segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Efemérides selecionadas da última semana de Agosto, do encontro entre o Oriente e o Ocidente.

                                      Do artigo no blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/07/agosto-e-as-suas-efemerides-do-encontro.html, selecionei da última semana estas, com leves aumentos ou melhorias. Boas inspirações e realizações: Talent de bien faire!

24-VIII.    Nasce em Nova Goa, em 1904, Lúcio de Miranda. Licenciou-se em Ciências Matemáticas em Coimbra e exerceu o professorado nos Açores, Lourenço Marques e por fim, desde 1938, em Goa. Publicou livros e artigos valiosos em jornais, nomeadamente em Ponta Delgada. Em 1936, na ilha de S. Miguel dá à luz Índia e Indianos, com sete valiosos capítulos: Singularidades do Espírito Hindu; Mahatma Gandhi, Tolstoi e Gandhi; Tagore, o poeta; Shantiniketan. Buda, Duas Figuras da Índia Portuguesa (Abade Faria e Manuel António de Sousa, o heróico rei do Barué.). Acerca de Tolstoi e Gandhi escreve: «Reconhecendo assim a divindade de Jesus, o Mahatma procurou colher nos ensinamentos do Novo Testamento as forças que lhe permitiriam libertar-se dos preconceitos do velho brahmanismo decrépito», mas deveria ter referido ainda os ensinamentos nativos dos Jainas, da ahimsa ou não-violência..

Gandhi, visto por Domingos Rebelo, no livro de Lúcio Miranda.
                                         
26-VIII. Frei Mauro do mosteiro de S. Catarina do monte de Sinai,
enviado pelo sultão do Cairo a Roma, chega a Lisboa neste dia em 1504 e entrega a carta do papa Júlio II para o rei D. Manuel, com as ameaças que o sultão do Egipto fizera de destruir os lugares santos de Jerusalém, se ele não interviesse para impedir o progresso das conquistas portuguesas no Oriente. D. Manuel, satisfeito pelo temor turco, sossega o frade, a quem dá boas esmolas para o convento, e sugere ao papa que os reis cristãos europeus devem atacar o sultão para libertar os Lugares Santos («para que todos movessem as asas da sua potência contra este bárbaro, que com suas infiéis forças tinha tiranizado o santuário da nossa Redenção»), o que ele qualquer dia fará, se Deus aprouvesse, ao «entrarem suas armadas no mar Roxo, até irem destruir a casa de abominação de Mafamede, injúria e opróbio da religião cristã». 
Esta cruzada em que entrariam outros reis europeus falhou, mas o plano continuava vivo, aliás já alimentado pelo próprio Colombo, como o indica o título duma sua obra: Profecias que juntou o Almirante D. Cristóvão Colombo, da recuperação da santa cidade de Jerusalém e o descobrimento das Índias, dirigidas aos Reis católicos, onde está escrito: «Certamente que sabemos que Joaquim [de Fiora], o abade calabrês, preveu que de Hispania há-de trazer sua origem o que há-de restaurar a fortaleza de Sião». Afonso de Albuquerque pensou realizar tal cruzada, mas será D. Estêvão da Gama quem em 1541 internando-se pelo Mar Vermelho, tentará em vão destruir as esquadras turcas no Suez (pois só as suas de pouco calado chegaram lá), depois de ter armado alguns cavaleiros junto ao mosteiro de S. Catarina do monte de Sinai, conseguindo isso sim ajudar o reino cristão da Preste João a sobreviver às ameaças islâmicas. 
                                             
Uma carta do P. Polanco, secretário de S. Inácio de Loiola, em Roma, escrita neste dia em 1553, aconselha o editor das cartas missionárias que «quanto às cartas da Índia essa história de Xaca (Sakya Muni, o Buddha) pode-se omitir». Quanto às do P. Luís Fróis sobre o budismo chinês: «Nessa carta prolixa, é preciso ter cuidado de muitas descrições longas e cortá-las impiedosamente... É preciso suprimir muitos dos traços respeitantes a seitas e superstições dos pagãos». Eram censuras tanto aos valores orientais como às aculturizações e logo causando uma perda da dimensão ecuménica e dialogante tão necessária, desde sempre, no encontro e confronto entre várias religiões e tradições.
                                               
Assado a fogo lento, morre em Omura no Japão, em 1624, o beato
Miguel de Carvalho, natural de Braga, estudante na Universidade de Coimbra e desde 1602 em Goa, onde foi mestre de Teologia. Até que foi movido a partir para o Japão disfarçado de soldado, onde aprendeu japonês e exerceu um apostolado às escondidas e perigoso, até ser preso e, por fim, receber a coroa de mártir, com grande desprendimento, coragem e alegria, que ele não sabia se era por sua insensibilidade se pela eficácia da graça de Deus, como relatou numa sua carta, uns dias de morrer, onde diz ainda: «Em breve espero receber de Nosso Senhor, esta grande mercê de dar a vida por seu amor, coisa que tanto desejo que de nenhuma maneira o posso explicar... Amem-se muito entre si e tenham grande paz e concórdia uns com os outros, ajudando-se em tudo o que puderem, uns aos outros, com isto os ajudará sempre e acrescentará o todo poderoso Deus».
                                             

Nasce neste dia 26 de Agosto, de 1854, nos arredores de Trivandrum, aquela alma que se tornará conhecida como Sri Narayana Guru, um grande pesquisador do conhecimento e da realização espiritual, tendo estudado até aos 10 anos no antigo sistema de gurukula, aprendendo só de um mestre. Formou-se em Literatura Sânscrita e Filosofia Vedanta. Não quis casar-se e partiu em busca de mestres e ensinamentos, vivendo depois seis anos numa gruta solitário e em meditação. Sendo reconhecido como um mestre e dotado do poder de abençoar, construíram-lhe um ashram que ele consagrou a Shiva, embora O considerasse acima de raças, religiões e castas. Valorizava muito a limpeza e a pureza, o não se beber álcool, e o discutir não para se ganhar, mas para conhecer ou tornar conhecido. Teve uma grande acção pela igualdade e fraternidade dos seres, sendo um dos inspiradores de Gandhi na valorização dos intocáveis. Granjeou muitos discípulos e foi visitado por grandes seres que o elogiaram, tal como Rabindranath Tagore, que dele escreveu em 22-XI-1921: «Visitei muitas partes do mundo. Durante tais viagens tive a sorte de contactar muitos santos e mestres. Mas tenho de admitir que nunca alguém espiritualmente superior a Swami Sri Narayana Guru, de Kerala, ou que esteja a par com ele na realização espiritual. Estou certo que nunca esquecerei a sua face iluminada pela luz da glória divina auto-refulgente e os seus olhas yoguicos fixando a visão num ponto remoto do longínquo horizonte.»
                                      
Nasce em Skopye na Albânia, em 1910, Madre Teresa. Na Índia
desde 1929, a sua energia amorosa activa e a abnegação das Missionárias da Caridade (já por todo o mundo) têm suplantado as melhores expectativas de apostolado cristão e de assistência social nas populações mais desfavorecidas do Oriente, e daí estendendo-se a todo o mundo. «Ver Jesus no mais pobre dos pobres e amá-lo», eis a tenção delas, cumprida com a dádiva do amor casto. Há também umas poucas de irmãs dedicadas à vida contemplativa. Estive com ela algumas vezes no seu centro em Calcutá e senti bem o amor e determinação que emanavam do seu pequeno corpo.

                               
27-VIII. Neste dia em 1542, depois de reforçado por um contingente de turcos com espingardas e bombardas, Gráne, o emir de Harar, ataca os 300 portugueses (combatentes e artesões) da expedição de D. Cristóvão da Gama de auxílio ao Preste João (na Etiópia) e em fera batalha morrem heróica e abnegadamente os irmãos Onofre e António Abreu e muitos outros. Depois de terem sido várias vezes derrotados, os somalis e otomanos triunfavam finalmente pelo seu maior número, e Miguel Castanhoso, o cronista da expedição (da qual fez parte o famoso religioso etíope João Bermudes), sai ao anoitecer acompanhando a Imperatriz Espiga do Evangelho e os sobreviventes em retirada. D. Cristóvão da Gama, o filho do descobridor do caminho marítimo para Índia, 30 anos, ferido, com mais 12 guerreiros portugueses fica para trás, no dharma ou dever dos Cavaleiros do Amor e de Cristo, de proteger e não fugir, tentando aguentar a retirada da Imperatriz. A expedição portuguesa à Etiópia conseguirá o seu objectivo: destruir os invasores do reino do Preste João. Seis meses depois o imperador Cláudio, com a ajuda dos 200 portugueses que restam, derrota e mata o Gráne (Ahmad Gragn), terminando o maior aperto sofrido pelo reino cristão do Preste João na história.
                                               
       D. Cristóvão da Gama, por Leopoldo de Almeida, no Padrão dos Descobrimentos, em Belém.
Nos dias seguintes, a 28 ou 29 de Agosto, com um braço partido e uma coxa trespassada, D. Cristóvão da Gama é preso e, recusando a rebaixar-se, morre decepado, jovem de 27 anos e sentindo o apoio da presença divina, no Anjo ou em Jesus Cristo, e assim a sua alma cavaleiresca e abnegada liberta-se radiosa para arder em muitos corações. Os historiadores Miguel Castanhoso (em 1564), Pêro Pais, Gaspar Correia, Diogo de Couto e Elaine Sanceau descreveram este culminar heróico da gesta de mais de um ano, iniciada com Pêro da Covilhã em 1488, e que terminará anos mais tarde com a expulsão dos jesuítas e do Patriarca Afonso Mendes em 1634, devido a serem demasiado controladores. Sem resultados lucrativos, a aventura do Preste João foi fiel à sua origem e conservou-se nos domínio dos ideais e das legendas. Richard Burton, no seu First Footsteps in East Africa, considera D. Cristóvão da Gama como «the most chivalrous soldier of a chivalrous age». E ainda em 1955, o subchefe do protocolo da corte do imperador da Etiópia perguntava ao embaixador português e meu tio Alfredo Lencastre da Veiga: «Mas afinal D. Cristóvão da Gama era um homem ou um semi-deus?», respondendo o embaixador: «Era um herói», confirmando a hierarquização grega e clássica, e o dito de Camões acerca aqueles que da lei da morte se vão libertando... Saibamos manter abnegação, coragem e amplidão nas nossas almas e vida...
José António Ismael Gracias (1857-1919).
Nasce em Loutolin, Salsete, em 1857, J. A. Ismael Gracias, e veio a ser um dos grandes génios do ensino, da historiografia e do direito na Índia Portuguesa, tendo cumprido numerosas incumbências oficiais, desde professor e secretário privado de Governadores a director da Biblioteca Nacional de Goa, pertencendo e sendo homenageado por várias agremiações científicas nacionais e estrangeiras, deixando uma vasta obra em livros, artigos, relatórios, catálogos, exposições, destacando-se as suas colaborações sobre os portugueses na Índia, tal D. Juliana Dias da Costa e o bispo D. António de Noronha. em jornais e revistas, como Era Nova, O Heraldo, no Insituto de Coimbra, Boletim da Sociedade de Geografia, Ocidente, e sobretudo d'O Oriente Português. Ao escrever a biografia do historiador Filipe Nery Xavier, e de quem foi o sucessor, na introdução à  reedição do Bosquejo Histórico das Comunidades, dada à luz em 1903, valorizou muito o culto das efemérides históricas e a celebração dos centenários dos génios da humanidade, pois optimisticamente acreditava que o tempo das guerras e das armas findara e que seriam os livros, os exemplos e a sabedoria a reger os povos.
 
Swami Pratyagatmananda Saraswati nasce  neste dia 27 de Agosto de 1880 em Chanduli, Burdwan, Índia. Formou-se em Filosofia e começou como professor no National Council of Education, tendo Sri  Aurobindo como seu colega. Ensinou no Ripon College filosofia,  matemática e física, sendo o editor do jornal Servant. Foi um yogi e profundo conhecedor do sânscrito, do Tantra e do Shabda, ou seja dos mistérios da palavra e do som, tendo ajudado John Woodroffe nos seus pioneiros livros ocidentais sobre o tantrismo. Bom conhecedor da ciência moderna, conciliou-a bem com os dados da espiritualidade indiana. No seu Japasutram (1961, excelente quanto aos mistérios do som e das letras) diz-nos que a «Filosofia não é meramente conhecimento sumarizado, mas é Sabedoria em evolução. O fim da sabedoria é chegar,  o mais próximo possível, a uma vista completa do que chamamos "o vivo e lúcido todo da Realidade" e a sua culminação é atingida na medida em que o fim pode ser realizado para além da sombra de se duvidar e debater. Como um famoso sruti diz: "Todos os dilemas do coração dissolvem-se e todas as dúvidas do intelecto desaparecem quando a Realidade como imanente e transcendente é vista". Sruti (ouvida, escritura revelada) usa a palavra drste, para "visto". Aqui "visto" significa visão que é totalmente conclusiva e última».
30-VIII. 
 Um bom livro sobre Abhishiktananda
O P. Henri le Saux nasce neste dia em 1910 na França. Chegará à Índia em 1948 como um monge beneditino e mais tarde receberá o nome de Abhishiktananda, que significa um ser feliz na devoção, e será um dos grandes artífices do encontro do hinduísmo e o cristianismo, primeiro no ashram de Shantivanam, no Sul da Índia (que eu conheci bem, pois estive nele um mês), e depois como eremita nos Himalaias, onde desaparecerá misteriosamente num dia de 1973). Entrará para a posterioridade luminosa, com os seus escritos, tal como o Ponto de encontro Hindu-Cristão - dentro da Gruta do Coração, e com os que o conheceram mais intima ou iniciaticamente. Um belo filme de Patrice Chagnard, Swamiji, un voyage interieur foi-lhe dedicado em 1984 (https://youtu.be/gfaGa8nMcMs?si=rHgYLOuj7i0w4Pdx). No seu comentário ao Pai-Nosso, dirá com conhecimento uma evidência que o cristão normal ainda não consciencializou: «Jesus apareceu no mundo, não para ensinar ideias mas para transmitir aos seres humanos uma experiência, a sua própria experiência de ser Filho de Deus; e depois, continuando a avançar a partir desta sua experiência e pela sua eficácia, levá-los a realizarem e a integrarem na sua própria consciência essa condição que é também a deles, a de serem filhos de Deus. 
A tarefa essencial do ser humano é redescobrir a sua fundação (ground), redescobrir a sua própria origem no centro do seu ser, redescobrir na sua própria origem o Eu na sua origem. A Tradição Védica dá a este mistério último do ser o nome de Brahman, a realidade inefável que está escondida por detrás de todas as coisas e ao mesmo tempo penetra todas as coisas e que é a fonte de tudo o que existe, o absoluto que está simultaneamente para além e por dentro do que é limitado, o sagrado, o numinoso, o que é revelado no segredo último de tudo. (Conforme a Kena Upanishad.
Prefácio à obra  Method of Contemplative Prayer do P. James Borst, um livro recomendado por Bede Griffith, de Shantivanam.

  31-VIII. Abel Henri Joseph Bergaigne, nasce em 1838 em Vimy, França e será um notável orientalista, professor de sânscrito e de civilização indiana, publicando estudos linguísticos e manuais de aprendizagem, traduzindo textos, como 40 hinos dos Vedas e interpretando-os com profundidade e sabedoria, e escrevendo sobre a religião e a liturgia védica. Se aprendera com Eugène-Louis Hauvette-Besnault, também ensinou vários futuros indianistas entre os quais o nosso Guilherme de Vasconcelos Abreu, o companheiro de Antero de Quental, que com ele dialogou sobre a sabedoria oriental até pouco antes de Antero morrer. Francisco Adolfo Coelho, na sua Bibliografia Critica de História e Literatura, vol. I, 1873-1875, assinala a publicação em França do Brahmini Vilasa com tradução e notas de Bergaigne, e transcreve um resumo dela: «O Brahmini-Vilasa  é apenas uma recolha de estâncias independentes, reunidas sem ordem em quatro rubricas gerais. As do 1º livro dizem respeito à moral e à sabedoria prática; as do 2º as alegrias e dores do amor; as do 3ª são as lamentações de alguém que perdeu a mulher; enfim, as do 4º tem como assunto a devoção a Krishna. Sentenciosas, eróticas, elegíacas e místicas elas inspiram-se praticamente de todos os temas com os quais a imaginação dos Hindus se compraz, e apresentam como que um resumo de toda a sua poesia gnómica». Abel Bergaigne, apenas teve cinquenta anos de vida nesta terra de demanda, mas bem fecundos...
D. António Barroso, nascido em Barcelos em 1854, ordenado já com 25 anos em 1879, foi um dos grandes evangelizadores de Moçambique de 1891 a 1897, em 1898 está em Meliapor na India e é consagrado bispo do Porto em Agosto 1899, vindo a morrer neste último dia de Agosto em 1918, na sua diocese no Porto,  onde regressara após sofrer perseguições republicanas anti-clericais desde 1910, com dois exílios. Em 1917 citado a tribunal, pronuncia a sua famosa frase ao colocar a cruz no peito: «Vamos lá, Senhor! Convosco irei alegre para o cárcere, ou para a morte».

Daria Dugina: "Monte Athos, princípio feminino, apofatismo e optimismo escatológico". Elevação anímica, resistir ao mal e participar no mundo, cultivando o bem interiormente.

    O texto que vamos apresentar-se refere-se a uma ilha grega que é habitada só por monges, distribuídos por vinte mosteiros magníficos e pequenos eremitérios, e que é coroada pela montanha mais sagrada da tradição ortodoxa, que eu já há muitos anos também peregrinei  (2.000),  sendo interdita às mulheres (e os homens apenas poucos dias a podem visitar), embora uma tenha conseguiu entrar disfarçada, a valiosa investigadora e escritora Marise Choisy, publicando em 1929, Un mois chez les hommes.
Daria ou Darya Dugina, sem abdicar da sua identidade feminina subiu à montanha na sua dimensão espiritual, e animada pelo seu optimismo escatológico, de matriz cristã ortodoxa, e profundamente conhecedora delas, mas não só, pois referencia-o em filósofos da revolta, como Nietzche e Cioran, e em filósofos da Tradição perene, tais René Guénon e Julius Evola, e partilha algumas notas, reflexões e intuições, realçando a necessidade  de termos menos dispersão e maior concentração para conseguirmos elevar-nos na nossa alma ao  Intelecto puro e ao espírito (nous), e recebermos ou contemplarmos as energias ou bênçãos divinas, ou mesmo o Uno, o Bem, o Absoluto, a Divindade e assim podermos resistir a tanta força negativa, cultivando interiormente o bem e a nossa ligação vertical e axial.

Monte Athos, princípio feminino, apofatismo e otimismo escatológico

 

1. O «Athos das mulheres»: peculiaridades da consciência feminina

É sabido que as mulheres não são admitidas na Montanha Sagrada. Há algo de justo nisto. A tal propósito, pode-se lembrar o starez [ancião ou mestre] Paisios, do Monte Athos. Recentemente li um dos seus textos e encontrei uma citação que descreve com acurácia a condição normal da consciência feminina. Se ela não se encontra num estado de oração, funciona assim:
«Constantemente as nossas orientações deslocam-se para uma e outra frequência. No momento em que o asceta está pronto para chegar a algo de comovente, - «click!». Muda a sua sintonia para qualquer outra coisa. No momento em que se lembra de algo de espiritual -«click!» - de novo vem-lhe à mente outra coisa. É assim que o inimigo confunde continuamente o cristão. Se a pessoa percebe como o diabo trabalha, libertar-se-á de muitas coisas».
Aqui estamos a falar do diabo, dos instrumentos do diabo, que tenta distrair as pessoas, mudando continuamente as suas mentes. Analisando a nossa consciência, e, mais amplamente, aquela das mulheres, podemos dizer que o mesmo click acontece constantemente em nós. O próprio facto de não ser permitido às mulheres irem à Santa Montanha do Athos permite-nos antecipar o mundo singular da mente masculina, do milagre masculino. Este é o valor. Significa a capacidade de concentrar-se e focar-se no essencial, ou seja, Cristo. [ou Deus].
Se olharmos a mulher por um outro lado, há uma outra dimensão nela muito importante, como escreveu Tatyana Mikhajlovna Goricheva [1947-2025]. Trata-se da predisposição natural das mulheres para a teologia apofática e a experiência mística. Não obstante a distância da mulher em relação à mente analítica masculina, e de um intelecto árido, que pode dividir o mundo diúrnico em "sim-não", "estranho-próprio", a mulher tem uma abertura à teologia apofática. Dentro de si ela nutre, por assim dizer, o próprio Athos feminino". Este é o seu espaço ideal e se conseguir superar a modalidade da tentação constante devida à passagem da atenção de um para outro, se passar ao majestoso mundo místico interior, se esforçar-se por reunir um outro nível - mais profundo, mas sempre essencialmente feminino - pode tornar-se participante da teologia apofática.
Tatyana Mikhajlovna Goricheva afirma que para as mulheres esta profunda penetração na dimensão interior pode, por vezes, superar a sequência masculina de queda e re-ascensão. Cita o exemplo de Maria Egípcia. Esta é uma imagem estupenda de uma grande mulher virtuosa cristã, que demonstra como a ascensão de uma mulher do abismo da queda, do fundo, é incrivelmente difícil, mas, de qualquer forma, possível.
Portanto, simultaneamente à sua capacidade de mudar, a mulher pode também ser extraordinariamente sensível à teologia apofática e à experiência mística da saída deste mundo em direção a um mundo diferente. Isso acontece nela seja através da oração, seja através da capacidade de visões espontâneas. Se lermos as vidas dos santos, podemos encontrar nelas exemplos de manifestações da própria Divindade e das energias divinas associadas às santas, ao mesmo tempo que exemplos da contemplação mais elevada.
Paradoxos do abandono
Gostava de citar uma hipótese interessante sobre a qual refleti ultimamente e à qual dediquei várias lições e participações: a hipótese do optimismo escatológico. Como nasceu essa hipótese? Nasceu quando me deparei pela primeira vez com o livro VII da República de Platão, em que se discute a necessidade do filósofo de descer novamente à caverna, após tê-la já abandonada. Eu não conseguia entender um ponto: porque, se o filósofo estava profundamente infeliz naquela caverna, deveria para lá voltar, descer novamente, após ter descoberto o verdadeiro mundo das ideias, fora da caverna escura, húmida e inóspita, repleta de fantasmas e de sombras? Diga-se de passagem, poucos estudiosos do platonismo prestaram suficiente atenção a esta pergunta. Porque o filósofo desce? Esta decida é o aspeto mais substancial no mito platônico da caverna.
Além disso, lendo os neoplatónicos, notei a desordem ontológica destes, pelo facto de que foram jogados neste mundo material corpóreo, o qual, em confronto com os mundos intelectuais das ideias e do verdadeiro ser, é deturpado e insignificante, e leva apenas à decadência e a alterações. Neles, todavia, é possível encontrar também uma apologia de tal abandono deste mundo, o reconhecimento da necessidade de estar no corpo como parte do plano harmonioso da Mente [ou Intelecto agente Universal]. Isso pode ser considerado como optimismo escatológico.
A seguir, na teologia cristã, quando conheci as obras dos santos Pais [ou Padres] e dos grandes teólogos, descobri novamente o tema do abandono do homem neste mundo pecaminoso, mas ao mesmo tempo a necessidade de permanecer nele, viver nele, mesmo resistindo a ele. Apesar de todas as condições vinculantes deste mundo, é necessário resistir ao mal e aceitar o mundo, cultivando o bem dentro de si mesmo.
Muito bem, quando eu lia filósofos modernos pós-cristãos, como Emil Cioran ou Friedrich Nietzsche, eu via neles o mesmo problema: o desespero de serem lançados no mundo da matéria, mas, ao mesmo tempo, a vontade de superá-la. Assim, pouco a pouco veio-me à mente o termo “otimismo escatológico”.
Os três postulados do optimismo escatológico
Segui o optimismo escatológico de Platão através dos neoplatónicos, o neoplatonismo cristão, Hegel até Nietzsche, Evola e Cioran. Esse fenómeno, na minha opinião, encontra-se também no Athos. O ápice desse fenómeno é a fórmula de são Soliane, o Atonita [1886-1937] com a sua máxima “Mantém o teu espírito no inferno e não desesperes nunca”, da qual uma bela interpretação é dada pelo starez Sofrónio (Sakharov).
Quais são os fundamentos deste optimismo escatológico?
O primeiro postulado: o que nos circunda, o que nos é dado, tudo o que percebemos como dado imediato da realidade é uma ilusão. Ou, para usar as palavras de Soliane Atonita, um inferno.
O segundo aspecto ou postulado desta visão do mundo: o fim do mundo é o fim da ilusão. Aqui podemos recordar René Guénon, que escreveu: “O fim do mundo não é jamais e não poderá jamais ser outra coisa senão o fim de uma ilusão”.
O terceiro postulado: mesmo sabendo que tudo é finito, que somos lançados nesta ilusão, que estamos separados das nossas origens, que estamos no inferno, devemos, mesmo assim, e apesar de tudo, agir para a eternidade; estar aqui, para criar uma vertical transcendente em oposição a este mundo – o mundo do pecado, do ilusório, do mal. Devemos resistir ao inferno, àquele “click!”, segundo, Paísio do Monte Athos [ou Atonita,1924-1994], que o diabo provoca em nós – e sobretudo nas mulheres – a cada minuto de cada dia, a cada segundo, para que desviemos o olhar da contemplação do Supremo. Mais ao alto em relação a nós está a alma, a Mente [diremos o Intelecto superior, ou mesmo espírito, o nous grego, e aqui a tradução italiana falhou ao dar mente] e o Uno. Todas as hipóstases neoplatónicas de Plotino. Importante: não apenas o Uno apofático. Para passar ao Uno, devemos ainda realizar uma longa e difícil ascensão, que exige “romper o nível”, superar o horizonte humano, passar do corpo à alma, depois à Mente[-Intelecto agente-Espirito], e ainda além – além dos limites internos da Mente até a contemplação directa das energias divinas. Essa ruptura superior do nível pertence já ao reino da teologia apofática.
Optimismo escatológico e apofatismo cristão
Quando comecei a reflectir sobre a relação entre o optimismo escatológico e a tradição cristã, dei-me conta de que é na teologia apofática que o optimismo escatológico se manifesta mais plenamente. Aqui há uma consciência da vaidade, da pobreza ontológica, da finitude deste mundo, da caducidade do “a nós tangível” que nos circunda-nos que nos parece natural. Ao mesmo tempo, a ação do apofatismo irrompe no mundo “aqui”, mas é dirigida para o mundo “lá”, um lançar-se desesperado e brusco da consciência. Isso corresponde ao terceiro princípio do optimismo escatológico: mesmo sabendo que tudo é finito, que tudo é ilusório, agir em nome da eternidade. Descobre-se que o comportamento de base do optimismo escatológico está extremamente ligado à teologia apofática. A experiência mística inicia-se quando ainda se está no mundo da ilusão, não para além deste.
Um ponto importante: a teologia apofática não pode ser considerada uma etapa determinada. É opinião comum, na história da filosofia e da teologia, que se deva inicialmente dominar o método da teologia catafática – falar de Deus através das categorias do mundo para elevá-las a um grau de perfeição – e apenas depois passar à teologia apofática como passo sucessivo, mais alto. Todavia, na esfera da experiência mística não existe um tempo linear, no sentido em que estamos acostumados a pensar no nosso mundo, que, gostava de lembrar, não é nada senão ilusão. A sequência: “primeiro a catafática, depois a apofática” não é temporal. Ambas as abordagens são sincrónicas, simultâneas. Não são fases diferentes de um mesmo processo, são duas orientações originariamente diferentes.
O homem começa o seu retorno à fonte quando concebe a ideia de ter já atingido o ponto extremo da matéria, agora deve virar-se e começar o processo de ἐπιστροφή (epistrophé) ou seja, de ascensão em direção ao Uno. Este retorno ou conversão começa no próprio momento em que uma pessoa se dá conta de estar enterrada no mais profundo da ilusão. Então deve afastar-se do fundo, sair, escalar, voltar à superfície. É aqui que realiza uma “ruptura de nível”, escolhendo bruscamente o ausente no lugar do presente, do disponível, do concedido. Neste primeiro gesto está já orientado, não ao catafático, mas ao apofático. Eis onde começa a teologia apofática. Tudo torna-se inferno, e nada mais. Mas o otimista escatológico não se desespera. Repõe a esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo [ou na Providência divina].
No contexto cristão propriamente dito, o modelo de ascensão é muito parecido àquele neoplatónico. O percurso de contemplação, o movimento em direção à eternidade, é descrito detalhadamente por João da Escada (são João Clímaco), por Simão o Novo Teólogo, por Gregório Palamas e pelos autores da Dobrotolubiya[1]. Particularmente próximo à teologia apofática e diretamente ligado a ela, está o ensinamento palamita sobre as "energias incriadas" do Deus incognoscível. A filosofia de Palamas pode ser considerada uma versão do optimismo escatológico – sobretudo a sua ideia de submissão da mente ao coração e do coração, por sua vez, a Deus e às energias divinas.
Estes são apenas os traços iniciais, os esboços daquilo sobre o qual estou trabalhando. Quiçá desenvolverei um curso de lições dedicadas a estes conceitos. Mas espero que os contornos estejam claros. Isso é aquilo que eu gostava de compartilhar convosco.
 
Uma última coisa: gostaria de agradecer a todos os participantes, porque a conferência de hoje fez-me escrever um caderno inteiro de anotações e em cada relação encontrei teses para mim muito importantes, que deverão ser ulteriormente desenvolvidas. (Nomeadamente por nós seus leitores e admiradores]
Enfim, esta conferência distinguiu-se pelo facto de estar muito próxima e ao mesmo tempo muito distante da vida. Próxima na medida em que estamos envolvidos na eternidade e distante na medida em que o mundo que nos circunda é uma ilusão.»
Este capítulo do livro Optimismo escatológico, da tradução italiana dada à luz por Maurizzio Murelli, dem 2023, na Aga Editrice, Milano, Darya Aleksandrova Dugina. La Mia Visione del Mondo. Ottimismo Escatologico foi traduzido por por Daniella Paez Coelho, com pequena participação e revisão de Pedro Teixeira da Mota. Anote-se que Alexander Dugin concordou com o acrescento no título e que além da nota do Editor, inicial, encerra com uma postilla ou apostilha posfacial, bem valiosa de Eliseo Bertolasi, antropólogo, especialista da Rússia e analista geopolítico para a Vision & Global Trends e que conviveu bastante com Daria, Darya ou Dasha.
Insere-se (perenemente) nas homenagens que lhe foram prestadas mundialmente no quarto aniversário da data - 20 Agosto de 2022 - do seu martírio pela causa da Verdade e da Liberdade, na Rússia sagrada, Europa tradicional e Filosofia Perene de que Darya era e é uma representante valiosa e inspiradora, nomeadamente com seu mantra do optimismo escatológico 
                                            
Saibamos "concentrar-nos, alinhar-nos e elevar-nos animicamente, resistir ao mal e participar no mundo rumo à multipolaridade, cultivando o bem interiormente, corajosamente", como ela nos segreda... 
Muita Luz, Amor e Poder na alma espiritual de Dasha, para inspiração sua, nossa e da Humanidade! 

domingo, 23 de agosto de 2026

Tomar sagrada: imagens da Igreja de S. Francisco, em Tomar, do séc. XVII. Breve hermenêutica.

      Imagens de uma peregrinação a Tomar e às suas igrejas e convento de Cristo: Igreja  de S. Francisco.
  Fundado o Convento por ordem ou autorização do rei D. Filipe III em 1624  por frades franciscanos provenientes do eremitério de Santa Cita, a construção da Igreja de correrá de 1628 até 1636, tal como regista uma lápide na capela-mór, a qual foi contudo algo invadida em 1945, quando se instalou no seu centro, atrás das quatro colunas torsas ou em espiral,  um grande calvário proveniente do mosteiro das Trinas, na Madragoa, Lisboa. Que pinturas e talha existiriam antes, o que foi destruído pelo tempo, a incúria e os seus possuidores ou usufrutuários militares desde a extinção das ordens religiosas em 1834 desconhecemos...
A igreja tem um bom grupo de paroquianas que animam a Igreja e o culto, e chegamos na manhã de Domingo à mesma hora, 10.00, que o frade franciscano que iria celebrar a Eucaristia. Não visitamos o claustro do convento.
Há algumas pinturas murais do séc. XVII valiosas e belas, tal como alguma estátuas, destacando-se uma do mestre Jesus muito animada, uma de S. Francisco e outra de S. Iria, a principal santa com raízes míticas grade
Uma nossa Senhora toda de branco, provavelmente casamenteira abençoa também, mas inegavelmente é o mestre de Jesus, que mesmo açoitado e feito Ecce Homo,  Senhor da Paixão e doador do sangue purificador do pentagrama das Chagas, quem mais transborda do subtil amor...














Na terra e céu principal dos cavaleiros Templários e da Ordem de Cristo, Tomar, não podia faltar o brasão franciscano, na igreja da Ordem, ou não tivessem sido eles, no dizer abalizado de Jaime Cortesão, a outra coluna da edificação religiosa e espiritual dos Descobrimentos, certamente com muita limitação humana. Daí as cinco chagas de Jesus, de S. Francisco Xavier, do Padre Pio e dos demais que sofrem religiosamente, transmutadoramente, ao lado das cinco quinas de Portugal, sustentada pelos Anjos e Arcanjos que ao longo dos séculos nos têm inspirado. Lux Amor!

sábado, 22 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: A revelação do Amor na iniciação feminina nos Lusíadas e na Divina Comédia. O optimismo escatológico de Camões, A iniciação na Unidade.,

    Dalila Pereira da Costa no seu livro Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, mostra-nos Vasco da Gama, nos dois últimos cantos d'Os Lusíadas, sob a orientação de Tétis, sua guia e iniciadora feminina, a realizar a sua ascensão  espiritual e iluminação cósmica, e  finaliza assim o capítulo abordado no artigo anterior: «Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação nele, no seu mais fundo abissal», e em seguida  amplifica algo dramática e abissalmente os efeitos desse encontro: «Tal foi também para Camões e esses poetas italianos, o conhecido [fundo abissal] da mulher amada. É uma morte iniciática o que provoca a sua contemplação: poderoso choque que levará o amante a outro nível espiritual da vida: ou o fará morrer. Dirá Dante: «transformar-se-á em nobre coisa ou morrerá» (Vita Nova, 11, 19) (...) 
Explicitará, após esta algo dramatizada, a ser tomada à letra, avaliação das consequências possíveis  da contemplação da Mulher divina, da Shakti, e da sua revelação iluminante, que: «Na linguagem hermética, esta mulher que tal poder poder tem, é a Nossa Eva Oculta. À sua aparição, o amante fica como morto, "foge, se a morte te aborrece" (recomenda Dante na Vita Nova, XV, 4). O que esta mulher realiza na vida do amante, é de de facto tornar essa força antropocósmica, o amor, de latente a activa: como um seu acordar: daí, o sentido de Vita Nova: morte, a que se segue vida verdadeira, como imortalidade iniciática.»
Dalila Pereira da Costa vê assim no homem a intensificação psico-somática da capacidade de reconhecer-acolher-intuir o Amor como um despertar, ou impulsionar, provocado pela sua amada, guia e iniciadora,  abrindo-o  à plena energia "antropocósmica, imortalizante". 
Na realidade subtil, como alguns sabem, desde Pitágoras e Dante, o Amor foi dito mover todas as esferas, embora poucos as deixemos animarem-se dele (amor) suficientemente para nos libertarmos de tanto condicionamento e apreensão, ignorância e falsas identificações.
Um salto grande será dado, ainda que não plenamente explicado por Dalila, ao abordar ou melhor mencionar em seguida o Rebis, o Andrógino, a unificação das duas polaridades no ser, objectivo alquímico que a maioria das pessoas ignora fora da constatação das qualidades de natureza mais feminina e masculina que possuem: «Poder-se-á ainda notar o carácter hermético desta função da mulher, como união perfeita, entre amante e amada, nos Fiéis do Amor: como realização do andrógino, Rebis, em todo seu valor e natureza transcendental então possuído. [Bem difícil de se abranger e avaliar dentro de cada um e na unidade dos dois feitos um...]. 
Daí ainda, o alto significado do soneto de Camões já citado: "Transforma-se o amador na coisa amada". Tanto para os Fiéis do Amor, como para os [poetas] provençais, se dará esta realização, da união perfeita [mais, poeticamente ou a certos níveis anímicos] Dante dirá "assim eu sou Ela" e Camões "Olhai-me a mim, que sou feitura vossa". Para o poeta italiano como para o poeta português, este amor provoca uma sujeição  do espírito vital, com todos os seus liames, à terra, ao destino. A amada sendo aqui empossada dum  poder de iluminação e libertação» 
Compreendemos assim melhor a morte iniciática pela Dalila e os nossos mestres do Amor afirmada, pois morrem os amores menores, os liames, o que brota do espírito vital e astral mediano, as provações e limitações do destino são ultrapassados pelo desabrochar do amor pleno, que assim liberta e ilumina, tanto mais que o poeta manifesta um optimismo escatológico (como nos nossos dias Daria Dugina bem desenvolveu], ainda que sujeito a erros e má fortuna do seu amor ardente, mas que como o sol acaba sempre por triunfar das nuvens, conforme Dalila lembra, nos sonetos CXVI e CCXII, ao concluir este capítulo, Os Fiéis do Amor.
Realcemos porém ainda a identificação mais forte, quase advaitica (ou não dual), o "eu sou Ela" de Dante, pois um dos mantras dados pelos mestres indianos dos Upanishads (no Isha Upanishad, v. 16) e ao longo dos séculos realizado, ou apenas repetido mentalmente como oração, aspiração e auto-sugestão, é  So ham asmi, Eu sou Ele, sou o Espírito, Brahman...  
Aqui em Dante é "eu sou Ela", mas se no Ela se realiza (como parece denotar a maiúscula empregada) também a Divindade, o princípio feminino divino, a Shakti, ou a Santa Sophia, na amada, então há uma unificação mais plena e divina.
O dito camoniano é igualmente unificador e profundo mas diferente : Camões «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa»: 
"Olhai-me", injunção para uma acto de visão e contemplação, mas o "mim" em seguida introduz como que um segundo sujeito, ou um reforço e aprofundamento do Eu que é visto, contemplado pela amada, a mestra, ou até a Natureza angélica, apelando a uma relação amorosa e unitiva que não fique na aparência corporal e psíquica mas chega ao cerne e centelha do Ser. 
Podemos considerar em termos do caminho espiritual iniciático que o  «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa», é um bom mantra para não nos dispersarmos tão facilmente para fixarmos melhor a substância psíquica nas meditações e contemplações que fazemos, rumo ao segundo sujeito ou Espírito, ou ao eixo vertical com o Anjo, a Inteligência agente, o Amor. 
O "feitura vossa", tem também um nível bem esotérico e iniciático, pois indica que o amante é modelado ou feito por ela, feito à imagem e semelhança do que ela como mestre de Amor desperta nele espiritualmente e psico-somáticamente, uma ousada ou heterodoxa afirmação da re-criação do ser humano, algo ocultada sobre o mais discreto e materializado termo "feitura".
"Olhai-me a mim, que sou feitura vossa", quererá dizer ainda que o olhar amoroso da amada faz-me ou torna-me segundo o modelo primordial do Amor unificador: - Sou um convosco e modelado por vós e o Amor. Somos uma unidade, na identidade suprema, na Unidade. 

                                              

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: para o Fiel do Amor, o Amor é uma força cósmica, encarnada numa mulher divinizado. Hermenêutica das "Raízes arcaica.s da epopeia portuguesa camoniana"

                                                                            

Avancemos, após três artigos já publicados no blogue,  na nossa transcrição e hermenêutica das Raízes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, obra onde Dalila Pereira da Costa partilha a suas valiosas compreensões e intuições de alguns dos grandes mistérios da espiritualidade  e particularmente na tradição persa, na de Dante e dos Fiéis do Amor e em Camões e sua poesia lírica e épica.

A sua tese fundamental é a de que as mulheres amadas, ou as ninfas, ou as mestras iniciáticas, são "tipificações" da natureza angélica, da Inteligência Agente, da santa Sophia, do Amor. 

Dalila relembra a tradição italiana dos Fiéis do Amor, que também têm sido denominados Cavaleiros do Amor, desenvolvida exemplarmente por Dante com Beatriz e discerne-a em Camões, em alguns sonetos famosos de grande amor, considerando que em tal divinização da mulher se encontra a mesma realidade que na ninfa Tétis,  a exemplo de Beatriz, a iniciadora de Dante, 

Escreve então: «A figura do Anjo, como Inteligência agente, se apresentará nos Fedeli d'Amor tal como nos poetas e místicos persas e iranianos, tipificada igualmente numa figura feminina: que realizará para eles a sua completude perfeita, como seres humanos. Seria esta, a religião secreta de Dante e seus companheiros, assim como a de Camões.»

 "Tipificada igualmente numa figura feminina" escreveu Dalila. Eu talvez mais realisticamente diria: manifestada, avatarizada numa mulher (em vez de figura). Ou poderia mesmo dizer incarnada, ou então pelo menos personalizada numa mulher concreta.

Há contudo uma pluridimensionalidade neste processo de realização da natureza angélica, seja nossa, seja da mulher amada, a qual não se consegue discernir facilmente e que Dalila embora tocando aqui e acolá não afirma ou resolve claramente, pois na realidade são níveis bastante elevados tanto de amor como de realização espiritual e que geralmente são ignorados ou então silenciados, ocultados, ficando apenas para os iniciados ou os amorosamente beatificados e iluminados.  

«Assim  Beatriz para Dante na Vita Nova e Divina Comédia, Giovanna para Guido Cavalcante, ou aquela que para Dino Compagna é l'amorosa Madonna Intelligenza», Laura para Petrarca, Natércia para Camões - serão a tipificação feminina dessa Inteligência agente. E a união do poeta com esse anjo do conhecimento, é uma união de amor e com todos os sinais duma experiência pessoal vivida. Não pura alegoria, abstração esangue ou metáfora. Todas essas mulheres cantadas pelo Fedeli d'Amor, foram mulheres reais e concretas, vivendo sobre a terra contemporaneamente aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes: como aparições aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes; como aparições aos poetas da Sophia Intelligencia, Sabedoria, iniciando-se [ou iniciando-os] nos mistérios do conhecimento supremo, o do Amor. Tal ainda mais tarde, no Romantismo alemão, Suzete Gontard para Hölderlin. Função sacerdotal continuando a de Diotima, no Banquete de Platão.
Dando-se assim por parte desses poetas, uma sublimação, transmutações desses seres femininos, e não uma sua abstração. Eles viam, através de sua beleza, que sempre foi cantada em termos de louvor sagrado, da mulher terrestre, o ser angélico.
Esta concepção dos Fiéis do Amor, com todo o processo de revelação e sublimação individual através da pedagogia do Anjo estaria assim em oposição ao cristianismo oficial da Igreja, como a única detentora, depositária, da revelação. Comunidade de poetas e místicos que se manifestará como corrente espiritual secreta, desde o próximo Oriente no séc. XII, Shorawardi [1154-1191], século XI, Avicena [980-1037], etc., depois através da Itália no século XIII até Portugal no século XVI.»

Dalila prossegue depois na observando em Camões a distinção do amor carnal e do amor espiritual (talvez algo dualisticamente, pois a coincidentia oppositorum é fulcral) e a «imaginação criadora como a força da transmutação dos dado sensíveis», imaginação à qual deveremos acrescentar a visão espiritual (algo que Dalila, seguindo Corbin, por vezes não realiza),  a qual permite ser a «mulher elevada à esfera do divino, e assim partilhando de todo o seu mistério insondável, inviolável ao humano», elevação dela por graça, visão, sentimento e poder.

Dalila, considerando quase irrelevante saber-se a identidade histórica das mulheres amadas por Camões na sua poesis, tanto mais que no amor cortês se devia guardar em segredo a identidade da amada, afirma «o facto relevante, como para todo o Fiel de Amor, será a transmutação que o poeta realizou sobre uma mulher sua contemporânea, real, elevando-a a figura angélica, como metade transcendente de seu ser terreno, ou reflexo no tempo - pela força transmutadora da imaginação criador». [Não apenas, mas também visão sentida interiormente] «Fermosos olhos, que na idade nossa/ Mostrais do céu, certissimos sinais,/ Se quereis conhecer quanto possais/ Olhai-me a mim, que sou feitura vossa (...) E se ver-vos nesta alma, enfim, quiserdes,/ Como num claro espelho, ali vereis/ Também vosso angélico e sereno» (XXXIII).

Em seguida aborda Dalila Pereira da Costa o mistério cerne da iniciação, o Amor, e escreve: «Camões cantará nos seus sonetos, o amor tal o ensino de Platão no Banquete e no Fedro; e como já tinha sido cantado por Dante e os Fideli d'Amor: força cósmica, encarnada numa mulher divinizada. Será ela, tal Diotima do Banquete, que surge como a iniciadora dos homens nesse caminho do conhecimento supremo. Um mesmo movimento de transcensão haverá, subida do humano ao transhumano, celeste, percorrendo os sonetos de Camões, mas marcando-os por esse tom inconfundível e único da nostalgia paradisíaca portuguesa, a saudade; quer se expresse como desejo de regresso à pátria, terra primeira, (...) quer se expresse como desejo de união do amante com a amada, alma angélica que vive no céu, ou nessa pátria celeste. [Ou que vive na terra...]
E será ainda e sempre esse mesmo movimento que marcará o fim, como completude atingida, da aventura de Vasco da Gama n'Os Lusíadas, sob a conduta da Tétis, seu guia, iniciadora feminina, levando-o a uma ascensão espiritual.
Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação a ele, no seu mais fundo abissal. Aí já se tendo ultrapassado o nível profano.»

Possamos nós sentir, intuir e  ver o Amor como  força cósmica, e que encarna na mulher amada e, erguida do seu fundo e potencial, angélica e divina. E vice-versa... O que está em cima é como o que está em baixo para se realizar o milagre da unidade da natureza perfeita ou celeste.

Continuaremos no artigo final. Lux, Amor, Amor!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Minha Filha - Aletheia", por Alexander Dugin. A 20/8/2026, aniversário da trágica morte de Daria ou Dasha Dugina.

 Minha Filha - Aletheia.

Eis-nos com uma hermenêutica muito poética, bela e espiritual gerada e dada por Alexander Dugin acerca da alma e as ideias, a morte e a missão de sua filha mártir Daria Dugina Platonova, um símbolo filosófico vivo da Verdade, Aletheia, e ainda como comungarmos com ela e intensificar o seu Optimismo Escatológico, nestes tempos de fim [das ilusões sobre este] mundo, e de desvelamento mais intenso do rosto ou visão da Verdade, Justiça e Amor, para os que lutam interna e externamente, para um mundo multipolar harmonioso.
   «Nossos amigos — os amigos italianos de Dasha, amigos da Rússia, amigos da minha família — decidiram honrar a memória de Daria Dugina neste 20 de agosto de 2026, o aniversário de sua trágica morte, com um festival intelectual — um festival filosófico, musical, criativo.
Estou emocionado que a memória da Dasha não esteja a apagar-se. Os seus textos estão sendo publicados, as suas ideias continuam a ser discutidas, a sua figura não está a murchar.
Platão disse que as ideias ou voam ou morrem. As ideias de Dasha estão voando alto. Elas estão a inspirar outros para grandes feitos. Não creio que se trate de um fenômeno de massa, embora na Rússia todos já conheçam Dasha. As ruas foram nomeadas em  homenagem a ela; monumentos foram erguidos em sua honra; canções e poemas, ilustrações e festivais, museus e exposições são dedicados a ela.
No entanto, Dasha continua a ser um símbolo incomum. Ela inspira, acima de tudo, aquelas pessoas diferenciadas que, embora habitem o mundo moderno, não pertencem a ele e estão separadas dele em virtude da diferença na sua natureza interior. [Mundo, valores e qualidades espirituais mais presentes neles]
A própria Dasha era diferente. E ela expressou essa consciência numa de suas principais ideias: o otimismo escatológico — ser activo no mundo, e até parcialmente aberto a ele, com a clara consciência de que o fim deste mundo está mais próximo do que nunca.
Além disso, Dasha é um símbolo filosófico. Não é por acaso que o escultor Dmitry Alexandrov, amigo de Dasha, criou um monumento a ela que a retrata com um livro. O livro não tem título, mas eu acho que é de Platão. [Ou os seus livros, ou o Livro em si...]

Dasha tinha muitos talentos e facetas, mas a filosofia era a mais importante para ela. Se uma pessoa conseguir encontrar uma entrada aberta para o palácio fechado da filosofia, nunca preferirá outra coisa. Dasha encontrou tal entrada. E ela estabeleceu-se para sempre no palácio cerrado da filosofia.
O festival realizado em homenagem a Dasha neste mês de agosto foi chamado Dasha-Aletheia. Com esse nome, os organizadores provavelmente queriam enfatizar a dimensão filosófica da figura de Dasha. Desta vez não se trata da sua religião, da sua visão política, da sua criatividade musical e poética, ou do seu patriotismo ativo, mas sim de filosofia.
Vou tentar compartilhar algumas reflexões nessa direção.
Heidegger interpretou a palavra grega aletheia como "desocultamento" (Unverborgenheit). Se a verdade é desvelamento, então é o ocultamento que vem primeiro. A verdade nunca nos é simplesmente dada. Deve ser buscada. A verdade exige esforço, descoberta, revelação, a abertura da revelação [perseverança].  O que é primário em Ísis é o seu véu. Mas o véu de Ísis não é uma máscara, como se estivéssemos lidando apenas com um sujeito disfarçado de outro. Ninguém sabe o que realmente está escondido atrás do véu.
O mundo ortodoxo conhece a Mãe de Deus de Kikkos, um ícone que se encontra num mosteiro no Monte Kikkos, em Chipre. Este ícone é único porque o seu rosto está permanentemente escondido dos olhos humanos por um manto e uma moldura especiais. Segundo a tradição, olhar para o ícone pode ser perigoso. Há o relato bem conhecido do Patriarca Gerasimos de Alexandria, que em 1699 ousou levantar ligeiramente o manto e ficou imediatamente cego. Ele foi curado só após um arrependimento sincero. Segundo outro relato, acredita-se que o ícone possui uma graça tão poderosa que é simplesmente perigoso para uma pessoa vê-lo na sua totalidade.
Da mesma forma, a verdade, aletheia, é aquilo que é perigoso ver na sua totalidade. Ninguém sabe o que está por trás do véu…
Quando uma pessoa morre, ela vai além do véu. Não se deve perturbar o falecido de forma insistente. É preciso aprender a honrar reverentemente o véu. Portanto, o "desvelamento" da verdade deve ser entendido não como ousar olhar por detrás do véu, mas como circunavegá-lo reverentemente. É uma dança hermenêutica. [Para ser feito em tudo, de maneira sagrada...]
Se formos falar da aletheia de Dasha, sobre a verdade de Dasha, então aproximar-se dela exige que mantenhamos alguma distância.
Acredita-se que os textos mais comoventes da história tenham sido escritos sobre o amor. Provavelmente isso é verdade. No entanto, pensadores e poetas alcançaram o auge de sua capacidade de descrever a dor emocional quando perderam suas filhas. Com respeito à profundidade absoluta da tragédia, nada se compara à Consolatio de Cícero. Foi inspirada pelo tratado Sobre o Luto (Περὶ πένθους) do platónico grego Crantor. Crantor escreveu este texto como  consolação para o seu amigo Hipócrates. Lactâncio disse muito apropriadamente sobre Cícero — e eu [Dugin] poderia facilmente aplicar essas palavras a mim mesmo —:
"M. Tullius na sua Consolação diz ter sempre lutado contra a Fortuna e de tê-la superado quando repelia bravamente os ataques dos inimigos: nem mesmo então se deixou vencer por ela, quando foi expulso de sua casa e perdeu sua pátria; mas, quando perdeu sua filha mais querida, confessa-se vencido pela Fortuna de forma vergonhosa: "Cedo" – diz ele – "aqui, levanto a mão."
John Donne também dedicou uma das maiores obras da poesia inglesa e mundial à morte da filha de seu amigo Robert Drury, Elizabeth. Ele chamou-a d' A Anatomia do Mundo e escreveu sobre a "decadência do mundo." Após a morte de uma filha amada, o mundo desmorona nas costuras. Já não é inteiro; está fragmentado e disperso em todas as direções. Para um homem, nada pode substituir a aletheia de sua filha. O mundo não existe mais. Não somos mais. Já não somos mais o que éramos.
A morte dela ensinou-nos caramente o que tu [o mundo] és
Corrupto e mortal na tua parte mais pura.

A morte da própria filha está no cerne de todo o gênero de Consolatio. Em russo, a palavra é uteshenie. Na língua russa, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é chamado de 'Uteshitel’, o “Consolador” ou “Consolador.” Somente o Consolador é capaz de ajudar um homem a suportar a perda mais terrível.
Os cátaros tinham um ritual chamado Consolamentum: beijar a testa de Sophia, Sabedoria, que é a Consolatrix, a Confortadora. Ela é a que está em mente nos versos trágicos de Nerval:
mon front est rouge encore du baiser de la reine.           
a minha testa ainda está vermelha do beijo da rainha."
Para Dante, o Consolador era Beatriz.
A notável e sensível Princesa Vittoria Alliata, que era amiga de Daria, disse que Daria pertence ao arquétipo de Beatriz, à Tradição da Donzela [Anjo, Musa]
Quando aquilo que é mais importante e amado foi ocultado ou desapareceu, a consolação deve ser buscada na própria ocultação. Este é o mistério do véu. A tradição é bela quando existe, mas é mil vezes mais bela quando não existe — ainda assim, contra todas as probabilidades, permanecemos fiéis a ela. Todos esqueceram; nós lembramos. Todos aceitaram a partida de Sophia, mas para nós isso causa um sofrimento inimaginável. Não precisamos de um mundo sem a sua luz. Apenas a dor selvagem pode nos confortar. Este é o optimismo escatológico. [Cultive a comunhão interior e aja com coragem]
Agora, um pouco mais sobre o significado do termo aletheia. Para os gregos, Lethe é o rio do esquecimento, do esquecimento, e "a-" é um prefixo negativo. Assim, a-letheia é lembrança. Neste ponto, podemos recorrer a Platão. Nos ensinamentos de Platão, o conhecimento é anamnesis, ou seja, lembrança ou recordação. A alma tem uma natureza celestial. Ela encontra-se no corpo quando cai, desce. Anseia retornar à sua terra natal. Se sua recordação é forte, então também é a sua atratação para os céus, o seu anseio pela Luz, pela eternidade, pelas ideias. Segundo Platão, é isso que define o filósofo: o anseio pelos céus, pelo retorno. O mundo dos corpos, a vida terrena, é o esquecimento. Para se viver aqui, é preciso ter esquecido da verdadeira vida. Mas a lembrança causa dor. É a nostalgia, que em grego significa a memória dolorosa de um lugar, do seu lugar natural. A dor e a lembrança estão entrelaçadas. [A saudade é o sinónimo luso.]  A verdade (aletheia) é aquilo que recordamos com dor. Assim, mais uma vez, os temas convergem: lembramos de Dasha com dor no dia em que ela subiu ao céu como um pássaro de fogo. Recolhemos [ou relembramos] a verdade. Lembramo-nos de nós mesmos. [Enquanto seres espirituais, e então em tal meditação podemos alcançar alguma visão interior ou comunhão com o espírito imortal de Dasha.]
As origens do teatro estão no culto ao herói. Os antigos gregos se reuniam na tumba de um herói para honrar sua memória em um momento específico. Eles formariam um círculo, cantariam hinos sagrados, usariam máscaras e fariam oferendas. Acreditava-se que o espírito imortal do herói, por um breve momento, respiraria através de seus pulmões, ouviria através de seus ouvidos e voaria nas asas de suas vozes. Dasha é, sem dúvida, uma verdadeira heroína. E a memória dela está gradualmente a tornar-se um ritual.
O próprio Platão fundou a sua escola num bosque dedicado ao sagrado herói Academus. Lá, o povo da pólis reunia-se para honrar a sua memória, para proporcionar ao herói a oportunidade de olhar para este mundo e respirar o seu ar [ou éter]. Foi em nome do herói Academus que os homens atenienses piedosos  realizavam as suas discussões filosóficas. Isso mais tarde se tornou-se a origem de todas as academias do mundo. O nome do herói não é esquecido — a-letheia.
Tanto está interrelacionado com a Dasha, tanto está sendo ligado a ela. Ela era filósofa; encenava performances teatrais maravilhosas; escrevia música e compunha poesia. Era uma pessoa muito gentil e sincera. E conjuntamente era uma pessoa que sofria profundamente. Talvez isso se devesse à sua memória do mundo superior e à sua recusa em comprometer-se com os pesados determinismos do mundo inferior.
A memória de Dasha não está a dissipar-se. A nossa guerra  gerou muitos heróis. Mas Dasha continua especial — diferenciada — entre eles. O seu feito e o seu sacrifício são santificados pela presença próxima da própria verdade.
Quando  pensas em Dasha, lês os seus livros, ouves sua voz e a sua música, e olha suas fotografias, percebes que a verdade está perto — ao alcance das mãos…
Lá, além do fino véu da morte…
Cedo, en manu tollo .
Ad caelum tollo. 
"Cedo (chega), ergo as mãos, 
Ao céu ergo.
Alexander Dugin,
20 de agosto de 2026