração, mas não constituem de modo algum a essência da Oração.

As pessoas não se duvidam sequer que mesmo uma sublime reunião de palavras de louvores, gratidão ou um pedido, tem de ser realmente “orada” antes de se poder tornar “oração”.

Que Deus apenas em nós mesmos  é alcançável por nós: - que apenas nas profundezas de nós mesmos o coração do Ser Eterno e puro pode de si mesmo “nascer de novo” , numa auto-geração individual”, repetindo-se infinitamente: - tal é a primeira e indispensável consciencialização que todo o ser, que realmente quer aprender a orar, tem de lutar por realizar em si antes de tudo.

Ao mesmo tempo tem de saber que o “Pai” Eterno,- qualquer que seja o sentido dado pelo crente a esta palavra- não deseja nem acção de graças, nem louvores à maneira humana, e que será blasfematório crer-se verdadeiramente que o coração do Ser espere ser implorado pelo ser humano para se deixar flectir finalmente por tais orações”,- pois “pedir”, no sentido da verdadeira oração, é verdadeiramente algo essencialmente outro que o querer mendigante com o qual tantos se dirigem ao "Deus” de sua imaginação.

Eu realço aqui a expressão “Deus” da sua imaginação, pois a maior parte dos seres humanos, infelizmente, não passam para além duma tal concepção do seu poder imaginativo porque pensam por insuficientes ou errados ensinamentos que o caminho para Deus tem de levar sempre para cima, mas sempre para o exterior.

Assim, nunca conseguirão certamente sentir a Divindade viva, pois não procuram no único lugar onde o vivo e eterno Deus lhes é alcançável.

Contudo, segundo o antigo relato, foi dito também:

“Procurai, de modo a encontrarem!”

“Pedi, de modo a receberdes!”

“Batei, de modo a que se vos abrirá!”

                   *********

´Queremos demorar-nos aqui e aguardar em grande calma até o enigma contido nestas palavras se quizer desvendar ao nosso olho interior…

Entretanto, vou tentar explicar em palavras o que se deixa mostrar!

                             *****

Procurar só pode certamente levar a encontrar quando a procura é onde o que é procurado se encontra realmente escondido.

“Pedir", tomado aqui no sentido que exclui toda a "pedinchice", só poderá obter destinatário se quem pede está com direito de receber.

"Bater", contudo, para conseguir entrada na casa, só tem sucesso de andar para a frente se quem bate está completamente seguro da porta em que deve bater e sabe de que modo deve bater para ser admitido na casa e ser reconhecido imediatamente como alguém que tem a esperança de admissão.

Aqui, porém, procurar, “pedir” e “bater” de modo algum são separáveis pois somente na sua unidade constituem a - “oração”!

Feliz quem sabe orar deste modo!

Será ouvido quanto ainda“bate”!

Receberá logo, quando ainda “pede”!

“Encontrará” com toda a certeza o que ele desse modo procura, de modo que ele é encontrado.

Nas suas íntimas profundezas tal orante experienciará o que quis dizer o grande portador de palavras vivas, quando uma vez disse àqueles que ele acreditava estarem suficientemente avançados:

“Tudo aquilo que for pedido ao “Pai” em meu “Nome”, ele dar-vos-á!”

Luminosamente,  manifestar-se-á  a quem ora o sentido contido nas palavras de louvor:

«Santificado” seja o Teu “Nome”!» - e finalmente reconhecerá, porque é que então o Mestre ensinou a pedir em seu “Nome" pois:

«Tudo, o que o "Pai" tem, é meu!»

*******

Assim quem ora reconhecerá também na mais clara luz do do Espírito, que tudo o que se pode pedir ao “Pai” em "Nome" da sua própria representação manifestada, está já “oferecido” e dado de toda a eternidade, se bem que o “Pedido” seja necessário, para levar à manifestação - para causar efeitos perceptíveis temporais…

Ninguém aprende porém a “orar” desta maneira, fora daqueles que sabem unir a sua própria vontade completamente com a vontade do “Pai”! –

Mas para quem sabe “pedir” unido à vontade do “Pai” eterno, então toda a sua oração – qualquer que seja sempre o pedido - será um pedir de “asas”: -dessas asas que em verdade “levam mais alto que as asas da águia. “

sábado, 1 de maio de 2021

Amaterasu-ô-mi-kami, a face Feminina Divina, do Sol, do Japão, do Shinto. Vídeo de culto. Mantras-noritos

A mais conhecida ou principal face Divina no Japão é Amaterasu-ô-mi-kami, um Kami primordial, o do Sol, feminina.
A palavra kami  terá múltiplas origens etimológicas e pode ter brotado do reconhecimento de entidades invisíveis, subtis ou espirituais ou então apenas de qualidades de lugares da natureza, locais de poder, ou seja que tinham algo de especial, de extraordinário e que seriam assim habitados por Kamis, ou fossem eles mesmo Kamis, tais como montanhas, quedas de água, árvores ou pedras mais impressionantes, frequentemente vindo depois a serem mantidas em santuários já construídos por mão humana, madeira, tradição que se conservará muito até hoje, com aspectos ecológicos valiosos de preservação de bosques e florestas sagradas, para além das árvores centenárias tão cultuadas, e protegidas e sinalizadas pelas shide, tiras de algodão ou papel branco...
 
  Para uns Kami, viria de kuma, canto, nó e kumu, esconder, ligados aos sítios mais secretos da natureza e fontes de água, este reconhecimento acompanhado de uma apreciação da natureza como lugar de culto. Para outros Ka seria o interior e secreto, e mi, o visível e tangível. Ou  o som Ka seria o misterioso e escondido, e o mi, o da maturação, da plenitude. Ou ainda o Ka, o fogo vertical e o mi, a água, horizontal. E, portanto, a sua pronúncia concentrada e sentida, de dentro para fora, e de fora para dentro, ou unindo os opostos, ajudaria o espírito, o shin (e Shinto: shin do, espírito caminho), a manifestar-se mais na nossa sensibilidade e consciência e logo a tornar-nos mais conscientes do mundo espiritual, dos kamis. Ora os noritos, ou orações, baseiam-se no poder da palavra ou som, o kotodama, que tem efeitos em nós e no mundo dos kami ou espíritos-deidades, saudados ou evocados também curvar com as mãos unificadas e depois pelo bater de palmas (hakushu) três vezes.
Com o tempo os Kamis deixaram de ser só cultuados na natureza e em locais de poder e passaram a habitar certos santuários, os jinjas, seja ainda na natureza, seja já nas vilas e cidades. E também em pequenos santuários em casa, os chamados kamidanas, tal como será o pano de fundo de todo o vídeo de orações que gravamos na madrugada do dia 1 de Maio e que me obrigou depois a escrever esta apresentação.
Já os famosos matsuri, as festividades, tão garridos e animados, também traduzidos como sacrifícios e que têm muito das nossas procissões, poderiam estar ligadas a matsu,  esperar, o aparecimento, miare de uma manifestação divina, ou kami, um espírito celestial, estando eles em geral consagrados a um ou outro kami, e sendo ele mesmo levados em santuários levados por devotos, tal o q ue vemos na imagem dum matsuri em Osaka, em 1995.
Amaterasu-ô-mi-kami surge nas cosmogonias do séc. VIII como gerada do olho direito de Izanagi-no-mikoto, com
Izanami-no-mikoto o casal cósmico primordial, e já depois de muitos outros Kamis ou espíritos celestiais terem sido gerados. Nesses livros primordiais O Kojiki e o Nihon gi, ou Nihon- Soki, terminados em 712 e 720, portanto bem antigos, quando Portugal estava sob o domínio árabe e a começar a formar-se, ela é irmã de Suzano, o deus da Lua e do Vento. No Kojiki, Susano-wo é um dos deuses superiores ou celestiais (em contraposição aos terrestres) que mata uma deusa Oge tsu hime e dela nascem os vários tipos de espécies ou produções agrícolas...
Do irreverente comportamento dele para com a irmã resultou a decisão de Amaterasu-ô-mi-kami refugiar-se num caverna e não mais dar a luz ao mundo, provocando grande inquietação nos kamis e seres, que através de uma artimanha conseguiram fazê-la sair da gruta e voltar de novo a aquecer e a iluminar os mundos e seres. Este episódio do Kojiki adquiriu ao longo dos anos grande fortuna da arte e foi a principal fonte da iconografia mais antiga dela.
Mas como é que havendo tantos kamis anteriores e superiores ela se vai tornar de certo modo a principal deidade ou Kami do Japão não é fácil discernir-se rapidamente, embora por ser o Sol, elemento primacial do mundo, e depois por os imperadores do Japão terem sido considerados como descendentes dela, tal lhe dê uma primazia grande. Mas, claro, houve também aspectos humanos e políticos, de clans e de zonas que a tomaram como a sua protectora.
O santuário de Ise (na imagem, tão simples quão sagrado, em 1995) que lhe está consagrado é o ponto fulcral dessa adoração e sacralização, e as peregrinações a Ise são desde há muito dever quase obrigatório do japonês que conserva o culto pelas suas antigas tradições espirituais. Na segunda metade do séc.XIII foram compilados os cinco livros do Shinto-go-busho, que são ainda hoje fonte de orações e ensinamentos.
A ligação da família imperial a Ise e a Amaterasu o mi kami vem desde os primórdios, tem mesmo a entrega por ela de três tesouros imperiais, e nunca foi posta em causa pelos grandes teólogos e estudiosos do Shinto, e, embora em Ise Amaterasu-o-mi-kami tenha o seu santuário principal e tenha sido ao longo dos séculos uma mulher da família imperial a mestra das sacerdotisas ou mikos,  há outros jinjas ou santuários consagrados a ela só, ou a ela e mais algum kamis. Para além disso há muitos japoneses que particularmente, pessoalmente, sentiram nesse Kami, nela, mais fácil o acesso ao mundo espiritual  ou divino, e portanto lhe recitam as suas orações ou noritos, e alguns poucos meditações, poemas, e orações gerados por eles...
Está neste caso o autor deste artigo, que tendo estado no Japão 40 dias, peregrinando a Ise, a Tokushima, ao Fuji, Omiwa, etc.,  e tendo-se prepara-se com boas leituras para isso, sentiu bastante os Kamis e o Shinto e voltando a Portugal com um pequeno altar-santuário-portátil ou Kamidana, fazendo algumas meditações sintonizantes e sentindo bem a ligação com Amaterasu-ô-mi-kami, com certa regularidade, fez nascer alguns vídeos consagrados ao culto de tal ligação, ou Dela, o último sendo o pretexto para este texto e que pode ouvir com o link assinalado no fim...
A ideia, para quem se possa assustar com o que lhe parece um paganismo ou politeismo, é bem mais simples, e denomino-a as Faces Divinas:
A Divindade primordial e infinita manifesta-se em certos Seres ou Faces Divinas para se tornar acessível aos humanos e para lhes permitir desenvolverem estados de harmonia, amor e de aspiração, ou mesmo união interna divina.
Amaterasu o mi kami  é uma dessas faces, tal como há noutras religiões, seja seres humanos seja anjos ou deusas. É feminina, está ligado ao Sol, não só ao que vemos com os olhos físicos mas ao Espiritual e portanto através dela, do seu culto meditativo e da sua possível desvendação abençoante, o nosso coração em gratidão abre-se em graal para a Divindade.
 Estes 10 minutos de invocação do seu nome, e de repetição de mantras e orações de algumas tradições que tenho trabalhado, nomeadamente o Om Mani Padme Hum budista, o Tat Twam Asi vedanta-indiano e o Spiritus Dei cristão, são um meio para as pessoas sentirem e praticarem bhakti, sentimento-devoção-aspiração-concentração para o nosso despertar consciencial espiritual e para a abertura aos seres e à sabedoria universal, e à Divindade, de um modo ecuménico, vivo, vibrante...

              

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Poemas da Luz anímica e do Amor perene. Do XI ao XXIII, final, de há anos e bem melhorados agora. Com 5 pinturas de Bô Yin Râ e uma nipónica.

XII
Mil nomes pronunciei antes de chegar ao Teu,
Mil passos e retrocessos tracei nos areais
Até encontrar a firmeza das rochas e da terra
Por onde caminhamos e nos despertamos.

No nosso coração há mares
e nele, como conchas, peixes ou sereias
nossas almas nadam e comunicam
sentindo-se bem no Oceano sem fim.

Gritarei e esculpirei o teu nome
     Nas paredes das falésias imensas.
Traçarei o teu nome no ar lilás
    Qual voo da gaivota no horizonte.


 Não dormirei sem ter invocado teu Nome,
sem adormecermos no mesmo mantra.
E mesmo nas marés dos sonhos
estaremos sempre bem atentos
a não nos perdermos de vista,
     A âncora da Esperança que quer
bem firmemente perseverada
nas profundezas do Amor e Ser.

XIII
"Morrer é ser iniciado"
diziam os antigos gregos.
Cristo veio renová-la:
"Não há morte, mas ressurreição".


Vou peregrinando na vida
Procurando ser sábio e verdadeiro
E cada vez mais luminoso
Ligando bem o céu e a terra.

Quando te encontrei
na paz dos teus olhos
Vi o Oceano sem fim
E  nele
quis mergulhar.


Agora nadamos no mar sem fim
do Amor divino e invencível
que como Sol renascendo cada dia,
Atrai-nos para Deus, a fonte da Vida.

XIV
Busco a alma divina
Em mim e em ti,
Voo sereno mas com pressa,
  Amor e aspiração divina.

Procurar o espírito,
Erguer a individualidade,
Abraçar-nos nas essências,
Despertar-nos ao máximo
E sermos um na Divindade.


Não deixarei os cães
morderem ou ameaçarem
nossos caminhos e passos.
Atento e forte na luz
dissiparei toda e qualquer treva.


Tornar-nos-emos tão fortes e puros
como os lírios, cedros e montes,
ou as aves e crianças desprendidas
transmutando a sombra na luz.

Dispersarei as trevas do nosso ser.
Torpor, dúvidas ou tentações
estilhar-se-ão na luz do meio
em que nossas almas viverão.

XV
Teus olhos sonhados e místicos
belos, cristalinos e puros,
procuro chegar ao fundo,
passando da menina à alma
e quem sabe mesmo ao espírito.

Do beijo na face, a forma dos lábios
e os contornos das pálpebras
não traçarei palavras ou sons.
Basta o sentimento, a consciência desperta
e esta vontade imensa de te amar, de sermos amor.


XVI
Face à noite primordial cósmica,
Ao antigo Caos do Amor
E à união das nossas almas
só sentimos gratidão, beatitude e amor.

Não dormiremos como as estrelas,
como o galo pitagórico saudaremos a Aurora.
E da intensidade do nosso encontro e união
Ressoarão ondas rítmicas no Oceano Cósmico,
Cristalizando nas almas a presença Divina.

XVII

Só vendo ainda  as luzes da aurora

 Não posso saber de nudez total.

Quando ela chegar e nos abrasar

Pouca escória em nós restará,

Será verão quente na nossa unidade.

 

O Amor escorre da fonte cristalina

 Ciciando sons e ritmos divinos

Inundando a nossa alma de Luz

Erguendo-nos na dimensão imortal.


XVIII

Os Setembros cálidos e mágicos

 Quando subimos aos montes,

ou trabalhamos nas colheitas

em tudo a fertilidade sorrindo.

 

Dedos e mãos que se tocam,

Almas que se querem unir,

 São Miguel lá no alto triunfando:

Os raios de Amor cruzando a Terra.

 

Ritmos de luas, equinócios e eclipses,

São ocasiões de ritos e meditações,

 evocações das Harmonias  Cósmicas

na Terra tão explorada, ardente e carente.

 

XIX

Pássaros da luz

esparsa por aqui e acolá,

traçando fulgurações

nos encontros ocasionais.

 

 Como não gratamente relembrar

jardins de sol e estufas de sombra,

mesas, flores,  parreiras e diálogos,

almas e uniões tão expectantes?

 

A procura ardente do Espírito

Une as almas peregrinas afins,

E calmas como guardiões

Vigiam as costas de Portugal.

 

Unindo-nos com os mais novos

Complementamos os mais velhos,

Abraçando o  Céu e a  Terra,

 Harmonizamos o Androginato interno.

 

 Folhas, nuvens e pessoas ao vento

São apelos ao discernimento

Das seivas anímicas valiosas,

Que devemos cultivar perenemente. 

XX

 Gaivotas solitárias e miraculosas

atravessando mares e costas sem fim,

olhos no longe, impávidas e serenas,

voos rasantes nas cristas das ondas

subindo subitamente rumo ao sol 

e por fim ei-las precipitando-se

e no mar ondulante mergulhando:

e quando vem o peixe na boca

há paz na alma desabrochante.

 XXI

O  Amor é todo poderoso

mas para muitos é tão ilusivo.

pois ele parte, ele chega

ele exige, ele esfuma-se.

 

Nas horas mais nocturnas

O fogo do Amor devemos despertar,

para, resistindo ao torpor das trevas

ardermos, iluminar-nos e  contemplarmos.

 

Mas como, para quem

questiona a mente ao Ser?

- Lança a energia da aspiração coração

e chama pelo nome e face divina

que mais vibra no teu coração.

 

A Unidade Divina e a sua Comunhão.

É dada por quem amas ou amaste.

Cultiva os momentos de mais Amor

pois embora invisível arde e desvenda. 

 

Quem amas palpitará vibrante

Rumo a ti na Alma do Mundo.

Por fios luminosos correm anseios,

Precipitando visões celestiais

 Compensando as dores e esforços.

 

Tua alma grávida como uma catedral,

Contém ícones, resinas e filigranas,

E coroando, em cálice, a eucaristia,

 A visão duma face feminina divina.

XXII

Teu rosto e ser tão belo

não está ainda tão amado

que espelhe o espírito divino

e nos inunde da sua felicidade.

 

Teu corpo puro e subtil

Redondo e harmonioso

É uma promessa certa

 Da criatividade frutífera.


Teus dedos suaves

apontam as linhas,

desenterram as raízes,

segredam sentidos,

indicam caminhos,

desvendam os mistérios.

 

A presença da Luz Primordial

brilha no fundo do teu coração

e tudo será bem possível

na Primavera da tua alma.

 

Tua aura calma,

Tua vida límpida,

Permitem a paz,

Partilham o silêncio.

 

Em evocação de ti

Saudarei a Magia

 Causadora dos encontros

 Dos seres amáveis,

A descoberta das almas gémeas

A união das almas afins.

 

XXIII

Nossos nomes originais cruzados

E nossas mãos e almas entrelaçadas

Geram osmoses, poemas e claridades,

que aumentam a fraternidade planetária.

 

E vencendo as dúvidas e trevas,

Insónias, desânimos e agitações,

Por serviços e realização espiritual,

Desabrocharemos a consciência imortal.
 

terça-feira, 27 de abril de 2021

Albuns inéditos. José de Beires Junior, 1872. Desenhos, e um anteriano, lançados na barca perenizante dos Fiéis do Amor, com a voz da Teresa Salgueiro.

                                              

                               

                               

Este Álbum desenhado há mais de 170 anos sobreviveu às vicissitudes do tempo e chegou aos nossos dias com oito desenhos cheios de ingenuidade, força e frescura, que caracterizariam o seu autor José de Beires Júnior, que se poderá admitir ter seguido a carreira militar. Pela intercomunicação das coisas e dos seres veio parar-me às mãos e suscitou-me a ideia de o dar a conhecer e simultaneamente fazer chegar até à sua alma alguma luz e amor. Uma música do grupo Madredeus, com a voz sublime da extraordinária Teresa Salgueiro, Ao Longe o Mar, que encontra no fim do artigo, poderá ouvir desde já, até no sentido de recuperarmos mais a perenidade consciencial de tudo o que vale ou que amamos...

Possa muito da arte deste Álbum, já patente nas letras que assim o intitulam, miniaturizadas e esmeradas beneditanamente, e depois nos ingénuos desenhos, estimular-nos a sermos mais criadores e cultores, com amor despertante, da beleza e da harmonia e, portanto, da justiça e da fraternidade humana tão necessárias face a tanta iniquidade e sofrimento  que o imperialismo norte-americano e o neo-liberalismo ocidental  desencadeado no mundo. E assim a desenvolver mais a vontade ou a aspiração do amor, pois  é ela que nos arranca à mediana e tão perecível horizontalidade, tão manipulada ou mesmo opressiva...

De que nos falam os desenhos tão naifs senão do caminho do ser humano, e assim no 1º par de desenhos deparamo-nos com a face de um oficial garboso de capacete emplumado diante de uma criança tímida segurando uma maçã nas suas mãos, qual prece de gratidão,ou símbolo da busca do conhecimento e do amor, que se abre ou desafia a todos. O 2º leva-nos numa fragata com um "P", talvez de Portugal, na vela, rumo à travessia do Oceano, a que todos somos lançados nesta Terra, só aparentemente terra e física pois bem mais vasta e subtil ela é. Na 3ª folha José de Beires Júnior apresenta duas imagens de animus, da alma masculina, a que o seu peito aspirava e no qual se dilatava. Segue-se na 4ª folha  a sua materialização conquistadora no cavaleiro, no corredor ou jokey, aquele que sabe dominar os seus instintos e chegar às suas metas, qual arcano VII no Tarot. Ei-los:




O desenho a seguir ao do cavaleiro, na quinta folha, foi cortado, escapou-se da história e só podemos intuir que nele talvez a Amada, provavelmente ainda ideal, fizesse a sua aparição, mas uma mão incógnita a arrancou da nossa narrativa e da História...

Assim se passa tantas vezes na vida, quando dois seres se podiam constituir em duas páginas seguidas de um livro mas por diversas causas se rasga tal contiguidade de almas afins. Talvez por isso o desenho que se segue é um monumento com um vaso de cinzas, ou como lhe chama José Beires Júnior, um túmulo, ao estilo grego. Quem se memoriza e resgata da Eternidade? Foi alguém que conseguiu realizar que o morrer é ser iniciado, ou seja, que é apenas iniciar-se um novo caminho nos mundos subtis e espirituais?

Para o seu último desenho (e porque não desenhou mais?) José Beires Júnior escreve com a sua letrinha de jovem: "Um eclesiástico considerando as reformas de 1870", ou seja, lendo o jornal Diário Popular.  

Curiosamente na época em que Antero de Quental, com a denominada Geração de 1870, lançava as bases de uma certa revolução moderna das consciências portuguesas, primeiro com as suas Odes Modernas (1865, com a dedicatória a Germano Vieira Meires, e a nota final bem revolucionária, já não presentes na 2ª edição de 1875), depois entrando em polémica com o conservadorismo literário de Castilho e seu círculo, enviando-lhe a sua brilhante carta Questão do Bom Senso e do Bom Gosto e, finalmente, com as Conferências do Casino, realizadas a partir de Maio de 1871, na qual a sua sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, ao originar ataques fortes dos meios  eclesiásticos, obrigou Antero a escrever a Resposta aos Jornais Católicos, que saiu à luz na madrugada de 22 de Junho de 1871  no nº 5295 do Jornal do Comércio, magistralmente justificada assim no 1º parágrafo:  «Respeito todas as opiniões: nenhuma todavia tanto como a opinião dos vencidos cuja fé é superior aos factos que os esmagam, e muitas vezes à ciência que os condena. As opiniões, se vivem muito pelas ideias, vivem tanto ou mais ainda pelo amor e pelo carácter dos que as representam. Considero assim o partido católico. Combato-o, respeitando-lhe a lealdade da crença. Esperava dele a reciprocidade deste sentimento. Não posso pois senão estranhar e sobretudo lastimar o procedimento dos jornais católicos, que para impugnar as conclusões da minha conferência sobre as causas da decadência da Península, recorreram deslealmente a insinuações pérfidas sobre as minhas intenções e a minha convicção, adulteraram as minhas palavras, e me atribuíram opiniões  a que nem de longe aludi. isto tem um nome muito feio, e que eu não quero dar a pessoas que, apesar de tudo me obstino em respeitar.»

Por fim, deixando para atrás a súbita descoberta (já aqui com as fotografias no blogue) de uma possível referência a Antero de Quental e às Conferências do Casino, entramos no último desenho, já não de Beires Júnior mas de um desenhador Marques no qual vemos um homem bem vestido, pujante de vitalidade e empunhando nas mãos dois vasos plenos de flores garridas, qual homenagem ao seu predecessor José Beires Júnior, seja antes a uma amada. Ou será que queria apenas estimular a consciência de termos as flores da nossa alma, bem coloridas e desabrochadas e de oferecermos mais flores a quem nos rodeia ou quem mais merece ou precisa?

Demos graças a José Beires Júnior, a Marques, a Antero de Quental, a Teresa Salgueiro e aos  Madredeus (nesta sua música que nunca mais findará...)  e que a Luz e o Amor brilhem nas suas almas de Fiéis do Amor e da Tradição Espiritual Portuguesa...

                       

Poemas da Luz anímica e do Amor perene. Do VIII ao XI dum ciclo de XXII, escritos há uns anos. Com 4 pinturas de Bõ Yin Râ.

                                                              

VIII
Momentos quentes, sublimes,
Quando as almas se fundem
E já não são só elas
Mas todo o Universo e Deus.

No cais da minha alma
Aportou a tua nau.
Grande reboliço
E alvíssaras se ergueram.

A espuma na areia e no ar
Revela a intensidade do embate
Entre o Oceano e a Terra,
Entre mim e ti, meu Amor.

Corpos molhados,
Almas imensas,
A lucidez do Espírito,
O abraço da Unidade.
 

IX
O paroxismo do Sol
Tinge o horizonte de sangue,
Assim as nossas almas
Vertem amor desde a aurora.

Quando erguemos o cálice,
Quando celebramos o Amor,
Quando nos entregamos
Totalmente um ao outro,

O que se irradiará então pelo Universo,
Que vibrações maravilharão os Anjos,
Que cânticos, orações, mantras e ais
Se juntarão à música das esferas?


X
O mistério da conjunção,
O segredo da criação,
Fremem de portas abertas
E luzes resplandecentes.

As palavras calam-se,
O vento serena,
Nada bule a não ser
A chama imensa do Amor.

As serpentes animam-se,
Erguem suas asas,
Há dragões no céu,
Arco-íris na Terra.

Pelos vales e montes
Ecoam o grito e a maresia
Do Amor infinito
Que nos une para sempre.


XI
Dentro de mim há uma ilha
Onde tu serás a princesa
Deste Robinson Crusoe
Há muito ali naufragado.

Vieste sorridente e calma
Trazendo a barca da salvação.
Não podia hesitar muito,
Saltei da ilha para teu coração.

Agora não estou enraizado,
Antes livre como o vento,
Sou uma centelha espiritual
Unido a tudo e a ti.

Ilhas reunidas entre si,
Paraísos e utopias na Terra,
Assim reverdeceremos
E  grande paz irradiaremos.