quarta-feira, 27 de maio de 2026

Titus Burckhardt, sobre as Miniaturas Persas: As paisagens simbólicas manifestam a visão do cosmos subtil iraniano, e são a base da unidade da sua nação e estado religioso ou teocrático.

                              
Titus Burckhardt (1908-1984) foi um artista suíço, historiador de arte,  atraído e convertido cedo ao Islão, que procurou a iniciação em Fez e conseguindo-a na ordem sufi sunita Darqawiya, tendo vivido com dificuldades em vários trabalhos até poder em 1936, em Basileia,  estabilizar e estudar mais o árabe e a história da arte e começar  em 1937 a colaborar com artigos de simbolismo e traduções de filósofos espirituais árabes na revista de esoterismo Études Traditionneles, com René Guénon, então mestre do seu amigo de infância Frijtof Schuon, com quem também colaborava e o apoiou. Em 1939 casou-se, e tornou-se o director artístico da editora Urs Graf, em Basileia, especializada em reprodução de manuscritos antigos iluminados, onde trabalhou até se reformar em 1968. Os livros que escreveu de história de arte islâmica e sagrada com grande qualidade tiveram  sucesso e foi considerado o melhor conhecedor ocidental da arte islâmica. Os livros sobre o sufismo bem como o seu posicionamento metafísico e a sua relação muito próxima ou coincidente com Schuon e  Guènon, tornaram-no um dos principais representantes da escola tradicionalista, ou perenialista, teorizada principalmente por eles, além de Ananda Coomaraswamy e Seyyed Hossein Nasr

Titus Burckhardt e Frithjof Schuon perenizados numa varanda.

Entre 1972 e 1976 esteve em Fez a dirigir a restauração da cidade velha e da Medina, pela UNESCO e o Governo de Marrocos, e nesse ano último publicou uma valiosa obra Art of Islam. Language and Meaning, num in-fólio de XVI-204  páginas, muito bem ilustrada com fotografias de Roland Michaud, onde traça uma boa síntese em oito capítulos da evolução artística e principais épocas, estilos, características e questões, e de cujo capítulo III A Questão das Imagens, selecionamos dois extratos do segundo sub capítulo A Miniatura Persa,

Se o 1º extracto, mais especificamente sobre a miniatura Persa, revela uma boa captação da essência dela, já o 2º, sobre o Shi'ismo, manifesta um pouco mais ser  um sunita e não shi'ia, e não ter alcançado, aceitado ou valorizado plenamente a metafisica e o "espírito" shi'ia, sobretudo se o comparamos com Henry Corbin, que apesar de ser um cristão protestante, pelo seu grande amor ao Shi'ismo e ao Irão, atingiu uma grande penetração intuitiva, sensível e imaginal no mundo subtil e espiritual e na tradição dos XII Imams e dos místicos shi'ias. O livro contém como bibliografia apenas uma lista de quatro livros seus e onze não seus, sobre arte e arquitectura, sendo dois de cultura islâmica em geral. 

                                                            

Sobre as miniaturas persas: «(... O que dá à miniatura o seu quase único tipo de beleza não são tanto as cenas que retratam mas a nobilidade e simplicidade da atmosfera poética que as penetra.

Esta atmosfera, ou este modo - para usar um termo que carrega um significado preciso na música - confere ocasionalmente [ou melhor frequentemente] na miniatura Persa uma espécie de reverberação Edénica, e isto é profundamente significante, pois um dos seus temas básicos, com raízes iranianas distantes [alude veladamente ao que Henry Corbin desenvolveu profundamente, a partir dos textos avésticos, madzeístas e de Sohrawardi], é o da paisagem transfigurada, simbolizando ambos o paraíso terrestre e a "terra celestial"  [conforme a obra editada em 1960 de Henry. Corbin, Terre Céleste et Corps de résurrection, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite, revista e modificada em 1978, como Corps espiritual et Terre céleste, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite], os quais, enquanto se encontram  escondidos dos olhos da humanidade caída [tal das pessoas semicegas pelo mau jornalismo televisivo], permanecem existentes no mundo da luz espiritual que está manifesto aos santos de Deus [ou às pessoas com pureza, sensibilidade, aspiração, devoção, abertura.] 

É uma paisagem sem sombras, na qual cada objecto é feito de uma substância preciosa de inexcedível perfeição e onde cada árvore e flor é única no seu género [algo que devíamos ver mais mesmo neste mundo físico e desse modo nos elevarmos ou nos ligarmos aos outros mais subtis e perfeitos], tal como as plantas que Dante situa no Paraíso terrestre, na montanha do Purgatório, e cuja sementes nascem do vento perpétuo que sopra  no topo da montanha a fim de produzir todo o tipo de vegetação sobre a terra. (...)

Esta paisagem simbólica é essencialmente distinta da sugerida pela pintura chinesa. Diferentemente desta, não é definida; não parece estar a emergir dum vazio, a origem indiferenciada de todas as coisas; é como um cosmos bem ordenado, ocasionalmente contido numa arquitectura cristalina que o encerra como numa incantação mágica e prepara as cenas sem as fazer muito materiais.

Em termos gerais, a miniatura Persa - e estamos a considerá-la nas suas melhores fases - não procura retratatr o mundo exterior como ele se apresenta a si mesmo aos sentidos, com todas  as suas desarmonias e acidentalidades; o que está indirectamente a descrever é a imutável essência das coisas (al-a' yan ath-thabitah), pela qual um cavalo não é um simplesmente um membro particular da sua espécie mas o cavalo par excelence; é a qualidade genérica que a arte da miniatura procura captar. Se a imutáveis essências das coisas , os seus arquétipos, não podem ser apreendidos porque estão para lá da forma [discutível, pois têm é formas mais subtis e em movimento] elas ainda assim reflectem-se na contemplação imaginativa [ou imaginal, como diria H. Corbin]; daí a qualidade de sonho - não o de uma preguiçosa divagação - que pertence às mais belas miniaturas; é um sonho claro e translucente como se iluminado de dentro. (...)

Por causa do seu carácter normativo, a miniatura Persa pode servir para exprimir uma visão contemplativa; esta qualidade particular deve-se em parte ao meio ambiente (milieu) Shi'ita no qual a fronteira entre a lei religiosa e a livre inspiração é muito menos talhante que no Sunita. Estamos a pensar em certas miniaturas  de tema religioso tais as que, apesar de toda a regra tradicional, retratam a ascensão  (mi'raj) do Profeta através dos céus.

                                                                                      De longe a mais bela, e a mais espiritual, miniatura neste tema é a que forma parte do manuscrito Khamsah de Nizami, datado de 1529-1543, no período Safavida. Com as suas nuvens em convoluções no estilo Mongol e os seus anjos portadores de incenso reminiscentes das apsaras [indianas], esta miniatura exibe um ponto surpreendente de contacto entre o Budismo e o Islão [ou manifesta ainda a grande ligação com os anjos da antiga Pérsia, pioneira mundial nessa capacidade de visão com os Ameshaspenta e as fravartis de Zoroastro e depois continuada com Sohravardi, os seus condiscípulos da Luz oriental ou Ishraqiyyun, e vários místicos do Islão, seja sufis ou não pertencentes às tariqas ou confrarias.]

 «É bem apropriado, neste momento, dedicarmos algumas palavras a  clarificar a especial natureza do Shi'ismo. O que o distingue particularmente do Islão Sunita é a teoria do Califato, de acordo com o qual a autoridade spiritual conferida pelo Profeta sobre Ali, seu sobrinho e genro, está perpetuada  nos santos Imams (modelos ou guias) da sua família. O último dos Imams conhecido para a história - o décimo segundo de acordo com o Shi'ismo oficial [o Madhi]  - não está morto, mas está escondido dos olhos do mundo enquanto permanece em comunhão espiritual com os fiéis. 
Esta teoria é uma formulação [ou realização] devocional de uma verdade esotérica: a cada momento da sua história, cada mundo tradicional é regido por um polo (qutb) o qual é como o coração [ou eixo ou polo], um local onde a influência dos céus derrama-se para o plano terrestre; este "polo" é acima de tudo uma realidade cósmica e espiritual; coincide com a Presença Divina no centro do mundo - ou o centro dum certo mundo ou, de novo, de cada alma, de acordo com vários níveis - mas é normalmente representado pelo santo, ou santos, [ou pelos imams, ou os mestres, santos e profetas que estão ligados como eles] cuja estação ou estado espiritual corresponde a tal "localidade" cósmica e divina. Ficará claro a partir destas poucas observações que o Shi'ismo envolve uma verdade muito subtil, cuja formulação em termos que sejam comumente aceitáveis levam inevitavelmente a uma certa mitologização, e isto é o que caracteriza principalmente [chiefly] a imamologia do Shi'ismo [algo redutor reduzir assim a imamologia, tão bem aprofundada e valorizada por Henry Corbin, considerá-la sobretudo mitologização.] 

A memória do tempo em que os Imams estavam ainda presentes visivelmente, o fim trágico de alguns [ou de todos] deles, a ocultação do último deles, e o desejo de se atingir a misteriosa região onde ele reside ainda confere à piedade devocional [ou à aspiração mística e amorosa]  Shi'ita o seu tom característico, que pode ser descrito como uma nostalgia pungente pelo paraíso, o estado de inocência e plenitude que se encontra igualmente no começo e fim do tempo [ou à aspiração mística e amorosa à ligação ou união com os Imams, os Profetas e mesmo Deus, na sua imanência].

O Paraíso é um tempo primaveril eterno, uma jardim perpetuamente em floração, refrescado por águas vivas; é também um estado final e incorruptível como o de minerais preciosos, cristais, ouro. A arte Persa, e em particular a ornamentação das mesquitas Safávidas [séc. XVI e XVII], tem como programa combinar estas duas qualidades: o estado cristalino é exprimido na pureza das linhas arquitectónicas, a geometria perfeita das superfícies arqueadas e a decoração em formas rectilíneas; quando ao tempo primaveril celestial, ele desabrocha nas flores estilizadas e nos azulejos de cerâmica de cores frescas, ricas, moderadas.»

                                           

Já com as duas partes transcritas, investigando as relações entre Titus Burckhardt e Henry Corbin, confirmei que houve discordâncias  entre os dois, pois  Corbin seria considerado pouco ortodoxo no perenialismo de Guénon, Schuon, Burckwardt e Nasr, e demasiado valorizador da individualidade, do génio, da ligação pessoal íntima. No livro de S. H. Nasr e Ramin Jahanbegloo, intitulado In Search of the Sacred: A Conversation with Seyyed Hossein Nasr on His Life and Thought, de 2010,  e legível no Internet Archive, na p. 92 e ss., S. Hossein Nasr confessa que Henry Corbin não influenciou o seu pensamento metafísico, e dele apenas aproveitou   das suas obras eruditas, elogiando sobretudo os livros sobre Avicena e Ibn Arabi, e conta um choque forte acontecido em 1958, no Instituto Francês de Estudos Iranianos em Teerão, entre ele e Corbin, pouco depois de se terem conhecido, por este ter criticado fortemente Titus Burckardt, que era muito amigo de Nasr e se ofendeu com isso. A partir daí nunca mais tocou nesses aspectos para respeitar as idiossincracias próprias de Corbin.
Henry  Corbin valorizou bastante mais realização interior própria de cada ser único com o seu espírito, ou mestre, ou anjo,  e com o imam e o Arcanjo Gabriel, do que a adesão ao ritualismo exterior ou à autoridade de um sheik ou mestre exterior. Também na abordagem  ao Alcorão ele era sobretudo um hermeneuta, um exegeta dos vários níveis de cada sura, para que eles reconduzissem a pessoa à realidade espiritual e divina. Assim a interpretação literal do Alcorão não era o mais importante, e importava mais a presença fenomenológica do que se acreditava, meditava e via, por um trabalho filosófico e místico ou espiritual em simultâneo.
É possível que por Henry Corbin não se ter convertido ao Islão e considerar-se um cristão, heterodoxo, tanto protestante como cavaleiro espiritual, conhecendo e dominando simultaneamente tão bem a filosofia e mística do Irão, e do sufismo shiia e sunita, provocasse alguma frição ou mesmo repulsão dos islâmicos ou ocidentais mais observadores da sharia, das observações legais ou exteriores do Islão. 
Não nos é dito claramente na entrevista quais foram as divergência com Titus Burckhardt, mas de qualquer modo o sunita, e metafisico perenialista ortodoxo e guenoniano, Burckhardt reconhece a especificidade forte da alma e ambiente subtil shi'ismo, onde certamente se fundamenta ou enraíza hoje a luta corajosa pela independeência soberana da República Islâmica do Irão contra o Ocidente opressivo degenerado, liderado pelos USA e Israel. 
Esta grande alma iraniana está bem presente nas miniaturas persas: uma nostalgia ou aspiração ao estado de plenitude, de verdade, de inocência,  de primordialidade, de ligação ao mundo imaginal e espiritual (Malakut, Hurqalya), e à Divindade,  mais sentida nas almas mais luminosas, translúcidas, dotadas de farrah, xvarnath, ou seja, a luz da Glória, já discernida por Zoroastro.
                                   
Almas que se conhecem e adoram a Deus e que assim medeiam entre a Divindade e a Humanidade e Natureza, sendo qutbs, polos ou eixos, ou, na forma em que Titus Burckhardt transmite, corações, e no fundo Graais, propiciando o derramamento  da luz abençoadora (barak) do Alto, ou mesmo Imams, os guias, realizações estas que os iranianos tanto viveram ao longo dos séculos seja com os profetas, filósofos, poetas, místicos, orafas (gnósticos ou teósofos) e sufis, e que na tradição e culto dos XII Imams do Shi'ismo continuam tão vivas e inspiradoras nestes tempos de grande luta e de tantos shahid, mártires, ou testemunhos vivos no auto-conhecimento espiritual, corajoso e imortal... 
Que as paisagens ou ambientes  interiores espirituais do grande amor e Luz da Glória da tradição e civilização persa sobrevivam ou resistam no povo iraniano e vençam as forças ahrimanicas neste confronto tão decisivo...

terça-feira, 26 de maio de 2026

Alguns livros (19) de Henry Corbin, brevemente apresentados. Obra em progressão..

                                                                     

Como Henry Corbin (Paris, 14/4/1903 a Paris, 7/10/1978), formado em filosofia, e por mestres como Etienne Gilson, Louis Massignon e Martin Heidegger, foi e é certamente o melhor estudioso (ou um dos melhores), tradutor e expositor da sabedoria e angeologia iraniana, dos seus filósofos e místicos, pré-islâmicos e islâmicos, compete-nos a nós, nesta hora trágica do bullying norte-americano e israelita a tão valiosa e luminosa civilização, aprendermos algo dos ensinamentos que tão grandes filósofos e teólogos, poetas e místicos nos deixaram e que Henry Corbin, com grande engenho e sabedoria, perseverantemente durante mais de quarenta anos, estudou, traduziu, discutiu, comentou, editou e ensinou, seja na Sorbonne parisiense, seja em Istambul (1940 a 1945, como investigador), e sobretudo  na Universidade Imperial de Teerão (de 1945 a 1977), e no Centre Iranien pour l’étude des civilisations, dirigido por seu discípulo e quase sucessor Daryush Shayegan (com quem eu dialoguei bem, registando um pouco em vídeo, hoje no Youtube), e em pequenos círculos de amigos, nomeadamente nos encontros de Eranos, em Ascona na Suíça, desde 1949, de que nos ficaram as suas comunicações. Mas para sabermos algo desses diálogos fabulosos no círculo de Eranos com Carl Gustav Jung, Evan-Wentz, Emil Cioran, Mircea Eliade, Gilles-Quispel, Gerschom Scholem, Gilbert Durand (com quem ainda dialoguei em Tomar e Guimarães) e outros teríamos de pesquisar em memórias biográficas, embora algumas já estejam hoje editadas.

Esta lista, para já muito breve, irá sendo desenvolvida nos comentários a cada um dos livros descritos, e fazia parte da lista inclusa em https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/02/bons-livros-10-sobre-o-irao-e-sua.html

Boas inspirações. Paz, Justiça e Luz no golfo Pérsico, e independência soberana, "imamática" e magistral do Irão.

1- CORBIN, Henry. Avicenna and the visionary recital. Dallas, Spring, 1980. In-4º VIII-420 pág. B. Excelente estudo sobre as visões e doutrinas de Avicena, e ainda sobre os subtis e maravilhosos anjos e arcanjos tão vistos e estudados na tradição espiritual iraniana.

 2 - CORBIN, Henry. Le paradoxe du monotheísme. Paris, Heren, 1981. In-4º gº 257 p. B. Anotado. Abordando a questão da transcendência e unicidade de Deus, no monoteísmo islâmico    mostra os tipos de mediação existentes, sobretudo desenvolvidos no shiismo. Inclui ainda a Necessidade da Angeologia, e Da Teologia Apofática como antídoto do Niilismo.

3 - CORBIN, ABECASSIS, DAVY, GORCEIX. L'Ange et l'Homme. Cahiers de l'Hermetisme. Paris, Albin Michel, 1978. In-4º 238 p. B. Notável e complexo artigo de sessenta páginas, La Necessité de l'Angéologie, no qual, baseando-se em textos judaicos e cristãos, desenvolve teses bastante originais, tais como a identificação de Cristo a Mikael, e do Espírito Santo a Gabriel. Os contributos de outros autores são sobre os Anjos em Israel, no Ocidente Medieval, em Jacob Böehme, Johannes Scheffler, Swedenborg, Jean Paul e L. C. Saint-Martin.

4 - CORBIN, Henry. Temps cyclique et gnose ismaélienne. Paris, Berg, 1982. In-4º 208 p. B. Com dois capítulos Le Temps cyclique dans le Madzeisme et dans l'Ismaelisme, com várias ligações aos Anjos, e  Epiphanie Divine et naissance spirituelle dans la gnose ismaélienne.  

 5 - CORBIN, Henry. Face de Dieu, Face de l'Homme. Hermeneutique et Soufisme. Paris, Flammarion, 1983. Br. In-4º 379 p. B. Anotado. Valiosos ensaios sobre mundo imaginal ou 8º clima; Swedenborg, Gnose ismaelita; da epopeia heroica à epopeia mística, a narrativa do Graal em Sohravardi; o Imam como face de Deus e do Homem, e polo (qutb) da alma; a ideia do Paracleto na filosofia iraniana: os traditicionistas shiitas, Sohravardi (m. 1191) e os Ishraquiyun, Haydar Amoli (m.1385), Ibn Abi Jomhur Ahsa'i (1495), Qotbodin Ashkevari (m.1665) e Jafar Kashfi (m.1851).

6 - CORBIN, Henry. Temple and Contemplation. London, RPI. 1986. In-4º 413 p. B. Anotado. Cinco artigos, de 1952, o mais correcto e valioso talvez seja o que estuda o simbolismo das cores na cosmologia Shiita, ja que alguns dos mestres iranianos deram boas descrições e explicações das luzes e cores vistas nas suas meditações e visões.  

7 - CORBIN, Henry. L' Iran et la Philosophie. Paris, Fayard, 1990. In-4º 268 p. B. Anotado. Estudos valiosos sobre História das religiões (Iranologia e ciência das religiões, onde cronologicamente caracteriza  os cultores, ou instituições, pioneiros. Iranologia e filosofia), e  Filosofia e  Mística: Teoria do conhecimento visionário. O motivo da viagem e do mensageiro, com realce para Avicena, Attar, Sohrawardi e Moola Shadra. Uma liturgia shiita do Graal (O ritual do cálice, a pessoa de Abul-Khattab. Doutrinas. "O vinho de Malakut"). Filosofia profética e metafísica do ser. Sufismo e Sofiologia. Sentido musical da mística persa. São conferências e textos publicados em revistas ou  inéditos. Na teoria do conhecimento visionário, publicada em 1977, num colóquio religioso, transmite alguns dos leif-motivs dos filósofos místicos iranianos e da sua interpretação: «uma filosofia que não desemboca numa realização espiritual pessoal (ta'alloh) é uma perda vã de tempo», e há uma gnoseologia visionária a desenvolver-se quanto ao órgão subtil e quanto ao local ou espaço dimensional, seja o elevado Jabarut, o mundo das inteligência puras querubínicas, ou os Anjos intelectuais da tradição aviceniana latina,  seja o Malakut, intermediário, também denominado alam al-mithal, da alma, do imaginal, dos Anjos ou almas celestes, o mais acessível à visão no olho espiritual.  

                                             
8 - CORBIN, He
nry. Histoire de la Philosophie Islamique. Paris, Galimard, 1986. 3ª ed. In-8º 546 p. B. Anotado. Excelente. Destaque para os capítulos sobre Sohravardi e a Filosofia da Luz, a Metafísica do sufismo, e o pensamento shiita. 

9 -  CORBIN, Henry. Terre Celeste et Corps ressurréction. De l'Iran Mazdéen à l'Iran Shi'ite. Paris, Buchet-Chastel, 1960. In-4º de 419 p. B. Com ded. Anotado. Obra de referência quanto à continuidade da Persia pré-islamica na islâmica, sobretudo através de Sohravardi e os seus continuadores, os Ishraqiyin,  com uma boa antologia de extractos muito valiosos de vários mestres iranianos sobre os corpos e os mundos subtis e espirituais, por Corbin traduzidos por mundo Imaginal (alam mithali, ou Malakut), e que intermediariza o mundo sensível-material  (alam hissi), e o mundo inteligível  ou das puras inteligências querubinicas, Jabarut. Corbin falha talvez um pouco ao acentuar a imaginação activa  como o órgão de percepção em Malakut sem destacar tanto a visão pelo olho-subtil espiritual, que não é produto da imaginação, mas maturação e graça no corpo subtil-espiritual, e na awliya ou corpo místico dos Amigos de Deus

10 - CORBIN, Henry. L'homme de Lumière dans le Soufisme Iranien. Paris, Presence, 1971. In-4º g. 231 p. B. Anotado. Excelente aproximação à orientação espiritual e iluminação, sobretudo em Sohravardi, Kobra, Nasjomddin, Ruzbehan, Najm Razi, Semnani. 

11 - CORBIN, Henri, Anthologie des Philosophes Iraniens. Depuis le XVII siècle jusqu'a a nos jours. Tome I et II. Teheran, 1972 e 1975. In-4º gr. 215 e 166 p. Br.  Introdução analítica, bem desenvolvida, aos filósofos Mir Damad, Mir Fendereski, Molla Sadra Shirazi, Rajba Ali Tabrizi...

12 - CORBIN, Henry. Philosophie Iranienne et Philosophie Comparée. Téhéran, 1977. In-4º g. 154 p. Tela com sobrecapas. Conferências excelentes sobre: Os desafios do comparativismo, tais o sair do historicismo e aprofundar a fenomenologia, como metodologia de abertura ao mundo imaginal, e acesso à hiero-história.  Temas comparativos; as ideias platónicas. A doutrina das intensificações do ser.  A periodização da historia sagrada, em 12.000 anos (criação, mistura e separação). As linhagens de mestres iranianos como Mir Damad, Mulla Sadra Shirazi, Rajab Ali Tabrizi; Três filósofos do Azerbeijão iraniano: Sohravardi, Vadud Tabrizi e Rajab Ali Tabrizi; A tradição avicenista iraniana, espiritual, comparada à do averroísmo, escolástica e sem ligação ao mundo intermediário da imaginação activa e dos Anjos e Arcanjos, o que Sohrawardi, os ishraqiyun e o Mulla Sadra tanto aprofundaram.

13 - CORBIN, Henry. Corps spirituel et Terre Celeste. De l'Iran Mazdéen à l'Iran Shi'ite. 2ª ed. Paris, Buchet-Chastel, 1979. In-4º gr 303 p. B. O corpo espiritual na tradição mazdeísta, e na shiita. E cento e cinquenta páginas antológicas de onze místicos. Livro de referência. Interessaria conferir as modificações da 1ª para a 2ª edição, inteiramente revista, de algum modo explicadas nas doze páginas do prelúdio à 2ª ed.

14 - CORBIN, Henry. L'Imâm caché. Paris, L'Herne, 2003. In-4º 301 p. B. Anotado. Ditos, tradições e crenças acerca do misteriosamente oculto XII Imam, o Madhi, que muitos creem voltar um dia à manifestação terrena para iniciar uma época luminosa da Humanidade, mas que é desde sempre o Imam interior, em unidade com os outros onze, dos que aspiram a ele, dos shi'ias que se tornam mais gnósticos ou místicos e são templos de Deus.

15- BORSI, Rajab, Les Orients des Lumières. Traduit de l'arabe par Henry Corbin. Édition établie et introduite par Pierre Lory, Institut Français de Recherche en Iran, Ed. Verdier, 1995. In-4º 120 p. B. Com vinte e duas páginas de introdução contextualizante, de um letrado shiia iraquiano que morreu no Irão, com notas de Henry Corbin e de Pierre Lory, a parte inicial dum escrito místico, baseado nas correspondências de letras, números, formas, sons, e o Alcorão e os ditos dos Imams. No prólogo Borsi lamenta a inveja e a oposição que recebeu de alguns: «Eu não cometi qualquer falta senão de ter partilhado a quinta-essência das Tradições imâmicas (os akhbar) e ter feito jorrar  a centelha da elite espiritual cujo incenso se espalha, traçando o seu caminho, difundindo a sua fragrância, tornando-se uma unção aromática útil ao doente, refrescando o sedento.» Um capitulo dedicado ao nome de Allah, outra aos sete atributos: o Vivo (Hayy), o que sabe  ('Alim), o que quer (Murid), o que pode (qâdir), o que fala (Mutakallim), o generoso (Jawad), o Justo (muqsit).

CORBIN, Henry. 16 a 19 - En Islam iranien. Aspects spirituels et philosophiques. I Le shi'isme duodécimain. II Sohravardi et les Platoniciens de Perse. III  Les Fidèles d' amour. Shi'ism et soufisme.   L'École d'Ispahan, l'École de Shaykhie, Le Douzième Imâm. Paris, Gallimard, 1971, 1972. Br. In-4º XXIX-332, 384, 355 e 567 p. B. Anotados. Quatro excelentes livros sobre: I - a origem e hierohistória do Shiismo e dos XII Imam. II - Sohravardi, e a Teosofia Oriental; a Luz da Glória madzeísta (Xvarnah) e a Angeologia; a Luz da Glória e o Santo Graal; os contos da gesta mística e da gesta gnóstica. III - Os místicos dos séc. XIV e XV  : Ruzbehan Baqli e o sufismo dos Fiéis do Amor. Sufismo e shiismo: Haydar Amôli, teólogo shiita do sufismo. E ensinamentos de Ali Torkeh Ispahâni, sobre os sentidos espirituais, e os de Alâoddawleh Semnâni, sobre os sete órgãos subtis do ser humano.  E IV - As escolas mais modernas, de Isfahan (Moola Sadra, Qazi Sa'id Qommi) e a Shaykhie ( Ahmad Ahsa'i). E o 12º Imâm.  Henry Corbin e Louis Massignon foram dos melhores conhecedores ocidentais da filosofia e espiritualidade islâmica, iraniana e shiia, esta sendo talvez a obra chave de Henry Corbin.

domingo, 24 de maio de 2026

Ninguém minimamente inteligente pode negar que USA, Israel, UE, NATO e a oligarquia globalista constituem o eixo do Mal na Terra.

Que USA, Israel, NATO (com Vitoria Nulland e Boris Johnson, os principais causadores da tragédia ucraniana), a oligarquia globalista  e UE constituem o eixo do mal está cada vez evidente para quem ainda pensa e não repete as mesmas ideias mentirosas e limitadas que os meios de comunicação lhe impingiram.
Com efeito, nos últimos meses os acontecimentos brutais e traiçoeiros perpetrados pelos israelo-americanos foram tão violentos e assassinos que o silêncio da UE, ou então as hipócritas declarações pela sua direcção proferidas, erguem-na a um nível tão criminoso como os dois impérios do mal. Mas tal não nos deve espantar, pois fazem parte da mesma elite epsteiniana e sionista que tenta controlar plenamente a população mundial com o dinheiro infinito que têm, e é natural pois o seu Deus é Mamom, desde os tempos míticos da Bíblia, o demónio ou diabo das riquezas. E não é por acaso que quem se encontra hoje no poder em muitos destes governos são  milionários, seres que só se interessam por fazer dinheiro, tal como Trump e os seus mais próximos - em especial Jared Kushner, um escroque mesmo para os estados árabes do Golfo Pérsico - têm aproveitado, na bolsa das energias petrolíferas, através das constantes mentiras de negociações e acordos com o Irão.
 
O que os USA fizeram e ainda continuam a fazer de opressão violenta e injusta, na Venezuela  e sobretudo no Irão, é de se bradar aos céus, já que no ataques traiçoeiros à Pérsia sagrada morreram cerca de 3.000 a maioria civis inocentes, entre os quais na hora inicial 161 crianças da escola de Minab, com Trump ainda hoje  continuando a dizer que não sabe  quem terá lançado os dois mísseis Patriots,  separados no seu impacto por uns minutos para matarem mais pessoas.
                                           
A mesma estratégia de matar civis e de tentar fazer o maior número de vítimas, disparando pouco depois da primeira bomba, uma segunda ou terceira, para apanhar os bombeiros, os enfermeiros, as pessoas que acorrem aos locais atingidos, sucedeu há dois dias, a 22 em Lugansky na Rússia quando a escola e  dormitório de adolescentes Starobelsk college foi atingida por  drones ucranianos de madrugada, por três vezes sucessivas, matando vinte e uma jovens e ficando várias outras em estado crítico.
Um acto brutal e no fundo intimatório e aterrorizador, que replica o que os israelitas e norte-americanos fizeram na escola de Minab, em que muito provavelmente os responsáveis pelos dois disparos seguiram as instruções do secretário de Defesa norte-americano Pete Hegseth: "uma guerra impiedosa e sem regras",  então excitadíssimo e convencidíssimo que desse modo iriam apressar o Armagedon, a guerra dos tempos finais, para que o Messias possa voltar e reconstruir-se o templo em Jerusalém, crenças dos zelotas ultra-sionistas e evangelistas em que Pete Hegsetg se inclui.
Pois se na altura, horas depois de se saber Trump e Hegseth se atreveram a responder dentro dum avião aos jornalistas que deveriam ter sido os iranianos a dispararem contra eles próprios, pois não sabiam usar as armas, ou ainda que os Patriots hoje andam em todas as mãos, mentiras de quem foi apanhado em flagrante delito e algo compreensíveis, já passados já uns meses, continuarem a dizer que não sabem o que se passou provando o grau de diabolismo mentiroso e criminoso que de facto Trump e Hegseth, tal como Zelensky e Netanyahu, pois a mentira é de facto, além da violência cruel, uma das formas piores ou mais intrínsecas do mal.
Já nos tempos mais antigos da história iraniana nos textos de Zoroastro o mal é definido como a mentira, Ahriman é o espírito da mentira, algo que os judeus receberam tornando-se  Satan hebraico-cristão o adversário de Deus, ou da sua verdade, justiça e amor. E se tal fora proclamado na  religião zoroástrica e madzeísta, os filósofos, poetas, políticos e heróis iranianos assumiram tais ensinamentos éticos e nobres verdades e deixaram grandes testemunhos nas suas obras e vidas, os quais estão vivos numa população cada vez mais culta e desenvolvida, e grata pelas raízes éticas e heroicas que herdaram e que nas guerras contra o Shah, contra o Iraque e contra Israel e os USA se tem acrisolado...
Não admira pois que os Iranianos estejam muito unidos na sua verdade, justiça e independência e desconfiados e indignados com os mentirosos e traiçoeiros, que matam durante as negociações seja o General Soleimani, seja o líder Ali Khamenei e a sua família, seja inda depois um mestre filosófico como Ali Larijani, com quem Alexandre Dugin dialogou horas sobre a filosofia perene do Irão, o irfan, os anjos ou fravartis...
Não admira que os iranianos não sejam derrotados, nem enganados, embora possam de novo ser atacados traiçoeiramente por Israel e USA, podendo estes de novo assassinar, ou como gostam de dizer, eliminar ou decapitar mais uma série de líderes. Mas surgirão sempre novos, e a grande alma iraniana está viva nas suas tradições e no cultos dos seus mártires, como a religião islâmica shiita tanto valoriza, cultua e vive.
Quanto às péssimas pessoas que dirigem a União Europeia, se não se envolveram directamente contra o Irão como o megalómano e compulsivo mentiroso e em fuga do tribunal Donald Trump queria, e se os ingleses e os franceses, os mais imperialistas belicistas, recuaram perante os desejos iniciais e as promessas de enviarem navios militares para libertarem o controle iraniano do estreito Ormuz, já as condenações pelos contra-ataques dos iranianos sobre as bases militares norte-americanas que os tinham atacado,  em territórios de Estados árabes do Golfo, se fizeram ouvir hipocritamente das cabecinhas oligarquizadas, sionizadas ou anti-russas e anti-iranianas que tomaram conta da União Europeia e desgraçam a milenária Europa, hoje sobre um ditadura opressiva de Ursula von der Leyden e os seus, entre os quais se incluem portugueses de partidos diferentes mas unidos na obediência a ela e à oligarquia financeira que a rege, os patéticos Costa, Rangel e &... 
Mais evidenciando ainda esta cegueira da União Europeia no seu ódio à Rússia, para o qual estão dispostos a sacrificar não só o dinheiro dos seus contribuintes, ou o nível da saúde e vida dos europeus, foi a recente reacção da direção da União Europeia ao crime ucraniano do assassinato de mais de vinte jovens adolescentes, não  lamentando sequer mas antes condenando a resposta russa no ataque retaliatório entre 23 e 24, contra objectivos militares. 
Que hipocrisia europeia, quase ao nível da condenação do ataque iraniano em auto-defesa contra as bases norte-americanas no estados árabes do Golfo.
Acrescento que a 25 de Maio já se sabe que os alvos do ataque retaliatório russo através do famoso míssil Oreshnik desta vez foram mais importantes: parte do ministério da Defesa Ucraniana que coordenava os ataques, e provavelmente este que matou as 21 jovens russas, com isso ultrapassando as linhas vermelhas da paciência da governação russa. E muitas mais pensariam poder assassinar, pois 85 dormiam no Colégio Profissional de Starobelsk atingido pelo ataque em três vagas sucessivas de mais de uma dezena de drones, fornecidos pela União Europeia e em especial França, Inglaterra e Alemanha. 
Não é pois de espantar que um dos mais altos CEOS da oligarquia e dos Rothschild, Emanuel Macron, tenha condenado a resposta russa, bem como a fanática anti-russa descendente de nazis Kaja Kallas, que considerou o ataque como "uma táctica de assustar politicamente", prometendo continuar na ofensiva para tentar esfrangalhar a Rússia, grande e rica demais a seu ver. Quanto à mais que hipócrita e traiçoeira Ursula von Orgenesis, lançou mais uma mentira para o ar: fora «uma falta de respeito para com as negociações», algo que os europeus recusaram sempre pensando que poderiam destruir ou vencer a Rússia, mas que agora já começam a ver como inevitável. 
Entretanto já se sabe, através dum coordenador russo Sergei Lebedev,  que o alvo atingido foi um bunker onde estavam comandos da NATO, e certamente franceses, e que finalmente a Rússia está a começar a assumir o conflito com uma guerra, e em parte com a NATO e a União Europeia, o que esta há muito desejava, sobretudo nos seus elementos mais anti-russos. 
A Rússia, através do seu Ministro de Defesa, declarou oficialmente que este ataque assassino ultrapassou a linha vermelha e que a resposta vai ser dura, ultimando as pessoas afastar-se de locais militares, do governo ou de infra-estruturas energéticas. O neo-nazismo ucraniano e europeu foi testando impunemente os limites postos pelos russos nos modos de ataque, mas este foi a gota de sangue que rebentou a barragem. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, e o seu ministro sábio Sergey Lavrov, advertiram os embaixadores dos países estrangeiros que se encontram em Kiev que é conveniente abandonarem a capital e que a população deve evitar os edifícios da administração pública e militar
Judge Napolitano no seu valioso e quase non-stop programa, do dia 28,  interroga um dos melhores e mais corajosos comentadores, Scott Ritter sobre o que se passou e este explica como a Rússia advertiu é o único país que cumpre as obrigações da lei internacional e do 1º protocolo adicional da Convenção Genebra de avisarem se atacarem e poderem atingir civis: 
 https://www.youtube.com/shorts/4np1242l_6s
Eis-nos com vários sinais graves que nos são dados para interpretarmos, discernirmos melhor o que se passa no mundo e onde está o bem ou o mal, em vez de nos estupidificarmos no nevoeiro da lavagem ao cérebro que os medíocres políticos europeus e da NATO, ao serviço apenas de elite oligárquica, sionista ou mesmo epsteiniana, ou então de ideologias infrahumanistas, cada vez mais derrotados, transmitem e impõem graças aos tarefeiros dos jornais e os comentadores televisivos bastante corrompidos e estupidificantes que são os Milhazes e Rogeiros, Soleres, Irineus e &, e que se calam perante estes crimes de guerra e inventam outros..
Nestes tempos de decadência do Ocidente, nós os ocidentais com raízes culturais, tradicionais, nacionais e com ligações espirituais, celestiais e divinas, devemos lutar para alertar e reagir a fim de não sermos todos nulificados por tão perigosos dirigentes já semi-insensibilizados, petrificados, infra-humanizados. E apoiarmos a luta da Rússia, do Irão, da China e dos países do BRICS contra a hubris invejosa e opressiva de hegemonia "ocidental"...

sábado, 23 de maio de 2026

Alexander Dugin:a saída de Tulsi Gabbard marca o fim do projeto original MAGA, pois o USA caiu nas mãos da elite epsteiniana. Text also in English.

  Alexander Dugin, que depositara muitas esperanças na possibilidade de uma amizade entre a Rússia e os USA, que Trump lançara ou tweetara repetida ou freneticamente, bem como nas suas promessas de limpar o pântano do Deep State, sustentado pelo partido dos democratas, afirmando querer terminar com o apoio à guerra na Europa do Leste,  defende que a saída ou demissão da valiosa Tulsi Gabbard do seu cargo importante assinala o fim do projeto original MAGA [Make American Great Again]  bem como das esperanças de de uma política norte-americano amistosa com a Rússia e que aceitaria a multipolaridade.
O pai da martirizada esperança filosófica Dara Dugina prevê novos conflitos agressivos com o Irão e Cuba, lançados pelo tresloucado megalómano Donald Trump. E acentua ainda que a guerra do Ocidente contra a Rússia vai continuar a acelerar [tal como alguns dos ataques no território russo  a escolas e centros comerciais dos últimos dias confirmam], pelo que reafirma a necessidade imperiosa de se unir patrioticamente a sociedade russa e mobilizarem-se plenamente para se abater a hidra satânica ocidental imperialista, liberal,  epsteiniana, banderita e oligárquica anti-russa.

Alexander Dugin
23 de maio
«Tulsi Gabbard, a Diretora de Inteligência Nacional dos EUA, deixou o seu cargo. Era a última pessoa na equipe de Trump que ainda permanecia fiel aos ideais e princípios com os quais o segundo mandato presidencial de Trump começara. Opusera-se  à guerra na Ucrânia e também se opôs à guerra com o Irão.
Esta saída já se previa há muito. Agora  aconteceu. Após a derrota de Thomas Massie nas primárias de Kentucky [face a um candidato sem qualquer valor e que se recusou a participar em debates, mas que era o candidato do grupo de pressão sionista AIPAC e que corrompeu com milhões de dólares, como Tucker Carlson noticiou] efectivamente não há mais ninguém no Partido Republicano da equipa original do MAGA.
O triunfo do Estado Profundo [Deep State] e da rede [criminosa] Epstein sobre a política americana tornou-se total. A renúncia de Tulsi Gabbard é a gota d'água. Toda a esperança que havia sido depositada em Trump  evaporou-se agora completamente.
 Parece que Trump está a preparar-se para uma nova rodada de escalada no Oriente Médio e para um ataque ao Irão[onde serão certamente, e graças à Providência Divina e à grande alma resistente e sábia iraniana.]
Os Republicanos vão garantidamente perder as eleições de meio de mandato presidencial, no entanto, os Democratas representam exatamente o mesmo Estado Profundo e a mesma classe Epstein. Além disso, os Democratas odeiam a Rússia e o mundo multipolar ainda mais. Isto marca o fim inglório da tentativa do povo americano de expulsar a elite satânica.
Antes das eleições de meio de mandato, Trump provavelmente tentará [de novo] algo em grande escala e de forma agressiva—ataques contra o Irão, uma invasão de Cuba, talvez algo completamente diferente. Depois disso, começará a fazer as malas e a negociar com os democratas para que nem ele nem sua família acabem atrás das grades. Nos próximos seis meses, no entanto, ainda se podem esperar mais explosões de violência e uma intensificação da escalada.
Posso ver uma insatisfação silenciosa, mas crescente, espalhando-se discretamente pela nossa sociedade russa. É óbvio que todos querem mudança. Desta vez, no entanto, os que querem mudanças liberais [ocidentalizadas] constituem uma minoria absoluta. Querem que essas mudanças venham de fora, e isso não conta.
A esmagadora maioria quer uma mudança patriótica e um grau substancialmente maior de justiça. A questão não é tanto a direção em si, mas a velocidade e a substância do processo. A direção em direção a um estado civilizacional é inteiramente correta. No entanto, também inclui uma sociedade baseada na solidariedade e na justiça social, na fidelidade aos valores tradicionais e na educação histórica genuína. 
Tudo isso já foi declarado. O que resta é colocar em prática. E aqui a questão é a velocidade. Precisamos começar a implementar tudo isso agora, e com urgência. Simplesmente não há mais tempo para hesitação. Nenhum mesmo.
Um cenário de inércia está a tornar-se mais perigoso a cada dia que passa. Simplesmente está deixando de funcionar e está mudando em uma direção cada vez mais negativa. Diferentes velocidades, diferentes métodos, diferentes escalas e diferentes estruturas são necessários.
Em várias áreas, os problemas tornaram-se especialmente agudos: tecnologia, corrupção e cultura. Como não se vê nem de longe um alívio ou uma desescalada no conflito com o Ocidente, a única opção que resta é colocar a sociedade em pé de mobilização. Tudo isso deveria ter sido feito há muito tempo; parte disso já foi feito e está sendo feito, mas apenas a um ritmo alarmantemente lento.
A Rússia deve ser purificada do liberalismo, completamente e com mão firme. É uma mentalidade colonial imposta a nós pelo Ocidente em seus próprios interesses e com o propósito de destruir nossa identidade.
As pessoas querem ordem e justiça. Eles não os querem simplesmente mas eles desejam-nos ardentemente. Os compromissos deixaram de funcionar. Agora as coisas devem ser feitas de verdade. O limite para  simulacros está esgotado.» Traduzido do Substack, de Alexander Dugin.

                     Tulsi Gabbard and the End of MAGA
Alexander Dugin argues that Tulsi Gabbard’s departure marks the end of the original MAGA project and the collapse of hopes for a new American course towards Russia and multipolarity.
May 23
«Tulsi Gabbard, the Director of U.S. National Intelligence, has left her position. She was the last person on Trump’s team who still remained faithful to the ideals and principles upon which Trump’s second presidential term had begun. She opposed the war in Ukraine and also opposed war with Iran.
This had been predicted for a long time. Now it has happened. After Thomas Massie’s defeat in the Kentucky primaries, there is effectively nobody left in the Republican Party from the original MAGA team.
The triumph of the Deep State and the Epstein network over American politics has become total. Tulsi Gabbard’s resignation is the final straw. Every hope that had been attached to Trump has now completely evaporated.
It appears that Trump is preparing for a new round of escalation in the Middle East and for an attack on Iran.
The Republicans are guaranteed to lose the midterm elections, yet the Democrats represent exactly the same Deep State and the same Epstein class. Moreover, the Democrats hate Russia and the multipolar world even more. This marks the inglorious end of the American people’s attempt to cast out the Satanic elite.
Before the midterm elections, Trump will likely attempt something else on a large and aggressive scale—strikes against Iran, an invasion of Cuba, perhaps something else entirely. After that, he will begin packing his bags and negotiating with the Democrats so that neither he nor his family end up behind bars. For the next six months, however, one can still expect further violent outbursts and an intensification of escalation.
I can see a muted but growing dissatisfaction quietly spreading through our society. It is obvious that everyone wants change. This time, however, those who want liberal changes constitute an absolute minority. They want such changes to come from abroad, and that does not count.
The overwhelming majority wants patriotic change and a substantially greater degree of justice. The issue is not even so much the direction itself as the speed and substance of the process. The direction towards a civilizational-sate is entirely correct. Yet it also includes a society based on solidarity and social justice, fidelity to traditional values, and genuine historical education. All of this has already been declared. What remains is to put it into practice. And here the issue is speed. We need to begin implementing all of this now, and with urgency. There is simply no more time left for hesitation. None at all.
An inertial scenario is becoming more dangerous with each passing day. It is simply ceasing to function and is shifting in an increasingly negative direction. Different speeds, different methods, different scales, and different structures are required.
In several areas the problems have become especially acute: technology, corruption, and culture. Given that no easing or de-escalation in the conflict with the West is visible even remotely, the only option left is to place society onto a mobilization footing. All of this should have been done long ago; some of it has been done and is being done, yet only at an alarmingly slow pace.
Russia must be cleansed of liberalism, completely and with a firm hand. It is a colonial mindset imposed upon us by the West in its own interests and for the purpose of destroying our identity.
People want order and justice. They do not simply want them; they crave them. Compromises have ceased to work. Now things must be done for real. The limit for simulacra has been exhausted.»

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Os Mestres do Irão eterno (2): Sohrawardi, o sheikh Ishraqi, ou o sábio da Luz iluminante. Extractos do Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.

                                                         

Vamos terminar a aproximação aos ensinamentos de Sohrawardi transmitidos no 1º capítulo no seu Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental, traduzindo da versão dada por Henry Corbin, e retomando o  parágrafo 127, no artigo anterior referido abreviadamente:

«127. Outro esclarecimento: Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'îya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesma e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso então que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência. Isto é uma outra via [provavelmente a intuição-visão da interdependência unitária de todas as luzes imateriais ou espirituais]. Mas porque aprendeste há pouco o que a procedia, podes dispensar esta via ou método.

128 - Tese: Que o existenciador  dos barazkhs (ou espaços intermediários) é um ser [provavelmente a Inteligência celestial que os anima]conhecendo-se a si mesmo.
Pois o que dá à totalidade dos barzakhs a sua Luz e o seu existir é uma Luz Imaterial, pelo que este existenciador é um [ser] Vivo, conhecendo-se a si mesmo, pois ele é uma Luz para si mesmo.

 IX. Sobre a Luz das Luzes.

129 - Admitindo que a Luz imaterial comporta algum tipo de indigência na sua quidade [ou essência, ou coisa em si], o que postularia esta indigência não poderia ser a substância nictifora [ou obscura] privada de vida. Esta, com efeito não tem qualquer aptidão para conferir a existência a algo que seja mais nobre e mais perfeita que ela própria e que não tenha dimensão subtil. Como é que quem leva em si mesmo a noite poderia conferir a Luz? Se a Luz imaterial [ou espiritual] tem necessidade de algo para se tornar realizada será duma Luz subsistente por si mesma.

Isto estando adquirido, a série de Luzes subsistentes (al anwar al-qa'ima) que formam uma hierarquia de graus, não se perde no infinito. Uma prova demonstrativa já te instruiu  de que todo o conjunto serial simultâneo implica um limite. Assim é necessário que o conjunto das Luzes, a Luz subsistente e a Luz adveniente, forme um conjunto finito, e chegue assim tal como os barzakhs e as suas qualidades a uma Luz para além da qual não há uma outra Luz. É esta Luz que é a Luz das Luzes.
Ela é Luz englobante (muhit). Ela é a Luz (substantiadora), eternamente-subsistente (al-qayyûm). A Luz sacro-santa (al-muqaddas), a sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), ela é a Luz toda vitoriosa (al-qahhar).
Esta Luz das Luzes é aquela que se basta ou se satisfaz absolutamente a si mesma, pois para além dela não há nada. (...)

Eis porque a Luz imaterial, autarcica é única, e ela é a Luz das Luzes.  Tudo o que está abaixo dela e tem necessidade dela e recebe dela é a sua existência. A Luz das Luzes não tem igual nem semelhante. Ela reina vitoriosamente sobre todas as coisas. Em troca, nada a pode vencer nem resistir-lhe, pois toda a imperialidade (qahr), toda a força, toda a perfeição, são um dom que provém dele. (...)

130. Por uma outra via: (nenhuma coisa) não postula o seu próprio não ser, senão ela não se realizaria mesmo. A Luz das Luzes é uma e única (wahdani), a sua essência não está submetida a qualquer condição e tudo o que é outro que ela está sob a sua dependência. Pois ela não está submetida a qualquer condição e já que ela não tem contrário, não há nada que possa impedir o seu ser (mubtil) Ela é portanto subsistente e eterna (da'îm).
Além disso, nenhuma qualificação adere à Luz das Luzes, quer seja uma qualidade luminosa ou uma qualidade tenebrosa; não é mesmo possível, de qualquer maneira que seja, que ela possua um atributo (sifa). [É possível que esta afirmação tão radical ou absoluta da Luz, que não suporta sequer atributos, possa ter chocado os clérigos mais racionalistas e ortodoxos, valorizando muito a ideia dos atributos divinos.]

131 - Como a primeira explicação geral, nós diremos isto: se a qualidade tenebrosa fosse imanente à Luz das Luzes, teria de se concluir que, na sua própria essência, há uma dimensão tenebrosa que ela mesmo implicaria. Desde então [ou se assim fosse], ela seria composta, e ela não seria Luz pura (...)

134  (...) Assim, encontra-se estabelecido que a Luz das Luzes está separada de tudo o que é outro que ela própria. Nada lhe pode ser anexada. E não se pode representar que exista algo mais belo do que ela. Enfim, como o conhecimento que uma coisa tem de si volta, no fim de contas, ao facto que ela seja ela mesma revelada a si, e como a Luz das Luzes é a luminescência pura da qual a epifania não é devida a nada mais do que ela mesma, desde então, nem a vida, nem o conhecimento que a Luz das Luzes tem de si, não são algo que se acrescenta à sua essência. Assim também te foi dada precedentemente a prova [de não serem necessários acrescentos] a propósito de toda a  Luz imaterial [ou seja espiritual, menor na intensidade luminosa que a Luz das Luzes, mas a ela se abrindo como sua Fonte]

Embora ao seleccionar apenas alguns parágrafos do Livro da Sabedoria Oriental, esteja a fragmentar o pensamento e ensinamento de Sohrawardi, e por isso recomenda-se a sua leitura, cremos ainda assim ser visível e compreensível a sua linha de valorização da Divindade enquanto a Luz das Luzes, Nûr-e-Nur, sem qualquer indigência ou necessidade em Si, bem como a impossibilidade de que qualquer e todo tipo de Luz ou de ser, nas suas séries, não provenha da Luz das Luzes, a sua Fonte. Há ainda uma crítica como absurda à ide da manifestação cósmica provir das trevas, caos,  noite, ou dum infinito sem Fonte Primordial.

Importante ainda a afirmação de que o Eu íntimo ou ipsidade nossa é Luz imaterial ou espiritual que deve autoconhecer-se a si mesma como Luz própria e não recebida do exterior, ainda que deva verticalmente conectar-se ou ligar-se com a Nûr e- Nûr Luz das Luzes. O que em geral implicará a mediação da face divina, ou do Anjo da guarda, ou do Imam, ou da Inteligência arcangélica, como mais à frente no livro será realçado

Possamos afirmar-nos ou reconhecermo-nos como Luz e ser abençoados pela sagradíssima Luz das Luzes, e participarmos sábia ou luminosamente na harmoniosa interdependência da unidade do género humano, pela fraternidade espiritual e a multipolaridade política e civilizacional, tal como o sagrado Irão tanto aspira e luta resilientemente contra as forças da inveja e do ódio. 

Que a Luz do Logos e Amor divino brilhe vitoriosamente em nós e nos iranianos, nos russos, nos chineses, nos que lutam pelo bem da Humanidade. Ou, tal como ecoam milenariamente as palavras de Shihab al-din  Sohrawardi: - Que a Luz Sacro-santa (al-muqaddas), a Sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), a Luz toda Vitoriosa (al-qahhar), brilhem invencíveis no Irão, nos Ishraqis e nos que lutam pela multipolaridade sã do mundo  e demandam a Luz mais íntima do Oriente Divino e a sua manifestação no polo, eixo ou qutb do Bem e da Verdade

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os mestres do Irão eterno: Sohrawardi, o sheikh Ishraqi, ou o sábio da Luz iluminante. Extractos do Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.

                                  

 Sohravardi, ou Shihāb al-Suhrawardī (1154-1191) - um dos mestres iranianos, da zona do Khorasan, que conseguiu fazer a ligação da tradição zoroástrica e grega com o Islão - , aprofundou bastante o caminho da sabedoria, do auto-conhecimento, da Luz espiritual e Divina e no Livro da Sabedoria Oriental, traduzido e estudado por Henry Corbin, transmite muita indicação útil aos peregrinos espirituais, aos que demandam a Luz íntima, auroral ou Oriental, Ishraq.
Já partilhamos no blogue o prefácio que um místico ou filósofo espiritual, seu discípulo, Qotboddin Shirazi, escreveu depois da sua morte e hoje vamos apresentar alguns ensinamentos valiosos dos I livro dos cinco em que se divide o Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.
Será uma boa oportunidade para os leitores portugueses que aspiram a tornar-se mais auto-conscientes, luminosos, harmoniosos e religados superiormente poderem comungar na Luz, manifestada pelo Sheik Ishraqi,em 1191, Alepo, na Síria,  martirizado pelo famoso Saladino e os clérigos mais reacionários que não apreciavam a sua elevada estação ou altura metafísica e mística e a sua boa relação espiritual com o que não era estritamente corânico, tal os sábios antigos da Pérsia e da Grécia, numa linha de Teologia ou filosofia perene, também chamada a Prisca Theologia

Livro I. Cap. III. p. 109. «A Luz divide-se em Luz que é uma qualidade para um outro que si: é o caso da Luz adveniente (nûr arid) - e na Luz que não é uma qualidade para um outro que si: é a Luz imaterial (nûr mujarrad), a Luz pura (mahd).

A Treva (zulma) não exprime senão a ausência de Luz.

112 - 1ª regra geral. Que a Luz imaterial não pode ser objecto duma indicação sensível
Desde que  sabes que toda a Luz que se pode mostrar é uma Luz Adveniente, logo se existe uma Luz pura, não se a pode mostrar; ela não pode residir num corpo e ela não tem dimensão espacial.

Cap.. V. 114. Tudo o que possui uma ipesidade (dhat), da qual nunca está ausente, não é uma ser da noite, ou nocturno, pois ele próprio esta revelado a si mesmo. Não é também uma qualidade tenebrosa, imanente  a qualquer coisa de outro, pois se a qualidade luminosa ela própria não é já uma Luz para si mesma, com mais forte razão a qualidade tenebrosa não será ela. Portanto o que jamais está ausente de si mesmo é uma Luz pura, imaterial, que não se pode mostrar....

Cap. VI. 115. ... Quando o sujeito julga ou pensa que todo o atributo que se acrescenta à sua ipseidade [ou identidade intima, primordial; ou mónada, ou unicidade] trata-se dum conhecimento ou de qualquer outra coisa pertence à sua ipseidade, é que ele já se conhece a si mesmo, anteriormente a todos os atributos e independente deles. Portanto não é pelos atributos, que se acrescentam à sua ipseidade, que ele terá consciência de si mesmo.

116. Tu não te ausentas de ti mesmo nem do conhecimento que tens de ti. Como não é possível que o acto de conhecer (idrak) se produza por uma forma (sura) ou porque qualquer adicionamento, resulta que não tens necessidade, para te conheceres a ti mesmo, de outra coisa que dessa própria ipseidade, revelada a si, ou seja que não esteja ocultada a ti.
É preciso pois que o conhecimento  que tens de ti mesmo seja um conhecimento que se gera por causa dele mesmo tal qual ele é.  Isto implica igualmente que tu nunca esteja estejas ausente de ti mesmo nem de uma parte de ti mesmo. Aquilo de que acontece a tua ipseidade estar ausente - por exemplo, os órgãos, tal como o coração, o fígado, o cérebro, ou bem o conjunto dos espaços intermediários (barzakhs) e as qualidades tenebrosas e luminosas -, nada disso é o que tu és, em ti mesmo, o sujeito conhecedor (mudrik); pois o que é em ti o sujeito-conhecedor não é um órgão físico, nem uma coisa corporal. Senão nunca estarias jamais ausente, desde que tenhas  tivesses uma consciência contínua, ininterrupta, da tua ipseidade.

Cap. VII. 121. A Luz divide-se em Luz que é em si e para si, e a Luz que é Luz em si, sendo ainda Luz para um outro. Sabes, com efeito, que a Luz adveniente é uma luz para um outro, pois, se bem que seja uma Luz em si, ela não é uma Luz para si mesmo, pois que ela existe para um outro que ela mesma. A substância nictifórica ou nocturna (ghasic), não se revela nem em si nem para si, segundo o que já sabes. Ora a vida é o Agente-Conhecedor. O Conhecimento já sabes o que é. Quanto ao acto que pertence igualmente a Luz, ele é manifesto, pois por essência a Luz é efusiva.
É por isso que a Luz pura é viva, e reciprocamente, todo o vivo é Luz pura.
Quanto ao obscur
o (ghasic), se ele se conhecesse a si mesmo, ele seria uma Luz para si mesmo; desde então ele não seria uma substância nocturna.

Cap. VIII. 127. Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'iya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesmo e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência....»

E eis-nos com ensinamentos substanciais e profundos de auto-consciencialização luminosa. No 126, Sohrawardi questiona a diferenciação das essências dos espíritos, pondo em causa que além da luminiscência (nurîya) pudesse haver algo de outro que se acrescentasse de exterior à sua essência (haqiqa), e conclui que as «Luzes separadas da matéria não são diferenciadas quanto às suas essências (haqiqa)». 

Creio ser uma visão e posicionamento talvez relacionado com a unicidade de Deus, tawhid, tão absoluta e crucial no Islão, ou melhor, derivada dela para intuir e professar também a unicidade da essência dos espíritos humanos. Talvez disto tenha resultado, ou se favoreça ou propicie, a grande fraternidade islâmica, as orações em grupo grandes, ou mesmo as confrarias ou tariqas iniciáticas...

Continuaremos este trabalho em prol da iluminação, da tradição ishraqi e da vitória do bem e da verdade contra a mentira, o ódio e o assassinato, como estamos a presenciar na agressão à civilização e gente sagrada do Irão.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Firdousi e a Introdução ao Shah nameh. O Elogio de Deus, da Inteligência, da Sabedoria. As versões do preâmbulo por Mohl e Warners.

                            
Comemorando-se, qual o dia de Camões entre nós, o dia   da língua Persa e de Ferdousi, - Abou Laksim Ferdousi, ou Abu’l Qāsem Ferdowsi -, natural de Tus, actualmente Meshad, no Khorassan, c.939-1020], a dia 15 de Maio,  o  Imam ou guia psico-espiritual em 
manifestação Irão  Ayatollah Seyyed Mojtaba Khamenei transmitiu uma mensagem (publicada neste blogue) sobre o valor da obra de Ferdousi, o Shah-Nameh, ou Livro dos Reis, escrito em 50.000 dísticos (estrofes de dois versos) e onde as antigas histórias épicas, mitos e tradições do Irão pré-zoroastriano e zoroastriano (especialmente do Zamyad Yasht, o XIX), já em parte postas em verso em pehlavi por outros autoresapós a islamização do país iniciada em 642, foram por Firdousi expandidas e concluídas com genialidade no persa do séc. XI, fortificando a memória identitária da nação ao serem assim preservadas e gravadas para sempre com tanta sensibilidade e qualidade na grande alma colectiva e hierohistórica do Irão. Seyyed Mojtaba Khamenei apelou mesmo a que se erguessem novos Firdausis e escrevessem sobre as lutas recentes travadas contra os traiçoeiros agressores dos USA, Israel e UAE.

Esses mitos, feitos e lutas do Livro dos Reis, transmitidos oralmente, antes de se fixarem pela perseverante labor genial de Firdouzi,   vieram a dar origem a muitas obras de arte, tais frisos de cerâmica mas mais especialmente em livros ilustrados, e ainda em relatos e representações dramáticas, onde sucessivos  reis e heróis brilham, tal como por exemplo, Jamshid (o antigo Yima, do Avesta), com seu reino de trezentos anos de harmonia,  o possuidor do mítico Graal ou, mais evidentemente, de Xvarnah, a força ou Glória de Luz Divina, ou ainda Thraetaona, Ferēydūn, Kaved e sobretudo Rustam (com o seu cavalo Rakhsh, e o pássaro protetor Simourgh, que Attar glosará também na sua Conferência das Aves), em dilemas, provas e aventuras contra os demônios, as forças interiores e exteriores do mal ou Ahriman.

Decidi transcrever o início dessa extraordinária saga da civilização milenar iraniana e da luta entre o bem e o mal, e das escolhas que fazemos, pelo seu valor de glorificação e invocação da Divindade e do seu Logos,  Inteligência e Sabedoria, no cosmos, na obra e em nós, e porque hoje novamente o Irão enfrenta as forças ahrimânicas atuais, os americanos e israelitas, tão cheios de insensibilidade, de hubris e de criminalidade... Oremos para que o Irão vença, triunfe...   

Utilizei a tradução francesa de Julien Mohl, de 1877 - e publiquei-a independentemente em francês no blogue-,  cotejando-a com a de Arthur e Edmond Warner, de 1925, e fazendo uma certa hermenêutica ou leitura interior do sentido espiritual que poderia ressaltar de ambas as versões, a dos Warner claramente mais sensível e transparente à Sabedoria, Hikmat, tão cultivada pelos filósofos e místicos do Irão, tal como Henry Corbin demonstrou com grande abrangência e originalidade, comparatividade e profundidade de hermenêutica. Acabei por fim por transcrever in toto a versão dos Warners do Preâmbulo, para melhor comparação, acessível no Internet Archive, traduzindo-a.

                          Bismillāhi r-Raḥmāni r-Raḥīmi.

                  Em nome de Deus Clemente e Misericordioso.

                                   
«Em nome do mestre  da mente (alma) e da sabedoria (inteligência, além do qual o pensamento não pode ir, do mestre da luz da Glória (Xvarnah), do mestre do mundo, do mestre da fortuna, daquele que envia os profetas, do mestre de Saturno e da rotação das esferas, que acendeu a lua e a estrela da manhã, e o sol; que está acima de todo nome, de todo sinal, de toda ideia, que pintou as estrelas no firmamento. 
 «Se não podes ver com teus próprios olhos o Criador, não te irrites com eles, pois o próprio pensamento não pode alcançar aquele que está além de todo lugar e de todo nome, e tudo o que se eleva acima deste mundo ultrapassa o alcance do pensamento e da inteligência. Se o espírito escolhe palavras, ele só pode escolhê-las para as coisas que vê; mas ninguém pode apreciar Deus tal como ele é: resta-te apenas cingir-te de obediência. Deus pesa a alma e o pensamento; mas  como poderá Ele ser contido num pensamento audacioso? Como poderemos celebrar o Criador neste estado, com estes meios, com esta alma e esta língua? 
 Só te resta contentares-te em crer na Sua existência, e absteres-te de vãs palavras. Adora, e busca o verdadeiro caminho, e está atento para  obedeceres aos seus mandamentos. 
 Poderoso é quem conhece Deus, e seu conhecimento harmoniza o coração dos jovens e velhos; mas a palavra não pode penetrar esse véu, e o pensamento não pode penetrar o Ser Divino.

  Versão de Arthur George Warner e Edmond Warner, Londres, 1925: 
«Em nome do Senhor da sabedoria e da mente, a que nada de mais sublime pode ser aplicado o pensamento, o Senhor de tudo ao qual é nomeado ou designado um lugar, o Sustentador e o Guia de tudo, o Senhor de Saturno e do céu em movimento, que faz Vênus, Sol e Lua brilharem, que está acima de concepção, nome ou sinal, o Artista das joias do céu!» 
A Ele não podes ver, embora esforces a vista, Pois o próprio pensamento lutará em vão Para alcançar Aquele que está acima de todo nome e lugar, Já que a mente e a sabedoria falham em penetrar Além dos nossos elementos, mas operam Em materiais que os sentidos tornam claros.
Ninguém, então, pode louvar a Deus como Ele é. Observa o teu dever: é cingires-te a ti próprio para servir. Ele pesa ou avalia a mente e a sabedoria; Deverá Ele ser Envolto por um pensamento que Ele pesou? Pode Ele ser louvado por tal maquinaria como esta, com a ajuda da mente, da alma ou da razão?» 
 Confessa o Seu ser, mas não afirmes mais, adora-O e ignora todos os outros meios, observando os Seus mandamentos. A tua fonte de poder é o conhecimento; assim, os corações velhos rejuvenescem novamente, Mas as coisas acima do Véu superam em altura todas as palavras: a essência de Deus está para além do nosso entendimento.»

                II Parte. Versão de Julien Mohl, traduzida por mim:
                                         Louvor da Sabedoria
«É aqui, ó sábio, o lugar onde convém falar sobre o valor da sabedoria (Hikmat). Fala e extrai da tua sabedoria e inteligência o que sabes, para que o ouvido daquele que te escuta se alimente disso. A sabedoria é o maior de todos os dons de Deus, e celebrá-la é a melhor das ações. A sabedoria é o guia na vida, ela alegra o coração, ela é o teu auxílio neste mundo e no outro. A sabedoria é a fonte das tuas alegrias e das tuas tristezas, dos teus lucros e das tuas perdas. Se ela se obscurece, o homem de alma brilhante não pode mais conhecer o contentamento. 
 Assim fala um homem, virtuoso e inteligente, cujas palavras alimentam o sábio: «Aquele que não obedece à razão-sabedoria,  despedaçar-se-á a si mesmo pelas suas ações; o sábio chama-o de insensato, e os seus  próximos consideram-no um estrangeiro.» 
 É pela inteligência-sabedoria que tens valor neste mundo e no outro, e aquele cuja razão está partida cai na escravidão. A sabedoria é o olho da alma, e se refletires, verás que, sem os olhos da alma, não se poderá governar este mundo. Compreende que a sabedoria-intelecto é a primeira coisa criada. Ela é a guardiã da alma; é a ela que se deve a acção de graças, graças que deves prestar-lhe pela língua, pelos olhos e pelos ouvidos. É dela que vêm para ti os bens e os males sem número. Quem poderia celebrar suficientemente a sabedoria e a alma? E se eu pudesse, quem poderia ouvir? Mas como ninguém pode falar disso adequadamente, fala-nos tu, ó sábio, da criação do mundo. 
Tu és a criatura do Autor do mundo, conheces o que é manifesto e o que é secreto. Toma sempre a razão como guia, ela te ajudará a  manteres-te longe do que é mau; busca o teu caminho segundo as palavras dos que sabem, percorre o mundo, fala com todos; e quando tiveres ouvido a palavra de todos os sábios, não te afastes um instante do ensinamento. Quando tiveres conseguido lançar os teus olhares sobre os ramos da árvore da palavra, reconhecerás que o saber não penetra até à sua raiz.»

                 Versão de Arthur George Warner e Edmond Warner
     II parte:           Discurso em Louvor à Sabedoria
«Pronuncia, ó sábio, o louvor da sabedoria e alegra Os corações daqueles que ouvem a tua voz,
Como o melhor presente de Deus para ti, exalta o valor da sabedoria, que te confortará e guiará, e conduzir-te-á pela mão no céu e na terra. Tanto a alegria quanto a tristeza, o ganho e a perda, ocorrem  e portanto quando tal desaparece a pessoa sã  não conhece (ou encontra) mais a felicidade. Assim diz o homem sábio e virtuoso da tradição antiga, para que os sábios não busquem em vão frutos nas suas palavras:—"Qualquer pessoa que despreze o conselho da Sabedoria,  ao agir assim, fará o seu próprio coração sangrar. O prudente fala dele como alguém possuído, e "ele não é dos nossos" protestam os seus próximos."
Em ambos os mundos, a Sabedoria recomenda-te, quando as algemas estão nos tornozelos dos loucos; é o olhar da mente. Se não o vires  a tua jornada por este mundo será triste. [Bem desafiante discernimento...]
[A sabedoria] foi a primeira coisa criada, e ainda preside sobre a mente e a faculdade de louvor—louvor oferecido pela língua, ouvido e olho, e todas as causas podem ser de bem ou de mal.
Louvar tanto a mente quanto a sabedoria, quem se atreverá? E se eu ousar, quem me ouvirá mesmo? 
 Portanto, ó homem de sabedoria!  não podes fazer o bem pelas palavras que prossigam, declarem o processo da Criação. Deus  criou-te para conhecer a aparência e a realidade.
Que a sabedoria seja o teu ministro (ou guia)  para proteger a tua mente de tudo que o auto-respeito deve evitar.
Aprende pelas palavras dos sábios como trilhares o teu caminho, percorreres a terra, conversares com todos. E quando ouvires qualquer pessoa de discurso sábio, não durmas, aumenta o tesouro da tua sabedoria. Mas, repara, enquanto contemplas os ramos da palavra, quão longe estão as raízes dela de serem alcançadas.» 
Eis Firdousi humilde ou apofaticamente apelando no fim ao silêncio e à demanda interna dos níveis subtis e profundos da realidade e do Ser e Divindade.

Como vemos duas traduções, bastantes diferentes, a francesa, de Moly bem mais limitada do que a dos  Warner. Esperemos que um dia possamos traduzir com alguém que domine o persa, para discernirmos a realidade que se oculta por detrás das aparências das palavras e traduções, e suas imperfeições, para que a corrente divina que inspirou Firdousi seja mais intuída e assimilada por nós.... 
Firdousi, de uma nobreza rural que mantinha as ligações com as tradições antigas, numa região onde o zoroastrismo e o shiismo predominavam, transpareceu isso aqui e acolá na sua obra, e alguns comentadores justificaram com tal a menor  aceitação da sua obra pelo emir a quem a dedicara, bem como um certo ocultamento dela durante dois séculos, aliás algo no padrão de ocultação do imamat, dos Imams ou polos da luz, shiia ou xiitas, que de modo discreto Firdousi era. Contudo a sua obra prima literária de maestria de ritmos, estilos, formas, e nutrida por grandes valores éticos e imenso amor à pátria e língua (impedindo que a arabização sufocasse o persa), bem como de grande sinceridade, espírito de historiador e preservador de tradições e feitos, mestre do diálogo, justiça e amor, venceria todos os obstáculos e, embora fosse recusado o seu enterro no cemitério sunita, pelas suas ligações zoroástricas e shiias, o seu corpo foi depositado no seu jardim, erguendo-se um mausoléu que desafiará os séculos, tais como as montanhas e as gentes heroicas do Irão tem realizado ao longo da sua história e presentemente contra   adversários tão mentirosos e traiçoeiros como os do eixo do mal que o atacam. Que a República Islâmica do Irão e o seu povo vençam, na luz (Nur) e na glória divina (Xvarnah).