terça-feira, 18 de agosto de 2026

A união do ser humano com o seu Duplo Celeste ou a Natureza Perfeita, em Camões, na Ilha alegre e namorada, ou do Amor iniciático.

Um dos capítulos mais importantes da valiosa hermenêutica d'Os Lusíadas realizada pela Dalila Pereira da Costa é intitulado o Duplo Celeste ou a Natureza Perfeita e nele ela cinge mais nua ou directamente o mistério do espírito e do Anjo, em Camões, e pena é que tendo-se realizadas várias comunicações ou palestras nas recentes comemorações camonianas, a sábia e algo heterodoxa Dalila nunca tenho sido referida. 
Façamos-lhe justiça e transcrevamos o capítulo na sua totalidade: 
«Neste episódio da Ilha Namorada, coroando a epopeia de Camões, o que haverá é essa sabedoria oriental; e na sua angeologia própria uma possível suspeita de heterodoxia para o mundo ocidental cristão; pois colocando em causa o seu monoteísmo e todo o dom de revelação e imortalidade doada aos homens pela sua perfeita união, identificação com o Cristo da Ressurreição e fonte de toda a Revelação. Imortalidade e revelação que, nessa outra sabedoria oriental, lhe será doada na sua perfeita união, identificação com o seu Anjo.

[Dalila valoriza assim na gnose e sufismo islâmico - a sabedoria oriental- , que perpassa em Avicena e em Camões, a ligação de cada alma ao Anjo, ao seu Anjo, contrastando-a com a doutrina ortodoxa cristã que tem apenas em Jesus o intermediário. Quanto já a colocar em causa o monoteísmo, não nos parece tanto, mas sim mais a Trindade, sem que os Anjos e demais espíritos celestiais, embora de algum modo deuses, não anulem a primordialidade Divina ou mesmo a sua Providência por eles realizada nas esferas pluridimensionais do Universo.]

Alquimia, mística, profecia e angeologia pedagógica se ligando neste processo. Pois aquilo que cada navegante e seu capitão realizam nesta ilha será o acto supremo de conhecer seu anjo e com ele se unir, para sua imortalidade. A alma só tomando consciência de si mesma, como Anima, poderá conhecer o seu anjo, ou duplo celeste. Ascese e auto-conhecimento, como prova necessária, de que a imagem e cenário será essa sua subida através dum mato «árduo, difícil, duro a humano trato». E ainda depois, a doação aos homens seus semelhantes, do conhecimento de revelação aí merecido e exaurido.
Será, supomos, esta suspeita de heterodoxia, que teria levado Camões à forma críptica com que revestiu uma sabedoria iniciática neste episódio. E sabedoria que estará dada e transmitida sob a imagística primeira, comum e aparente, dum bucolismo renascentista e duma mitologia e cenografia naturalista, tal a da Antiguidade clássica. A nostalgia do Paraíso vertendo-se no Renascimento muito preferentemente em formas bucólicas e pastoris.

[Dalila acentua a unicidade relacional de cada alma, com o seu anjo, ou duplo celeste, constituindo ela o cerne da imortalidade. A viagem é iniciática tanto pelo auto-conhecimento como pela ascese e coragem que os argonautas têm de manifestar para chegarem à ilha e ao seu Anjo. E assinala a prudência com que Camões revestiu de aparência bucólica e mitológica a sua visão esotérica ou iniciática, algo heterodoxa para a Igreja Católica.]

Assim, nos pares de Navegantes e Ninfas que realizam seu enlace pelas «sombras, antre as flores» e seu capitão e Tétis, que o realizam nos «altos paços», se esconderá, sob uma primeira e fácil imagem erótica, o mais exacto processo espiritual de comunhão, como enlace dum ser humano, imortal e angélico, em díade: como perfeição já atingida sobre a terra, antes daquela na morte. A natureza não terrena destas ninfas e seu dom aos navegantes, o dirá Camões, quando da partida da ilhas:
«Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente
                 Por mais que o Sol o Mundo aquente».  C. X, 143.

[Dalila faz uma exegese bastante ousada ao considerar como «o mais exacto processo espiritual de comunhão» não a relação com o Mestre mas sim o «enlace dum ser humano, imortal e angélico, em díade», com a sua contraparte angélica, e vai mais longe de novo no seu voo algo heterodoxo, enaltecendo-a «como perfeição já atingida sobre a terra, antes daquela na morte», parecendo assim erguer o iniciado ou unido à sua natureza celeste acima do comum cristão que aguardará por uma perfeição post-mortem. Como se ver e unir-se a tal natureza seja em si o principal.]
Ninfas, como duplos celestes e iniciadoras: e entre todas a «Mor», da qual Vasco da Gama, é o companheiro na subida à montanha cósmica, como viagem ascética e mística. Subida, em ascensão mental, Tétis surgindo aqui na mesma função gnóstica e soteriológica do Arcanjo Gabriel nas visões de Daniel, do Arcanjo Uriel no Livro V de Esdras, do Arcanjo Gabriel em Tobias e o Anjo do Antigo Testamento, de Beatriz na Divina Comédia, ou de Hay ibn Yaqzan no relato visionário de Avicena. Tétis será aqui como este personagem do mestre islâmico, o Vivens e Vigilans, tal como o seu nome indica. Havendo n'Os Lusíadas, como nesse relato da sabedoria oriental islâmica [de Avicena], uma angeologia fundamental, ela ainda partindo duma pneumatologia: que por ela, revelará todo o parentesco celeste da alma humana.

[Dalila realça a função iniciática do Anjo, de Beatriz e de Tétis, relembrando também textos hebraicos que a contém nascidos do contacto ou influência da pneumatologia e angeologia persa, e aponta para a identidade celestial do espírito humano que lhe permitirá a união com o seu Anjo, em "ascensão mental", ou  meditação, o que cada um de nós deve um dia merecer, ad astra per aspera e conseguir, assumir o mais indelevelmente possível.]

Notemos ainda em relação a Camões, uma só e unânime concepção antropológica e escatológica, presente, actuante e estruturante em toda a sua poesia, lírica, e épica. Para o poeta, a alma minha gentil» que subiu ao céu, tal Beatriz para Dante, e as mulheres amadas por todos os Fedeli de Amor, são suas metades angélicas e iniciadoras no mais alto mistério, o do conhecimento pelo amor.

[Eis uma das mais ousadas hermenêuticas da Dalila, em especial se a aplicássemos a todas as mulheres amadas por Camões: em todas estaria a ver a sua metade angélica, ou apenas nas que amou mais, ou em especial nos poemas em que tal veio ou tradição dos Fiéis do Amor se aperfeiçoou mais?
Algumas vias hermenêuticas de se aprofundar tal sentir e ver celestial na relação amorosa: Luís de Camões, na sua relação amorosa, vê a natureza celeste da amada? Ou graças a esse amor recíproco, a natureza celeste de cada um dos pares vem ao de cima ou torna-se sensível, perceptível? Ou são as mulheres que transmitem essa possibilidade de ligação com o Anjo ou natureza celestial delas?]
No regresso à pátria, como prémio do acto heróico da descoberta desse caminho do Oriente terrestre, o que ganham os navegantes lusíadas na Ilha do Amor, será sua natureza perfeita, como completude terrena e celeste, que lhe concederá a eternidade. Esse, o prémio que lhe irão também levar a seus semelhantes na pátria amada e por ela, ao mundo. Oculto no primeiro sentido humano e naturalista, o que se conterá nesses dois últimos cantos da Epopeia, como relato realizado e concedido complementarmente em dois registos paralelos e harmónicos, será de facto uma angeologia, que por ela, completará o total sentido dessa Epopeia.
Havendo assim, entre as múltiplas e todas as legítimas leituras desses dois episódios últimos, como leitura histórica, mitológica, geográfica, literária, filológica ... uma outra possível, hermética, por acto de exegese dos símbolos. E que neste episódio atingirá todo o seu sentido de liturgia: como arte hierática, tendo como fim a transmutação do homem. Só depois dessa transmutação, os heróis poderão regressar à pátria.
Demanda do Oriente qual a via? Perguntará o gnóstico, filósofo hermético ou iniciado. Camões, como um deles, a encobre nessas vestes ou roupagens de nosso mundo natural; e depois ainda a dá como etapa necessário para esse regresso à pátria terrestre, como dom supremo concedido pela Ninfa mistagoga a esses heróis navegantes.
Podei-vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, pera a Pátria amada.
Assim lhe disse; e logo movimento
             Fazem da Ilha alegre e namorada. C. X, 143.


[Dalila explicita de novo que toda a simbologia e liturgia hierática dos dois cantos finais tende à transmutação (e iniciação) do homem, e o que os argonautas iniciados receberam é «a  sua natureza perfeita, como completude terrena e celeste», a qual lhes concede a eternidade, ou dito de outro modo, com a qual eles viverão eternamente ,e que levam consigo no regresso para partilhar com os portugueses. 
Quantos a conseguiram conservar, quantos a conseguiram  receber dos iniciados Luís de Camões, Vasco da Gama e navegantes, directamente por transmissão viva, ou através de subtis transmissões e intuições ao longo de tantos séculos de leituras e exegeses de Os Lusíadas?]

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A Ilha do Amor, dos Lusiadas, e a iniciação do herói e dos navegantes pelas Ninfas, Húris ou Anjos. Avicena, Dante e Camões, mestres espirituais.

                                                 

Continuando a respigar das florescências semeadas pacientemente por Dalila Pereira da Costa na suas Raizes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, entro na comparação entre as duas teorias cosmológicas que se enfrentaram no Renascimento, a que vira o Universo e os planetas animadas pelas inteligências angélicas e a que o via como mera harmonia de forças mecanicistas. Dalila, depois de citar constantemente Avicena Dante que expõem a presença activa dos Anjos nos seus relatos ascensionais iniciáticos, opera  em Camões uma hermenêutica original  da  ninfa Tétis, e das ninfas dadas aos heroicos navegantes, fugindo ao estereotipado "maravilhoso pagão" com que tantos comentadores banalizaram o relato e  considerando-as Anjos,  inteligências angélicas. Oiçamos a querida amiga Dalila Pereira da Costa, agora já não sibila que nos recebia nos seus dominios portuenses e durienses mas alma mestra no corpo espiritual da Humanidade, interrogando e demandando altos níveis do conhecimento, para que possa a nossa relação com os Anjos  e logo o auto-conhecimento e  iniciação espiritual, nossa de Portugal e da Humanidade melhorar, nestes tempos cruciais em que as forças da mentira e da violência, ou seja do mal, estão cada vez mais expostas nos USA, Israel, NATO e UE, numa luta de morte contra a multipolaridade e a dignidade humana, e cremos a Providência Divina. Breves acrescentos meus entre [...], e sublinhados.

«Camões, tal como Avicena e Dante, teria deixado todo um conhecimento escatológico antropológico e astronómico, incluso nesse relato cifrado sob as imagens do nosso mundo. Pois que a conexão entre uma iniciação, como conhecimento perfeito e último [ou quase] concedido à alma pelo seu guia celeste, e o conhecimento astronómico por este simultaneamente concedido, estará presente semelhantemente no relato do filósofo místico árabe [certo, é persa], do poeta português e do poeta italiano: o conhecimento das esferas celestes, marcando finalmente este percurso. [Ou seja o processo iniciático ascensional culmina na contemplação da Harmonia das esferas planetárias e das suas inteligências celestiais, e mesmo do Sol da Divindade.]

Nesta máquina do mundo, construída segundo o ensino de Ptolomeu e dos peripatéticos, oito esferas concêntricas e envolventes, terão como centro a Terra, sete delas dos planetas  e a oitava das estrelas fixas [das constelações, também chamada o Firmamento], uma última dando-lhes todo o movimento [que teria como móbil ultimo o desejo de unidade com o Empíreo, plano da Divindade e dos Bem-aventurados]. Cada esfera movendo-se, segundo os peripatéticos, por uma Inteligência divina, que está em relação com essas esferas como a Inteligência agente [ou o anjo da guarda] para cada alma humana.

Só este paralelismo antropológico e cosmológico, poderia justificar  e explicar esta visão planetária integrada na exposição profética da história portuguesa por Tétis; e mais latamente integrada num processo de iniciação concedida nessa ilha angélica, que de outro modo seria difícil nela incluir. Camões, tal como o filósofo islâmico Avicena apresentando aqui a astronomia inseparável da angeologia. E será esta união que com a revolução de Copérnico sofrerá uma ruptura irreversível, que marcará os tempos modernos  da Europa; doravante, os céus ficando vazios das presenças angélicas, como laicização do cosmos.

Camões surgindo ainda em meados do século XVI, como representante e defensor desta concepção anterior, então a ser preterida do pensamento ocidental. A adopção da teoria de Copérnico, com o abandono daquela de Ptolomeu, arrastaria consigo, como revolução cosmológica, toda uma revolução escatológica. Pois que toda essa anterior cosmologia era solidária de uma angeologia, incluindo sua teoria da Inteligência agente em diálogo com a alma humana. O que o novo sistema iria combater, seria justamente a prerrogativa do Anjo no acto do conhecimento e na economia do cosmos.

Ora é ainda precisamente esta cosmologia ptolomaica regida pela presença dos anjos condutores das esferas celestes e, com seu conhecimento, das almas humanas para sua salvação, o que Camões nos apresenta. Digamos no contexto cultural e religioso da Europa de então, de modo visivelmente anacrónico, ou conservador. Esta presença angélica, representada aqui sobre a terra paradisíaca pelas ninfas [quais huris islâmicas, do paraíso Jannah, diremos, quem sabe se por Camões também tido em conta e que Dalila não ousou escrever], com seu dom de conhecimento supremo [ou elevado] e de eternidade para os homens, numa epopeia de pelo Renascimento, nos levará a ver nela uma marca de avicenismo; ainda para além de certa influência do poema de Dante.» 

As esferas planetárias no Tratado da Esfera de Pedro Nunes
Dalila finalizara este capítulo, relembrando que Camões conheceu na livraria dos Colégios augustinos de Coimbra a Geografia de Ptolomeu, difundido em Portugal pelo Tratado da Esfera de Sacrobosco, e depois pelo Tratado da Esfera de Pedro Nunes, também existente nos Colégios de Santa Cruz, e que «se ainda continuarmos a leitura das estâncias  que descreve a máquina do Mundo, ela nos concederá a via para toda a concepção de angeologia que impregna esta cosmologia ptolomaica: "porque a Santa Providência (...) Por espíritos mil que têm prudência/ Governa o mundo todo, que sustenta (...) Quer logo aqui a pintura, que varia, y agora deleitando, ora ensinando,/Dar-lhe nomes, que a antiga Poesia/ A seus Deus já dera fabulando; Que os Anjos da Celeste companhia, Deuses" o sacro verso está chamando.»

Dalila concluirá assim lamentando que a visão dos «Planetas movidos por forças angélicas, animae coelesti, cosmos de estrutura religiosa-animista» tenha sido substituída pelas das forças físicas, equacionadas matematicamente as quais dispensam existência de almas angélicas moventes dos planetas e que Kepler (1571-1630) viveu em si mesmo, confessando posteriormente: «antes eu acreditava que a força que fazia girar os planetas era realmente uma alma... Mas considerando que esta força motriz diminui a uma grande distância, conclui que devia ser material» (Opera 1. p. 176).

E nós, deixaremos que as distâncias véus, descrenças e dúvidas nos façam perder a ligação com o Anjo, a Inteligência Agente, o Espírito Santo?


Dando graças à Dalila, a Avicena, Dante e Camões, saibamos ler e reler, orar e cantar, meditar e amar, para que os Anjos nos possam inspirar e abençoar!

domingo, 16 de agosto de 2026

A visão do lume clarissimo, revelado pela Ninfa Angélica a Vasco da Gama, após a sua ascensão: o "Segue-me firme e forte, com prudência", como mantra da iniciação heróica de Vasco da Gama

  Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana,   1990, realizou uma hermenêutica valiosa de Camões e d'Os Lusíadas e do ser e missão Portugal, investigando com sensibilidade e originalidade as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas (nestas em especial a influência do mestre persa Avicena), demonstrando em sucessivos capítulos do seu livro ser a epopeia camoniana uma obra gnóstica e iniciática . Já lhe dedicamos três artigos e partilhamos neste último alguns dos parágrafos mais valiosos, dado que é obra esgotada e rara, e de uma querida amiga já nos mundos espirituais...

As influências do culto da Deusa Mãe, e sobretudo da tradição celta e irlandesa nas suas narrativas de viagens em busca das ilhas afortunadas e imortais são factos históricos, pelo menos nas traduções e adaptações que os monges de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra realizaram ou conheceram. Já os relatos visionários do médico e filosofo persa Avicena não o são tanto. Contudo Dalila assumirá a influência persa nem que seja pelo avicenismo da época e a  similitude das descrições contidas nele com as de Dante e a Divina Comédia,  Camões e os Lusíadas, citando até outro grande mestre iraniano Shorawardi e assim escreve com a sua sensibilidade, estilo e hermenêutica tão numinosa:
«Na chegada dos nautas à Ilhas, logo à primeira vista, «três fermosos outeiros se mostravam,/ erguidos com soberba graciosa», canto IX, 53. No Relato do Pássaro, de Avicena, são nove  os cumes da montanha cósmica, e no relato de Shorawardi, são onze, também como graus iniciáticos a vencer; aqui, no relato de Camões, estão resumidos a três, neles se dando sucessivos momentos duma única iniciação; como lugar privilegiado, nessa montanha, centro do mundo [ou axis mundi]. Sempre concedidos por Tétis, a ninfa «enchendo a terra e o mar de maravilha» ao capitão, em gesto de pedagoga sagrada, mistagoga:«Tomando-o pela mão o leva e o guia,/ pera o cume de monte alto e divino,/ No qual uma rica fábrica se erguia/ De cristal toda e de ouro puro e fino/ A maior parte aqui passam o dia/ Em doces jogos e em prazer contínuo;/ Ela nos paços logra seus amores,/ As outras pelas sombras, entre flores», canto IX, 87.
União a que se seguirá o ágape, como confirmação de comunhão sagrada, celebrada em «abundantes mesas de altos manjares excelentes sentam dois a dois, amante e dama (...) Outras, à cabeceira, de ouro fino,/ Está com a bela Deusa o clara Gama». Canto X. 23. Este será o primeiro grau de iniciação, pelos dons do paraíso terreal no seu gozo; simbolizando os Pequenos Mistérios. No seguinte monte se dará o outro grau de iniciação, como transcensão da terra e visão do mundo celeste nas suas esferas e signos astrais; conhecimento beatífico e escatológico, desde já e agora concedido neste êxtase, como gozo ante-mortem aos navegantes lusíadas; simbolizando os Grandes Mistérios, nos dons do paraíso celeste [maxime, a comunhão com a Unidade ou a Divindade.]
                                             
De notar que esta iniciação suprema, se fará aqui para Vasco da Gama, tal como para Dante na Divina Comédia e no relato de Avicena, numa mesma visão e vivência cosmológica, através das esferas celestes até ao ponto de passagem entre o mundo físico e mundo transfísico; no empíreo, pura transcendência. Assim revelará a Ninfa ao Capitão, que veio «Pera lhe descobriu da unida Esfera/Da terra imensa e mar não navegado/ Os segredos, por alta profecia,/ O que esta Nação só mereceria» canto IX, 86. Havendo aqui assim uma especial eleição de Portugal, através do capitão e herói Vasco da Gama.
E ainda, tal como para Dante e Avicena, para este supremo conhecimento, urgiu perfazer uma derradeira ascese, largar de todo, os resíduos humanos, como Mal aderente ao ser, pecados que impediam, tal espelho embaciado, a perfeita reflexão da verdade de Deus. No poeta italiano, ela se fez pela penosa travessia dos círculos do Inferno, subida ao monte do Purgatório, até à chegada ao Paraíso; aqui na epopeia de Camões, pela passagem através desse outro Abyssum antropocósmico, o Mar Tenebroso, o «Profundo», como prova já vencida do Inferno; e depois ainda, o Purgatório podendo aqui ser visto como esta outra subida ao monte sob a conduta do seu guia angélico, Tétis: « Segue-me firme e forte, com prudência,/ Por este monte espesso, tu cos demais»/ Assim lhes diz, e o guia por um mato/ árduo, difícil, duro a humano trato», canto X, 76. [Ad astra per aspera]
Para Dante, esta subida como via purgativa, se fará com a constante intervenção do Anjo e sob a conduta sucessiva de Virgílio, Matilde e Beatriz: nessa montanha elevando-se numa ilha do oceano astral; se subida que pedirá essa total transformação do peregrino, purgação, como progressiva aquisição da liberdade [interior, em relação a apegos e receios]. A mesma experiência existencial, e simbolizada igualmente por uma subida, se expressará neste monte da ilha de Os Lusíadas. O símbolo, é o universal; através dele se unirão os relatos de Camões, Dante e Avicena: pela sabedoria árabe [melhor, persa e islâmica] na sua feição esotérica (...)»
Comparando a passagem de Dante pelo Purgatório, " Cantarei este segundo reino onde a alma humana se purifica e torna digna de subir ao céu", Dalila prossegue com as analogias em Camões: «Tal como no Purgatório [de Dante], este episódio passado na Ilha de Vénus, tem o carácter da fase iluminativa dum processo místico [ou melhor, iniciático], onde se dão as visões imaginativas [ou dos planos subtis psíquicos ou por vezes já arquétipos, causais ou fundacionais]; preferentemente, pela sua cor e brilho, comparadas às pedras preciosas, como já aqui se notou: tal esse campo esmaltado de esmeraldas e rubis, descrito por Dante e por Camões como o "doce colorido de safira oriental". Até a esse dom supremo concedido pela Ninfa, na visão do globo suspenso no ar «que o lume/ Claríssimo por ele penetrava (...) Uniforme, perfeito, em si sustido,/ Qual enfim o Arquétipo que o criou.» [Valiosa descrição a meditar-se, do Cosmos primordial iluminado pelo lume claro do Logos.]
Que o ensino desta visão será de essência escatológica e cosmológica, tal o da Divina Comédia, aqui na epopeia camoniana a Ninfa o declarará:« O trasunto, reduzido/ Em pequeno volume, aqui te dou/ Do mundo aos olhos teus, para que vejas/ Por onde vás e irás e o que desejas», canto X. 87,89. Como contemplação prévia dum futuro percurso a fazer pela alma na sua ascensão post-mortem aos céus. O que por Dante, é contemplado in corpore, ainda em vida e na companhia de Beatriz, sua dama angélica e S. Bernardo em êxtase místico, Vasco da Gama o contempla aqui nesse erguido cume, na companhia da sua Ninfa angélica: a máquina do mundo, idêntica aquela apresentada na Divina Comédia e seu empíreo. «Este orbe que primeiro vai cercando/ Os outros mais pequenos quem em si tem,/ Que está com luz tão clara radiando/ Que a vista cega, e a mente vil também»: como limite do mundo profano e começo do mundo transcendente, ele será já a Luz incriada, nunca conhecida na Terra, nem no mais radioso Sol do meio dia, e como tal impossível de suportar aos olhos humanos ainda impuros: como o contemplar da verdade, face de Deus. [Ousada especulação de Dalila sobre os níveis da luz, dos quais na tradição iniciática persa o primordial chamado é nûr e-Nûr, Luz da Luz.]
Aqui se dando assim o começo da passagem da via iluminativa à unitiva, tal a declarada por Dante que regressa [ao chegar ao] ao fim do Purgatório: «puro e preparado a subir até às estrelas».
Poderemos assim considerar esta iniciação como a heróica, prémio de uma via levada a cabo, como ofício, onde a potência se igualará assim à virtus. Neste século português de Quinhentos, como aquele por excelência do Herói, a iniciação será aquela que compete a essa figura consagrada, e como tal, aqui a Vasco da Gama [nosso antepassado...] e seus companheiros navegantes; como detentores duma das mais altas qualificações da alma, a coragem. Aliás, é a específica consagração do herói que ressalta dos relatos da história portuguesa cantados pelo Capitão ou pela Ninfa profética, na sua longa série nomeada através dos séculos passados ou futuros: fundadores, reis, guerreiros. Mortos ou ainda vivos ou consagrados nesse ofício, à pátria [Como ela está perdida com tão fracos desgovernantes]. Há nesses heróis pela sua virtus, como qualidade especialmente detida e prezada pelo homem e mulher renascentista, algo que os aproximará da santidade: aquela que também nimba Vasco da Gama no cume do alto monte.»  
                                               

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa e a iniciação da Ilha do Amor. As fontes celtas e persas na inspiração de Camões. Avicena e o Anjo e o Espírito Santo.

 Dalila Pereira da Costa (1918-2014), nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana,   1990, realizou uma hermenêutica valiosa d'Os Lusíadas e de Portugal, investigando com sensibilidade e originalidade as raízes pré-indo-europeias, cretenses, celtas, cristãs e islâmicas (nestas em especial a influência do mestre persa Avicena), demonstrando em sucessivos capítulos do seu livro ser uma obra  gnóstica e iniciática a epopeia camoneana. 
Para Dalila, para além dos aspectos concretos e históricos da maior parte d'os Lusíadas  «outra realidade haverá escondida no seu fim, de carácter numinoso, como propriamente o mistério, irrompendo súbito no seu penúltimo canto, a «ilha angélica pintada», considerando que a expedição dos argonautas lusitanos à Índia é «uma descida aos Infernos, como prova de iniciação suprema, tal a de Ulisses no canto XI da epopeia de Homero, ou de Eneias  no livro VI da epopeia de Virgílio, ou passagem de Vasco da Gama e seus marinheiros pelo «Profundo» Abismo, ou Mar Tenebroso e chegada ao Paraíso Terreal, «ilha divina» no canto IX de Os Lusíadas. E para este sentido último da aventura marítima, apontarão ainda e sempre, as «naus da iniciação», da Mensagem», de Fernando Pessoa.
Já lhe consagramos dois artigos: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/03/dalila-pereira-da-costa-e-as-raizes.html.
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/08/as-influencias-iranianas-e-sufis-em.html
As Raízes rcaicas da epopeia portuguesa e camoniana está dividida em três partes: I - Lusíadas e Pré-Helenos, II - Raízes arcaicas d' Os Lusíadas (ou entre o Mediterrâneo e o Atlântico),  III, Raízes islâmicas n' Os Lusíadas, seguindo-se ainda 17 breves capítulos, como pode ver na imagem:

                                       

Abordando,  nas fontes possíveis da Ilha Namorada, o fundo celta e irlandês das viagens em demanda da ilha Bem Aventurada, «habitada por mulheres sagradas doadoras da imortalidade aos homens» , tal a Navegação de Maeduin, que serviu de modelo à Viagem de S. Brandão, publicada entre nós pelos monges de Alcobaça, tal como foi o Conto de Amaro, e ainda a Navegação de Bran filho de Fébal, cristianizada na Vita gloriosissima confessoris Christi Brandani abbatis, e que Camões poderia ter lido no códice existente no scriptorium da mosteiro de santa Cruz em Coimbra, ou já do séc. XII, o manuscrito irlandês do Lebor na Huidre, Dalila compara neste último texto «a eleição e elevação à categoria sagrada imortal dum homem, realizada por uma mulher sacerdotisa, àquela outra realizada por Tétis na pessoa do herói Vasco da Gama. O mundo dessa ilha que na epopeia céltica se chama ilha Bem aventurada, ilha das Fadas, Emain Ablach, Ilha dos Frutos, Avalon, Ilha Afortunada: é a ilha da deusa Dana, e de seu povo, os Viventes, Thuata Dé Dananann onde reinam essas mulheres, avatares da deusa, como Prostitutas Sagradas, doadoras de juventude e imortalidade aos homens: «Ilha namorada de Camões».

Vamos agora transcrever algumas passagens valiosas, relembrando que, após ter-se interrogado sobre as possíveis leituras de Camões (na peugada do Dr. António Cuz), e  a possível existência de obras (filosofia, medicina, gnose) de Avicena, na biblioteca de Santa Cruz em Coimbra, dado que os frades agustinianos o conheciam e valorizavam, e que  Camões terá frequentado, ao estudar o Curso de Artes, tanto mais que tinha um familiar como geral do mosteiro, o D. Bento de Camões, Dalila, seguindo na peugada de Henry Corbin, que traduziu e comentou bem o Relato visionário de Avicena,  admite que tal relato terá sido uma das fontes, tal como a Divina Comédia, de Dante,  para o cerne de Os Lusíadas, para o episódio da Ilha Namorada e a descrição da iniciação de Vasco da Gama. No sentido de realçar a corrente avicenizante em Portugal, tanto mais que a influência directa do relato visonário de Avicena não é evidente,  refere a existência de obras de Avicena nas livrarias do Infante D. Pedro, rei D. Duarte e Frei Diogo de Murça, nos séculos XV e XVI.

Dalila Pereira da Costa aproxima-se então de um dos controversos mistérios da mística iluminativa persa e de Avicena  e, seguindo Etiénne Gilson e o P. de Vaux, nomeia «o avicenismo latino, para o distinguir desse augustiniano  avicenizante, pela diferença que surge mais vincada na angeologia; a interpretação augustiniana [augustiniano  avicenizante] transferindo para Deus a função iluminativa da Inteligência agente, a marcará assim pela ortodoxia; ao passo que a comparação desta Inteligência agente no avicenismo latino com o Anjo Gabriel identificado ao Espírito Santo, constituía para o augustinismo avicenizante uma suspeita de heresia oriental, porque aproximando-se da gnose», ou porque ia em contrário à doutrina da Trindade estabelecida a partir dos concílios do IV século, de ser uma pessoa divina e não angélica.

Assim esta identificação do Espírito Santo a um Arcanjo feita pelos teólogos e  espirituais islâmicos, tal Avicena (e a que Henry Corbin parece-nos ter aderido] e que faz parte do  avicenismo latinoparecerá estranha ou herética a muito cristão, mas se observarmos bem ser o Arcanjo Gabriel a anunciar o nascimento de Jesus a Maria e a transmitir-lhe o influxo divino gerador e que ele foi também quem transmitiu o Alcorão ao profeta Maomé, e que a doutrina do Espírito Santo e a sua fixação humana como terceira pessoa da Trindade foi controversa e lenta, pode admitir-se o considerar-se o Arcanjo Gabriel o seu principal transmissor ou revelador, ou filosoficamente  a Inteligência Agente na sua função iluminativa, tanto em Maria, como em Maomé, como em todos os seres que o merecerem, tal como alguns espirituais islâmicos conseguiram e testemunharam.

Já na visão ortodoxa cristã, de S. Agostinho e dos frades e teólogos agostinhos avicenizantes, tal Inteligência agente ou activa competia apenas a Deus e era Dele que descia para iluminar o intelecto humanos receptivo, recusando-se a intervenção angélica ou a complexa angeologia avicenista. 

Ora para Dalila, em Camões, a Ninfa Tétis  representa a Inteligência agente, na sua função iluminativa de Vasco da Gama e dos seus companheiros. Mas não poderá ela representar esotericamente  o vero Eu espiritual dele próprio, que lhe apela: «Despertai já do sono do ócio ignaro;/Que o ânimo de livre, faz escrevo: (...) e o incita a seguir «o caminho da virtude,/ Alto e fragoso/ Mas no fim alegre e deleitoso» c. X. 92,93.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Mesa redonda na Quinta Regaleira sobre O Esoterismo em Fernando Pessoa. Notas e reflexões no diário de 20 de Julho de 1996.

                                                                   

Dia 20 de Julho 1996, «tarde foi a mesa redonda na [Quinta da]  Regaleira [e creio que o tema seria O Esoterismo em Fernando Pessoa, organizado pelo arquitecto João Cruz Alves], em que participei com José Anes, José Medeiros, Victor Belém e Jorge de Matos. Cada um deu o seu contributo específico. Consegui transmitir algo de uma aspiração e ligação ao Espírito, mas não falei como poderia de Deus e de Cristo, pois isso exigiria uma outra disposição e receptividade das pessoas e do ambiente.

Tive a compreensão que o pertencer a grupos torna as pessoas muito sujeitas a defender os interesses dos seus grupos,  limitando-as, desfigurando-as da sua liberdade e plenitude. 

Fomos feitos ou emanados à imagem e semelhança de Deus e isto significará  ou apelará a que O  manifestemos luminosamente e não que nos agarremos a capelinhas exteriores em que muitas vezes já não se procura a Verdade nem se adora o verdadeiro Deus mas apenas os seus símbolos ou imagens materiais, sem os ligar à realidade superior donde emanam ou têm a sua fonte, ou sem estarem ligados a ela.

O grande problema no caminho da realização espiritual são os hábitos a que nos habituamos, ou que habitamos, e que nos impedem de sentir, ver, intuir a identidade e potencial plenitude dos seres, a totalidade, universalidade e verdade que importa discernir e realizar no presente vertical ou axial de cada momento e de cada estado de consciência do Ser.

Realmente quando dialogamos com um ser não interessa saber como se está  a processar a sua circulação sanguínea, mas sim o que vibra e é mais importante para os dois, o que cada um pode comunicar ou impulsionar no outro de luz, de verdade, de amor, de unidade. 

E muitas vezes  nem sequer vale a pena estarmos na miragem ou afã da demanda absorvente do saber ou transmitir mais, mas sim apenas estar, comungar, nomeadamente em silêncio, em osmose. 

Então o silêncio e a acalmia unificadora podem gerar ou fazer surgir a admiração, o amor, a unificação, ou mesmo a adoração da unidade divina.
Quando uma corrente espiritual é sentida como derramando-se ou passando através de nós ou pela nossa palavra podemos considerá-la como uma iniciação à unidade do presente com o eterno e o Divino, e felizes os que a conseguem sentir em encontros, conferências e diálogos, realizando o que o mestre Jesus disse: «quando dois ou três se reúnem no meu nome, na vibração da Verdade, do Logos, Inteligência e Amor, então Eu estou presente. »

Meditar nesta frase e quem é este Eu que está presente é muito benéfico e iluminativo.»

Transcrito com algumas melhorias a 13 de Agosto de 2026.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Reflexões, intuições e meditações juvenis. Acerca da violência, da harmonia, e do Sol do Amor Divino na Natureza e na Humanidade.

                                                               

Transcrição de mais algumas páginas dum bloco de notas,  quando vivia no Gilde, junto a Guimarães com vinte e tantos anos, com leves correcções.  Iluminura persa, do caminho para os mundos espirituais e divinos

«E na senda do conhecimento, pergunto, porquê a violência?

 O assassínio, assim como a morte e a doença ( o mal e o sofrimento) serão necessários, ou são antes consequências de desequilíbrios ambientais, internos e externos? 

"Homem, tu que és animal e divino", para onde te inclinas e te tornas?

A violência está incluída dentro da harmonia, dentro da perfeição, ou pelo menos no caminho para ela? Deveremos aceitar a violência, mesmo a gratuita e cruel? Ou devemos discernir cuidadosamente o que é natural e compreensível, do que é verdadeiramente condenável e logo proibível, condenável, gestação do Mal, do anti-Divino?

Que o Amor, Paz e Compreensão cresçam mais em todos nós e iluminem e consciencializem todos os seres.

Estamos neste mundo ilusório terrenos para a descoberta e a vivência da Verdade, e a violência surge como uma realidade dolorosa que nos vem ensinar a sermos mais conscientes, harmoniosos, justos e para aspirarmos mais ao Bem, à libertação, ao Amor, à Divindade...


Escrevo ao meio dia sobre as duas belas intuições que recebi. Intuo que a Beleza e o Reino dos Céus que procuramos, encontram-se aos nossos olhos na união do Sol com as nuvens, da Luz com a Natureza.

Esses bocados do céu e das nuvens, cenários infinitos, são pontos de passagem para a sensibilidade mais profunda da alma e do Espírito. 

Não será que a Natureza é as trevas iluminadas pelo Sol ou a Lua (pela Luz), pelo Espirito Divino, do qual o Sol é um reflexo? 

Assim, mesmo no dias da chuva, saibamos ver o Sol que se esconde atrás das nuvens. esse doador da Vida e do Amor. (...)

                                             

A segunda intuição foi esta: Descobri, pela graça, que o que nos dá forças não é a comida, nem o ar que se está respirando, nem o espaço físico, nem o sono. É sim o Amor.

Essa simultaneidade de ligação entre os mais diversos pontos n'Uma só corrente unificadora de Luz e Amor, e de que nós podemos fazer parte, ou comungarmos, se a tal aspirarmos.

É o Amor. É a chama do coração, é um calor interno e luminoso a vir dos mundos internos e a ser derramado sobre tudo o que amamos, sobre tudo a que nós apontamos a nossa vontade criadora, e  de respeito pela dor, admiração pelo esforço, contemplação da beleza, e aspiração e adoração com o Espirito e Deus.

Longa vida, longo poder, longa Inspiração para a sagrada Hierarquia e para todos os que se ligam a ela.

Tornar-me amor para tudo e para todos.

Estar sereno em todos os momentos, mesmo que recorrendo à respiração mais consciente, aberto ou sintonizando com as almas luminosas afins, amigas ou cultuadas.

Como as árvores brancas cobertas de neve... Sorrir na lentidão dos flocos que caiem.

Aquecer, dissolver o egoísmo, com a radiação poderosa interna.

Tornar-nos uns com todos, compreendê-los, elevá-los. Estarmos mais conscientes da Unidade Divina...

Saber que a dor, suportada e vencida, conduz à claridade e alegria e a alegria pura merecida, cultivada, aprofundada conduzirá à felicidade (ananda) perene, a do espírito, sob a bênção divina, simbolizado no som e mantra AUM , o unificador dos três mundos da manifestação.»

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Escritos dos vinte e poucos anos, num bloco de notas: sobre a oração, então, agora e sempre aspiração e comunhão espiritual e divina.

                                                       

Orar significa pedir asas que nos levem mais alto, (interiormente), que as da águia. 
Orar é pedirmos a graça [Divina ou providencial].
Orar é visualizarmos o fluxo do Amor Eterno a [influir e a] revelar-se em cada ser.
Orar é justificares por todos os teus actos a tua admissão aos sagrados mistérios [da iniciação e comunhão espiritual e divina.]
Orar é fazeres o teu templo no teu próprio quarto e aí unires-te, na maior serenidade e descontração, com a vontade eterna do Ser original, numa fusão [ou relação] intrinsecamente criadora e restauradora da Graça.
Orar é mastigares lentamente ensalivando bem o alimento [biológico] e não comeres depois do Sol posto. [Tradição budista e não só, e vivia então no campo, junto a S. Torcato, Guimarães].
Não esqueças que o caminho do Ser, do É, deve prevalecer  sempre sobre o não é [maya, a ilusão, a mentira]; e que o tempo avance, pois aproximamo-nos de algo superior [ou do numinoso]. AUM.

Pintura de Bô Yin Râ, sobre quem escrevi ou transcrevi bastante no blogue.