O interesse destes temas bem valiosos atraia então a inteligentsia europeia e entre nós nessa mesma época Fernando Pessoa (1888-1935) estudara, praticara ou pronunciara-se bastante sobre todas elas, como demonstrei em alguns livros, e por mais alguns temas, tal a alquimia, astrologia, rosicrucianismo, maçonaria, hermetismo e yoga que Evola não aborda neste livro por não as considerar máscaras mas sim vias tradicionais, embora nomeie alguns lateralmente como estando também sofrendo superficializações e degradações.
No cap. VI aborda um desses casos de Messias, o de Krishnamurti, logo após as críticas às formas modernas de misticismo, e como já há uns anos gravei a tradução desse capítulo, em duas partes , partilho o acesso a elas no Youtube, e farei agora um breve resumo comentado do conteúdo inicial: o misticismo e neo-misticismo e as suas limitações subjectivas, contrapondo-o à claridade da intelectiva metafísica.
Começando por caracterizar "as duas atitudes em face do espiritual e das duas modalidades de experiência", certamente com alguma margem de erros já que frequentemente elas não tão facilmente se deixam delimitar e definir, e complexamente se interrelacionam, e porque tanto Evola como Guénon são algo anti-místicos, diz-nos: «Pode-se dizer que o misticismo é caracterizado pelo seu elemento acentuado, subjectivo, irracional e extático. A experiência vale essencialmente pelo seu conteúdo de sensações e pelo rapto ou êxtase que aí se une».
Esta definição é algo forçada pois nem todo nem sequer muito do misticismo é caracterizado tal predomínio de sensações, de irracionalidade, de rapto ou arrebatamento dos sentidos. Afirmar tal é desconhecer a história da mística em especial cristã mas não só, onde tantos místicos mantiveram a sua racionalidade sempre activa, e não tinham de entrar em êxtase, nem se tratava necessariamente só de sensações, estas sendo aceites ou não decorrendo das compreensões, devoções ou mesmo visões obtidas.
Afirmar tal, como fazem Evola e Guénon, é desconhecer ou ignorar tantos tratados de mística dos séculos XVI, XVII e XVIII que procuraram clarificar as linhas da oração menta, meditação, contemplação, dentro até de ordens como as franciscanas, agustinas e outras, pondo em causa, criticando ou mesmo interditando, enquanto mestres de almas das suas monjas ou paroquianas, exactamente as sensações, consolações e êxtases. Certamente, Evola, escreve " em geral", salvaguardando-se de ser considerado algo dogmático ou absolutista nas suas críticas, como alguns sentiram em René Guénon.
Diz em seguida que «o princípio em acção é mais a alma que o espírito», algo em parte bem certo, distinguindo-a nesse sentido do caminho metafisico, pois a via mística estaria nos «antípodas da "intuição intelectual" a qual é parecida a um fogo que consome precisamente a forma mística duma experiência, para colher objectivamente o conteúdo segundo a claridade e não enquanto revelação, inefável transcendência e absorção (engloutissement)»
Encontramos, creio, tal como em René Guénon, uma exagerada diferenciação entre a via ou metodologia do amor devocional e a via intelectual na prática ou uso da concentração, desaguando esta numa experiência condenável no místico por ser subjectiva e sem controle, enquanto que o metafísico teria uma capacidade miraculosa de pela sua intuição intelectual conseguir extrair uma claridade e não uma "revelação aborvente mística".
Parece evidente que em ambos os casos o principal é a experiência alcançada pelo místico e o metafisico, um pela devoção, o sentimento, o amor, a aspiração, o outro pelo rigor mental e o contemplar ou intuir os princípios ou verdades dessa experiência do mundo supremo, sem emoção.
Evola contudo partilha o princípio delas, em parte derivado dos ensinamentos acerca do samadhi nos Yoga sutras e no Yoga Vedanta, e numa linguagem menos taxativa que Guénon e mesmo do original, que não refere:« Um dos princípios da sabedoria tradicional é que em geral para conhecer a essência duma coisa, convém tornar-se essa coisa.» E continua «Não se conhece senão aquilo com que nos identificamos», ultrapassando a lei da dualidade, que governa a experiência comum»
Ora sabemos como tal é muito difícil, que tal unificação exige grande capacidade de concentração e, ou de, amor, ou de abertura sensível e desegotizante, da parte sobretudo de quem contempla, pensa, ouve ou ama, mesmo com o tal intelecto activo superior que Guénon e Evola parecem accionar tão facilmente e distinto da racionalidade da pessoa comum, algo exageradamente.
As milhares de páginas de René Guénon não são uma admirável construção racional, com tantas comparações, causalidades e raciocínios valiosos, ainda que possam ter sido fecundados ou impulsionados por alguma intuição intelectual, sobrenatural, acima da natureza sensível, vinda de uma plano superior, como ele afirma ser a origem delas?
Continuando a abordar criticamente a mística, ou melhor a neo- mística, pois de início Julius Evola ressalvou que se a palavra mística viera dos Mistérios antigos, afirma que ela foi depois empregada para designar «uma orientação do homem religioso que procura viver uma experiência interior do objecto da sua fé, experiência da qual o limite foi constituído pelo que foi denominado "êxtase"»
Se é bem valioso este discernimento por Evola de que a pessoa mística deseja ou quer ter, ou diremos, até mais, receber - seja de Deus, da providência da unidade cósmica ou como se diz hoje Campo Unitário de energia consciência informação, ou ainda do corpo místico da Igreja, do Espírito Santo ou do seu espírito - uma experiência interior daquilo que acredita, tem fé, reverencia ou adora, já Evola parece exagerar ao considerar que o seu limite é forçosamente o êxtase, pois no fundo está a externalizar, exotericizar, sensualizar, um objectivo último que pode ser igualmente a tal claridade de conhecimento que ele contrapôs como sendo exclusiva do metafísico.
Acertadamente, e o que diria hoje com tanta manipulação e alienação patente nos cultos modernos das Igrejas do Reino de Deus ou sobretudo das seitas protestantes, zio-evangelistas e dispensacionalistas fervilhantes nos EUA, bem exemplificados por Paula White, a sacerdotisa do presidente do actual regime norte-americano epsteiniano e satânico Donald Trump, Julius Evola vê o último estágio da decadência da palavra mística, na generalização que se criou baseada na ideia que a mística é sinónimo duma identificação entusiasta, sem a restringir ao domínio religioso, no sentido próprio e positivo», o que se observa, por exemplo, no mundo dos aficionados dos clubes de futebol seja mais aguerridos seja mais fanáticos.
Evola concluirá o seu pensamento contrapondo de novo a distinção entre a mestria ou controle lúcido da experiência em que se chega a uma percepção clara supra-racional, e a da identificação mística que faz a consciência ou a personalidade perder-se nela, retirando-lhe por isso um carácter noético ou gnóstico.
Nas páginas seguintes do VI capítulo Evola aborda ainda o fenómeno conhecido da praxis psicanalítica como transfert para o domínio do misticismo, com o messianismo, e exemplifica-o com o caso de de Joe Krishnamurti (1895-1986), o Messias da Sociedade Teosófica nas primeiras décadas do século XX mas, que contrariando as expectativas dos seus descobridores e mentores Annie Besant e Charles Leadbeater, e de milhares de seguidores, renunciou à mistificação, preferindo tornar-se num psicólogo do descondicionamento.
É natural que escrevamos um artigo que aborde a segunda parte do capítulo, complementando assim o segundo vídeo da tradução do capítulo, que pode ouvir no meu canal no Youtube em: https://youtu.be/ZX5QzxP1vqg