segunda-feira, 15 de junho de 2026

O ascendente histórico (2ª p.) da religião e gnose Iraniana sobre os Judeus e Cristãos, e como estes o tentaram ocultar. Por Paul du Breuil.

                                      
                            

Continuando a trabalhar pela sabedoria e a verdade e em prol do Irão e da sua sabedoria e nação, face à investida israelo-americana, com  artigos no blogue, um sendo bibliografia iraniana comentada  (https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/02/bons-livros-10-sobre-o-irao-e-sua.html ),   vamos prosseguir a tradução da parte inicial do IX capítulo do importante livro de Paul du Breuil, Zarathoustra et la Transfiguration du Monde, intitulada Zoroastrismo e Judaísmo, tanto pelo seu interesse para a história da Religião como pela sua extrema actualidade face à luta tremenda imposta ao Irão desde  há tantas décadas e que agora finalmente parece terminar em parte. Despois de descrever como os judeus tanto deveram à protecção que os Iranianos lhes deram, e como autores cristãos e judeus quiseram ocultar quanto as suas religiões devem ao zoroastrismo, passa aos orientalistas que reconheceram e valorizaram a tradição religiosa e gnóstica iraniana:

«Em contrapartida, os trabalhos dos orientalistas confirmavam o que se destaca claramente de uma leitura atenta da Bíblia, especialmente em sua fase pós-exílica, e dos apócrifos judaicos pré-cristãos, a saber que a amizade secular entre a Pérsia e Israel havia beneficiado os filhos de Abraão com uma imensidade de conceitos científicos e teológicos iranianos e mesopotâmicos. Desde o começo do séc. XX o célebre A. V. William Jackson, nos seus Zoroastrian Studies, escrevia: «A influência do zoroastrismo sobre o judaísmo e sobre o cristianismo não foi suficientemente reconhecida e apreciada (p.206).» Estudos desenvolveram esse ponto de vista e, paralelamente aos de L. Mills, Stave, E. Böklen, especialistas como E. Meyer e W. Bousset demonstraram a influência determinante exercida pelo pensamento religioso iraniano sobre o judaísmo, especialmente a partir do exílio da Babilônia (Die Religion Des Judentums... Tubingen, 1926. Die Entstehung des Judentums, Halle, 1896). Por sua vez, no seu estudo bem erudito, Charles Autran analisou a evolução da religião de Israel antes e depois do Exílio, em especial na sua escatologia, angelologia e  demonologia, nas suas ideias sobre o paraíso, o gehena ou inferno e o purgatório e, por fim, sobre a ressurreição e o julgamento final. Em 1938, os estudiosos J. Bidez e F. Cumont publicaram suas reflexões sobre os numerosos paralelos entre textos judaicos e mago-zoroastrianos, numa obra que ainda hoje é considerada de referência máxima (Les Mages Hellenisés, 1938). Finalmente, o eminente especialista dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947, A. Dupont-Sommer, resumiu pertinentemente a importância da influência inegável das doutrinas de Zoroastro sobre o pensamento religioso de Israel após o Exílio (L'Iran et Israel, p. 71). Além deles, o grande arqueólogo do planalto iraniano, R. Ghirshman, notou igualmente a contribuição da cultura aquemênida e da religião zoroástrica nas doutrinas judaicas e até na teologia cristã (L' Iran des Origines, p. 181).

No entanto, todos esses trabalhos raramente alcançaram o público e apenas uma minoria de eruditos reconheceu o interesse desse problema, sem  conseguirem sempre medir as consequências determinantes que ele teve na formação do pensamento teológico e da moral judaico-cristã. Muitos outros livros mencionaram essa influência de passagem, especialmente obras especializadas em iranologia (tal Ormazd et Ahriman  de J. Duchesen-Guillemin, que examina as «Semelhanças iranianas no judaísmo» (cap. VI); e As Religiões do Irão de Widengren, que, após notar a «enorme influência» desenvolvida pela escatologia e apocalíptica iraniana (p. 130), considera a Contribuição do Irão pré-islâmico ao conjunto das religiões do Oriente Próximo (p. 392 s.).... ), mas poucos tentaram situar o problema na sua amplidão e consequências históricas, nem que fosse em relação à originalidade da fé cristã. Não é, portanto, injuriar o judaísmo, no qual o espírito profético soube fecundar essa influência, revelar a origem das fontes zoroástricas judaizadas e tão longamente ocultadas poelas razões que esta obra se esforçará por apresentar. 
 Além disso, é justo prestar homenagem a uma minoria religiosa ainda muito notável, cuja sorte na história não foi muito mais invejável do que a de Israel, a dos Zoroastrianos Parsis da Índia e do Irão que, por trás do gigantesco véu da expansão esotérica da doutrina de seu Profeta, mantiveram, no silêncio e no exílio, a rectidão dos ensinamentos zoroástricos. Não se pode, aliás, em última análise, senão apreciar a continuidade que a tradição judaica e seus profetas pós-exílicos garantiram, pelo florescimento de seus escritos, aos temas zoroástricos, permitindo-lhes, a partir de uma fecundação críptica, culminar em pétalas de uma magnífica flor na qual a ética de Jesus poderia ter desabrochado se, fiel aos seus vectores esotéricos, o cristianismo não tivesse combatido o seu próprio ímpeto gnóstico e todas as formas do dualismo, para considerar apenas o seu passado bíblico.
Então, de onde vem esse silêncio milenar sobre um aspecto tão capital da fé? Claro, do orgulho teológico sobre a originalidade exclusiva das revelações, mas também, sobretudo, porque a história está repleta de fronteiras. E cuidado com aqueles que as abolirem! Como se a história humana não fosse escrita com a participação de todos os povos e cada um entendesse conservar o etnocentrismo de sua verdade, para impô-la a todos. Para muitos historiadores, era necessário que a Pérsia fosse a inimiga do Ocidente e que o mazdeísmo fosse a heresia inimiga do cristianismo, assim como para os nossos monges cronistas da Idade Média, era necessário que o Islão aparecesse apenas sob a forma de hordas selvagens de "Sarracenos". Somente a mentira, arma de Ahriman, poderia derrotar Zaratustra por tantos séculos. Se, segundo o ditado de Eurípides, «a mentira não envelhece», foram finalmente as ciências orientalistas que puseram fim a uma cumplicidade do silêncio mantida por uma tradição judaico-cristã, inquieta por perder um pouco de seu exclusivismo teológico. 

No entanto, essa tradição influencia tanto a psicologia dos pesquisadores, que muitos não levam em conta a ascendência persa sobre a Grécia clássica e são mais favoráveis à ideia da influência helenística sobre o judaísmo (em parte por causa de Fílon de Alexandria). Sofrendo o peso da história grega sobre a cultura ocidental e do pensamento helenístico sobre os [primeiros] Padres da Igreja, poucos argumentos os fazem inclinar-se para as fontes esxternas ao mundo greco-romano, que por tanto tempo foi adversário da Pérsia e dos "Bárbaros", porque isso contraria o conforto do pensamento escolástico. Assim, achamos normal que mais de meio milênio de ascendência iraniana sobre o judaísmo não conte tanto quanto os dois séculos e meio de helenização da Síria-Palestina (de 312 a 63). Os longos laços de amizade real entre o mundo iraniano e Israel não compensam a helenização forçada da Judéia refractária e as perseguições da dominação grega, cujas marcas trágicas a Bíblia carrega (cf. Dupont-Sommer, L'Iran et Israel e W. Durant, Histoire de la Civilization, cap. Judeia e Pérsia). No entanto, qual é a medida comum entre a glorificação de Ciro por Isaías ou a parte importante reconhecida ao protetorado persa pelos livros de Esdras e Neemias, e o severo julgamento dirigido a Alexandre pelo livro dos Macabeus (I.Mac.1/9). Além disso, não só a Bíblia permanece em silêncio sobre os eventos gregos que abalaram o mapa político da Síria-Palestina em 332/331, mas se o pano de fundo histórico do livro de Habacuque se refere, como se pensa, à expedição de Alexandre, trata-se de um conquistador tirano ameaçado pelo julgamento de Deus (Cf. M. Noth;  K Elliger, Das alte Testament Deutch, 1950, pp. 135 s.; B. Duhm, Das Buch Habakuk, 1906).

A literatura religiosa de Israel é de tal riqueza que a tradição mosaica, a mais refratária às ideias estrangeiras, pôde moldá-las à sua própria medida e, sobretudo, conservar em paralelo à sua identidade própria, uma imensidade de conceitos exóticos. São eles que enriqueceram notavelmente o profetismo pós-exílico e o que qualificamos de cripto-judaísmo, ou seja, esse duplo da religião legalista que se alimentou ao longo dos séculos de um esoterismo considerável, principalmente adoptado da gnose zoroastriana e adaptado ao estilo lírico inimitável dos livros proféticos e dos apócrifos judaicos. Esse corrente críptica fecundará a alma muito particular do essenianismo [dos essénios] e permitirá a eclosão do cristianismo. Antes de abordar uma ampla retrospectiva dessa mutação prodigiosa, notemos que, com a evolução de sua concepção monoteísta, o judaísmo também herdou da escatologia e da apocalíptica zoroástrica, o que trouxe novas crenças tão capitais quanto as da imortalidade da alma, da ressurreição dos corpos e das repercussões post mortem dos actos da vida. « É um fato bem conhecido, observava já Max Muller, que essas doutrinas estavam ausentes, totalmente ou quase, da religião dos Judeus em sua fase mais antiga (Theosophy or Psychological Religions) ». Ver-se-á, no desenvolvimento que se segue, que o fundo das crenças mosaicas revelou-se na maioria das vezes em completa contradição com os elementos exóticos trazidos pela gnose zoroastriana, e que, a longo prazo, amadurecidos entre certos grupos de judeus, eles suscitaram cismas, como a fé na ressurreição dos mortos que dividiu fariseus e saduceus, ou, com outras ideias iranianas, gerou o cisma essênio para culminar finalmente numa nova forma religiosa não assimilada [ou recusada violentamente] pela tradição autêntica de Abraão», ou seja, o Cristianismo». 

O subcapítulo seguinte deste extraordinário livro de Paul du Breuil, que se encontra online - e que bem merecia a tradução ou o resumo e a sua divulgação para diminuir tanta ignorância e fanatismo-, intitula-se Monoteísmo e Judaísmo iranizado, e nele história e demonstra a evolução da concepção inicial de Yahveh, dum culto pré-israelita duma deidade atmosférica da chuva, tempestade e geada, como ainda se vê em Exodo 9.23, próximo dos deuses cananeus Baal e El (donde o El Shaddai, deus das montanhas, como lhe chama Abraão), e do deus guerreiro sumério Anu, e do Enlil-Bel, deidade babilónica da tempestade e da fecundidade, e até do deus egípcio Seth, para, a partir do contacto com a civilização e religião zoroástrica, se gerar uma progressiva desmaterialização, desbrutalização e eticização. 
Paul du Breuil realça mesmo como embora já tivesse recebido alguns elementos monoteístas egípcio do culto solar, sobretudo de Aton, em 1375, é só a partir do contacto com  o grande culto persa à divindade única de Ahura Mazdha, que surge em Isaías e Jeremias uma espécie de paixão furiosa por Yahve tão esquecido ou desconhecido dos judeus. E cita Dupont-Sommer: «Foi precisamente no séc. VI a. C, , algum tempo depois de Zoroastro, que se reencontram as primeiras formulações explícitas do monoteísmo judeu». E depois de explicar as profusas manipulações históricas e teológicas de Esdras no seu livro bíblico, e como o contacto com o império aqueménida deu uma dimensão universal bem como uma dimensão qualitativa ética decorrente da gnose zoroástrica, «ao antigo deus tribal Yahve, cujo totemismo roda à volta da Tenda da Reunião (Lv. 8.4), dum povo nómada, em guerra perpétua contra os seus vizinhos que o deus-totém vai esforçar-se por exterminar»....
 
Que actual esta caracterização do Judaísmo sionista, ainda nos nossos dias activa e tão hubricamente perseguindo genocidicamente todo o mundo à sua volta, com o projecto enfabulado do Grande Israel e do seu Deus inventado mas que graças à Pérsia ou Irão foi desmascarado na desumanidade criminosa dos seus dirigentes, meios e fins.
Faltará os cristãos e, claro, muito em espacial os mais alienados ou fanatizados dos protestantes, pentecostais, dispensacionalistas norte-americanos, brasileiros e & abrirem os olhos e deixarem de formatarem-se na adoração do Yahve tribal e violentíssimo dos primórdios do Judaísmo (ou mesmo Mamom, o deus-demoónio das riquezas, como Jesus os repreendeu) e que ainda está tão vivo entre os que se dizem cristãos e que frequentemente do amor fraterno e divino de Jesus o Cristo nada vivem ou têm acesso nas suas alma., desprovidas assim da luz do corpo da glória que, ensinada por Zoroastro, os Ishraqiyum e Jesus, deveria chegar e irradiar nelas.

domingo, 14 de junho de 2026

O ascendente histórico da religião e da gnose do Irão sobre os Judeus e Cristãos, e como estes o tentaram ocultar. Por Paul du Breuil.

Neste dia 14 de Junho, de aparente cessação da luta do império norte-americano, mas não certamente do regime de Telavive, contra o sagrado Irão, o seu povo e a República Islâmica, sendo até tradicionalmente o dia da Temperança, cremos ser adequado sabermos um pouco mais das razões da luta constante contra o Irão e a sua  civilização e religião. Para isso partilhamos umas páginas da obra do notável historiador Paul du Breuil, Zarathoustra et la transfiguration du Monde, publicada em 1978, em Paris, dado o seu grande valor. Faremos alguns comentários posteriormente.


«Desde o primeiro estabelecimento hebreu na Mesopotâmia e na Média, devido à deportação da aristocracia judaica por Sargão (721) após a tomada de Samaria por Salmanasar V (II.Reis.XVIIL.6)  depois com o êxodo maciço da Babilônia por Nabucodonosor, que durou de 598 a 587, e de 539 a 537, e considerando as colônias que, se bem que implantadas no Irão aqueménida, parto e selêucida, depois sassânida, ali permaneceram na Diáspora muito tempo após a queda de Israel (ocorrida em  70/ 135 da nossa era) -, a permanência judaica no império persa durou sete séculos antes do nascimento do cristianismo e, no total, mais de treze séculos até o fim do império sassânida (651).
Antes da escola helenística que brotará de Alexandria, o único período pré-cristão é de longe o mais significativo na evolução do pensamento religioso de Israel. Se mantivermos na memória a importância da ajuda política, financeira e moral que os aqueménidas ofereceram aos judeus exilados e ao Estado de Judá reconstruído sob sua proteção, o ascendente exercido pelo espírito religioso iraniano e, em particular, pela gnose zoroastriana sobre a metamorfose do judaísmo depois do Exílio revela-se bastante natural. Assim, quando o imperador Ciro convidou os judeus a regressarem à Judéia, ele não despertou qualquer entusiasmo entre eles. Muitos preferiram permanecer lá, cultivando as suas terras férteis da Mesopotâmia, fazendo comércio ou na banca. Flavius Josephus observa: « Foi principalmente para não perderem os seus bens que eles  permaneceram na Babilônia.» Desde então, várias colónias espalharam-se livremente por todo o império persa, mantendo contatos estreitos com Jerusalém. Em  515, Dario materializou a promessa de Ciro, permitindo a reconstrução do Templo de Jerusalém com a ajuda de seu principal arquitecto, Depois, com a ajuda do levita Neemias, copeiro do Grande Rei nomeado sátrapa da Judéia, Jerusalém ressuscitará de suas ruínas. Finalmente, reiterando a promessa de seus predecessores, Artaxerxes subvencionou o profeta Esdras para realizar a primeira recolha autêntica dos textos da Torah, o compêndio das prescrições atribuídas a Moisés, e a sua observância como a «Lei de Deus e lei do rei» (do rei mazdeu-zoroastriano) - (Esd.7.26). A intervenção do soberano persa foi então constante, e solicitada por vezes. Por exemplo, durante as disputas a favor ou contra a reconstrução do Templo, quando Xerxes e Artaxerxes tiveram que intervir referindo-se, a  pedido deles, não às leis judaicas, mas aos éditos anteriores de Ciro e Dario (Esd.4.5).

Cada religião entendendo afirmar a sua total originalidade devido à sua revelação exclusiva, fez ignorar por muito tempo essa influência benéfica do Irão religioso sobre o judaísmo e da gnose zoroastriana sobre o cripto-judaísmo e sobre o espírito dos profetas pós-exílio. Também o cristianismo, que tanto lhe deve, esforçar-se-á por esquecê-la até os dias de hoje. No século passado, teólogos, organicamente marcados pela tradição judaico-cristã, acreditaram não apenas dever ignorar essa influência histórica, mas, alguns entre eles, tentaram  até inverter a história para fazer crer que era a religião iraniana, mesmo em sua forma arcaica dos Gâthâs, que tinha tomado de empréstimo a sua fé das crenças hebraicas. A profunda ignorância dos fatos e a ausência de objetividade tinham como única desculpa a prioridade indiscutível dada pelo cristianismo às únicas origens bíblicas de sua fé.

Mas o procedimento não era novo. Hoje já ninguém se surpreende  ao ver como a política pode influenciar a história. Na época da helenização da Judéia, da Síria e da Mesopotâmia pelos Selêucidas, cujos adversários eram então os Partas, alguns judeus fizeram de Abraão o iniciador de Zoroastro e o pai da astrologia (Bouché-Leclerq, Astrologie greque, p. 578, cf. Bidez-Cumont). Isso mostra pelo menos a influência exercida sobre os eruditos judeus pelo Profeta iraniano e pelos conhecimentos dos magos astrólogos. O prestígio de Zoroastro tornou-se tão inevitável aos olhos dos escribas, que, em vez de nos depararmos com uma única e mesma vontade de anexação da personagem, constatamos várias tentativas contraditórias de absorção pela tradição bíblica. 
Assim, o profeta Ezequiel, que pregava no final do séc. VI na Babilônia, foi identificado com Zoroastro, ou melhor, com o pseudo-Zaratus que supostamente ensinara Pitágoras na mesma cidade (Bidez-Cumont,41). Na confusão que domina o problema da assimilação de Zoroastro, vê-mo-lo, ora identificado com Nemrod, o grande caçador do Senhor, ora com Balaão, o profeta mesopotâmico enviado pelo rei de Moabe, e finalmente com o escriba Baruque, secretário de Jeremias e autor do Livro de Baruque no Antigo Testamento (Bidez-Cumont, 42). O denominador comum dessas manobras díspares era, de facto, incluir Zaratustra/Zoroastro na tradição hebraica (Bidez-Cumont,49).). Longe de ocultarem a importância da influência zoroastriana no judaísmo iranizado, essas tentativas provam bem mais a amplidão das relações judaico-mazdeístas.
  Diante de uma religião bem viva na Pérsia até o séc. VI da nossa era, o judaísmo, não podendo voltar atrás nos empréstimos exóticos incorporados à sua teologia, não tinha mais do que travestir o inescamoteável Zoroastro num profeta do Antigo Testamento. O procedimento não era novo e os judeus helenizados procuraram igualmente atribuir-se muitos sábios da Antiguidade: Orfeu tornou-se discípulo de Moisés, assim como Platão e Pitágoras. O que poderia ser mais natural, portanto, se o predecessor dos grandes Helénicos, o próprio Zoroastro, recebera  a sua ciência astrológica de Abraão? Os magos não tinham eles feito melhor, colocando o Profeta [Zoroastro] como fundador de sua casta e de suas crenças, fossem estas  contraditórias com sua mensagem?
A manobra devia finalmente servir mais doravante aos apologistas cristãos quando procuraram refutar as múltiplas "heresias" da gnose e do maniqueísmo vindas do Irão, ou seja, daquele império que, após ter sido o adversário da Grécia clássica e de Roma, havia caído no século VIII sob a dominação da "impostura muçulmana". O falso histórico ressurgiu no século XVIII quando os teólogos se inquietaram ao ver o interesse dos especialistas orientais por essa antiga religião concorrente. O Rev. H. Prideaux, fervoroso defensor da apologética cristã e autor de uma Vida do impostor Maomé, tornava muito verosímil a origem judaica da fé zoroastriana (cf. The Old and New Testaments connected with the history of the Jews and neighbouring nations, London, 1718-1719.). No séc. XIX, o Rev. John Wilson foi encarregado por uma missão americana de reforçar tal ideia  com bastante mais fervor, uma vez que as comunicações de Anquetil Duperron sobre o Avesta perturbavam consideravelmente os meios clericais da França e da Inglaterra (cf. The Parsi religion as contained in the Zand-Avesta, Bombay, 1843).
Enquanto que veremos como  o cristianismo se enraízou profundamente nas crenças pós-exílicas do judaísmo emprestadas ou tiradas da gnose zoroastriana - conceitos que, aliás, eram originais em relação à tradição mosaica restrita - as asserções dos teólogos tinham a vantagem de encontrarem apenas o silêncio da minoria remanescente dos Parsis da Índia e dos Guébros do Irão. Apesar de raras e pertinentes respostas de eruditos parsis, esses piedosos representantes do zoroastrismo, dominados pelo Islão ou exilados, estavam mais preocupados em viver de acordo com os preceitos de Zaratustra do que em entrar em vãs polémicas sobre a prioridade manifesta de sua religião. Depois dessas teses subjetivas sobre o antecedente judaico das ideias zoroastrianas, com o conhecimento aprofundado do zoroastrismo, da alta antiguidade indo-iraniana comum aos Vedas e aos Gâthâs, e do arcaísmo filológico da língua avéstica, próxima ao antigo sânscrito (A dúvida sobre a origem pseudo-judaica do zoroastrismo surgiu assim que foi revelada a parentesco entre a língua dos Gäthâs e do antigo Avesta com as inscrições arqueológicas em caracteres cuneiformes dos aquemênidas, decifradas por E. Burnouf, Lassen e Rawlinson no século passado), tornou-se mais claro que a tese da pseudo-origem judaica do zoroastrismo havia sido aventada apenas para mascarar uma evidência demasiado incómoda: indiscutíveis empréstimos cripto-judaicos à gnose zoroastriana; influência notável especialmente após o exílio da Babilônia e até as últimas redações do Talmude babilônico nos primeiros séculos da nossa era. Consequência, por um lado muito mais grave para o cristianismo do que para o judaísmo, este último tendo que sofrer tal como a Gnose com a supremacia [católica apostólica] romana, se as Igrejas tivessem que inverter a visão tradicional de sua fé, para além das fontes judaicas, sobre uma antiga tradição esotérica há muito considerada adversa e herética.

Finalmente, a fábula absurda do judaísmo-zoroastrismo, agitada aliás por teólogos cristãos e não mais por judeus, acaba por suscitar reações enérgicas, até mesmo polémicas lamentáveis nas quais se acreditou, por vezes, no final do século XIX, ser um realento de anti-semitismo. Contudo, o orientalista Clermont-Ganneau, já em 1880, observava: «Como a Bíblia insiste em identificar o seu Deus com o de Ciro, o judaísmo não é mais do que uma emanação do mazdeísmo (Revue Critique. Paris, Janvier, 1880).» Charles Bellangé reforçava ainda mais essa posição em 1889 com esta observação audaciosa: «A Pérsia não terá um dogma que o judaísmo não se aproprie dele (Le Judaisme et l'histoire du peuple juif. Paris,1889).» Por outro lado, se essas afirmações parecem excessivas aos olhos de uma Cristandade marcada neste ponto pelo que um autor chamou recentemente de "uma falsificação maliciosa da história", em favor da única tradição judaico-helénica (M. Firouz. L'Iran face a l'imposture de l'Histoire. Paris, l'Herne, 1971), os trabalhos do século XX demonstraram amplamente a influência determinante das ideias zoroástricas sobre o judaísmo. Paralelamente essa descoberta demonstrava a ineptidão da tese anterior e, com A. Jackson e E. W. West, o eminente Dr. Charles Gore concluía: «Não é evidentemente possível estabelecer que esta religião imponente (o zoroastrismo) - por mais estreita que seja a semelhança com a fé do judaísmo - tenha  sido tomada de empréstimo aos judeus; a sua datação torna isso inconveniente... Não existe também nenhuma outra fonte estrangeira à qual se possa associar. Na sua grande severidade, ela permanece, criação de importância suprema, se ao menos não fosse mais sábio designá-la, como teria feito o próprio Zoroastro, sob o nome de sinal pelo qual se reconhece a inspiração de uma personagem escolhida como profeta pelo Espírito divino.» Finalmente, R. P. Masani concluía a respeito da distorção judaico-cristã da história: «Desde então, muitos são os sábios que rejeitaram essa teoria, mas tais erros têm vida longa. (Le Zoroastrisme, religion de la vie bonne. Payot, 1939)».

Para meditarmos melhor nos ditos livros sagrados e divinos e nos que foram ostracizados e perseguidos. Continuaremos. E comentaremos...

sábado, 13 de junho de 2026

Revelações do eng. Francisco Peixoto Bourbon acerca de Fernando Pessoa e a tertúlia do Café Montanha. Diálogo com Pedro Teixeira da Mota. No 138º aniversário do nascimento do poeta e esoterista.

Neste dia do 138º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa transcrevo o registo de um diálogo com o eng. agrónomo Francisco Peixoto Bourbon, que conviveu com Fernando Pessoa entre 1927 e 1935, na tertúlia do Café Montanha e que a partir da década de setenta, começou a partilhar memórias escrevendo artigos para  jornais de província, os do Eco de Estremoz tendo sido já compilados e apresentados pelo José Barreto e a Câmara Municipal de Estremoz, no livro Evocando Pessoa, dado à luz pela Colibri e do qual recebi um exemplar, oferecido pela sua filha Mafalda.
                                       

Francisco Peixoto Bourbon, natural de Celorico de Basto, engenheiro agrónomo, activo em alguns organismos oficiais e professor, muito culto e com boa biblioteca que já lhe vinha de família, era amigo, conterrâneo e ainda parente do meu pai, vivendo com a mulher e a filha Mafalda no seu belíssimo (como se vê na fotografia), solar ou Casa do Melhorado, junto a Fermil, e onde me acolheu nos anos 80/90 para animados diálogos, sobre os quais escrevi alguns registos nos meus diários, além de ter conservado cartas (50), fotocópias de artigos de jornais (acima de 40) e três folhas dactilografadas e corrigidas a tinta, enviando-lhe eu algumas fotocópias de documentos do espólio pessoano inéditos que lhe interessavam, já que na época trabalhava os manuscritos na Biblioteca Nacional, a partir dos quais editaria quatro livros.

Embora tenha comigo as cartas, frequentemente com letra de difícil decifração, bem como fotocopias de artigos nos jornais, por vezes emendados a tinta, e que são documentos objectivos ou fidedignos das memórias de Peixoto Bourbon, o que partilho é um registo de duas páginas, redigido em Agosto de 1990 ou 1991, quando estive instalado na casa do Outeiro dos primos Teixeira Coelho em Fermil, de Basto, muito próximo da Casa do Melhorado onde vivia e dialogámos:
«Regresso à casa do Outeiro, em Fermil. Dou graças a Deus. Tentar escrever alguns dos tópicos das conversas com o estimado Francisco Peixoto Bourbon será o tema destas páginas:
Fez revelações por vezes inéditas de acontecimentos da vida de Fernando Pessoa e por vezes a associação de ideias suscitada pelas perguntas revelou-lhe novos panoramas, tal como ele dizia entusiasmado
Pergunto-lhe a certa altura o que sentia quando estava com o Fernando Pessoa. - "Bem", dirá. "Muito bem educado e delicado", embora mais tarde falasse de traços diversos que a convivência com Pessoa lhe revelara, tal a malícia com que comentava certos aspectos de vida políticos. Por exemplo, sobre o Pedro Teotónio Pereira: "o que acho mais interessante nele é que tem uns pés muito grandes. Por isso vai longe, irá longe". Mas sobre a Igreja Católica ele também fazia críticas, pergunto-lhe.
- Ele evitava responder de forma a ferir as pessoas que sabia serem católicos praticantes. Criticaria pessoas do clero que o merecessem, mas não fazia ataques muito directos. Até defendeu [uma vez] a Ordem Dominicana dos excessos da Inquisição [que cometeu], afirmando estimar muito a figura de S. Domingos que vendera os seus livros para ajudar os necessitados.

Sobre os livros, diz-me que ele gostava muito de ler, tratando-os com muito cuidado, encadernava-os por vezes, não sublinhando se lhe eram emprestados, e que costumava levar jornais ou às vezes livros para os cafés e perguntava o que os outros levavam e tecia as suas apreciações. Admirava bastante George Sorel, gostava de Malheiro Dias, nomeadamente a sua História da Colonização do Brasil e após grande defesa de Alexandre Herculano feita uma vez pelo Gualdino Gomes na tertúlia, afirmou ser o P. António Vieira o nosso maior historiador, porque previa até o futuro.

Acerca dos livros, via sempre se faltavam folhas quando os comprava nos alfarrabistas que visitava amiúde. Foram também até à Feira da Ladra e uma vez  Fernando Pessoa achou muito barato, dizendo que não sabiam o que valem, uns aventais maçónicos. Mas dizia que não pertencia à maçonaria, antes afirmava ser um rosacruz, e também um gnóstico. Não usava porém o termo gnóstico cristão. [Provavelmente li-lhe a declaração de Março de 1935: «Cristão gnóstico e, portanto, inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas». E dos rosacruzes dava a entender que tinha um contacto qualquer que era com níveis superiores ou subtis. Falava mais destas coisas quando eram dois ou três, porque na Tertúlia  eram doze os que se e reuniam às quinta-feiras, a partir das 17.00, se bem que Bourbon e os outros o procurassem noutros cafés onde não houvesse música, pois Fernando Pessoa não apreciava muito, tal como também não trauteava qualquer música.

Gostava também, quando cortava o cabelo, de ir com a sua maleta até ao (ou a um) café e dizer para esperarem, enquanto ele tomava o seu banho nas termas ou banhos públicos [provavelmente os de S. Paulo, ou Alfama], donde vinha visivelmente satisfeito e rejuvenescido, pois não suportava os restos do cabelo no corpo. Era pois de uma limpeza e meticulosidade grande, andando sempre impecavelmente bem vestido, sem nódoas, ainda que em roupas um pouco já coçadas.

Os seus melhores amigos eram o Marquês de Penafiel e Manuel de Menezes e Vasconcelos, se bem que à sua direita ficasse sempre o Mário de Saa e à esquerda o Da Cunha Dias. Na tertúlia, a ala da esquerda era constituída por Alfredo Guizado e os agricultores alentejanos. Falando-se um dia que seria bom terem médicos militares na tertúlia, Fernando Pessoa retorquiu: - Metam-me tudo menos um militar, e sugeriu que se convidassem médicos ou especialistas de assuntos que se debatessem na tertúlia, em geral à volta dum tema, cada um expressando a sua opinião, e Fernando Pessoa sintetizando no fim.

Na página detrás, escrevi, mais á pressa e mais fragmentariamente a parte final dela, certamente pelo adiantado da hora e o esforço de recuperar a memória do diálogo havido horas antes e de qual o registo só dá uma pálida ou esbatida ressurreição:

«Pessoa foi para Bourbon um verdadeiro Mestre estimulando-o a corrigir a letra, a ler certos filósofos, criticando o esbanjamento do tempo em revistas inúteis, louvando atitudes valorosas, como o ele ter deixado de fumar.

Havia assim um certo magistério e Fernando Pessoa tinha a noção que estava a criar uma imagem para o futuro, se bem que pedisse a Deus que lhe desse mais dez anos de vida. A morte inesperada de vulvo [um dos diagnósticos médicos] sem ser por beber vinho [como pensava   Peixoto Bourbon ]  pois julgava não ser de grande relevância tal hábito..

[Dirá ainda, corroborando outros testemunhos relativos às suas crenças religiosas  e receios atmosféricos], que Fernando Pessoa era supersticioso. Um dia resolveram levarem-no à Tapada da Ajuda, para visitar a quinta, após um bom almoço ali perto para compensarem Fernando Pessoa de não o terem avisado a tempo de ir a um concerto dos carrilhões de Mafra. Ora ao aperceberem-se repentinamente duma cobra, Fernando Pessoa considerou ser um pressentimento funesto, algo de negativo, e decidiu terminar logo ali o passeio. Serpente do mal, portanto. Mas já pouco tempo depois ....

[Anotei ainda que] os três defeitos piores que Fernando Pessoa não suportava eram: 1º grosseria  ou má educação e ainda por cima propositadamente. 2º...., 3º falar em vagalhões.
Tinha grande reverência por Eliezer Kamenesky (1888-1957, vegetariano, naturista, pacifista, tendo-lhe prefaciado bem esotericamente o livro de poesia A Alma Errante), vestido de branco, judeu e antiquário, mas explorador nos preços.
Leonardo Coimbra, discursando em Lisboa e Porto [Creio que anotei esta  menção ao flamejante a  Leonardo Coimbra (1883-1936), admirado por Fernando Pessoa no começo da 2ª década, por Peixoto Bourbon tê-lo visto discursar, tal como o meu pai, sentindo a sua forte capacidade entusiasmante e levitante.]      

Eis pois mais alguns dados para a biografia de Fernando de Pessoa e para um melhor conhecimento da sua época e ambiente. Espero ainda vir a transcrever mais textos e cartas, prestando uma homenagem grata às terras de Basto e suas gentes, a Francisco Peixoto Bourbon  e a Fernando Pessoa. Muita Luz e Amor Divinos nos seus espíritos e corpos de luz ou glória.

https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2015/06/fernando-pessoa-e-francisco-peixoto.html    https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/07/evocando-fernando-pessoa-francisco.html  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2025/08/francisco-peixoto-bourbon-como-eu-vi-o.html


sexta-feira, 12 de junho de 2026

12 de Junho, dia Nacional da Rússia. Alexandre Dugin: o embate entre a civilização estado Rússia e o colectivo ocidental decadente.

 Após o Fórum Económico Internacional de Saint-Petersburg de 2026, realizado de 3 a 6 de Junho, no qual tantas grandes almas russas, e estrangeiras da multipolaridade, participaram, unidas no reconhecimento do Estado-Civilização da Rússia, desde há muito teorizado e divulgado por Alexander Dugin e outros intelectuais, e do seu papel ou missão benfazeja no mundo, e sobre o qual Dugin escreveu um bom texto de resumo que já partilhei em inglês (e pode traduzir com o QillBot), face à derrota cada vez mais evidente do colectivo ocidental por detrás da testa de ferro ucraniana, e que já hipocritamente ou não está a começar a finalmente a sair da sua posição belicista e a pedir negociações, com uma súbita deslocação a 12 de Junho de três enviados da França, Alemanha e Reino Unido a Moscovo, aparentemente independentes da orientação extremista da desgraçada direcção da União Europeia, Alexander Dugin resolveu elevar mais uma vez a sua voz prudente e sábia mas firme e exigente, alertando para os perigos que se encontram por detrás de uma aceitação da paz envenenada que pode estar a ser oferecida.

Há uma ou outra posição nele que se podem discutir, decorrentes do seu enraizamento muito forte no Cristianismo Ortodoxo e do conhecimento profundo do marxismo como filosofia, e na história e sociedade russa, e logo criticando os seus defeitos. Certamente que é mais metafisicamente que Alexander Dugin se posiciona, apresentando até as suas referências principais, tais os valiosos representantes da Filosofia Perene no séc. XX René Guénon e Julius Evola, bem críticos tanto do liberalismo consumista ocidental como do comunismo materialista e totalitário.

Cremos que Alexander Dugin, salvo de ter serido assassinado pelo martírio em sua vez da sua angélica filha e grande promessa filosófica Daria Dugina, tem vindo a ganhar um reconhecimento crescente pela sua valiosa visão do que constitui a civilização russa, e contribui significativamente para o tesouro comum das ideias e ideais, princípios e objectivos da civilização russa, interagindo com todas as esferas da sociedade e bastante em sintonia com o Vladimir Putin, embora talvez tenha de reconhecer mais, e seguindo nisso o seu Presidente Putin, a aceitação e valorização da coexistência do paganismo-shamanismo euro-asiático, do Budismo e do Islão, na grande alma russa ortodoxa, ecuménica e multireligiosa.

De qualquer modo um excelente texto, com um discernimento lúcido e corajoso dos aspectos mais negativos e insidiosos do Ocidente neoliberal globalista anti-tradicional, dos perigos que dele resultam, e muito apropriado para ser escrito e divulgado no dia nacional da Rússia. 

                                  

Alexander Dugin condena qualquer compromisso com o Ocidente pós-moderno e insiste que a abordagem civilizacional da Rússia é o único paradigma possível.

«Não estamos simplesmente em guerra com o Ocidente. Estamos em guerra com o Ocidente moderno (e pós-moderno)—com o Ocidente que, desde o século XI, se desviou do nosso caminho cristão comum e tem avançado cada vez mais, esforçando-se para alcançar o fim da noite, cada vez mais fundo no crepúsculo exterior.
As condições metafísicas para uma trégua são as seguintes:
Ou o Ocidente, permanecendo moderno (e pós-moderno)—exatamente como quer ser e como actualmente é—nos deixa em paz (mas isso é descartado, impossível, e não é seriamente considerado por ninguém lá—Satanás não para);
Ou o Ocidente muda drasticamente a direção de seu movimento e, seguindo o caminho do Retorno Eterno, volta decisivamente para suas próprias raízes (cristãs, greco-romanas). Essas raízes são comuns a nós dois (acontece apenas que o Ocidente se afastou muito, muito delas, enquanto nós não). Isso é altamente improvável, mas não teoricamente impossível (afinal, Nietzsche, Husserl, Spengler, Heidegger, René Guénon e Julius Evola também representam o Ocidente—apenas o Ocidente certo e são, não possuído pelo progresso, liberalismo e perversões).
Um ponto importante sobre a abordagem civilizacional. Agora rompemos a barreira: a abordagem civilizacional está finalmente sendo levada a sério e sem os anteriores escárnios e troças. Mas há uma nuance subtil aqui. Todos foram pressionados a aceitá-lo—mas apenas como uma abordagem. Ou seja, agora é permitido dizer que as civilizações existem no plural, que são diferentes, únicas, e que cada uma faz o que quiser no curso de sua própria produção (tanto de coisas quanto de significados). Agora é uma abordagem oficialmente permitida.
Mas vamos pensar sobre isso: como seria qualquer outra abordagem?
E aqui descobrimos o aspecto mais interessante: uma abordagem não civilizacional é a crença na universalidade e na natureza obrigatória do caminho de desenvolvimento ocidental—em outras palavras, um juramento de lealdade a uma visão de mundo centrada no Ocidente. No Ocidente de hoje, o liberalismo (capitalismo burguês em sua forma pós-moderna—daí a ideologia LGBT, a imigração em massa, e assim por diante, todas banidas na Rússia) reina supremo, com uma dominância confiante, até mesmo totalitária. Portanto, uma abordagem não civilizacional hoje significa concordância com a hegemonia ocidental e, nas condições actuais, com o liberalismo. Uma vez que estamos em guerra com o Ocidente na Operação Militar Especial, uma abordagem não civilizacional é simplesmente uma quinta coluna do inimigo na guerra cognitiva pela consciência pública dos russos.
Claro, o marxismo clássico permanece como outra opção não civilizacional (a sua teoria da sucessão universal de formações socioeconômicas—exatamente como no Ocidente). Mas, na verdade, só atrapalha e joga nas mãos dos liberais. O próprio Marx estava, afinal, alinhado com a burguesia nas etapas em que ela estava derrubando o cristianismo, os feudos e os valores tradicionais. Ele acreditava que, depois, o proletariado (“nós”) derrubaria a burguesia (“eles”). Sabemos como isso terminou. Por um tempo, até parecia estar funcionando (graças à grandeza do povo russo e ao poder essencialmente imperial e centralizado de Stalin). Mas então veio de novo a acumulação primitiva de capital—os anos 1990, o capitalismo selvagem, jaquetas de framboesa, ladrões, assassinos contratados e agentes da CIA no governo russo.
Assim, a relativização da abordagem civilizacional é:
Ou uma tentativa de justificar o liberalismo globalista totalitário (este é o caso mais comum)—em outras palavras, uma operação em grande escala dos serviços de inteligência ocidentais na guerra cognitiva. Nos últimos 30 anos, os nossos estudantes de humanidades passaram por todas as etapas de recrutamento sistemático: bolsas, conferências, ofertas que não podiam recusar, publicação em índices de citação ocidentais, reformas educacionais, e assim por diante;
Ou o marxismo inercial—a dor fantasma de uma ideologia quimérica meio apagada.
No primeiro caso, isso abeira a espionagem descarada. Vemos tal nos casos de agentes estrangeiros como Sineokaya e Shulman (2).  Está tudo claro aqui. Um liberal é um inimigo do povo, praticamente um terrorista feito ou pronto.
No segundo caso, são as alucinações da geração mais velha, das quais devemos ser tolerantes, mas que não devem ser levadas a sério. E se forem novos marxistas, então é mais provável que seja espionagem novamente—significando que se deve procurar um manipulador estrangeiro (masculino ou feminino).
Portanto, a abordagem civilizacional não é apenas uma abordagem. É o único paradigma possível se a Rússia é uma civilização-estado, e Putin e as autoridades afirmam que é exactamente isso que ela é. Consequentemente, o pluralismo deve ser buscado não fora do paradigma civilizacional, mas dentro dele,   mas apenas se forem direitistas e esquerdistas civilizacionais (russos, euroasiáticos). Na verdade, para todos—mas dentro do paradigma. Fora dele, há  escuridão total. O crepúsculo externo. Não se deve ir lá. O mal espreita lá.

(Traduzido do russo, e do inglês.)

Notas do tradutor, 1: "Jaquetas framboesa" (малиновые пиджаки) é uma referência simbólica aos blazers atractivos e vermelhos brilhantes usados pelos novos-ricos "Novos Russos"—frequentemente criminosos ou empresários sombrios—como um emblema estereotípico da vulgaridade e do capitalismo criminoso selvagem dos anos 1990.
2: Yulia Sineokaya e Ekaterina Shulman são intelectuais liberais russas bem conhecidas e que o estado Russo designou como agentes estrangeiros. Elas exemplificam a "quinta coluna": liberais que foram sistematicamente recrutados pelo Ocidente através de bolsas, conferências e redes acadêmicas, e que trabalham ativamente para minar a soberania civilizacional da Rússia, de dentro. Ambas estão agora no exílio e são considerados em círculos patrióticos como representantes típicos da oposição ideológica pró-Ocidental.


June 12, National Day of Russia. Alexander Dugin on the Russian state civilisation and the post-modern West.

After the Saint Petersburg International Economic Forum, held in 3-6 June 2026, in which so many great Russian and foreigners multipolar souls participated, united in the recognition of the state-civilization of Russia, long theorised and disseminated by Alexander Dugin and other intellectuals, and its benevolent role or mission in the world, and on which he wrote a good summary text that I have already shared, in the face of the increasingly evident defeat of the Western collective behind the Ukrainian puppet and which is now hypocritically or not beginning to finally come out of its bellicose position and ask for negotiations, with a sudden visit on June 11 by three envoys from France, Germany, and the United Kingdom to Moscow, to meet foreign minister Sergei Lavrov (but they were received just by Mikhail Gulazin) apparently independent of the extremist orientation of the unfortunate direction of the European Union, the philospher and geo-estrategist Alexander Dugin, on the National Day of Russia, 12 June, decided to once again raise his prudent and wise voice, warning of the dangers behind an acceptance of the poisoned peace that may be being offered.

There may be one or two positions that can be discussed stemming from his very strong roots in Orthodox Christianity and his deep knowledge of Marxism as a philosophy, and in Russian history and society, and thus criticising its flaws. Certainly, Alexander Dugin positions himself more metaphysically, even presenting his main references, such as René Guénon and Julius Evola, who are quite critical of both Western liberalism and materialist, totalitarian communism.
We believe that Alexander Dugin, having been saved from being assassinated by the martyrdom of his angelic daughter and great philosophical promise Daria Dugina, and so suffering very much from that, endured everything and has been gaining increasing recognition for his valuable vision of what constitutes Russian civilisation, and contributes significantly to the common treasure of ideas and ideals, principles and objectives of Russian civilisation, interacting with all spheres of society and quite in tune with Vladimir Putin, although perhaps he needs to acknowledge more and follow his President Putin in the acceptance and appreciation of the coexistence of Euro-Asian paganism or shamanism, Buddhism, and Islam, within the great Russian Orthodox, ecumenical, and multireligious soul.

                                  
In any case, an excellent text, with a lucid and courageous discernment of the most negative and insidious aspects of the anti-traditional globalist neoliberal West, of the dangers that result from accepting it, as some people more westernizd would wish, and very appropriately written and published, in his Substack, on Russia's national day.

                                                         

"Alexander Dugin condemns any compromise with the postmodern West and insists that Russia’s civilizational approach is the only possible paradigm.

We are not simply at war with the West. We are at war with the modern (and postmodern) West—with the West that as far back as the 11th century diverged from our common Christian path and has been advancing ever further, striving to reach the end of the night, deeper and deeper into the outer twilight.

The metaphysical conditions for a truce are as follows:

  • Either the West, while remaining modern (and postmodern)—exactly as it wants to be and as it currently is—leaves us in peace (but this is ruled out, impossible, and not seriously considered by anyone there—Satan does not stop);

  • Or the West sharply changes the direction of its movement and, following the path of the Eternal Return, decisively turns BACK towards its own (Christian, Greco-Roman) roots. These roots are common to us both (it is only that the West has wandered very, very far from them, while we have not). This is highly improbable, but not theoretically impossible (after all, Nietzsche, Husserl, Spengler, Heidegger, René Guénon, and Julius Evola represent the West as well—only the right, sane West, not possessed by progress, liberalism, and perversions).

An important point about the civilizational approach. We have now broken through the barrier: the civilizational approach is finally being taken seriously and without the previous sneering and mockery. But there is a subtle nuance here. Everyone has been pressured into accepting it—but only as an approach. That is, it is now permissible to say that civilizations exist in the plural, that they are different, unique, and that each does whatever it wants in the course of its own production (of both things and meanings). It is now an officially permitted approach.

But let’s think about this: what would any other approach look like?

And here we discover the most interesting thing: a non-civilizational approach is the belief in the universality and mandatory nature of the Western path of development—in other words, an oath of allegiance to a West-centric view of the world. In the West today, liberalism (bourgeois capitalism in its postmodern form—hence the LGBT ideology, mass immigration, and so on, all banned in Russia) reigns supreme, with confident, even totalitarian dominance. Therefore, a non-civilizational approach today means agreement with Western hegemony and, under current conditions, with liberalism. Since we are at war with the West in the Special Military Operation, a non-civilizational approach is simply a fifth column of the enemy in the cognitive war for the public consciousness of Russians.

Of course, classical Marxism remains as another non-civilizational option (its theory of the universal succession of socio-economic formations—exactly like in the West). But it mostly just gets in the way and plays into the hands of the liberals. Marx himself was, after all, aligned with the bourgeoisie at the stages when it was overthrowing Christianity, estates, and traditional values. He believed that afterward the proletariat (“we”) would overthrow the bourgeoisie (“them”). We know how that turned out. For a while it even seemed to be working (thanks to the greatness of the Russian people and Stalin’s essentially imperial, centralized power). But then came primitive capital accumulation again—the 1990s, wild capitalism, raspberry jackets,1 thieves, contract killers, and CIA agents in the Russian government.

Thus, the relativization of the civilizational approach is:

  • Either an attempt to justify totalitarian globalist liberalism (this is the most common case)—in other words, a large-scale operation by Western intelligence services in the cognitive war. Over the past 30 years, our humanities scholars have gone through every stage of systematic recruitment: grants, conferences, offers they couldn’t refuse, publication in Western citation indexes, education reforms, and so on;

  • Or inertial Marxism—the phantom pain of a half-erased, chimeric ideology.

In the first case, this borders on outright espionage. We see this in the cases of foreign agents like Sineokaya and Shulman.2 Everything is clear here. A liberal is an enemy of the people, practically a ready-made terrorist.

In the second case, these are the hallucinations of the older generation, of which we should be tolerant, but which should not be taken seriously. And if they are new Marxists, then it is most likely espionage again—meaning one should look for a foreign handler (male or female).

Therefore, the civilizational approach is not just an approach. It is the only possible paradigm if Russia is a state-civilization, and Putin and the authorities affirm that this is exactly what it is. Consequently, pluralism should be sought not outside the civilizational paradigm, but within it. There is plenty of room for both the right and the left, but only if they are civilizational (Russian, Eurasian) right-wingers and civilizational (Russian, Eurasian) left-wingers. In fact, for everyone—but inside the paradigm. Outside it lies utter darkness. The external twilight. One should not go there. Evil lurks there.

(Translated from the Russian)

1

Translator’s note (TN): “Raspberry jackets” (малиновые пиджаки) is a symbolic reference to the flashy, bright-red blazers worn by the nouveau-riche “New Russians”—often criminals or shady businessmen—as a stereotypical emblem of the vulgarity and wild criminal capitalism of the 1990s.

2

TN: Yulia Sineokaya and Ekaterina Shulman are well-known Russian liberal intellectuals whom the Russian state has designated as foreign agents. They exemplify the “fifth column”: liberals who have been systematically recruited by the West through grants, conferences, and academic networks, and who actively work to undermine Russia’s civilizational sovereignty from within. Both are now in exile and are regarded in patriotic circles as typical representatives of the pro-Western ideological opposition.