sábado, 13 de junho de 2026

Revelações do eng. Francisco Bourbon Peixoto acerca de Fernando Pessoa e a tertúlia do Café Montanha. Duma conversa com Pedro Teixeira da Mota. No 138º aniversário do nascimento do poeta e esoterista.

Neste dia do 138º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa transcrevo o registo de um diálogo com o eng. agrónomo Francisco Bourbon Peixoto, que conviveu com Fernando Pessoa entre 1927 e 1935, na tertúlia do Café Montanha e que a partir da década de setenta, começou a partilhar memórias escrevendo artigos para  jornais de província, os do Eco de Estremoz tendo sido já compilados e apresentados pelo José Barreto e a Câmara Municipal de Estremoz, no livro Evocando Pessoa, dado à luz pela Colibri e do qual recebi um exemplar, oferecido pela sua filha Mafalda.
                                       

Francisco Peixoto Bourbon,  natural de Celorico de Basto, engenheiro agrónomo, activo em alguns organismos oficiais e professor, muito culto e com boa biblioteca que já lhe vinha de família, era amigo, conterrâneo e ainda parente do meu pai, vivendo com a mulher e a filha Mafalda no seu belíssimo (como se vê na fotografia), solar ou Casa do Melhorado, junto a Fermil,   e onde me acolheu nos anos 80/90 para animados diálogos, sobre os quais escrevi alguns registos nos meus diários, além de ter conservado cartas (50), fotocópias de artigos de jornais (acima de 40) e três folhas dactilografadas e corrigidas a tinta, enviando-lhe eu algumas fotocópias de documentos do espólio pessoano inéditos que lhe interessavam, já que na época trabalhava os manuscritos na Biblioteca Nacional, a partir dos quais editaria quatro livros.

Embora tenha comigo as cartas, frequentemente com letra de difícil decifração,  bem como fotocopias de artigos nos jornais, por vezes emendados a tinta, e que são documentos  objectivos ou fidedignos das memórias de Peixoto Bourbon, o que partilho é um registo de duas páginas, redigido em Agosto de 1990 ou 1991, quando estive instalado na casa do Outeiro dos primos Teixeira Coelho em Fermil, de Basto, muito próximo da Casa do Melhorado onde vivia e  dialogámos: 

«Regresso à casa do Outeiro, em Fermil. Dou graças a Deus. Tentar escrever alguns dos tópicos das conversas com o estimado Francisco Peixoto Bourbon será o tema destas páginas:

Fez revelações por vezes inéditas de acontecimentos da vida de Fernando Pessoa e por vezes a associação de ideias suscitada pelas perguntas revelou-lhe novos panoramas, tal como ele dizia entusiasmado

Pergunto-lhe a certa altura o que sentia quando estava com o Fernando Pessoa. - "Bem", dirá. "Muito bem educado e delicado", embora mais tarde falarasse de traços diversos que a convivência com Pessoa lhe revelara,  tal a malícia com que comentava certos aspectos de vida políticos. Por exemplo, sobre o Pedro Teotónio Pereira: "o que acho mais interessante nele é que tem uns pés muito grandes. Por isso vai longe, irá longe".
Mas sobre a Igreja Católica ele também fazia críticas, pergunto-lhe.
- Ele evitava responder de forma a ferir as pessoas que sabia serem católicos praticantes. Criticaria pessoas do clero que o merecessem, mas não fazia ataques muito directos. Até defendeu [uma vez] a Ordem Dominicana dos excessos da Inquisição [que cometeu], afirmando estimar muito a figura de S. Domingos que vendera os seus livros para ajudar os necessitados.

Sobre os livros, diz-me que ele gostava muito de ler, tratando-os com muito cuidado, encadernava-os por vezes, não sublinhando se lhe eram emprestados, e que costumava levar jornais ou às vezes livros para os cafés e perguntava o que os outros levavam e tecia as suas apreciações. Admirava bastante George Sorel, gostava de Malheiro Dias, nomeadamente a sua História da Colonização do Brasil e após grande defesa de Alexandre Herculano feita uma vez pelo Gualdino Gomes na tertúlia, afirmou ser o P. António Vieira o nosso maior historiador, porque previa até o futuro.

Acerca dos livros, via sempre se faltavam folhas quando os comprava nos alfarrabistas que visitava amiúde. Foram também até à Feira da Ladra e uma vez  Fernando Pessoa achou muito barato, dizendo que não sabiam o que valem, uns aventais maçónicos. Mas dizia que não pertencia à maçonaria, antes afirmava ser um rosacruz, e também um gnóstico. Não usava porém o termo gnóstico cristão. E dos rosacruzes dava a entender que tinha um contacto qualquer que era com níveis superiores ou subtis. Falava mais destas coisas quando eram dois ou três, porque na Tertúlia  eram doze os que se e reuniam às quinta-feiras, a partir das cinco horas, se bem que Bourbon e os outros o procurassem noutros cafés onde não houvesse música, pois Fernando Pessoa não apreciava muito, tal como também não trauteava qualquer música.

Gostava também, quando cortava o cabelo, de ir com a sua maleta até ao (ou a um) café e dizer para esperarem, enquanto ele tomava o seu banho nas termas ou banhos públicos [provavelmente os de S. Paulo, ou Alfama], donde vinha visivelmente satisfeito e rejuvenescido, pois não suportava os restos do cabelo no corpo. Era pois de uma limpeza e meticulosidade grande, andando sempre impecavelmente bem vestido, sem nódoas, ainda que em roupas um pouco já coçadas.

Os seus melhores amigos eram o Marquês de Penafiel e Manuel de Menezes e Vasconcelos, se bem que à sua direita ficasse sempre o Mário de Saa e à esquerda o Da Cunha Dias. Na tertúlia, a ala da esquerda era constituída por Alfredo Guizado e os agricultores alentejanos. Falando-se um dia que seria bom terem médicos militares na tertúlia, Fernando Pessoa retorquiu: metam-me tudo menos um militar e sugeriu que se convidassem médicos ou especialistas de assuntos que se debatessem na tertúlia, em geral à volta dum tema, cada um expressando a sua opinião, e Fernando Pessoa sintetizando no fim.

Na página detrás, escrevi, mais á pressa e mais fragmentariamente a parte final dela, certamente pelo adiantado da hora e o esforço de recuperar a memória do diálogo havido horas antes e de qual o registo só dá uma pálida ou esbatida ressurreição:

«Pessoa foi para Bourbon um verdadeiro Mestre estimulando-o a corrigir a letra, a ler certos filósofos, criticando o esbanjamento do tempo em revistas inúteis, louvando atitudes valorosas, como o ele ter deixado de fumar.

Havia assim um certo magistério e Fernando Pessoa tinha a noção que estava a criar uma imagem para o futuro, se bem que pedisse a Deus que lhe desse mais dez anos de vida. A morte inesperada de vulvo [um dos diagnósticos médicos] sem ser do beber vinho, algo que  o eng. Bourbon Peixoto julgava não ter de qualquer  modo grande relevância.

[Dirá ainda, corroborando outros testemunhos relativos às suas crenças religiosas  e receios atmosféricos], que Fernando Pessoa era supersticioso. Um dia resolveram levarem-no à Tapada da Ajuda, para visitar a quinta, após um bom almoço ali perto para compensarem Fernando Pessoa de não o terem avisado a tempo de ir a um concerto dos carrilhões de Mafra. Ora ao aperceberem-se repentinamente duma cobra, Fernando Pessoa considerou ser um presentimento funesto, algo de negativo, e decidiu terminar logo ali o passeio. Serpente do mal, portanto. Mas já pouco tempo depois ....

[Anotei ainda que] os três defeitos piores que Fernando Pessoa não suportava eram: 1º grosseria  ou má educação e ainda por cima propositadamente. 2º...., 3º falar em vagalhões.
Tinha grande reverência por Eliezer Kamenesky (1888-1957, vegetariano, naturista, pacifista, tendo-lhe prefaciado bem esotericamente o livro de poesia A Alma Errante), vestido de branco, judeu e antiquário, mas explorador nos preços.
Leonardo Coimbra, discursando em Lisboa e Porto [Creio que anotei esta  menção ao flamejante a  Leonardo Coimbra (1883-1936), admirado por Fernando Pessoa no começo da 2ª década, por Peixoto Bourbon tê-lo visto discursar, tal como o meu pai, sentindo a sua forte capacidade entusiasmante e levitante.]      

Eis pois mais alguns dados para a biografia de Fernando de Pessoa e para um melhor conhecimento da sua época e ambiente. Espero ainda vir a transcrever mais textos e cartas, prestando uma homenagem grata às terras de Basto e suas gentes, a Francisco Bourbon Peixoto  e a Fernando Pessoa. Muita luz e amor divinos nos seus espíritos e corpos de luz ou glória.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

12 de Junho, dia Nacional da Rússia. Alexandre Dugin: o embate entre a civilização estado Rússia e o colectivo ocidental decadente.

 Após o Fórum Económico Internacional de Saint-Petersburg de 2026, realizado de 3 a 6 de Junho, no qual tantas grandes almas russas, e estrangeiras da multipolaridade, participaram, unidas no reconhecimento do Estado-Civilização da Rússia, desde há muito teorizado e divulgado por Alexander Dugin e outros intelectuais, e do seu papel ou missão benfazeja no mundo, e sobre o qual Dugin escreveu um bom texto de resumo que já partilhei em inglês (e pode traduzir com o QillBot), face à derrota cada vez mais evidente do colectivo ocidental por detrás da testa de ferro ucraniana, e que já hipocritamente ou não está a começar a finalmente a sair da sua posição belicista e a pedir negociações, com uma súbita deslocação a 12 de Junho de três enviados da França, Alemanha e Reino Unido a Moscovo, aparentemente independentes da orientação extremista da desgraçada direcção da União Europeia, Alexander Dugin resolveu elevar mais uma vez a sua voz prudente e sábia mas firme e exigente, alertando para os perigos que se encontram por detrás de uma aceitação da paz envenenada que pode estar a ser oferecida.

Há uma ou outra posição nele que se podem discutir, decorrentes do seu enraizamento muito forte no Cristianismo Ortodoxo e do conhecimento profundo do marxismo como filosofia, e na história e sociedade russa, e logo criticando os seus defeitos. Certamente que é mais metafisicamente que Alexander Dugin se posiciona, apresentando até as suas referências principais, tais os valiosos representantes da Filosofia Perene no séc. XX René Guénon e Julius Evola, bem críticos tanto do liberalismo consumista ocidental como do comunismo materialista e totalitário.

Cremos que Alexander Dugin, salvo de ter serido assassinado pelo martírio em sua vez da sua angélica filha e grande promessa filosófica Daria Dugina, tem vindo a ganhar um reconhecimento crescente pela sua valiosa visão do que constitui a civilização russa, e contribui significativamente para o tesouro comum das ideias e ideais, princípios e objectivos da civilização russa, interagindo com todas as esferas da sociedade e bastante em sintonia com o Vladimir Putin, embora talvez tenha de reconhecer mais, e seguindo nisso o seu Presidente Putin, a aceitação e valorização da coexistência do paganismo-shamanismo euro-asiático, do Budismo e do Islão, na grande alma russa ortodoxa, ecuménica e multireligiosa.

De qualquer modo um excelente texto, com um discernimento lúcido e corajoso dos aspectos mais negativos e insidiosos do Ocidente neoliberal globalista anti-tradicional, dos perigos que dele resultam, e muito apropriado para ser escrito e divulgado no dia nacional da Rússia. 

                                  

Alexander Dugin condena qualquer compromisso com o Ocidente pós-moderno e insiste que a abordagem civilizacional da Rússia é o único paradigma possível.

«Não estamos simplesmente em guerra com o Ocidente. Estamos em guerra com o Ocidente moderno (e pós-moderno)—com o Ocidente que, desde o século XI, se desviou do nosso caminho cristão comum e tem avançado cada vez mais, esforçando-se para alcançar o fim da noite, cada vez mais fundo no crepúsculo exterior.
As condições metafísicas para uma trégua são as seguintes:
Ou o Ocidente, permanecendo moderno (e pós-moderno)—exatamente como quer ser e como actualmente é—nos deixa em paz (mas isso é descartado, impossível, e não é seriamente considerado por ninguém lá—Satanás não para);
Ou o Ocidente muda drasticamente a direção de seu movimento e, seguindo o caminho do Retorno Eterno, volta decisivamente para suas próprias raízes (cristãs, greco-romanas). Essas raízes são comuns a nós dois (acontece apenas que o Ocidente se afastou muito, muito delas, enquanto nós não). Isso é altamente improvável, mas não teoricamente impossível (afinal, Nietzsche, Husserl, Spengler, Heidegger, René Guénon e Julius Evola também representam o Ocidente—apenas o Ocidente certo e são, não possuído pelo progresso, liberalismo e perversões).
Um ponto importante sobre a abordagem civilizacional. Agora rompemos a barreira: a abordagem civilizacional está finalmente sendo levada a sério e sem os anteriores escárnios e troças. Mas há uma nuance subtil aqui. Todos foram pressionados a aceitá-lo—mas apenas como uma abordagem. Ou seja, agora é permitido dizer que as civilizações existem no plural, que são diferentes, únicas, e que cada uma faz o que quiser no curso de sua própria produção (tanto de coisas quanto de significados). Agora é uma abordagem oficialmente permitida.
Mas vamos pensar sobre isso: como seria qualquer outra abordagem?
E aqui descobrimos o aspecto mais interessante: uma abordagem não civilizacional é a crença na universalidade e na natureza obrigatória do caminho de desenvolvimento ocidental—em outras palavras, um juramento de lealdade a uma visão de mundo centrada no Ocidente. No Ocidente de hoje, o liberalismo (capitalismo burguês em sua forma pós-moderna—daí a ideologia LGBT, a imigração em massa, e assim por diante, todas banidas na Rússia) reina supremo, com uma dominância confiante, até mesmo totalitária. Portanto, uma abordagem não civilizacional hoje significa concordância com a hegemonia ocidental e, nas condições actuais, com o liberalismo. Uma vez que estamos em guerra com o Ocidente na Operação Militar Especial, uma abordagem não civilizacional é simplesmente uma quinta coluna do inimigo na guerra cognitiva pela consciência pública dos russos.
Claro, o marxismo clássico permanece como outra opção não civilizacional (a sua teoria da sucessão universal de formações socioeconômicas—exatamente como no Ocidente). Mas, na verdade, só atrapalha e joga nas mãos dos liberais. O próprio Marx estava, afinal, alinhado com a burguesia nas etapas em que ela estava derrubando o cristianismo, os feudos e os valores tradicionais. Ele acreditava que, depois, o proletariado (“nós”) derrubaria a burguesia (“eles”). Sabemos como isso terminou. Por um tempo, até parecia estar funcionando (graças à grandeza do povo russo e ao poder essencialmente imperial e centralizado de Stalin). Mas então veio de novo a acumulação primitiva de capital—os anos 1990, o capitalismo selvagem, jaquetas de framboesa, ladrões, assassinos contratados e agentes da CIA no governo russo.
Assim, a relativização da abordagem civilizacional é:
Ou uma tentativa de justificar o liberalismo globalista totalitário (este é o caso mais comum)—em outras palavras, uma operação em grande escala dos serviços de inteligência ocidentais na guerra cognitiva. Nos últimos 30 anos, os nossos estudantes de humanidades passaram por todas as etapas de recrutamento sistemático: bolsas, conferências, ofertas que não podiam recusar, publicação em índices de citação ocidentais, reformas educacionais, e assim por diante;
Ou o marxismo inercial—a dor fantasma de uma ideologia quimérica meio apagada.
No primeiro caso, isso abeira a espionagem descarada. Vemos tal nos casos de agentes estrangeiros como Sineokaya e Shulman (2).  Está tudo claro aqui. Um liberal é um inimigo do povo, praticamente um terrorista feito ou pronto.
No segundo caso, são as alucinações da geração mais velha, das quais devemos ser tolerantes, mas que não devem ser levadas a sério. E se forem novos marxistas, então é mais provável que seja espionagem novamente—significando que se deve procurar um manipulador estrangeiro (masculino ou feminino).
Portanto, a abordagem civilizacional não é apenas uma abordagem. É o único paradigma possível se a Rússia é uma civilização-estado, e Putin e as autoridades afirmam que é exactamente isso que ela é. Consequentemente, o pluralismo deve ser buscado não fora do paradigma civilizacional, mas dentro dele,   mas apenas se forem direitistas e esquerdistas civilizacionais (russos, euroasiáticos). Na verdade, para todos—mas dentro do paradigma. Fora dele, há  escuridão total. O crepúsculo externo. Não se deve ir lá. O mal espreita lá.

(Traduzido do russo, e do inglês.)

Notas do tradutor, 1: "Jaquetas framboesa" (малиновые пиджаки) é uma referência simbólica aos blazers atractivos e vermelhos brilhantes usados pelos novos-ricos "Novos Russos"—frequentemente criminosos ou empresários sombrios—como um emblema estereotípico da vulgaridade e do capitalismo criminoso selvagem dos anos 1990.
2: Yulia Sineokaya e Ekaterina Shulman são intelectuais liberais russas bem conhecidas e que o estado Russo designou como agentes estrangeiros. Elas exemplificam a "quinta coluna": liberais que foram sistematicamente recrutados pelo Ocidente através de bolsas, conferências e redes acadêmicas, e que trabalham ativamente para minar a soberania civilizacional da Rússia, de dentro. Ambas estão agora no exílio e são considerados em círculos patrióticos como representantes típicos da oposição ideológica pró-Ocidental.


June 12, National Day of Russia. Alexander Dugin on the Russian state civilisation and the post-modern West.

After the Saint Petersburg International Economic Forum, held in 3-6 June 2026, in which so many great Russian and foreigners multipolar souls participated, united in the recognition of the state-civilization of Russia, long theorised and disseminated by Alexander Dugin and other intellectuals, and its benevolent role or mission in the world, and on which he wrote a good summary text that I have already shared, in the face of the increasingly evident defeat of the Western collective behind the Ukrainian puppet and which is now hypocritically or not beginning to finally come out of its bellicose position and ask for negotiations, with a sudden visit on June 11 by three envoys from France, Germany, and the United Kingdom to Moscow, to meet foreign minister Sergei Lavrov (but they were received just by Mikhail Gulazin) apparently independent of the extremist orientation of the unfortunate direction of the European Union, the philospher and geo-estrategist Alexander Dugin, on the National Day of Russia, 12 June, decided to once again raise his prudent and wise voice, warning of the dangers behind an acceptance of the poisoned peace that may be being offered.

There may be one or two positions that can be discussed stemming from his very strong roots in Orthodox Christianity and his deep knowledge of Marxism as a philosophy, and in Russian history and society, and thus criticising its flaws. Certainly, Alexander Dugin positions himself more metaphysically, even presenting his main references, such as René Guénon and Julius Evola, who are quite critical of both Western liberalism and materialist, totalitarian communism.
We believe that Alexander Dugin, having been saved from being assassinated by the martyrdom of his angelic daughter and great philosophical promise Daria Dugina, and so suffering very much from that, endured everything and has been gaining increasing recognition for his valuable vision of what constitutes Russian civilisation, and contributes significantly to the common treasure of ideas and ideals, principles and objectives of Russian civilisation, interacting with all spheres of society and quite in tune with Vladimir Putin, although perhaps he needs to acknowledge more and follow his President Putin in the acceptance and appreciation of the coexistence of Euro-Asian paganism or shamanism, Buddhism, and Islam, within the great Russian Orthodox, ecumenical, and multireligious soul.

                                  
In any case, an excellent text, with a lucid and courageous discernment of the most negative and insidious aspects of the anti-traditional globalist neoliberal West, of the dangers that result from accepting it, as some people more westernizd would wish, and very appropriately written and published, in his Substack, on Russia's national day.

                                                         

"Alexander Dugin condemns any compromise with the postmodern West and insists that Russia’s civilizational approach is the only possible paradigm.

We are not simply at war with the West. We are at war with the modern (and postmodern) West—with the West that as far back as the 11th century diverged from our common Christian path and has been advancing ever further, striving to reach the end of the night, deeper and deeper into the outer twilight.

The metaphysical conditions for a truce are as follows:

  • Either the West, while remaining modern (and postmodern)—exactly as it wants to be and as it currently is—leaves us in peace (but this is ruled out, impossible, and not seriously considered by anyone there—Satan does not stop);

  • Or the West sharply changes the direction of its movement and, following the path of the Eternal Return, decisively turns BACK towards its own (Christian, Greco-Roman) roots. These roots are common to us both (it is only that the West has wandered very, very far from them, while we have not). This is highly improbable, but not theoretically impossible (after all, Nietzsche, Husserl, Spengler, Heidegger, René Guénon, and Julius Evola represent the West as well—only the right, sane West, not possessed by progress, liberalism, and perversions).

An important point about the civilizational approach. We have now broken through the barrier: the civilizational approach is finally being taken seriously and without the previous sneering and mockery. But there is a subtle nuance here. Everyone has been pressured into accepting it—but only as an approach. That is, it is now permissible to say that civilizations exist in the plural, that they are different, unique, and that each does whatever it wants in the course of its own production (of both things and meanings). It is now an officially permitted approach.

But let’s think about this: what would any other approach look like?

And here we discover the most interesting thing: a non-civilizational approach is the belief in the universality and mandatory nature of the Western path of development—in other words, an oath of allegiance to a West-centric view of the world. In the West today, liberalism (bourgeois capitalism in its postmodern form—hence the LGBT ideology, mass immigration, and so on, all banned in Russia) reigns supreme, with confident, even totalitarian dominance. Therefore, a non-civilizational approach today means agreement with Western hegemony and, under current conditions, with liberalism. Since we are at war with the West in the Special Military Operation, a non-civilizational approach is simply a fifth column of the enemy in the cognitive war for the public consciousness of Russians.

Of course, classical Marxism remains as another non-civilizational option (its theory of the universal succession of socio-economic formations—exactly like in the West). But it mostly just gets in the way and plays into the hands of the liberals. Marx himself was, after all, aligned with the bourgeoisie at the stages when it was overthrowing Christianity, estates, and traditional values. He believed that afterward the proletariat (“we”) would overthrow the bourgeoisie (“them”). We know how that turned out. For a while it even seemed to be working (thanks to the greatness of the Russian people and Stalin’s essentially imperial, centralized power). But then came primitive capital accumulation again—the 1990s, wild capitalism, raspberry jackets,1 thieves, contract killers, and CIA agents in the Russian government.

Thus, the relativization of the civilizational approach is:

  • Either an attempt to justify totalitarian globalist liberalism (this is the most common case)—in other words, a large-scale operation by Western intelligence services in the cognitive war. Over the past 30 years, our humanities scholars have gone through every stage of systematic recruitment: grants, conferences, offers they couldn’t refuse, publication in Western citation indexes, education reforms, and so on;

  • Or inertial Marxism—the phantom pain of a half-erased, chimeric ideology.

In the first case, this borders on outright espionage. We see this in the cases of foreign agents like Sineokaya and Shulman.2 Everything is clear here. A liberal is an enemy of the people, practically a ready-made terrorist.

In the second case, these are the hallucinations of the older generation, of which we should be tolerant, but which should not be taken seriously. And if they are new Marxists, then it is most likely espionage again—meaning one should look for a foreign handler (male or female).

Therefore, the civilizational approach is not just an approach. It is the only possible paradigm if Russia is a state-civilization, and Putin and the authorities affirm that this is exactly what it is. Consequently, pluralism should be sought not outside the civilizational paradigm, but within it. There is plenty of room for both the right and the left, but only if they are civilizational (Russian, Eurasian) right-wingers and civilizational (Russian, Eurasian) left-wingers. In fact, for everyone—but inside the paradigm. Outside it lies utter darkness. The external twilight. One should not go there. Evil lurks there.

(Translated from the Russian)

1

Translator’s note (TN): “Raspberry jackets” (малиновые пиджаки) is a symbolic reference to the flashy, bright-red blazers worn by the nouveau-riche “New Russians”—often criminals or shady businessmen—as a stereotypical emblem of the vulgarity and wild criminal capitalism of the 1990s.

2

TN: Yulia Sineokaya and Ekaterina Shulman are well-known Russian liberal intellectuals whom the Russian state has designated as foreign agents. They exemplify the “fifth column”: liberals who have been systematically recruited by the West through grants, conferences, and academic networks, and who actively work to undermine Russia’s civilizational sovereignty from within. Both are now in exile and are regarded in patriotic circles as typical representatives of the pro-Western ideological opposition.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Fernando Pessoa: vida, obra e a "Mensagem". Palestra de Pedro Teixeira da Mota, num ciclo organizado pelo Simão Caldeira Cabral, na Junta da Freguesia de S. Catarina, à C. do Combro lisboeta.

 Neste dia 11 de Junho, entre 10 de Junho,  dia de Portugal, e o 13 de Junho, dia de S. António e de Fernando Pessoa,  partilhamos uma pequena intervenção minha (a 26 de Maio) num ciclo de leituras de poemas e euritmia da Mensagem de Fernando Pessoa, com músicas,  e organizado pelo Simão Caldeira Cabral, na Junta da Freguesia de S. Catarina, na antiga casa de Alberto e Helena Vaz da Silva, que eu ainda visitei duas vezes para avaliar a extensa biblioteca que aquecia o palácio Cabral, agora tornado público e ao serviço de uma dinâmica junta de freguesia de Lisboa, onde trabalha até uma amiga de longa data, a Felícia, que esteve presente. 

A sessão decorreu bem, com pessoas, perguntas, música (que pode escutar nos vídeos que gravei, no Youtube) e até danças no fim e certamente Fernando Pessoa terá apreciado. Tendo registado parte da intervenção, embora já não as valiosas perguntas sobre a iniciação de Fernando Pessoa e a sua relação com Aleister Crowley e as associações secretas, como a Maçonaria e o Rosicrucianismo, e como tal estava visível apenas no meu canal do Youtube, resolvi partilhar o vídeo para este blogue e é possível que venha a acrescentar-lhe um pouco de texto. Boas audições....

               

quarta-feira, 10 de junho de 2026

10 de Junho, 2026. Dia de Portugal, e de homenagem ao Irão. Da história religiosa e dos ensinamentos perenes da Pérsia, tão ameaçada pelo decadente e opressivo Ocidente. Pela vitória iraniana.

As origens, características e influências das religiões mais antigas permanecem para muitos misteriosas mas para outros uma visão simplificadora e redutora, derivada em geral da religião a que pertencem - e que tentou afirmar-se perante as outras, em geral como sendo a melhor ou mais verdadeira -, gera neles erros graves de conhecimento histórico e religioso, o que é contudo útil aos que querem manter os seus privilégios antigos de controle do conhecimento da verdade e do poder intrínseco das religiões, ou do fenómeno religioso, fundamental no ser humano enquanto inserção num Cosmos, ou todo ordenado inteligentemente. 

As religiões mais antigas e hoje extintas, ou quase, tal a do Egipto e a do Irão, foram muito importantes e valiosas nos seus tempos, povos e civilizações e como depois de serem atacadas e destruídas deixaram, além dos monumentos e ruinas, centelhas do conhecimentos e práticas que acabaram absorvidos no caudal das novas religiões triunfantes,  Judaísmo, Cristianismo e Islão - as ditas, exclusiva e impropriamente, do Livro, pois os Vedas e o Avesta foram também revelações - elas devem ser investigadas ou estudadas renovadamente.

Pouquíssima gente está consciente do que elas transmitiram e influenciaram, ou dos grandes ensinamentos de sabedoria que detinham e que ainda hoje podemos sentir e receber, já que estando eles em grande parte transformados ou ocultados, acabamos de atribuir  às religiões posteriores a primazia de tais doutrinas ou ensinamentos.

Graças porém a arqueólogos e historiadores mais imparciais ou a amadores de tais religiões, tais conhecimentos e doutrinas podem ainda assim ser reconhecidos e trabalhados e abrir a nossa visão e realização interior.

 Para comemorar o artigo 2000 do blogue, e a 10 de Junho, dia de Portugal, vamos homenagear o Irão e a sua civilização, tão ameaçada pela elite epsteiniana e infrahumana que governa o Ocidente. Vamos  auxiliar-nos de um historiador valioso, Paul Chalus, que na sua obra bem fundamentada, original e corajosa L'Homme et la Religion. Recherches sur les sources psychologiques des croyances. Paleolithique, Néolithique, Age du Bronze, Crete, Israel, Iran. editado em  Paris, pela Albin Michel, em 1963, num in-4º 510 p.,  abordou  os principais núcleos e mistérios das religiões, tais como o monoteísmo, panteísmo, dualismo, luta entre bem e mal,  angeologia, a ligação psico-afectiva do ser humano com Deus. Vamos pois abordar um livro acerca do tão sagrado Irão, que os invejosos e criminosos Trump e Netanyahu querem ver destruído, regressado à pré-história ou obliterado, como já afirmaram mais de uma vez e vão tentando aos poucos...

 É do cap. VIII, intitulado Les Indo-Europeens en Asie. l'Iran, de 48 páginas,  muito rico de indicações e deduções, e do subcapítulo IV Escathologie et Mystique, que extrairemos um trecho bem substancial. Mas antes apontemos alguns dados valiosos dos três capítulos anteriores, onde aborda no I a Índia védica, e no II a religião iraniana e védica, neste anotando, por exemplo, as correspondências entre as deidades ou formas de manifestação divina Agni e Attar, Surya e Hvar, Mitra e Mitrah. Quanto a Varuna,  tão sagrado era o seu nome que não era pronunciado, sendo chamado o Senhor sábio, Ahura Mazdah, na prática o nome de Deus nas sucessivas transformações da religião iraniana até à chegada do Islão, com Allah e os seus 99 nomes.  

Aborda a equivalência entre as bebidas fermentadas sagradas do Soma védico indiano e do Haoma iraniano, que eram derramados nos sacrifícios sobre a chama ou as oferendas, ou bebidos. Já a exposição dos corpos dos defuntos ao céu e às aves, citando R. Lantier, La religion ibérique, equipara-a aos Celtiberos no nordeste ibérico. 

Os aspectos históricos e cronológicos são equacionados a partir das inscrições dos reis aquemédias do séc. VI ao IV, com dedicatórias a Ahuramazdah, relacionando com Heródoto, o qual «tendo recebido informações das províncias aqueménidas ocidentais, assinala que os Persas adoravam o ser supremo sob o nome de Dyaus Pitar, o Céu Pai, o que é evidentemente a grande divindade indo-europeia, que se perpetua no nome de Ahuramazdah». A expressão baga, previdência, é dada aos outros deuses, o que estará afim do russo Bog, Deus, e de Bhaga, deidade indiana que providencia a sorte. O que para  Paul Chalus é uma evolução significativa: mudança da primeira religião iraniana, que chamava aos seus deuses daeva e passa para os baga e por fim, com a reforma zoroastriana, para yazata, o ser venerável.  Constata que popularmente  Mithra e a deidade feminina, das águas e fertilidade, Anahita, continuarão a ser muito cultuadas. 

Ora o princípio religioso mais importante, afirmado pelo rei Ciro (559 a 530), fundador do império aqueménida,  numa inscrição na grandiosa Persepolis, é Arta, Ordem, Justiça, cósmica, na natureza e na sociedade, a ela se opondo Drauga, Druj, a injustiça, a mentira, a traição, algo que nós vemos hoje em 2026 mais expresso na luta que o Irão enfrenta, e desde 1953, contra as forças do mal israelo-americanas, que certa e divinamente serão derrotadas... Ameen...

Na peugada do grande iranólogo belga J. Duchesme - Guillemin (1910-2012), P. Chalus considera que a religião iraniana mais antiga já deveria ter tanto Ahura Mazdah como a luta ente arta e druj, e mesmo uma retribuição dela no além, e chama-lhe a religião dos Magos [e por isso o Cristianismo inseriu a lenda dos Reis Magos]  embora outros realçaram o shamanismo como a fonte comum mais antiga, tal H. S. Nyberg sobre a qual a reforma do profeta Zoroastro, no séc. VIII ou VII a. C., incidiu, estabelecendo mais claramente o Deus único. Paulo Chalus aponta ainda o mistério  não resolvido plenamente, se o profeta nascera no nordeste iraniano, na região do Alto-Oxus, nos confins do Pamir, próximo da Índia, ou se na zona do Azerbaijão, no sul do Cáucaso,  distante 2.000 km para Oeste. 

                                                  
Num meio ambiente pastoril e de rebanhos, o que o seu nome pode indicar, para além da brancura ou alvura da sua pele ou alma, Zarathustra foi um rectificador das antigas concepções religiosas, desenvolvendo valores éticos fortes e protegendo fracos, oprimidos e explorados, insurgindo-se contra os mentirosos e ladrões e mesmo contra os sacerdotes e os seus rituais e sacrifícios. Ao converter  um rei da Báctria, ganhou prestígio, protecção e sucesso. A sua visão, diálogos e orações com o Deus ou Senhor Sábio, Ahura Mazdah, ficaram registados  nas Gathas e Yasnas, tornando-se o texto sagrado dos zoroastrianos, dos madzeístas e dos parsis que emigraram para a Índia (e que ainda visitei e dialoguei. 

A representação de Ahura Mazda nas ruinas do Império aqueménida em Persopolis, séc. VI. 

Nelas se vê que o dualismo extremo não fazia parte da sua predicação reformista, pois acima de tal estava Ahura Mazdah e era apenas face à sua 1ª emanação Spenta Mainyu, que se erguera o adversário Angra Mainyu, que se virá a tornar Ahriman (tão trabalhado por alguns filósofos europeus e Rudolf Steiner.) De qualquer modo a Matéria, e a Natureza não são más, não há repúdio delas, e a visão escatológica ou do final dos tempos é a vitória do bem, certamente com Zarathustra a apelar à nossa participação guerreira, o que ingressará fortemente no Islão como javanmardi, a nobreza cavaleiresca, fortificando ou gerando a futuwah, cavalaria espiritual do Islão, hoje bem viva e em provação no Irão. 

No capítulo seguinte Zoroastrismo e Madzeísmo, Paul Chalus cita diferentes autores e afirma que no estado actual do conhecimento é ainda impossível saber-se ao certo o que esteve por detrás dos processos transformativos, mas que lhe parece evidente que os seis Amesha Spenta, os seis "imortais veneráveis", que acompanham Ahura Mazdah, e que podem ser vistos como aspectos, qualidades ou atributos divinos, ou Arcanjos, correspondem a antigas divindades indo-iranianas. Tais Vohu Manah, o Bom Pensamento, Mitra e depois no Avesta recente [compilado no tempo do rei Khosrow, 531-570]   Bahman. E  Asha, ou Asha-Arta, a Boa Ordem, ArdibihistRita na tradição védica. Khshathra-Vairya (shariver) a potência, domínio ou reino, os kshatrya, casta guerreira indiana. Armaiti, Spenta Armaitii, "abandono generoso, pensamento piedoso, devoção cultual" semelhante à Aramati, védica, e à Anahita mesopotâmica espiritualizada. Haurvatat (Khordath), a integridade, saúde; e Ameretat (Mourdad) ,a imortalidade, ligada às plantas. Bom pensamento, bem sentimento ou devoção e correcta acção serão a trindade fundamental do código ético iraniano.

Outras entidades e princípios importantes são Sraosha, a obediência, e disciplina, e Ashi, a retribuição. E, por fim, Daena, o Arcanjo da Terra, tão aprofundado por Henry Corbin, tal como as fravashis, as entidades guardiães celestiais de cada ser, e que neste blogue já trabalhei brevemente. Que nos inspirem! 

O Madzeísmo responde às perguntas que Zoroastro cantou nas suas Gathas, pois nos seus textos compilados preservadoramente pouco depois da chegada do Islão, já nos séc. IX e X, tais o Denkart e Datastan-i-denik, e por fim o Boundahisn, explicam melhor as doutrinas das sucessivas  criações, e repousos, divinos, bem como os ataques das forças do mal, que são cíclicos e tocam alguns dos setes keshvars, orbes,  climas, ou mundos, terrestres, subtis e espirituais, no qual o do meio o centro é Eran-Vaj, o espaço sagrado, a montanha das Auroras (que reaparecerá no notável filósofo místico Shoravardi, com a sua filosofia iluminante - Ishraqi -, e neste blogue já abordado, que consegui introduzir a sabedoria zoroástrica e neo-platónica na filosofia espiritual persa e islâmica, como Henry Corbin tanto demonstrou), a terra das Visões, onde Zarathustra conseguiu chegar e ver o resplandescente Amesha Spenta ou Arcanjo Vohu Manah, o Bom pensamento. 

Será a meio do  IV capítulo, Escatologia e Mística celeste, que  Paul Chalus traça esse caminho iniciático, que terá a sua correspondência após a morte com a passagem pela ponte de Chinvat, num capítulo que começa assim, e que numa tradução integral terminaremos esta homenagem à corajosa e resiliente Republica Islâmica do Irão e ao seu povo e civilização, neste artigo que será o 2.000 publicado no blogue, a 10 de Junho, dia de Portugal, ética e espiritualmente de rastos pela subserviência dos sucessivos governos e meios de comunicação à desgraçada e belicista direcção da União Europeia e à oligarquia globalista anti-russa, anti-iraniana, anti-cubana, anti-chinesa, anti-venezuelana, anti-BRICS, anti-multipolaridade, anti-humana...
Lux, Pax, Veritas, Amor!

     «O Iraniano, seduzido pela pureza, de que o seu céu lhe dá um exemplo notável, seduzido pela luz, da qual a que ilumina a sua vida é de uma qualidade extrema, nas reflexões que lhe sugeria o seu meio encontrou a prova de que o Deus venerado dos seus antepassados, o deus por excelência de todos os indo-europeus, era bem o verdadeiro, o único Deus.»...

Qualquer que seja a importância, a esplendor desses Raios que são os Amesha Spenta, qualquer que seja o interesse que apresentam os astros, a terra e os fenômenos meteorológicos, é mais alto, bem no alto, no céu, que Deus reside, vestido do esplendor imponderável. E ele permanece um Deus sem rosto e sem estátuas [J. Duchesme-Guillemin, Zoroastre, p. 148.]. Mas todos os objetos, os astros, as águas, a terra e as plantas, o maravilhoso gado, o homem bom, são a sua criação, tudo isso é sagrado, porque de certa forma divino, como testemunha o khvarenah [ou xvarnath, a luz da glória, o halo resplandescente, a força carismática] que ilumina o homem justo ou forte e, ao mesmo tempo, coroa as montanhas.

Desde então, o Mal apareceu ao Iraniano em termos de trevas e opacidade. O Mal não pode residir senão completamente em baixo; ele só pode se esconder por causa de sua fealdade, em face do bem - que é ao mesmo tempo o Belo - resplandecente e transparente. O Mal não pode ser senão finito - no tempo como no espaço - , limitado e estúpido, em face do Omnisciente, do Infinito. Como a mentira resistiria diante da verdade? Assim, o problema do Mundo e de sua causa, o problema do Homem e de seu destino, dispuseram-se conjuntamente aqui. E eles dispuseram-se tanto no plano da luz como no da moral - a primeira sendo, ao nível cósmico, o equivalente da segunda.

No plano da moral, a pregação de Zaratustra traz - repitamos - um progresso incontestável. Para os Iranianos antes do profeta, o pecado é uma mancha de ordem mágica, que se apaga por procedimentos da mesma natureza, tal como para os Indianos védicos [Oldenberg, La Religion du Veda, p. 171.] Evidentemente, estes últimos alcançaram rapidamente, parece, um estágio moralmente superior, e alguns hinos são belos testemunhos disso [Rigveda, VII, 86. Louis Renou, La Poésie religieuse de l'Inde antique, p. 60...] Mas ainda assim, nenhum vínculo afetivo verdadeiro se estabelece entre os deuses e o fiel: os primeiros são déspotas que o segundo deve tentar persuadir. Zaratustra, ele, é o amigo de Deus: ambos "põe de pé" um conjunto de princípios que fazem a rectidão da nova religião, eles conduzem uma luta comum contra o mal. Os Amesha Spenta alinham-se atrás de uma divindade única, o profeta segue-os e é recomendado aos humanos fazerem o mesmo. O culto é uma manifestação da piedade, mas não passa de um compromisso de bem agir: as más ações só podem ser resgatadas pelas boas, e estas devem, no final das contas, pesar mais do que as primeiras.
A intimidade de Deus e de Zaratustra  transporta-nos a um mundo que não é mais o da pura natureza, mas o da revelação - que é também o da escatologia - onde entram em contato o divino e o humano:
"De fato, os sinais de mão que nos colocarão na beatitude,
são-nos assegurados da vossa parte, Senhor Sábio enquanto Justiça,
bem como uma ajuda visível, manifesta.
Já que vocês querem o bem do seu profeta." [Yasna, 50, 5]

Existe, portanto, um modo, um lugar ou um tempo de existência onde essa amizade de Zaratustra e de seus fiéis com 
Deus se manifestará – seja um estado post mortem ou uma transformação "à vista" da vida presente, tal como entre os primeiros cristãos [se veio a esperar, com a palavra invocadora Maranata]. Então Zaratustra e os justos, com tudo o que é belo - ou seja, luminoso - no universo, contribuirão para a glória de Ahura Mazdâh.

"Com estes hinos, ó Sábio, que eu vá para vós
Louvando-vos como justiça, com os actos do Bom Pensamento.
Quando eu dispuser à vontade da minha parte de felicidade,
Que eu possa pôr em movimento os hinos do clarividente!
Os actos que farei e aqueles que fiz anteriormente,
E o que, pelo Bom Pensamento, é precioso para o olho:
A luz do sol, a aurora cintilante dos dias,
Tudo isso  vos louva enquanto Justiça, ó Senhor Sábio". Yasna,50, -10

Assim aparecem ligados - e poder-se-iam encontrar outros exemplos nos Gathas - a actividade do homem e os fenômenos naturais, o destino do homem e o do mundo; tudo, na criação, deve tomar partido, ou por Deus, ou pelo Mal - que finalmente será reduzido à impotência:
"Ele que, àqueles que estão vivos, estiveram ou o serão,
Dá a salvação ou a perda:
A alma do justo agraciada com a Imortalidade
As torturas para sempre para o vilão.
Delas também o Senhor Sábio é criador, por seu Império." Yasna 45, 7

O fim do mundo [que sucede para cada um em vários níveis]  é uma renovação dos seres, da qual os justos tirarão glória [xvarnath, a luz espiritual manifestada, irradiante e benção divina.]:

"E possamos ser aqueles que renovarão esta existência!
Ó Sábio, e vós outros Senhores e a Justiça, trazei a vossa aliança (os Amesha Spenta]
Para que os pensamentos se reúnam onde a Inteligência está fraquejando.
 Então ocorrerá para o Mal a cessação do sucesso,
Enquanto obterão a recompensa prometida,
no feliz refúgio do Bom Pensamento, do Sábio e da Justiça,
Aqueles que terão adquirido boa reputação [ou nome luminoso]". Yasna 30, 9-1.