segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A Ilha do Amor, dos Lusiadas, e a iniciação do herói e dos navegantes pelas Ninfas, Húris ou Anjos. Avicena, Dante e Camões, mestres espirituais.

                                                 

Continuando a respigar das florescências semeadas pacientemente por Dalila Pereira da Costa na suas Raizes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, entro na comparação entre as duas teorias cosmológicas que se enfrentaram no Renascimento, a que vira o Universo e os planetas animadas pelas inteligências angélicas e a que o via como mera harmonia de forças mecanicistas. Dalila, depois de citar constantemente Avicena Dante que expõem a presença activa dos Anjos nos seus relatos ascensionais iniciáticos, opera  em Camões uma hermenêutica original  da  ninfa Tétis, e das ninfas dadas aos heroicos navegantes, fugindo ao estereotipado "maravilhoso pagão" com que tantos comentadores banalizaram o relato e  considerando-as Anjos,  inteligências angélicas. Oiçamos a querida amiga Dalila Pereira da Costa, agora já não sibila que nos recebia nos seus dominios portuenses e durienses mas alma mestra no corpo espiritual da Humanidade, interrogando e demandando altos níveis do conhecimento, para que possa a nossa relação com os Anjos  e logo o auto-conhecimento e  iniciação espiritual, nossa de Portugal e da Humanidade melhorar, nestes tempos cruciais em que as forças da mentira e da violência, ou seja do mal, estão cada vez mais expostas nos USA, Israel, NATO e UE, numa luta de morte contra a multipolaridade e a dignidade humana, e cremos a Providência Divina. Breves acrescentos meus entre [...], e sublinhados.

«Camões, tal como Avicena e Dante, teria deixado todo um conhecimento escatológico antropológico e astronómico, incluso nesse relato cifrado sob as imagens do nosso mundo. Pois que a conexão entre uma iniciação, como conhecimento perfeito e último [ou quase] concedido à alma pelo seu guia celeste, e o conhecimento astronómico por este simultaneamente concedido, estará presente semelhantemente no relato do filósofo místico árabe [certo, é persa], do poeta português e do poeta italiano: o conhecimento das esferas celestes, marcando finalmente este percurso. [Ou seja o processo iniciático ascensional culmina na contemplação da Harmonia das esferas planetárias e das suas inteligências celestiais, e mesmo do Sol da Divindade.]

Nesta máquina do mundo, construída segundo o ensino de Ptolomeu e dos peripatéticos, oito esferas concêntricas e envolventes, terão como centro a Terra, sete delas dos planetas  e a oitava das estrelas fixas [das constelações, também chamada o Firmamento], uma última dando-lhes todo o movimento [que teria como móbil ultimo o desejo de unidade com o Empíreo, plano da Divindade e dos Bem-aventurados]. Cada esfera movendo-se, segundo os peripatéticos, por uma Inteligência divina, que está em relação com essas esferas como a Inteligência agente [ou o anjo da guarda] para cada alma humana.

Só este paralelismo antropológico e cosmológico, poderia justificar  e explicar esta visão planetária integrada na exposição profética da história portuguesa por Tétis; e mais latamente integrada num processo de iniciação concedida nessa ilha angélica, que de outro modo seria difícil nela incluir. Camões, tal como o filósofo islâmico Avicena apresentando aqui a astronomia inseparável da angeologia. E será esta união que com a revolução de Copérnico sofrerá uma ruptura irreversível, que marcará os tempos modernos  da Europa; doravante, os céus ficando vazios das presenças angélicas, como laicização do cosmos.

Camões surgindo ainda em meados do século XVI, como representante e defensor desta concepção anterior, então a ser preterida do pensamento ocidental. A adopção da teoria de Copérnico, com o abandono daquela de Ptolomeu, arrastaria consigo, como revolução cosmológica, toda uma revolução escatológica. Pois que toda essa anterior cosmologia era solidária de uma angeologia, incluindo sua teoria da Inteligência agente em diálogo com a alma humana. O que o novo sistema iria combater, seria justamente a prerrogativa do Anjo no acto do conhecimento e na economia do cosmos.

Ora é ainda precisamente esta cosmologia ptolomaica regida pela presença dos anjos condutores das esferas celestes e, com seu conhecimento, das almas humanas para sua salvação, o que Camões nos apresenta. Digamos no contexto cultural e religioso da Europa de então, de modo visivelmente anacrónico, ou conservador. Esta presença angélica, representada aqui sobre a terra paradisíaca pelas ninfas [quais huris islâmicas, do paraíso Jannah, diremos, quem sabe se por Camões também tido em conta e que Dalila não ousou escrever], com seu dom de conhecimento supremo [ou elevado] e de eternidade para os homens, numa epopeia de pelo Renascimento, nos levará a ver nela uma marca de avicenismo; ainda para além de certa influência do poema de Dante.» 

As esferas planetárias no Tratado da Esfera de Pedro Nunes
Dalila finalizara este capítulo, relembrando que Camões conheceu na livraria dos Colégios augustinos de Coimbra a Geografia de Ptolomeu, difundido em Portugal pelo Tratado da Esfera de Sacrobosco, e depois pelo Tratado da Esfera de Pedro Nunes, também existente nos Colégios de Santa Cruz, e que «se ainda continuarmos a leitura das estâncias  que descreve a máquina do Mundo, ela nos concederá a via para toda a concepção de angeologia que impregna esta cosmologia ptolomaica: "porque a Santa Providência (...) Por espíritos mil que têm prudência/ Governa o mundo todo, que sustenta (...) Quer logo aqui a pintura, que varia, y agora deleitando, ora ensinando,/Dar-lhe nomes, que a antiga Poesia/ A seus Deus já dera fabulando; Que os Anjos da Celeste companhia, Deuses" o sacro verso está chamando.»

Dalila concluirá assim lamentando que a visão dos «Planetas movidos por forças angélicas, animae coelesti, cosmos de estrutura religiosa-animista» tenha sido substituída pelas das forças físicas, equacionadas matematicamente as quais dispensam existência de almas angélicas moventes dos planetas e que Kepler (1571-1630) viveu em si mesmo, confessando posteriormente: «antes eu acreditava que a força que fazia girar os planetas era realmente uma alma... Mas considerando que esta força motriz diminui a uma grande distância, conclui que devia ser material» (Opera 1. p. 176).

E nós, deixaremos que as distâncias véus, descrenças e dúvidas nos façam perder a ligação com o Anjo, a Inteligência Agente, o Espírito Santo?


Dando graças à Dalila, a Avicena, Dante e Camões, saibamos ler e reler, orar e cantar, meditar e amar, para que os Anjos nos possam inspirar e abençoar!

domingo, 16 de agosto de 2026

A visão do lume clarissimo, revelado pela Ninfa Angélica a Vasco da Gama, após a sua ascensão: o "Segue-me firme e forte, com prudência", como mantra da iniciação heróica de Vasco da Gama

  Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana,   1990, realizou uma hermenêutica valiosa de Camões e d'Os Lusíadas e do ser e missão Portugal, investigando com sensibilidade e originalidade as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas (nestas em especial a influência do mestre persa Avicena), demonstrando em sucessivos capítulos do seu livro ser a epopeia camoniana uma obra gnóstica e iniciática . Já lhe dedicamos três artigos e partilhamos neste último alguns dos parágrafos mais valiosos, dado que é obra esgotada e rara, e de uma querida amiga já nos mundos espirituais...

As influências do culto da Deusa Mãe, e sobretudo da tradição celta e irlandesa nas suas narrativas de viagens em busca das ilhas afortunadas e imortais são factos históricos, pelo menos nas traduções e adaptações que os monges de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra realizaram ou conheceram. Já os relatos visionários do médico e filosofo persa Avicena não o são tanto. Contudo Dalila assumirá a influência persa nem que seja pelo avicenismo da época e a  similitude das descrições contidas nele com as de Dante e a Divina Comédia,  Camões e os Lusíadas, citando até outro grande mestre iraniano Shorawardi e assim escreve com a sua sensibilidade, estilo e hermenêutica tão numinosa:
«Na chegada dos nautas à Ilhas, logo à primeira vista, «três fermosos outeiros se mostravam,/ erguidos com soberba graciosa», canto IX, 53. No Relato do Pássaro, de Avicena, são nove  os cumes da montanha cósmica, e no relato de Shorawardi, são onze, também como graus iniciáticos a vencer; aqui, no relato de Camões, estão resumidos a três, neles se dando sucessivos momentos duma única iniciação; como lugar privilegiado, nessa montanha, centro do mundo [ou axis mundi]. Sempre concedidos por Tétis, a ninfa «enchendo a terra e o mar de maravilha» ao capitão, em gesto de pedagoga sagrada, mistagoga:«Tomando-o pela mão o leva e o guia,/ pera o cume de monte alto e divino,/ No qual uma rica fábrica se erguia/ De cristal toda e de ouro puro e fino/ A maior parte aqui passam o dia/ Em doces jogos e em prazer contínuo;/ Ela nos paços logra seus amores,/ As outras pelas sombras, entre flores», canto IX, 87.
União a que se seguirá o ágape, como confirmação de comunhão sagrada, celebrada em «abundantes mesas de altos manjares excelentes sentam dois a dois, amante e dama (...) Outras, à cabeceira, de ouro fino,/ Está com a bela Deusa o clara Gama». Canto X. 23. Este será o primeiro grau de iniciação, pelos dons do paraíso terreal no seu gozo; simbolizando os Pequenos Mistérios. No seguinte monte se dará o outro grau de iniciação, como transcensão da terra e visão do mundo celeste nas suas esferas e signos astrais; conhecimento beatífico e escatológico, desde já e agora concedido neste êxtase, como gozo ante-mortem aos navegantes lusíadas; simbolizando os Grandes Mistérios, nos dons do paraíso celeste [maxime, a comunhão com a Unidade ou a Divindade.]
                                             
De notar que esta iniciação suprema, se fará aqui para Vasco da Gama, tal como para Dante na Divina Comédia e no relato de Avicena, numa mesma visão e vivência cosmológica, através das esferas celestes até ao ponto de passagem entre o mundo físico e mundo transfísico; no empíreo, pura transcendência. Assim revelará a Ninfa ao Capitão, que veio «Pera lhe descobriu da unida Esfera/Da terra imensa e mar não navegado/ Os segredos, por alta profecia,/ O que esta Nação só mereceria» canto IX, 86. Havendo aqui assim uma especial eleição de Portugal, através do capitão e herói Vasco da Gama.
E ainda, tal como para Dante e Avicena, para este supremo conhecimento, urgiu perfazer uma derradeira ascese, largar de todo, os resíduos humanos, como Mal aderente ao ser, pecados que impediam, tal espelho embaciado, a perfeita reflexão da verdade de Deus. No poeta italiano, ela se fez pela penosa travessia dos círculos do Inferno, subida ao monte do Purgatório, até à chegada ao Paraíso; aqui na epopeia de Camões, pela passagem através desse outro Abyssum antropocósmico, o Mar Tenebroso, o «Profundo», como prova já vencida do Inferno; e depois ainda, o Purgatório podendo aqui ser visto como esta outra subida ao monte sob a conduta do seu guia angélico, Tétis: « Segue-me firme e forte, com prudência,/ Por este monte espesso, tu cos demais»/ Assim lhes diz, e o guia por um mato/ árduo, difícil, duro a humano trato», canto X, 76. [Ad astra per aspera]
Para Dante, esta subida como via purgativa, se fará com a constante intervenção do Anjo e sob a conduta sucessiva de Virgílio, Matilde e Beatriz: nessa montanha elevando-se numa ilha do oceano astral; se subida que pedirá essa total transformação do peregrino, purgação, como progressiva aquisição da liberdade [interior, em relação a apegos e receios]. A mesma experiência existencial, e simbolizada igualmente por uma subida, se expressará neste monte da ilha de Os Lusíadas. O símbolo, é o universal; através dele se unirão os relatos de Camões, Dante e Avicena: pela sabedoria árabe [melhor, persa e islâmica] na sua feição esotérica (...)»
Comparando a passagem de Dante pelo Purgatório, " Cantarei este segundo reino onde a alma humana se purifica e torna digna de subir ao céu", Dalila prossegue com as analogias em Camões: «Tal como no Purgatório [de Dante], este episódio passado na Ilha de Vénus, tem o carácter da fase iluminativa dum processo místico [ou melhor, iniciático], onde se dão as visões imaginativas [ou dos planos subtis psíquicos ou por vezes já arquétipos, causais ou fundacionais]; preferentemente, pela sua cor e brilho, comparadas às pedras preciosas, como já aqui se notou: tal esse campo esmaltado de esmeraldas e rubis, descrito por Dante e por Camões como o "doce colorido de safira oriental". Até a esse dom supremo concedido pela Ninfa, na visão do globo suspenso no ar «que o lume/ Claríssimo por ele penetrava (...) Uniforme, perfeito, em si sustido,/ Qual enfim o Arquétipo que o criou.» [Valiosa descrição a meditar-se, do Cosmos primordial iluminado pelo lume claro do Logos.]
Que o ensino desta visão será de essência escatológica e cosmológica, tal o da Divina Comédia, aqui na epopeia camoniana a Ninfa o declarará:« O trasunto, reduzido/ Em pequeno volume, aqui te dou/ Do mundo aos olhos teus, para que vejas/ Por onde vás e irás e o que desejas», canto X. 87,89. Como contemplação prévia dum futuro percurso a fazer pela alma na sua ascensão post-mortem aos céus. O que por Dante, é contemplado in corpore, ainda em vida e na companhia de Beatriz, sua dama angélica e S. Bernardo em êxtase místico, Vasco da Gama o contempla aqui nesse erguido cume, na companhia da sua Ninfa angélica: a máquina do mundo, idêntica aquela apresentada na Divina Comédia e seu empíreo. «Este orbe que primeiro vai cercando/ Os outros mais pequenos quem em si tem,/ Que está com luz tão clara radiando/ Que a vista cega, e a mente vil também»: como limite do mundo profano e começo do mundo transcendente, ele será já a Luz incriada, nunca conhecida na Terra, nem no mais radioso Sol do meio dia, e como tal impossível de suportar aos olhos humanos ainda impuros: como o contemplar da verdade, face de Deus. [Ousada especulação de Dalila sobre os níveis da luz, dos quais na tradição iniciática persa o primordial chamado é nûr e-Nûr, Luz da Luz.]
Aqui se dando assim o começo da passagem da via iluminativa à unitiva, tal a declarada por Dante que regressa [ao chegar ao] ao fim do Purgatório: «puro e preparado a subir até às estrelas».
Poderemos assim considerar esta iniciação como a heróica, prémio de uma via levada a cabo, como ofício, onde a potência se igualará assim à virtus. Neste século português de Quinhentos, como aquele por excelência do Herói, a iniciação será aquela que compete a essa figura consagrada, e como tal, aqui a Vasco da Gama [nosso antepassado...] e seus companheiros navegantes; como detentores duma das mais altas qualificações da alma, a coragem. Aliás, é a específica consagração do herói que ressalta dos relatos da história portuguesa cantados pelo Capitão ou pela Ninfa profética, na sua longa série nomeada através dos séculos passados ou futuros: fundadores, reis, guerreiros. Mortos ou ainda vivos ou consagrados nesse ofício, à pátria [Como ela está perdida com tão fracos desgovernantes]. Há nesses heróis pela sua virtus, como qualidade especialmente detida e prezada pelo homem e mulher renascentista, algo que os aproximará da santidade: aquela que também nimba Vasco da Gama no cume do alto monte.»  
                                               

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa e a iniciação da Ilha do Amor. As fontes celtas e persas na inspiração de Camões. Avicena e o Anjo e o Espírito Santo.

 Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana,   1990, realizou uma hermenêutica valiosa d'Os Lusíadas e de Portugal, investigando com sensibilidade e originalidade as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas (nestas em especial a influência do mestre persa Avicena), demonstrando em sucessivos capítulos do seu livro ser uma obra  gnóstica e iniciática a epopeia camoneana. 
Para Dalila, para além dos aspectos concretos e históricos da maior parte d'os Lusíadas  «outra realidade haverá escondida no seu fim, de carácter numinoso, como propriamente o mistério, irrompendo súbito no seu penúltimo canto, a «ilha angélica pintada», considerando que a expedição dos argonautas lusitanos à Índia é «uma descida aos Infernos, como prova de iniciação suprema, tal a de Ulisses no canto XI da epopeia de Homero, ou de Eneias  no livro VI da epopeia de Virgílio, ou passagem de Vasco da Gama e seus marinheiros pelo «Profundo» Abismo, ou Mar Tenebroso e chegada ao Paraíso Terreal, «ilha divina» no canto IX de Os Lusíadas. E para este sentido último da aventura marítima, apontarão ainda e sempre, as «naus da iniciação», da Mensagem», de Fernando Pessoa.
Já lhe consagramos dois artigos: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/03/dalila-pereira-da-costa-e-as-raizes.html.
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/08/as-influencias-iranianas-e-sufis-em.html
As Raízes rcaicas da epopeia portuguesa e camoniana está dividida em três partes: I - Lusíadas e Pré-Helenos, II - Raízes arcaicas d' Os Lusíadas (ou entre o Mediterrâneo e o Atlântico),  III, Raízes islâmicas n' Os Lusíadas, seguindo-se ainda 17 breves capítulos, como pode ver na imagem:

                                       

Abordando,  nas fontes possíveis da Ilha Namorada, o fundo celta e irlandês das viagens em demanda da ilha Bem Aventurada, «habitada por mulheres sagradas doadoras da imortalidade aos homens» , tal a Navegação de Maeduin, que serviu de modelo à Viagem de S. Brandão, publicada entre nós pelos monges de Alcobaça, tal como foi o Conto de Amaro, e ainda a Navegação de Bran filho de Fébal, cristianizada na Vita gloriosissima confessoris Christi Brandani abbatis, e que Camões poderia ter lido no códice existente no scriptorium da mosteiro de santa Cruz em Coimbra, ou já do séc. XII, o manuscrito irlandês do Lebor na Huidre, Dalila compara neste último texto «a eleição e elevação à categoria sagrada imortal dum homem, realizada por uma mulher sacerdotisa, àquela outra realizada por Tétis na pessoa do herói Vasco da Gama. O mundo dessa ilha que na epopeia céltica se chama ilha Bem aventurada, ilha das Fadas, Emain Ablach, Ilha dos Frutos, Avalon, Ilha Afortunada: é a ilha da deusa Dana, e de seu povo, os Viventes, Thuata Dé Dananann onde reinam essas mulheres, avatares da deusa, como Prostitutas Sagradas, doadoras de juventude e imortalidade aos homens: «Ilha namorada de Camões».

Vamos agora transcrever algumas passagens valiosas, relembrando que, após ter-se interrogado sobre as possíveis leituras de Camões (na peugada do Dr. António Cuz), e  a possível existência de obras (filosofia, medicina, gnose) de Avicena, na biblioteca de Santa Cruz em Coimbra, dado que os frades agustinianos o conheciam e valorizavam, e que  Camões terá frequentado, ao estudar o Curso de Artes, tanto mais que tinha um familiar como geral do mosteiro, o D. Bento de Camões, Dalila, seguindo na peugada de Henry Corbin, que traduziu e comentou bem o Relato visionário de Avicena,  admite que tal relato terá sido uma das fontes, tal como a Divina Comédia, de Dante,  para o cerne de Os Lusíadas, para o episódio da Ilha Namorada e a descrição da iniciação de Vasco da Gama. No sentido de realçar a corrente avicenizante em Portugal, tanto mais que a influência directa do relato visonário de Avicena não é evidente,  refere a existência de obras de Avicena nas livrarias do Infante D. Pedro, rei D. Duarte e Frei Diogo de Murça, nos séculos XV e XVI.

Dalila Pereira da Costa aproxima-se então de um dos controversos mistérios da mística iluminativa persa e de Avicena  e, seguindo Etiénne Gilson e o P. de Vaux, nomeia «o avicenismo latino, para o distinguir desse augustiniano  avicenizante, pela diferença que surge mais vincada na angeologia; a interpretação augustiniana [augustiniano  avicenizante] transferindo para Deus a função iluminativa da Inteligência agente, a marcará assim pela ortodoxia; ao passo que a comparação desta Inteligência agente no avicenismo latino com o Anjo Gabriel identificado ao Espírito Santo, constituía para o augustinismo avicenizante uma suspeita de heresia oriental, porque aproximando-se da gnose», ou porque ia em contrário à doutrina da Trindade estabelecida a partir dos concílios do IV século, de ser uma pessoa divina e não angélica.

Assim esta identificação do Espírito Santo a um Arcanjo feita pelos teólogos e  espirituais islâmicos, tal Avicena (e a que Henry Corbin parece-nos ter aderido] e que faz parte do  avicenismo latinoparecerá estranha ou herética a muito cristão, mas se observarmos bem ser o Arcanjo Gabriel a anunciar o nascimento de Jesus a Maria e a transmitir-lhe o influxo divino gerador e que ele foi também quem transmitiu o Alcorão ao profeta Maomé, e que a doutrina do Espírito Santo e a sua fixação humana como terceira pessoa da Trindade foi controversa e lenta, pode admitir-se o considerar-se o Arcanjo Gabriel o seu principal transmissor ou revelador, ou filosoficamente  a Inteligência Agente na sua função iluminativa, tanto em Maria, como em Maomé, como em todos os seres que o merecerem, tal como alguns espirituais islâmicos conseguiram e testemunharam.

Já na visão ortodoxa cristã, de S. Agostinho e dos frades e teólogos agostinhos avicenizantes, tal Inteligência agente ou activa competia apenas a Deus e era Dele que descia para iluminar o intelecto humanos receptivo, recusando-se a intervenção angélica ou a complexa angeologia avicenista. 

Ora para Dalila, em Camões, a Ninfa Tétis  representa a Inteligência agente, na sua função iluminativa de Vasco da Gama e dos seus companheiros. Mas não poderá ela representar esotericamente  o vero Eu espiritual dele próprio, que lhe apela: «Despertai já do sono do ócio ignaro;/Que o ânimo de livre, faz escrevo: (...) e o incita a seguir «o caminho da virtude,/ Alto e fragoso/ Mas no fim alegre e deleitoso» c. X. 92,93.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Mesa redonda na Quinta Regaleira sobre O Esoterismo em Fernando Pessoa. Notas e reflexões no diário de 20 de Julho de 1996.

                                                                   

Dia 20 de Julho 1996, «tarde foi a mesa redonda na [Quinta da]  Regaleira [e creio que o tema seria O Esoterismo em Fernando Pessoa, organizado pelo arquitecto João Cruz Alves], em que participei com José Anes, José Medeiros, Victor Belém e Jorge de Matos. Cada um deu o seu contributo específico. Consegui transmitir algo de uma aspiração e ligação ao Espírito, mas não falei como poderia de Deus e de Cristo, pois isso exigiria uma outra disposição e receptividade das pessoas e do ambiente.

Tive a compreensão que o pertencer a grupos torna as pessoas muito sujeitas a defender os interesses dos seus grupos,  limitando-as, desfigurando-as da sua liberdade e plenitude. 

Fomos feitos ou emanados à imagem e semelhança de Deus e isto significará  ou apelará a que O  manifestemos luminosamente e não que nos agarremos a capelinhas exteriores em que muitas vezes já não se procura a Verdade nem se adora o verdadeiro Deus mas apenas os seus símbolos ou imagens materiais, sem os ligar à realidade superior donde emanam ou têm a sua fonte, ou sem estarem ligados a ela.

O grande problema no caminho da realização espiritual são os hábitos a que nos habituamos, ou que habitamos, e que nos impedem de sentir, ver, intuir a identidade e potencial plenitude dos seres, a totalidade, universalidade e verdade que importa discernir e realizar no presente vertical ou axial de cada momento e de cada estado de consciência do Ser.

Realmente quando dialogamos com um ser não interessa saber como se está  a processar a sua circulação sanguínea, mas sim o que vibra e é mais importante para os dois, o que cada um pode comunicar ou impulsionar no outro de luz, de verdade, de amor, de unidade. 

E muitas vezes  nem sequer vale a pena estarmos na miragem ou afã da demanda absorvente do saber ou transmitir mais, mas sim apenas estar, comungar, nomeadamente em silêncio, em osmose. 

Então o silêncio e a acalmia unificadora podem gerar ou fazer surgir a admiração, o amor, a unificação, ou mesmo a adoração da unidade divina.
Quando uma corrente espiritual é sentida como derramando-se ou passando através de nós ou pela nossa palavra podemos considerá-la como uma iniciação à unidade do presente com o eterno e o Divino, e felizes os que a conseguem sentir em encontros, conferências e diálogos, realizando o que o mestre Jesus disse: «quando dois ou três se reúnem no meu nome, na vibração da Verdade, do Logos, Inteligência e Amor, então Eu estou presente. »

Meditar nesta frase e quem é este Eu que está presente é muito benéfico e iluminativo.»

Transcrito com algumas melhorias a 13 de Agosto de 2026.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Reflexões, intuições e meditações juvenis. Acerca da violência, da harmonia, e do Sol do Amor Divino na Natureza e na Humanidade.

                                                               

Transcrição de mais algumas páginas dum bloco de notas,  quando vivia no Gilde, junto a Guimarães com vinte e tantos anos, com leves correcções.  Iluminura persa, do caminho para os mundos espirituais e divinos

«E na senda do conhecimento, pergunto, porquê a violência?

 O assassínio, assim como a morte e a doença ( o mal e o sofrimento) serão necessários, ou são antes consequências de desequilíbrios ambientais, internos e externos? 

"Homem, tu que és animal e divino", para onde te inclinas e te tornas?

A violência está incluída dentro da harmonia, dentro da perfeição, ou pelo menos no caminho para ela? Deveremos aceitar a violência, mesmo a gratuita e cruel? Ou devemos discernir cuidadosamente o que é natural e compreensível, do que é verdadeiramente condenável e logo proibível, condenável, gestação do Mal, do anti-Divino?

Que o Amor, Paz e Compreensão cresçam mais em todos nós e iluminem e consciencializem todos os seres.

Estamos neste mundo ilusório terrenos para a descoberta e a vivência da Verdade, e a violência surge como uma realidade dolorosa que nos vem ensinar a sermos mais conscientes, harmoniosos, justos e para aspirarmos mais ao Bem, à libertação, ao Amor, à Divindade...


Escrevo ao meio dia sobre as duas belas intuições que recebi. Intuo que a Beleza e o Reino dos Céus que procuramos, encontram-se aos nossos olhos na união do Sol com as nuvens, da Luz com a Natureza.

Esses bocados do céu e das nuvens, cenários infinitos, são pontos de passagem para a sensibilidade mais profunda da alma e do Espírito. 

Não será que a Natureza é as trevas iluminadas pelo Sol ou a Lua (pela Luz), pelo Espirito Divino, do qual o Sol é um reflexo? 

Assim, mesmo no dias da chuva, saibamos ver o Sol que se esconde atrás das nuvens. esse doador da Vida e do Amor. (...)

                                             

A segunda intuição foi esta: Descobri, pela graça, que o que nos dá forças não é a comida, nem o ar que se está respirando, nem o espaço físico, nem o sono. É sim o Amor.

Essa simultaneidade de ligação entre os mais diversos pontos n'Uma só corrente unificadora de Luz e Amor, e de que nós podemos fazer parte, ou comungarmos, se a tal aspirarmos.

É o Amor. É a chama do coração, é um calor interno e luminoso a vir dos mundos internos e a ser derramado sobre tudo o que amamos, sobre tudo a que nós apontamos a nossa vontade criadora, e  de respeito pela dor, admiração pelo esforço, contemplação da beleza, e aspiração e adoração com o Espirito e Deus.

Longa vida, longo poder, longa Inspiração para a sagrada Hierarquia e para todos os que se ligam a ela.

Tornar-me amor para tudo e para todos.

Estar sereno em todos os momentos, mesmo que recorrendo à respiração mais consciente, aberto ou sintonizando com as almas luminosas afins, amigas ou cultuadas.

Como as árvores brancas cobertas de neve... Sorrir na lentidão dos flocos que caiem.

Aquecer, dissolver o egoísmo, com a radiação poderosa interna.

Tornar-nos uns com todos, compreendê-los, elevá-los. Estarmos mais conscientes da Unidade Divina...

Saber que a dor, suportada e vencida, conduz à claridade e alegria e a alegria pura merecida, cultivada, aprofundada conduzirá à felicidade (ananda) perene, a do espírito, sob a bênção divina, simbolizado no som e mantra AUM , o unificador dos três mundos da manifestação.»

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Escritos dos vinte e poucos anos, num bloco de notas: sobre a oração, então, agora e sempre aspiração e comunhão espiritual e divina.

                                                       

Orar significa pedir asas que nos levem mais alto, (interiormente), que as da águia. 
Orar é pedirmos a graça [Divina ou providencial].
Orar é visualizarmos o fluxo do Amor Eterno a [influir e a] revelar-se em cada ser.
Orar é justificares por todos os teus actos a tua admissão aos sagrados mistérios [da iniciação e comunhão espiritual e divina.]
Orar é fazeres o teu templo no teu próprio quarto e aí unires-te, na maior serenidade e descontração, com a vontade eterna do Ser original, numa fusão [ou relação] intrinsecamente criadora e restauradora da Graça.
Orar é mastigares lentamente ensalivando bem o alimento [biológico] e não comeres depois do Sol posto. [Tradição budista e não só, e vivia então no campo, junto a S. Torcato, Guimarães].
Não esqueças que o caminho do Ser, do É, deve prevalecer  sempre sobre o não é [maya, a ilusão, a mentira]; e que o tempo avance, pois aproximamo-nos de algo superior [ou do numinoso]. AUM.

Pintura de Bô Yin Râ, sobre quem escrevi ou transcrevi bastante no blogue.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Alexander Dugin: "Contra-Iniciação: Observações Críticas sobre Alguns Aspectos da Doutrina de René Guénon". 1ª parte. Com breves notas, por PTM.

 Neste texto, muito rico e às vezes denso de abordagens críticas e conceitos e ideias originais, apenas sublinhei algumas das declarações importantes e adicionei, entre [...], alguns comentários ou notas curtas, principalmente para complementar o que Alexander Dugin expôs com qualidade magistral, mesmo que em alguns casos possamos não estar plenamente de acordo com ele. Por exemplo, quem é Jesus Cristo? - Deus, o Filho de Deus, um avatar (uma descida do Divino, na Índia), ou um deus, um filho de deus, um Mestre. Outro aspecto não muito esclarecido  é  o dos principais agentes de contra-iniciação... De qualquer forma, um texto muito valioso à nossa disposição, e que poderá comentar.

Dos Arquivos:
Assinado, conforme escrito, em 1997, este ensaio foi originalmente publicado em russo em Konets Sveta: Eskhatologiia i traditsiia [O Fim do Mundo: Escatologia e Tradição]. Moscovo, Arktogeia, 1997/1998. — que algumas bibliografias referem como o nº 3 da revista Mily Angel [Anjo Doce] — e foi então revisto e republicado como um apêndice à segunda edição do livro Puti Absoliuta [Os Caminhos do Absoluto] no volume de três livros Absoliutnaia Rodina [Pátria Absoluta]. Moscovo, Arktogeia, 1999.
Esta primeira tradução em inglês, que apareceu no Eurasianist Internet Archive, Arquivo de Internet Eurasianista em 2019, foi amplamente revista por Jafe Arnold especialmente para a PRAV Perspectives.

Observações Preliminares: A Necessidade de se Corrigir o Tradicionalismo
A questão da “contra-iniciação” é a mais envolta em mistério e ambígua em todo o pensamento tradicionalista. Talvez isto seja uma consequência da própria realidade que os Tradicionalistas, seguindo Guénon, geralmente significam com o termo "contra-iniciação." O significado da contra-iniciação é exposto por René Guénon no seu livro O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. (1)


René Guénon, mais tarde conhecido como Abd al-Wāḥid Yaḥiā (15 de novembro de 1886 – 7 de janeiro de 1951)

Resumindo, podemos dizer que Guénon considera a contra-iniciação como um conjunto de organizações secretas que, embora possuam dados iniciáticos e esotéricos, direcionam as suas atividades e esforços para um objetivo que é o oposto directo da iniciação normal, ou seja, não para alcançar o absoluto [ou o espírito], mas para [ilusões e] desaparecimento e dissolução fatais no meio do “reino da quantidade” em seu crepúsculo externo. 

 Em linha com o esoterismo islâmico [a partir da Surah An-Nisa, 4:76], Guénon chamou aos hierarcas da contra-iniciação de Awliya es-Shaytan, ou seja, os “santos [ou amigos] de Satanás.” Do ponto de vista de Guénon, os representantes da contra-iniciação estão por trás [de muitas ou] de todas as tendências negativas da civilização moderna e estão a dirigir secretamente o curso dos acontecimentos pelo caminho da degradação, materialização e degeneração espiritual.

Uma vez que, segundo a Tradição, a lógica do processo cíclico inevitavelmente se resume a um caminho de degradação, da Idade de Ouro à Idade de Ferro, segue-se que devem existir certas forças conscientes contribuindo para esse processo, assim como, inversamente, as forças da verdadeira iniciação e do genuíno esoterismo tentam impedir essa queda fatal por todos os meios. Esse dualismo histórico de Guénon de forma alguma afecta a unidade metafísica do Princípio, na medida em que pertence à esfera da manifestação, onde a principal lei é a da dualidade. Essa dualidade no cerne da manifestação é superada apenas ao ir-se além do manifestado para a esfera do transcendental. Dentro do mundo, o dualismo é indelével. Assim, o papel da contra-iniciação é parcialmente justificado [ou compreensível], uma vez que está enraizado não na arbitrariedade, mas na própria necessidade providencial ligada às leis do cosmos.
Este aspecto puramente teórico da doutrina da contra-iniciação é completamente impecável do ponto de vista lógico e é confirmado pelas várias doutrinas das tradições sagradas que lidam com “demónios”, “o diabo”, “espíritos malignos”, o “Anticristo”, etc. Mas tudo se torna muito mais complicado quando tentamos passar da teoria para a prática e nomear organizações específicas ou sociedades secretas como exemplos de contra-iniciação. Isso é apenas parte do problema. Antes de podermos esclarecer esta questão subtil, é necessário examinar com mais atenção o que René Guénon quis dizer com "iniciação" e "esoterismo."
Segundo Guénon, as diferenças históricas entre as formas sagradas — religiões, tradições, etc. — são uma consequência das diferentes qualidades dos ambientes humanos e históricos nos quais os raios da Verdade Una Não-Humana são projetados. Em outras palavras, para Guénon, todas as tradições, à medida que se aproximam de seu centro, transcendem as diferenças confessionais e quase se fundem em algo singular. Guénon chamou isso de "Tradição Primordial" (la Tradition Primordiale). Esta Tradição, segundo Guénon, constitui a essência secreta de todas as religiões. Em certo sentido, isso está certo. Um estudo cuidadoso do simbolismo da Tradição, seus rituais e doutrinas, leva à reflexão de que todos os ensinamentos sagrados possuem um certo elemento ou paradigma comum que se perde de vista quando se chega a aspectos dogmáticos mais estreitos e questões de detalhe. A tese da "unidade da Tradição" é particularmente convincente nas circunstâncias actuais, pois o mundo moderno criou uma civilização cujo próprio fundamento contrasta de maneira impressionante com tudo o que pode ser chamado de Tradição. Em outras palavras, o Tradicionalismo Integral e o apelo à  Tradição Una são credíveis na medida em que o mundo moderno se opõe a todas as formas civilizacionais que são fundadas em princípios sagrados. De facto, há muito mais semelhanças do que diferenças entre as várias tradições e religiões quando comparadas com o pano de fundo geralmente contrastante da civilização moderna, completamente desacralizada. Este postulado é óbvio. A questão é: até que ponto essa convergência diante de um inimigo comum é uma consequência da unidade esotérica?
Em outras palavras, as diferenças entre as tradições sagradas são meramente o resultado de falhas no ambiente cósmico em certos momentos do ciclo? Não há razões mais profundas por trás disso? [As adaptações aos ambientes...]
Um exemplo flagrante da relevância de tal dúvida pode ser visto na hesitação de Guénon quanto a saber se o Budismo deve ser considerado uma tradição autêntica ou não. Guénon inicialmente relegou o Budismo à categoria de heresias antinómicas, mas mais tarde [sob a influência de Ananda Coomaraswamy] reconheceu-o como uma tradição genuína. A questão em causa nem sequer é sobre o Budismo, mas o facto de que tal incerteza da parte de Guénon exibe uma certa condicionalidade de seu método sempre que a questão em causa diz respeito a tradições históricas concretas e aos seus princípios dogmáticos. Se até mesmo Guénon pode enganar-se sobre a questão do Budismo (o que para ele permaneceu em grande parte uma abstração, pois a análise de Guénon baseou-se em opiniões de [escassos] informantes  hindus que, como todos os tradicionalistas hindus, se distinguem por sua orientação agudamente anti-budista, então não se pode excluir que tais erros possam ocorrer também no caso de outras religiões. [Tão verdade.]
Os nossos próprios estudos levaram-nos à conclusão de que a avaliação de Guénon não estava totalmente correta pelo menos noutros dois casos.
Primeiro, quando Guénon negou à Igreja Cristã uma dimensão iniciática — e ele datou a perda dessa dimensão (presente no cristianismo primitivo) para a era dos primeiros Concílios Ecuménicos — ele estava claramente a basear-se exclusivamente na história e na historiosofia da ramificação católica (com o posterior desvio do protestantismo). Guénon claramente ignorou a realidade metafísica e iniciática da Ortodoxia, que difere do Cristianismo Ocidental de forma acentuada nas posições mais fundamentais. Guénon equiparou o Cristianismo ao Catolicismo e projetou inadequadamente as proporções da organização católica — incluindo a natureza mística de seus rituais e especificidades teológicas — sobre o Cristianismo como um todo. Isso tornou suas opiniões sobre o assunto completamente incorretas. (3)
Em segundo lugar, Guénon apressadamente reconheceu a Cabala Judaica como portadora da qualidade de genuíno esoterismo — o qual, em sua opinião,  distingue-se pelo universalismo e está além de qualquer particularismo. Mas, na verdade, a Cabala insiste na especialidade [ou supremacia] étnica dos judeus, na singularidade de seu destino e no seu antagonismo metafísico em relação a todos os outros povos e religiões. Isso contradiz claramente a definição de esoterismo de Guénon, segundo a qual os princípios da unidade universal devem predominar e todas as formas espirituais e religiosas se fundem em um conceito comum. Mesmo nos seus aspectos mais transcendentais, a Cabala não afirma a unidade, mas um dualismo metafísico-étnico radical e indelével.
Além disso, em um plano mais geral, as avaliações de René Guénon sobre certos povos — como os antigos gregos, os japoneses, os alemães, os anglo-saxões e os eslavos — foram às vezes tão subjetivas e arbitrárias (e às vezes Guénon esforça-se até para basear algumas de suas conclusões sobre a ortodoxia ou não ortodoxia de várias formas tradicionais nessas avaliações) que todos os aspectos do [do seu entendimento de] Tradicionalismo relacionados com a aplicação de considerações teóricas à esfera prática tornam-se questionáveis.

                  A Ausência de Contra-Iniciação Universal
As diferenças entre as formas religiosas podem ser um factor muito mais profundo do que as condicionalidades do exotérico, e podem estar enraizadas na própria metafísica. Se para o hinduísmo e o esoterismo islâmico, em virtude da especificidade dessas tradições, uma síntese unificadora pode ser realizada com bastante facilidade (todas as outras tradições são interpretadas em termos exclusivamente peculiares a eles), então a questão apresenta-se de forma um pouco diferente com outras formas religiosas. O Hinduísmo e o Islão permitiram a Guénon construir uma imagem lógica e não contraditória, mas que se torna menos óbvia quando tentamos aplicá-la a diferentes religiões e às suas abordagens específicas da metafísica.

Para Guénon (e os Tradicionalistas que o seguem), a situação é a seguinte: a Tradição Metafísica [Primordial ou] Una, que constitui a essência do esoterismo universal, é o núcleo interno de todas as tradições ortodoxas. As religiões dogmáticas e outras formas de tradições exotéricas são cascas externas que cobrem essa unidade de conteúdo (esoterismo e iniciação) de diversas maneiras. No polo oposto do esoterismo universal está a “contra-iniciação”, que não é simplesmente a rejeição desta ou daquela forma religiosa ou exotérica, mas do universalismo como tal [e, politicamente, da multipolaridade]. Assim, o próprio conceito de “contra-iniciação” é inseparável da postulação da unidade esotérica de todas as tradições. [mas tal contra-iniciação também pode exercer-se apenas em oposições particulares a alguns aspectos esotéricos e iniciáticos, ou da Tradição.]
No entanto, fora dos contextos esotéricos islâmicos e hindus, tal lógica não pode ser aceita de forma inequívoca, uma vez que a metafísica das outras tradições não reconhece nenhuma solidariedade esotérica com outras formas religiosas. Na verdade, o universalismo do Sufismo e do Hinduísmo não é tão óbvio quanto pode parecer à primeira vista. O preço de reconhecer a ortodoxia de outras formas religiosas é pago ao afirmar-se o ser carácter "distorcido" e ao tratarem a sua dogmática conforme o espírito e na letra do esoterismo específico peculiar ao Hinduísmo e ao Sufismo. Por exemplo, a abordagem hindu à cristologia praticamente equipara Cristo a um avatar, o que, em um quadro dogmático estritamente cristão, é equivalente à visão “monofisita”. O Islão, por outro lado, partindo de um monoteísmo estrito, adere a um esquema cristológico “nestoriano” (“ariano”). Em ambos os casos, a fórmula cristã ortodoxa, que no final leva à sua própria perspectiva metafísica completamente diferente, é negada. (4)
Assim, o universalismo proclamado pelos Tradicionalistas acaba não sendo tão total e inequívoco quanto se gostaria.
Além disso, o hinduísmo baseia a sua tradição numa fórmula que é inversa à da tradição iraniana, a qual deriva da mesma fonte. Como é bem conhecido, até mesmo nos próprios nomes de deuses e demónios, há uma analogia inversa entre o Zoroastrismo e o Hinduísmo. Além disso, o hinduísmo considera o budismo como uma heterodoxia (uma visão à qual o próprio Guénon aderiu por muito tempo). Assim, essas três tradições indo-europeias orientais não conseguem chegar a um acordo entre si e estabelecer uma unidade esotérica sem levantar certas questões. De facto, é bastante difícil [talvez não tanto] reconhecer qualquer "rectidão esotérica" por parte daqueles que chamam os deuses uns dos outros de "demônios" e vice-versa (os Devas e Asuras no Hinduísmo e no Zoroastrismo significam princípios diretamente contraditórios), ou que negam radicalmente a autoridade de uma das principais fontes sagradas
(pois os budistas rejeitam os Vedas, as castas e todos os fundamentos do Hinduísmo). [Mas não tanto a unidade não-dual metafísica do Vedanta...]
A situação é ainda mais grave no contexto abraâmico. Se o Islão reconhece algum tipo de legitimidade para as tradições dos “povos do Livro” (Judaísmo e Cristianismo) e acredita que a missão de Maomé é a última palavra do “Abrahamismo” a qual corrigiu todos os erros anteriores, então nem os cristãos nem os judeus reconhecem sequer a mínima autenticidade das outras versões do Abrahamismo, que são consideradas heresias, mentiras e mal. (5)  O exemplo do Zohar, a mais alta autoridade da Cabala, facilmente leva à convicção de que a hostilidade em relação ao Islã e ao Cristianismo não só não é removida no nível metafísico e esotérico, mas, pelo contrário, atinge a mais alta intensidade metafísica. (6)  Assim, o esoterismo Ortodoxo plenamente desenvolvido trata o judaísmo (tanto exotérico quanto esotérico) com a mesma severidade, vendo-o não apenas como uma alteridade de forma religiosa externa, mas como a corporificação do mal metafísico e da "tradição" do Anticristo. [Condenação forte, da qual as pessoas não estão tão cientes..]
Assim, além do Sufismo e do Hinduísmo (cujo universalismo também não é ilimitado), não há um esoterismo comum, e isso significa que as tradições entendem a “contra-iniciação” como aquelas formas sagradas que contradizem abertamente asua própria metafísica [entendida e assumida contudo como a verdadeira]. Neste caso, se o mal exotérico é representado pelos pontos negativos decorrentes das especificidades ético-dogmáticas de uma determinada religião, então o mal esotérico (contra-iniciação) seria a metafísica da outra tradição que contradiz tais.
Tudo isso complica incrivelmente a questão da contra-iniciação, que deixa de ser tão óbvia e transparente, e em vez disso se torna extremamente convoluta. [Julius Evola tentou esclarecer isso em sua Máscara e Rosto do Espiritualismo Contemporâneo, vendo-o em ação em muitos grupos, aparentemente bons ou esotéricos.]

Do ponto de vista do esotericismo Ortodoxo, o Judaísmo e a Cabala são indubitavelmente a contra-iniciação. (7).  Segundo o ponto de vista do Zohar, o esoterismo dos goyim, especialmente os “descendentes de Ismael e Esaú” (muçulmanos e cristãos), é “o falso ensinamento do demônio Samael” que “monta a serpente Lilith.” Do ponto de vista do esoterismo hindu, o dualismo iraniano está enraizado no fato de que os zoroastrianos adoram demônios, os Asuras (Ahuras iranianos), a quem chamam de "deuses". [Não tão importante, mera diferença de significado das palavras..] Os esotéricos budistas estão convencidos de que as doutrinas iniciáticas do hinduísmo são o mal supremo, na medida em que apenas aumentam o apego dos seres ao samsara — afinal, os mundos divinos superiores são distinguidos na perspectiva budista por uma qualidade ilusória ainda maior do que os mundos humanos, já que a ausência de sofrimento apenas aliena a perspectiva de alcançar o nirvana. [Original e radical visão.] Na civilização islâmica, os representantes mais radicais do esoterismo manifestacionista [ou que afirmavam a possibilidade da união entre o homem e Deus] — como al-Hallaj, Suhrawardi, etc. — foram executados como hereges maliciosos.
Como, em tal situação, pode-se discernir qualquer contra-iniciação universal, traçar suas origens e reconhecer as forças e organizações que servem como seu disfarce? Se a universalidade do esoterismo (pelo menos, na nossa situação cíclica) não é óbvia e comprovada, então como podemos falar de qualquer universalidade da “contra-iniciação” sendo a projeção inversa de tal? [Bom ponto. Guénon pode ter erros na descrição das entidades e hierarquias do bem, tal como nos parece em Le Roi du Monde, e do mal, que ele experimentou em ataques contra si mesmo por mais de uma vez].»
Continuará a tradução...