sábado, 24 de fevereiro de 2024

Esboço biográfico de Pico della Mirandola por José V. de Pina Martins, para os 500 anos do seu nascimento,em 1963, e agora nos 561 anos digitalizado...

Comemorando-se hoje 24 de Fevereiro de 2024 o 561º aniversário do nascimento de Giovanni Pico della Mirandola, resolvemos homenageá-lo com dois artigos, um comparando-o com Sri Ramakrishna Paramahansa, o grande místico bengali do séc. XIX, e já publicado no blogue, e outro, este, a transcrição dum Esboço Biográfico que José Vitorino de Pina Martins realizou em 1963, no V Centenário do seu nascimento, editado então pelo Instituto Português da Sociedade Científica de Goerres, num pequeno folheto de oito páginas, hoje bastante raro, e que era distribuído a quem visitasse a exposição bibliográfica na sede do referido instituto, na rua Visconde de Seabra.   

Portada 
José V. de Pina Martins foi o nosso maior especialista e amante de Pico della Mirandola, tendo defendido a sua tese de doutoramento na Sorbonne de Paris sobre aspectos da sua vida, obra e edições, e em  livros e em catálogos de exposições biografou ou abordou Pico della Mirandola no contexto do Humanismo europeu, da história das mentalidades e do livro, pelo que este resumo para uma pequena exposição é bastante simples, ainda que tivesse uma segunda parte, Esboço Bibliográfico que talvez transcrevamos noutra ocasião. Encontram-se neste blogue ainda vários textos sobre Pico bem como traduções da sua obra. Oiçamos o nosso querido amigo José Vitorino de Pina Martins:

José V. de Pina Martins, na sua veste doutoral sorbónica, sob as bênçãos de Pico, na sua Biblioteca de Estudos Humanísticos, hoje já flutuando no akasa ou éter da memória nossa, ou sabedoria de cor de quem a viu e amou. Demos graças.

«Giovanni Pico della Mirandola, um dos maiores humanistas do Quattrocento, nasceu no castelo de Mirandola a 24 de Feverero de 1463 e morreu em 17 de Novembro de 1494, com 32 anos incompletos. No breve ciclo da sua vida, realizou uma obra verdadeiramente singular, mais única do que raro, quer pelo ardor com que se entregou à sua missão de conciliador entre as mais diversas e antitéticas doutrinas quer pela universalidadde de interesses culturais que definiram e caracterizaram a sua forma mentis. [a sua vera fisionomia ou forma psíquica.]

Aos 14 anos incompletos frequenta já a Universidade de Bolonha, onde estuda Direito canónico. Um ano após, livre das suas decisões por via da morte da mãe, abandona a carreira de legista, que o não fascinava, e dedica-se às Letras, tendo sido discípulo em Ferrara, de Giovanni-Battista Guarino. Em 1480, encontramo-lo na metrópole do aristotelismo averroísta, em Pádua, onde Elia del Medigo  o dirige nos primeiros estudos da especulação oriental. A estada paduana é interrompida por uma visita a Paris durante o inverno de 1482-1483, e na capital francesa toma um primeiro contacto com a orientação escolástica parisiense.

Em 1483-1484 Marsilio Ficino acabara de compor e dar à luz a sua versão e comentários do corpus platónico. Giovanni Pico. que então visita Florença convence o amigo a que decida verter em latim a obra de Plotino. O Conde de Concórdia encontra-se, portanto, na origem dos estudos neoplatónicos de Florença e especialmente dos estudos plotinianos.

Em 1485, com vinte e dois anos, o humanista volta a Paris, desta feita para aprofundar os seus estudos sobre a Escolástica tomista e escotista, que encarava o pensamento aristotélico  de maneira diversa. Pico, todavia, procura eliminar todas as diversidades, para só pôr em realce os pontos de concordância. É em Paris que concebe o grandioso plano de reduzir o scibile a 900 teses, que redige, auxiliado pelo seu mestre Elia del Medigo [judeu cretense,1458-1493]. Essas conclusiones deviam ser defendidas em Roma perante um público formado por estudiosos que aceitassem o desafio da disputa, fixado para depois da Epifania de 1487. O objectivo essencial deste plano, que não agradou a muitas amigas de Pico entre eles Ermolau Barbaro, era o de estabelecer uma apologética audaz da verdade universal do Cristianismo, a cujos princípios fundamentais seria possível, segundo o proponente, reduzir todas as filosofias e doutrinas, ainda as mais aberrantes e contraditórias. [Uma utopia de universalidade, condicionada pela supremacia do Cristianismo, mas que mesmo assim não foi aceite pelas autoridades cristãs.]

A Cúria romana, contudo, não aprova a realização da disputa e condena mesma, como heréticas, treze das teses a apresentar. O humanista defende-se com energia das acusações da comissão inquisitorial, nomeada por Inocêncio VIII, considerando os seus membros como ignorantes, mas de nada lhe vale um tal juízo, pois vê-se obrigado a uma retratação em Março de 1487. Não renuncia, todavia, à sua defesa, e redige a Apologia das suas proposições, obra que, como é natural, mais exacerbou as cóleras romanas. Em Agosto o Papa condena, em bloco, todas as teses e o jovem sábio, perseguido por um breve pontifício que recomenda, aos príncipes cristãos, a detenção do Conde Mirandolano, foge para França e é preso em Janeiro de 1488, perto do Lyon. A Universidade de Paris, por seu lado, proíbe a Apologia do seu antigo aluno, mas junto do Papa sucedem-se as diligências a favor do ardoroso «herético». Na primavera desse ano, o nobre humanista vê-se restituído à liberdade e aceita a hospitalidade de Lourenço o Magnífico, que o presenteia com uma vila nos arredores de Florença, nas doces colinas fiesolanas.

O desco de parto, prato de mesa de nascimento oferecido à mãe de Lorenzo, Lucrezia Tornabuoni, quando este nasce, fadando-o para a Fama.

O período 1488-1492 é, talvez, o mais fecundo deste «excomungado» tão religioso e pio. Em Novembro de 1488 Pico completara os vinte e cinco anos, e as teses, assim como o discurso De Hominis dignitate e a Apologia, tinham-no tornado conhecido e admirado pela sua ciência universal. A oratio em louvor do homem constitui mesmo, na verdade, o autêntico manifesto do humanismo quatrocentista. Da mesma época ou pouco depois é o seu Commento alla Canzone d'Amore, escrita por Girolamo Benivieni segundo o estilo dos platónicos, isto é, segundo a orientação das ideias de Ficino no comentário ao Simpósio [de Platão]. A atitude de Pico não é de aceitação sem reserva das ideias de grande autor da Teologia Platónica, e chega ao ponto de verberar a superficialidade de Marsilio Ficino e algumas das suas inexactidões, ou por ele tidas como tal.

O Heptaplus, composto segundo o início do Génesis, é de 1489: nesta obra, que é um verdadeiro tratado de opificio [do italiano, fábrica ou obra] mundi e de opificio hominis, alia o humanista toda a ciência bíblica e patrística aos preceitos mais arrojados do hermetismo hebraico e alexandrino. Não era livro que pudesse conciliar-lhe o beneplácito da Cúria romana...

As suas relações com Frei Jerónimo de Ferrara, o famoso Savonarola, intensificam-se. Num grande sábio e tratado sobre a astrologia judiciária, Pico della Mirandola retomava a dialéctica anti-astrológica da tradição cristã e patrística, para pôr em evidência, contra a opinião de alguns humanistas como Pontano, por exemplo, a liberdade suprema do homem. Savonarola redige, por esta altura, uma súmula destas ideias, aceitando como seu mestre aquele que, na ordem espiritual, o seguia docilmente pela senda de uma espiritualidade eleita.

Da mesma época é o tratado De Ente et Uno, formoso e inacabado capítulo de uma inacabada suma sobre a concórdia universal, tentativa audaz de conciliação do aristotelismo com o platonismo. O discípulo das escolas de Pádua e de Paris sabe muito bem harmonizar os princípios da escolásticas arabizante e da glosa tomista com uma interpretação platónica do mundo e da vida. Era a visão plotiniana do homem que lhe permitia poder efectivar essa concórdia. Mas, de 1491 a 1494, o filósofo fica silencioso. Em 1493, o Papa Borgia Alexandre VI que, no ano anterior, ascendera à cátedra romana, absolve Pico e declara-o livre de qualquer heresia formal, enquanto o vibrante autor  da Apologia leva agora, mansamente, uma vida de exemplar austeridade, na contemplação que uma pia philosophia lhe facultava e nas serenas reflexões para cujo mundo excelso uma docta religio o conduzia progressivamente. 

 [E agora um tão belo quão evocador fim por Pina Martins:] Aquele 17 de Novembro de 1494, dia outonal que, nas colinas de Florença, encerra o ciclo de vida do Mirandulano, condena o pensamento europeu a ficar para sempre privado do estudo que seria, porventura [ou muito provavelmente não, pois o que escreveu já tem muito para muitos século], a sua obra-prima: a «Concórdia» do Conde Mirandolano, príncipe dos humanistas, o mais puro espírito do pensamento quatrocentista. Envenenado, talvez, por um dos seus fâmulos. Pico segue de perto para o túmulo aquele que o protegera, Lorenzo de Medici, morto em 1492, Ermolao Barbaro em 1493 e Poliziano em 1494 [os seus  principais amigos]; segui-lo-ão naquela década, para  mundo ultra-terreno, Frei Jerónimo de Ferrara [Savonarola], tragicamente sacrificado em 1498, e Marsilio Ficino desaparecido em 1499.» Muita Luz e Amor Divinos religando-nos a todos!

                                                          
Pico della Mirandola, entre Marsilio Ficino e Angelo Poliziano. Fresco por Cosimo Roselli, de 1488, na igreja de Sant'Ambrogio, em Florença.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Pico della Mirandola e Ramakrishna Paramahamsa, dois espíritos universais, em si e nas mensagens. Nas comemorações dos 561 anos de Pico della Mirandola.

Pico della Mirandola no meio de Marsilio Ficino e Angelo Poliziano. Fresco por Cosimo Roselli, de 1488, e ainda hoje contemplável na igreja de Sant'Ambrogio, em Florença...

Para celebrarmos os 561 anos do nascimento de Pico della Mirandola, pois nasceu em Mirandola a 24 Fevereiro de 1463, um espírito pioneiro na sua universalidade filosófica e teológica, resolvemos compará-lo com Sri Ramakrishna Paramahansa, nascido em Karmapur a 18 de Fevereiro de 1836, já que ambos, embora separados por uma grande diferença temporal,  e um na Itália e outro na Índia, nas suas filosofias, teologias e visão espiritual  sintetizaram e unificaram longas tradições anteriores e brilharam e influenciaram muitos...

Pico della Mirandola não se limitou à tradição filosófica grego-romana nem a religiosidade Católica, pois aceitou tanto a Cabala e textos apócrifos judaico-cristãos como nos seus amplos estudos filosóficos, religiosos e espirituais acolheu ainda a sabedoria egípcia, caldaica, persa e árabe discernindo uma mesma tradição de Filosofia Perene em todas e considerando os diversos profetas e mestres como elos dessa mesma tradição, posição que também tinha sido investigada e defendida pioneiramente pelo seu amigo Marsilio Ficino (19.10.1433 - 1.10.1499).

Já Ramakrishna, conhecendo  desde cedo por vivência e diálogos (na sua aldeia, desde criança, ouvia os yogis e sadhus que estacionavam junto ao templo) quase toda a tradição indiana, que depois aprende mais profunda e intimamente com yogis que o vão visitar ao seu templo junto ao Ganges, vai por fim pela sua humildade, curiosidade e sensibilidade conhecer também a essência da religião cristã e islâmica, bem como ainda a jaina e budista, não por estudos nem  pelos diálogos com religiosos ou devotos delas, mas pela sua capacidade psico-espiritual de conseguir vivenciar por dentro (a islâmica impulsionada por um sufi que lhe transmitiu o dikr, ou oração-repetição sagrada adequada) e ver subtilmente os mestres fundadores dessas religiões e ter como que fusões, unificações ou samadhis com eles.

Pintura naif indiana de um discípulo de Ramakrishna, representando a fraternidade ecuménica cristã, islâmica e das diferentes tradições indianas...

Ambos viveram significativamente em épocas denominadas de de renascimento, Pico della Mirandola no do Humanismo Europeu, do culto das letras e filosofias antigas e da dignidade humana, nos séculos XV-XVI, e Ramakrishna, no Renascimento de Bengala, no séc. XIX,  das tentativas de modernização ou racionalização da sociedade indiana e do Sanatana Dharma (eterna religião ou ordem), e em que se destacaram Raja Ram Mohan Roy (22.5.1772-27.9.1833),  (Devendranath Tagore (1817-1905), e seu filho Rabindranatah Tagore (1861-1941), que receberia mesmo um prémio Nobel de Literatura em 1913, Dayananda Saraswati (1824-1883), Keshub Chandra Sen  (1838-1884) e Bepin Chandra Pal (7.11.1858-20.5.1932) que chegou a afirmar:«Ramakrishna Paramahamsa não pertencia a qualquer seita ou denominação, ou se quisemos, pertencia a todas as seitas e denominações, tanto Indianas como não-Indianas. Era um verdadeiro universalista, mas o seu universalismo não era o universalismo da abstração».

Ambos sendo muito sensíveis e místicos, ou seja, dotados de capacidades de vivência interior, clarividente e, sobretudo Ramakrishna, instática  e extática, chegaram a percepções dos mundos e seres espirituais e da Divindade por diversas tradições e modos ou metodologias.

Pico della Mirandola trilhou contudo um caminho bastante mais intelectual e filosófico, com estudos do aristotelismo averroísta em Pádua, e da escolástica de S. Tomás de Aquino e de Duns Escoto em Paris, pois dotado de alma bem sensível e devota também intuiria, ou pelo menos descreveu bem e com maior ou menor clarividência, algo dos níveis mais elevados da realidade, tal o espírito, os Anjos e demais espíritos celestiais da Hierarquia, o Amor, a Trindade, a Divindade.

Pintura quinhentista de Pico della Mirandola, que chegou a ser oferecida ao Museu de Arte Antiga, por Primula, a mulher de José V. de Pina Martins, após a partida dele para os mundos espirituais, quem sabe tornado vizinho ou confabulator de Pico.

Em muitas páginas transmite-nos os seus ensinamentos unificadores e ascensionais valiosos, embora a dado momento  se tivesse envolvido demasiado na Cabala e tentasse explicar o Génesis (tal como no começo do séc. XX o padre Lagrange, que foi impedido de publicar os seus trabalhos porque abalavam a literalidade do entendimento comum cristão) dando à luz em 1489 o Heptaplo, Exposição septiforme dos seis dias da Criação, com uma complicada hermenêutica, platónica, cristã e cabalista, ora com bom sentido espiritual, ora muito imaginativamente, esoterizando algo forçadamente a narrativa simples ou primária mosaica, que para Pico enraizava na sabedoria egípcia, e ambas ocultando alegoricamente as profundas verdades que Pico agora desvendava e partilhava...

Anote-se que em 1486-1487, a sua tentativa de discutir 900 teses de conhecimento universal não foi bem recebida pelo Papa e por alguns teólogos da comissão de inquérito, os quais, face a teses provenientes de fontes extra-católicas ou com sintomas de simpatia por doutrinas suspeitas, consideraram heréticas treze dessas proposições, porque “renovam os erros dos gentios e as perfídias dos judeus”, que contudo eram das mais estimulantes de aprofundamentos...

Giovanni Pico resolveu corajosamente replicar e escreve uma valiosa e profunda Apologia às treze proposições, condenadas (tais como: se Jesus descera aos Infernos, o que aconteceria no fim dos tempos aos condenados por pecado mortal, se a magia e a cabala certificavam a divindade de Cristo, o que devíamos pensar de Orígenes estar condenado, e outras sobre a Eucaristia, os milagres de Jesus, os Anjos, etc.),  o que irritando a Cúria romana  leva à sua condenação por  um breve pontifício em Agosto  de 1487, pedindo-se a sua prisão às autoridades. Pico foge para França, chega a ser preso por uns meses, mas Lourenço de Medicis intercede e recebe-o em Florença onde ele estabiliza e se dedica às obras seguintes, um Comentário a uma canção de Amor e GirolamoBenivieni, o Heptaplo, os Comentários ao Salmo 195 e os Argumentos contra a Astrologia Adivinhatória, defendendo fortemente o livre-arbítrio, e que teve muito cedo tradução parcial para português por Frei António de Beja (1493-1517), Contra o Juízo dos Astrólogos. Só em 18 de Junho de 1493 é que por um breve dirigido ao "dilecto filho e nobre homem Ioanni Pico  conde de Mirandola", o Papa Alexandre VI, um Borgia sábio, retira tal carga das costas e coração do genial e inocente conde da Concordia, que de facto viveu antes do tempo propício e morreu tão precocemente. Será o seu sobrinho Giovanni Francesco Pico que editará as suas obras completas em 1496, com várias cartas, que terão então grande sucesso no século XVI (com sete edições em Itália, a última de 1557, e visível na imagem) e por diante, sobretudo a sua Oração da Dignidade Humana, hoje tão necessária de ser lida e ouvida em alguns aspectos tocantes à identidade do género humano no cosmos hierárquico e das suas potencialidades de degeneração  e de elevação.

                                                 

Já Ramakrishna Paramahamsa foi um mestre vivo sem problemas quanto à ortodoxia, já que era um sacerdote, de casta imemorial brâmane, e soube, quando questionado ou investigado, brilhar tanto com a sua sabedoria,  boa disposição, simplicidade e sobretudo capacidade de entrar em contacto com o espírito e com a Divindade, que convencia, ou então tocava as pessoas que o visitaram, ou o viam a celebrar o culto da deusa, ou a ensinar, a cantar e em meditação profunda. E muitos dos  diálogos nos últimos anos da sua vida foram registados por um discípulo sábio, Mahendranath Gupta, que os veio a publicar como o Evangelho de Ramakrishna, em 1897, sem dúvida um dos mais belos registos diários de um mestre na tradição dos Vedas, do yoga, da bhakti ou devoção, do Sanatana Dharma

Com efeito a metodologia básica vivida, realizada e depois ensinada, frequentemente em parábolas, foi a tradicional da Índia, a yoguica e, numa síntese das diferentes vias, Ramakrishna privilegia e realça para a época, idade ou era em que se estava (e está, na ciclicidade das Yugas), a Kali Yuga, a sadhana bhakti, ou seja, as práticas de aproximação afectiva, devocional e de amor à Divindade, qualquer que seja a forma ou encarnação, concepção ou nome com que Ela seja adorada, invocada,  vivenciada.

Pico também exerceu um magistério porém mais irradiação da presença luminosa e graciosa nas conversas e debates, nos livros e nas cerca de setenta cartas (e a extensa, dirigida ao seu sobrinho, uns meses antes de morrer, é bem notável na vibração e nas recomendações espirituais), pois não era um sacerdote e foi mesmo condenado, e foi pois pela dimensão de filósofo e metafísico universalista, bom conhecedor da tradição grega, cristã (e em especial a patrística e Orígenes) e oriental (além dos persas chega a referir os gimnosofistas, os yogis e jainas da Índia, antepassados de Ramakrishna), que conseguiu libertar-se das malhas das concepções limitadoras judaico-cristãs, embora se envolvesse talvez demasiado na especulação para chegar ao  Ser e ao Um, título da sua obra de 1489, De Ente et Uno, no fundo bastante mais teórico ou intelectual do que as vivências  e realizações de Ramakrishna que via e vibrava tanto com a Divindade una, o Brahman, que estava por detrás da sua forma preferida pessoal, a deusa Mãe, Kali, que ele via e adorava na sua mulher Sarada Devi e  nas mulheres,  como com os fundadores das religiões, e assim em Dashineswar, no seu quarto, tinha uma estátua de Mahavira, o último Tirtankara do Jainismo, e outra de Jesus, diante das quais na aurora e no crepúsculo acendia incenso e devoção.

E tal como Ramakrishna valoriza bastante a via do amor à Divindade na época sombria (Kali Yuga) em que segundo a tradição védica estavamos, também Pico della Miranda, ao aceitar mais  a visão sombria do Renascimento que  o monge dominicano e profeta Savonarola denunciava na Florença dos Medici, sobretudo pelo paganismo e o sensualismo-luxúria,  enveredará e apelará a uma  vida simples e ascética e de entrega do coração a Jesus e à Divindade.

Ora se no caminho de realização de Ramakrisna houve iniciações, passagens de um estado limitado, o da exclusividade do seu amor à deusa Kali, a outro mais abrangente, nomeadamente ao deixar essa visão feminina da Divindade e chegar ao Primordial Brahman, e de estar em plena comunhão com o espírito e frequentemente com a Divindade, em Pico della Mirandola houve uma certa retração face à sua universalidade inicial, pois tanto sofreu a condenação papal por seis anos como se emaranhou nas infinitas complexidades da conciliação do aristotelismo e do platonismo, ou na de encontrar uma harmonia intelectual entre as diversas escolas filosóficas e tradições religiosas, pelo que, quando por fim, mais influenciado ou afim de  Savonarola desvaloriza as tradições pré-cristãs e torna-se mais um simples devoto e místico cristão, não sabemos se nessa dinâmica, por um lado de estreitamento, terá intensificado ou ampliado  a sua auto-gnose espiritual e religação divina íntima....

Giovanni Pico della Mirandola morre muito cedo, aos 31 anos, ardendo de converter as pessoas a um Cristianismo mais espiritual, e  de febre no seu corpo-alma luminoso, satvico. Ramakrishna, que passou anos a tentar iluminar e harmonizar, e até curar os que o rodeavam, sofre um cancro na garganta e em pouco  tempo parte mas já com 50 anos, o que nos yogis da Índia na época não era assim tão pouco. Serão swami Vivekananda e os outros discípulos, que formam a ordem Ramakrishna, que irão fortalecer a filosofia (sobretudo a vedântica) e a religião indiana, tomando de certa forma o facho que os homens do Renascimento bengali tinham acendido com o Brahmo Shaba, o Arya Samaj, o Brahmo Samaj e a Nova Dispensação mas que depois grupalmente se foi apagando ou extinguindo, embora sucessivos mestres em diferentes linhas  ou tradições (darshanas) e práticas (sadhanas) nunca tenham faltado ou faltem na Índia.

Se hoje as celebrações do nascimento e morte (segundo o calendário lunar) de Sri Ramakrishna e de swami Vivekananda (o seu discípulo principal, e que estivera presente com grande impacto no I Parlamento das Religiões, em Chicago, em 1893, tão pioneiro no comparativismo religioso universalista ao vivo)  juntam milhares de pessoas com grande fervor devocional, com cerimónias transmitidas online,  havendo vários centros e templos activos da Ordem, já o espírito de Pico della Mirandola é invocado  comungado por poucos (e entre nós devemos mencionar o meu amigo e mestre José V. de Pina Martins), embora a sua saga e obra continuem a gerar estudos e livros de alguns estudiosos do Renascimento e sobretudo do Hermetismo, já que vêm nele um dos pioneiros, em especial com Marsilio Ficino, da afirmação de uma Filosofia Perene, que  alguns autores foram prosseguindo e desenvolvendo até chegarmos aos últimos de mais valor, já no séc. XX, tais Ananda Coomaraswamy (1877-1947), René Guénon (1886-1951), Julio Evola (1898-1974) e Jacques de Marquette. A jovem russa Daria Dugina Platonova, filha do notável pensador russo Aleksander Dugin, estava a desenvolver-se bem nesta linha, mas extremistas cortaram-lhe a vida na Terra, tão promissora que era... Um pecado contra o Espírito Santo, imperdoável, dir-se-á...



Deve-se realçar-se que a unidade das religiões, assente ou exponenciada como religião universal, de Ramakrishna Paramahansa estava baseada nas diversas realizações espirituais e divinas que ele vivera e ensinara. Era pois de experiência e vivência psico-espiritual, enquanto que a tradição da Filosofia Perene nos últimos mencionados foi mais intelectual, mais de compreensão e não tanto de realização com os sentidos espirituais já despertos nesta vida, algo que Paramahansa Ramakrishna conseguira,  algo inatamente e algo a partir de práticas meditativas e devocionais, nas quais  a realização afectiva ou amorosa, para o ser divino no interior da alma, foi  demandada com persistente devoção até  atingir-se tal ligação, visão ou unificação.  
Ramakrishna Paramahansa ensinava isto aos seus discípulos, conseguindo mesmo despertar em alguns fortes experiências espirituais e de visão divina, algo que nem Pico della Mirandola (mas sabemos pouco dos seus encontros-diálogos-orações mais afins espirituais) nem os últimos expoentes da Filosofia Perene conseguiam tão plenamente, embora saibamos que, mesmo assim, eles impressionaram alguns, e, por exemplo, Jacques de Marquette conta esse impacto intelecto-espiritual de Ananda Coomaraswamy, em Boston, e sobretudo o efeito espiritual do seu mestre indiano, Guru Ranade (3.6.1886-6.6.1957), outro valioso pioneiro do comparativismo filosófico e da espiritualidade, e por experiência directa, e a quem já consagramos alguns artigos no blogue. 

Meditemos, para concluir, um dos bons ensinamentos de Pico della Mirandola,  saudando-o com muito amor!

"A única coisa que nos faz receber de Deus o que lhe pedirmos é o esperarmos conseguir tal. E se respeitarmos estas duas condições, a de só pedir a Deus o que nos é salutar e a de pedir ardentemente o que queremos, com a esperança firme que Deus nos satisfará, nunca serão realizadas em vão as nossas orações".

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O despertar no além de que depende? Qual a eficácia das orações pelos que partiram, ou sofrem?

Quando morrermos com quem vamos estar? -, interrogo-me diante de fotografias de antepassados...

Será com eles, podendo mesmo ser recebidos por alguns ou, mais provável, só após estarmos interiorizados  algum tempo é que poderemos vê-los, encontrá-los, bem como às pessoas mais próximas, afins ou queridas?

Sabemos pouco das causas da menor ou maior capacidade de energia auto-consciente activa no corpo psico-espiritual e nos seus sentidos espirituais, com que sobrevivemos no além, determinando o nosso campo de cognição e acção, embora as artes de bem morrer e orar tenham sido muito ensinadas, e citarei apenas dois autores, porque os traduzi e publiquei, Erasmo e Bô Yin Râ, e onde o amor e a lucidez de sintonia com a vontade (ou até dharma) mais elevada ou divina são indicados como as melhores causalidades...

Quantos conseguem porém sair do corpo e estar logo conscientes e activos, dominando à vontade a sua movimentação subtil nos planos ou mundos a que terão acesso? Quantos é que ficam presos num umbral dos mundos astrais? Quantos é que são logo atraídos para o sub-mundo subtil ou espiritual a que estão mais ligados por frequência vibratória e estrutura anímica, religião e espiritualidade, causas e conhecimentos, lutas e artes? Quantos é que desprendendo-se libertadoramente ascenderão  rumo aos mundos espirituais e à Divindade?

Vou escrevendo estes fragmentos interrogativos de auto-gnose, enquanto que na Palestina o genocídio vai sendo praticado a céu aberto, mas muito disfarçado pelos meios de informação, na sua maioria pagos ou controlados por pessoas ou corporações que apoiam plenamente Israel e facilmente o sionismo.

Os já mais de 29.00 tragicamente mortos, e onde predominam as mulheres e crianças inocentes, imaturas, impreparadas para tal decepar precoce, onde estão, como estão?

Estarão no plano astral da Terra Santa, assim chamada pela vida e morte do mestre Jesus, quem sabe agora dinamizando as operações de ajuda aos recém desincarnados, com o apoio de guias islâmicos, cristãos e anjos?

Ou serão encaminhados inconscientes para outras localizações do plano astral terrestre ou mesmo para dimensões não conectadas com a Terra?

E será que muitos, dos mais velhos e conscientes, recusam-se a abandonar as suas casas e lojas, terras e olivais, altos e mesquitas e são avistados por alguns clarividentes como fantasmas, em vez de espíritos em ascensão?

Que orações poderemos nós lançar sentidamente da alma, coração e até voz que tenham impacto neles, ou no ambiente tão dilacerado? Teremos força de sentimento e de pensamento para chegar até lá, numa acção à distância da mente e coração, que circula pelo Campo unificado de energia consciência informação que entretece todos,  ou apenas alguns frágeis eflúvios se elevam de nós, ao orarmos, e espíritos caridosos, humanos ou angélicos, redirecionam-nos para as almas mais necessitadas, ainda vivas ou já fora dos corpos?

Eis interrogações que poucos saberão responder mas que todos podemos demandar pois, apesar de tantos séculos de vivências e comunicações, de tanto livro  e lápide, tanto a vida da oração como a do além continuam um mistério. Saibamos então perseverante e criativamente rezar, meditar e orar com sentimentos profundos,  seguindo o que o nosso coração espiritual, ou espírito, em comunhão subtil realizar e irradiar de paz, amor e luz, e algo resultará de acréscimo de Bem e de Amor no Universo, como entre nós tão bem afirmou idealisticamente Antero de Quental na sua magistral carta (e pode lê-la no blogue) a António Moleirinho: «O Universo só dura pelo bem que nele se produz», ou que o sustenta...

Desenho de auto-gnose e demanda juvenil.

 

Desenho interrogativo ou de auto-gnose dinamizante, dos vinte e poucos anos...

1) Será lícito entristecer-me?
Teremos liberdade para tudo?

2) Meu pensamento voa, mas cá em baixo jaz o sofrimento.

3) Bem lá no alto a estrela do Espírito que Eu sou brilha, mas nós pobres por cá [em baixo] em palavras e pensamentos finitos.

4) Os dados estão lançados. Aceitemos o irmão corpo e Portugal. E demos as mãos em acção de graças, antes que em mágoas de tristeza

HUMANO SER.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Três desenhos espirituais, realizados imperfeitamente por mim há anos e anos, na demanda da gnose e da Luz.

 Desenhados há bastantes anos, e já no Colégio Militar era sofrível em tal arte, tornaram-se com o tempo algo misteriosos, sobretudo o primeiro no qual é difícil lembrar-me das circunstâncias e do que senti, ou do que operou, de motivação na gestação. Teria de ter uma boa memória psicanalítica ou jungiana, ou então meditá-lo "de novo" bem....

                           

Consigo   discernir ainda assim no 1º desenho, o mais antigo, dos meus 20 e tal anos,  uma alegoria à Nova Era de Aquário, com uma sereia, um deus ou mestre, talvez egípcio (com muitas forças psíquicas), um elfo ou gnomo, e um ser (e quem será ele?) que recebe os impactos dos outros três. Ao fundo, as montanhas, seja apenas físicas, seja da aspiração ou das dificuldades da ascensão, e o Sol. Assinei Datatom, talvez em ligação com o Egipto. 

 Ascensões

  No 2º, a que chamei agora Ascensões posso sentir e discernir símbolos da ligação entre a Terra  e o Céu, entre a Humanidade e a Divindade, tais como o triângulo, a montanha, as escadas, as espirais aéreas, partindo do sangue e fogo do coração e rumo ao ser espiritual e divino, lá no alto aureolado.  É o mais suave e belo, e talvez sugira inspirar-nos ou esforçar-nos mais pela beleza espiritual e as suas cores suaves e luminosas.

                                   

 O 3º, mais recente, retoma a representação das montanhas sagradas, seja as nossas seja mais os Himalaias, e sobre elas  ergue-se uma mandala flamejante, com uma cruz pateada irradiando e no centro uma misteriosa figura crucífera Linhas de força em espiral elevam-se da terra e do interior das montanhas e no cimo de tudo a estrela de cinco pontas brilha resplandecente, símbolo da nossa identidade mais elevada e à qual a um dia estaremos mais identificados.

 Que efeitos estimuladores podem suscitar, ou intuições gerar, seja para quem desenha, seja para quem os analise psiquicamente, seja para quem os contemple misticamente, não sabemos, mas valem, na sua imperfeição, por serem testemunhos semi-artísticos duma demanda..., e entram ainda no blogue para variar tanta partilha de textos em palavras...

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Livros que abri, páginas que li: "O Retrato do padre Lagrange", por Jean Guitton. Diálogos sobre Deus, exegese, profecias e a Verdade.

                                                

 Livro que abri, páginas que li...

 Jean Guitton (18.8.1901-21.3.1999) foi um notável professor liceal e universitário, historiador, ensaísta e biógrafo católico, que viveu mais de noventa anos, em aprendizagens tal com Loisy, Carcopino e Lagrange e com grande produção literária, passando por uma fase mais crítica após a 2ª grande Guerra, em que esteve preso dois anos pelos alemães, ao ser considerado um pró-alemão, e por  ser um apoiante do marechal Pétain, chefe do governo de Vichy colaboracionista, vindo depois a ser limpo de tais acusações e reintegrado no ensino universitário (Filosofia, na Sorbonne, desde 1955) e desfrutando amizades literárias, políticas e religiosas importantes, entrando mesmo na Academia Francesa em 1961,

Na obra Portrait du père Lagrange, Celui qui a reconcilié la science et la fois, ou seja, Retrato do Padre Lagrange, Aquele que reconciliou a ciência e a fé, um título algo exagerado para um trabalho de exegese bíblica apenas mais fundada arqueológica e linguisticamente, Jean Guitton biografa bem o  exegeta e teólogo cristão Marie-Joseph Lagrange (7.3.1855-10.3.1938), a pedido, algo reparador, do papa Paul VI que decidira canonizá-lo. Era um erudito dominicano, famoso por ter realizado importantes investigações sobre a Bíblia e Cristianismo,  fundador  em Jerusalém em 1890 da Escola Prática de Estudos Bíblicos (depois Escola Bíblica e Arqueológica Francesa), donde sairá a prestigiada Bíblia de Jerusalém, e em 1892 da Revue biblique, em 1898 da coleccão Études bibliques. Destacará muito bem o  seu percurso eriçado de dificuldades no seio da Igreja, pelas suspeitas do seu método histórico e da sua exegese mais fundamentada serem modernistas, pelas inimizades (tal a do jesuíta alemão Leopold Fonck) mais do que polémicas, e pelas censuras a que pelo voto de obediência teve de se submeter anos a fio, tal a do Papa Pio X que o impediu de publicar qualquer trabalho durante dez anos. A sua tradução dos Quatro Evangelhos e os estudos preparatórios serão muito apreciados e como dissemos  o seu processo de beatificação está em andamento.
Num in-4º de 244 pági
nas, que foi dado à luz em Paris, em 1994, Jean Guitton,  após uma primeira parte com capítulos biográficos por vezes emocionantes pelas perseguições sofridas, insere numa segunda parte, "Encontros", extractos valiosos dos diálogos que travaram em Paris e Jerusalém, que nos permitem compreender melhor tanto o pensamento e a personalidade de Lagrange como as linhas de sabedoria e de demanda que realizavam e "conversaram", no sentido de Agostinho da Silva do convergir para a verdade, para a unidade ou mesmo converter ao mais alto em nós...

                                               

Num desses apontamentos valiosos, nas pp.162-63, o Padre Lagrande defende-se de ser um escritor para as pessoas mais simples, já que admitia a hipótese de ter sido real a vinda dos reis magos, afirmando: "esta condenação prévia duma hipótese qualquer, este direito concedido à razão de condenar uma experiência, é radicalmente contrário ao espírito científico, e no meu sentir [ou ver], é um pecado contra o espírito. Nas ciências, esta suspeita prévia não pode existir." Destaquemos esta identificação do estreitismo dogmático ao famoso e misterioso "pecado contra o Espírito santo", que segundo os Evangelhos seria o menos perdoável. Anote-se que noutro momento da sua vida (como Guitton no narra), considerou também os erros de gramática como pecados contra o Espírito Santo, provavelmente no sentido de serem contra a ordem gramatical e racional, o Logos, e a sua acção nos que escrevem...

Já na pág. 164 o Padre Lagrange contradiz-se um pouco, pois depois de justificar-se de explicar Deus como um homem barbudo aos aldeões, e interrogar-se: «fiz mal de agir assim, como o fizeram desde a origem aqueles que falavam ao povo, desde Jonas, S. Vicente de Paula, o cura d'Ars?», conta a sua charla ou prédica pela rádio na Bulgária: «Queridos amigos comunistas búlgaros, vós sois ateus, não acreditais em Deus porque vos ensinam que Deus é barbudo. Rejeitais a barba com razão, mas negais Deus sem razão. No fundo, o que é um ateu? Vou dizer-vos: um ateu é um espírito que tem uma ideia de Deus mais pura que os seus contemporâneos. O exemplo mais famoso é o de Sócrates que foi condenado pelo tribunal político ateniense porque ele era ateu e que corrompia a juventude.
Aos meus olhos, a vo
ssa ignorância é sinal da vossa pureza. Vós não quereis o Deus de barba e orelhas como está representado sobre os vossos ícones. Tendes razão em rejeitar a barba, mas errais muito ao rejeitar Deus.»  E contradiz-se porque mesmo aos aldeões devia ter explicado melhor Deus sem antropomorfismo, embora seja bem sábia a compreensão da pureza ou não contaminação de visão  presente em Sócrates ou num simples ateu, bem assinalada aliás logo por ele com uma visão intimista da Divindade, pois de facto o padre Lagrange iniciara a sua rábula do Deus barbudo, com as seguintes palavras, bem valiosas de serem mais praticadas ou sentidas: «Supõe que expões às pessoas da tua aldeia a ideia mística que Deus não cessa de falar a nossa alma e que a nossa alma não cessa de conversar com Deus. Para falar ao povo, eu faço um desenho que representa um Deus barbudo, com uma barba florida como Carlos Magno e duas orelhas. Errarei ao agir assim....» Esta fala, conversa ou oração incessante, numa linha até erasmiana, conforme partilhei no seu Modo de Orar a Deus, pode e deve ser  sentida como uma maior atenção ao nosso interior espiritual.

Valioso também, na  página 165, num subcapítulo intitulado Lagrange e Bergson, Jean Guiton contar:«Como eu era o discípulo e herdeiro espiritual de Bergson, o padre Lagrange interrogava-me sobre textos que o embaraçavam no último livro de Bergson chamado As duas Fontes da Moral e da Religião», e assim Guiton esclareceu-o quanto à fé cristã de Bergson pois este, rebatendo a hipótese crítica do cientista e investigador religioso Paul-Louis Couchoud (1879-1959, Le Mystère de Jesus), que negava até a existência histórica de Jesus (tal como tal Arthur Drews e Herman Raschake) afirmara-lhe que «a humanidade e a historicidade dos Evangelhos parecem-me um aquisição eterna».
Valioso o diálogo entre os dois ac
erca do "dramatizante dualista" Blaise Pascal e a concordância verdadeira ou fabricada entre profecias antigas do Antigo Testamento e as ocorrências da vida de Jesus nas narrativas evangélicas, e onde Jean Guitton surge bem mais próximo da verdade e não condescendendo, como em parte o P. Lagrange, com a alteração da mensagem de Jesus: «Pascal raciocinava assim: há no Antigo Testamento profecias, isto é anúncios sobre o futuro, anúncios muito precisos nos detalhes como nos momentos temporais. Ora, segundo Pascal, essas profecias, feitas muitos séculos antes de Jesus. foram verificadas na história do Jesus, nomeadamente as profecias feitas pelo profeta Isaías sobre a  morte ignominiosa de Jesus que nós chamamos a Paixão. Que pensa das profecias, ou melhor do argumento das profecias de Pascal [e que os comuns cristãos também aceitam], já que passou toda a sua vida a estudar o Antigo e o Novo Testamento e que por consequência é mais competente que qualquer pessoas para nos dizer se Pascal tinha razão [nesta aposta] ou se Pascal se enganou, em função das últimas descobertas da exegese moderna?

Responde o Padre Lagrange: «É verdade que em 1906 em Jerusalém, fiz uma conferência sobre esse assunto tão difícil e contudo capital. Dir-vos-ei em que condições tal conferência foi realizada em Santo Estevão, Jerusalém. Acabara de sair um livro de Sully Prudhomme (16.3.1839-6.9.1907), o poeta celebre que foi o primeiro prémio Nobel de Literatura e que tinha uma muito grande autoridade moral, e Sully Prudomme sugeria que os argumentos de Pascal [de quem era uma grande conhecedor] tinham sido arruinados pela exegese moderna [dos Evangelhos e do Cristianismo]. Pascal dera a maior importância à profecia, e considerava-a como o selo que Deus dá à sua obra anunciando-a antecipadamente. 

Sully Prudhomme
Jean Guitton interrompe-o então e diz-lhe: «- Permita-me, meu padre, indicar-lhe qual é a minha dificuldade quanto às profecias, seja em Pascal ou em si. E esta dificuldade surge cada vez mais à medida que se avança na exegese, e ela inquieta muitos dos nossos contemporâneos.
Se as profecias, dizem-nos, se realizam [ou realizaram], é por uma razão muito simples, é porque o Evangelho, a história evangélica tal como nós a encontramos hoje nos quatro Evangelhos, foi fabricada pelos redactores para realizarem [ou cumprirem] as profecias e a partir das profecias do Antigo Testamento. De modo que nós não nos espantamos nada que Jesus tenha ressuscitado "segundo as Escrituras" porque as Escrituras, ou seja as profecias, foram a fonte das narrativas dos Evangelhos. De modo que o argumento das profecias está arruinado, já que em vez de provar a verdade da religião, demonstra as fraudes que estão na sua origem.»
Bem apertado por Jean Guitton, o P. Lagrange admite que haja nos Evangelhos partes que foram induzidas pelas profecias do Antigo Testamento, mas realça que o mais importante foi «o anúncio que viria um Messias, rei, de qualquer nome que se chame, e que faria uma verdadeira revolução religiosa que se estenderia à humanidade inteira. O problema é então saber se este ser anunciado veio e se tal ser que anunciaram é precisamente o Nazareno», e tal é o que pensaram o apóstolos, Pascal e eu.
E passando os dois a discutirem se as profecias tem dois sentidos, um literal e outro espiritual ( e podem-se até discernir mais), um nos efeitos superficiais, o outro nas causas profundas, Jean Guitton atreve-se a citar de um comentador de Pascal um texto valioso, ou como ele chama "notável", e que bem meditado nos pode aproximar mais da verdade e do seu Campo unificado de energia consciência informação: «Não há qualquer dúvida que todas as verdades são eternas, que elas estão ligadas e dependentes umas das outras, e este encadeamento não é só para as verdades naturais e morais, mas ainda é para as verdades de facto que podemos dizer também de certo modo eternas, pois todas estando atribuídas [ou designadas] a certos pontos da eternidade e do espaço, elas compõem um corpo que subiste como um todo [tout à la fois] para Deus»

E fiquemos com esta imagem de um corpo místico da Verdade, ou do Logos, Inteligência, Amor, Razão e Ordem do mundo, e que para os cristãos tem a sua cabeça em Jesus Cristo, o mestre da hoje em genocídio Terra Santa... Que a paz e a fraternidade possam surgir o mais rápido possível...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Antero de Quental, nos sutras de Joaquim Correia da Costa, em crítica a um livro de Mário Beirão, no "Diário de Lisboa", de 14-3-1929.

                                     

Arrumando gavetas, papéis, manuscritos, jornais, deparei-me com um artigo de crítica literária do diplomata e escritor  Joaquim Correia da Costa, no Diário de Lisboa (onde escreveu bastante desde 1922), de 14-3-1929, acerca do Último Lusíada, acabado de dar à luz pelo poeta Mário Beirão (1890-1965) e onde, no meio do elogioso texto, de uma página a quatro colunas,  vislumbrei um parágrafo dedicado a Antero de Quental,  com o qual inicia a menção da linhagem dos poetas líricos em que Mário Beirão se inseria e que passaria então por Antero de Quental, António Nobre, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes e João de Deus, concluída por ele com a esperança nos novos poetas. 

 O que discerniu muito sinteticamente sobre Antero de Quental merece ser salvo da tumba do esquecimento dos frágeis jornais no decorrer do Tempo e receber alguma hermenêutica mais luminosa, pois Joaquim Correia da Costa era um pensador crítico, inteligente e sensível, apreciador das literatura e artes plásticas, do integralismo e tradições portuguesas, com muitos amigos, tal Fernando Pessoa, Carlos Parreira, João Ameal e outros,  pelo que vamos então ressuscitá-lo, saudando-o no esplendor do espírito e das coisas, para o seguirmos no seu livro de valiosos ensaios de crítica literária,   apontamentos de viagem no estrangeiro e descrições de Portugal e seus costumes, -  campinas e cavadores, mercados e feiras, excelentes ou não fosse ele natural de Moita do Ribatejo - , dedicado  a Alberto da Rocha Brito, a António de Cértima e a Lino António, com capa de Almada Negreiros, dado à luz na Lumem, editora conimbricense, em 1926.

Eis o que nos transmite, como que em quatro sutras: - "Antero viveu a interrogar-se numa rebeldia dolorosa, onde surgiu a morte e com ela o seu sacrifício sobrehumano. O mais alto desejo sensível cabe todo dentro de alguns sonetos de Antero. O Poeta atingiu em sua obra o credo na humana condição, tão vizinha da morte. Atingiu num sonho todo o mundo e depois de o atingir disse à vida o seu Nirvana.»

Aproximemo-nos então do começo: "Antero viveu a interrogar-se numa rebeldia dolorosa, onde surgiu a morte e com ela o seu sacrifício sobrehumano."

Esta afirmação não é exagerada, pois Antero interrogou muito a vida e seus sentidos e mistérios, suas instituições e agentes, e fê-lo com audácia, coragem, independência e logo rebeldia não só mental mas também física e factual, como na sua vida de estudante, de polemista ou de revolucionário socialista exemplarmente manifestou.

Podemos dizer "interrogou", como talvez melhor ainda "questionou. investigou, demandou" e, nesse processo de estudo, exame, experimentação, descoberta, tese, antítese e síntese, Antero foi avançando e amadurecendo seja religiosa, política,  filosófica ou psiquicamente, todavia com a doença a surgir-lhe algo cedo, diminuindo-o na sua irradiação e obra e predispondo-o para a morte precoce. Assim, as unificações com o mundo das ideias e dos seres pela laboração afectiva e psíquica, poética e filosófica que Antero realizara e partilhara, através da edição final dos Sonetos e a publicação das Tendências Gerais do Pensamento Filosófico, ficaram como o seu testamento, final, ainda que reconhecesse nele limitações de não ter conseguido gerar a sua poesia espiritual e luminosa perfeita, nem escrever a sua visão filosófico-espiritual plenamente.

Foi um "sacrifício sobre-humano", o seu suicídio? É uma boa denominação ou  classificação do acto fatal: Antero mata-se, sacrifica-se na ara ou altar dos seus ideais, das suas aspirações e do inconseguimento deles pessoal e provavemente até nacional. 

Era uma parte - quem sabe, um dos seus corações - de Portugal que se suicidava, vencida na incapacidade  da Liga Patriótica do Norte, presidida por Antero, de conseguir em 1891 dinamizar a reacção voluntariosa dos partidos e do governo ao Ultimato do imperialismo britânico.  

No anoitecer de 11 de Setembro de 1891, olhando para trás, nesse alto monte escarpado final, Antero de Quental deve ter visto a sua vida fabulosa de criança açoriana, de estudante, de literato, de poeta apaixonado, de orador, de revolucionário idealista, político e socialista, de epistológrafo e filósofo, mas em que não conseguira assentar na realidade da profissão e trabalho,  casa e  terra, mulher certa ou amada (a sua Beatriz  sentida idealizadamente na Beatrice e nas Primaveras Românticas)  ou ainda  grupo, cenáculo ou meio receptivo e frutuoso, mesmo que fosse só a Ordem dos Mateiros, sonhada para uns poucos, em modo agro-florestal e contemplativo, resistentes à degeneração do Ocidente, como hoje mais acentuadamente observamos, com alguns montados mateiros a sobreviverem.

Assim, a não-vivência harmoniosa ou plena como desejaria, a má situação do corpo, dos nervos e da esperança na alma de Portugal e na possibilidade de cooperar com ela e, por fim, a frustração do seu projecto de retorno à ilha natal com as duas pupilas - ao não se poder realizar na proximidade com elas desejada - levaram-no a cortar os laços que o prendiam à humanidade da terra. E nestes sentidos Antero foi sobre-humano, arrancou ou exigiu algo mais do que o humano nele.......

Estava desiludido, cansado de quê? Da terra mesmo, da vida humana, da sociedade, e em especial da sociedade portuguesa e açoriana, ou estava sobretudo já desinteressado da vida da Terra, por não ter mais esperanças quanto a ela e, pelo  desgaste e enfraquecimento nervoso e psíquico e a sua difícil readaptação à vida parda em Lisboa (para onde teria de regressar), só e com escassos amigos, algo já uma sombra do Antero deslumbrante que Eça de Queirós viria a debuxar uns anos depois magnificamente no seu In Memoriam?

Assim a palavra sacrifício sobre-humano pode interpretar-se em vários sentidos, tal o de desiludido, sacrificar de novo a sua vida, e agora diante da morte, face aos altos ideais supra-humanos: - "Já que não os consigo mais realizar, nem nós portugueses, que haja quem faça o seppuku ou hara-kiri, o mea culpa, o não sou digno de Ti, Vida, partindo sem medo para a libertadora irmã Morte."

E foi um "sacrifício sobre-humano", difícil, como são a maioria dos suicídios - e que longo filme ou livro trágico se realizaria de últimos  pensamentos dos que enveredaram por tal prática e caminho -, porque provavelmente se debateu dolorosamente entre o ir e o ficar, entre o tentar  realizar ainda algo (talvez obra filosófica e espiritual, ou apenas a educação das duas pupilas Albertina e Beatriz) ou o baixar os braços e desistir. E, finalmente, porque  no fim dos dois tiros disparados  esteve algum tempo ainda em forte sofrimento, numa crucificação sobre-humana, só suportável porque a um "sobre-humano nível" se referia e aspirava...

Entremos agora nas ideias-forças da 2ª afirmação sutrica: "O mais alto desejo sensível cabe todo em alguns sonetos de Antero."

Nesta frase, afirmativa da poderosa força (quase atómica) dos sonetos de Antero,  discernimos a sua compreensão dele ter conseguido atingir em poemas o máximo de amor, de aspiração, de idealismo, isto é, de alto desejo, seja de amor,  justiça,  gnose,  fraternidade ou verdade, e ter condensado tal em palavras, rimas, ritmos, imagens, sentimentos, sonetos poderosamente perenes.  

E são realmente muitos  os poemas e sonetos plenos de tal fogo e demanda, que infelizmente não foi tão plenamente realizada em certos níveis internos e gnósticos, embora noutros sim e que ele sabia: a perfeição poética estava reconhecida, e o seu pensamento filosófico foi partilhado no fim da vida na Revista de Portugal e por alguns bem recebido, e durante muitos anos em cartas fora derramando a sua palavra ou verbo encantatório, idealista, libertador, fraterno, sábio....


A frase seguinte, "O poeta atingiu em sua obra o credo na humana condição, tão vizinha da morte, " é também bastante desafiadora, e poderemos lê-la, entre outras hermenêuticas, assim: A obra poética de Antero é um credo, uma afirmação de crença nos valores e potencialidades do ser humano, imensos  e enormes, mas que sabemos serem sempre frágeis pela sua sujeição à sempre vizinha morte e a tantas adversidades.

Joaquim Correia da Costa demonstra uma boa afinidade com o pensamento de Antero de Quental, na valorização da morte sempre ao lado da vida e, nesta equiparação, nesta visão da dualidade, pode haver até uma crença na vida depois da morte, pois se a vida gera tantas maravilhas, mas está sempre colada à morte, porque não admitir que esta tenha também muitas maravilhas em reserva para os que as merecerem?  Não sabemos porém o posicionamento espírita, ou espiritual, ou de crente ou descrente na imortalidade da alma, que Joaquim Correia da Costa tinha. Contudo, o últim0 sutra permite vasta hermenêutica:  "Atingiu num sonho todo o mundo e depois de o atingir disse à vida o seu Nirvana."

Esta tão bela quão misteriosa frase  poderemos interpretá-la pluridimensionalmente: Antero de Quental alcançou na sua obra poética e de ensaio literário, político, filosófico, ético e espiritual uma expansão consciencial muito grande, quase uma unidade com o universo e, atingida tal infinitização, Antero despediu-se da Vida fazendo por si próprio a sua extinção ou Nirvana, no banco do jardim ou campo de S. Francisco, sob a palavra Esperança, na sua terra natal de Ponta Delgada, fechando o anel duplo do espaço tempo de Ouroboros, rumo ao seu além nirvânico, certamente não de extinção total mas antes, vislumbramos, de lenta ressurreição psico-mórfica...

 A expressão sutrica "disse à sua vida o seu nirvana" é bastante original e profunda e assinala tanto o poder persistente e coerente de rebeldia indomável de Antero, pois tal como se rebelara contra as praxes e autoridades académicas, ou  o patriarcalismo conservador da escola de Lisboa e de António Feliciano Castilho, e depois lutara por um socialismo humano e por fim contra o imperialismo britânico, confrontado com o aproximar irremediável da Morte, com quem tanto dialogara e poetizara no seu percurso ardente, preferiu ser ele dizer ou fazer a sua própria morte, ou fim, ou extinção ou nirvana, num acto portanto de rebeldia máxima à normalidade, provavelmente mais dolorosa que jubilosa ou nirvanica, pelo menos enquanto não morreu cerebralmente, embora não saibamos que forças de desprendimento libertador emanou em tal acto e momentos pelo éter eterno...

Resta intuir ainda com que força e luz ele despertou consciencialmente no além, já sem corpo físico mas num corpo poético-espiritual, e quanto tempo, as suas melhores ou mais causais tonalidades vibratórias, intensificadas com entretecimento com as dos por ele têm orado, levaram a ressuscitá-lo mais...

Muito luz e amor para os três: Antero de Quental, Mário Beirão e Joaquim Correia da Costa! Demos graças Lux, Aum, Amen, Iao, Hum.