Durante as recentes comemorações dos 500 anos do nascimento de luís de Camões, realizadas com maior ou menor brilho em Portugal e no estrangeiro, uma camoneana que não foi citada mas que valerá a pena relembrar é a escritora portuense Dalila Pereira da Costa (1908-2012) uma das melhores hermeneutas da hierohistória lusa, das tradições e visões míticas, religiosas e espirituais portuguesas que se encontram ou subjazem muitos autores e obras.
| Imagem captada na sua biblioteca durante a entrevista que a professora Sandra Pinheiro lhe fez. Muita Luz e Amor divinos nelas! |
Na sua vasta bibliografia deparamos com bastantes aproximações a Camões, tal como a Gil Vicente e vários outros elos da Tradição Espiritual Portuguesa, e nestes tempos de grande luta do Ocidente epsteiniano contra o Irão sagrado shiaa, teocrático, místico e mártir mas resistente heroicamente contra o eixo do mal liderado pelos USA e Israel, nada mais apropriado que citar algumas passagens do reconhecimento da influência iraniana e sufi que Dalila descortinou nos Lusíadas, e transmitiu nas suas Raizes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, editada na na Verbo Editora em 1990 num in-8º de 162 páginas.
A sua hermenêutica assentará no reconhecimento de três estratos tradicionais presentes n' O Lusíadas, a tradição cretense ou pré-helénica, a celta e a islâmica sufi e iraniana.
O capítulo Um relato de fonte gnóstica é iniciado assim, na sua escrita tão numinosa: «Partimos do pressuposto ou hipótese de trabalho que todo o episódio da «ínsua» divina que termina a epopeia camoneana, como vero finis, meta visada e sua completude, é um relato cifrado. Contendo uma experiência espiritual, como súbita e inesperada chegada ao paraíso terreal, seguida duma purgação, uma ascensão à montanha cósmica e terminando numa iluminação última de carácter escatológico e cosmológico, sob a pedagogia angélica da ninfa «mor». Iniciação marcadamente de tipo oriental hermético e gnóstico [e não o mero recurso ao maravilhoso pagão]. As presentes páginas pretendendo assim ser um itinerário de investigação de possíveis fontes islâmicas, sufis que Camões teria conhecido e dentro das quais teria organizado este episódio da epopeia.
Assim, continuaremos a senda aberta na exegese deste episódio, por António Telmo no seu livro, a Chegada dos Maniqueus à ilha de Camões. E agora por nós prosseguindo nessa senda, mas ainda particularmente nela procurando uma possível influência do relato visionário de Avicena.
Para além do modelo da Divina Comédia, visível neste episódio, ela já influenciada por essas fontes islâmicas como o demonstrou há várias décadas Miguel Asin Palácios, poder-se-á pôr a hipótese dum conhecimento directo por parte de Camões dessas mesmas fontes e nelas notadamente desse relato de Avicena: como viagem iniciática, chegada a um clima [nível subtil] intermediário entre Oriente e Ocidente, rematando-se nessa ascensão celeste sob a conduta do seu anjo: como demanda do peregrino de seu vero Eu transcendente e conhecimento dos mistérios divinos. A ilhas «fresca e bela» surgindo nos Lusíadas semelhantemente com o mundo do Anjo, tal o da visão especulativa de Dante; e também de Sohrawardi (1154-1191), demais místicos e poetas persas e iranianos: mas sobretudo de Avicena [ou Ibn Sina, m. 1137]. (...)»
Continuaremos a transcrever este capítulo. Volte de novo daqui a umas horas Domingo, e medite um pouco entretanto na sua ligação ao Anjo e à Divindade utilizando a frase da nossa querida amiga Dalila: aspire à «ascensão celeste sob a conduta do seu anjo: como demanda do peregrino de seu vero Eu transcendente e conhecimento dos mistérios divinos.»

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