terça-feira, 25 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: A Presença do fundo pré-helénico e da Deusa Mãe em Portugal e Brasil e seus aspectos cultuais, artísticos, arqueológicos, sociais, espirituais..

                                     
Retomamos a apresentação e breve hermenêutica das Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, da Dalila Pereira da Costa, editada na Biblioteca Breve (então dirigida por António Quadros),  do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, do Ministério da Educação e Cultura, pois a tiragem embora ampla, 4.000 exemplares (com algumas gralhas que a Dalila, no Porto, não pode corrigir), desapareceu do mercado, pelo que decidimos transcrever mais parágrafos significativos, na esperança até que a obra seja reeditada, em Portugal e em especial no Brasil, tantas são as interpretações originais, heterodoxas mesmo, que a Dalila transmite, como vamos ler. 

Embora a Dalila repita consistentemente as suas teses e fontes ao longo dos pequenos capítulos, e as tenhamos já sumariamente exposto, vamos transcrever pela primeira vez alguns  parágrafos e "relembrar" aproximações e relações valiosas, em especial sobre nosso o fundo cretense e Feminino, tendo em conta o que ela dá a entender: «As grande epopeias do Ocidente, Odisseia, Ilíada, Eneida e os Lusíadas, gestas da idade heróica indo-europeia, trarão em si a nostálgica memória de outra idade passada pré-indoeuropeia e seus deuses, "sepultada... em negro vaso/ Da água do esquecimento", Os Lusíadas, C. 1, 23» (aliás, gralha, 32); ou seja, a preservação das realizações heróicas permitir-nos-á assimilar tais ensinamentos, aprofundá-los ou mesmo obter, pela meditação, a reminiscência iniciática, que sincroniza e une as distâncias e opostos.

Nas raízes arcaicas "da ocidental praia lusitana", "do espaço limite da Europa, "onde a terra se acaba e o mar começa" Dalila constata ter Portugal  perseverado uma alma antiga, que teria transmutado e feito transitar e que era a sobrevivência do fundo pré-helénico, dos cretenses ou pelasgos: «em Creta, uma religião de fundo feminino, ctónico, aquático, haverá, com uma estimativa não racional da vida, um halo de doçura e não violência, que ao nível das relações  humanas, colectivas e históricas, se revelaria pela forma como foi levada a cabo uma talassocracia. Cultura e religião marcadamente matriarcal e telúrica, toda ela surgida dum carácter profundamente emotivo e passional (Evans) esse carácter levando a alma dos homens ao limite do extático, como ponto de transcensão do humano e terrestre. Segundo o testemunho de Diodoro, a religião dos cretenses, adoptava a forma das religiões de misterios, que posteriormente, os gregos arianos haveriam de repudiar. E será essa religião a que se prolongará pelo orfismo, culto de Dionísio e culto de Demeter em Eleusis.»
Será  essa religião estruturada sob a égide da Mãe Divina como poder supremo sobre o mundo animal, vegetal e dos homens, dos mortos e dos vivos, do céu e da terra e dos infernos, e em que o terror da morte fora abolido por uma visão amante e totalizante da vida - serão esses os sinais testemunhados na antiga civilização pré-helénica os que, semelhantemente, marcarão ainda outra civilização e talassocracia, agora a partir, não do Mediterrâneo, mas do Atlântico, a lusíada. E fundando-se ainda no período do seu esplendor [Descobrimentos], na amenidade e fraternidade entre os homens, sob a protecção da Virgem e do Menino Redentor - como novas formas da Grande Deusa e da Criança Divina..
Na religião dos portugueses, características fundamentais duma certa vivência pré-ariana, seriam ainda aquelas as mesmas transmitidas aos povos fazendo parte do complexo cultural criado sobre a terra, como ecumenismo lusíada; e agora, porventura mais visíveis entre esses povos, naqueles que por si, no primeiro contacto europeu, viveriam ainda nas formas mais primevas da civilização humana, como os tupis-guaranis, do Novo Mundo. E agora ainda, por ventura, se poderá ver que o fundo extático, como aquele fundamental duma religião de mistérios, transitaria para o Brasil, por ele unindo-se, confirmando-se com a herança ameríndia e africana e agora manifestando-se em mitos e ritos, que farão ressurgir do outro lado do Atlântico, formas semelhantes duma religião viva e vivida outrora há milénios deste lado do Atlântico. É o mesmo caráter orgiástico, já visível  nas cenas representadas em Creta, e até nós chegadas, dos milénios III e II a.C., o que perdura nos nossos dias no culto afro-brasileiro, em macumbas, candomblés, festas e arte popular...
A proeminência do culto da Grande-Deusa ou Nossa Senhora, mãe dos vivos e dos mortos, marcando ainda a religião dos portugueses em trânsito para outro continente, os seus tempos arcaicos circulares, uma vez na antiguidade a ela consagrados, como divindade a um tempo agrária, da fecundidade e funerária, Pótnia ou Deméter, Perséfone, transitariam pela "Alma Atlântica" para o Brasil, ressurgindo ainda nas igrejas de Ouro Preto, Rio de Janeiro ... dedicadas a Nossa Senhora da Conceição e do Carmo, do Rosário, da Glória... E Jemanjá e Oxum, ou Nossa Senhora da Conceição e do Carmo, deusa do mar e deusa das fontes e rios, Imaculada Mãe de Deus, perdurariam ainda no culto duma divindade por excelência da fecundidade e maternal, sempre virgem: como água-mãe, a que em si guarda, multiplica e regenera os gérmens da própria vida.»
Dalila discernirá contudo ainda mais abrangente a influência da substância primeira e da Grande Deusa vendo-a "num mito cosmogónico, pristino"  como força criadora primordial, desde a pré-história portuguesa: «Como Abissus, Caos, substância primeira e informe, águas da terra e do céu  anteriores a toda a forma de separação e organização, e desde o neolítico como época primeira que, dada a estabilidade do homem ao solo e sua dominação e uso das forças da Natureza, no seu reino vegetal e animal, se começam a definir suas estruturas religiosas e sociais na linha consequente vinda até aos nossos dias (e agora atacadas), desde então também, nos seus monumentos sagrados mais marcantes, os dólmens, os sinais neles consignados e o seu espólio, pela sua predominância e multiplicidade, apontarão já para esse princípio criador: linhas onduladas e quebradas e figurações serpentiformes gravadas ou pintadas nas suas pedras, e ainda vasos junto ao morto, como os que continham o elemento da sua ressurreição, a água. E que na época seguinte, do eneolítico, se iriam multiplicar no objecto o mais significativo e singularizante da civilização então surgida no nosso território, o vaso campaniforme: como objecto cultural, apontando ainda para esse carácter aquático e maternal duma divindade fúnebre e da fecundidade. Ligado ao mesmo complexo, ou constelação religiosa, surgirão na mesma idade da nossa pré-história, os ídolos-placas, os ídolos-cilindros e ainda, segundo o testemunho, na proto-história, dos escritores clássicos, o culto rendido à Lua, em santuários, como Sintra, ou em danças nas noites de lua cheia, defronte de suas casas! (Estrabão, Geografia, III, 4, 16).
Carácter abissal, ctónico, lunar, aquático, feminino, estará desde então marcado e predestinado para a comunidade de povos que mais tarde formaria Portugal: e daí também o seu dom profecia [onde contudo houve muita ilusão]. Uma mesma linha ininterrupta e coerente ligará em si, ou a si atrairá, num mesmo complexo sagrado, através dos séculos e milénios, as manifestações duma comunidade, com o seu arquétipo estruturador: e gerador. E que, por si, adquirirá formas de manifestação, sucessivas que a nós agora se poderão revelar mais impressiva ou apreensivelmente, desde o fundo da nossa proto-história, por alguns dos seus avatares culturais, como: a primeira nomenclatura dada ao nosso território pelo primeiro relato que a ele se refere, como Ophiussa; depois na Idade Média, a sua eleição para a detenção ou demanda do Graal, testemunhada nos romances de cavalaria; e, simultaneamente, na via alquímica ou hermética, a eleição da Anima Mundi, como princípio primordial e fundamental; no Renascimento, como período que abre uma nova idade de humanidade, a possessão ou identificação colectiva desse povo com o Mar Tenebroso, como Abyssus: tudo sempre se realizando através do mesmo princípio. E que, na Idade Moderna, no séc. XVII se renovará e transmitirá, como dom de profecia nos homens, Bandarra e [P. António] Vieira; e pelo rei da Restauração [D. João IV], na proclamação e consagração do mesmo princípio sagrado feminino, o que protegerá um novo reino, como Imaculada Conceição. » 

Dalila recuando o veio das águas e do princípio feminino nos portugueses até à misteriosa Atlântida, interrogando-se sobre ela, e escrevendo «Herdeiros directos da perdida Atlântida, submersa  esquecida para os homens, mas perseverada [ou preservada] pela reminiscência platónica, os portugueses ressuscitarão e dinamizarão de novo seu antigo mar, até então como Mar Tenebroso. em acto de herói. D. Henrique surgindo postado  na ponta de Sagres tal novo atlante: «tem aos pés o mar novo,/ e as novas eras" (Mensagem),  reafirmará como bem significativos o casamente entre D. João I e uma princesa, D. Filipa de Lencastre, vinda de uma ilha, e a ida do Infante D. Henrique para o Cabo de S. Vicente, donde se abre a expansão, que terá na viagem de Vasco da Gama a sua perfeição, e com a descoberta do Brasil por Pedro Alvares de Cabral a sua completude, Os Lusíadas de Camões contendo: «a Iniciação final dada por Tétis aos argonautas como realização suprema dada a essa aventura por Vénus, a deusa pelásgica.»
Embora não assumindo a "vinda de cretenses ou micénicos às nossas costas - problema ainda debatido pelos historiadores", mas acreditando e registando " o carácter arcaizante da cultura e religião dos portugueses", que levaria a inclusões mais ou menos heterodoxas, ou então falíveis e discutíveis (tal a valorização do dom oracular ou da profecia e que acredita ter estado em Bandarra e Vieira), considera que essas reminiscências arcaicas na epopeia clássica camoniana, foram aí " levadas e perseveradas através da Tradição portuguesa, como supraconsciente dum povo, e ao qual Camões, como seu poeta eleito, teve acesso e com o qual partilhou, vertendo-o na sua obra.» Algo disso foi por Fernando Pessoa intuído, e mesmo profetizado (mais ou menos mistificadoramente, na famosa carta ao Conde Keyserling de 1933 e que eu publiquei pela 1ª vez, com algumas gralhas na versão francesa, sob a forma do livro a Grande Alma Portuguesa, também há muito esgotado.

Coroando o elemento aquático e feminino, Dalila Pereira da Costa verá a passagem de Vasco da Gama e seus marinheiros,  pelo profundo, abismo e chegada ao paraíso terreal como uminiciação, a que se juntará ainda como reminiscência dessa idade pré-indo-europeia, a deificação dos mortos, culto de antepassados e de heróis, tais « Duarte Pacheco Pereira, Afonso de Albuquerque, D. João Castro, que serão por Tétis situados na sua evocação oracular, num mundo que já está entre os homens e os deuses, atingido que foi por uma ascensão de heroização. Na imortalidade do herói  pelos seus feitos vitoriosos, sua coragem, sua iniciação, e heroização se cruzarão e unirão aqui: a coroação dos argonautas e seu capitão pelas ninfas e pela sua rainha [Vénus], marcará o fim da aventura, como dom da imortalidade concedido aos homens por mulheres divinas.»
                                                                   
Se quisermos encontrar algum precedente histórico desta original defesa da iniciação realizada pela mulher, podermos relembrar a que D. Filipa de Lencastre fez aos seus filhos - a ínclita geração- já no leito da morte, quando lhes abençoou e entregou a espada [e da vontade divina]  e os lemas ou altas missões da sua vida, exemplarmente para todos nós, que não deveremos desanimar com tanta mentira e inveja, violência e mal nos tempos que nos envolvem, em especial dos que se opõem a multipolaridade harmonizadora da Humanidade. 
Saibamos inspirar-nos e iniciar-nos com a Dalila Pereira da Costa, a Tradição Espiritual portuguesa, brasileira e perene, na Luz e Amor Divinos!

Sem comentários: