Continuando a respigar das florescências semeadas pacientemente por Dalila Pereira da Costa na suas Raizes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, entro na comparação entre as duas teorias cosmológicas que se enfrentaram no Renascimento, a que vira o Universo e os planetas animadas pelas inteligências angélicas e a que o via como mera harmonia de forças mecanicistas. Dalila, depois de citar constantemente Avicena Dante que expõem a presença activa dos Anjos nos seus relatos ascensionais iniciáticos, opera em Camões uma hermenêutica original da ninfa Tétis, e das ninfas dadas aos heroicos navegantes, fugindo ao estereotipado "maravilhoso pagão" com que tantos comentadores banalizaram o relato e considerando-as Anjos, inteligências angélicas. Oiçamos a querida amiga Dalila Pereira da Costa, agora já não sibila que nos recebia nos seus dominios portuenses e durienses mas alma mestra no corpo espiritual da Humanidade, interrogando e demandando altos níveis do conhecimento, para que possa a nossa relação com os Anjos e logo o auto-conhecimento e iniciação espiritual, nossa de Portugal e da Humanidade melhorar, nestes tempos cruciais em que as forças da mentira e da violência, ou seja do mal, estão cada vez mais expostas nos USA, Israel, NATO e UE, numa luta de morte contra a multipolaridade e a dignidade humana, e cremos a Providência Divina. Breves acrescentos meus entre [...], e sublinhados.
«Camões, tal como Avicena e Dante, teria deixado todo um conhecimento escatológico antropológico e astronómico, incluso nesse relato cifrado sob as imagens do nosso mundo. Pois que a conexão entre uma iniciação, como conhecimento perfeito e último [ou quase] concedido à alma pelo seu guia celeste, e o conhecimento astronómico por este simultaneamente concedido, estará presente semelhantemente no relato do filósofo místico árabe [certo, é persa], do poeta português e do poeta italiano: o conhecimento das esferas celestes, marcando finalmente este percurso. [Ou seja o processo iniciático ascensional culmina na contemplação da Harmonia das esferas planetárias e das suas inteligências celestiais, e mesmo do Sol da Divindade.]
Nesta máquina do mundo, construída segundo o ensino de Ptolomeu e dos peripatéticos, oito esferas concêntricas e envolventes, terão como centro a Terra, sete delas dos planetas e a oitava das estrelas fixas [das constelações, também chamada o Firmamento], uma última dando-lhes todo o movimento [que teria como móbil ultimo o desejo de unidade com o Empíreo, plano da Divindade e dos Bem-aventurados]. Cada esfera movendo-se, segundo os peripatéticos, por uma Inteligência divina, que está em relação com essas esferas como a Inteligência agente [ou o anjo da guarda] para cada alma humana.
Só este paralelismo antropológico e cosmológico, poderia justificar e explicar esta visão planetária integrada na exposição profética da história portuguesa por Tétis; e mais latamente integrada num processo de iniciação concedida nessa ilha angélica, que de outro modo seria difícil nela incluir. Camões, tal como o filósofo islâmico Avicena apresentando aqui a astronomia inseparável da angeologia. E será esta união que com a revolução de Copérnico sofrerá uma ruptura irreversível, que marcará os tempos modernos da Europa; doravante, os céus ficando vazios das presenças angélicas, como laicização do cosmos.
Camões surgindo ainda em meados do século XVI, como representante e defensor desta concepção anterior, então a ser preterida do pensamento ocidental. A adopção da teoria de Copérnico, com o abandono daquela de Ptolomeu, arrastaria consigo, como revolução cosmológica, toda uma revolução escatológica. Pois que toda essa anterior cosmologia era solidária de uma angeologia, incluindo sua teoria da Inteligência agente em diálogo com a alma humana. O que o novo sistema iria combater, seria justamente a prerrogativa do Anjo no acto do conhecimento e na economia do cosmos.
Ora é ainda precisamente esta cosmologia ptolomaica regida pela presença dos anjos condutores das esferas celestes e, com seu conhecimento, das almas humanas para sua salvação, o que Camões nos apresenta. Digamos no contexto cultural e religioso da Europa de então, de modo visivelmente anacrónico, ou conservador. Esta presença angélica, representada aqui sobre a terra paradisíaca pelas ninfas [quais huris islâmicas, do paraíso Jannah, diremos, quem sabe se por Camões também tido em conta e que Dalila não ousou escrever], com seu dom de conhecimento supremo [ou elevado] e de eternidade para os homens, numa epopeia de pelo Renascimento, nos levará a ver nela uma marca de avicenismo; ainda para além de certa influência do poema de Dante.»
| As esferas planetárias no Tratado da Esfera de Pedro Nunes |
Dalila concluirá assim lamentando que a visão dos «Planetas movidos por forças angélicas, animae coelesti, cosmos de estrutura religiosa-animista» tenha sido substituída pelas das forças físicas, equacionadas matematicamente as quais dispensam existência de almas angélicas moventes dos planetas e que Kepler (1571-1630) viveu em si mesmo, confessando posteriormente: «antes eu acreditava que a força que fazia girar os planetas era realmente uma alma... Mas considerando que esta força motriz diminui a uma grande distância, conclui que devia ser material» (Opera 1. p. 176).
E nós, deixaremos que as distâncias véus, descrenças e dúvidas nos façam perder a ligação com o Anjo, a Inteligência Agente, o Espírito Santo?
Dando graças à Dalila, a Avicena, Dante e Camões, saibamos ler e reler, orar e cantar, meditar e amar, para que os Anjos nos possam inspirar e abençoar!





