16-X. Sóror Mariana do Rosário, crescida em virtudes e participante de tantas luzes do céu que foi dotada do dom da profecia, da cura e da protecção, liberta-se da vestimenta terrena neste dia 16 de Outubro de 1649, no convento do Salvador, em Évora. Na sua alma cabia bem o Oriente e para lá encaminhava as suas orações quando intercedia pelo reino ou pessoas. Muitas madres e sorores constituíam a retaguarda da cruzada missionária, ora castigando-se mais feramente ainda que os seus irmãos, e talvez compensando assim o sangue dito infiel ou pagão derramado, ora erguendo-se acima do rude ascetismo penitencial e irradiando inteligência, ora com conhecimento, gozando os mistérios unitivos. Nos seus solilóquios com a alma de Jesus, este dir-lhe-á, a propósito de certas freiras mais dispersas ou mundanizadas, ou ainda destituídas da aspiração amorosa tão trabalhada na bhakti yoga indiana: "Filha, não acho aqui quem me queira, tudo está ocupado".
17-X. Em Tânger, em 1437, corre mal a aventura expedicionária dos infantes D. Fernando e D. Henrique, e depois de vários dias de batalha o último tem de assinar "visto como Deus aprouve de, em termo de Tânger, sermos cercados de mouros, e provendo por meio de paz e concórdia, me obrigo a vós, Cala Ben Cale, a dar a cidade de Ceuta e por garantia disso lhe darei o Infante D. Fernando". Iniciada estava a longa Paixão que o Infante Santo, com paciência e estoicismo, soube enfrentar. Nos Jerónimos, no portal ocidental encontra-se representado como santo protector de Lisboa e Portugal, com S. Vicente, em esculturas de Nicolau Chanterene mandadas esculpir por D. Manuel I.
El Rei D. Manuel I publica neste dia em 1516 o Regimento dos Vedores da Fazenda, órgão colegial que ficou dividido em três contadorias, Reino, África e Índia, e que logo a seguir ao Rei superintendia a administração ultramarina. Um dos mais notáveis foi o 6º Vedor da Fazenda da Índia Simão Botelho de Andrade (1504-1565), no tempo de D. João de Castro, e que procurou equilibrar a liberalidade deste e a intolerância religiosa de outros.

18-X. O Padre Manuel da Nóbrega nasce neste dia em 1517 em Sanfins do Douro e cinquenta e três anos exactamente depois morre no Rio do Janeiro. Foi missionário do Brasil na primeira leva de missionários jesuítas que foi na armada de Tomé de Sousa em 1549, e do aldeamento e colégio que funda no interior, entre 1553-1554, nascerá a gigantesca urbe de S. Paulo. Deixou uma obra importante histórica, antropológica, religiosa e epistolar. Uma das suas frases representativas de uma visão bem a longo prazo, tão em falta na classe política mundial, foi e algo profética: "Trabalhamos para dar princípio a casas que fiquem enquanto o mundo durar". No seu Diálogo sobre a conversão do Gentio ecoará o grande amor fraterno e universal que estava vivo nos melhores seres, acontecimentos e momentos dos Descobrimentos: "Estou eu imaginando todas as almas dos homens serem umas e todas de um metal, feitas à imagem e semelhança de Deus, e todas capazes da glória e criadas para ela. E tanto vale diante de Deus por natureza a alma do papa como a alma do vosso escravo Papaná".

Georges Ohsawa, ou Nyoiti Sakurazawa, nasce neste dia em 1893, em Kyoto, de uma familia de samurais empobrecida. Aderirá ao movimento Shokuiku, Educação alimentar, fundado pelo genial médico Ishizuka Sagen, (1850-1909) e que atingira grande sucesso (no pico, 100 consultas por dia) pelos seus tratamentos pelo equilíbrio alimentar do Yin e Yang, consignados na obra Uma teoria química da nutrição na Saúde e Longevidade. Ohsawa aprende com um seu discípulo e vindo para o Ocidente transmitirá esta filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, feminino e masculino, noite e dia, e sobretudo do conteúdo do potássio e sódio no alimentos, iniciando no Ocidente o método macrobiótico (grande vida) de alimentação, como disciplina harmonizadora do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras, leguminosas e algas, e a cautela com as proteínas animais, o açúcar, o excesso de Yin, ou seja de alimentos com mais teor de potássio. O miso, o daikon, a umesboshi são dos alimentos mais utilizados salutarmente. Regressado ao Japão em 1931, como um pacifista e prevendo anos mais tarde a derrota do Japão, foi preso e só após esta se ter verificado é que foi libertado, consagrando-se de novo aos seus estudos, publicações e ensinamentos da aplicação do Princípio Único. Morrerá em 1962, de um ataque de coração. Em Portugal a Macrobiótica teve um grande desenvolvimento a partir dos anos 70 e a Colmeia, a Unimave, o Yin e Yang, o Suribachi, o Instituto de Macrobiótica destacaram-se, alguns destes centros e restaurante ainda hoje estando activos.

Diálogo valioso do mestre Sri Ramakrishna em Calcutá neste dia, em 1885: "Sabeis o que é o estado de meditação? A mente tem de tornar-se como um fluxo contínuo de óleo, - deve haver apenas um pensamento, o de Deus, e outros pensamentos não devem intervir... Há homens só de nome, e homens conhecedores. Aquele que tem a consciência espiritual, que está consciente e plenamente convencido que só Deus é real e que tudo o mais é falso, esse é o homem conhecedor". E conversando acerca dum jovem, dirá: "Qual é o mal em ele não acreditar na possibilidade de incarnação Divina? Chega se ele acredita que Deus existe e que todos os seres e o universo são Suas manifestações... Uns dizem que há dez avatares (incarnações divinas), outros inumeráveis. Onde quer que haja uma manifestação especial do Seu poder, há um avatar. Isto é o que eu creio". Eis uma visão bem simplificadora e ao mesmo bem mais liberal da acção divina nos humanos...
19-X. No vale do Arno nasce em 1433 Marsilio Ficino, filho do médico de Cosimo de Medici, e que se destacou como tradutor de Platão, Plotino e de textos espirituais e herméticos para Latim e a Europa. Foi o presidente da singela e intimista Academia Platónica de Florença, inspirador de Sandro Botticeli e Miguel Ângelo, autor com Pico della Mirandola, Erasmo, Tomás More, João Colet, Lefèvre d’Étaples, Leão Hebreu e Agostinho Steuco das obras mais sábias da Renascença. Médico como o pai, mas clérigo, provou a imortalidade da alma, se é que assim se pode dizer. Extracto de uma sua carta a um professor: "Mostra-te um exemplo de boa conduta. Pureza de vida engendra reverência para com o ensinamento. Os jovens seguem facilmente o exemplo dos mais velhos. Os que corrompem um jovem, ou de facto a mente de alguém, quer por palavras ou por conduta, devem ser considerados culpados de sacrilégio. Finalmente age de acordo com Pitágoras e Apolónio de Alabanda que, na tradição dos filósofos indianos, não admitiam à sua disciplina nenhum jovem que não fosse de nascimento afortunado e da melhor educação. Pois não está certo que as Musas se tornem ministras ou instrumentos de iniquidade". Tocando harpa, Marsilio Ficino reconheceu e valorizou muito o Som, Sermo, Palavra, Verbo, tal como a tradição indiana que o designa como Vak, Pranava Nada ou Shabda interno: "A alma recebe as mais doces harmonias e números através dos ouvidos, e por estes ecos é lembrada e desperta para a música divina que pode ser ouvida pelo sentido mais subtil e pela mais penetrante mente". Neste blogue encontra em artigo algumas das suas cartas traduzidas do latim e comentadas, bem como biografias, tal: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/10/nos-590-anos-de-marsilio-ficino-breve.html

20-X. Dia de S. Iria, «mártir muito antiga e venerada deste reino», provavelmente dos tempos visigóticos senão mesmo antes, crendo-se até em lendas que em tempo da Rainha Santa as águas do Tejo se abriram perto de Santarém, cujo nome deriva dela, para deixar a corte reverenciar o seu corpo incorrupto, fechando-se em seguida, numa espécie de abertura do mundo subterrâneo. Tornou-se a padroeira da vila de Tomar e naturalmente Frei Isidoro Barreira, um dos mestres da tradição espiritual da Ordem de Cristo, cuja sede era o Convento de Cristo em Tomar, autor do importante Tratado da Significação das Plantas, Flores e Fructos que se referem na Sagrada Escritura, 1698, consagrou-lhe uma biografia.

João de Barros, humanista ainda admirador de Erasmo, de quem escrevera mesmo o encómio quanto tal era ainda permitido, e que foi denominado o Tito Lívio português pela sua pureza de estilo historiográfico, autor das famosas Décadas da Índia, onde narra a gesta luso-oriental, liberta-se do corpo físico neste dia em 1570. Escrevera uma obra humanista de ética, de arrojado espírito erasmiano e que chegou a entrar no índice dos livros proibidos, a Ropica Pnefma, e um romance de Cavalaria, a Crónica do Imperador Clarimundo, donde os reis de Portugal descendem, pois era um cavaleiro de Amor, filho bastardo de Lopo de Barros, corregedor do Entre Tejo e Guadiana. Disse: "Pois a Deus aprouve que não por ofício, mas por inclinação, não por prémio, mas de graça, e mais oferecido, que convidado tomasse o cuidado de escrever as coisas que passaram neste descobrimento e conquista do Oriente, não permitirá, que eu perca algum prémio, se o deste trabalho posso ter, trocando, ou negando os méritos de cada um". Mas apesar deste desejo de rigor, não esteve na Índia fisicamente, compensando-o a Ordem do Universo e o rei de Portugal com o cargo de feitor da Casa da Índia. A sua grande ou sensível cultura e alma humanista permitia-lhe considerar, por exemplo, os yogis "homens ao modo de filósofos", e defender o relacionamento amistoso com os indianos. E como a primeira edição das Décadas rapidamente se esgotara, e mesmo assim não se calavam os invejosos detractores, no prólogo da Década IV evoca a Ordem e Justiça cósmica, Rita e Dharma indianos: "Virá tempo em que seremos julgado por homem mais zeloso e diligente no cuidado do bem e glória da pátria que da própria pessoa. Pois pela pátria, no tempo que os outros cá e lá andam a quem se carregará de mais fardos às costas dos despojos da Índia, nós tomámos cuidado de levantar a bandeira dos triunfos dela, que estes carregados deixaram jazer desamparada e esquecida com a ocupação e pressa que cada um em seu modo traz de salvar a presa de que lançou a mão, por mais lhe importar o próprio interesse que a glória comum da pátria".
21-X. Em 1147, neste dia, o cerco da Lisboa islâmica, iniciado em 1 de Junho, termina com a conquista da cidade aos mouros, derrotados por D. Afonso Henriques e os cruzados que o auxiliaram. A imagem reproduzida é uma das mais antigas representações pictográficas de Lisboa, feita para a Crónica de D. Afonso Henriques, por Rui de Pina. A cidade será consagrada em 1173 com a chegada das relíquias de S. Vicente, vindas da igreja dos Corvos, em Sagres, no Al-Gharb moçárabe de então.
Neste dia das Onze Mil Virgens mártires, mas que seriam onze companheiras de Ursula, princesa da Bretanha, martirizada em 383, era de uso nos colégios jesuítas de todo o Oriente a abertura solene das aulas, com discussões das teses teológicas e representações teatrais. No colégio de S. Paulo em Goa havia uma procissão solene conduzindo a relíquia da cabeça de S. Geracina, uma das Onze Mil Virgens enviada por D. João III em 1547. Em 1552 fundou-se em Goa, mesmo a Confraria das Onze Mil Virgens.
Chega ao rio Tejo neste dia em 1728 o Dr. Alexandre Metelo de Sousa e Menezes ao fim três anos e sete dias de missão de embaixador ao imperador da China Yung Ching e para retribuir o presente oferecido pelo seu pai Kang Hsi. O tacto diplomático do nobre, os luxuosos presentes (condizentes com os recebidos) dum D. João V imperial, tornaram possíveis duas das dificílimas audiências imperiais, puramente formais para tristeza dos missionários que desejavam ser autorizados de novo a evangelizarem à vontade. Mas o imperador só garantiu que "tratava os estrangeiros como o seu falecido pai fazia, que sempre tinha mostrado uma atenção especial para com as pessoas em Macau". Nas barcas de mandarim em que seguiu a embaixada rios acima, de Cantão até Pequim, depois das discussões habituais de ser ou não um tributo, as típicas bandeirinhas anunciavam: "O reino do remoto ocidente manda um grande a dar parabéns". Mas a razão principal da magnificente embaixada, que contava com 326 pessoas, como se vê nas cartas de D. João V ao vice-rei na Índia, era dissipar as más impressões que o Patriarca de Antioquia e os missionários nomeados pela Propaganda da Fé estavam a criar no imperador e mandarins contra os missionários do Padroado Português, e alterar a política daí resultante, o que não veio a suceder.
O Raja e a Rani (a rainha) de Travancor (Tanor) e os dois filhos, baptizados pelo abnegado franciscano Frei Vicente de Lagos, e que lhes permitira continuarem a usar o yajnopavita, as três linhas em fio da casta brâmane, são recebidos com grandes festas em Goa neste dia em 1549 e são confirmados e crismados pelo 1º bispo de Goa D. João de Albuquerque, que provavelmente lhe deu o nome de João, na capela do Colégio da Santa Fé onde S. Francisco Xavier dizia missa e rezava.

D. João V, filho de D. Pedro II e da princesa alemã Maria Sofia, nasce neste dia em 1689 no Paço da Ribeira, e foi armado cavaleiro da Ordem de Cristo aos sete anos, subindo ao trono em 1707. Neste mesmo dia mas em 1730 foi sagrado o Real Convento de Mafra, num termo ou local que alguns vieram a sonhar como capital do V Império (como se tal pudesse haver), numa das muitas obras dum prolongado reinado de 43 anos, sustentado em grande parte pelo ouro e diamantes do Brasil e bem centralizado administrativa, cultural e diplomaticamente, embora demasiados valores se sumissem em negócios eclesiásticos, mercês e luxos vãos em vez de serem empregues no fomento da produtividade, criatividade e universalidade sem as quais nenhum país se pode erguer ou subsistir mais planetariamente. De destacar no seu reinado a Inglaterra ter continuado a manipular e a oprimir Portugal e a sua forte veia amorosa religante nos dois sentidos: do culto divino, pela Igreja e pela sua alma, e do culto de Eros, com religiosas.

Swami Ramatirtha nasce neste dia em Muraliwala, Punjab, em 1873. Professor de matemática, casado desde os dez anos de idade, renuncia ao mundo com vinte e sete anos e parte com a família e uns amigos para as florestas dos Himalaias. O seu grande amor a Deus permite-lhe ter a visão divina, o darshan de Krishna. Em 1901, inspirado por swami Vikenananda, torna-se swami (monge) passando a usar a veste de cor ocre. Em 1902 parte para o Japão com swami Narayana e em seguida para a USA, para transmitir a sua vasta cultura, profunda realização e a mensagem espiritual libertadora da tradição indiana, numa síntese entre o Amor devocional (Bhakti Yoga) e a visão ou doutrina Vedanta, numa filosofia viva da unidade entre o ser humano, o Espírito e a Divindade. Terá uma carreira meteórica e aos 33 anos a sua saúde cada vez mais fraca obriga-o a libertar-se do corpo terreno nos Himalaias e os seus restos desaparecem na correnteza por vezes baça e sobre-humana do rio Ganges. No discurso pronunciado em 7-X-1902, em Tóquio, para uma escola superior, afirma a sua crença em que os japoneses são descendentes dos indianos, e dá sete princípios para o sucesso: trabalho, auto-sacrifício, auto-esquecimento, amor-universal, alegria, destemor e auto-confiança.
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| Da esquerda para a direita, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano. |
23-X. O rei D. João II responde à carta do humanista Angelo Poliziano neste dia em 1491, tratando-o familiarmente por Angelo noster, aceitando a sua oferta de escrever uma história da gesta portuguesa dos Descobrimentos, mas este morre pouco depois em Florença sem satisfazer o seu desejo, de que nos restam apenas as primícias nas cartas que dirigiu a Lourenço e a Piero de Medici. Vários portugueses eram seus discípulos em Florença, nomeadamente três dos filhos do chanceler-mor João Teixeira.
Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, parte pela segunda vez para Angola com missionários jesuítas e com presentes de D. Sebastião para o rei de Angola em 1574. Chegados que foram primeiro ao Congo, ainda no século XV com Diogo Cão, e desenvolvendo aí uma colaboração frutuosa com os reis, os portugueses foram chamados por uma embaixada que o rei de Angola enviou a Lisboa em 1557. Em 1559 partiram Paulo de Novais e quatro jesuítas e foram recebidos pelo novo rei com menos cordialidade do que a prometida, ficando bastante isolados. Autorizado a regressar a Portugal em 1567, Paulo de Novais preparou então esta segunda expedição ou missão, em que já ia como donatário, e começa a internar-se pelo sertão e a substituir-se ao rei de Angola na suserania de muitos sobas. Os jesuítas, por sua vez, encontram muita resistência à conversão, as tribos de Angola tendo as suas crenças e prática milenárias, e dedicam-se sobretudo ao ensino, enquanto a cidade de Luanda irá crescendo.
24-X. O P. Tomás Estêvão, o autor da Doutrina Cristã em concanim e da Puranna cristã, na qual utilizou ensinamentos do famoso tratado Yoga Vasistha, escreve neste dia em 1583 a seu irmão, prelector na universidade de Paris, referindo o martírio em Cuncolim do cristão indiano Afonso, por não querer largar o breviário, ao lado dos jesuítas italianos Rudolfo Aquaviva e Berno, porque em actos temerários e ofensivos "fora o primeiro a deitar fogo ao templo de Cuncolim. Tinha também morto uma vaca sobre o altar do ídolo, a fim de limpar o lugar das superstições populares". Diz sobre as línguas indianas, que estudara para fazer a sua Arte da Língua Canarim (impressa em 1640), "a sua pronúncia não é desagradável e a sua estrutura é relacionada com o grego e o latim e admirável nas suas frases e construções". Era um prenúncio dos estudos ocidentais do sânscrito que Sir William Jones irá 200 anos depois iniciar sistematicamente. Termina a sua admirável carta pedindo: "Oremos portanto, a Deus, para que nos conceda tirarmos proveito destes tempos calamitosos para fazer progresso na senda da virtude com toda a paciência e longanimidade e fazermos mais vigorosamente face à adversidade com as nossas forças juntas, de maneira que a própria tentação se possa tornar um meio de salvação".

Chega a Macau, vindo do Japão, o Visitador da Índia e Japão, o P. Alexandre Valignano (1539-1606), neste dia de 1594 e pouco depois, de acordo com o P. Mateo Ricci, decide que os jesuítas deixem de andar rapados e vestidos de monges budistas e passem a aparentar-se com os letrados confucionistas da China, sendo assim preterida a aproximação ao budismo e taoísmo, já que os monges a isso resistiam, valorizando-se antes o culto aos antepassados e a Confúcio. A conversão da China será a partir da capital Pequim e da corte imperial, onde os letrados e os governantes, mais curiosos do saber e dos objectos ocidentais (prismas, relógios), serão os primeiros prosélitos.

Karlfried Graf Durckheim com Swami Prabhupada e monges vaishnavas...
O vice-rei da Índia portuguesa Afonso de Albuquerque envia uma carta ao rei neste dia em 1512 recomendando o franciscano visionário João Alemão como "padre espiritual seu e pessoa que serviu a Deus e ao rei em guerras e hospitais".
António Galvão (1490-1557), nomeado capitão das Molucas após duas comissões na Índia, chega neste dia a Ternate em 1536 e inicia um triénio de administração íntegra e cooperação civilizadora (ocidental), fraterna e apostólica com as populações locais que o tornam conhecido como o Apóstolo das Molucas, sobretudo pelo seu reconhecimento da dignidade humana e por ter fundado um seminário que chegou aos 80 alunos. O modo exemplar como governou, sendo tanto arrojado, como dialogante comandante, para além de justo juíz e inventivo pai, materializou-se ainda por fazer construir em Ternate casas "ao modo de Espanha" e começar o cultivo e a irrigação de hortas, jardins, pois como nos conta Gaspar Correia nas suas Lendas da Índia levara "mulheres para lá casarem, e pedras de atafona, e serras e machados e ferro e aço e todas as coisas que houve informação que havia de haver mister em Maluco".
O P. Azevedo, o irmão Manuel Marques e o P. Oliveira chegam à capital de Ladak, Leh, em 1622, sendo recebidos amistosamente pelo rei tibetano que os autoriza a pregarem no seu reino. Ainda hoje os mosteiros budistas de Ladak, no Caxemira indiano, conservam o seu ambiente medieval único, ainda mais raro e valioso depois da anexação do Tibete pela China.
Desembarca neste dia em Cascais em 1663 o P. Manuel Godinho, ao fim de quase um ano de viagem, trazendo cartas do vice-rei António Melo e Castro contra a cedência de Bombaim aos ingleses. Escreverá a Relação do Novo Caminho que Fez por Terra e por Mar vindo da Índia a Portugal no Ano de 1663, obra notável de aventuras e registos de indianos e mouros: "Há nas cidades da Pérsia altas e soberbas mesquitas com alcorões, que correspondem às nossas torres dos sinos, tão levantados que vão às nuvens. A estes alcorões sobe quatro vezes no dia o telismano ou muezim, que é o tesoureiro da mesquita, e virado para o Oriente, pondo as mãos nas orelhas, começa a gritar com uma voz alta, sentida e vagarosa, pronunciando estas palavras, que a todos os mouros são comuns: Alá Hec Bar Axabel Alá Hélé e Helá Mahameth Rasur Alá (Deus grande, não há outro Deus, Mafamede é embaixador de Deus)".
Natural da Covilhã, António de Sousa parte aos 19 anos como jesuíta para a Índia, aos 26 de idade entra no Japão disfarçado e por fim morre em Nagasaki, neste dia em 1633, mártir, depois de nove dias tremendos no tormento das covas, pendurado da cabeça para baixo.
Nasce em Hakodate, no Japão, em 1906, Kazuo Ohno e será desde 1959 em Tóquio o co-fundador, com Hijikata, do Butoh, uma dança-teatro-mímica impressionante pelo seu intenso e depurado expressionismo e interioridade. Viverá longamente, dando provas do valor da expressão psicocorporal, até 1-VI-2010.

28-X. Desidério Erasmo nasce em 1466 em Roterdão, de um padre e de uma filha dum médico, e desde cedo deu sinais do seu génio. Dando à luz sucessivas obras de crítica textual, sabedoria e ensino, bem como traduções de textos da tradição clássica pagã e sobretudo dos primeiros Padres da Igreja, e valorizando uma religiosidade de razão e amor, torna-se o mestre incontestado do humanismo e da cristandade europeia no Renascimento. Entre os portugueses será amigo de Damião de Góis e inspirará ou influenciará André de Resende, Frei Valentim da Luz, João de Barros, Diogo de Teive e outros. A sua crítica dos costumes desvairados da Igreja, propondo uma religião de piedade, não-violência, veracidade, suscitou a proibição no Index de muitas das suas obras, ainda que variando conforme as limitações das ditas infalibilidades papais ou dos censores locais. Dirá: "O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem o com que autorizar os nossos vícios?" Dirá ainda: "Há muita distância entre guerra e latrocínio, entre dilatar o reino da fé e aumentar a tirania deste mundo, entre buscar a saúde das almas e perseguir o botim de Mafoma. Das terras descobertas trazem-se ouro e pedras preciosas, mas mais digno de louvor seria levar lá a sabedoria cristã que vale mais que o ouro". Publiquei nas publicações Maitreya a tradução (com Álvaro Mendes), comentada da sua obra Modus Orandi Deum, Modo de Orar a Deus, bem recomendável.E neste blogue dediquei-lhe vários artigos e traduções. Um amigo para a Eternidade....

O imperador mogol Jahangir, filho de Akbar, de quem o P. Jerónimo Xavier esperava que «Deus obraria nele um grande milagre», e que foi bastante amigo do Cristianismo, chegando a praticar a posição em cruz com os braços e a assinar cartas com símbolos cristãos, morre neste dia em 1627. Foi um grande conhecedor e patrono das artes, especialmente da pintura que atingiu grande subtileza e perfeição, tendo também muita arte europeia chegado então à Índia. Reinou moderadamente, embora algo entregue ao vinho, ao ópio e ao amor, desde 1605, e o filho Shah Jahan ascende ao trono, em Agra, em Fevereiro de 1628.
29-X. O Padre jesuíta Gaspar Vilela em carta de 1557 de Hirado no Japão, critica com certa agudeza o suicídio, hara-kiri, ou seppuku, dos nobres por ordem do seu senhor: «São ardis do demónio, para dar-lhes maior tormento, por haver-se eles morto», anima-se com uma anciã «que serviu-nos com tanta caridade e alegria que parece que víamos nela aquele grande fervor que nos novamente convertidos da primitiva igreja resplendecia», e com um cristão que no meio duma serra «vendo-nos se lançou aos nossos pés com tanta alegria que bem dava mostras no exterior do que tinha dentro». A tendência ao suicídio, em parte derivada da negação da imortalidade da alma pela filosofia zen, já então discutida entre S. Francisco Xavier e o abade Ninjit, culminará talvez com os kamikases da 2ª grande guerra .
João Heitor de Ataíde, foi natural de Aldoná, na Índia, e veio a ser capelão da universidade de Coimbra e professor de Direito Canónico e membro da Classe de Ciências Morais e Sociais em 1884. Escreveu sobre a alma humana, sobre os mistérios do Génesis, ao mesmo tempo que procurou aliviar o sofrimento do próximo com várias obras de assistência e a sua irradiação pessoal, que o tornaram muito amado, até sair cedo deste vale de meias luzes e sofrimento com 44 anos, em 1888.
31-X. Nasce nas margens do Mondego em 1345 o rei D. Fernando, filho de D. Pedro I e da rainha Constança, e foi denominado o Formoso. Apoiou bastante a construção e o comércio e os seguros navais, criando também uma companhia na qual havia alguns barcos que eram seus. A sua lei das Sesmarias, fomentando o trabalho agrícola, continua a ser um arquétipo necessário de actualização. A sua paixão pela formosa Leonor Teles foi pouco aceite e com a sua morte em 1383 entrou-se na crise dinástica com a qual findou a primeira dinastia, a de Borgonha, e da qual emergirá a de Aviz, com o mestre da ordem de Aviz, D. João I. O seu belíssimo túmulo encontra-se no museu arqueológico do convento do Carmo.
O frade Martinho Lutero afixa nas portas da igreja de Wittemberg neste dia em 1517 as suas 95 teses de crítica às doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana, iniciando a cisão protestante. Roma reage e à secura da Reforma protestante opor-se-á o exacerbamento da Contra-Reforma, com a Inquisição, os jesuítas, a censura. Fendida a unidade cristã, os nacionalismos mercantis emergem triunfantes e os países do norte e sul da Europa enfrentar-se-ão o tempo suficiente para alterar por completo o domínio ibérico no mundo. Algo agarrados à justificação pela fé em Jesus, perderam o contacto com Maria, os santos e santas e os Anjos, secando um pouco a devoção.














