quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa e alguns aspectos das suas visões e teorias acerca dos Anjos e Arcanjos, mormente do Arcanjo de Portugal. Os Painéis de S. Vicente como imagem da Unidade Primordial.

                                        

Em relação aos Anjos e Arcanjos e ao Arcanjo de Portugal os visionamentos, visões ou intuições da Dalila Pereira da Costa não apresentam uma uniformidade ou segurança grande, pois escreveu sobre eles ao longo de muitos anos, ora a partir das suas vivência, ora interpretando textos religiosos onde por exemplo funde e confunde no mesmo Arcanjo S. Miguel inúmeras actuações bíblicas que provavelmente nada tem com ele,  e identifica-o com Metraton, uma criação no Talmud dos primeiros séculos d. C. e do livro de Enoch, obras muito fantasiosas, que o consideram como o Anjo supremo ou do Senhor Jahve ou do Messias. Dalila chega mesmo a admitir que ele sendo o mesmo que o Arcanjo S. Miguel seria também o Arcanjo de Portugal, algo que mais tarde abandonou. 
Dalila, grande amiga de alma e de coração e com quem convivi tantos e tantos momentos semi-sagrados, embora só tenha tido três experiências iluminantes muito fortes, com o sagrado ou o divino, conforme relata em alguns dos seus livros, tais A Força do Mundo, e Os Instantes, teve visões frequentes que a inspiravam na sua obra poética e mesmo ensaística mas às quais não se pode atribuir a certeza nem da origem nem da veracidade, como ela própria admitia e questionava, admitindo até francamente que poderia ser da sua veia familiar irlandesa a qual por exemplo a fazia aceitar facilmente já ter vivido na Grécia ou em Portugal, dadas certas imagens que via em sonhos ou em estados semi-meditativos.
Uma das suas obras mais importantes intitula-se Entre Desengano e Esperança. Ensaios Portugueses, de 1996São quatorze valiosos textos em que se destacam a Criança Divina no Culto Português do Espírito Santo, a Galiza, a Saudade, a Renascença Portuguesa, os Vencidos da Vida, etc.
                                     
Ora o intitulado O Anjo de Portugal, onde espelha algo da sua perseverante meditação angélica, e o texto é de 1989, ajudar-nos-á a compreendê-la melhor tanto nas suas limitações provenientes dos textos bíblicos imaginativos e de profecias velhas e revelhas não fiáveis como nas suas já valiosas intuições luminosas,   nesta que transcrevo próxima até da minha própria visão do Arcanjo de Portugal:
«Figura das Hierarquias celestes, surge assim integrado na teologia e na História portuguesa, mas sempre marcado pela especificidade da alma da nação que ele serve, nessa sua expressão de nostalgia, doce e alegre tristeza, assim compartilhando o sentir e agir dessa sua nação. (Entre Desengano e Esperança, 1996, p. 18).


Do ensaio de sete páginas, podemos acrescentar o que Dalila entendeu de doutrinação iniciática do Arcanjo de Portugal, p. 20/21: «Assim será ele que pede a Portugal para tomar plenamente consciência da sua finalidade sobre a terra; ou seu serviço a Deus, que será também a sua perfeita realização e salvação. E aquele que, assim também, lhe pede para que não seja atraído pelo Abismo, fauces de medusa, potência infernal que sempre escondidamente, sob diversos rostos, o fascinará e tentará: como sono, esquecimento, de sua própria essência, indiferença ao real: em auto-destruição. O Arconte de Portugal, surgindo sempre como o cooperador da graça: esse o seu sentido e acção.
Porque o Anjo é amor, trabalhando para a união do homem com Deus. E nesse amor verdadeiro, que é liberdade, dando ao homem, ou a uma nação, sempre toda a sua suprema e livre iniciativa na escolha entre o bem e o mal».
Dalila, contudo, crê que os portugueses nos últimos séculos abandonaram o seu Anjo e que este ou se afastou ou se ocultou, qual Encoberto, e espera que no fim do milénio que então se aproximava (seja em 1989, seja em 1996 quando publica o livro com algumas correcções, que deverão ser um dia disponibilizadas pela Universidade Católica do Porto aos estudiosos), o português «num derradeiro acordar e uma conversão pela ascese e penitência» poderá participar na «batalha entre os Anjos da Luz e os Anjos das Trevas, que agora se perfaz? » respondendo à desocultação do Arcanjo, pois este vemos «surgindo sempre como o colaborador de Deus, seu enviado para a realização dum ser humano, ou um povo providencialmente.»
Após este apelo de intensificação do reconhecimento do Arcanjo e de responsabilização de trabalharmos e servirmos a Divindade na seara portuguesa, oiçamos a Dalila, num dos seus últimos e tão valiosos livros, a Contemplação dos Painéis, considerar esta pintura de Nuno Gonçalves  como «uma das expressões supremas da nostalgia  portuguesa, peculiar do seu ser e e do seu estar sobre a terra: como regresso ao seio divino. Que será o encontro consigo mesmo para além do tempo, na unidade primordial. Assim os Painéis serão uma das supremas experiências portuguesas do sagrado», afirmando assim Dalila a metafiísica da Unidade Primordial, no cerne da pintura e da grande alma Portuguesa, numa linha tradicionalista e perenialista como foi a de Rene Guénon, Julius Evola e Henry Corbin, o grande estudioso da tradição espiritual iraniana, e da cavalaria mística, como ela própria afirma, já após o cap. o Homem  e o seu Anjo,  em nota na p. 117: «Seguimos aqui a obra de Henry Corbin, L'Homme et son Ange. 1997. p. 27 e s.»,
Nesta obra final Dalila Pereira da Costa manifesta o seu  conhecimento e apreciação dos místicos persas, nomeadamente de Sohrawardi e a sua teosofia oriental ou iluminante, Ishraqi,  e diz que no «seu relato de iniciação é pressuposto um mundus imaginalis alam al Mithal, mundo do conhecimento profético, das percepções visionárias, mundo intermediário da alma: onde se dará a libertação do peregrino pelo conhecimento de si próprio, no largar do eu falso e o atingimento do eu verdadeiro: que é o encontro com o seu Anjo, Anjo Gabriel, como Primus Magister (...) Sohrawardi, seguindo o Alcorão, identifica-o ao Espírito santo. Por ele se opera a reunião do eu das Trevas, ocidental, com o eu da Luz, oriental; eis o grande acontecimento escatológico como seu eschaton [o culminar da História humana]».
 Saibamos operar esta união para além das dualidade conflituosas e em ecuménica multipolaridade, realizando mais fraterna e justamente o espirito que a todos unifica e dá vida eterna.
Talvez Dalila Pereira da Costa tenha dado demasiado valor às profecias, aos profetas, aos últimos tempos, a muita imaginação astral e apocalíptica, no fundo a visões mais mistificadoras que reais. 
Todavia sempre conseguiu discernir e valorizar o que era mais essencial no caminho da Vida: - a ligação directa ao Anjo, ao Espírito, à Divindade.
                                   
  E assim no capítulo o Homem e seu Anjo, da Contemplação dos Painéis (de 2004) transmite-nos na p. 60  uma excelente condensação da sua teoria salvífica angélica iluminativa e unitiva,  mais amadurecida no tempo e limpa de resquícios bíblicos, proféticos e sebastianistas, ainda que sempre com uma visão universalista: «Então para essa santificação de todos os homens sobre a terra, urgia primeiro que cada português e todos juntos, realizassem a perfeita união com seu anjo, ou seu eu absoluto, residindo no fundo mais fundo de si, estabelecendo a união com Deus, como aquele que os místicos apelidavam a preciosa scintilla. Eis a suprema união que os Painéis representarão ao vivo e para sempre, na espiritualidade portuguesa. E união só possível por essa força divina que existe e age nesse mais intimo e distante, incognoscível de cada um dos homens. Seria essa união que possibilitou toda a dimensão universal e supra-humana dos Descobrimentos: "mais do que permitia a força humana" (Camões); como o ultrapassar do carnal e do psíquico no individual, levando até ao espiritual [pneumatikoi], pelo herói português. Ir além do humano até ao supra-humano, é o dever mais alto pedido ao homem por Deus.» 
Assim seja. Saudemos a Dalila com muito amor e luz na unidade do corpo místico da Humanidade.

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