quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Efmérides dos dias 9 a 19 de Setembro do encontro do Oriente e do Ocidente, seleccionadas do conjunto do mês.

                                                                 

9-IX. O P. António Monserrate, o destemido participante nas discussões das várias religiões na Casa da Adoração (Ibadat Khana), na cidade imperial Fatehpur Sikri, sob a égide do ecuménico («cada pessoa pode adorar a Deus à sua maneira») e genial imperador mogol Akbar, escreve neste dia em 1580 a propósito desses pioneiros encontros inter-religiosos: «Fiquei descontente de empeçarem na verdade das Escrituras, que é o limiar da porta nesta matéria, porque como os dogmas da nossa fé se fundam no que Deus tem revelado nas sagradas Escrituras, a razão humana as não alcança, se a esta se não dá inteiro crédito; por demais é porfiar (como dizem), se os Deus por outra via não alumiar». O problema da fé cega nas Escrituras vinha assim ao de cima, pois querendo que os outros aceitassem tudo delas, punha as dos outros em causa, chegando até a afirmar, para grande irritação dos teólogos islâmicos (muttafiqan), que «não tinham sido os cristãos que corromperam as escrituras mas Maomé, e que o Corão estava cheio de erros».

  Nasce na Rússia em 1828 neste dia Leão Tolstoi, e será autor de famosos romances e de valiosos e revolucionários estudos sobre o cristianismo original. Mas também foi estudioso meditara as tradições orientais, tal o budismo: «Que estranho ensinamento: E como foi distorcido! Uma ensinamento tão abstracto, o Nirvana, e de repente a mesma adoração de ídolos, o céu e o inferno...  [No budismo Mahayana, que não no Hinayana] Absolutamente as mesmas superstições que o cristianismo». Estudou Shankara, apreciou Ramakrishna, e com a Carta a um Indiano abanará a Índia: «Como é que um pequeno grupo de ingleses inferior em moralidade religiosa aos indianos os escraviza?» Propõe então a não-violência: «Não resisti ao mal, mas também não participeis no mal, nos actos violentos da administração dos tribunais, na cobrança dos impostos, e o mais importante, no exército, e ninguém no mundo vos escravizará». Gandhi será um leitor de Tolstoi, corresponder-se-á com ele e confessar-se-á seu devoto admirador em 1911 (um ano depois da morte dele) e dever-lhe muito na vida. Em Portugal será o sábio escritor Jaime de Magalhães Lima um dos que se interessará mais pela vida e obra de Tolstoi, indo em peregrinação e encontrando-o na sua Isnaia Poliana, no coração da Rússia, onde Tolstoi tentava viver com dificuldades as ideias do cristianismo primitivo,  e a quem ofereceu os Sonetos de Antero de Quental. O seu amigo Antero confessou-lhe numa carta. «Quem me dera viver sempre com doidos como o Conde Tolstoi! Não é só um santo, é também um sábio», expressão curiosa pois acabou por ser também aplicada a Antero de Quental. (Estatueta de Tolstoi, por R. X.,1956). Disponibilizei vários artigos e vídeos tolstoianos no blogue.
                                            
10-IX. O notável humanista, cientista, militar e estratega D. João de Castro (1500-1548) chega a Goa neste dia, em 1545, com uma armada de seis naus e é recebido
efusivamente pelo seu antecessor na governação de Goa, Martim Afonso de Sousa, um notável militar e governador, natural de Vila Viçosa.  Como nos relata o seu biógrafo Jacinto Freire de Andrade, houve «naquela noite bailes e folias; festins que a singeleza de Portugal antigo levou ao Oriente». O encontro amistoso entre duas cortes de vice-reis notáveis, não sendo frequente, pode ter produzido boas transmissões de conhecimentos e forças. A situação mais difícil que teve de resolver e vencer foi o cerco da fortaleza Diu, e foi ocasião de desenhar o roteiro da viagem de Goa a Diu, uma valiosa obra  científica e de viagens.
D. João III escreve neste dia em 1555 para Coimbra, para o notável humanista Diogo de Teive, já a ser perseguido pela paranóica Inquisição: «Dr. Diogo de Teive: Eu el-Rei vos envio muito saudar; mando-vos que entregueis
esse Colégio das Artes, e governo dele, mui inteiramente, ao P. Diogo Mirão, Provincial da Companhia de Jesus». No Colégio das Artes, fundado em 1547 e dirigido pelo antigo reitor de colégios universitários em França André de Gouveia, detectaram-se três professores suspeitos de protestantismo (Diogo de Teive, João da Costa e Jorge Buchanam), logo expulsos e detidos nas celas inquisitoriais. O controle da formação pré-universitária era assim entregue a mentes mais fiéis, ortodoxas e escolásticas. Diogo de Teive, como bom pedagogo, foi ainda autor de Sentenças muito doutas, e dumas Regras para a Educação de El-Rei D. Sebastião, onde aconselha: «O principal cuidado do bom Mestre há-de ser procurar que a pouca idade não venha a atemorizar-se com o trabalho, nem a contrair ódio às letras, mas elas particularmente, sem as quais haver vida é impossível, ame e tenha como indigno da luz vital quem for desprovido das letras». 
O P. Rudolfo Aquaviva queixa-se em carta escrita neste dia ao reitor de Goa, em 1580, dos mouros em Agra mofarem com ele sempre que diz Jesus Cristo, Filho de Deus: «Assim quando chego a casa com o punhado de cristãos que estão connosco como numa Arca de Noé, mesmo as próprias paredes só conseguem repetir: "Filho de Deus, Filho de Deus"... E parecem replicar: Como podemos nós cantar o cântico do Senhor numa terra estranha?» Eis uma grande questão posta então no encontro das religiões na corte mogol de Akbar, que a imagem em cima documenta, e que nos nossos dias de crescente ecumenismo já diminuiu bastante de importância: Jesus Cristo filho único de Deus, ou apenas um profeta ou mestre, ainda que até o que mais manifestou o Amor Divino? 
Também o mestre espiritual japonês Suzuki Shôsan (1579-1655), inicialmente samurai do shogun Tokugawa Ieyasu, do começo do período Edo, e a partir dos 42 anos monge e fundador da sua própria síntese do Shugendo, do Budismo da Terra Pura e do Zen, com o seu Nio Zen, onde a contemplação assimilativa de uma estátua de Buddha, a repetição invocação de Amitabha Buddha, o nembutsu (namo amida bu, namo amida bu), a animação da energia interna (o ki) e o cultivo de uma mente leve e optimista eram muito importantes, questionará argutamente neste dia, em diálogo registado, em 1642,  algumas certezas do Catolicismo: «Porque razão Deus não apareceu em todas as nações para as salvar indiscriminadamente? Porque permite Deus a outros Buddhas (além de Jesus) pregar diferentes doutrinas? Como pode Deus ser todo misericordioso se permitiu durante os cinco mil anos antes do nascimento de Jesus Cristo que todos os seres humanos fossem para o inferno?»
                                          
11-IX. Muitos dos grandes seres vivem e morrem a sós. Santo Antero, como foi chamado por muitos, foi um deles, e atravessou a vida com a ardência e a sinceridade dum idealista do amor, da justiça, da verdade e da universalidade, o que lhe custou isolamentos e, mesmo após a sua morte auto-realizada, comemorada hoje 11 de Setembro, receber ainda incompreensões e manipulações. Nascera em 18 de Abril de 1842, em S. Miguel, Açores, de família com tradições religiosas e poéticas marcadas, matriculando-se na Universidade de Direito de Coimbra em 1858, onde cedo o seu génio convivial, poético, filosófico e contestatário brilha: é preso por oito dias (cumpridos em duas vezes) em 1859, em 1861 funda uma  associação secreta, a Sociedade do Raio, em 1862 lidera  a pateada ao reitor Basílio Alberto de Sousa Pinto e redige o manifesto dos Estudantes da Universidade de Coimbra à Opinião Ilustrada do País, subscrito por 314 estudantes; em Abril de 1864 lidera a revolta e a saída dos estudantes (a Rolinada) até ao Porto em protesto contra o presidente do Governo, o duque de Loulé, Rolim de Moura, é um dos grandes poetas nocturnos da boémia coimbrã e interessa-se pelas literaturas e religiões orientais, em especial persas e indianas. Os seus primeiros versos são românticos, religiosos e filosóficos, editados em pequenos opúsculo mas é em 1865, com as Odes Modernas, que transmite ou manifesta publicamente com mais impacto os seus ideais de justiça, socialismo, revolução e liberdade. Trava nesse ano a polémica do Bom-Senso e Bom-Gosto com António Castilho, o principal mestre literário de então, na qual participam vários escritores, e vence até num duelo Ramalho Ortigão, que se erguera em defesa do patriarca Castilho, em Fevereiro de 1866. Formara-se em Leis em 1865 mas, decido a entrar na realidade social, é aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional de Lisboa, e parte para Paris a fim de viver a vida dum operário socialista, que contudo não aguenta muito tempo (dois meses e pouco), pelo que regressa, iniciando depois de uma recuperação campestre na quinta dos seus condiscípulos Sampaios, em Guimarães. 
Inicia depois uma certa divulgação dos ideais de Proudhon e do socialismo. Em 1871, pronuncia a célebre conferência sobre As causas da decadência dos povos Peninsulares, que leva o ministro do Reino, Ávila e Bolama, a proibi-las, e Antero a dar-lhe uma contundente resposta, em defesa da liberdade. Em 1874, adoece em Ponta Delgada, e começa um longo calvário de diagnósticos e tratamentos incorrectos (seja um estrangulamento do piloro, que lhe dificultava as digestões e o sono, seja um estado psico-somático sujeito a enfraquecimentos) que o vão diminuindo, e que, aliados a uma certa desilusão política e social, o fazem atravessar uma fase algo pessimista, ultrapassada de certo modo partir de 1880, quando, instalado em Vila do Conde, as suas inquietações metafísicas começam a dar mais frutos interiores de estabilização de compreensão e amor, realizando em si algo próximo do que chamara seja um “Budismo coroando um Helenismo”, seja a compreensão dos místicos cristãos alemães, seja a união do espiritualismo com o materialismo científico. Em 1879 adoptara as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, Albertina e Beatriz, que viverão com ele até uns meses antes da sua morte e chegarão aos 97 e 94 anos. A partir de Setembro de 1881, já instalado em Vila do Conde com as suas pupilas e a viúva adoentada, junto ao mar, vai aperfeiçoando os seus notáveis Sonetos, na forma e no conteúdo, e que testemunham uma nítida evolução espiritual, embora ainda assim aquém do que ele desejaria já ver de plena luz e conhecimento. Tenta coordenar as suas ideias, os seus trabalhos para a Geração nova e a Religião do Futuro, mas a saúde apoquenta-o. Após o Ultimatum do imperialismo inglês de 1890, face à reacção cívica dos portuenses e em especial ao convite dos estudantes, aceita o cargo de Presidente da Liga Patriótica do Norte, que aqueles lhe foram pedir a Vila do Conde, com eventos de grande emoção e civismo, mas a fraqueza do País e dos políticos desiludem-no, já que o movimento desapoiado esmorece, abandonando de vez a participação pública na marcha dos acontecimentos políticos. Regressado aos Açores e a Ponta Delgada em 1891, com os seus padecimentos nervosos e a situação trágica de lhe estarem a retirar a tutela e cuidado das duas jovenzinhas que educara, desincarna samuraica e voluntariamente com dois tiros de pistola em 11 de Setembro de 1891, sentado calma, ou quem sabe algo nervosamente. num banco do jardim, que se encontrava debaixo de uma âncora em relevo e da significativa palavra, essa que acompanha todos os peregrinos e nobres viajantes, e que talvez o tenha desarmargurado um pouco antes de se lhe abrir a vereda árdua da vida depois da morte: "Esperança".
Antero de Quental foi um dos raros pensadores que se aproximou lúcido frequentemente da experiência da morte e das elevadas regiões do Não-Ser, investigando nesta linha negativa o dito grego "Morrer é ser iniciado". Pouco antes de morrer, desejara ou sonhara fundar uma ordem de contemplativos, a Ordem dos Mateiros e Fidelino de Figueiredo realçou esse testamento anímico de alguém que «teria sido um S. Bento de Portugal, restaurador da disciplina das almas, iniciador da sua reconstrução pelo recolhimento meditativo». «Três coisas devemos pedir ao recolhimento monástico ou à sua irradiação: firmeza, paciência e esquecimento. Só para as propagar e difundir valeria a pena fundar a velha ordem dos Mateiros, de Antero de Quental — velha, sem nunca ter existido». 
Numa das suas mais belas poesias Antero concluirá: «A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência, / Só se revela aos homens e às nações / No céu incorruptível da Consciência», cabendo-nos este trabalho perseverante de transformação da nossa identidade e religação ao espírito.  Os seus panfletos, a obra poética e filosófica e sobretudo as tão valiosas Cartas, bem editadas por Ana Maria Almeida Martins, dirigidas aos amigos sobreviverão sempre na literatura, na filosofia e na espiritualidade portuguesa.
 
 Nasce neste dia 11-IX-1866, na Rússia, (embora em Kielce, hoje Polónia) Fyodor Shcherbatskoy  e depois de se ter licenciado na Faculdade Histórico Filológica de S Petesburg,  com mestres como Serge Oldenburg e Minayeff, aprendeu no estrangeiro com Herman Jacobi e Georg Bühler, vindo a  dominar eximiamente o sânscrito e o tibetano. Com Oldenburg cria em 1897 a Bibliotheca Budhica, responsável pela publicação de textos muito valiosos do budismo, religião em que se tornará o grande especialista. Em 1923 publicou The central conception of Buddhism and the meaning of the word "Dharma.", na Royal Asiatic Society, em Londres, mas será o seu livro A concepção Budista de Nirvana, publicado em inglês em 1927, em Leninegrado, que lhe dará mais renome, se bem que a maioria das suas obras aprofundassem mais a lógica budista. Em 1928 fundou um Instituto de Cultura Budista em Leninegrado. Foi muito respeitado por alguns indianos pelo seu trabalho revalorizador da filosofia budista e deixará a Terra em 1942,
                               
10.000 pessoas ouvem impressionadas, neste dia em 1893, a
mensagem breve, forte e anti-opressiva do discípulo de Ramakrishna, Swami Vivekananda, no I Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago (o qual se repetirá em 1993): «Oh! filhos da imortalidade, Oh! divindades na terra, erguei-vos. Oh! leões, libertem-se da ilusão que sois carneiros. Vós sois almas, espíritos imortais, livres, abençoados eternos. Esta é a mensagem da Índia. Possa eu nascer e nascer de novo e sofrer milhares de misérias de modo a que possa adorar o único Deus que eu acredito na soma total de todas as almas e acima de tudo, meu Deus o fraco, meu Deus o miserável, meu Deus o pobre de todas as raças de todas as espécies». Menos místico que o seu mestre Ramakrishna, mas mais intelectual e dinâmico, um entusiasta orador, gerará muitas obras e imprimirá à ordem de monges praticamente por ele fundada, além da divulgação da espiritualidade indiana na linha Yoga Vedanta e Bhakti, um carácter de serviço organizado, notável na educação e assistência espiritual e hospitalar e em casos de calamidade pública. Talvez se tenha iludido com a importância da Índia espiritual no mundo, como discursara então: «Uma vez mais o mundo deve ser conquistado pela Índia. Este é o grande ideal que temos diante de nós... Arriba Índia! e conquista o mundo com a tua espiritualidade. A espiritualidade tem de conquistar o mundo». O que sentiria ele com a sarabanda actual de pseudo-yogas e espiritualidades, pseudo-mestres e realizados, da Índia e das pseudo-Índias....
                                 
  Vinoba (Vinayak Bhave) nasce neste dia em 1895, perto de Bombaim. Dotado para as línguas (falava doze) e as matemáticas, abandonou um futuro promissor para se entregar às causas ou lutas activistas de Gandhi. No seu ashram (comunidade) executa todas as funções com tal perfeição que Gandhi confessa ao pastor inglês Andrews que lhe perguntava quem era ele: «É uma das pérolas raras do ashram, um daqueles que vieram não para ser benzidos, mas para abençoar, não para receber, mas para dar». Mestre de Gandhi no sânscrito e na interpretação e recitação dos textos sagrados, pois nascera brâmane, discípulo profundo nos votos e técnicas da não-violência, quando Gandhi morreu, tomou o seu lugar. Como disse o famoso cantor Toukdoji: «O Pai partiu, o Filho carregou o fardo sobre o seu ombro. Vinoba é agora para nós o que Bapou (Pai) era para nós. Gandhiji morto, eis agora o advento do herdeiro do seu imenso amor». Vinoba inicia então o Bhodan, o dom gratuito ou caridoso da terra, e recebe milhões de hectares para os mais desfavorecidos durante as grandes peregrinações a pé por toda a Índia, justificando-se: «Não basta espalhar ideias e não convém impô-las, e é preciso ainda que venham ter connosco e que adiram às propostas. Se as pessoas aderirem às propostas, elas impõem-se e espalham-se. Se tivesse atravessado as aldeias a rolar sobre nuvens de poeira, as minhas ideias não teriam raízes». No seu ashram em Wardha ou noutros locais itinerantes, homens de Estado e peregrinos, entre os quais se destacaram o místico Jacques de Marquette e o siciliano francês Lanza del Vasto, encontraram sempre um caloroso e sábio acolhimento, como eu próprio o experimentei sendo por ele recebido de braços abertos e dialogando sobre a não-violência.
O professor da Universidade de Coimbra, Américo da Costa Ramalho pronuncia neste dia 11, em 1958, no salão do Instituto Vasco da Gama, em Goa, uma conferência sobre O Poeta quinhentista André Falcão de Resende, onde lê versos de Resende enviados para o seu concunhado António Silveira, na Índia, referindo os matrimónios felizes de ambos:«Mas se do Céu tal bem se me conceda/ Que saiba eu contentar-me em minha sorte,/ E dos males mundanos perca a sede:/ Que em recíproco amor minha consorte,/ Minha doce Norélia e eu vivamos,/ Que mal me pode vir, que eu não suporte?» E a que Heitor Silveira responde da Índia: «Vós, ledo, satisfeito, vós, atado/ Com aquele amor puro de vossa alma,/ da vida de cá andais longe e afastado./ Que alegre estará sempre e pura essa alma,/ Toda entregue a Norélia, à qual só dando/ Cada hora da vida os triunfos e palma». Eram as ressonâncias de dois cavaleiros do Amor unindo o Oriente goês e o Ocidente português. Costa Ramalho referiu ainda de André Falcão de Resende a Microcosmografia e descrição do Pequeno Mundo que é o Homem, valioso poema anatómico filosófico tão pouco conhecido, em que o magistério hermético de Pico della Mirandola ressoa.
 

 12-IX. Vinoba, o companheiro de Gandhi e seu sucessor na liderança da linha da não-violência, fala-nos assim num discurso neste dia em 1957, em Yelwal, Mysore: «É minha fé fundamental que há um espírito divino no coração do ser humano. Superficialmente pode haver faltas, mas não são da essência interna. Precisamos então de descobrir um caminho que entre no mais íntimo do coração para que toda a bondade seja revelada. E esse caminho pode ser encontrado; descobri-o em Telengana. Eu pedi terra, e um homem avançou e deu-me terras. Para mim este minúsculo incidente foi um sinal de Deus; confirmou a minha fé em Deus. É contra o dharma (ordem cósmica) e a razão pensar que a terra pode ser propriedade individual. E quando eu comecei a pedir terra num espírito de amor, as pessoas começaram a responder. Foi como se um vento fresco começasse a soprar, e as pessoas vieram, vindas de longe ou de perto, juntar-se à nossa peregrinação». Assim se referia Vinoba às jornadas a pé (bhodan) que atravessaram a Índia a pedir e a receber terras para os mais destituídos (grandam). Isto na sua plenitude significa «que tudo o que se possui deve ser posto à disposição da comunidade como um todo». Assim se realizou uma reforma agrária, não-violenta e eficaz, de milhões de hectares. Quanto ao espírito no coração, Vinoba viu-o aqui como uma comunicação, um sopro de fraternidade vencendo egoísmos e posses e sem dúvida tal é um dos aspectos, a acção abnegada no mundo.
 13-IX. A armada de Pedro Álvares Cabral fundeia junto a Calecut em 1500 e entrega ao Samorim a carta enviada por D. Manuel: «Deveis fazer nessa partes do Oriente, o que todos fazemos nestas do Poente, que é darmos muitos louvores ao senhor Deus, porque em vossos dias e nos nossos fez tanta mercê ao mundo, que por vista nos pudéssemos saber e ver e conhecer, e ajuntar e vizinhar por conversação, estando as gentes dessas terras e destas tão afastadas umas das outras do começo do mundo até agora, e tão sem cuidado nem esperança disto». O Senhor dos Mares (Samorim) de Calecut dirá que apreciou a mensagem, uma das mais belas declarações de princípios nos Descobrimentos, mas que ficará sobretudo para a história da Utopia.
Aporta a Angediva, Goa, a armada conduzida pelo 1º Vice Rei da Índia D. Francisco de Almeida neste dia em 1505 e no meio de toda a dinâmica suscitada na cidade destaca-se a acção do médico mouro que D. Francisco de Almeida, entusiasmado pelos seus conhecimentos, trouxera consigo do porto de Mombaça, conseguindo curar muitos doentes ou feridos, como relata Gaspar Correia, nas suas Lendas da Índia. Anos mais tarde Linschoten, que está entre 1583-1588 em Goa, regista na sua Voyage to the East Indies, o reconhecimento que os médicos indianos tinham da parte dos portugueses. Houve privilégios como andar com sombreiro,  ou de cavalo, ou de serem levados de palamquins ou andores, em reconhecimento do valor e utilidade do seu mister, mas o sucesso que tinham pelo melhor conhecimento dos contextos vários em causa criou invejas e suscitou zelos fanáticos religiosos que culminaram em proibições como as lançadas pelo 1º Concílio Provincial, realizado em Goa em 1567, e pelo alvará do governador António Moniz Barreto, de 15 de Dezembro de 1574.
Aporta em Goa em 13-IX-1556 uma armada de quatro naus trazendo consigo uma carga muito preciosa: desde o patriarca da Etiópia D. João Nunes Barreto ao impressor Juan de Bustamante, passando dentro em pouco a haver em Goa quatro impressores da Palavra ou Verbo com o nome de João: João de Éndem, João Quinquénio, João Blávio e João de Bustamante, de cujos prelos sairão algumas obras valiosas e hoje raríssimas, tais as Conclusiones Philosophicas, ainda em 1556 e a Doutrina Christã em 1561, impressas pelo castelhano Juan de Bustamante.
Desembarcam neste dia em Goa em 1578, os missionários Duarte de Sande, evangelizador no Japão, e Miguel Ruggieri e Mateus Ricci, que depois de três anos na Índia, virão a ter grande acção na China, ao seguirem uma adaptação do cristianismo com o que estudaram e se podia reconhecer da sabedoria antiga da China, debaixo da ameaça das reservas da mentalidade limitada de outros padres, ou das rivalidades com franciscanos e dominicanos, desejosos de missionarem nessa imensa e oblíqua seara entregue aos jesuítas.
Partem neste 13, em 1607, para Goa, de Lahore, enviados pelo imperador mogol Jahangir o P. Manuel Pinheiro e o hakim ou o praticante da medicina unani, árabe,  Abu Ali Hussein ben Abdullah ben Sina, que já fora muito estimado pelo imperador Akbar e que recebera o título de Muquarrah Khan, agora em missão de embaixador. A viagem será demorada e quando chegam a Cambaia, Goga, o seu filho adoece gravemente e em último recurso foi o Padre Pinheiro, recitando-lhe passos do Evangelho de S. Marcos  e tocando-o com relíquias, que o cura. Abu Ali Hussein, o Muquarrah Khan, promete baptizá-lo e ele próprio em Goa em 1610 recebe as águas lustrais, como narra Amâncio Gracias, na sua valiosa obra sobre a Medicine in Goa in XV-XVIII centuries. 
14-IX. O 13º vice-rei da Índia, D. Francisco de Mascarenhas, chefe militar experiente e prisioneiro após a batalha de Alcácer Quibir, apoiante do rei D. Filipe I, e por isso nomeado por ele vice-rei,  dá neste dia, em 1582, o seu "cumpra-se" à lei de Sua Majestade de 25 de Fevereiro de 1581, «para que não haja pagodes nem cerimónias». Transcreve-nos o notável historiador Panduronga S. Pissurlencar, no seu Roteiro dos Arquivos da Índia Portuguesa, Bastorá, 1955, que promulgou-se esta lei porque quis o rei «satisfazer com a mesma obrigação (de se esforçar pela conversão da gentilidade) e dissipar a veneração que os gentios têm a seus falsos Deuses». Ora quem seria mais falso Deus: o ciumento e violento Jehova do Antigo Testamento e do Talmude, ou o Shiva, que significa felicidade e que é a Consciência Pura que se une à energia pura, a Shakti? Como não vermos as diferentes concepções de Deus como frutos condicionados dos tempos e locais onde elas nasceram e se formaram? Até quando as pessoas desconhecerão que é no seu interior que a Divindade verdadeira se lhes pode desvendar e que os Deuses exteriores são apenas circunscrições ou faces da infinidade Divina?
 Naufrágio de duas naus da Índia, neste dia em 1606, já às portas de Lisboa. Sobre estes naufrágios diz Diogo de Couto na sua obra bastante original e crítica de certos aspectos de sombra no Descobrimentos, o Soldado Prático: «Já não aproveita para as Naus irem e virem a salvamento, partirem cedo, nem bons pilotos, nem irem bem remendadas e aparelhadas de todo o necessário: porque vão e vêm tão alastradas de pecados, que, dizem, visivelmente falam demónios nelas em suas tormentas, e trabalhos; e não era assim no tempo passado, que nas tormentas lhes aparecia Nossa Senhora, como quem sempre costumou aparecer, e ajudar aos que por ela chamam em seus trabalhos». Nossa Senhora, Mãe, Dama, Hagia Sophia, Santa Sofia, Alma dos cavaleiros, Alma do mundo, Shudha Shakti, eis o eterno Princípio Feminino por tantos nomes cultuado, mas por tão poucos seres realizado, e em baixo numa pintura do ilustre mestre russo Nicholai Roerich.
                                
Rebenta a Revolta dos soldados maratas contra terem de irem em comissão para Moçambique (cemitério de recentes expedições da Índia) sem condições justas, aos quais se juntam os ranes e aldeões de Satari, neste dia em 1895. O Senado de Goa deputou o conde de Mahem e o visconde de Bardez uma vez, e depois o conde de Mahem e dois oficiais, para tentarem convencer os revoltosos a renderem-se e que seriam perdoados, porém os ranes opuseram-se mas, ao aumentarem as violências, perderam a simpatia compreensiva de certa parte da população de Goa. Gomes da Costa (1863-1927) tenta com a sua proverbial coragem e força controlar a situação, mas será a expedição enviada de Lisboa e comandada pelo Príncipe D. Afonso a repor a ordem em Dezembro e a reorganizar o Exército. Muitas publicações se geraram na época sobre o caso.
                                           
15-IX. Zarpam de Lisboa neste dia em 1554 os primeiros missionários jesuítas para o reino do Prestes João, complementando a obra dos cento e tal companheiros de D. Cristóvão da Gama que por lá ainda se encontravam como colonos e guerreiros. Mas a resistência dos antigos costumes e ritos, tal a circuncisão, o baptismo anual, a guarda do Sábado santo, o casamento dos padres, manter-se-á sempre e será muito difícil convencerem-nos que as doutrinas e ritos de Roma é que eram os certos. Grande debates teológicos acontecerão. Em 1622 o P. Pêro Pais consegue que o imperador Susénios fique só com uma mulher, a primeira, e se converta. Em 1626 o patriarca Afonso Mendes obtém do imperador a submissão a Roma, mas criando tais lutas que os missionários serão expulsos em 1634, terminando assim a demanda que de tantos fumos se revestira e que de concreto realizará o apoio cultural e guerreiro ao imperador, e a heroicidade e abnegação dalguns dos intervenientes, tal Cristóvão da Gama, não havendo já dúvidas de que o mítico Rei do Mundo não podia ser daquela terra e deste mundo, ainda que no séc. XX alguns reputados escritores esotéricos e tradicionais se deixaram de novo iludir, tal como o insuspeitado e tão racional René Guénon, seguindo uma linha mistificadora de St. Yves de Alveydre, a que se seguiram vários outros grupos.
Octaviano Guilherme Ferreira, director da Biblioteca Nacional de Nova Goa, no seu livrinho Horas Vagas. Bibliotecas, dado à luz em 1905, menciona a portaria de 15 de Setembro de 1832, do vice-rei D. Manuel de Portugal e Castro que institui uma livraria pública, sob a direcção do engenheiro militar José António de Lemos, onde foram preservados os livros e manuscritos provenientes dos conventos encerrados, pela trágica extinção das Ordens Religiosas que em Lisboa e para Portugal fora decidida. Será numa portaria de 5 de Outubro de 1836 que a livraria pública passa a ser denominada Biblioteca. O seu regulamento, pessoal e financiamento é estabelecida em 30 de Abril de 1870. E a 12 de Dezeembro de 1879 no novo regulamento fica estabelecida, com pioneirismo em relação a Lisboa, a leitura nocturna.
 

 16-IX. Em carta datada desde dia, de 1693, o vice-rei, conde de Vila Verde, Pedro de Meneses Noronha de Albuquerque, enaltece, por causa duma invasão a Baçaim dum general mogol, os serviços prestados pelo parsi Rustum Manoke, representante dos interesses portugueses na corte do nababo de Surate, com o cargo de «corretor dos portugueses». Em 1695, Rustum Manoke recebe alguns privilégios, tal poder andar de andor nas praças do Norte. A comunidade parsi, ainda hoje existente, remonta a Zoroastro, talvez o mais antigo profeta conhecido, do Irão, e que deu origem ao Zoroastrismo, uma religião em que o culto das forças na natureza foi transcendido por um forte monoteísmo de cariz ético e espiritual e com uma conceção de Deus de Sabedoria (ainda que com o tempo em derivações tenha sido algo dualizado na manifestação), e com elevados códigos de labor e de pureza, mantendo o culto do fogo exterior e interior.
Decreto em 1774 do vigário da vara de Baçaim, conquistada em 1531 por Nuno da Cunha, doada por Bahadur (incluindo Bombaim) em 1535, recuperada pelos maratas em 1739 e apanhada pelos ingleses em 1818: «O pároco seja muito solícito em dar às suas ovelhas o pasto espiritual da divina palavra na língua vulgar, em instruir as parteiras da freguesia no modo de baptizar os recém-nascidos, e a todos no modo de receberem os sacramentos». Já noutro edital é pedido que sejam denunciados os cristãos feiticeiros, quem vai ao pagode, quem consulta os infiéis sobre eventos futuros ou contribui com alguma pensão ao bagateiro (bruxo). E também o filho que bata nos pais, e quem seja usurário.

17-IX. Natural de Odemira, o P. Francisco Rodrigues, depois de se ter formado em Salamanca e ser mestre de Matemática e de Teologia Moral no Colégio lisboeta de S. Antão, desejava ir para a messe ultramarina mas como não lho permitissem, pelos seus pés defeituosos, escreveu ao patriarca S. Inácio que não só lhe deu autorização, como o nomeou reitor do Colégio de S. Paulo em Goa, dizendo que os «reitores não governavam com os pés, senão com a cabeça». Partiu na nau Garça em 30-III-1556 e chegou a 4-IX. Distinguiu-se nos debates com  religiosos indianos e mandou traduzir o valioso "evangelho" indiano Bhagavad Gita para melhor se compreenderem e terá convertido um sanyasin brâmane famoso de Angediva. Participou no I Concílio Provincial de Goa de 1567. E foi nomeado Provincial da Índia em 1572. Já o zelo de calcar e destruir os templos hindus (quem sabe se por isso e de acordo com as ideias indianas do karma já nascera com os pés assim) é que foi deveras lamentável. Morre neste dia 17-IX de 1573, com sessenta e oito anos e vinte e seis de padre jesuíta. No elogios finais destacaram a sua prudência, ciência e capacidade de pregar e convencer. Vários casos de fiscalidade e ética, comentados por Francisco Rodrigues, e que se encontram na Torre do Tombo no manuscrito nº 805, colectivo (pois há também do P. Antonio Quadros e do P. Gomes Vaz),  foram recentemente estudados por Manuel Lobato e Jorge dos Santos Alves e encontram-se em rede.
O rei D. Filipe II, de Espanha e Portugal, morre no Escorial em
1598. Filho de D. Isabel de Portugal, neto do rei D. Manuel, ambicioso, casado 4 vezes, teve a sorte de, na roda dos casamentos e desventuras dos dois reinos hispânicos, ficar na mó de cima. Aclamado em Tomar, acalmando com benesses muitos nobres, lendo os autores portugueses, prometeu e respeitou uma certa autonomia lusitana. Pediu para ser enterrado num caixão feito da madeira da nau mais veterana da Carreira da Índia, a Chagas, no mosteiro de S. Lourenço do Escorial, construído pelos sábios João de Batista de Toledo e João de Herrera, este como D. Filipe II, um estudioso da obra do fecundo e criativo franciscano Raimundo Lulo.
                                                           
É eleito para o grão-mestrado da Ordem de Malta o octogenário Luís Mendes de Vasconcelos, neste dia em 1622, vivendo só mais cinco meses. Quatro mestres portugueses teve esta Ordem, fundada no tempo das cruzadas e dos templários, e então com o nome de S. João ou do Hospital. Expulsa depois para Rodes e Chipre, estabilizou em Malta desde 1530, graças ao imperador Carlos V, donde foi tentando travar a expansão turca no Mediterrâneo com feitos valorosos, especialmente até ao século XVII.
 Nasce em S. Petersburg neste dia 17 de Setembro de 1929 Tatyana Yakovlevna Elizarenkova, uma linguista que veio a ser uma das mais notáveis conhecedoras do sânscrito e dos Vedas, tendo traduzido o Rig Veda e o Atharva Veda para russo. Foi também especialista do pali e do hindi tendo deixado obras valiosas.
  
  18-IX. Chega a Bombaim a expedição inglesa para receber a cidade das mãos dos portugueses neste dia em 1662. Nela vem também o comissário e governador (o 52º) do Estado Português na Índia António de Melo e Castro que, experimentando a animosidade (já imperialista) dos ingleses, e depois o incumprimento da cláusula de ajuda contra holandeses, fatal então para Cochim, resolve atrasar o mais possível a entrega, tanto mais que clarividentemente vê a «grande e opulenta cidade» que vão fazer. Por fim, em 1665, escreve ao rei: «Senhor, acabou-se a Índia no mesmo dia em que a nação inglesa fizer assento em Bombaim», mas perante tantas insistências da corte, pressionada pelos ingleses, terá de assinar a entrega em 18 Fevereiro de 1665. A Bombaim de hoje pouco tem a ver com estes primórdios mas certamente que os diminutos recursos de Portugal nunca poderiam levar a cabo o erguer dum poderio, o Raj, como foi o do império colonial britânico. Para isso também a mentalidade pouco opressiva dos portugueses, fora dos assuntos religiosos, os diminuía perante os ingleses, mais fleumáticos e pragmáticos, que conseguiram lentamente aproveitar-se das lutas entre muçulmanos e indianos, das divisões dos indianos e das fraquezas dos portugueses, franceses e holandeses para virem a dominar o subcontinente indiano, até chegar o tempo do reprimido, aprisionado e por fim libertador mahatma Gandhi.
                                              
19-IX. Chegam à Índia, em 1683, o ano em que Sambagi ataca a ilha de S. Estêvão e que os exércitos de Aurangzeb atacam Damão, só duas charruas com soldados de pouca idade. Na Relação Verdadeira de 1683 aponta-se o descrédito que os orientais fazem do «Reino que na maior necessidade manda semelhantes socorros... Dirão a sua Alteza, a Índia rende pouco e gasta muito. Quem tem culpa disto senão os Senhores Reis de Portugal seus avós que prodigamente repartiram a fazenda real? Quem tem culpa de os Senhores Reis de Portugal darem aos Padres da Companhia a maior parte de sua fazenda?»
Nasce Cândido Figueiredo, em Lobão da Beira, freguesia de Tondela, em 19 de Setembro de 1846. Lexicólogo e escritor, chegou a ser membro da Sociedade Asiática de Paris pois foi autor de  pequenos estudos sobre a literatura e a cultura indiana. Com Luciano Cordeiro foi um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, e presidiu também à Academia das Ciências por mais de uma vez, duas das instituições com maior obra na história da cultura em Portugal. Traduziu um episódio do Ramayana, a Morte de Yaginadatta, a partir das versões de Gorresio e Fauche, impresso em Coimbra, na Imprensa da Universidade, em 1873: «Quando um homem, dama ilustre, faz uma acção, ou boa ou má, não pode evitar no porvir os frutos dela. Qualquer que em suas coisas não distingue o bem e o mal, e às cegas vai obrando, os sábios apelidam-no criança». O Prof. Guilherme de Vasconcellos Abreu, que sabia bem mais o sânscrito, teceu algumas críticas à sua tradução, embora esta estivesse assim dedicada e como que apadrinhada: "Ao profundo orientalista, ao eruditíssimo filólogo, ao aplaudido professor da Universidade de Oxford Max Muller, consagra este mesquinho testemunho de reverência, simpatia e gratidão C. de. F.". Em 1881 publicou Homens e Letras. Galeria de Poetas Contemporâneos, onde os esboça e dá a bio-bibliografia, alguns dos quais estando mais ligados ao Oriente, tal Antero de Quental e Tomás Ribeiro, e sobretudo Fernando Leal e Cristóvão Aires, naturais da Índia.

Convite para a Finissage da Exposição "Gestos Liturgia Sacralidade" no Museu do Vinho de Alcobaça, 20 de Set. 2026.



Após a visita última à exposição, a Maria Fátima Silva, o Jorge Prata e eu falaremos sobre a temática exposta. Transcrevo o texto que enviei:

Da gestualidade sagrada e ecuménica de Fátima no Museu do Vinho em Alcobaça

A exposição Gestos-Liturgia-Sacralidade, de Maria de Fátima Silva e Jorge Pratas, nas obras e processos partilhados, tende à magia da elevação da visão do mundo material ao espiritual, com o corpo e a gestualidade ritual invocando e evocando a consciência das influências ou presença espiritual e divina, sacralizadora de quem a realiza ou de quem a reactualiza agora ao contemplar operativamente o que é já símbolo da intuição e vivência, reconstituição fotográfica ou pictográfica icónica.
Maria de Fátima Silva apresenta uma instalação de pinturas e uma mesa altar dedicadas a Nossa Senhora de Fátima, aparecida em terra de etimologia islâmica, pois na sua antiguidade foi com tal nome consagrada a Fátima, afilha do profeta Maomé, e mulher de quem deveria ter sido o sucessor como líder do Islão, Ali, mas que se tornou apenas o I dos XII imams Shiias do povo iraniano, tão admirado nos nossos dias por defender cavaleirescamente a sua civilização teocrática da opressão gananciosa do Ocidente profano. 
A obra da Fátima é triplamente sacralizante: por si, pela localidade e sua hierohistória e por N. Senhora de Fátima, manifestação da Deusa, do sagrado Feminino, de Maria, de Fatimah, com o amor, misericórdia e ecumenicidade tão necessários nestes tempos já de III grande Guerra, mas que desejamos e oramos para que os dirigentes norte-americanos e europeus oligarquizados não a escalem mais.
                                             
Ao apresentar a sua mensagem em portas, nexos de inter-espacialidade, a Fátima apela à sacralização do quotidiano, a uma fatimização e angelização do nosso horizonte anímico, recorrendo à simbologia evocatória da Senhora de Fátima e dos Anjos e Arcanjo de Portugal, para que as suas bênçãos, escorrendo das mãos trabalhadoras e cuidadoras, dos pés sofridos e das asas renovadoras, nos purifiquem e inspirem na ligação do mundo corporal e do transcendental, e nos reintegrem mais na consciência sacra e unitiva.
A magia operativa das liturgias do santuário de Fátima, tão poderosa nas grandes peregrinações e litanias, e no silêncio dos vastos terrenos do santuário puro e vazio, com suas capelinhas, altares, estátuas, árvores, penedos e flores, foi bem acolhida enquanto macrocosmos uterino da instalação pictográfica e de gabinete etnográfico-religioso oferecido pela Maria Fátima Silva com toda a beleza, cor, ritmo, intensidade e sentimentos gerados durante o processo alquímico, interno e externo, agora desvelado nesta condensação bem original e performativa até no convite aos gestos de abençoarmos com a água purificadora e de nos fortificarmos com a energia firme dos cristais do Gerês e fósseis da Ericeira.
O lugar ideal da Exposição seria talvez uma sacristia, antecâmara introdutória da missa, oferecendo as fotografias e pinturas como rememorações destiladas na devoção e aspiração, mas também fica bem no Museu do Vinho em Alcobaça, das terras de Fátima vizinho, pois, instalado na antiga adega, preserva todo o pathos do ciclo vinícola, sagrado desde os mistérios da Grécia ou, mesmo antes, da Pérsia, pois ao rei Jamshid, detentor do Graal primordial, e sua princesa, como relata Firdouzi na imortal epopeia Shahnameh, se atribui a descoberta do vinho, o qual, cultuado como gerado da luz solar e divina propiciadora de Farrah (a Luz da Glória e da Verdade tão vivida e partilhada pelos espirituais iranianos), até nós chega resplandecendo com glória na liturgia eucarística e nectarizando-se no dito afiançado pelos nossos antepassados (que estejam na Luz) In Vino Veritas

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A very good article of Flavius Julianus Mithridaticus: The Cave Is the Cosmos. Porphyry, the Mysteries of Mithras, and the Metaphysics of Return.

 

The Cave Is the Cosmos

Porphyry, the Mysteries of Mithras, and the Metaphysics of Return

 


 

The Cave of the Nymphs in the 13th book of Homer’s Odyssey spans only 11 lines of hexameter and should not require an entire metaphysical treatise, and yet this is precisely what Porphyry gives us. In this brief passage from the Odyssey, Odysseus arrives at a cave in Ithaca, sacred to the naiads or nymphs, that creates an almost incidental moment in the epic. Nothing in Homer appears to demand a cosmology, an astral descent, the migration of souls, or the architecture of the universe itself. However, Porphyry argues the cave is more than meets the eye, as Porphyry and other Neoplatonists saw Homer was not just a poet but a theologian who had concealed an entire metaphysical system beneath the surface of his poetry.1 Then suddenly this cave is no longer merely a cave; it becomes a threshold between worlds. Its entrances become the gates through which souls descend into generation and ascend once more toward the gods. The nymphs become powers of embodiment and weaving [like angels, or intelective agents]. The darkness of the cavern becomes the obscurity of material existence itself. What first appeared as literary commentary slowly transforms into something stranger, a symbolic map of the soul’s descent into matter and its long return toward unity.

The Cave Before Porphyry: Homer and Plato

Before the cave became a cosmological threshold, before it became the site of astral descent and metaphysical return, it existed in the Greek imagination as something more primordial: a sacred opening into hiddenness itself. The cave stands at the border between worlds, at once natural, uncanny, subterranean, and sepulchral. To enter a cave is to disappear from ordinary visibility and cross from the illuminated surface of the world into an interior domain where orientation changes and perception becomes uncertain. It is therefore unsurprising that caves repeatedly emerge within ancient religious consciousness as spaces of revelation, initiation, incubation, and transformation. In Book 13th of the Odyssey, Odysseus finally returns to Ithaca after his long wandering as Homer pauses upon a cave sacred to the Naiads near the harbour of Phorcys; the passage is brief, but remarkably dense in imagery,

High at the head a branching olive grows
And crowns the pointed cliffs with shady boughs.
A cavern pleasant, though involved in night,
Beneath it lies, the Naiades delight:
Where bowls and urns of workmanship divine
And massy beams in native marble shine;
On which the Nymphs amazing webs display,
Of purple hue and exquisite array,
The busy bees within the urns secure
Honey delicious, and like nectar pure.
Perpetual waters through the grotto glide,
A lofty gate unfolds on either side;
That to the north is pervious to mankind:
The sacred south t’immortals is consign’d.2

At first glance, the passage appears merely decorative, as Homer, yet even prior to allegorical interpretation, the cave already possesses an unmistakably liminal quality. It is neither fully human nor fully divine space, as it contains weaving, flowing water, bees, stone vessels, and two distinct entrances that separate mortal and immortal pathways, with the cave structured around transition and division. Of these, the most striking feature is the cave’s dual entrance. One path, the Gate of Cancer, belongs to mortals descending into the cave; the other, the Gate of Capricorn, belongs to immortals alone. Homer unconsciously constructs a sacred threshold-space that mediates between distinct ontological conditions, as the cave already stands between orders of existence. This metaphysical imagery deepens the symbolic structure with the naiads, or nymphs, who weave “sea-purple webs” upon stone looms hidden within the cave’s interior darkness. Weaving in Greek thought repeatedly appears in the Moirai, who weave fate, becoming, and the cosmic process. Hence, the woven fabric represents form emerging through ordered movement, with multiplicity gathered into a patterned totality. Within the cave's hidden chamber, the nymphs become powers of generation itself, producing visible forms from invisible processes. Likewise, the cave’s waters and bees suggest fertility, continuity, and the secret labour of nature. The cave resembles a womb of becoming, a generative interior chamber where life, motion, and transformation occur beneath the visible world. Odysseus himself shows this transformation and birth/rebirth as he arrives not merely at home, but at a symbolic nexus of becoming between wandering and return, concealment and revelation. Odysseus is reborn through the cave before he confronts the suitors occupying his palace. Homer’s cave, however, remains fundamentally geographic and mythic rather than metaphysical, as it is a sacred space but not yet a cosmological architecture. In this, we must turn to Plato, who, in the Republic, has the metaphysical nature of the cave shift from once-sacred geography to a condition of the soul.

Imagine human beings living in an underground cavelike dwelling, with an entrance open to the light extending along the entire length of the cave...3

The prisoners inside the cave mistake shadows for reality because they have never seen anything else; therefore, their world is constructed from reflections, projections, and appearances mistaken for truth. Liberation begins only when one prisoner painfully turns away from the wall of shadows and ascends toward the light beyond the cave.

At first, he would most easily make out shadows; then reflections of men and other things in water; then the things themselves.4

Plato’s cave is therefore not merely a metaphor for ignorance but an ontological drama of the reorientation from doxa to episteme, from comforting lies to blazing truth, as the soul undergoes conversion and heads towards the true sun. One does not simply acquire information; one learns to see truth, yet the movement out of the cave is painful because the soul has become habituated to illusion and attachment to appetite. Illumination initially blinds before it clarifies, since Plato’s cave already possesses an initiatory structure: the prisoner descends into confusion, undergoes disorientation, ascends through stages of perception [and understanding], and finally encounters the source of illumination itself. The allegory mirrors rites of transformation found throughout ancient mystery religions of separation from ordinary consciousness, symbolic death, revelation, and return after a ritual rebirth. For this reason, Plato’s cave should not be reduced to an abstract epistemological statement, but like the Eleusinian and Dionysian mysteries, Plato's allegory of the cave is a spiritual pedagogy of return to the One through ritualised death and rebirth. The ascent from darkness toward intelligible reality anticipates the later Neoplatonic understanding of philosophy as Anabasis, or homecoming, as the soul’s return toward the Divine Source beyond multiplicity, and yet there remains a profound tension between Homer’s cave and Plato’s cave.

In Homer, the cave is sacred because it mediates between divine and mortal realms. It is a hidden place of natural sanctity and cosmic concealment. In Plato, the cave becomes the very condition from which the soul must escape ignorance, shadow, and imprisonment within appearances. It is now that Porphyry inherits both symbolic trajectories in his peculiar density of On the Cave of the Nymphs, seeking to unify Homer and Plato in a single theological conclusion. Porphyry does not arbitrarily impose metaphysics onto Homer; rather, he recognises within Homeric imagery a latent symbolic structure already resonant with Platonic ascent.5 Homer provides sacred threshold-space; Plato provides ontological and epistemological ascent which Porphyry fuses them into a single cosmological vision creating a new Neoplatonic frame The cave ceases to be merely locality or metaphor and becomes instead a map of the soul’s condition within the cosmos. The two entrances are transformed into gates of descent and return. The hidden weaving becomes the process of embodiment itself as the cave’s interior darkness becomes material generation, the soul entering multiplicity and forgetfulness. Most importantly, the cave becomes neither wholly negative nor wholly sacred, for unlike Plato, Porphyry does not simply oppose the cave and illumination; rather, the cave itself becomes necessary, as it is the place through which the soul enters generation and from which it seeks return. The cave is no longer merely a prison but is an ontological threshold between our world and the noetic realm. This distinction marks the beginning of a decisive transformation within Platonism itself. In Plato, ascent requires leaving the cave behind. 

The symbolic implications of this shift are immense, as if the cave is not simply error but the threshold between worlds, then embodiment itself acquires sacred significance. The soul does not merely fall into matter; rather, it passes through an ordered cosmological process structured by hidden intelligibility; hence, the cave becomes the place where descent and ascent intersect, and it is here, at the intersection of Homeric sacred geography and Platonic ascent, that they meet. The cave, which seems like Porphyry’s bizarre fixation, begins to open into something far larger than commentary but a cosmological architecture of the soul’s journey itself.

Descent: The Cave as Ensoulment and Cosmic Embodiment

If Homer gives us the sacred cave and Plato the initiatory cave, Porphyry transforms the cave into something far more expansive, a cosmological structure through which the soul descends into embodied existence itself. In On the Cave of the Nymphs, the cave ceases to function merely as a setting, a metaphor, or an allegorical illustration but becomes ontology rendered symbolically. The cavern is no longer simply within the world; it is the world as experienced by the soul entering generation. The problem of the cave is no longer merely ignorance; it is incarnation, as the soul has descended into the material world. This is why Porphyry’s commentary is saturated with the language of movement, with the ideas of entrances, exits, weaving, flowing water, descent, ascent, and hidden passageways. Everything within the cave signifies transit between ontological states. The soul is not static within the cosmos. It proceeds outward into multiplicity and struggles toward return as Porphyry makes this explicit when he states,

The ancients did not establish caves in honor of the gods and souls without purpose, but because they considered caves symbols of the cosmos.6

With this single statement, the entire symbolic field changes as the cave no longer belongs merely to Ithaca but to the structure of reality itself. What Homer described geographically, Porphyry symbolises the cosmos because it mirrors the condition of embodied existence itself. It is dark yet generative, hidden yet ordered, enclosed yet traversable; it is the realm of becoming or the domain in which souls enter material existence and wander through multiplicity or what we call life. Most importantly, Porphyry interprets the cave’s entrances theurgically,

Of these two gates, the one facing north is for the descent of souls, while the southern one is not for gods, but for those ascending to the gods.7

Here the Homeric cave is fully transformed into a map of the soul’s movement through the universe. The northern gate becomes associated with descent into generation, while the southern gate signifies return toward divine reality; therefore, the cave itself becomes the intermediary state between procession and return. This distinction reflects one of the central metaphysical structures of Neoplatonism, that all being proceeds outward from unity into multiplicity and longs for return toward its source. The cave exists precisely at the level of Soul and generation; it is therefore neither wholly divine nor wholly fallen but is intermediate. This intermediary quality explains why caves repeatedly emerge in mystery traditions and initiatory symbolism, such as those of Eleusis, the Orphics, and the Zalmoxian religion of Thrace. The cave is womb-like, subterranean, and hidden from ordinary visibility, representing both enclosure and passage.

Within Porphyry’s cosmology, the soul itself inhabits this condition as embodiment is not simply imprisonment but immersion within the matter of becoming. The imagery of naiads weave purple webs as Porphyry seizes upon this detail with remarkable intensity by arguing that the weaving is no longer decorative as it signifies the process by which soul becomes entangled within material existence, as he states, “The Persian theologians therefore called the soul a web.8 This brief remark opens an symbolic horizon as the soul is woven into generation and thus embodiment itself becomes a textile imagery of threads entering multiplicity, patterns emerging through movement, consciousness becoming entangled within temporal existence. The cave is therefore not simply where souls dwell, but where souls are clothed in the fabric of becoming, as Porphyry explicitly calls the body the “garment of the soul9

The symbolism also recalls the broader Platonic oncerns regarding the soul’s descent into corporeality as in the Phaedrus, Plato compares the soul to a charioteer struggling to maintain ascent toward divine realities as souls unable to sustain contemplation descend toward earthly embodiment as Plato states, “When the soul loses its wings, it is carried downward until it grasps something solid.”10 Porphyry alters this structure by arguing that descent is no longer merely moral or epistemological but merely cosmological procession of reincaration, building on Plato’s Myth of Er, as souls enter the cave of generation itself.11 The cave’s flowing waters deepen this symbolism as water in ancient cosmology frequently signifies flux, becoming, and the instability of material existence. To descend into generation is to enter the current of temporal change, and the eternal soul of pure being becomes immersed in motion, multiplicity, and forgetfulness.

Likewise, the bees inhabiting Homer’s cave carry symbolic weight; in Greek religious imagination, bees were often associated with prophecy, soul symbolism, and sacred mediation. Porphyry interprets them as belonging to the generative powers operating within the cave, as the hive becomes an image of ordered multiplicity or the many individual movements coordinated within hidden intelligibility.12 However, Porphyry’s cosmology is not reducible to pessimism or humanity being trapped in some Gnostic frame, as unlike the Gnostic systems in which material existence becomes purely fallen or hostile, Porphyry’s cave retains sacred order. The cave is obscure, but not chaotic; generation is dangerous, but not meaningless. The cosmos remains intelligible because it proceeds from higher realities, and this is why the cave possesses structure. Its entrances are ordered, and its symbols correspond with the divine, while its darkness conceals intelligibility rather than negating it. The soul descends into multiplicity, but multiplicity itself remains suspended within a larger metaphysical order of unity, which Iamblicus and Proclus would explore in the hendaic structure of the reality of enmation, with the relation being from the One to living beings. Therefore, Neoplatonic cosmology is not a simple dualism, as matter is not absolute evil; rather, it is a distance from unity, with embodiment representing dispersion rather than a tomb. The soul forgets itself amid multiplicity and becomes identified with the fragmented world of becoming, yet traces of intelligibility remain embedded throughout the cosmos through symbols, myths, rituals, and philosophical contemplation; all become potential pathways for the soul to remember the One and return home. Thus for Porphyry, the cave becomes an ontological threshold required for the drama of procession and return. The soul must pass through generation in order to undergo the movement back toward unity; the cave is not merely a prison. The cave ultimately becomes a mirror of interior existence, as to descend into the cave is to descend into embodied consciousness itself, into memory, multiplicity, sensation, temporality, and forgetfulness. However, hidden within this obscurity remain pathways of ascent, as the gates are still present, making return possible; just as Plato makes clear that the one who learns philosophy can leave the cave of the true sun of the One that reigns beyond the gate of Capricorn.

       Mithras and the Way Home

It is in the “Persian” or Mithraic material that Porphyry finally reveals what the cave means for the soul. The Homeric cave has already been shown to be an image of generation, embodiment, and the concealed operation of the cosmos. Porphyry now tells us that the Persians/Mithraist themselves made the cave a place of initiation precisely because it represented the soul’s descent and return:

Thus the Persians, mystically signifying the descent of the soul into the sublunary regions, and its regression from it, initiate the mystic in a place which they denominate a cavern.13

This is the point at which the Homeric cave ceases to be merely Homeric. Porphyry has found another tradition that understands the cavern as an image of the soul’s condition. The Persian cave is dedicated to Mithra, whom Porphyry calls “the maker and father of all things,” and it is constructed as a likeness of the world: “a cave ... bearing a resemblance of the world, which was fabricated by Mithra...symbols of the mundane elements and climates.”14 For Porphyry, then, the Mithraic cave is not merely a subterranean sanctuary, but the Mithraeum is the cosmos represented in sacred form. To enter it is to enter an image of the world into which the soul has descended. The cave is therefore already an initiatory statement about embodiment, but the soul finds itself within a material order that is real, ordered, and beautiful, but whose visible surface conceals the higher causes by which it is constituted. Porphyry’s earlier discussion of the cave explains why such a representation is necessary, as matter makes the visible world obscure, but form gives it order,

Through matter, therefore, the world is obscure and dark; but through the connecting power, and orderly distribution of form... it is beautiful and delightful.15

The darkness of the cave is therefore not the darkness of a world abandoned by the divine; it is the obscurity produced when intelligible form is encountered through matter. This is important for understanding the Mithraic mystery, for the initiate is not entering an evil cosmos from which he must simply flee, but rather an ordered cosmos whose divine structure must first be learned. Porphyry gives that structure a direction through the two gates, “Cancer is indeed northern, and adapted to descent; but Capricorn is southern, and adapted to ascent.”16 The northern gate is associated with souls entering generation, while the southern gate belongs to souls ascending toward the gods. The cave therefore contains the entire movement of incarnation and return. It is not simply a place in which the soul happens to find itself. Its two doors disclose why the soul is there and the direction in which it must eventually travel, and here Porphyry places Mithras,

Hence, a place near to the equinoctial circle was assigned to Mithra as an appropriate seat...For Mithra, as well as the Bull, is the Demiurgus and lord of generation.17

This is the theological centre of the passage. Mithras stands between the two gates because he stands between the two movements of the soul. He is associated with generation precisely because generation is the realm through which the soul must pass. However, the myth of Mithras does not terminate in generation, as the god enters the cave, acts within it, and returns toward the solar order. The Mithraic sanctuary gives physical form to this cosmology, as with the Mithraeum of Felicissimus at Ostia, the corridor mosaic is divided into seven compartments corresponding to the seven grades of initiation and the planets associated with them. The eighth compartment contains the dedication of Felicissimus himself. The sanctuary therefore places the initiate within an explicitly sevenfold planetary order.

The seven grades should be understood in this light. They are not simply a hierarchy of titles, but their planetary associations give Mithraic initiation a cosmological dimension, as the initiate moves through a sacred order represented by the planetary gods. The Roman Mithraeum thus becomes a miniature cosmos, precisely what Porphyry tells us the Persian cave was intended to signify. The ancient literary testimony preserved by Origen makes the relationship between this celestial order and the soul still more explicit as Celsus describes the mysteries of Mithras as containing a representation of the heavenly revolutions and, “the passage of the soul through these….a ladder with lofty gates, and on the top of it an eighth gate.”18 Celsus then assigns the seven gates to the planetary gods, beginning with Saturn and proceeding through Venus, Jupiter, Mercury, Mars, the Moon, and the Sun.»