quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Minha Filha - Aletheia", por Alexander Dugin. A 20/8/2026, aniversário da trágica morte de Daria ou Dasha Dugina.

 Minha Filha - Aletheia.

Eis-nos com uma hermenêutica muito poética, bela e espiritual gerada e dada por Alexander Dugin acerca da alma e as ideias, a morte e a missão de sua filha mártir Daria Dugina Platonova, um símbolo filosófico vivo da Verdade, Aletheia, e ainda como comungarmos com ela e intensificar o seu Optimismo Escatológico, nestes tempos de fim [das ilusões sobre este] mundo, e de desvelamento mais intenso do rosto ou visão da Verdade, Justiça e Amor, para os que lutam interna e externamente, para um mundo multipolar harmonioso.
   «Nossos amigos — os amigos italianos de Dasha, amigos da Rússia, amigos da minha família — decidiram honrar a memória de Daria Dugina neste 20 de agosto de 2026, o aniversário de sua trágica morte, com um festival intelectual — um festival filosófico, musical, criativo.
Estou emocionado que a memória da Dasha não esteja a apagar-se. Os seus textos estão sendo publicados, as suas ideias continuam a ser discutidas, a sua figura não está a murchar.
Platão disse que as ideias ou voam ou morrem. As ideias de Dasha estão voando alto. Elas estão a inspirar outros para grandes feitos. Não creio que se trate de um fenômeno de massa, embora na Rússia todos já conheçam Dasha. As ruas foram nomeadas em  homenagem a ela; monumentos foram erguidos em sua honra; canções e poemas, ilustrações e festivais, museus e exposições são dedicados a ela.
No entanto, Dasha continua a ser um símbolo incomum. Ela inspira, acima de tudo, aquelas pessoas diferenciadas que, embora habitem o mundo moderno, não pertencem a ele e estão separadas dele em virtude da diferença na sua natureza interior. [Mundo, valores e qualidades espirituais mais presentes neles]
A própria Dasha era diferente. E ela expressou essa consciência numa de suas principais ideias: o otimismo escatológico — ser activo no mundo, e até parcialmente aberto a ele, com a clara consciência de que o fim deste mundo está mais próximo do que nunca.
Além disso, Dasha é um símbolo filosófico. Não é por acaso que o escultor Dmitry Alexandrov, amigo de Dasha, criou um monumento a ela que a retrata com um livro. O livro não tem título, mas eu acho que é de Platão. [Ou os seus livros, ou o Livro em si...]

Dasha tinha muitos talentos e facetas, mas a filosofia era a mais importante para ela. Se uma pessoa conseguir encontrar uma entrada aberta para o palácio fechado da filosofia, nunca preferirá outra coisa. Dasha encontrou tal entrada. E ela estabeleceu-se para sempre no palácio cerrado da filosofia.
O festival realizado em homenagem a Dasha neste mês de agosto foi chamado Dasha-Aletheia. Com esse nome, os organizadores provavelmente queriam enfatizar a dimensão filosófica da figura de Dasha. Desta vez não se trata da sua religião, da sua visão política, da sua criatividade musical e poética, ou do seu patriotismo ativo, mas sim de filosofia.
Vou tentar compartilhar algumas reflexões nessa direção.
Heidegger interpretou a palavra grega aletheia como "desocultamento" (Unverborgenheit). Se a verdade é desvelamento, então é o ocultamento que vem primeiro. A verdade nunca nos é simplesmente dada. Deve ser buscada. A verdade exige esforço, descoberta, revelação, a abertura da revelação [perseverança].  O que é primário em Ísis é o seu véu. Mas o véu de Ísis não é uma máscara, como se estivéssemos lidando apenas com um sujeito disfarçado de outro. Ninguém sabe o que realmente está escondido atrás do véu.
O mundo ortodoxo conhece a Mãe de Deus de Kikkos, um ícone que se encontra num mosteiro no Monte Kikkos, em Chipre. Este ícone é único porque o seu rosto está permanentemente escondido dos olhos humanos por um manto e uma moldura especiais. Segundo a tradição, olhar para o ícone pode ser perigoso. Há o relato bem conhecido do Patriarca Gerasimos de Alexandria, que em 1699 ousou levantar ligeiramente o manto e ficou imediatamente cego. Ele foi curado só após um arrependimento sincero. Segundo outro relato, acredita-se que o ícone possui uma graça tão poderosa que é simplesmente perigoso para uma pessoa vê-lo na sua totalidade.
Da mesma forma, a verdade, aletheia, é aquilo que é perigoso ver na sua totalidade. Ninguém sabe o que está por trás do véu…
Quando uma pessoa morre, ela vai além do véu. Não se deve perturbar o falecido de forma insistente. É preciso aprender a honrar reverentemente o véu. Portanto, o "desvelamento" da verdade deve ser entendido não como ousar olhar por detrás do véu, mas como circunavegá-lo reverentemente. É uma dança hermenêutica. [Para ser feito em tudo, de maneira sagrada...]
Se formos falar da aletheia de Dasha, sobre a verdade de Dasha, então aproximar-se dela exige que mantenhamos alguma distância.
Acredita-se que os textos mais comoventes da história tenham sido escritos sobre o amor. Provavelmente isso é verdade. No entanto, pensadores e poetas alcançaram o auge de sua capacidade de descrever a dor emocional quando perderam suas filhas. Com respeito à profundidade absoluta da tragédia, nada se compara à Consolatio de Cícero. Foi inspirada pelo tratado Sobre o Luto (Περὶ πένθους) do platónico grego Crantor. Crantor escreveu este texto como  consolação para o seu amigo Hipócrates. Lactâncio disse muito apropriadamente sobre Cícero — e eu [Dugin] poderia facilmente aplicar essas palavras a mim mesmo —:
"M. Tullius na sua Consolação diz ter sempre lutado contra a Fortuna e de tê-la superado quando repelia bravamente os ataques dos inimigos: nem mesmo então se deixou vencer por ela, quando foi expulso de sua casa e perdeu sua pátria; mas, quando perdeu sua filha mais querida, confessa-se vencido pela Fortuna de forma vergonhosa: "Cedo" – diz ele – "aqui, levanto a mão."
John Donne também dedicou uma das maiores obras da poesia inglesa e mundial à morte da filha de seu amigo Robert Drury, Elizabeth. Ele chamou-a d' A Anatomia do Mundo e escreveu sobre a "decadência do mundo." Após a morte de uma filha amada, o mundo desmorona nas costuras. Já não é inteiro; está fragmentado e disperso em todas as direções. Para um homem, nada pode substituir a aletheia de sua filha. O mundo não existe mais. Não somos mais. Já não somos mais o que éramos.
A morte dela ensinou-nos caramente o que tu [o mundo] és
Corrupto e mortal na tua parte mais pura.

A morte da própria filha está no cerne de todo o gênero de Consolatio. Em russo, a palavra é uteshenie. Na língua russa, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é chamado de 'Uteshitel’, o “Consolador” ou “Consolador.” Somente o Consolador é capaz de ajudar um homem a suportar a perda mais terrível.
Os cátaros tinham um ritual chamado Consolamentum: beijar a testa de Sophia, Sabedoria, que é a Consolatrix, a Confortadora. Ela é a que está em mente nos versos trágicos de Nerval:
mon front est rouge encore du baiser de la reine.           
a minha testa ainda está vermelha do beijo da rainha."
Para Dante, o Consolador era Beatriz.
A notável e sensível Princesa Vittoria Alliata, que era amiga de Daria, disse que Daria pertence ao arquétipo de Beatriz, à Tradição da Donzela [Anjo, Musa]
Quando aquilo que é mais importante e amado foi ocultado ou desapareceu, a consolação deve ser buscada na própria ocultação. Este é o mistério do véu. A tradição é bela quando existe, mas é mil vezes mais bela quando não existe — ainda assim, contra todas as probabilidades, permanecemos fiéis a ela. Todos esqueceram; nós lembramos. Todos aceitaram a partida de Sophia, mas para nós isso causa um sofrimento inimaginável. Não precisamos de um mundo sem a sua luz. Apenas a dor selvagem pode nos confortar. Este é o optimismo escatológico. [Cultive a comunhão interior e aja com coragem]
Agora, um pouco mais sobre o significado do termo aletheia. Para os gregos, Lethe é o rio do esquecimento, do esquecimento, e "a-" é um prefixo negativo. Assim, a-letheia é lembrança. Neste ponto, podemos recorrer a Platão. Nos ensinamentos de Platão, o conhecimento é anamnesis, ou seja, lembrança ou recordação. A alma tem uma natureza celestial. Ela encontra-se no corpo quando cai, desce. Anseia retornar à sua terra natal. Se sua recordação é forte, então também é a sua atratação para os céus, o seu anseio pela Luz, pela eternidade, pelas ideias. Segundo Platão, é isso que define o filósofo: o anseio pelos céus, pelo retorno. O mundo dos corpos, a vida terrena, é o esquecimento. Para se viver aqui, é preciso ter esquecido da verdadeira vida. Mas a lembrança causa dor. É a nostalgia, que em grego significa a memória dolorosa de um lugar, do seu lugar natural. A dor e a lembrança estão entrelaçadas. [A saudade é o sinónimo luso.]  A verdade (aletheia) é aquilo que recordamos com dor. Assim, mais uma vez, os temas convergem: lembramos de Dasha com dor no dia em que ela subiu ao céu como um pássaro de fogo. Recolhemos [ou relembramos] a verdade. Lembramo-nos de nós mesmos. [Enquanto seres espirituais, e então em tal meditação podemos alcançar alguma visão interior ou comunhão com o espírito imortal de Dasha.]
As origens do teatro estão no culto ao herói. Os antigos gregos se reuniam na tumba de um herói para honrar sua memória em um momento específico. Eles formariam um círculo, cantariam hinos sagrados, usariam máscaras e fariam oferendas. Acreditava-se que o espírito imortal do herói, por um breve momento, respiraria através de seus pulmões, ouviria através de seus ouvidos e voaria nas asas de suas vozes. Dasha é, sem dúvida, uma verdadeira heroína. E a memória dela está gradualmente a tornar-se um ritual.
O próprio Platão fundou a sua escola num bosque dedicado ao sagrado herói Academus. Lá, o povo da pólis reunia-se para honrar a sua memória, para proporcionar ao herói a oportunidade de olhar para este mundo e respirar o seu ar [ou éter]. Foi em nome do herói Academus que os homens atenienses piedosos  realizavam as suas discussões filosóficas. Isso mais tarde se tornou-se a origem de todas as academias do mundo. O nome do herói não é esquecido — a-letheia.
Tanto está interrelacionado com a Dasha, tanto está sendo ligado a ela. Ela era filósofa; encenava performances teatrais maravilhosas; escrevia música e compunha poesia. Era uma pessoa muito gentil e sincera. E conjuntamente era uma pessoa que sofria profundamente. Talvez isso se devesse à sua memória do mundo superior e à sua recusa em comprometer-se com os pesados determinismos do mundo inferior.
A memória de Dasha não está a dissipar-se. A nossa guerra  gerou muitos heróis. Mas Dasha continua especial — diferenciada — entre eles. O seu feito e o seu sacrifício são santificados pela presença próxima da própria verdade.
Quando  pensas em Dasha, lês os seus livros, ouves sua voz e a sua música, e olha suas fotografias, percebes que a verdade está perto — ao alcance das mãos…
Lá, além do fino véu da morte…
Cedo, en manu tollo .
Ad caelum tollo. 
"Cedo (chega), ergo as mãos, 
Ao céu ergo.
Alexander Dugin,
20 de agosto de 2026

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