No exame ao fim do dia que os Pitagóricos realizavam na sua fraternidade e tradição o discípulo interrogava-se e discernia onde errara mais, arrependendo-se e corrigindo-se, e onde fora mais sábio, justo, luminoso, ligando melhor a alma e o espírito, o bem nosso e o bem dos outros, o céu e a terra na cruz universal, aprofundando a pureza e transparência de consciência, do coração e do seu veículo etérico, ochema.
Ao longo dos séculos seres e grupos perseveraram mais na Sabedoria do pensar, contemplar e agir bem, e encontramos belas florações na sabedoria popular, nas profissões e artes, nas ordens religiosas, e sobretudo nos pensadores e filósofos, já que estes eram teoricamente os amigos da Sabedoria, Sophia, e desde Pitágoras que no Ocidente se distinguiu a Phronesis, o bem fazer, a sabedoria prática, e a Sophia, sapiência contemplativa, aprofundada com Sócrates, Platão, Aristóteles e os seus continuadores, tais Plotino, Porfirio, Plutarco, Apuleio, ou mesmo na idade Média com diversas escolas, tal a de Chartres.
A partir do Renascimento, a grande floração humanista de sapiência vinda já de Dante e Petrarca, brilha em Marsilio Ficino (o tradutor e comentador de Platão, Plotino e do Corpus Hermeticus, desde 1484), Pico della Mirandola, Erasmo, Eugubinus Steucos, Lefévre d'Étaples, Charles de Bouvelles, Giordano Bruno, ou mesmo nos nossos André de Resende, João de Barros, Damião de Goes, Luís de Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Rafael Bluteau, etc.
No Cristianismo, se alguns dos primeiros padres da Igreja uniram bem a sabedoria pagã e a cristã e se tornaram célebres. tais Orígenes e Clemente de Alexandria, muitos outros se destacaram no culto da Sabedoria e entre os portugueses destacaram-se nos franciscanos, na esteira de S. António, nos Agostinhos, nos Jesuítas missionários e em especial, enquanto sucessores dos Templários na Ordem de Cristo, bem actuante no tempo dos Descobrimentos (com a de Aviz e de Santiago), na qual o lema do seu administrador e governador (durante 40 anos) Infante D. Henrique, Talent de bien faire, a invocava, inspirando frades contemplativos e cultores como Gregório Taveira, Isidoro Barreira, Aleixo de S. António, Lourenço Garro, Paulo de Vasconcelos e outros.
Certamente que deveremos referir a existência de várias monjas ou sorores que desenvolveram em Portugal a Santa Sophia, nas suas vidas (por vezes tão ásperas ou abnegadas), nas suas realizações íntimas e escritos, numa rectaguarda da Igreja militante mas nem por isso menos importante na funcionalidade de irradiação luminosa religante da Humanidade ao Bem e à Divindade, a partir dos seus centros e claustros, corações e orações.
Com uma riqueza tão grande de Tradição perene e portuguesa ao nosso alcance, que tem tido valiosos representantes até aos nossos dias, - e mencionaremos apenas as demandas de Antero de Quental e Jaime de Magalhães Lima, de Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, de Leonardo Coimbra e Sant'Anna Dionísio, de Agostinho da Silva e Dalila Pereira da Costa, de Afonso Botelho e Jorge Preto -, cada um de nós deve cultivar, meditar, aprofundar e actualizar alguns destes elos mais ou menos axiais, para a nossa alma sobreviver melhor a tanta artificialidade e tecnologia, agitação e violência, ignorância e manipulação. Cultivar a sabedoria no discernimento, assimilação e acção, e aprofundá-la na meditação e contemplação, é cada vez mais necessário se queremos realizar-nos espiritualmente, se aspiramos a uma Humanidade mais desperta, sábia e unida harmoniosamente...
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| A humanidade, os espíritos celestiais e a Divindade unidos em elevação e adoração, por Domingos António de Sequeira. Museu de Arte Antiga. |











