quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Poesia pitagórica e rosacruciana de Raul Traveira, figueirense, major do exército e pioneiro dos kayak da Goltziana.

Raul Traveira (n. 1924), natural da Figueira da Foz, major do exército, amante e pioneiro da navegação em barcos pequenos, kayaks, a remo,  notável pitagórico e rosacruciano,  poeta matemático, e ainda amigo convivente de Joaquim Montezuma Carvalho e de Agostinho da Silva, é um notável português que conheci através de Agostinho da Silva nos anos finais da década de 80, nuns encontros informais que se realizavam junto à Torre de Belém, aos fins de semana.

Era então uma pessoa de coração, muito bondosa, um ser puro, tal como a sua mulher. Estive com eles também dialogando em Coimbra, na casa onde moravam,  lembrando-se o seu filho Eduardo de eu ter trazido o meu tacho de inox e o arroz integral. 

Com efeito este seu filho, Eduardo, dirige hoje a Goltziana, uma empresa e marca de renome nos kayak de mar, por eles fundada, no final da década de 70, bem sinalizada na internet e que depois de ter falado comigo me proporcionou hoje receber um telefonema dos pais, com mais de 90 anos e pujantes de alma, sabedoria e amor.

Não está suficiente "imortalizado" na grande biblioteca digital mundial, umas pequenas referências enquanto dinamizador do Associação Naval da Figueira da Foz, pioneiro dos kayak, e amante da história antiga da Figueira, mais alguns poemas, mas disse-me ao telefone que pensa editar em breve algumas da sua criatividade.

Embora possa ter outros documentos ou apontamentos dos nossos encontros, o facto de ter encontrado este pequeno impresso e manuscrito leva-me a partilhá-lo, pois o conteúdo desta pequena pagela poético-pitagórica e aritmológica é por si só suficiente para merecer divulgação.



Vejamo-la:                     

  «Raul Traveira

POEMAS

Tese (Primeira)

Poeticamente

Falando,

É; matemática

E geometricamente

Falando,

Musicalmente

Falando,

Verdadeiramente

Falando,

Porque falando

Poeticamente

Não se mente

Falando.


******

Sei um triângulo!

Juro,

Raro,

Tão puro

Mas mais seguro

Que a neve do Kilimanjaro!

******

Graças te dou

Sol-Amigo

Cristo Rei,

Porque sou

Sempre serei

Garimpeiro de pepitas

As palavras infinitas.

******

                                                                  *******

 «O Teorema de Pitágoras fascinou as antigas civilizações. Acontece que não há triângulo rectângulo sem ângulo recto.

Ora, foi por fascinante pressentimento que meu neto João me sugeriu que calculasse a gematria do apelido Traveira da nossa família, o qual como se vê coincide rigorosamente com a medida, em graus, do referido triângulo:

T R A V E I R A

19 17 1 21 5 4 17 1=90

Com os votos mais sinceros de que o ESPÍRITO DAS FASCINANTE E SANTA PÁSCOA sempre o acompanhem.,

do muito grato amigo,

Raul Esteves Traveira.»

                                            *****************

Comentários meus:

Ser que ama a palavra profundamente e a pesquisa e trabalha, Raul Traveira lembra-nos no 1º poema que a devemos proferir poética, matemática, geométrica, musical e verdadeiramente. Bem simples, mas inegavelmente uma grande arte que exige uma auto-consciência grande e perseverança na sua auscultação e emissão...

No segundo poema, quase mantra ou sutra, e com a sua a pertença à tradição pitagórica pois, tal como eles, jura pelo triângulo, Raul Traveira muito provavelmente partilha uma intuição e visão que tera recebido na meditação: a contemplação do triângulo, branco, puro, qual a neve da alta montanha africana do Kilimanjaro. Talvez uma visão no plano espiritual das formas arquétipas ou primordiais, e que lhe deu uma certeza pessoal de algo, que só ele saberá indubitavelmente, mas que ao ser partilhada, nos poderá estimular a estarmos mais abertos à visão espiritual das formas geométricas fundacionais do cosmos.

Talvez até pudesse dizer no 1º verso: "Sou um triângulo", pois com sua mulher construiu-o, tendo no vértice, e assim dinamizando a circulação da três Graças, seja a Divindade seja cada filho que gerou.

O 3º poema é quase uma auto-biografia concentrada de si próprio: Adorador do Sol, do Logos Solar, de que o Cristo Rei será uma expressão humana. E ser consciente da sua imortalidade de amante da Palavra, do Sermo, Verbo ou vibração do som Amen ou Aum ou Iao, que depois se infinitiza nas pepitas das palavras com as quais podemos comunicar, aprender e comungar e muitas ressonâncias encontrar e admirar.

Como nós fazemos  neste momento, graças a ele, e logo dando graças, sentindo gratidão por esta comunhão com a Palavra,  o Som e a Divindade que as emana musicalmente, geometricamente, poeticamente, verdadeiramente.

Que tal arte, sensibilidade, capacidade e aspiração se torne mais viva em nós.

O texto manuscrito que me dedicou nessa "fascinante e santa Páscoa de 1988", assinala bem a sua pertença à tradição iniciática pitagórica, ainda que apenas falando do interesse das várias civilizações por tal descoberta geométrica de Pitágoras. E marca a importância do ângulo recto, de sermos rectos, de conseguirmos ligar a terra e o céu direitamente, confirmando aritmologicamente e pela gematria da correspondência das letras e números,  ser um ângulo recto.

A final dedicatória mostra-o de novo um cristão gnóstico rosacruz, e assinalando como a passagem da morte para a vida, da mortalidade corporal para a imortalidade anímico-espiritual, será sempre algo fascinante, pelo seu mistério, dificuldade, santidade e beleza.

Poderíamos aqui mesmo aduzir o dito grego, desenvolvido por Antero de Quental, Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa, "Morrer é ser iniciado", pois embora Jesus já fosse iniciado, certamente que a sua morte foi uma outra iniciação e sobretudo para os que o amam, o seguem ou nele se inspiram, um modelo e imagem de iniciação foi dada: ressuscitar logo, ou em poucos dias, para a vivência consciente no mundo espiritual. 

Espero visitar Raul Traveira e a família na Figueira da Foz e dialogar sobre as nossas caminhadas e realizações nestes já trinta anos sem nos vermos e desde já o saudamos de coração e com muito amor e votos de saúde e inspirações.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Na túmulo de Christian Rosenkreutz, de Fernando Pessoa. Breve comentário de Pedro Teixeira da Mota. 21-11-2020..

Leitura comentada deste importante poema rosicruciano pessoano, na manhã de 21-11-2020, dia em que às 19:00 participarei online na apresentação e diálogo acerca do recente livro de Rui Lomelino de Freitas, Os Manifestos Rosacruzes, editado pela Alma dos Livros.

O poema embora tivesse sido enviado para publicação na revista Sudoeste, de Almada Negreiros, em 1935, acabou por ser dado à luz só em 1940, portanto ao contrário de ter sido em vida, como digo no vídeo. Transcrevi-o na Rosea Cruz, em 1989. Eis o poema que, contendo algumas variantes, foi transcrito agora neste artigo de modo diferente em relação ao que foi lido no vídeo, talvez ficando mais correctamente nas palavras e ensinamento:

I
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Esse mal, essa queda, esta descida
Até à noite que nos a Alma obstruiu,

Saberemos enfim essa escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
De aquém o Mundo que criou Lha implora...

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sofre a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo,

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas quando enfim a porta aberta?
.......................................

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala»

******** 

Tentarei brevemente acrescentar por escrito ainda alguns comentários ou textos elucidativos de Fernando Pessoa, no qual manifesta a sua incapacidade de em vida alcançar mais que sombras e sonhos, crendo contudo que quando liberto do corpo e do Deus limitador deste mundo (Jehova) e na fé e ligação a Jesus Cristo conseguirá buscar o Bem profundo e o segredo da realização de mestre.

Primeira quadra: 1º sabermos ou conseguirmos despertar, em ou como alma consciente de si mesma, ser imortal. 2º Intuir, vencendo as trevas ou escuridão interior, e ver espiritualmente o mundo divino donde saímos. 

Segunda quadra: A Verdade, e que é apenas o que da Realidade concebemos, escapa-nos sempre na sua totalidade, embora Deus a conceba ou contenha em si, pelo menos virtualmente, enquanto Eu do Absoluto.

1º e 2º terceto: Visão gnóstica dualista pessoana: Deus é apenas uma criação do Além Deus, logo limitado, em queda na manifestação; é o demiurgo preso ao seu mundo, que lhe implora o bem, a verdade ou a libertação, mas que ele não tem nem pode dar pois o Espírito Absoluto lha nega ou lhe veda.

No II soneto, a 1ª e a 2ª quadra, mostram-no numa muito elevada especulação, Fernando Pessoa propor que o Verbo e Infinita Luz ao ser levantado ou manifestado do Caos se tornou sombra e ausência no mundo, mas que a alma sofrendo tal, pode ao contemplar o Verbo humanado em Jesus Cristo, que é então a Rosa perfeita crucificada no Deus ou demiurgo deste mundo, ter percepção de tal Luz.

Nos dois tercetos seguintes, dá-se então um despertar nosso e uma elevação ao Mestre e ao Bem, que estão para além de Deus, ao comungarmos da alma e sangue do Cristo. Fernando Pessoa confessa-se um gnóstico cristão, crente na intermediarização divina de Cristo, ou Verbo, e talvez mesmo de Jesus, sua dimensão humana. De qualquer forma fala ainda de se poder buscar e não garantidamente realizar.

III e último soneto. 1ª quadra, Fernando Pessoa, descendod e novo ao mundo físico, reafirma um dos seus mantras mais repetidos: "neste mundo tudo é sonho e sombra", e se nos sonhos algo da verdade possamos captar, tal é ainda ilusório, e de facto serão quanto muito vislumbres de planos psíquicos, astrais. Na 2ª quadra repete outro dos seus lemas ou constatações ocultas, que só viu e tocou sombras, pelo que não sabe se tais entidades existem. É de facto o perigo da magia e das suas ilusões, passadas nos planos astrais, quando a visão a aspirar-se é a espiritual e a divina.

No penúltimo terceto, Fernando Pessoa retoma outra das suas linhas de forças, a de que ouve algo, presente mas não vê, e assim como sair da prisão e labirinto?

No terceto conclusivo do poema, Fernando Pessoa vai lançar-se na fé e esperança cristã normal da vida num Paraíso? Vai afirmar que é aqui e agora que devemos realizar o Mestre e o Bem? 

Não, regressa à aristocracia silenciosa rosacruz, por ele tão louvada em contraposição à vulgarização das doutrinas por certos movimentos, e talvez sugerindo-nos: - «cala, entra dentro do teu peito e tenta entrar nele, ler nele, ver nele, ser a rosa desabrochada».

Seguem-se os 23 minutos, com leitura comentada ainda de parte de um outro poema bem valioso e confessional, os "Superiores Incógnitos", de 5-9-1934.

                      

sábado, 21 de novembro de 2020

Os Manifestos Rosacruzes: a "Fama" e a "Confessio", por Pedro Teixeira da Mota.

Tendo sido agora dados à luz  Os  Manifestos Rosacruzes numa edição original portuguesa, por Rui Lomelino de Freitas, na editora Alma dos Livros, que me enviou um exemplar e me convidou a participar, com outros investigadores, estudiosos e rosacrucianos num evento online entre 21 e 27, cabendo-me a mim intervir no dia 23, resolvi reler os Manifestos, o que não fazia já desde 1989, quando publiquei uma recolha extensa das referências à Rosa Cruz e ao rosicrucianismo encontradas no espólio de Fernando Pessoa, sob o título Fernando Pessoa, Rosea Cruz. Textos estabelecidos e comentados por Pedro T. Mota.

Dessa leitura resultou uma breve destilação espontânea, no dia 20 à noite, quando terminei a leitura da Confessio. Fiz poucas referências a Fernando Pessoa, o que ficará para o dia 23, exprimindo antes o que senti em relação a esses dois textos publicados pelo editor Wessen, em 1614 e 1615 em Cassel, na Alemanha, mas que circulavam já antes em manuscritos pois foram escritos entre 1608-1609, e que deram tanto brado e tantos frutos, criando em muita gente a crença numa Fraternidade Rosa Cruz e numa eminente reforma do Mundo, tanto mais que na primeira edição de 1614 a Fama estava antecedida por um texto intitulado a Reforma genérica e geral de todo o vasto Mundo, em grande parte baseado na obra de Traiano Boccalini, Ragguagli di Parnasso, dado à luz em Veneza, em 1612, pelo editor Pietro Farri, e de uma entusiástica carta de Adam Haselmayer que, conhecendo já por manuscritos as mensagens da Fraternidade Rosa Cruz, apela a eles e profetiza a iminente queda do Papado e dos Jesuítas e o começo do Império do Espírito Santo.

Sabemos hoje que os textos foram redigidos dentro de um grupo de humanistas ou letrados alemães, da cidade de Tübingen, destacando-se entre eles o jovem Valentim Andrea, o qual, anos mais tarde, por mais de uma vez, confessará que foi tudo um jogo, um "ludíbrio", não deixando contudo de crer no amor ou caridade cristã e nos seus frutos, enquanto pedagogo e pastor protestante que foi.

Aliás o tom protestante e fortemente anti-católico, contra o Papa, chamado mesmo de Anti-Cristo e de víbora, está bem presente, e a filiação ao protestantismo, ao Imperador e autoridades temporais é afirmada, tal como a valorização da Bíblia e dos desígnios de Jehova, o qual estaria a suscitar para breve grandes mudanças, se não mesmo o fim dos tempos.

A mistificação é grande na maioria das afirmações e promessas dos dois manifestos, que só numa grande ingenuidade se podem aceitar, contudo algumas frases mantras e a história romanceada da vida do fundador Christian ou Cristão Rosacruz e que com alguns irmãos ele chamou a si,  se teriam tornado a Fraternidade Rosa Cruz, tocaram as pessoas, suscitaram grandes reacções e panfletos, embora nunca ninguém os conhecesse ou visse (como entre nós Fernando Pessoa escreverá). 

Já nos finais do séc. XIX e começos do XX alguns clarividentes (ou imaginativos clarividentes), dirigentes de grupos ocultistas, afirmaram sem dúvidas que Christian Rosenkreutz existira e era um iniciado com uma longa história na Humanidade, assinalando-lhe sucessivas reincarnações algo mistificadoras...

Ora logo no séc. XVII vários pensadores, filósofos, ocultistas e cientistas, entusiasmados com a ideia da ideia da Fraternidade e da sua reforma do  mundo e pessoal, e acrescentaram tanto valiosos ensinamentos como muitos pontos ao conto, que se foi tornando assim uma concreção heterogénea de escritos  que manifestavam os conhecimentos e aspirações de gnose, de esoterismo, de alquimia, de kabala, de simbologia, de aritmologia, de astrologia, de profecias e de utopias na época, e particularmente da Europa. ainda que na descrição da viagem ao Oriente de Rosencreutz, onde ele estivera a aprender alguns anos e donde trouxera livros e ensinamentos eram países árabes. Quais os ensinamentos ou axiomata recebidos não são especificados, para além de nomes gerais como melhorias ou reformas da Filosofia, Física, Magia, Medicina, ou a ideia do ser humano como microcosmos em unidade com o Divino, ou ainda quatro ou cinco aforismos, mais ligados até com a tradição cristã.

Todavia nos manifestos, há críticas lançadas contra o Papa e Maomé, estas num certo contra-senso talvez explicável pelas limitações dos conhecimentos da época, pois tal referência a Maome seria provavelmente derivada da ameaça otomana. Investigando, deparei-me com o nome do sultão Mehemed III, que reinou até 1603. Poder-se-ia admitir que a referência seria a ele, como que chefe dos islâmicos que ameaçavam a Europa, que portanto a feitura manuscrita original dos manifestos seria até antes da data de 1604, 1605. Uma hipótese...

Eram muito vastos os conhecimentos gerais e espirituais  conhecidos e trabalhados pelo círculo de Tubingem, que contava com estudiosos de valor como Tobias Hess (seguidor de Paracelso e de Simon Studion, o autor da Naometria, obra que de modos numéricos e proféticos influenciou os Manifestos e as Núpcias), Johann Arndt, Christophe Besolt, Tobias Adami e Wilhelm Wense (dois discípulos de Campanella), os quais representavam ainda o culminar de uma livre investigação nos campos diversos do saber, nomeadamente da Religião. da espiritualidade, do hermetismo e da incipiente Ciência, a qual linha evolutiva tinha por detrás seres como Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Erasmo, Reuchlin, Paracelso e Campanela, para não falar dos místicos da Theologia Germanica ou mesmo do reformador, cheio de fé e independência mas ainda  pouco aberto ao espiritual, Lutero.

A isto devemos acrescentar a profusão de grupos, associações e movimentos que proliferavam na Europa e na Alemanha na época e dos quais certamente a invenção ou impulso da Fraternidade Rosa Cruz ora hauriu ora deu algumas forças e inspirações, tais como a Militia Crucifera Evangelica, fundada ou reorganizada em 1586, em Luneberg, por Simon Studium, a Fruchtbringende Gesellschaft, a Sociedade Frutuosa, e a Orden der Unzertrennlichen, a Ordem dos Inseparáveis, ambas
fundadas em 1617, tendo Valentim Andrea  pertencido à primeira.

As Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz, publicadas em Estrasburgo posteriormente à Fama e à Confessio, em 1616 pelo editor Zetzner, mas escrita antes segundo Valentim Andrea, é já uma obra diferente e bastante mais genial, claramente um romance que se poderá denominar iniciático, carregado de ensinamentos, simbolismo e alquimia, e herdeiro de outras obras, renascentistas de grande imaginação e misteriosas, capazes de serem interpretadas em multidimensionalidades bem luminosas, tal como o Sonho de Polifilo, um dos mais belos livros de sempre...

Esperamos escrever ou gravar mais alguns aspectos da saga rosacruz, ou rosicruciana, nomeadamente quanto aos contributos de Fernando Pessoa, ainda hoje tão florescente no mundo...

Segue-se o breve improviso de 15 minutos:

            

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

3:00 de vídeo, de abertura do coração às montanhas sagradas, ao Graal e à zoeira do vento geresiano. XI-2020.

Os montes e montanhas são das mais belas gerações da alma da Terra e quando as subimos, percorremos ou contemplamos com vontade de as conhecermos e de as amarmos podemos receber muitas energias, ensinamentos e inspirações. Seriam precisas infinitas linhas e páginas para descrever as suas riquezas geológicas ou dos seus eco-sistemas e animais, para não falarmos das subtis e espirituais que os peregrinos e peregrinas recebem por vezes maravilhadamente nos seus esforços e meditações.

 

Nestas poucas fotografias partilhamos apenas algumas imagens da serrania do Geres, em zonas perto do Outeiro e de Pitões de Júnias, vistas longínquamente do sul, ainda que não sejam muitos os quilómetros que nos separam delas...
O ponto branco duma capelinha, qual pico do Kilimanjaro ou mais elevadamente ainda dos Himalaias, lembra-nos como devemos focar de quando em quando a nossa alma e coração para tais elevadas e templárias montanhas himalaicas (espiritualmente, Himavat) e delas recebermos as correntes de Amor e de Sabedoria que de lá se derramam sobre todos os que aspiram e se abrem a elas...
O vídeo que se segue, apesar do vento ruidoso e do abanar da mão, é ainda um testemunho de um peregrino invocando tais energias luminosas e aqui as partilhando de coração, sendo invocações e orações simples, sem nada das complicações dos mistificantes ocultismos e kabalas,  canalizações e decretos que abundam tanto hoje e que em geral só exploram as pessoas e as ligam a ideias, energias e entidades irreais, pouco claras e elevadas.... 
Saibamos discernir bem e perseverar nos caminhos que levam à alta montanha da verdadeira realização espiritual e divina, simples, directa, interior....
Que a Luz Divina banhe mais o nosso espírito e alma, e suas profundezas, e que a nossa vivência das montanhas, das realidades espirituais, do santo Graal, do Espírito e da Divindade se vá desenvolvendo com naturalidade...

                

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Crepúsculo sublime nos montes do Gerês, em Novembro de 2020...

Por vezes, quando saímos de uma visita tardia a uma casa de uma senhora amiga, que vive só, com a sua horta e terrenos, as suas devoções religiosas, o cão alegre e as galinhas poedeiras, a cidreira e o poejo, a lareira e a vasta casa, outrora cheia de gente e agora de cortes abandonada, não podemos deixar, vendo o crepúsculo que nos cobre com a sua inexorabilidade diária na natureza e individualmente em nós, esta mais sentida quando o tempo da peregrinação na terra se vai pondo ou apenas nos dias mais difíceis ou cansativos, de sentir respeito, admiração e sacralidade, pelo que tais momentos de transição nos mostram, iniciaticamente até, de morte e  ressurreição, e nos falam ou sopram da fragilidade, da subtileza e do indizível que nos rodeia, cobre e desafia.

A árvore de braços estendidos parece chamar-nos...

                            

        
Subitamente, o que poderia ser apenas o começo da noite longa e fria do Outono, com os carvalhos desaparecendo nas trevas e os morceguinhos vindo ao de cima, reveste-se de colorações e aberturas que nos fazem pressentir momentos de maior comunhão com a sublimidade divina que a Natureza por vezes deixa transparecer e, logo, em nós pode despertar...

Avançando para a vista descoberta, observamos que o altos e não muito distantes montes que nos circundam e fazem planos para o horizonte sem fim são sobrevoados por formas cambiantes e coloridas de nuvens e neblinas, que parecem ondular em planos sucessivos tingidos do Amor Divino que os raios do Sol derramados criam em momentos especiais.

Pouco se pode dizer então; apenas sentir bem com a alma toda e ser um com o vasto horizonte cosmicizado, de tanto Amor inundado... 

Visitações geresianas, às quais damos graças, registadas ainda, modestamente, na gravação de telemóvel de um minuto, que se segue....

                            

domingo, 15 de novembro de 2020

Dalila, uma grande alma portuguesa. Comunicação de Pedro Teixeira da Mota para as Actas do colóquio do centenário do nascimento de Dalila Pereira da Costa, 2018

Acabam de ser dadas à luz as actas do colóquio realizado no Porto, entre 4 e 6 de Março de 2018, de homenagem a - Dalila Pereira da Costa no centenário do nascimento 1918-2018, na Biblioteca Humanística e Teológica, da Universidade Católica Editora, Porto. São trinta e seis comunicações, várias valiosas. Transcreverei o meu contributo. agora com uma  dúzia de correcções ou pequenas ampliações. No fim está o vídeo que regista o meu contributo de discurso pessoal e sem apoio de texto, apenas lendo uns fragmentos de cartas enviadas por Dalila.

  «Escrever para um In-Memoriam, e neste caso o da querida amiga Dalila Pereira da Costa (1918-2012), após ter participado no Porto no Congresso em sua homenagem com um testemunho improvisado mas que ficou gravado [ver no fim], é sempre uma responsabilidade pois tenta-se perenizar um ser, e sua vida e obra através de contributos ou testemunhos que sirvam tal desiderato para os vindouros. 

Aproximemo-nos dela primeiro como pessoa e amiga: Dalila tinha em si muita afabilidade e discrição, silêncio e hospitalidade, carinho e amor, que manifestava de vários modos: na sua vida recolhida de escritora e mística, no cuidado com a sua casa, jardim e estufa de plantas no Porto e com a administração da sua quinta no Douro, na aparência sempre discreta mas impecável, nos sucessivos cãezinhos que a acompanharam e que amava, no modo acolhedor com que nos recebia (e muitas pessoas passaram pelo seu verbo e lar), sempre pronta a preparar uma lanche ou uma refeição, na qual se alimentava parcamente, no culto da amizade mantido com muita fidelidade e manifestado na correspondência numerosa que mantinha, sabendo-se hoje que foi quase toda preservada, fazendo cópias mesmo das cartas mais importantes enviadas, amizade que gerava fotografias emolduradas na sua sala biblioteca, no andar térreo, ampla mas atulhada de mesinhas, objectos, livros, gravuras, e a qual a impelia a interrogar-nos acerca dos amigos comuns de Lisboa, no caso principalmente Agostinho da Silva, mas também o P. Mário Martins, António Quadros, Afonso Botelho, Lima de Freitas e, do Porto, Sant'Anna Dionísio.

Se referimos estes nomes é porque na realidade Dalila, ainda que bastante distanciada e não aceite ou valorizada no meio académico ou universitário (embora se tivesse licenciado em Ciências Históricas Filosóficas, em Coimbra, em 1944, mas nunca exercendo tal profissionalmente),  ou até apenas literário, estava bem inserida na tradição cultural e espiritual portuguesa, não só pela sua formação, leituras e amizades dialogantes, mas porque se sentia no fundo discípula de Teixeira de Pascoaes, de Leonardo Coimbra, do movimento da Renascença Portuguesa, e ainda de Joaquim de Carvalho, Virgílio Correia, Damião Peres, Torquato Sousa Soares e Amorim Girão, seus professores de Coimbra, com eles partilhando um grande amor da pátria, da literatura e da religiosidade portuguesa pagã e cristã e das suas realizações, tradições e locais sagrados. 

Era no 1º andar da sua casa na Av. 5 de Outubro, nº 444, Porto, numa pequena salinha, no canto entre duas altas janelas com belas cortinas, que Dalila de Pereira da Costa cumpria com amor a sua missão principal na vida: a de ir escrevendo, lendo, investigando, meditando, orando e intuindo os principais aspectos da religiosidade e espiritualidade portuguesa, o que fez em cerca de trinta livros, escritos ao longo de 40 anos, na sua peculiar linguagem e nos quais faz uma hermenêutica espiritual das suas experiências energético-espirituais e, como ela disse em relação a Portugal, «uma exegese simbólica da sua cultura», não só através das obras dos nossos principais escritores, de Gil Vicente a Fernando Pessoa, como sobretudo de muitas raízes pré-históricas, tradições populares, superstições, mitos, locais sagrados, festividades, momentos históricos, e num modo muito orgânico, estudado, sentido, intuído e nada enciclopédico e de pseudo-esoterismo, dos quais se distanciava.

Quando contemplamos as obras dos séculos XX e XXI sobre a espiritualidade e de algum modo de esoterismo português, sem dúvida que inesperadamente Dalila se avantaja em relação a todos, ombreando com Agostinho da Silva e Lima de Freitas e, apesar de alguma  crítica de resultados do 25 de Abril, de um excessivo amor da Pátria ou de uma referenciação maior do Cristianismo, seu é um valioso espiritualismo universalista assente na tradições vivenciadas no território português mas dialogante com as outras, nada tendo a ver com esoterismos e ocultismos incomprováveis  ou interpretações facciosas, tais como vemos tanto na contemporaneidade. Ressalve-se contudo nas últimas décadas a existência de cada vez mais interesse pelo simbolismo e esoterismo  nos meios universitários e, consequentemente, surgirem bons trabalhos, ainda que em geral apenas intelectuais, publicados em actas de colóquios e congressos ou em revistas, a própria Dalila tendo recebido um ou dois no fim da sua vida.

Na verdade, Dalila Pereira da Costa fez uma revisitação pioneira muito completa da história cultural, religiosa e espiritual de Portugal, e aprofunda com grande sensibilidade e boa erudição os aspectos mais valiosos, dando nos seus diversos livros sucessivas aproximações, sem que, com esses trabalhos de alguma erudição (dos quais se queixava um pouco pelo trabalho que davam), não deixasse de ir realizando as suas vivências e investigações oníricas, poéticas, visionárias e espirituais, que resultaram depois também em livros, uns certamente mais pessoais, do seu inconsciente, e outros mais universais, válidos e operativos, frequentemente combinando até as duas vias nas mesmas obras.

Grande parte da sua poética é fruto de incursões no inconsciente ou então de subtis erupções ou visitações supra-discursivas, das quais ela admitia ser o seu anjo ou o ser Divino. Já as obras em prosa são claras tentativas de aprofundar o conhecimento subtil e espiritual, ou de compreender melhor o corpo espiritual e o Ser e Força Divina, dos quais Dalila desde muito cedo (num jardim em Coimbra, 1938, e doente em 1946, no Porto e em 1960, na Bélgica) tivera três experiências muito fortes, aproximadas, descritas e interpretadas nas suas obras A Força do Mundo, 1973, e Os Instantes, 1999.                                                      

Dalila Pereira da Costa, Sant'Anna Dionísio e Pedro Teixeira da Mota, em Rio Mau.

Na nossa convivência, durante alguns anos mais frequente por eu estar a dar aulas de Yoga e meditação no Porto, o seu amor ao conhecimento vivo  levou-nos, e até com Sant'Anna Dionísio,  a peregrinarmos  a locais sagrados, tais como Carquere, Panóias, Rezende, Rio Mau, e de tais incursões e meditações escreveu ela em jornais e livros. Também a sua abertura ao conhecimento que os outros lhe podiam partilhar me fez dar, emprestar ou comprar para ela alguns livros, havendo ainda uma correspondência razoável e telefonemas, pois estava sempre interessada no que eu ia realizando espiritualmente e fazendo, animando-me na missão que segundo ela me competiria. 

Nos meus diários ficaram registados algumas pétalas ou sementes dos nossos encontros e diálogos, tal como nas cartas enviadas estão ensinamentos valiosos pela sabedoria pessoal e inédita que partilham e que provavelmente um dia divulgaremos.

A sua gentil e grave, silenciosa e sibilina alma transparece  nos livros recheados de pérolas e escritos na sua linguagem feminina profunda, subterrânea, mística e misteriosa, banhada ou alimentada pelo seu jardim, estufa ou viveiro de subtis gerações da natureza, e a urbe portuense e pelos vinhedos e quinta do Douro ou, mais ainda, inspirada pelos seus remotos ascendentes e genes celtas e irlandeses, revelando-se como porta voz de estados ou níveis superiores que a habitavam, ou que frequentemente se deixavam tocar, ou a tocavam, seja quando escrevia, seja quando de noite ouvia, sonhava ou visionava e que numa cognição matutina ou auroral anotava. 

 Dalila era certamente uma descendente (ou continuadora) das Sibilas e Sacerdotisas antigas, e gostava de me apontar ou relembrar na sua quinta duriense do Salgueiro a existência de um pequeno bosque de aveleiras, um temenos ou hortus conclusus, a elas e ao Divino consagrado, e por lá meditava e escrevia eu nas horas mais quentes ou nos regressos das subidas ao poderoso Marão, que nas costas da sua quinta se erguia e me desafiava a descrever as subidas, a meditar e a poetizar nos seus cimos e a recolher cristais de quartzo, tanto mais que por vários anos seguidos passei uma, duas ou mais semanas à volta do meu aniversário no Verão, retirado nas suas casotas ou casa, em práticas de recolhimento, ascese, peregrinação, oração, escrita e meditação.

Entrando agora numa apreciação muito sintética da sua obra, do seu hortus conclusus ou jardim fechado, diremos que as suas primeiras obras são muito pessoais, íntimas, místicas e, embora a primeira seja O Esoterismo de Fernando Pessoa, 1971, na Lello (que será a sua livraria editora, pois era até de seu primo Edgar), de facto é mais o seu Fernando Pessoa, pois então ainda muito do esoterismo dele não tinha sido publicado, à parte a Mensagem e alguns poemas, tratando-se de um trabalho exegético resultante de conjunção da projecção da sua própria religiosidade e espiritualidade com a que ela sentia e pressentia em Fernando Pessoa. Bastantes anos mais tarde voltará a Fernando Pessoa, e bem mais conhecedora do seu esoterismo publicado (e para o qual eu contribuíra com quatro livros de inéditos), em edições conjuntas com António Quadros e José Augusto Seabra, esta de 1993.

Já no seguinte livro, A Força do Mundo, de 1972, em "Três meditações sobre o êxtase", relata, interroga ou especula as suas precoces experiências espirituais, através de reflexões escritas entre 1952 e 1971, já publicadas em francês na revista Esprit, em Novembro de 1970. 


  De tais experiências dará, como já aludimos, uma última interpretação, em 1999, Os Instantes nas Estações da Vida, a instâncias do Padre Ângelo Alves, onde apresenta talvez mais catolicamente as suas experiências, terminando com a valorização, talvez excessiva, da mística "como ciência experimental de Deus" «indispensável neste período de treva actual, onde as mistificações imperam no campo gnoseológico do transcendente, em tantos pseudo-conhecimentos, de ocultismo, variadas teosofias, variadas seitas, como movimentos sempre acompanhando a degradação dum período civilizacional», denunciando ainda o contraste entre o silêncio ou música calada que são a essência divina, e o barulho, «como reino do Demónio. Polo oposto em que, na sua demonização, caiu o mundo actual»

Na ordem cronológica do seu percurso o livro seguinte é o Encontro na Noite, de 1973, dividido em três partes, o Anjo, a Cidade Perdida e a Potência e o Verbo, com textos de 1962 a 1972, poéticos, sibilinos, basicamente descrições de sonhos e visões, imaginações e intuições, os da 1ª parte mais ligadas com os Anjos, na 2ª parte acerca da realidade subtil invisível das cidades, fruto de um dos seus dotes de certa clarividência e manifestado noutros livros, e na 3ª de reflexões e intuições sobre o processo de escrita e da palavra, em especial poética, com grande beleza e originalidade.   

                                                  

 Se na obra seguinte, Duas epopeias das Américas. Moby Dick e Grande Sertão:Veredas (Ou o problema do Mal) 1974, analisa estes livros de Herman Melville e de João Guimarães Rosa, tecendo considerações e analogias metafísicas e afirmando a sua esperança no Homem cordial do Brasil (onde vivera alguns anos),  já com a Nova Atlântida (1977) e A Nau e o Graal (1978) entra no seu ciclo e estilo que se tornará habitual, o da revisitação do sagrado na literatura, pré-história e história, arte, religião e espiritualidade portuguesa, combinando o estudo racional e erudito e a sua sensibilidade e intuição, entrando em constante diálogo com outras tradições, sobretudo celtas e orientais, estas em especial da Índia e do Budismo, já que por exemplo, desde 1976, na Introdução à Saudade, considerava a saudade como conhecimento-vivência de forma directa, um meio de libertação tal «como o taoísmo, budismo zen, vedanta ou yoga», ousando mesmo opor a saudade doce ao budismo amargo e escrever: «O Eu, que o budismo estabelecera como inapreensível como experiência directa, será apreendido como realidade central, própria  e concreta. E, ao contrário do budismo, afirmada em toda a positividade, como entidade permanente substracto de nossas experiências sucessivas (...)  A um meio de libertação como negação da vida, acto de extinção duma chama soprando (esse será o significado da palavra Nirvana, segundo as raízes sânscritas) como filosofia de aniquilamento proposta para seres além de todo o humano, se contraporá aqui junto do Atlântico, na saudade, um outro, realizado e proposto na realidade do humano totalmente aceite, mas ultrapassado na exigência cristã: por sua assunção; e que ainda nela, por ela, levará consigo a Natureza todo».


Em 1981
publicará de novo na sua linha mística de amor  muito íntimo, subtil e original, Os Jardins da Alvorada, onde narra as suas vivências de amor ao Divino e especula sobre tais visitações, sensações ou intuições dos Anjos e das faces ou qualidades do Divino, e prosseguirá em tal via em 1982 e 1983, nas Edições Nova Renascença, com Elegias da Terra-Mãe, poesias de diálogos com anjos e entidades de várias tradições, e A Cidade e o Rio, nesta se mesclando reminiscências do que ela pensava serem vidas passadas ou então do inconsciente colectivo, com a sua capacidade de intuir visionariamente a memória dos lugares. 

                                        
E em 1993 gerará dentro dessa linha de poesia visionária e supra-história e supra-racional, publicando na Fundação Lusíada,  a Hora de Prima, e em 2001, o Portugal Renascido, duas obras nas quais parece destilar as suas leituras histórico-míticas, reminiscências ancestrais e vivências místicas em poemas ou textos ora de sonhos, ora de escrita automática surrealista, ora de aparência (ou até essência) oracular, sibilina e de difícil exegese futura.

Em obras sucessivas continuará a sua exegética da simbólica e espiritualidade portuguesa, arrancando-a das entranhas  de sua história, literatura e mitologia e expondo-a a uma luz favorável. É o caso das importantes obras Da Serpente à Imaculada (1984), Místicos Portugueses do século XVI (1986), A Ladainha de Setúbal (prefaciada por Agostinho da Silva, de 1990, e onde se destacam a serpente e a montanha, a Rainha S. Isabel e D, Diniz, a Ordem de Cristo e Tomar ), as Raízes Arcaicas da Epopeia portuguesa e camoniana (1991) onde trabalha as tradições celtas, gnósticas e avicenicas, nomeadamente quanto ao Anjo e ao Espírito,  a Corografia Sagrada (1993), iniciada por um capítulo intitulado «Portugal, terra da "Nostalgia do Paraíso"», onde rastreia, desde o xaman representado na gruta do Escoural até aos pensadoras da Renascença Portuguesa, a tendência de se vencer a queda e a cisão e se recuperar o estado paradisíaco de união a Deus, com capítulos consagrados ainda a Antero de Quental, Gil Vicente e Hieronymus Bosch, Fernão Mendes Pinto, Raul Brandão, Camilo Pessanha.

                                             

 Na obra deste último, ainda que comparando a sua linguagem a referências budistas de Luz e de Nirvana e questionando o seu estado anímico final, valoriza talvez demais os significados e hipotéticas realizações da "Luz Incriada" no poema Branco e Vermelho, ao entroncá-lo na mística da Luz vinda dos Padres do Deserto e sobretudo no Pseudo-Macário e Evagro do Ponto e ao considerar algo exageradamente «a veracidade do poema Branco e Vermelho como transmissão directa duma experiência pessoal e vivida da Luz arquetipal» (p. 49), «com valor tanto nacional como internacional dentro da fenomenologia mística» (p. 47). De qualquer modo é um dos capítulos da sua obra, escrito em 1989, onde mais especula sobre as realizações da espiritualidade oriental, tanto budista como indiana, relacionando-a com o poema e a possível vivência de Camilo Pessanha e ainda com a da tradição cristã, tal como sempre foi seu hábito.


Seguem-se o Entre Desengano e Esperança. Ensaios portugueses (1996), onde fala de novo do Anjo de Portugal, da Renascença Portuguesa, do Culto do Espírito Santo e de Antero de Quental, este no capítulo O Eschaton da Santidade nos Vencidos da Vida e, finalmente, em 1999, Dos Mundos contíguos, onde revisita algumas das linhas de força que mais trabalhou, em especial a celta e, na plenitude de um conhecimento já bastante maduro, valorizando a união da ciência e da espiritualidade como novas Descobertas que nos desafiam, e a demanda do que é o corpo espiritual ou de glória, estando todavia algo dependente, como é recorrente na sua obra, da Bíblia e do Cristianismo, ainda que nesse valioso livro refira até bastante os Celtas, Irlandeses, Pérsia e a Índia, escrevendo ainda acerca dos processos criativos e energéticos no corpo e ser humano e, finalmente, sobre a "memória do lugar", em especial do seu amado Porto, por ela muito bem realizada ou intuída em visões. 

 Em dois livros finais, em formato grande, deixou Dalila Pereira da Costa as suas últimas compreensões sobre o sagrado em Portugal: A Contemplação dos Painéis, de 2004, onde tenta descer ao fundo ignoto de Portugal, implícito na pintura de Nuno Gonçalves, e clarificar os Descobrimentos como demanda, iniciação, e missão universalista de Portugal, bem como os mistérios do Anjo, do Eu espiritual e do Espírito Santo (citando bastante Henry Corbin), inclinando-se para, na esteira de José Saraiva e de Afonso Botelho, considerar que o enigmático santo central é o Infante D. Fernando: «Então, dois arcanos matriciais da religião história de Portugal, se unirão coerentemente na figura deste Infante: o Sacrifício e o Paráclito» (p.43).

E dá à luz já nos seus 88 anos de graça, em 2006, As margens sacralizadas do Douro através de vários cultos, desde o Paleolítico e realçando deusas, xamans, eremitas, sibilas, o Porto e a Galiza, e do qual, como de costume, me deu um exemplar autografado: "Ao amigo Pedro, esta lembrança do Douro, tão seu conhecido e percorrido - com o abraço de sua amiga dedicada, Dalila. Porto 13-XII-2006." 

Neste seu livro último Dalila, logo no início, de novo interroga, ou mesmo afirma, um dom: «Acaso, só pela força recriadora da anamnese, poderemos ainda vislumbrar milénios passados, muitos desses rituais, sua música, danças e celebrantes, persistindo nos tempos actuais? E pela "memória do lugar", a que guarda, indelével, tal chapa fotográfica, fielmente tudo o que um dia em passado longínquo aí aconteceu. Para algum humano, tal dom de sobrevivência será um dia concedido eleitamente, em hora e data ignota?» 

E na última página, segue tal repto sibílico, valorizando a galaico-portuguesa «alma matricial, desde seu princípio trazendo no seu seio, indiscernivelmente e sibilinamente, a profecia, como poder de ultrapassar o devir e ver o tempo na sua origem e essência vera, como eternidade./ Então perguntemo-nos: que outra sabedoria duma quinta sibila, desconhecida das quatro romanas se escondeu neste Noroeste ibérico?/ Houve remota memória duma "fatidica puella" entre os Arevacos (Plutarco) e entre os Galaico-Lusitanos? E que mistérios ainda não ditos nem revelados guardou em si esta sibila?»

 Depois desta revisitação breve dos seus principais livros, destacaremos sucintamente o que me parecem ser os principais núcleos de força valorativa na sua obra e ensinamentos:

- A religação ao Divino, recorrente em todas as suas obras, ora como experiência directa e gnose, ora como aspiração, oração, intenção, objectivo, transmitindo inúmeras facetas ou descrições dela, com conselhos valiosos como: "velar para que essa ligação com ele não seja interrompida", "subida dentro de nós do sol-nascente, ou Salvador" (Ladainha de Setúbal. p.25), «abandono do seu eu inferior e atingimento do seu eu superior unido ao divino, aquele que residia secreto mas vigilante no seu fundo mais fundo» (As margens sacralizadas do Douro através de vários cultos, p. 94)

- A intermediarização nesta ligação ao Divino, cumprida por Jesus e Nossa Senhora mas também por outros mestres e grandes seres, embora predomine a influência do Cristianismo em que nascera e a que se afeiçoara.

- A Deusa Mãe, cultuada na Pré-História e Antiguidade, com as suas avatarizações sucessivas em deusas, ninfas e finalmente em Maria, «mediadora, a que ergue da terra ao céu com ela, a Natureza e o homem, como a Mãe completando a obra do Filho» (Ladainha de Setúbal. p 144), Dalila crendo, no dogma da Assunção de Maria aos céus no corpo físico, tal como no da ressurreição e ascensão de Jesus.

- Estudo e especulação sobre as diversas deusas e deuses cultuados ao longo dos séculos na Península Ibérica, destacando-se Crono, Apolo, Atégina, Endovélico, Esculápio, Lug, Bormânicos, Bande, Trebaruna, Nabia e as Mães Galaicas (Matres Gallaece).

- Valorização de um sacerdócio feminino primitivo e de práticas oraculares, proféticas e iniciáticas, ao longo dos séculos no mundo e em Portugal, manifestadas por sacerdotisas e sibilas, matriarcas, diaconisas e sorores, videntes e poetisas.

- Valorização da iniciação, desde os mistérios greco-romanos, enquanto «ritos de purificação e iniciação mística secreta», nomeando desde a Grécia do orfismo e o pitagorismo até a Portugal, pois neste «até à Idade Média e Renascimento se perseverou, cresceu e actuou, um conhecimento tradicional esotérico, detido e usado sobretudo por duas ordens, os Cistercienses e os Templários. Iniciação que constava de uma intensificação da religação entre o humano e o divino, união da imanência e da transcendência, conhecimento este que se fará, não pelos olhos sensíveis, mas pelos supra-sensíveis, como terceiro olho, o da sabedoria, o da visão arcaica», de antigos e perdidos poderes humanos, supra-humanos» Ladainha de Setúbal. p. 16, esta afirmação bem importante...

 - Valorização das seguintes vias de acesso ao conhecimento do Eu e da ligação ao Divino, assim expressa já em 1986: « Uma realização do eu transcendente, ou procura do anjo, através dos séculos, como integração suprema. Usando a santidade, via heróica, a mística, a poesia, a profecia, a alquimia, o sebastianismo, a saudade...» (Místicos Portugueses do século XVI), a que acrescentaremos a via onírica, bastante vivenciada e trabalhada por ela, tendo até escrito um livro Os Sonhos (Porta do Conhecimento, em 1991, e do qual me enviou uma cópia policopiada em Outubro de 1988 para eu eventualmente editar nas Edições Manuel Lencastre) e a música, não só humana, da qual recomenda as peças mais sublimes de Mozart (Sinfonia 9 e Concerto nº 21), Beethoven (Quarteto nº 132), Bach (Concertos Brandeburgueses), Schubert (Nocturno em mi bemol, e nas obras póstumas, tal como o Adágio em mi maior), Gluck e Vivaldi, como também a música subtil celestial, que ela própria vivenciou em 1999 numa viagem de carro, por mais de meia hora, tal como narra nos Instantes.  

- Preferências pelas vias ou concepções filosóficas platónicas, neo-platónicas, gnósticas, agostiniana, desvalorizando as vias aristótelicas, escolásticas, kantianas, positivistas, materialistas e no fundo privilegiando o órgão gnoseológico da intuição-sentimento, referindo também nesse sentido mais de uma vez o olho e o coração espiritual.

- «A teoria da metempsicose, as reencarnações sucessivas sofridas», um tema ou uma linha de força tanto estudada e referida erudita e comparativamente, como também intuída pela Dalila vivencialmente em sonhos e visões, sem que contudo caísse na provável ilusão de afirmar ter sido alguém muito importante, frequentemente parecendo mais tais sensações, mencionadas sobretudo em poemas, como que mergulhos ou arpoagens no que se denominará inconsciente colectivo ou na «Memória do lugar», algo que ela tinha, talvez por atavismo familiar dos seus ascendentes durienses e celto-irlandeses, e que cultivou, especulou e partilha...

- Aceitação do esquema das tripartição funcional das sociedades indo-europeias, a religiosa ou sacerdotal, a guerreira e politica, e a trabalhadora ou da fecundidade, rasteando tal na Índia, em Roma, nos celtas e em Portugal, nomeadamente manifestada nos Painéis de Nuno Gonçalves. 

- Valorização, ou mesmo sobrevalorização, da realidade e missão de Portugal, baseando-se muito em lendas, histórias e mitos, amplificando-os (por vezes exageradamente) ou universalizando-os, considerando Portugal como país eleito, aceitando a intervenção divina, ou teofania, em Ourique a D. Afonso Henriques, mitificando e talvez exagerando os Descobrimentos como busca do centro e do progresso espiritual, considerando ainda que seria com o Marquês de Pombal que começara a materialização e desintegração, quando de facto desde cedo tal aconteceu, nestes aspectos demarcando-se do diagnóstico de Antero de Quental nas suas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos três últimos séculos, embora em outros passos da sua obra Dalila reconhecesse tal desiludida até, chegando mesmo a interpretar o marinheiro sob a janela de Tomar «como mestre e alquimista falhado». (Contemplação dos Painéis, p. 88.)

- Valorização das ordens religiosas e monástico-militares portuguesas, em especial Cistercienses, Templários e Cavaleiros de Cristo, os quais teriam «o ideal hermético da alquimia e do cristianismo cosmológico», e que lideraram uma iniciação só realizada em certos seres e momentos históricos, dos quais dá o exemplo paradigmatizado nos Lusíadas, por Camões, de Vasco da Gama unindo-se com a Ninfa ou Deusa na ilha dos Amores, "hierogamia do sol e da lua", ou "completude dos contrários", a que os seus companheiros também teriam acedido com as respectivas ninfas. 

- Valorização na espiritualidade portuguesa das raízes celta,  judaica e islâmica, ou ainda da harmonia entre as três religiões do Livro, mas sem dúvida privilegiando muito, embora também haja boas referências ao sufismo e à mística da luz iraniana, as ligações celtas e irlandesas, transmitidas em Portugal pelos monges de Alcobaça nas traduções cristianizadas dos seus livros de viagens fantásticas (Viagem de S. Brandão, Conto do Amaro, Visão de Túndalo) e também pelos trovadores e pelo que ficou visível na arqueologia, etnografia, símbolos, mitos, contos e genes, e que ela tão bem procurou e interpretou...

- Bastante demanda, escuta, valorização dos Anjos e do Anjo ou Arcanjo de Portugal, ainda que este surgindo com atribuições diversas quanto à sua entidade, ora sendo Gabriel ora Miguel, ora admitindo mais a verdade de ser um Arcanjo independente. Serão muitas centenas as referências aos Anjos na sua obra e é certamente uma realidade subtil espiritual a ser aprofundada por quem a merecer e conseguir.

- Aceitação talvez exagerada do Sebastianismo, inserindo-o na Saudade, «que é e tem sido a nostalgia da reintegração, para a possessão e uso vivido, dinâmico, do eu absoluto. Ou a nostalgia do Anjo. E o Anjo é D. Sebastião, o Eu do Homem Português», escrevia ela em 1989, numa linha sebastianista e pessoana que cultivou e manterá ao longo dos anos, nomeadamente na visão da dinâmica demanda-descobrimentos e encoberto-desejado, conferindo a este mito tanto a significação de centro como de paraíso e reintegração ou, como já vimos, Eu espiritual e reintegração com o Ser Divino.

- Valorização constante do Amor, do amor-paixão, e logo também da compaixão e sacrifício como meios de purificação, transubstanciação, sacralização e acesso ao conhecimento, à unidade, ao Cristo de glória, ao supra-humano e ao divino, rasteando a sua absolutização nos trovadores, templários, cavaleiros de Cristo, Fiéis do Amor e Cavaleiros do Amor e poetas.

- Valorização então da palavra, da escrita, da poesia, em especial de poetas pois «até muita tarde, aos começos da Idade Moderna, a obra dos poetas portugueses esteve intimamente ligada ao inconsciente colectivo da raça, foi a sua mais funda e vera expressão. E ainda, através desta, ligada à tradição celta do Atlântico Norte... a poesia então seria ciência de iniciados» (A Nau e o Graal, p. 41) destacando neles os trovadores (tais como Aires Nunes de Santiago, João Zorro e João Soares Coelho), D. Dinis, Bernardim Ribeiro, Camões, D. Manuel de Portugal, Frei Agostinho da Cruz, Almeida Garret, Teixeira Pascoaes e Fernando Pessoa.

- Valorização dos escritores e poetas místicos, de todos tempos e povos, em especial cristãos e islâmicos, e entre nós sobretudo dos séculos XVI, XVII, nomeadamente Frei Hilarião Brandão, Mestre André Dias, Tomé de Jesus, Amador Arrais, Diogo Monteiro, Sebastião Toscano e D. Manuel de Portugal e suas contrapartes femininas, as sorores dos séc. XVI e XVII, algumas delas por ela bem estudadas e, claro, S. Teresa de Jesus e S. João da Cruz.

- Valorização e estudo de personagens e autores como Santiago, S. Gonçalo de Amarante, Dinis e Isabel, Pedro e Inês, Nuno Álvares Pereira, Infante Santo, sibilas, sereias, fadas e mouras, Gil Vicente (sobre quem escreve um livro de exegese da sua obra tão preservadora de mitos e ritos antigos), Camões, D. Francisco Manuel de Melo, Frei Agostinho da Cruz, Antero de Quental e Oliveira Martins, Sampaio Bruno, Leite de Vasconcelos, Teixeira Pascoaes, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, José Marinho e sobretudo Fernando Pessoa, embora com reservas quanto a certos aspectos desenvolvidos por ele.

- Valorização e estudo comparativo e espiritual de arquétipos, símbolos ou objectos cultuais, como a espiral, as linhas serpentiformes, a serpente, os ídolos placas (vistos como corpo da Deusa, Ladainha de Setúbal. p. 57), a cruz, o escudo, a espada, o cálice ou graal, a esfera armilar, a nau, a ilha, a árvore, os painéis de Nuno Gonçalves, as casas de capítulo da Batalha e de Tomar....

- Valorização e estudo de locais sacralizados como Alcobaça, Arrábida, Foz Coa (com as suas inscrições desde o Paleolítico Superior até 1953), Lisboa, Panóias, Picote (junto a Miranda do Douro), Porto, Sagres, Setúbal, Sintra, Tomar, Vila do Conde, etc.

- Valorização de seres e autores como Platão, Plutarco, Ibn Arabi, Avicena, Shorawardi, Dante, Pico della Mirandola, Giordano Bruno, Jacob Böhme, Novalis, Nerval, Holderlin, Rimbaud, Rudolf Otto, Rilke, George Russel, Fulcanelli, Albert Béguin, Étienne Gilson, Carl Gustav Jung, Kerényi, Mircea Eliade, Georges Dumézil, Jean Markale, Julius Evola e Henry Corbin.

Saudemos a Dalila, certamente uma vigilante na Terra Lúcida dos persas ou Mundo espiritual que envolve Portugal, e de que nos fala no seu talvez mais iniciático, perene e desafiante livro Dos Mundos Contíguos. Que ela avance na Luz e Amor Divinos e que nos possa continuar a inspirar!