Comemorando-se hoje mais um aniversário da partida da soror Catarina de Ricci, a 2 de Fevereiro de 1590, para os mundos espirituais, aproximemo-nos com admiração e amor de alguns aspectos da sua vida e obra, e lembrando que no blogue encontram-se dois textos sobre ela e as comemorações da sua canonização.
Nascida a 23 de Abril de 1522, numa família nobre florentina, numa casa chamada Riccardi, algo santificada pois nela a 19 de Junho de 1341 morrera S. Juliana Falconieri, foi baptizada no dia seguinte com o nome Alessandra Lucrezia Romola, e desde cedo mostrou as suas inclinações religiosas e piedosas e, ao que parece, estimulada pelo Anjo da Guarda que a acompanhava de muito perto.
![]()
Santa Juliana Falconieri
Morrendo a sua mãe muito cedo, aos 4 anos, o pai Pierfrancesco de Ricci casou-se com Fiammeta Diacceto, filha do humanista Francesco Diacceto, amigo e discípulo de Marsilio Ficino, a quem este ao morrer, recomendara a continuação no labor da filosofia de Platão, de quem ele traduzira do grego para latim a opera omnia. Deste casamento nasceram quatro irmãos e cinco irmãs, elas todas vindo a entrar no mosteiro do Prato.
Fiammeta compreendeu facilmente quão elevada era a almazinha que lhe competia agora ajudar nos seus voos religiosos e piedosos, mas após algum tempo reconheceu mesmo ser ela quem se estava a tornar a sua mestra. Apoiaram-na assim quando ela quis ser educada por algum tempo num convento beneditino, cuja abadessa era uma sua tia, irmã do pai, Ludovica de Ricci.
Aí o seu maior gosto era rezar e contemplar diante de uma representação de Jesus na cruz que muito a tocava. Aprendendo da sua tia e abadessa a rezar cinco Pai Nossos intercalados com a meditação nos cinco mistérios principais, Jardim de Gethsemane, Flagelação, Coroação dos espinhos, a via sacra da cruz e a crucificação e deposição, sentia tão fortemente o que imaginava interiormente que o seu corpo e face assumiam empática e supra-sincronicamente o sofrimento do mestre.
No mosteiro não se sentiu contudo acompanhada por religiosas que estivessem verdadeiramente no árduo caminho da perfeição, através da renúncia, da penitência, da abnegação, pois davam-se a certos gostos mesmo que religiosos que não se compadeciam com a regra de pobreza, algo que na época o austero Savonarola (1452-1498), de quem ela muito gostava ou admirava, numa carta a Pico della Mirandola (1463-1494), condenava como vaidades ou trivialidades, tais a decoração da cela, o breviário iluminado, as roupas, etc., pelo que regressou a casa dos pais, e começou a procurar um outro local recatado onde pudesse avançar na exigente ascensão cristã a que se sentia chamada.
Será o Mosteiro de S. Vicente do Prato, da Ordem dos Pregadores, ou dominicanos que a irá acolher e para sempre, recebendo em 18 de Maio de 1535 o hábito, o véu e o nome de Catarina, e nesse momento festivo recebeu logo uma visão bem inspiradora em que foi levada a um campo paradisíaco onde Jesus e Maria lhe apareceram e lhe deram a sentir o imenso amor divino que recebe quem renuncia às atrações ou alegrias do mundo. Viu ainda que havia no convento várias sorores cujo estado de perfeição ou santidade era tão grande que eram autênticos altares onde incessantemente era oferecido o sacrifício do fogo do amor.
Iniciava bem apoiada por esta visão um noviciado, quando tinha apenas 13 anos, que foi bastante difícil mas que conseguiu cruzar e no ano seguinte professar. No meio das suas doenças e difícil adaptação à vida mais activa do convento, o espírito de Savonarola manifestar-se-á de novo, pois como algumas sorores tinham culto por ele, e havia relíquias suas, um dia que estava mais uma vez muito doente, arrastou-se de noite até ao altar que albergava as relíquias, rezando fervorosamente e adormecendo, recebendo então uma visão forte de três frades dominicanos. Ao mais alto ela se dirigiu, perguntando quem sois vós, ao que ele respondeu, "a quem é que tu oraste para te curar? - Eu sou Jerónimo Savonarola e vim aqui para te curar. Mas terás de prometer obedecer sempre aos teus superiores e confessores, e amanhã confessares-te e comungares". E fez em seguida o sinal da cruz sobre ela e Catarina, acordando, viu-se curada, dando muitas graças, compondo mesmo uma Lauda aos três santos que a visitaram.
As suas doenças, desmaios, abstrações e raptos que até então suscitavam desconfianças, depois da confissão com Padre Timóteo, do que ela sentia ou recebia nesses momentos seja de Jesus e Nossa Senhora seja de santos, santas e Anjos, diminuíram, ficando a jovenzinha entregue ainda à irmã superior Madalena Strozzi a quem deveria contar diariamente tudo o que vivesse na sua interioridade, tal como a ele, o que Catarina passou a fazer.
Quando em 1540 sofreu um ataque da epidemia de sarampo, de novo esteve entre a vida e a morte e outra vez Savonarola veio até ela de noite, dizer-lhe que "gostaria de lhe salvar a vida, se tal fosse a vontade de Deus", fazendo então vários sinais da cruz sobre ela, no fundo transmitindo energias subtis curativas, e dizendo-lhe que não se devia levantar senão quando o enfermeiro autorizasse.
Vieram ainda outras doenças ou sofrimentos, curados uma vez por uma visão e intervenção de S. Tomás de Aquino, e outra pela aplicação das relíquias de Savonarola sobre ela.
Na Páscoa de 1541 ao chegar-se à cruz que estava na capela do jardim teve uma visão fortíssima do sofrimento de Jesus crucificado, com pormenores extraordinários, tais o cabelo e a barba ensanguentados, os braços quase para o céu e o o tronco para baixo como se fosse partir, o sangue jorrando da chaga do lado e, no pé da cruz, uma poça de sangue e algumas mulheres lamentando-se. Foi a custo que se desprendeu da visão e do local, e regressou à sua cela onde o peso de tal sofrimento a prostrou por dez dias.
Um mês depois teve a visão de Maria Madalena e Jesus visitarem-na na sua cela, resplandecentes, e pode beijar os pés e a chaga do lado. E a 6 de Junho de 1541 vivenciou a mudança do coração: após a comunhão, entrou num estado de rapto e foi levado à presença de Nossa Senhora que pediu a Jesus que lhe concedesse o que ela há tanto tempo pedia: um novo coração, ao que Jesus acedeu, no modelo de Maria, sentindo logo uma nova vida a circular em si, a elevando-a muito de vibração, confessando até que passou a alimentar-se de respirar um ar ou energia celestial.
No ano seguinte, em Fevereiro de 1542, começa a sentir intensamente, com a formação de marcas ou estigmasno seu corpo, os sofrimentos que Jesus passou na Paixão, mais concretamente do meio dia de Quinta-feira santa até Sexta-feira à noite, o que se repetirá durante dez anos, atraindo muitos religiosos e quem recebia licença para observarem tal transfiguração e mímica gestual que comovia e convertia muita gente, tanto mais que por vezes pronunciava certas exortações às freiras ou a pessoas, e noutras invocava Jesus, ou rezava por elas ou todos.
Esta relação íntima compassiva e mimética de Jesus, pela sua grande entrega interior e certamente por graça do Alto, fez-lhe surgir os estigmas, que outras pessoas chegaram a ver ora em luz, ora em ferida, ora em crosta.
Tais êxtases da paixão tornaram-se tão famosos que o Provincial, o P. Francisco Romeo di Castglione e depois o Geral da Ordem, P. Alberto de las Casas, tiveram que a visitar para se certificarem de genuinidade ou não do que se passava, e homens doutos como eram, ao renderem-se à sua humildade, simplicidade e sabedoria, e ao sentirem poderosamente os seus êxtases transfigurativos aprovando-nos como reais, não permitiam que de ânimo leve se pusessem em dúvida tais ocorrências da graça divina, ainda que tal viesse a suceder.
É o caso do seguinte Provincial, o P. Nicholo Michelozzi que duvidou e quis também ele certificar-se. Chegando ao convento perguntou por Catarina e respondendo-lhe uma freira, que ela estava em êxtase, e com a mão sobre a cabeça, disse-lhe: - vai à sua cela, põe-te diante dela de joelhos, com as mãos dentro do hábito. Assim fez a soror Eufrazia Masalzoni e Santa Catarina levantou a sua mão e abençoou-a por três vezes na testa, e puxando-a, abraçou afectuosamente e despediu-a. Chegada esta ao Provincial e narrando-lhe o que se passara, este deu graças ao Espírito de Deus que estava nela, pois S. Catarina fizera tudo o que ele pedira interiormente.
Outros casos, impressionantes, de dissipação de dúvidas ou de conversão de incrédulos sucederam, tal o da soror Gabriel Mascalzoni, que viu na sua face a face de Jesus, mas alongaríamos demasiado este texto. Anote-se a justificação de Catarina: «Não sabeis que quem está em Amor-Caridade está em Deus, e Deus nele?»
Outro dos acontecimentos das grandes místicas, tais S. Catarina de Siena, S. Teresa de Ávila, S. Madalena de Pazzi, S. Inês de Langeac, é a experiência interior da união nupcial com Jesus, o que sucedeu a Catarina em 9 de Abril de 1542, dia da Páscoa, quando recebeu na sua cela Jesus, Maria, Maria Madalena, S. Tomás de Aquino e Savonarola, acompanhados de anjos musicais. Maria pediu a Jesus que a aceitasse como sua esposa, e este segurando a mão de Catarina tirou um anel de ouro brilhante da sua e pô-lo no indicador esquerdo, dizendo-lhe que doravante pertencia-lhe. Sem conseguir falar, foi a música dos anjos que ressoou então, e Jesus, ainda antes de despedir-se, recomendou-lhe as virtudes monacais e deu-lhe a sentir a felicidade divina. Embora o anel passasse a estar sempre visível para a S. Catarina, apenas algumas pessoas recebiam a graça de o ver.
Passado pouco tempo teve uma nova visão fortíssima de Jesus desprendendo-se da cruz que tinha na sua cela e vindo de braços abertos até ela, e dizendo-lhe que se queria refugiar nos seus braços e pedia à comunidade três procissões para diminuir os males ou crimes que tanto o entristeciam. Entrou num estado extático demorado e assim foi surpreendida e reverenciada pelas monjas. Foi S. Catarina que levou o crucifixo durante a primeira procissão, e tal cruz desde então foi muito venerada, ainda hoje subsistindo.
A sua correspondência com a família e pessoas amigas foi também um meio de serviço espiritual e de harmonização começado então a realizar com bastante amor e sabedoria como podemos observar nas cartas conservadas, e que são muitas, com expressões de saudação bem valiosas, tais: «Eu, Soror Catarina, saúdo-o no amor de Jesus Cristo - desejando que em vós, meu pai, esta santo amor esteja perfeito; pois é ele que nos mantém em união com Deus, e nos torna queridos e aceitáveis por Ele, e que também nos guia em todas as nossas acções com vizinhos, quer superiores, iguais ou subordinados.» ou ainda noutra carta: « Possa Jesus estar sempre no meio do seu coração, e inflamar-vos com o seu Amor sagrado, que é o que de mais elevado posso desejar para si.»
A fama das suas transfigurações nas quintas e sexta-feira santas atraíram muita gente, e os enviados papais vibraram também com elas e aceitaram-nas como sobrenaturais, reconhecendo igualmente nela uma sabedoria divina. Assim, em 21/12/1547, aos 26 anos foi eleita como sub-prioresa, e encarregada de ensinar as noviças, e começou um magistério bem valioso, seja de intercessão por almas, seja de cura e aconselhamentos, seja de orientação espiritual, e tão apreciado por todos que cinco anos depois em 1552 foi eleita unanimemente Prioresa, o que aceitou com muita relutância e humildade. E como tal função era bastante mais absorvente pediu fervorosamente a Deus que lhe fizesse cessar os sinais da sua empatia com a paixão do mestre, o que terminou em 1554, embora continuasse sempre a ter momentos de visões fortes e êxtases, nomeadamente na Comunhão, nas orações da tarde ou mesmo no refeitório.
(Continua, mas saudemos santa Catarina e peçamos as suas bênçãos...



















