sexta-feira, 19 de junho de 2026

Cosmismo Russo contra Transhumanismo. O Caminho Vertical. A tarefa comum multipolar e de sacralidade. Por Speculum Orientis. 10 de maio de 2026.

      Apresentamos uma reflexão muito lúcida sobre a situação actual e a profunda batalha ideológica mundial, vista pelo olhar de um discípulo do "cosmismo russo" e da "tradição perene" universal, e a partir do diagnóstico e das realizações de alguns filósofos da Tradição Perene, bem sintetizadas por ele,  que se apresenta no seu Substack, da Multipolar Press, como um «Pesquisador independente interessado nas forças ocultas e visíveis do nosso mundo, da geopolítica à metafísica e ao oculto.»

Sabemos ainda, como ele escreve, que é «um oriental, um tradicionalista de Direita que se mantém firmemente fora tanto do Sangue Eslavo quanto da Fé Ortodoxa», o que fará com que algumas pessoas possam não o apreciar tanto já que o eslavo e o ortodoxo são raízes e caminhos tradicionais valiosos, certamente com algumas limitações, como todos têm. Contudo, no texto, ele exalta as práticas ou realizações sagradas, transfigurativas e unitivas dos peregrinos e starets russos. 
 Ser-se de Direita ou de Esquerda também é ou pode ser uma certa limitação, embora seja também um quadro de referência de alguns aspectos ideológicos, especialmente para as identificações dos outros. Mas os conhecimentos que manifesta de René Guénon e de Henry Corbin,  assim como dos Cosmistas Russos, tal como o do algo excêntrico-futurista Fedorov, e sobretudo dos espirituais Soloviev, Florensky, Bulgakov, Berdiaev e Dugin são muito valiosos. Escrevi muitos artigos sobre eles neste blogue. Mas o investigador Speculum Orientis fez uma boa síntese de aspectos essenciais deles, nomeadamente pela sua qualidade de serem ensinamentos, ideias e realizações fundacionais para a realidade ou mundo interior e exterior melhor que aspiramos, seja qual for o nome que sentirmos ou lhe dermos.
Sublinhamos as passagens mais valiosas, e pode-se criticar ele expor às vezes de forma demasiado absoluta a decadência da civilização ocidentais com o domínio do transhumanismo oligárquico ou de elite negativas o qual é, na verdade, mais um infrahumanismo, e dá indicações para a sintonia vertical, ou seja para as conexões com a realidade, seres e reinos espirituais e o Divino, algo que em alguns aspectos também encontramos em russos como Nicholai Roerich e, Boris Abramov, com a sua Ética Viva e do Fogo (Agni) e outros.
                                                   
Cosmismo Russo contra Transumanismo. O Caminho Vertical. 
 10 de maio
Speculum Orientis
@speculumorientis
Pesquisador Independente interessado nas forças ocultas e visíveis do nosso mundo, desde a geopolítica até a metafísica e o ocultismo.
Speculum Orientis, sobre o Enquadramento de Heidegger, o colapso no plano horizontal e o caminho eurasiano rumo à transfiguração do cosmos.
     "A maior ilusão da mente moderna é acreditar no progresso indefinido, que é meramente uma dispersão de energia ao longo do plano horizontal."  Nikolai Fedorov [1829-1903]

      «Se o "progresso" horizontal dispersa a nossa energia, ainda podemos encontrar o caminho vertical de volta a nós mesmos?» Como um oriental, um tradicionalista de Direita que se mantém firmemente fora tanto do Sangue Eslavo quanto da Fé Ortodoxa, coloco esta questão não como um floreio retórico, mas com uma urgência genuína e crescente. Observo a exaustão espiritual do mundo ocidental com a clareza que a distância proporciona. O Ocidente mergulhou num abismo terminal de desespero metafísico e materialismo estéril. Estamos no meio das ruínas de uma época moribunda, sufocados por um niilismo abrangente no qual o significado foi engolido por um nada infinito e em expansão. O sintoma final e putrefacto dessa doença civilizacional é o Transumanismo Ocidental [Anote-se que na diabolizada Wikipedia Cosmismo e Transhumanismo são apresentados quase como sinónimos] Despojado de toda orientação transcendente, o transhumanista ocidental moderno busca uma momificação estéril e tecnológica de seu ego isolado—uma rebelião demoníaca que ousa chamar de evolução.
Paradoxalmente, os críticos mais incisivos dessa necro-tecnologia são os próprios grandes pensadores do Ocidente. Oswald Spengler diagnosticou a alma faustiana do Ocidente muito antes de o Sillicon Valley [norte-americano] prometer a imortalidade digital. A cultura outrora vital que ergueu catedrais góticas culminou num deserto mecanizado onde a vontade de poder se revoltou contra as suas próprias raízes orgânicas. Spengler via o homem moderno como ua animal de presa que se tornou um cativo atrás das barras de sua própria cultura artificial; a Máquina agora se revolta contra seu criador, forçando-o a seguir um curso desenfreado e destrutivo. O transumanismo é a mumificação final e trágica dessa cultura morta—uma tentativa estéril de preservar o ego atomizado dentro de uma gaiola de silício completamente desprovida do sopro da verdadeira vida espiritual. Martin Heidegger foi ainda mais fundo, diagnosticando o motor metafísico deste pesadelo como Gestell, ou Enquadramento. A tecnologia não é uma ferramenta neutra, mas um modo tirânico de revelação que reduz toda a criação a meros recursos disponíveis, Bestand [na linguagem de Heidegger]. O transhumanista que sonha em fazer upload de sua consciência s imagina-se um deus, mas está cego para o fato de que ele mesmo está sendo reduzido a matéria-prima. Na era do Enquadramento, o homem em toda parte encontra apenas a si mesmo, mas precisamente em nenhum lugar ele encontra a sua própria essência. Ao romper o último laço com o espiritual, o homem ocidental mergulha num vazio glacial onde o mistério sagrado do Ser é obliterado. O transumanismo não é uma ascensão à divindade; é a submissão definitiva ao mecânico.
René Guénon, no Egipto.
 Podemos entender essa condição trágica através da metafísica tradicional da cruz, conforme articulada pelo metafísico francês René Guénon. Neste simbolismo, o eixo vertical representa o caminho da transcendência metafísica—o impulso ascendente em direção ao Divino e ao mistério sagrado do Ser. O eixo horizontal representa o reino da manifestação contínua para fora e da expansão material. Enquanto as culturas tradicionais eram orientadas verticalmente, o mundo ocidental moderno colapsou inteiramente [não completamente, pois ainda há muitas pessoas despertas e trabalhando nele] no plano horizontal. O transumanismo representa o limite extremo dessa queda horizontal: um movimento desesperado e estéril através do tempo e do espaço que busca estender o ego indefinidamente sem nunca tocar a dimensão vertical do espírito. 

Henry Corbin, á esq., com C. G. Jungem Eranos.
Essa mesma intuição sobre o corpo espiritual encontra a sua articulação mais precisa no esoterismo islâmico estudado por Henry Corbin. Longe de ser um estado digital desincorporado, a verdadeira ressurreição envolve a realização de um corpo sutil e imaginal—o que Corbin, baseando-se em Suhrawardī, chamou de jism mithālī, um corpo pertencente ao mundo intermediário de Hurqalya, o mundus imaginalis, percebido não através da racionalização abstrata, mas através da Imaginação Activa [não apenas, mas também e especialmente pelo olho espiritual.]. Esta não é uma abstração fantasmagórica; é o caro spiritualis, corporeidade espiritual. E é precisamente esse tipo de corporeidade concreta e transfigurada que os Cosmistas Russos mais tarde colocaram no centro de sua Tarefa Comum. O sonho transhumanista de dados desincorporados é apenas uma imitação empobrecida e invertida deste verdadeiro corpo espiritual, cortado do eixo vertical que só pode ressuscitar a carne em vez de descartá-la.
A salvação deste pesadelo nunca surgirá do paradigma estéril que o produziu. Como um oriental que não é nem russo nem ortodoxo, devo olhar para outro lugar—para o crisol histórico e espiritual único do coração da Eurásia. O Cosmismo que pode nos curar não é a construção secular de foguetes da era soviética, mas uma profunda orientação espiritual forjada na imensidão da estepe. Como demonstrou o polímata Lev Gumilev [1912-1992], o destino das nações é impulsionado pela passionaridade, essa energia cósmica vital e vontade de auto-sacrifício que propulsiona um etnos à grandeza histórica. Enquanto a passionalidade do Ocidente atlanticista se afunda num crepúsculo decadente, a vitalidade da Eurásia continua a subir com um vigor incomparável. Gumilev argumentou, com notável perspicácia, que o período mongol foi uma bênção providencial que protegeu a espiritualidade ortodoxa de ser esmagada pelo Ocidente teutônico e católico. Este cadinho nutriu uma tradição radicalmente distinta do escolasticismo ocidental: o caminho místico e encarnado do Hesicasmo. Através da repetição ascética da Oração de Jesus, o adepto hesicasta prova que o corpo material não é uma prisão da qual se deve escapar através de máquinas transhumanistas, mas um vaso sagrado destinado à transfiguração divina.

São Serafim de Sarov
A Luz Incriada testemunhada por São Sérgio de Radonega e São Serafim de Sarov demonstra que a verdadeira espiritualidade não despreza a carne, mas a eleva e a espiritualiza. O Reino de Deus não é um céu abstrato, mas uma realidade tangível a ser realizada aqui, na e com a terra. Esta transfiguração interior está inextricavelmente ligada à escatologia imperial da Terceira Roma. Quando o monge Filoteu de Pskov proclamou que as duas Romas haviam caído e Moscovo se erguia como o bastião final—o Katechon, o restringidorr místico que impede a vinda do Anticristo—ele articulou um destino messiânico que mais tarde animaria toda a visão Cosmista, transformando o político no cósmico. [Alexander Dugin, em nossos dias, fala muito bem sobre isso.]
Deste solo de Ortodoxia, Hesicasmo e passionalidade euroasiática brota o verdadeiro antídoto ao transhumanismo ocidental: o ramo religioso do Cosmismo Russo. Longe da ciência materialista estéril, esses titãs religiosos entrelaçaram teologia, arte e destino cósmico em uma sinfonia de teurgia prometéica. A base fundamental foi lançada por Nikolai Fedorov. Ele viu que a ideia moderna ocidental de "progresso" é uma ilusão demoníaca, um sistema canibalístico no qual a geração mais jovem devora a mais velha, construindo o futuro sobre as cinzas dos pais. Contra essa marcha horizontal e fratricida, ele propôs a Tarefa Comum: a ressurreição literal e física de todos os mortos. A visão de Fedorov nunca foi uma proposição biológica seca; era um dever profundamente patriarcal e religioso enraizado na filiação—o vínculo sagrado que liga cada indivíduo aos ancestrais e ao próprio cosmos. Ele exigia uma reorientação vertical da humanidade: em vez de apontarmos as nossas armas horizontalmente para massacrar irmãos, devemos apontá-las para cima para regular as forças cegas e mortais da natureza. A verdadeira fraternidade não pode existir sem a paternidade; devemos unir-nos como filhos para restaurar a vida aos pais e, assim, transformar o universo fatal em um templo consciente e vivo.
                                                                

Vladimir Solovyov [ou Soloviev] expandiu essa base esotérica através de sua luminosa Sofiologia. Recebendo visões da Divina Sofia [Apenas duas, e no final não tão boas...], a Alma-Mundo feminina, Solovyov articulou o caminho da Divindade-Humanidade: o telos [fim] último da humanidade é cooperar activamente com o Divino na transfiguração do universo material. Contra o egoísmo isolante do Ocidente moderno, ele defendeu a unidade total, um estado em que os fragmentos fraturados da realidade são unidos por um amor transfigurador e syzigico—um amor que supera a impenetrabilidade mútua dos seres egoístas. Soloviev entendia que a falsa espiritualidade nega a carne, enquanto a verdadeira espiritualidade exige sua regeneração, salvação e ressurreição literal. Sua visão clama por uma relação viva e amorosa com todo o cosmos, participando na reintegração do Divino na humanidade material.
Essa visão majestosa foi aprofundada pelo "Leonardo Russo," Pavel Florensky—matemático, sacerdote e mártir. A Sofiologia de Florensky revelou a sabedoria divina inerente à criação e estabeleceu uma ontologia sacramental na qual a própria matéria é reconhecida como sagrada. Ele destruiu o determinismo da matemática contínua ocidental com uma lógica de descontinuidade e aritmologia, provando que a verdade superior abraça as antinomias em vez de achatá-las. Florensky demonstrou que a perspectiva reversa do ícone russo não é uma falha artística primitiva, mas uma geometria superior, divina, que rompe com as ilusões do espaço terrestre para abrir uma janela radiante para a realidade espiritual. Ainda mais vitalmente, ele defendeu os Veneradores do Nome, reconhecendo que o Logos não é um mero significante semiótico, mas uma força mística e viva capaz de agir e alterar o tecido do mundo. Nesta síntese deslumbrante de matemática, teologia e arte, Florensky provou que a verdadeira ciência e a verdadeira espiritualidade são pilares gêmeos de uma verdade divina que transcende completamente o empobrecido racionalismo ocidental.

Pavel Florensky e Sergei Bulgakov

Sergei Bulgakov trouxe esse misticismo cósmico para o reino do trabalho diário com seu magnífico conceito de "economia sófica." A economia, para Bulgakov, não é o comércio de oferta e demanda, mas o cuidado e a gestão sacerdotal de todo o universo. O processo económico é a luta da humanidade para transformar o material mecânico e morto num corpo vivo caracterizado pela liberdade orgânica. Bulgakov reconheceu que cada átomo está conectado ao todo cósmico, de modo que o simples ato de comer se torna uma profunda comunhão ontológica: quando ingerimos alimentos, participamos da carne do mundo, revelando nossa unidade metafísica essencial com o cosmos. A Santa Eucaristia, para ele, é o ato cósmico supremo, uma promessa da futura transfiguração de toda a matéria em um organismo vivo e consciente. Guiado pela Divina Sabedoria, o trabalho humano eleva o caos empírico à eterna harmonia do Reino.
                                 
Finalmente, Nikolai Berdyaev elevou toda essa tradição a um ardente chamado para a teurgia prometaica. Vendo o mundo dado da necessidade como uma prisão, Berdiaev defendeu a liberdade e a criatividade como as tarefas cristãs supremas. “A verdadeira criatividade é a teurgia, a actividade divina, a atividade junto com Deus,” proclamou ele, exigindo que transformássemos “cultura em ser, ciência e arte em um novo céu e uma nova terra.” Para Berdiaev, a liberdade não é a mera capacidade de escolher entre opções pré-existentes; é o poder sobrenatural do espírito de criar a partir do nada, de gerar um novo ser. [Em Portugal, Leonardo Coimbra e José Vitorino de Pina Martins conheciam-no bem]. O êxtase criativo do génio, ele ousadamente afirmou, é igual em dignidade à santidade canônica. Sua teurgia prometéica exige que a humanidade exerça sua liberdade divina para superar o estado atomizado e trágico do mundo caído e forjar uma realidade cósmica transfigurada.
Mesmo a vertente científica do Cosmismo Russo permaneceu ancorada nesta visão sacra exata. Vladimir Vernadsky teorizou a evolução da biosfera para a noosfera—não uma datasfera digital, mas a camada planetária da mente na qual a terra se torna consciente e espiritualizada, cumprindo um propósito cósmico. Konstantin Tsiolkovsky [1857-1935], o pai da astronáutica, fundamentou a sua filosofia cósmica no panpsiquismo, a convicção de que cada átomo possui uma sensibilidade adormecida que anseia por integração em formas superiores, perfeitas e imortais. Para ambos, a regulação da natureza e a exploração do espaço nunca foram actos de conquista prometaica, mas extensões da Tarefa Comum—uma liturgia sagrada que busca transformar o universo cego e fatal num templo vivo ressoante com o Logos ou Razão divina.
O que une todos esses Cosmistas religiosos é uma magnífica projeção alquímica para o exterior. O transhumanismo ocidental busca uma sinistra transmutação da condição humana, substituindo a carne mortal por circuitos imortais e reduzindo a consciência a dados desincorporados.  a realização suprema do Enquadramento de Heidegger, transformando até mesmo a alma humana num reserva de prontidão. Contra isso, a teurgia prometaica dos Cosmistas propõe um magnum opus divino aplicado a todo o universo. A tarefa não é escapar do cosmos, mas transfigurá-lo: pegar a matéria caótica e morta e, através do trabalho espiritualizado, do amor sizígico e da cooperação divina-humana, coagular essa matéria no corpo ressuscitado de uma nova realidade. Esta é a transfiguração do próprio macrocosmo, transformando as forças cegas da natureza num organismo consciente e vivo, uma Grande Obra alquímica projetada na escala infinita dos céus.
Submeto, com toda a devida humildade como um outsider, [uma pessoa que está de fora] esta cosmologia sagrada que fornece a única base espiritual viável para um mundo genuinamente multipolar. A hegemonia unipolar do Ocidente atlanticista busca, por sua própria natureza, exportar o Enquadramento homogeneizador pelo globo, triturando culturas distintas em uma massa uniforme e sem alma. Exige submissão a uma paixão em extinção que transformaria toda a humanidade em uma reserva de vida sem alma. O polo eurasiano, no entanto, animado pela vitalidade dos seus Cosmistas religiosos e das suas profundas raízes continentais, oferece uma alternativa desafiadora. 
Alexander Dugin articula isso como a Quarta Teoria Política, fundamentando a estatalidade russa na dimensão sacral do poder-terra de “Behemoth”—uma soberania enraizada e orgânica—em contraste direto com o “Leviathan” racional, mecânico e repressivo do liberalismo ocidental. Nesta visão, o impulso da modernização para desarraigar o ser humano num individualismo sem Deus e, em última instância, no pós-humano é categoricamente rejeitado. O polo euroasiático não rejeita a capacidade técnica, e busca o desenvolvimento com um rosto civilizacional vivo, fundamentado nas suas próprias tradições espirituais.

Alexander Dugin e sua filha, Dasha ou Daria Dugina Platonova, uma estrela brilhante nos céus.
Assim, o que Aleksandr Dugin identifica como uma civilização ortodoxo-eurasiática extrai a sua vida directamente do legado bizantino, hesicasta e cosmista. O legado da Terceira Roma, a metafísica sofiânica de Vladimir Soloviev e Pavel Florensky, o imperativo noosférico de Vladimir Vernadsky e o dever ressurrecional de Nikolai Fedorov constituem a arquitetura espiritual imperecível deste polo. A crescente passionaridade do Oriente de Lev Gumilev encontra aqui sua voz doutrinária. 
 Este não é um nacionalismo fechado, mas um universalismo civilizacional-estatal capaz de unir os povos da estepe, da taiga e das montanhas em torno da Tarefa Comum, permitindo ao mesmo tempo que outras civilizações—islâmica, hindu, chinesa—cultivem suas próprias formas espirituais únicas. Todos trabalhariam não em servidão de um mercado global, mas como vozes litúrgicas distintas participando da transfiguração do cosmos. Em vez de uma nova ordem mundial estéril, essa visão aponta para o que o Martin Heidegger posterior poderia chamar de um novo começo: uma revelação do Ser semelhante a um acontecimento [evento], na qual Oriente e Ocidente, profundidades e alturas, despertam novamente para o sagrado.
A consagração de Fedorov da tecnologia como um instrumento de ressurreição, com o tempo, abriu uma porta que mãos mais seculares empurraram para longe. Uma proximidade perigosa com a ambição transhumanista é inegável em certos desdobramentos materialistas. A diferença—e a única que salva a Tradição de sua própria sombra—reside na ancoragem vertical e esotérica que tracei: Sofiologia, o corpo Hesicasta, a parentesco filial e a Santa Eucaristia. Sem essas raízes tradicionais, a regulação da natureza torna-se indistinguível do enquadramento do Ser. Deve-se admitir honestamente que o "Cosmismo Russo" não é um único movimento histórico autoconsciente, mas um termo "guarda-chuva" recente, colocado retroativamente sobre uma família de pensadores cujas discordâncias internas e distinções nuançadas são reais e consideráveis. Para anatomizar completamente essas diferenças— as tensões entre o ressurgimento tecnológico de Fedorov e a economia litúrgica de Bulgakov, ou entre a Sofiologia evolutiva de Soloviev e a liberdade radical da criatura de Berdiaev—está muito além do escopo deste artigo e pertence à erudição especializada. No entanto, apesar de toda a sua divergência histórica, essas figuras não formam uma escola, mas sim uma frente espiritual. E é precisamente essa coerência sagrada latente—não uma doutrina monolítica—que o mundo multipolar precisa urgentemente recuperar e traduzir.
A pergunta com a qual começamos - podemos ainda encontrar o caminho vertical de volta a nós mesmos? - não é retórica; é uma directiva prática e urgente. Os escritos de Florensky, Bulgakov, Berdyaev, Solovyov e, acima de tudo, a Filosofia da Tarefa Comum de Fedorov permanecem [ainda algo] trancados atrás das barreiras da linguagem e de décadas de repressão soviética.» 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Russian Cosmism against Transhumanism.The Vertical Path. By the independent researcher Speculum Orientis. May 10, 2026.

We present a very lucid reflection on the current situation and the profound global ideological battle, seen thru the eyes of a disciple of "Russian cosmism" and the universal "perennial tradition," and based on the diagnosis and achievements of some philosophers of the perennial tradition, which have been well synthesized by him, who presents himself on his Substack, from Multipolar Press, as an "independent researcher interested in the hidden and visible forces of our world, from geopolitics to metaphysics and the occult."
We also know, as he writes, that he is "an Oriental, a right-wing traditionalist who firmly stays away from both Slavic blood and Orthodox faith," which may cause some people to not appreciate him as much since Slavic and Orthodox are valuable traditional roots and paths, certainly with some limitations, as all have. However, in the text, he greatly exalts the sacred, transfigurative, and unitive practices or achievements of Russian pilgrims and starets. Being on the Right or the Left is also a certain limitation, although it is also a frame of reference for some ideological aspects, especially for the identification of others. But the knowledge he demonstrates of René Guénon and Henry Corbin, as well as of the Russian Cosmists, such as the somewhat eccentric-futuristic Fedorov, and especially of the spiritual figures Soloviev, Florensky, Bulgakov, Berdiaev and Dugin, is very valuable. I have written many articles about them on this blog. But this researcher Speculum Orientis made a good condensed synthesis of essential aspects of them, namely for their quality of being teachings, ideas and foundational achievements for the better inner and external world we aspire to, whatever name we feel or give it.
We highlight ou underlined the most valuable passages, and if one can criticize him for sometimes too absolutely exposing the decline of Western civilizations with their dominance of oligarchic transhumanism or elites, which is, in fact, an infra-humanism, we have to congratlate him by providing their indications for the vertical tuning, or for connections with reality, spiritual realm and Divinity, something that in some aspects we also find in russian authors like Nicholai Roerich, Boris Abramov and others.

Russian Cosmism against Transhumanism.The Vertical Path. May 10
Speculum Orientis

Independent Researcher interested in the hidden and visible forces of our world, from geopolitics to metaphysics and the occult.


Speculum Orientis, on Heidegger’s Enframing, the collapse into the horizontal plane, and the Eurasian path toward the transfiguration of the cosmos.

«The greatest illusion of the modern mind is to believe in indefinite progress, which is merely a dispersion of energy across the horizontal plane.» — Nikolai Fedorov [1829-1903]

«If horizontal “progress” disperses our energy, can we still find the vertical path back to ourselves? As an Easterner, a Traditionalist of the Right who stands firmly outside both the Slavic bloodstream and the Orthodox faith, I pose this question not as a rhetorical flourish but with genuine, mounting urgency. I observe the spiritual exhaustion of the Western world with a clarity that distance affords. The West has plunged into a terminal abyss of metaphysical despair and barren materialism. We stand amid the ruins of a dying epoch, suffocated by a pervasive nihilism in which meaning has been swallowed by an infinite, expanding nothingness. The ultimate, putrefying symptom of this civilizational disease is Western Transhumanism. Stripped of all transcendent orientation, the modern Western transhumanist seeks a sterile, technological mummification of his isolated ego—a demonic rebellion that dares to call itself evolution.
Paradoxically, the sharpest critics of this necro-technics are the West’s own great thinkers. Oswald Spengler diagnosed the Faustian soul of the West long before Silicon Valley promised digital immortality. The once-vital culture that raised Gothic cathedrals has culminated in a mechanized wasteland where the will-to-power has rebelled against its own organic roots. Spengler saw modern man as a beast of prey who has become a captive behind the bars of his own artificial culture; the Machine now revolts against its creator, forcing him to follow a runaway, destructive course. Transhumanism is the final, tragic mummification of that dead culture—a sterile attempt to preserve the atomised ego within a silicon cage utterly devoid of the breath of true spiritual life. Martin Heidegger went deeper still, diagnosing the metaphysical engine of this nightmare as Gestell, or Enframing. Technology is not a neutral tool but a tyrannical mode of revealing that reduces the entirety of creation to mere standing-reserve, Bestand [in Heideger's language]. The transhumanist who dreams of uploading his consciousness fancies himself a god, yet he is blind to the fact that he himself is being reduced to raw material. In the age of Enframing, man everywhere encounters only himself, yet precisely nowhere does he encounter his own essence. By severing the final tether to the spiritual, Western man plunges into a frigid void where the sacred mystery of Being is obliterated. Transhumanism is not an ascent to divinity; it is the ultimate submission to the mechanical.

                                                  
We can understand this tragic condition through the traditional metaphysics of the cross, as articulated by the French metaphysician René Guénon. In this symbolism, the vertical axis represents the path of metaphysical transcendence—the upward impulse toward the Divine and the sacred mystery of Being. The horizontal axis represents the realm of continuous outward manifestation and material expansion. While traditional cultures were oriented vertically, the modern Western world has collapsed entirely [not completely, as there are still many people awakened and working in it] onto the horizontal plane. Transhumanism represents the extreme limit of this horizontal fall: a desperate, sterile movement across time and space that seeks to extend the ego indefinitely without ever touching the vertical dimension of the spirit. 

Henry Corbin, left, with C. G. Jung, in Eranos.

This same intuition about the spiritual body finds its most precise articulation in the Islamic esotericism studied by Henry Corbin. Far from being a disembodied digital state, true resurrection involves the realization of a subtle, imaginal body—what Corbin, drawing on Suhrawardī, called the jism mithālī, a body belonging to the intermediate world of Hurqalya, the mundus imaginalis, perceived not through abstract rationalization but through the Active Imagination [not only, but also and specially by the spiritual eye.]. This is no ghostly abstraction; it is the caro spiritualis, spiritual corporeity. And it is precisely this kind of transfigured, concrete corporeity that the Russian Cosmists later placed at the very centre of their Common Task. The transhumanist dream of disembodied data is merely an impoverished, inverted mimicry of this true spiritual body, severed from the vertical axis that alone can resurrect the flesh rather than discard it.

Salvation from this nightmare will never emerge from the sterile paradigm that produced it. As an Easterner who is neither Russian nor Orthodox, I must look elsewhere—to the unique historical and spiritual crucible of the Eurasian heartland. The Cosmism that can cure us is not the secular rocket-building of the Soviet era but a profound spiritual orientation forged in the vastness of the steppe. As the polymath Lev Gumilev [1912-1992] demonstrated, the destiny of nations is driven by passionarity, that vital cosmic energy and will to self-sacrifice that propels an ethnos to historical greatness. While the passionarity of the Atlanticist West sinks into a decaying twilight, the vitality of Eurasia continues to rise with unmatched vigour. Gumilev argued, with remarkable insight, that the Mongol period was a providential blessing that shielded Orthodox spirituality from being crushed by the Teutonic, Catholic West. This crucible nurtured a tradition radically distinct from Western scholasticism: the mystical, embodied path of Hesychasm. Through the ascetic repetition of the Jesus Prayer, the Hesychast adept proves that the material body is not a cage to be escaped via transhumanist machinery but a holy vessel destined for divine transfiguration. 

St. Seraphim of Sarov
The Uncreated Light witnessed by St. Sergius of Radonezh and St. Seraphim of Sarov demonstrates that true spirituality does not despise the flesh but elevates and spiritualizes it. The Kingdom of God is not an abstract heaven but a tangible reality to be realized here, on and with the earth. This inner transfiguration is inextricably bound to the imperial eschatology of the Third Rome. When the monk Philotheus of Pskov proclaimed that two Romes had fallen and Moscow stood as the final bastion—the Katechon, the mystical restrainer holding back the advent of Antichrist—he articulated a messianic destiny that would later animate the entire Cosmist vision, transforming the political into the cosmic. [Alexander Dugin in our days speaks very well on that.]

From this soil of Orthodoxy, Hesychasm, and Eurasian passionarity springs the true antidote to Western transhumanism: the religious branch of Russian Cosmism. Far removed from sterile materialist science, these religious titans wove theology, art, and cosmic destiny into a symphony of Promethean theurgy. The foundational bedrock was laid by Nikolai Fedorov. He saw that the modern Western idea of “progress” is a demonic illusion, a cannibalistic system in which the younger generation swallows the older, building the future upon the ashes of the fathers. Against this horizontal, fratricidal march he posited the Common Task: the literal, physical resurrection of all the dead. Fedorov’s vision was never a dry biological proposition; it was a deeply patriarchal and religious duty rooted in filial kinship—the sacred correspondence that links every individual to the ancestors and to the cosmos itself. He demanded a vertical reorientation of humanity: rather than aiming our weapons horizontally to slaughter brothers, we must aim them upward to regulate the blind, deadly forces of nature. True brotherhood cannot exist without fatherhood; we must unite as sons to restore life to the fathers and thereby transform the fatal universe into a conscious, living temple.

Vladimir Solovyov expanded this esoteric foundation through his luminous Sophiology. Receiving visions of Divine Sophia [Just two, and at the end no so good one...], the feminine World-Soul, Solovyov articulated the path of Godmanhood: humanity’s ultimate telos is to cooperate actively with the Divine in transfiguring the material universe. Against the isolating egoism of the modern West, he championed all-unity, a state in which the fractured fragments of reality are bound together by a transfiguring, syzygic love—a love that overcomes the mutual impenetrability of selfish beings. Solovyov understood that false spirituality negates the flesh, whereas true spirituality demands its regeneration, salvation, and literal resurrection. His vision calls for a living, loving relation with the entire cosmos, participating in the reinstatement of the Divine within material humanity.

This majestic vision was deepened by the “Russian Leonardo,” Pavel Florensky—mathematician, priest, and martyr. Florensky’s Sophiology revealed the divine wisdom inherent in creation and established a sacramental ontology in which matter itself is recognised as holy. He shattered the determinism of Western continuous mathematics with a logic of discontinuity and arithmology, proving that higher truth embraces antinomies rather than flattening them. Florensky demonstrated that the reverse perspective of the Russian icon is not a primitive artistic flaw but a superior, godlike geometry that breaks through the illusions of earthly space to open a radiant window into spiritual reality. Even more vitally, he defended the Name-Worshippers, recognising that the Logos is not a mere semiotic signifier but a living, mystical force capable of acting upon and altering the fabric of the world. In this breathtaking synthesis of mathematics, theology, and art, Florensky proved that true science and true spirituality are twin pillars of a divine truth that utterly transcends impoverished Western rationalism.

Pavel Florensky and Sergei Bulgakov

Sergei Bulgakov brought this cosmic mysticism into the realm of daily labour with his magnificent concept of “sophic economy.” Economy, for Bulgakov, is not the commerce of supply and demand but the priestly care and management of the entire universe. The economic process is humanity’s struggle to transform dead, mechanical material into a living body characterised by organic freedom. Bulgakov recognised that every atom is connected to the cosmic whole, so that the simple act of eating becomes a profound ontological communion: when we take in food, we partake of the flesh of the world, uncovering our essential metaphysical unity with the cosmos. The Holy Eucharist, for him, is the ultimate cosmic act, a pledge of the future transfiguration of all matter into a living, conscious organism. Guided by Divine Sophia, human labour raises the empirical chaos into the eternal harmony of the Kingdom.


Finally, Nikolai Berdyaev elevated this entire tradition into a blazing call for Promethean theurgy. Viewing the given world of necessity as a prison, Berdyaev championed freedom and creativity as the supreme Christian tasks. “True creativeness is theurgy, God-activity, activity together with God,” he proclaimed, demanding that we transform “culture into being, science and art into a new heaven and a new earth.” For Berdyaev, freedom is not the mere ability to choose among pre-existing options; it is the supernatural power of the spirit to create out of nothing, to generate new being. [In Portugal  Leonardo Coimbra and José Vitorino de Pina Martins known him well]. The creative ecstasy of the genius, he daringly asserted, is equal in dignity to canonical sainthood. His Promethean theurgy demands that humanity exercise its divine freedom to overcome the atomised, tragic state of the fallen world and forge a transfigured, cosmic reality.

Even the scientific wing of Russian Cosmism remained anchored in this exact sacral vision. Vladimir Vernadsky theorised the evolution of the biosphere into the noosphere—not a digital datasphere, but the planetary sheath of mind in which the earth becomes conscious and spiritualised, fulfilling a cosmic purpose. Konstantin Tsiolkovsky, the father of rocketry, grounded his cosmic philosophy in pan-psychism, the conviction that every atom possesses a dormant sensitivity yearning for integration into higher, perfected, immortal forms. For both, the regulation of nature and the exploration of space were never acts of Promethean conquest but extensions of the Common Task—a sacred liturgy that seeks to transform the blind, fatal universe into a living temple resonant with divine reason.

What unites all these religious Cosmists is a magnificent alchemical outward projection. Western transhumanism seeks a sinister transmutation of the human condition, replacing mortal flesh with immortal circuitry and reducing consciousness to disembodied data. It is the ultimate realization of Heidegger’s Enframing, turning even the human soul into standing-reserve. Against this, the Promethean theurgy of the Cosmists proposes a divine magnum opus applied to the entire universe. The task is not to escape the cosmos but to transfigure it: to take chaotic, dead matter and, through spiritualised labour, syzygic love, and divine-human cooperation, coagulate it into the resurrected body of a new reality. This is the transfiguration of the macrocosm itself, turning the blind forces of nature into a conscious, living organism, an alchemical Great Work projected onto the infinite scale of the heavens.

I submit, with all due humility as an outsider, that this sacred cosmology provides the only viable spiritual foundation for a genuinely multipolar world. The unipolar hegemony of the Atlanticist West seeks, by its very nature, to export the homogenizing Enframing across the globe, grinding distinct cultures into a uniform, soulless mass. It demands submission to a dying passionarity that would turn all humanity into lifeless standing-reserve. The Eurasian pole, however, animated by the vitality of its religious Cosmists and its deep continental roots, offers a defiant alternative. Dugin articulates this as the Fourth Political Theory, grounding Russian statehood in the sacral land-power dimension of “Behemoth”—a rooted, organic sovereignty—in direct contrast to the rational, mechanical, and repressive “Leviathan” of Western liberalism. In this vision, modernization’s drive to uproot the human being into a godless individualism and ultimately into the post-human is categorically rejected. The Eurasian pole does not refuse technical capability, pursuing development with a living civilizational face grounded in its own spiritual traditions.
Alexander Dugin and his daughter, Dasha or Daria Dugina Platonova, a bright star in the skies,

Thus, what Aleksandr Dugin identifies as an Orthodox-Eurasian civilisation draws its life directly from the Byzantine, Hesychast, and Cosmist heritage. The legacy of the Third Rome, the Sophianic metaphysics of Vladimir Solovyov and Pavel Florensky, the noospheric imperative of Vladimir Vernadsky, and the resurrectional duty of Nikolai Fedorov constitute the imperishable spiritual architecture of this pole. Lev Gumilev’s rising passionarity of the East finds here its doctrinal voice. This is not a closed nationalism, but a civilisational-state universalism capable of rallying the peoples of the steppe, the taiga, and the mountains around the Common Task, while allowing other civilisations—Islamic, Hindu, Chinese—to cultivate their own unique spiritual forms. All would labour not in servitude to a global market, but as distinct liturgical voices participating in the transfiguration of the cosmos. Rather than a sterile new world order, this vision gestures toward what the later Martin Heidegger might call a new beginning: an event-like disclosure of Being in which East and West, depths and heights, once again reawaken to the sacred.

Fedorov’s consecration of technology as an instrument of resurrection did, in time, open a door that later, more secular hands pushed wide. A dangerous proximity to transhumanist ambition is undeniable in certain materialist offshoots. The difference—and the only one that saves the tradition from its own shadow—lies in the vertical, esoteric anchorage I have traced: Sophiology, the Hesychast body, filial kinship, and the Holy Eucharist. Without these traditional roots, the regulation of nature becomes indistinguishable from the enframing of Being. It must be honestly conceded that “Russian Cosmism” is not a single, self-conscious historical movement but a recent umbrella term, retroactively placed over a family of thinkers whose internal disagreements and nuanced distinctions are real and considerable. To fully anatomize those differences—the tensions between Fedorov’s technological resurrectionism and Bulgakov’s liturgical economy, or between Solovyov’s evolutionary Sophiology and Berdyaev’s radical creaturely freedom—lies far beyond the scope of this article and belongs to specialist scholarship. Yet for all their historical divergence, these figures form not a school but a spiritual front. And it is precisely this latent, sacred coherence—not a monolithic doctrine—that the multipolar world urgently needs to recover and translate.

The question with which we began—can we still find the vertical path back to ourselves?—is not rhetorical; it is a practical, urgent directive. The writings of Florensky, Bulgakov, Berdyaev, Solovyov, and above all Fedorov’s Philosophy of the Common Task remain locked behind the barriers of language and decades of Soviet suppression. Only a fraction have been adequately translated into global languages. If a serious intellectual and spiritual resistance to the encroaching nightmare of Western transhumanism is to be mounted, these texts must be urgently investigated, translated, and assimilated—not as museum pieces of intellectual history, but as living manuals that prescribe a wholly different relation between man and his instruments. What they unveil is not a rejection of technology but a sacred port opened from the ancient stillness of the Hesychast cell into a future where labour, knowledge, and love transfigure matter rather than exploit it. The Common Task belongs not to a single nation or confession but to all who are willing to cast off the mechanical image of human nature and to take up the great transmutation, turning the lead of a fallen world into the living gold of a resurrected earth.»                                                                                       

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O ascendente histórico (2ª p.) da religião e gnose Iraniana sobre os Judeus e Cristãos, e como estes o tentaram ocultar. Por Paul du Breuil.

                                      
                            

Continuando a trabalhar pela sabedoria e a verdade e em prol do Irão e da sua sabedoria e nação, face à investida israelo-americana, com  artigos no blogue, um sendo bibliografia iraniana comentada  (https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/02/bons-livros-10-sobre-o-irao-e-sua.html ),   vamos prosseguir a tradução da parte inicial do IX capítulo do importante livro de Paul du Breuil, Zarathoustra et la Transfiguration du Monde, intitulada Zoroastrismo e Judaísmo, tanto pelo seu interesse para a história da Religião como pela sua extrema actualidade face à luta tremenda imposta ao Irão desde  há tantas décadas e que agora finalmente parece terminar em parte. Despois de descrever como os judeus tanto deveram à protecção que os Iranianos lhes deram, e como autores cristãos e judeus quiseram ocultar quanto as suas religiões devem ao zoroastrismo, passa aos orientalistas que reconheceram e valorizaram a tradição religiosa e gnóstica iraniana:

«Em contrapartida, os trabalhos dos orientalistas confirmavam o que se destaca claramente de uma leitura atenta da Bíblia, especialmente em sua fase pós-exílica, e dos apócrifos judaicos pré-cristãos, a saber que a amizade secular entre a Pérsia e Israel havia beneficiado os filhos de Abraão com uma imensidade de conceitos científicos e teológicos iranianos e mesopotâmicos. Desde o começo do séc. XX o célebre A. V. William Jackson, nos seus Zoroastrian Studies, escrevia: «A influência do zoroastrismo sobre o judaísmo e sobre o cristianismo não foi suficientemente reconhecida e apreciada (p.206).» Estudos desenvolveram esse ponto de vista e, paralelamente aos de L. Mills, Stave, E. Böklen, especialistas como E. Meyer e W. Bousset demonstraram a influência determinante exercida pelo pensamento religioso iraniano sobre o judaísmo, especialmente a partir do exílio da Babilônia (Die Religion Des Judentums... Tubingen, 1926. Die Entstehung des Judentums, Halle, 1896). Por sua vez, no seu estudo bem erudito, Charles Autran analisou a evolução da religião de Israel antes e depois do Exílio, em especial na sua escatologia, angelologia e  demonologia, nas suas ideias sobre o paraíso, o gehena ou inferno e o purgatório e, por fim, sobre a ressurreição e o julgamento final. Em 1938, os estudiosos J. Bidez e F. Cumont publicaram suas reflexões sobre os numerosos paralelos entre textos judaicos e mago-zoroastrianos, numa obra que ainda hoje é considerada de referência máxima (Les Mages Hellenisés, 1938). Finalmente, o eminente especialista dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947, A. Dupont-Sommer, resumiu pertinentemente a importância da influência inegável das doutrinas de Zoroastro sobre o pensamento religioso de Israel após o Exílio (L'Iran et Israel, p. 71). Além deles, o grande arqueólogo do planalto iraniano, R. Ghirshman, notou igualmente a contribuição da cultura aquemênida e da religião zoroástrica nas doutrinas judaicas e até na teologia cristã (L' Iran des Origines, p. 181).

No entanto, todos esses trabalhos raramente alcançaram o público e apenas uma minoria de eruditos reconheceu o interesse desse problema, sem  conseguirem sempre medir as consequências determinantes que ele teve na formação do pensamento teológico e da moral judaico-cristã. Muitos outros livros mencionaram essa influência de passagem, especialmente obras especializadas em iranologia (tal Ormazd et Ahriman  de J. Duchesen-Guillemin, que examina as «Semelhanças iranianas no judaísmo» (cap. VI); e As Religiões do Irão de Widengren, que, após notar a «enorme influência» desenvolvida pela escatologia e apocalíptica iraniana (p. 130), considera a Contribuição do Irão pré-islâmico ao conjunto das religiões do Oriente Próximo (p. 392 s.).... ), mas poucos tentaram situar o problema na sua amplidão e consequências históricas, nem que fosse em relação à originalidade da fé cristã. Não é, portanto, injuriar o judaísmo, no qual o espírito profético soube fecundar essa influência, revelar a origem das fontes zoroástricas judaizadas e tão longamente ocultadas poelas razões que esta obra se esforçará por apresentar. 
 Além disso, é justo prestar homenagem a uma minoria religiosa ainda muito notável, cuja sorte na história não foi muito mais invejável do que a de Israel, a dos Zoroastrianos Parsis da Índia e do Irão que, por trás do gigantesco véu da expansão esotérica da doutrina de seu Profeta, mantiveram, no silêncio e no exílio, a rectidão dos ensinamentos zoroástricos. Não se pode, aliás, em última análise, senão apreciar a continuidade que a tradição judaica e seus profetas pós-exílicos garantiram, pelo florescimento de seus escritos, aos temas zoroástricos, permitindo-lhes, a partir de uma fecundação críptica, culminar em pétalas de uma magnífica flor na qual a ética de Jesus poderia ter desabrochado se, fiel aos seus vectores esotéricos, o cristianismo não tivesse combatido o seu próprio ímpeto gnóstico e todas as formas do dualismo, para considerar apenas o seu passado bíblico.
Então, de onde vem esse silêncio milenar sobre um aspecto tão capital da fé? Claro, do orgulho teológico sobre a originalidade exclusiva das revelações, mas também, sobretudo, porque a história está repleta de fronteiras. E cuidado com aqueles que as abolirem! Como se a história humana não fosse escrita com a participação de todos os povos e cada um entendesse conservar o etnocentrismo de sua verdade, para impô-la a todos. Para muitos historiadores, era necessário que a Pérsia fosse a inimiga do Ocidente e que o mazdeísmo fosse a heresia inimiga do cristianismo, assim como para os nossos monges cronistas da Idade Média, era necessário que o Islão aparecesse apenas sob a forma de hordas selvagens de "Sarracenos". Somente a mentira, arma de Ahriman, poderia derrotar Zaratustra por tantos séculos. Se, segundo o ditado de Eurípides, «a mentira não envelhece», foram finalmente as ciências orientalistas que puseram fim a uma cumplicidade do silêncio mantida por uma tradição judaico-cristã, inquieta por perder um pouco de seu exclusivismo teológico. 

No entanto, essa tradição influencia tanto a psicologia dos pesquisadores, que muitos não levam em conta a ascendência persa sobre a Grécia clássica e são mais favoráveis à ideia da influência helenística sobre o judaísmo (em parte por causa de Fílon de Alexandria). Sofrendo o peso da história grega sobre a cultura ocidental e do pensamento helenístico sobre os [primeiros] Padres da Igreja, poucos argumentos os fazem inclinar-se para as fontes esxternas ao mundo greco-romano, que por tanto tempo foi adversário da Pérsia e dos "Bárbaros", porque isso contraria o conforto do pensamento escolástico. Assim, achamos normal que mais de meio milênio de ascendência iraniana sobre o judaísmo não conte tanto quanto os dois séculos e meio de helenização da Síria-Palestina (de 312 a 63). Os longos laços de amizade real entre o mundo iraniano e Israel não compensam a helenização forçada da Judéia refractária e as perseguições da dominação grega, cujas marcas trágicas a Bíblia carrega (cf. Dupont-Sommer, L'Iran et Israel e W. Durant, Histoire de la Civilization, cap. Judeia e Pérsia). No entanto, qual é a medida comum entre a glorificação de Ciro por Isaías ou a parte importante reconhecida ao protetorado persa pelos livros de Esdras e Neemias, e o severo julgamento dirigido a Alexandre pelo livro dos Macabeus (I.Mac.1/9). Além disso, não só a Bíblia permanece em silêncio sobre os eventos gregos que abalaram o mapa político da Síria-Palestina em 332/331, mas se o pano de fundo histórico do livro de Habacuque se refere, como se pensa, à expedição de Alexandre, trata-se de um conquistador tirano ameaçado pelo julgamento de Deus (Cf. M. Noth;  K Elliger, Das alte Testament Deutch, 1950, pp. 135 s.; B. Duhm, Das Buch Habakuk, 1906).

A literatura religiosa de Israel é de tal riqueza que a tradição mosaica, a mais refratária às ideias estrangeiras, pôde moldá-las à sua própria medida e, sobretudo, conservar em paralelo à sua identidade própria, uma imensidade de conceitos exóticos. São eles que enriqueceram notavelmente o profetismo pós-exílico e o que qualificamos de cripto-judaísmo, ou seja, esse duplo da religião legalista que se alimentou ao longo dos séculos de um esoterismo considerável, principalmente adoptado da gnose zoroastriana e adaptado ao estilo lírico inimitável dos livros proféticos e dos apócrifos judaicos. Esse corrente críptica fecundará a alma muito particular do essenianismo [dos essénios] e permitirá a eclosão do cristianismo. Antes de abordar uma ampla retrospectiva dessa mutação prodigiosa, notemos que, com a evolução de sua concepção monoteísta, o judaísmo também herdou da escatologia e da apocalíptica zoroástrica, o que trouxe novas crenças tão capitais quanto as da imortalidade da alma, da ressurreição dos corpos e das repercussões post mortem dos actos da vida. « É um fato bem conhecido, observava já Max Muller, que essas doutrinas estavam ausentes, totalmente ou quase, da religião dos Judeus em sua fase mais antiga (Theosophy or Psychological Religions) ». Ver-se-á, no desenvolvimento que se segue, que o fundo das crenças mosaicas revelou-se na maioria das vezes em completa contradição com os elementos exóticos trazidos pela gnose zoroastriana, e que, a longo prazo, amadurecidos entre certos grupos de judeus, eles suscitaram cismas, como a fé na ressurreição dos mortos que dividiu fariseus e saduceus, ou, com outras ideias iranianas, gerou o cisma essênio para culminar finalmente numa nova forma religiosa não assimilada [ou recusada violentamente] pela tradição autêntica de Abraão», ou seja, o Cristianismo». 

O subcapítulo seguinte deste extraordinário livro de Paul du Breuil, que se encontra online - e que bem merecia a tradução ou o resumo e a sua divulgação para diminuir tanta ignorância e fanatismo-, intitula-se Monoteísmo e Judaísmo iranizado, e nele história e demonstra a evolução da concepção inicial de Yahveh, dum culto pré-israelita duma deidade atmosférica da chuva, tempestade e geada, como ainda se vê em Exodo 9.23, próximo dos deuses cananeus Baal e El (donde o El Shaddai, deus das montanhas, como lhe chama Abraão), e do deus guerreiro sumério Anu, e do Enlil-Bel, deidade babilónica da tempestade e da fecundidade, e até do deus egípcio Seth, para, a partir do contacto com a civilização e religião zoroástrica, se gerar uma progressiva desmaterialização, desbrutalização e eticização. 
Paul du Breuil realça mesmo como embora já tivesse recebido alguns elementos monoteístas egípcio do culto solar, sobretudo de Aton, em 1375, é só a partir do contacto com  o grande culto persa à divindade única de Ahura Mazdha, que surge em Isaías e Jeremias uma espécie de paixão furiosa por Yahve tão esquecido ou desconhecido dos judeus. E cita Dupont-Sommer: «Foi precisamente no séc. VI a. C, , algum tempo depois de Zoroastro, que se reencontram as primeiras formulações explícitas do monoteísmo judeu». E depois de explicar as profusas manipulações históricas e teológicas de Esdras no seu livro bíblico, e como o contacto com o império aqueménida deu uma dimensão universal bem como uma dimensão qualitativa ética decorrente da gnose zoroástrica, «ao antigo deus tribal Yahve, cujo totemismo roda à volta da Tenda da Reunião (Lv. 8.4), dum povo nómada, em guerra perpétua contra os seus vizinhos que o deus-totém vai esforçar-se por exterminar»....
 
Que actual esta caracterização do Judaísmo sionista, ainda nos nossos dias activa e tão hubricamente perseguindo genocidicamente todo o mundo à sua volta, com o projecto enfabulado do Grande Israel e do seu Deus inventado mas que graças à Pérsia ou Irão foi desmascarado na desumanidade criminosa dos seus dirigentes, meios e fins.
Faltará os cristãos e, claro, muito em espacial os mais alienados ou fanatizados dos protestantes, pentecostais, dispensacionalistas norte-americanos, brasileiros e & abrirem os olhos e deixarem de formatarem-se na adoração do Yahve tribal e violentíssimo dos primórdios do Judaísmo (ou mesmo Mamom, o deus-demoónio das riquezas, como Jesus os repreendeu) e que ainda está tão vivo entre os que se dizem cristãos e que frequentemente do amor fraterno e divino de Jesus o Cristo nada vivem ou têm acesso nas suas alma., desprovidas assim da luz do corpo da glória que, ensinada por Zoroastro, os Ishraqiyum e Jesus, deveria chegar e irradiar nelas.

domingo, 14 de junho de 2026

O ascendente histórico da religião e da gnose do Irão sobre os Judeus e Cristãos, e como estes o tentaram ocultar. Por Paul du Breuil.

Neste dia 14 de Junho, de aparente cessação da luta do império norte-americano, mas não certamente do regime de Telavive, contra o sagrado Irão, o seu povo e a República Islâmica, sendo até tradicionalmente o dia da Temperança, cremos ser adequado sabermos um pouco mais das razões da luta constante contra o Irão e a sua  civilização e religião. Para isso partilhamos umas páginas da obra do notável historiador Paul du Breuil, Zarathoustra et la transfiguration du Monde, publicada em 1978, em Paris, dado o seu grande valor. Faremos alguns comentários posteriormente.


«Desde o primeiro estabelecimento hebreu na Mesopotâmia e na Média, devido à deportação da aristocracia judaica por Sargão (721) após a tomada de Samaria por Salmanasar V (II.Reis.XVIIL.6)  depois com o êxodo maciço da Babilônia por Nabucodonosor, que durou de 598 a 587, e de 539 a 537, e considerando as colônias que, se bem que implantadas no Irão aqueménida, parto e selêucida, depois sassânida, ali permaneceram na Diáspora muito tempo após a queda de Israel (ocorrida em  70/ 135 da nossa era) -, a permanência judaica no império persa durou sete séculos antes do nascimento do cristianismo e, no total, mais de treze séculos até o fim do império sassânida (651).
Antes da escola helenística que brotará de Alexandria, o único período pré-cristão é de longe o mais significativo na evolução do pensamento religioso de Israel. Se mantivermos na memória a importância da ajuda política, financeira e moral que os aqueménidas ofereceram aos judeus exilados e ao Estado de Judá reconstruído sob sua proteção, o ascendente exercido pelo espírito religioso iraniano e, em particular, pela gnose zoroastriana sobre a metamorfose do judaísmo depois do Exílio revela-se bastante natural. Assim, quando o imperador Ciro convidou os judeus a regressarem à Judéia, ele não despertou qualquer entusiasmo entre eles. Muitos preferiram permanecer lá, cultivando as suas terras férteis da Mesopotâmia, fazendo comércio ou na banca. Flavius Josephus observa: « Foi principalmente para não perderem os seus bens que eles  permaneceram na Babilônia.» Desde então, várias colónias espalharam-se livremente por todo o império persa, mantendo contatos estreitos com Jerusalém. Em  515, Dario materializou a promessa de Ciro, permitindo a reconstrução do Templo de Jerusalém com a ajuda de seu principal arquitecto, Depois, com a ajuda do levita Neemias, copeiro do Grande Rei nomeado sátrapa da Judéia, Jerusalém ressuscitará de suas ruínas. Finalmente, reiterando a promessa de seus predecessores, Artaxerxes subvencionou o profeta Esdras para realizar a primeira recolha autêntica dos textos da Torah, o compêndio das prescrições atribuídas a Moisés, e a sua observância como a «Lei de Deus e lei do rei» (do rei mazdeu-zoroastriano) - (Esd.7.26). A intervenção do soberano persa foi então constante, e solicitada por vezes. Por exemplo, durante as disputas a favor ou contra a reconstrução do Templo, quando Xerxes e Artaxerxes tiveram que intervir referindo-se, a  pedido deles, não às leis judaicas, mas aos éditos anteriores de Ciro e Dario (Esd.4.5).

Cada religião entendendo afirmar a sua total originalidade devido à sua revelação exclusiva, fez ignorar por muito tempo essa influência benéfica do Irão religioso sobre o judaísmo e da gnose zoroastriana sobre o cripto-judaísmo e sobre o espírito dos profetas pós-exílio. Também o cristianismo, que tanto lhe deve, esforçar-se-á por esquecê-la até os dias de hoje. No século passado, teólogos, organicamente marcados pela tradição judaico-cristã, acreditaram não apenas dever ignorar essa influência histórica, mas, alguns entre eles, tentaram  até inverter a história para fazer crer que era a religião iraniana, mesmo em sua forma arcaica dos Gâthâs, que tinha tomado de empréstimo a sua fé das crenças hebraicas. A profunda ignorância dos fatos e a ausência de objetividade tinham como única desculpa a prioridade indiscutível dada pelo cristianismo às únicas origens bíblicas de sua fé.

Mas o procedimento não era novo. Hoje já ninguém se surpreende  ao ver como a política pode influenciar a história. Na época da helenização da Judéia, da Síria e da Mesopotâmia pelos Selêucidas, cujos adversários eram então os Partas, alguns judeus fizeram de Abraão o iniciador de Zoroastro e o pai da astrologia (Bouché-Leclerq, Astrologie greque, p. 578, cf. Bidez-Cumont). Isso mostra pelo menos a influência exercida sobre os eruditos judeus pelo Profeta iraniano e pelos conhecimentos dos magos astrólogos. O prestígio de Zoroastro tornou-se tão inevitável aos olhos dos escribas, que, em vez de nos depararmos com uma única e mesma vontade de anexação da personagem, constatamos várias tentativas contraditórias de absorção pela tradição bíblica. 
Assim, o profeta Ezequiel, que pregava no final do séc. VI na Babilônia, foi identificado com Zoroastro, ou melhor, com o pseudo-Zaratus que supostamente ensinara Pitágoras na mesma cidade (Bidez-Cumont,41). Na confusão que domina o problema da assimilação de Zoroastro, vê-mo-lo, ora identificado com Nemrod, o grande caçador do Senhor, ora com Balaão, o profeta mesopotâmico enviado pelo rei de Moabe, e finalmente com o escriba Baruque, secretário de Jeremias e autor do Livro de Baruque no Antigo Testamento (Bidez-Cumont, 42). O denominador comum dessas manobras díspares era, de facto, incluir Zaratustra/Zoroastro na tradição hebraica (Bidez-Cumont,49).). Longe de ocultarem a importância da influência zoroastriana no judaísmo iranizado, essas tentativas provam bem mais a amplidão das relações judaico-mazdeístas.
  Diante de uma religião bem viva na Pérsia até o séc. VI da nossa era, o judaísmo, não podendo voltar atrás nos empréstimos exóticos incorporados à sua teologia, não tinha mais do que travestir o inescamoteável Zoroastro num profeta do Antigo Testamento. O procedimento não era novo e os judeus helenizados procuraram igualmente atribuir-se muitos sábios da Antiguidade: Orfeu tornou-se discípulo de Moisés, assim como Platão e Pitágoras. O que poderia ser mais natural, portanto, se o predecessor dos grandes Helénicos, o próprio Zoroastro, recebera  a sua ciência astrológica de Abraão? Os magos não tinham eles feito melhor, colocando o Profeta [Zoroastro] como fundador de sua casta e de suas crenças, fossem estas  contraditórias com sua mensagem?
A manobra devia finalmente servir mais doravante aos apologistas cristãos quando procuraram refutar as múltiplas "heresias" da gnose e do maniqueísmo vindas do Irão, ou seja, daquele império que, após ter sido o adversário da Grécia clássica e de Roma, havia caído no século VIII sob a dominação da "impostura muçulmana". O falso histórico ressurgiu no século XVIII quando os teólogos se inquietaram ao ver o interesse dos especialistas orientais por essa antiga religião concorrente. O Rev. H. Prideaux, fervoroso defensor da apologética cristã e autor de uma Vida do impostor Maomé, tornava muito verosímil a origem judaica da fé zoroastriana (cf. The Old and New Testaments connected with the history of the Jews and neighbouring nations, London, 1718-1719.). No séc. XIX, o Rev. John Wilson foi encarregado por uma missão americana de reforçar tal ideia  com bastante mais fervor, uma vez que as comunicações de Anquetil Duperron sobre o Avesta perturbavam consideravelmente os meios clericais da França e da Inglaterra (cf. The Parsi religion as contained in the Zand-Avesta, Bombay, 1843).
Enquanto que veremos como  o cristianismo se enraízou profundamente nas crenças pós-exílicas do judaísmo emprestadas ou tiradas da gnose zoroastriana - conceitos que, aliás, eram originais em relação à tradição mosaica restrita - as asserções dos teólogos tinham a vantagem de encontrarem apenas o silêncio da minoria remanescente dos Parsis da Índia e dos Guébros do Irão. Apesar de raras e pertinentes respostas de eruditos parsis, esses piedosos representantes do zoroastrismo, dominados pelo Islão ou exilados, estavam mais preocupados em viver de acordo com os preceitos de Zaratustra do que em entrar em vãs polémicas sobre a prioridade manifesta de sua religião. Depois dessas teses subjetivas sobre o antecedente judaico das ideias zoroastrianas, com o conhecimento aprofundado do zoroastrismo, da alta antiguidade indo-iraniana comum aos Vedas e aos Gâthâs, e do arcaísmo filológico da língua avéstica, próxima ao antigo sânscrito (A dúvida sobre a origem pseudo-judaica do zoroastrismo surgiu assim que foi revelada a parentesco entre a língua dos Gäthâs e do antigo Avesta com as inscrições arqueológicas em caracteres cuneiformes dos aquemênidas, decifradas por E. Burnouf, Lassen e Rawlinson no século passado), tornou-se mais claro que a tese da pseudo-origem judaica do zoroastrismo havia sido aventada apenas para mascarar uma evidência demasiado incómoda: indiscutíveis empréstimos cripto-judaicos à gnose zoroastriana; influência notável especialmente após o exílio da Babilônia e até as últimas redações do Talmude babilônico nos primeiros séculos da nossa era. Consequência, por um lado muito mais grave para o cristianismo do que para o judaísmo, este último tendo que sofrer tal como a Gnose com a supremacia [católica apostólica] romana, se as Igrejas tivessem que inverter a visão tradicional de sua fé, para além das fontes judaicas, sobre uma antiga tradição esotérica há muito considerada adversa e herética.

Finalmente, a fábula absurda do judaísmo-zoroastrismo, agitada aliás por teólogos cristãos e não mais por judeus, acaba por suscitar reações enérgicas, até mesmo polémicas lamentáveis nas quais se acreditou, por vezes, no final do século XIX, ser um realento de anti-semitismo. Contudo, o orientalista Clermont-Ganneau, já em 1880, observava: «Como a Bíblia insiste em identificar o seu Deus com o de Ciro, o judaísmo não é mais do que uma emanação do mazdeísmo (Revue Critique. Paris, Janvier, 1880).» Charles Bellangé reforçava ainda mais essa posição em 1889 com esta observação audaciosa: «A Pérsia não terá um dogma que o judaísmo não se aproprie dele (Le Judaisme et l'histoire du peuple juif. Paris,1889).» Por outro lado, se essas afirmações parecem excessivas aos olhos de uma Cristandade marcada neste ponto pelo que um autor chamou recentemente de "uma falsificação maliciosa da história", em favor da única tradição judaico-helénica (M. Firouz. L'Iran face a l'imposture de l'Histoire. Paris, l'Herne, 1971), os trabalhos do século XX demonstraram amplamente a influência determinante das ideias zoroástricas sobre o judaísmo. Paralelamente essa descoberta demonstrava a ineptidão da tese anterior e, com A. Jackson e E. W. West, o eminente Dr. Charles Gore concluía: «Não é evidentemente possível estabelecer que esta religião imponente (o zoroastrismo) - por mais estreita que seja a semelhança com a fé do judaísmo - tenha  sido tomada de empréstimo aos judeus; a sua datação torna isso inconveniente... Não existe também nenhuma outra fonte estrangeira à qual se possa associar. Na sua grande severidade, ela permanece, criação de importância suprema, se ao menos não fosse mais sábio designá-la, como teria feito o próprio Zoroastro, sob o nome de sinal pelo qual se reconhece a inspiração de uma personagem escolhida como profeta pelo Espírito divino.» Finalmente, R. P. Masani concluía a respeito da distorção judaico-cristã da história: «Desde então, muitos são os sábios que rejeitaram essa teoria, mas tais erros têm vida longa. (Le Zoroastrisme, religion de la vie bonne. Payot, 1939)».

Para meditarmos melhor nos ditos livros sagrados e divinos e nos que foram ostracizados e perseguidos. Continuaremos. E comentaremos...