sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Sri Ramakrishna visita Chandra Vidyasagar. Como é inútil falar da Divindade, Brahman, sem a sua visão e conhecimento. Nos 188 anos do seu aniversário.

                                    
Ocorrendo o aniversário de Sri Ramakrishna a 18 de Fevereiro (1836), resolvemos ho
menageá-lo partilhando algumas páginas do seu ensinamento, transmitido em bengali na forma dum livro em cinco volumes por M [Mahendranath Gupta, 1854-1932], onze anos depois do mestre ter morrido (a 16 de Agosto de 1886), ou seja, a partir de 1897,  intitulado Sri Sri Ramakrishna Kathamrita, e que se tornou conhecida como o Evangelho de Ramakrishna. Em 1995 estive alguns meses em aprendizagens, traduções, diálogos e palestras no Instituto de Cultura da Missão Ramakrisnna em Calcutá, dirigido então pelo sábio e simpático Swami Loskesvarananda, e onde traduzi bastantes páginas e palestrei até, além de visitas e diálogos valiosos. A tradução deste texto em inglês, e de outros em sânscrito com o querido e sábio professor Satchitanandadhar, foram realizados em cadernos e só agora tenho mais tempo para os passar para o computador.

Sri Ramakrishna foi um dos últimos grandes mestres  da Índia, praticamente analfabeto, mas com uma precoce sensibilidade espiritual e  uma aspiração muito grande à Divindade, que o levaram por um percurso em valioso dados os múltiplos encontros com yogis e yoginis, filósofos e religiosos (os ocorridos entre 1882-1886 foram registados por Mahendranath Gupta), que foram alargando a sua realização espiritual de tal modo que conseguiu sentir ou realizar a Divindade através das diferentes sadhanas, ou linhas de prática indianas, mas também através dos ensinos dos diferentes mestres fundadores das religiões, algo que o seu contemporâneo e amigo Keshav Chandra Sen também tentou, como já descrevemos no blogue. A pintura naif representa a unidade das religiões, pioneirizada por eles, ainda que já antes Akbar (1542-1605) e sobretudo Dara Shikok (1615-16599, dois príncipes e mestres mogóis, tivessem brilhado nessa junção de oceanos ou tradições.
                              
Consciente da época cíclica histó
rica em que estava, a Kali Yuga, em que a influência do mundo e da mundanidade nas pessoas era cada vez maior, impossibilitando ou dificultando a realização da Divindade de modo não dual, ou seja só se vendo a Unidade divina em tudo, recomendou, como o método mais acessível, a devoção à Divindade, seja sob que forma a adoremos, valorizando a repetição do nome de Deus (japa mantra) que mais gostarmos.
                                 
Durante cerca de quinze anos exerceu um magistério intenso com os visitantes do templo da deusa Kali junt
o ao sagrado Ganges onde vivia e oficiava e, a partir de dado momento, com um grupo de fiéis amigos, dialogantes, admiradores, discípulos, que irão após a sua a morte formar a Missão ou Ordem de Ramakrisna e espalhar-se pelo mundo, embora bastante mais na Índia, onde se dedicaram tanto à transmissão dos ensinamentos do mestre, como do seu discípulo principal, Swami Vivekananda, e de vários outros monges ou swamis, como também ao serviço (seva) educativo e humanitário. Estive em alguns dos centros e dialoguei com vários monges sábios em diferentes locais ao longo dos dois anos e meio que estive na Índ
ia.
É do registo do dia 5 de Agosto de 1882, que vamos apresentar um extracto da visita de Ramakrishna a Chandra Vidyasagar, e o diálogo que aconteceu. Está no começo do 3º capítulo do Evangelho de Ramakrishna, por Mahendranath Gupta.

                                                                           
                                      Mahendranathgupta, o autor do texto que traduzimos:
«O pandita Ishwar Chandra Vidyasagar nasceu na aldeia de Birsinga, [a 26 de Setembro de 1820, vivendo até 29 de Julho de 1891] não longe de Kamarpukur, o local de nascimento de Sri Ramakrishna [a 18 Fevereiro de 1836]. Era conhecido por ser um grande erudito, educador, escritor e filantropo [e defensor da emancipação das mulheres]. Sendo um dos criadores do bengali moderno, era também muito versado na gramática e na poesia em sânscrito. A sua generosidade fez com que seu nome se tornasse um sinónimo de partilha entre os seus compatriotas, ao dar em caridade a maior parte dos seus rendimentos a viúvas, órfãos, estudantes indigentes e outras pessoas necessitadas. Mas a sua compaixão não se limitava aos seres humanos: deixou de beber leite durante anos para  que os vitelos não ficassem sem ele e também não guiava uma carruagem por receio de causar desconforto aos cavalos. Era um homem de espírito indomável, o que demonstrou quando abandonou a posição bem renumerada de principal do Colégio de Sânscrito de Calcutá, por entrar em desacordo com as autoridades. A sua afeição pela sua mãe era especialmente profunda. Um dia, na falta da barcaça fluvial, atravessou um rio impetuoso com risco da própria vida, para satisfazer o desejo dela que estivesse presente no casamento do irmão. Toda sua vida foi de uma profunda simplicidade. O título Vidyasagar, que significa “Oceano de Sabedoria”, foi-lhe dado em reconhecimento da sua vasta erudição.

Sri Ramakrishna há muito que desejava visitar Ishwar Chandra Vidyasagar. Ao saber que M. [Mahendra Gupta, o autor do Evangelho] era professor na escola de Vidyasagar, o Mestre perguntou-lhe, “Pode levar-me até Vidyasagar? Gostaria muito de vê-lo.” M. contou a Iswar Chandra o desejo de Sri Ramakrishna e o pundit (sábio ou erudito) concordou que M. traria o Mestre Ramakrishna num sábado, às quatro da tarde. Apenas perguntou a M. que tipo de paramahamsa [grande cisne ou alma] o Mestre era: “Ele usa roupa ocre [de renunciante]?” M. respondeu: “Não, senhor. É uma pessoa invulgar. Usa uma roupa com uma franja vermelha e chinelos polidos. Mora num quarto no jardim do templo da Rani Rasmani [a recente fundadora, muito rica e não brâmane]. Em seu quarto há um divã com colchão e a rede para mosquitos. Não tem qualquer sinal exterior de santidade. Mas excepto Deus, não conhece mais nada. Dia e noite pensa na Divindade .” (...)
Hamsa, o cisne do discernimento no emblema da Ordem de Ramakrishna
Vidyasagar era muito reticente quanto a dar instrução religiosa aos outros. Havia estudado filosofia hindu. Uma vez quando M. lhe perguntou sua opinião cerca dela, Vidyasagar disse-lhe: “Creio que os filósofos esqueceram-se de explicar o que estava nas suas mentes.” Mas no seu dia a dia seguia todos os rituais da religião hindu e usava o cordão sagrado  de brâmane. Sobre Deus uma vez declarou: “É sem dúvida impossível conhecê-Lo. Qual deve ser então o nosso dever? Parece-me que devemos viver de tal maneira que, se os outros seguirem o nosso exemplo, esta mesma Terra seria um paraíso. Toda a gente deveria tentar fazer bem ao mundo."
A conversa de Ramakrishna passou então para o conhecimento de Brahman.
Mestre [Ramakrishna]: Brahman,
a Divindade, está para além do conhecimento (vidya) e da ignorância (avidya). Está para além de maya, a ilusão da realidade.
O mundo consiste
da dualidade ilusória do conhecimento e da ignorância. Contém conhecimento e amor devocional, e também o desejo ou apego à sensualidade e ao dinheiro; rectidão e justiça, bom e mau. Mas Brahman está desapegado [ou acima] destes. Bem e mal aplicam-se ao jiva, à alma individual, tal como a justiça e a injustiça, mas Brahman, a Divindade, não é de modo algum afectado por eles.

Uma pessoa pode ler a Bhagavad Gita através da luz de uma lâmpada, e outra pessoa pode cometer uma fraude através dessa mesma luz, mas a lâmpada não é afectada. O sol derrama a sua luz tanto nos malvados como nos virtuosos.
Perguntareis: Como se pode então explicar a miséria, o pecado, a infelicidade? A resposta é que eles só se aplicam ao jiva, à alma individual. Brahman [o Absoluto, a Divindade] não é afectado por eles. Há veneno numa serpente, mas apesar de outros poderem morrer se forem mordidos por ela, a serpente em si não é afectada pelo veneno.
O que é Brahman é indescritível. Todos as Escrituras - os Vedas, as Puranas, os Tantras, as seis Darshanas (sistemas de filosofia) - foram profanadas, como a comida tocada pela língua, pois foram lidos e pronunciados pela língua. Apenas algo não foi desta forma profanada e tal é Brahman. Nunca ninguém conseguiu estar apto a dizer o que é a Divindade 
infinita.
Vidyasagar
: (para os amigos que assistiam): “Oh! Isto é uma afirmação notável.  Aprendi algo novo hoje.”
Mestre: "Um homem tem dois filhos e envia-os a um perceptor ou mestre para aprenderem o Conhecimento de Brahman. Após alguns anos regressam a casa e inclinam-se diante do pai. Querendo medir a profundidade do conhecimento que detinham de Brahman, interroga o mais velho:- Meu filho, estudastes todas as Escrituras, diz-me agora qual é a natureza da Divindade? O rapaz começou a explicar Brahman pela recitação de vários textos védicos. O pai não se pronunciou e fez a mesma pergunta ao outro filho. Mas o rapaz silencioso, pôs os olhos no chão, e palavra alguma escapou dos seus lábios. O pai ficou contente e disse-lhe: Meu filho, compreendeste um pouco do Brahman. O que é, não pode ser expresso por palavras."
Os seres humanos pensam que compreenderam plenamente Brahman. Uma vez uma formiga encontrou um montão de açúcar. Um grão encheu o seu estômago. Pegando noutro grão com a boca pôs-se a caminho da casa. A certa altura pensou, na próxima vez trarei para casa todo o monte."
Isto é o modo como as mentes estreitas pensam. Não sabem que Brahman está para além das palavras e pensamentos. Por muito grande que seja um homem, quanto é que ele pode conhecer de Brahman? Sukadeva [filho de Vyasa, o autor do Bhagavat Purana e seu narrador] e outros sábios podem ter sido grandes formigas, mas mesmo eles
apenas poderiam levar  oito ou dez grãos de açúcar.
Quanto ao que foi dito nos Vedas e Puranas, sabeis a que se assemelha? Suponde que uma pessoa viu o oceano e alguém lhe pergunta: "Então, como é o oceano?" Ele abre a boca tanto quanto pode exclama:" Que vista imensa! Que ondas e sons" A descrição de Deus nos livros sagrados é como tal. Diz-se nos Vedas que Brahman é de natureza da beatitude - É Satchidananda. [Sat-Ser, Chit-Consciência, Ananda-Felicidade, palavra muito usada para meditação.]
Suka e outros sábios estiveram na margem deste oceano da Divindade. Viram-no e tocaram a água. Mas de acordo com uma escola de pensamento nunca mergulharam nele. Aqueles que o fazem não podem voltar ao mundo de novo.
Em samadhi [estado de intensificação energético-espiritual] uma pessoa atinge o Conhecimento de Brahman - uma pessoa realiza Brahman. Nesse estado o raciocínio pára completamente e a pessoa torna-se muda. Ele não tem o poder de descrever a natureza da Divindade.
Uma vez uma boneca de sal foi medir a profundidade do oceano (riem-se todo os que escutam Ramakrisna na satsanga). Queria contar às outras quão profunda
era a água. Mas isso ela nunca poderia fazer, pois assim que entrou na água dissolveu-se. Portanto, quem estava lá para relatar depois a profundidade do Oceano?
(...)
Os
rishis (sábios videntes) de antigamente atingiram o Conhecimento de Brahman. Não se pode alcançar esse estado enquanto houver o menor traço de mundanidade. Quão arduamente os rishis trabalhavam! De manhã cedo saíam do eremitério e passavam o dia inteiro na solidão, meditando em Deus [Brahman]. À noite voltavam ao eremitério e comiam algumas frutas e raízes. Mantinham as mentes isoladas dos objetos da visão, audição e tacto e das outras coisas do mundo material. Só assim eles realizaram Brahman como a sua própria consciência interna.
“Mas no Kaliyuga [a época actual segundo a ciclicidade tradicional indiana], o homem estando totalmente dependente da comida para viver, não pode libertar-se completamente da ideia de que é o corpo. Nesse estado mental, não é apropriado ele dizer: ‘Eu sou Ele’, Aham Asmi, [uma das grandes afirmações (mahavakyas) da realização espiritual].  Quando uma pessoa faz todo o tipo de trabalho mundano, não deve dizer ‘Eu sou Brahman’ [Aham Brahmasmi, outra das grandes afirmações, em que se medita]. Os que não podem desapegar-se das coisas do mundo, que não podem libertar-se do sentimento do ‘eu’, deveriam dizer: “Sou um servidor de Deus; Sou um seu devoto’. Pode-se também realizar Deus seguindo o caminho da devoção. [Bhakti, que Ramakrishna seguiu fortemente, além do caminho (marga) do conhecimento-visão, Vijnana]».

Que Sri Ramakrisna Paramahamsa nos inspire na realização espiritual e divina!

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