sábado, 1 de agosto de 2026

Do encontro do Oriente e Ocidente e sua sabedoria, através de algumas efemérides da 1ª semana de Agosto.

Destaquei de "Agosto e as suas efemérides do encontro do Oriente e do Ocidente, da Índia e de Portugal", nascido de um livro publicado em 1998 e que se foi desenvolvendo como encontra no blog, a primeira semana, suprimindo ou abreviando algumas e sublinhando o mais valioso: 
1-VIII. Frei Amador Arrais, nascido em Beja em 1530, frade carmelita, formado em Teologia e professor em Coimbra, e que fora pregador real e Bispo de Portalegre, parte da Terra neste 1º de Agosto em 1600, em Coimbra,  aonde regressara em 1596 desiludido do Cabido de Portalegre não ter querido aceitar a implementação da reforma de costumes da cristandade desejada e decretada pelo Concílio de Trento. Notável escritor da língua portuguesa, na sua obra principal, de cunho moral e humanista, erudito e simples, iniciada pelo seu irmão Jerónimo, Os Diálogos, no diálogo quarto, Da glória e triunfo dos Lusitanos, consagra belas páginas  a Viriato e aos seus heróicos sucessores ao longo dos séculos, com algumas dedicadas à Índia, mostrando-se leitor de João de Barros, Garcia de Orta e  Jerónimo Osório, descrevendo particularmente o reino de Narsinga e os monumentos (tal a famosa cruz em pedra)  e o culto de S. Tomé, em Meliapor, onde uma bela pintura de Nossa Senhora  levada pelos portugueses, é ainda hoje venerada, como eu próprio vi. Citará Propércio, da Elegia 3, «quanto com armas tanto prevalecerão com piedade, que [Deus] temperou suas mão vencedoras», consideração da harmonia do rigor e do amor, desenvolvendo-a ainda com a profunda doutrina   transmitida por Platão: «Deus, fazedor dos homens, misturou no peito dos Príncipes que haviam de governar as Repúblicas ouro celestial, que são virtudes divinas, porque fossem de altos e divinos pensamentos. E aos que haviam de ajudar a estes no governo púbico, ainda que não se lhes igualassem na dignidade, ornou-lhes o coração de prata do céu, que são os esmaltes e atavios de excelentes inclinações e costumes. Mas no peito dos lavradores e outros oficiais mecânicos que servem a república, enxertou ferro e cobre. Acrescentou mais Platão que aqueles em cujo peito Deus encerrara ouro e prata, eram obrigados a desprezar os metais da terra e não ajuntar tesouros, nem seguir as riquezas deste mundo. Por esta metáfora figurou este sumo filósofo a vida do religioso e do perfeito cristão.»
                                                   
 Bal Gangadhar Tilak, um rei não coroado do Decão, o pai do desassossego indiano, o líder do Partido de Toda a Índia, desencarna em 1920. Mahatama Gandhi dirá: «O seu vasto saber, os seus imensos sacrifícios e o serviço de toda a sua vida fizeram-lhe ganhar um lugar único no coração do povo... Creio que o seu comentário sobre o Canto do Amado (Bhagavad Gita) será o mais duradouro monumento à sua memória. Sobreviverá mesmo ao fim com sucesso da luta por Swarajya, o auto-governo. Mesmo então a sua lembrança permanecerá fresca como sempre, devido à imaculada pureza da sua vida e ao seu grande comentário sobre a Bhagavad Gita.» Além desta exegese, escreveu um vasto tratado sobre a pátria Ártica dos Indo-europeus. Pouco antes de morrer, ao visitar, com o mestre e poeta Shuddhananda Bharati (que eu conheci), o Sai Baba de Sirdir, este diz-lhe: «Vai e descansa. A liberdade chegará à Índia». Era um conselho profético merecido, pois Tilak, um marata, representara a linha mais incendiária no partido do Congresso Nacional Indiano, pouco disposta a cooperar com os ingleses e exigindo a independência imediata. Será contudo ahimsa, a não-violência activa, de Gandhi, aliada à auto-governação, swarajya, que galvanizarão toda a nação invencivelmente. No recente livro, ao qual fiz uma apreciação no blogue, Tributes to and Remembrances of Gurudev R. D. Ranade, The Saint of Nimbal, by Rajendra Chauan and Deepak V. Apte, há um testemunho do mestre Ranade, que o conheceu, valiosa e em que se realça muito bem a unidade do coração e da cabeça-cérebro no caminho espiritual e que Tilak realizara.
                                                     
2-VIII. Neste dia em 1864, em Macau, o Padre F. F. X. Rondina assina a dedicatória da sua obra baseada no seu discurso Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo reivindicada contra Ernesto Renan, recitado na Sé Macau, e impresso no Seminário Diocesano, porque aquele «escritor, embebido de doutrinas panteístas, depois de ter nos seu Estudos da História Religiosa, afirmado a eternidade da matéria, negado a existência dum Deus distinto das criaturas, rejeitado tudo o que é sobrenatural, vem hoje com um miserável romance na mão, intitulado a Vida de Jesus, combater a crença da divindade de Jesus Cristo, pedra angular da Religião revelada.» Rondina, apesar de ter aprendido há pouco o português, escreve bem e mostra-se muito informado quanto aos vários racionalistas que cumprimentavam Ernesto Renan. E como crente na leitura literal dos Evangelhos não podia deixar de criticar várias asserções, e por vezes com razão, escritas por Renan na sua obra e por ele rebatidas. Contudo errava quando a pensava que a perda «da fé na Divindade de Cristo, na infalibilidade dos seus dogmas e na veracidade das suas promessas», acabaria com o Cristianismo, já que o aprofundamento crítico do Cristianismo não se deve nem se pode limitar a bem da Verdade e da Divindade...
                                    
3-VIII.   Simão Vaz de Paiva, Luís Pais Pacheco, Rodrigo Sanches de Paredes, Gonçalo Monteiro de Carvalho, os quatro embaixadores, vindos de Macau com outros 60 cristãos, para reatarem as relações comerciais com o Japão, morrem degolados, mártires da fé cristã, em 1640, na cidade, construída à portuguesa e em parte administrada pelos jesuítas, de Nagasaki, que será desnecessária e criminosamente arrasada em 1945 pela bomba atómica norte-americana, ameaça que continua pesar sempre de novo sobre a humanidade devido ao insaciável imperialismo norte-americano e sionista. Instado a renegar a sua crença pouco antes de morrer, rezam as crónicas, Simão Vaz respondeu que estava vendo a Jesus Cristo e a sua glória, o que era bem possível pois o ardor e o drama aguçam a clarividência. Em 1638 a revolta dos camponeses e dos cristãos de Shimabara, liderados por Jerónimo, que terminara com a morte à espada dos 37.000 sobreviventes do prolongado cerco do castelo de Hara, intensificara a perseguição contra os cristãos. Em 1640 o xógum Iemitsu cria um tipo de Inquisição para prender e matar os poucos missionários que tinham ficado ou ainda ousavam aventurar-se pelas terras nipónica. Os próprios japoneses tinham de provar que realizavam uma peregrinação por ano a um santuário budista ou shintoísta, e os suspeitos de cristianismo tinham de pisar uma imagem de Jesus e Maria. Terminara o século de ouro dos portugueses no Japão (1543-1639), no qual marinheiros, comerciantes e missionários transmitiram características e impulsões ocidentais e portuguesas, para além de influências específicas nas ciências, artes e usos, que contribuíram para o fermentar do Japão. Nos nossos dias, entre nós, João Paulo Costa, Pedro Canavarro têm estudado o relacionamento luso-nipónico e,  um nível mais de guia no terreno, Inês Carvalho Matos, publicou recentemente um livro Património de Cristianismo no Japão, em que ilustra bem o ponto da situação do passado no presente.
                                       
4-VIII. Morre em Alcácer Kibir, em 1580, grande parte da força e missão de Portugal, e apressa-se a decadência do fugaz império marítimo português, quando D. Sebastião levou os  seus exércitos a uma batalha desnecessária, culminada no lutar até morrer. Já após o famoso grito "Ter,Ter", que brotou naturalmente perante a força da arremetida moura, o infausto Rei Desejado terá respondido, lendariamente quiçá, aos que insistiam na fuga, que «a liberdade real com a vida se havia de perder». Muitos dos que foram presos na derrota serão resgatados, afirmando alguns terem visto o corpo do «último do sangue de Henriques» exangue, mas a crença e a lenda da sua sobrevivência permanecerá por longo tempo, acalentada pelo não aparecimento do seu corpo e por messianistas e sebastianistas, ora visionários da sua presença na Europa ora sonhadores duma de grandeza futura que lhes tinha sido cerceada no presente. Sábios como Jerónimo Osório, Diogo de Teive, D. Luís de Ataíde e até o insigne espanhol Arias Montano, vindo expressamente do seu refúgio na Pena, tinham tentado em vão suster o imprudente acometer. Um dia trágico na memória subtil da pátria, certamente trabalhável em bons sentidos, tal o de se ressuscitar e manifestar melhor o nosso corpo espiritual, seja pelo sofrimento e a paciência, seja pelo discernimento e a coragem prudente, amor, adoração e alegria...
                                 
                                   
5-VIII. Abandona a vestimenta terrena Sri Takur Satyananda Deva, em 1969, em Baraganore. Discípulo de swami Abhedananda e por este de Sri Ramakrishna Paramahansa, dirá: «Há um Eu Supremo no cosmos. Medita pois nele como Supremo Eu. Mas na vida agitada põe-O em toda a parte. Tenta vê-Lo em cada átomo. Em cada pessoa que encontres, permite-Lhe estar visível». Aconselhava judiciosamente a tomada de consciência da Divindade simultaneamente, no aspecto estático e no dinâmico, no transcendente e no imanente.
                                        
 6-VIII.     Termina cedo a sua promissora passagem pela Terra, em 1937, apenas com 32 anos, Adeodato Barreto, que entrara no mundo físico em Margão, Goa, em 3-XII-1905 e que, cursado o liceu e revelando já os seus dotes, viera para Portugal licenciar-se em Coimbra, em 1929 e 1930, em Direito e Ciências Histórico-Filosóficas. Foi um grande dinamizador da cultura luso-indiana, fundando universidades livres, o jornal Índia Nova (entre 1928 e 1929, com seis números publicados), ligas e escolas, até desencarnar em Aljustrel, onde estabilizara durante quatro anos como notário, pedagogo e cooperativista. Na sua valiosa Civilização Hindu, publicada em 1936 pelo grupo da revista Seara Nova (onde desde 1926 funcionava uma secção do Oriente), e que foi em 2000, reeditada, visualiza as lutas ainda actuais  no séc. XXI: «Duas orientações se disputam hoje o privilégio de conduzir o futuro da humanidade: uma é pela tradição e pelo grupo, outra é pela revolução e pelo indivíduo. Mas uma e outra esquecem o que há de essencial neste debate: a subordinação do material ao espiritual. É neste ponto crucial que se manifesta o que se entende ser a missão da Índia moderna: às facções em luta, e sem esquecer o que deve tanto à tradição como à revolução, ela recorda à humanidade transviada que o seu fim último não é nem uma nem outra, mas sim o seu próprio aperfeiçoamento interior». A revista Índia Nova, que fundara com José Teles e Tello de Mascarenhas, bem merecia ser reeditada.
                                          
Na sua linha de pensamento podemos dizer que na sociedade política mundial cada vez mais global e em que as tradições são tanto de se respeitar como de se revolucionar quando não são correctas, par  se as fazer evoluir e aperfeiçoar, sem dúvida  a visão espiritual da existência e um modo de vida não-violento, ecológico e fraterno, como o que triunfou de certo modo na Índia, com Gandhi e a sua epopeia libertadora face à opressão inglesa, ou agora imperialista globalista e sionista, são dois pilares do templo sempre utópico, sempre em construção,  duma Humanidade
melhor.
 
                                     
                                    
7-VIII. Deposita-se em 1628 a primeira pedra do mosteiro da Santa Cruz no Buçaco, onde monges lidarão com as potências do corpo e da alma, no meio duma natureza frondosa, em similitude com os ashrams indianos. O ensaísta, professor e jornalista Sant’Anna Dionísio, discípulo de Leonardo Coimbra, e com quem convivi em diálogos acromáticos, escreverá: «Verdadeiro recolhimento de ascese, seria o único deserto, no género, que existia em Portugal. O silêncio era rigorosamente imposto à comunidade, sendo apenas isentos desse preceito o prior, e mais três monges, um deles, o da portaria. Aos outros era somente permitido quebrar a mudez de quinze em quinze dias. A própria regra monástica preceituava o dever da plantação de árvores e proibia o corte de alguma sem o voto favorável, pelo menos, de dois terços da comunidade... No Buçaco, de resto (como em toda a floresta), há alguma coisa de inefável que não se transfere. A própria alma do homem que se diga positivo, posta a sós perante a impressionante multiplicidade, quase ecuménica, do seu arvoredo é assaltada pela dúvida (por assim dizer indefinida ou metafísica) sobre se esse mundo de seres é puramente vegetativo ou alguma coisa mais». Bons ensinamentos de Sant'Anna Dionísio para estes tempos ainda com tanto arboricídio público.
Em 1941, Lua cheia, ao meio-dia, neste dia 7 de Agosto passa para o mundo espiritual, na mesma casa onde nascera há 80 anos (6-5-1861) em Calcutá, o educador, mestre e poeta, Rabindranath Tagore, filho do Maharishi Devantranath Tagore, e como este destacado mestre no movimento espiritualista e nacionalista do Bramo Samaj. Esteve em Inglaterra por duas vezes entre os 17 e os 19, casou aos 23 e viveu a natureza pura e rural. A morte da mulher e dos três filhos fazem-no ainda despertar mais para o Amor divino e universal, desenvolvido tradicionalmente pela  via do Bhakti Yoga, transmitindo realizações espirituais com impressivo lirismo na sua poesia, recebendo o prémio Nobel da Literatura em 1913, e tornando-se muito divulgado no Ocidente: traduzido por Yeats, André Gide (outros dois prémios Nobel) e, entre nós traduziram-no ou sobre ele escreveram Adeodato Barreto, Santana Rodrigues, Tudela de Castro, Telo de Mascarenhas, Augusto Casimiro, António Figueirinhas, Bento Caraça, Alexandre Fonseca, entre outros. Fundou a universidade ao ar livre de Shantiniketan, em Bengala, que visitei ainda há uns anos em pleno e belo funcionamento. A sua obra é tão rica que qualquer citação dela será sempre uma ínfima e limitada amostra, contudo eis algumas: «Sinto que Deus no mais íntimo de mim tem alegria em expressar-se através de mim e esta alegria, este amor penetra todas as partes do meu ser, derramando na minha mente, no meu intelecto, este universo inteiro que está vívido diante de mim, meu passado infinito e meu destino eterno. Há um laço de perpétuo amor entre nós dois». No seu último poema escrito diz-nos: «Uma vez encontrada a verdade, / lavada na sua própria luz interna / ninguém a pode privar dela. / Leva-a consigo / para a sua casa entesourada / Como o seu último prémio».
O tesouro das suas obras e estados anímicos, tão vibrantes de amor e sabedoria, é uma fonte de impulsão sucessiva ou perene. Oiçamo-lo ainda: “Meu coração, ave da selva brava, encontrou o céu nos teus olhos. Eles são o berço da manhã e o reino das estrelas. Meus cantos perdem-se na sua profundeza. Deixa-me voar nesse céu, na sua imensidade solitária. Deixa-me violar as suas nuvens e abrir largas asas na sua claridade.” E ainda: “Vida da minha vida, tudo farei para conservar puro o meu corpo, porque sei que em meu corpo vive o teu divino alento. Sem descanso procurarei proteger meu pensamento de todas as mentiras, porque tu és aquela verdade que inflama no meu espírito a luz da razão. Sem descanso tudo farei para afastar do meu coração toda a maldade, conservando florido e puro o meu amor, porque sei que tu vives no mais íntimo altar do meu coração. Farei tudo, para te revelar em meus actos, porque é a tua força que em mim se torna acção.” Encontra no meu blogue e no youtube alguns contributos sobre a sua grande alma, mahatma.