quinta-feira, 4 de julho de 2024

Gurudev Ranade: hermenêutica espiritual de Kabir, poeta e místico do séc. XV. Nas comemorações do aniversário de Ranade.

Kabir, mestre dos sant.

Um dos mestres espirituais mais apreciados e estudados por gurudev Ranade (1886-1957)  foi o famoso poeta e místico do século XVI Kabir, tendo-lhe dedicado várias páginas na suas obras, abordando-o numa hermenêutica verdadeiramente espiritual e não meramente histórica, teórica ou esotericista. É o caso de The conception of spiritual life in Mahtama Gandi and Hindi Saints, 1956, onde no prefácio Ranade escreve: «a terceira parte deste livro é dedicada ao desenvolvimento da experiência mística em Kabir, o Apóstolo da unidade espiritual, não só entre os hindus e os muçulmanos, mas entre os membros de todas as comunidades religiosas do mundo. Se Kabir vivesse hoje, seria a primeira pessoa a pregar o evangelho da unidade espiritual universal». 

É na realidade sempre  actual e importante este posicionamento: sem se menosprezar as diferentes religiões,  a unidade espiritual que as subjaz deve ser reconhecida, estudada, anunciada, para melhoria da paz, entendimento e inclusividade entre os fiéis das várias religiões e tradições.

Ramchandra Dattratreya Ranade.

A data do nascimento de Kabir é controversa, para uns em 1398 para outros 1440, mas a da sua morte, 1518, já é unanimemente aceite.  Varanasi, ou Kashi, a luminosa cidade gangética, foi o local, embora sejam incertas as influências espirituais iniciais: teria nascido  provavelmente numa família Nath yogi shivaísta, e talvez também  praticante do sufismo islâmico, sabendo-se que foi ainda discípulo do mestre Ramdas na linha dos devotos de Vishnu, o que se torna manifesto nos poemas em que critica os Nath yogi por não desenvolverem a devoção, o amor, prembhakti.

Kabir, tecendo, cantando, ensinando.

Foi um tecelão, poeta, yogi, místico e assim a inspiração brotava fortemente em poemas ricos de sentidos espirituais e aparentemente paradoxais dada a profundidade das suas experiências e que foram musicados e cantados por milhões de seres, neles inserindo também  críticas sócio-religiosas fortes aos sacerdotes e fiéis hindus e islâmicos que se deixavam estar quase que só nos dogmas, aparências e superstições, perdendo a realização viva. 

Kabir canta as suas experiências espirituais, as dos Nath yogi e as dos sadhus ou sants, seres libertos da ilusão (maya) e realizados,  orientadas pelo amor a Deus ou, talvez melhor, à Realidade Suprema, que designou por diferentes termos das várias tradições e religiões, tais como os vedânticos Brahman, Atman, Purusa, Tat, Gyan (ou Jnana, Sabedoria), Ek (o único), Niranjan (o Sem nódoa) mas também o dos avatares Ram, Hari e Govinda,  ou ainda, já na tradição do Islão, Allah, Hazrat (o Majestoso), Khuda (Deus em persa), Karim (o Dignificado).

Só no século XVII é que surgiram as compilações dos seus poemas principais, no Kabir Bijab, no Kabir Granthawalli, na escritura sikh Adi Khant e noutras compilações. Nos tempos modernos destacaram-se as publicações e traduções de Westcott (com o seu Kabir and the Kabir Panth, 1907), Rabindranath Tagore, Ranade e Charlotte Vaudeville.

Para o professor Ranade, Kabir será sempre  um dos grandes unificadores das várias religiões pela sua boa nova ou evangelho de paz e de universalidade, e pelos ensinamentos autobiográficos espirituais que semeou, e destacará e comentará na obra referida Spiritual Life... certos aspectos  valiosos para os praticantes do caminho espiritual, da sadhana

Para Kabir, o verdadeiro mestre, ou seja, o Sat Guru, o Sadguru,  é quem está apto a estabelecer o seu discípulo na visão de Deus para onde quer que este lance o seu olhar. Não pode ser só interiormente nem só no mundo exterior. Podemos considerar tal uma realização completa, pois tanto há a visão interior mística, em geral obtida por bhakti. amor devoção, como a visão intelectual e a intuição da unidade  da Divindade omnipresente, jnana.

Característica do sadguru é a de ensinar o discípulo a estar no sahaj samadhi, na unificação interior natural, sem depender de práticas respiratórias ou concentrativas, e dando a original imagem de se estar numa cabana sem fundo entre a terra e o céu, o que é também entre a base da coluna, ou talvez melhor o umbigo, e o cimo da cabeça, ou seja, estar mais no peito, sem contudo se deixar prender nele, nem enredar os outros, um aviso muito pertinente pois vemos constantemente como os gurus modernos prendem tanta gente afectivamente, tornando-as dependentes ou mesmo quase que hipnotizadas. 

O centro (chakra) do coração é anahat, e anahata é o som interior espiritual que se pode ouvir nas práticas mais profundas de meditação mas que segundo Kabir deve ser subordinado a Shabda, a Palavra ou som, que é tanto a característica ou qualidade do espaço, como um dos dez sons que se podem ouvir interiormente, nomeadamente nos canais subtis, como ainda a primordialidade divina,  o Espírito, e que repetida, ouvida ou meditada, por exemplo, como Om, ou como Ram, nos pode levar até à Divindade.

Outra característica do verdadeiro guru é a  enunciada na Bhagavad Gita. IV. 18: «Aqueles que veem a ação na inação e a inação na ação são verdadeiramente sábios entre os humanos. Embora realizem todo o tipo de acções, são yogis e mestres de todas as suas acções», ou seja, observamos um elogio da capacidade de não se estar ansioso ou dependente dos resultados, mas desprendido e permanecendo em paz e felicidade mesmo na acção.

Outro aspecto  destacado por Ranade em Kabir é a importância da prática da meditação em Deus utilizando-se o mantra ou nome (nama)  de Deus dado pelo guru ao discípulo na iniciação. Alerta contudo que para Kabir não é este nome, nem menos ainda  o que uma pessoa escolhe para si, que é o verdadeiro Nome, o qual é Ajara e Amara, imutável e imortal: «Quando estamos a meditar, diz Kabir, há um nome celestial que se revela ou desdobra a si próprio ao nosso sentido auditivo, no estado mais elevado da meditação. Tal nome é Ajara e Amara. Quando uma pessoa entra na posse ou fruição deste Nome, o seu caminho para a Divindade fica claro, limpo.»

Esta repetição do Nome de Deus deve ser contudo silenciosa, pois nos quatro níveis da fala ou voz: vaikharii, a física, madhyamma, a mental e  que pensamos antes de pronunciar, pashyanti, a que se vê ou se compreende inicialmente, e a para, a transcendente e silenciosa, esta é a do nível mais elevado e embora difícil de se realizar dela nos aproximamos ao tentarmos transcender os outros níveis e ao meditar em silêncio íntimo receptivo.

Em termos de fisiologia interna, a meditação ganha em ser realizada pela abertura da janela existente nos ventrículos do cérebro e em seguida pelo voo ascendente do espírito até ao Triveni Samgama, a confluência das três correntes ou rios no olho espiritual, onde se poderá então receber a visão de Deus.

Para isto acontecer Kabir recomenda a concentração forte na Divindade, desprendimento do mundo exterior (para diminuir ou extinguir-se a ondulação mental), intensidade de aspiração e sermos na vida, na linha pitagórica (refere até Ranade, já que conhecia bem a filosofia e tradição grega), espectadores ou viajantes que não se carregam de pesos nem de envolvimentos desnecessários. 

Uma das boas imagens da meditação (e que deveremos cogitar) dada por Kabir é a de que a sua mente ou alma é o pavio, o Nome de Deus o óleo e a Divindade em si mesma o fogo que acende o pavio. Quando tal acontece a luz interior cintilante manifesta-se dentro do tabernáculo do coração, e então devemos consagrar-nos (nyochhavar) mais a Deus, tornar a nossa vida mais dedicada a Ele, até para que haja crescimento espiritual e aconteçam experiências interiores que nos elevem à Divindade. 

Quais são as mencionadas por Kabir na sua poesia? Sobretudo os sons interiores, as visões da Divindade, ou então dos avatares (tal Rama e Krishna), o sentido da eternidade bem como do poder infinito de Deus, dando uma valiosa pista de de prática interna dos iniciados yogis nas técnicas denominadas de luz, som e néctar: após a concentração no nome de Deus, quando o extracto doce ou néctar (amrita) escorre das células para os ventrículos laterais cerebrais, então o som interior tanto se eleva para o céu como permite encher mais o lago do 3º olho e ventrículo da beatífica sensação-sabor de amrita, numa dupla ou recíproca causalidade entre o som e o néctar, estado interior que diz ele pode chegar a absorver ou atrair a si a comunhão com o Oceano da Divindade, na Índia tão cultuado como Narayana.

Fiquemos com o excerto inicial de um poema de Kabir, numa tradução a partir do francês da sábia orientalista Charlotte Vaudeville:

«Ó Kabir, o resplendor do Eterno é como o nascer de toda uma sucessão de sóis.
Perto do marido, a mulher despertou e
diante dela um espectáculo maravilhoso se formou.
Ela contemplou o espectáculo sem os olhos do corpo e, sem o Sol e sem a Lua, a Luz brilhou,
O servidor está absorto no serviço do Mestre e não se preocupa com
nada mais.
A Majestade do Senhor Supremo está para além de toda a imaginação.
A sua beleza é indizível. É preciso contemplá-la.
Ao inacessível, ao invisível não há qualquer acesso, lá brilha a Luz; lá onde Kabir prestou as suas homenagens nem o pecado nem o mérito podem chegar.
Esse lótus que floresce sem flor, só os íntimos (da Divindade, Rama) podem contemplar.»

                                                           

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Gurudev Ranade e os seus ensinamentos: meditação, Avatar, Luz, Forma e Nome de Deus. No dia do seu 138 aniversário.

                          
              Imagens do mandir ou pequeno templo dedicado a Gurudev Ranade, com ele ao centro, e os seus mestres 
Foi a 3 de Julho de 1886, da mesma geração mundial que os génios portugueses Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa, que nasceu em Jamkhandi, na Índia, Gurudev Ranade, um dos mais brilhantes yogis e filósofos indianos do século XX, no verdadeiro sentido da palavra, pois juntava ao trabalho intelectivo, um modo de vida harmonioso e uma prática e experiência espiritual, assente na devoção a Deus. Foi professor de Filosofia e chegou a vice-Chanceler na Universidade de Allahabad, desincarnando em 1957. Consagrámos-lhe já uma biografia: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/07/guru-ranade-um-verdadeiro-yogi-e.html . Dentre os seus ensinamentos escolhemos alguns para esta breve apresentação.
  «A minha filosofia não é diferente da minha vida... As dores e as misérias que possa vivenciar ajudarão a purgar a mente das suas impurezas...
Uma vez gerada a devoção, a qualidade torna-se mais importante que a quantidade...
A miséria pode ser suportada; os ataques de tentação, o ódio, podem ser tolerados; mas a dor física torna-se insuportável a partir de certo limite. Em tais ocasiões a única via que permanece aberta é orar a Deus para nos permitir meditar...».
 

Valorizava pois o suportar as dores e as provações e ainda muito a aspiração e a determinação dos yogis, considerando porém indispensável a ligação com um mestre:
«A forma (subtil, vista no olho espiritual) de Deus deve descer sobre nós, e para isso acontecer deve haver um instrutor ou mestre de elevado nível espiritual. Só então ele pode fazer descer tal [visão de forma pessoal da Divindade] para o nível inferior do discípulo. Se o mestre nada tem, o discípulo nada recebe. Por vezes pode acontecer o discípulo receber algo, mesmo que o professor nada tenha. Mas havendo um limite para isso, o discípulo pode deixar de fazer progressos», se continuar ligado a esse instrutor, o que sucede frequentemente ao criarem-se laços nos grupos e em relação ao instrutor os quais tendem a prender as pessoas neles.
 
Para o gurudev Ranade, o brâmane [o membro da casta religiosa] é quem realizou Brahman, a Divindade, ou seja, aquele que conseguiu estabelecer uma comunicação fácil com Deus e para quem nada é mais querido ou amado que a forma com que Deus se lhe manifesta.
A sua sadhana, ou caminho de prática espiritual, assentava sobretudo na devoção ou sentimento amoroso (bhava) para com Deus e depois na meditação no nome (nama) de Deus e na sua forma (rupa). E nessa prática desenvolveu notável sensibilidade e profundidade, fazendo a dança da mente cessar (conforme os Yoga sutras, I-2: Yoga citta vritti nirodha), e chegando ou estabilizando na atmaswarupa, a sua forma espiritual (conforme Yoga sutras, I-3 Tada drashtuh svarup evasthanam), e discernindo até particularidades da fisiologia subtil, tal a necessidade de abrir a abertura existente no ventrículo do coração espiritual, algo que já o poeta santo Kabir cantara. Ou que o pôr em movimento simultaneamente os oito chakras ou centros-órgãos do corpo subtil, era um bom sinal de avanço no caminho para Deus.
Numa das suas cartas, quando doente, dizia ao seu guru
 Shri Bhausaheb of Umadi: «Estou a tentar praticar a sadhana o mais possível. Muito raramente tenho a visão suprasensorial da lua crescente em luz azul. Se recuperar a saúde praticarei a repetição do nome de Deus pelo menos uma hora duas vezes por dia», referindo assim cores e formas típicas da meditação.

Muito era o seu amor por Deus, e pela iluminação das almas, alegrando-se quando sabia que elas avançavam na devoção e assim, uma vez, começou a chorar ao pensar que eram tantas as almas que desperdiçavam o seu tempo terreno sem tentarem conhecer ou ligar-se a Deus, exclamando: «O que sucederá a esses pobres seres?» Vemos bem como gurudev Ranade se diferenciava dos que pensam que as pessoas  logo que morrem são encaminhadas por um túnel de luz para planos elevados e são recebidas por familiares ou guias.
Crítico era também da ilusão da Ciência como nova religião, apontando o exemplo de Descartes pois, apesar dos seus conhecimentos científicos e matemáticos, duvidava ainda da existência de Deus, que para Ranade era e é a única Realidade verdadeira e perene, e com a qual comungava diariamente nas suas meditações silenciosas, por vezes bem longas.
Sadaguru Bhausahib Maharaj (1843-1914), o mestre de Guru Ranade.

A sua compreensão dos avataras, ou incarnações de Deus, não era a tradicional (tal como é expressa na Bhagavad Gita, IV.7), segundo a qual Deus avatariza ou desce num corpo físico para proteger os bons e os seus devotos e derrotar os inimigos, mas uma mais subtil: o avatar é uma visão de Deus que desce do alto e manifesta-se diante de alguém numa forma específica, sem ser num corpo físico, sugerindo mesmo que tal se pode considerar análogo ao Espírito, o Atman, que assume luminosamente a forma do corpo do indivíduo. E é pelo fogo da aspiração devocional que o discípulo consegue receber do guru, do espírito ou da Divindade a percepção beatifica da unidade, ou da presença unitiva divina, entre eles. 
É a repetição do nome da Divindade o meio principal que fará aumentar a visão da luz divina e diminuir a identificação ilusória à personalidade, permitindo que a unidade da alma espiritual com Deus seja sentida e realizada.
Acerca desta repetição do nome de Deus, Ranade deixou alguns ensinamentos valiosos, tal o de dizê-lo e simultaneamente ouvi-lo, primeiro em voz alta e depois só silenciosamente, conseguindo ao fim de algum tempo que o nome Divino se pronunciasse interiormente sem esforço da sua parte. 
Mas outro nível mais completo da meditação acontecia quando a luz, a cor e a forma do seu Atman, a sua swarupa,  também chamado o Antaryamin, eram por ele vistas no olho espiritual, conforme até o ensinamento dos dois primeiros sutras de Patanjali já referidos, ou quando olhava para o vasto espaço de dia ou de noite, e unia o seu Antaryamin (o habitante ou regente interior) com Bahiryamin (o transcendente, Brahman, a Divindade), crescendo por essas percepções meditativas interiores (por vezes bem prolongadas e acima de fomes e dores)  a devoção (bhava), o amor (prema), a adoração, a beatitude (ananda), a unificação divina.
Possamos nós persistir mais nas meditações, nas repetições devotas dos nomes sagrados, e estabilizar mais na harmonia e paz do nosso ser espiritual, atman, na unidade divina. E possam o guru Ranade ou outros mestres, santos e santas guiarem-nos na intensificação relacional sábia e amorosa com o espírito, a Divindade e a Humanidade harmoniosa.

terça-feira, 2 de julho de 2024

Afonso Cautela, discípulo de Camões e Antero de Quental: sonetos juvenis, um camoneano e dois anterianos. Da sua poesia reunida "Lama e Alvorada".

                             

A recente e meritória publicação da obra poética completa de Afonso Cautela, realizada por José Carlos Marques, sob o título Lama e Alvorada, em dois volumes, permite-nos conhecer dezenas de poemas inéditos, a maioria datados, e  discernir melhor as múltiplas tendências e fases no seu percurso poético criativo lírico, crítico, irónico e realista-idealista, e assim encontrar na sua época mais juvenil, aos 13, 14 anos, os veios e sopros baptismais inspiradores de Luís de Camões e Antero de Quental.
                                           
A recente participação no IX
 encontro do círculo de poesia do Montado do Freixo do Meio, organizado pelo Manuel Calado, Cassandra Querido e  Fátima Sequeira Remédios, e dedicado a Afonso Cautela (com a presença da sua filha Cristina), na qual mencionei tais dois veios, como ainda os de Walt Whitman e de Álvaro de Campos-Fernando Pessoa, impulsionou-me a escrever este artigo, provando tais asserções com três sonetos.
                                             
No Soneto III, escrito em
 Beja a 13-3-1946, Afonso Cautela inicia-se com mais juvenil doçura e esperança no Amor e, seguindo a linha platónica de reconhecimento do Bem, do Belo e do Verdadeiro primordiais ou arquétipos,  glosa o famoso soneto de Camões: 

«Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?»

Pode ser uma imagem de 1 pessoa

Eis como o glosou Afonso Cautela, menino de treze anos:

«Amor é fogo que arde que ilumina
As trevas desta vida descontente.
Como um bem guiará eternamente
No caminho feliz a nossa sina.

Puro como a rosa amena e fina
Terno o seu calor manso e dolente.
Como eterna verdade que não mente
A saudade o amor sempre confina.

E mesmo sendo assim todo o alento,
Da vida o mais doce e belo encanto,
Em suas garras somos fraco vime...

Abate, esmaga e fere com crueza
Sem atender ao mal de tal vileza,
- ele o belo imenso, o bem sublime».
 
Poderemos observar como Afonso Cautela, a partir do seu contacto puro com a terra e o céu alentejano e com a sua aspiração optimista juvenil, sente e vê o Amor como a força de realização dos arquétipos fundamentais do Belo e do Bem, como a estrelinha do caminho, como o Anjo da Guarda da vida, ora exigente ora doce na sua modelação da nossa alma imortalizável.
                                               
Já com ecos de Antero de Quental, seja de temática ideológica, de sentimentos ou de imagens,
encontramos dois poemas: primeiro o Soneto V no qual a aspiração a um estado de sonho fantástico é afirmada, embora em Antero houvesse em geral mais o encontro com  ilusão do mundo e a meta ou aspiração ao Não-ser, ou simplesmente a irmã Morte, tal como encontramos por exemplo nos sonetos Nirvana ou no VI do Elogio da Morte.
                                                          
O original manuscrito do poema de Afonso com 4 anos na contracapa do II volume da Lama e Alvorada.

Sonhei a fantasia inanimada,
Sonhei a vã quimera, um louco ideal.
Sonhei o tudo imenso, o tudo nada.
Sonhei da vida a morte, o bem, o mal.

Vivi na bruma escura quão cerrada
Desse sonhar imenso, desse irreal.
Vivi a vida triste e desesperada,
Eu só, só terra e pó, fui imortal.

E perco o gosto amargo de viver,
Perco o receio, o medo de morrer,
Imploro da vida a morte que não vejo.

Quero viver num sonho de incerteza,
Trocar da vida o peso e a vileza
Por um sonhar eterno, é meu desejo!
                                                                       Beja, 20-1-1947
Já mais claro como de matriz de inspiração é o soneto seguinte de Antero de Quental dedicado piamente à Virgem Santíssima,  mas que Afonso Cautela, no seu soneto VII, sem se quedar na entrega  piedosa a Maria divinizada,  o glosará projectando o seu amor e unção do Eterno Feminino para uma mulher amada. Oiçamos Antero, primeiro:

À Virgem Santíssima, 
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N'um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!»

Oiçamos agora o Soneto VI, do Afonso Cautela:

Sonhei num sonho imenso de amargura
De ti somente ser eterno amante.
Fui sonho de uma noite já distante
Desejo louco que ainda em mim perdura.
 
E esse louco desejo foi ventura
Que vi brilhar imensa e fulgurante.
Da minha vida estrela radiante,
Foi ambição amarga, negra e dura.
 
Para quê acalentar este desejo
E querer o teu amor que em vão bosquejo,
Sofrer, um dia tarde, ao recordar?!
 
Deixa-me sempre ver a tua imagem,
Idolatrar-te a ti grata miragem,
Em ti eternamente quero sonhar.
                                                                                          Beja, 15-4-1948 
  
Saudemos estas três grandes almas universais mas de raiz lusitana, três elos da Tradição poética e espiritual portuguesa, agora nos mundos espirituais. Que se possam comunicar e inspirar-nos!

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Prefácio de Georges Bernanos aos "Poemas" de Jorge de Lima, em 1939, e leitura do poema "Espíritu Paráclito", em vídeo.

George Bernanos (20-2-1888 a 5-VII-1948), o lutador heróico na 1ª grande guerra, o escritor católico de grande sucesso após 1926, o notável homem de acção anti-fascista na guerra civil espanhola, pois após as suas vivências pró-humanas e anti-franquistas na guerra de Espanha e sendo crítico de Hitler e Mussolini, preferiu emigrar para o Brasil onde, pouco depois de chegado, em 1939, conheceu Jorge de Lima e, lendo a sua poesia e ficando encantado com ela, resolveu pagar o seu reconhecimento com um valioso prefácio escrito e publicado em francês no livro Poemas, no qual descreve a sua desilusão da pátria francesa e o seu encanto com a poesia de Jorge de Lima, levando-o a dissertar com grande sensibilidade sobre a Poesia, arte que ele não desenvolvera na sua obra literária mas que manifesta conhecer muito bem, valorizando-a como a voz da aspiração humana, por entre as suas dores e lamentos, à liberdade, ao amor, aos céus, à religação divina.
 A obra contém nas suas cento e trinta e sete páginas, as sete do prefácio que li e gravei, e cerca de sessenta poemas traduzidos para espanhol, dos quais lemos um, o V, Espíritu Paráclito, e saiu nas oficinas gráficas de A Noite, no Rio de Janeiro. 
Da excelente relação por mais de três anos que George Bernanos conseguiu com a terra, o povo e os intelectuais brasileiros, pois além de Jorge de Lima deu-se com Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, Frederico Schmidt, Virgílio de Mello Franco, Hélio Pelegrino e vários outros, podemos saber por vários testemunhos, livros e estudos (vários on-line) existindo mesmo um museu George Bernanos, em Barbacena, onde ele estabilizara antes de ser chamado para a França pelo general de Gaulle, após a derrota do nazismo alemão, e onde, não sentindo o ambiente afim do seu idealismo, poderá ter pensado com saudades no fabuloso mundo emergente brasileiro que deixara...

                                           
O exemplar que utilizamos tem a particularidade de ter uma dedicatória agradecida de Jorge de Lima a Luís Forjaz Trigueiro (que conheci e ainda o visitei em sua casa) escrita em português, tornando a obra de certo modo trilingue. 
                              

Como George Bernanos foi um escritor bastante valioso, seja pelos romances (tal os Sob o Sol de Satan e o Diário de um Pároco de aldeia), seja pelos seus ensaios e manifestos, seja pelo seu texto para o filme que sairá como o Dialogues des Carmelites (on-line) e que recusou até entrar na Academia Francesa, e é hoje quase desconhecido em Portugal, e ainda porque não lera o prefácio e me pareceu valioso, resolvi traduzi-lo gravando-o, e creio que valeu a pena, tanto mais que ainda houve tempo para ler, desta vez na tradução espanhola, o poema Espíritu Paráclito, sem dúvida forte e inspirador. 
De realçar a sua noção dos ciclos dos estados e impérios, muito actual (adveniat BRICS), e a forte e bela valorização da poesia expressa por Bernanos e que para mim, após ter participado no IX encontro do círculo de Poesia no Montado do Freixo do Meio dedicado a Afonso Cautela, outro militante da liberdade e poeta, veio mesmo em sincronia inspiradora de almas, como acabei de referir até em nota da leitura. 
Jorge de Lima (23-4-1893 a 15-XI-1953)
Boa audição, e que estas almas poéticas e luminosas, Georges Bernanos, Jorge de Lima, Luís Forjaz Trigueiros e Afonso Cautela brilhem no Empireu, no Parnaso, no mundo espiritual e nos inspirem...

                       

domingo, 30 de junho de 2024

O Único Contraveneno da Incerteza Moral, ou tentativa de clarificarmos os modos de discernirmos o que é o real, útil e verdadeiro bem.

Frontispício ou portada do misterioso Contraveneno...
Uma alma discreta, que escondeu o seu nome abreviando-o como J. P. de B. B. M., publicou em 1838, no Porto, numa pequena tiragem, na "saudosa" Imprensa Constitucional, o Unico Contraveneno da Incerteza Moral, ou real, verdadeiro e unico Elemento Moral, num in-8º de 43 páginas, e na castiça e inteligente justificação, ou Motivo, diz-nos que no seu opúsculo juntou, para os que não podem ler livros volumosos, muita informação, na ambição de ser útil. Temos nós esta ambição, ou aspiração, ou vontade perseverante de sermos úteis, sempre renascendo como uma fénix das cinzas das suas desilusões, doenças e mortes...  
Vejamos então o que ele leu (a que ele chama "um plagiariato"), cogitou e descobriu, num bom esforço, bem como as perguntas e impulsões lançadas aos seus futuros leitores, tais nós já no séc. XXI:

                                     
«Este opúsculo que ofereço à Multidão, é fraco no crédito que me dá, por ser um plagiariato; mas forte e de colossal utilidade, para os impossibilitados de ler obras volumosas. Num Professor de ciências positivas seria julgado um grande atrevimento, ou um roubo indecoroso; mas em mim que não sou Facultativo [ou vinculado por formação a uma ciência], é uma curiosidade desculpável pela ambição de ser útil. Muitas coisas úteis deixam de o ser, por não serem acomodadas à capacidade popular [e muitos exploram tais incapacidades, ou são tidos por superiores graças a elas], (...) Arruinadas iam as oficinas [tipografias] Literárias, decorreriam séculos em trabalharem, se as invenções novas com exclusão das cópias das traduções, e dos resumos, somente vissem a luz.
Se um povo se enganou, deverá ele marchar eternamente na estrada do erro, a perdição e da infelicidade? Todo o homem deseja ser feliz. Se não o é com a verdade, não o pode conseguir com o erro. Se a opinião pública é errada, a culpa não é do povo, nem do filósofo que destruiu o erro; mas do legislador que não faz uso da verdade. Se os melhores projetos se quebram contra a opinião popular, ou a multidão, é porque esta é abandonada à influência das trevas.» 

O problema, diremos nós, é que há vários níveis de felicidade - a qual é alegria, sentir-se bem, ter prazer, sentir-se que se está a cumprir a sua missão ou o seu dever, ou ainda a fazer o bem. Por vários níveis causais poderemos sentir felicidade pelo que pode até não ser o verdadeiro bem o que acreditamos e procuramos, ou ser até no erro que nos sentimos bem, justos, deliciados, pelo que há que discernir muito bem o que nos faz verdadeiramente felizes, individual ou coletivamente.
Ora as pessoas abandonadas às trevas que (actualmente) os meios de informação manipuladores, consumistas e sensacionalistas lhes ditam, não conseguem deslindar o que é a verdade nem o melhor para elas, nem conseguem perceber o que deveriam desenvolver da sua própria personalidade e capacidade intelectual e anímica, a qual depende sobretudo «em se lembrar das ideias adquiridas, adquirir outras novas», e assenta na capacidade de atenção, clareza do discernimento, exactidão da memória, vivacidade de imaginação», para cujo desenvolvimento ou educação tão importantes são a firmeza de alma e a perseverança.
Face ao imediatismo, ou à atração do poder do prazer imediato, o melhor é sabermos cogitar, equacionar prazeres actuais e prazeres ou dores que virão como consequências no futuro, e portanto saber sacrificar prazeres imediatos por maiores satisfações futuras, ou sofrer penas ou dores actuais para evitar outras ou piores no futuro, conselho ou regra esta que devemos equacionar com regularidade...
J. P. de B. B. M., considera, por exemplo, que em certas pessoas o amor pode ocasionar inveja, ódio, antipatia contra os que podem colher a fruição do objecto agradável no lugar delas, sendo tal posicionamento uma forma errada do sentimento do amor exagerado se erigir em regra da utilidade ou justiça dos nossos sentimentos e actos.
Ora a Utilidade é o poder ou tendência duma qualquer coisa para evitar dor ou conseguir algum bem para nós, sendo o bem o prazer, ou o que o motiva, e o mal a pena, a dor, ou o que a causa.
Discernir onde está o que tem maior valor de utilidade, através da comparação dos bens e males que resultam, é a verdadeira base do que é virtuoso, do que gera o melhor bem pessoal e colectivo.
Porque é que as pessoas não conseguem discernir (ou aplicar e implementar) nas suas vidas e caminhos o que lhes é mais útil e logo mais gerador de felicidade?
Porque as pessoas não se conseguem reger por tal racionalidade e discernimento da utilidade e valor e são influenciadas pelos seus desejos, tendências, vícios e influências exteriores.
Nesses factores estão os falsos princípios, filosóficos, religiosos ou morais que as pessoas estabelecem e que as levam a repudiar o que seria o equilibrado e o justo, ou o mais útil, pensando que assim se valorizam ou glorificam nesta ou noutra vida.
O básico dum princípio arbitrário é a pessoa persuadir-se do que o que gosta ou não gosta, deve ser a sua regra e que pode propor os seus sentimentos ou opiniões, como a regra, aos outros.
O anónimo mas benemérito ou útil autor, numa obra rara pois não encontramos qualquer referência a ele e a ela na bibliografia geral nem no catálogo online das bibliotecas públicas (Porbase), tenta no fundo despertar as pessoas para se autonomizarem de ideias feitas provindas do exterior e de sentimentos e pensamentos subjectivos e antes racionalmente ponderarem onde está a maior utilidade, para si e para os outros, e aplicá-la.
Embora o fim da moral e da lei sejam o mesmo, têm campos de aplicação ou órbitas diferentes, pois é na interioridade pessoal que se registam os valores e utilidades, sendo difícil regê-los por leis, nomeadamente quanto aos sentimentos e actos, tais os negativos de ingratidão e de perfídia, mas mesmo assim conseguiremos discernir três regras de Moral privada: a Prudência, para não se fazer mal a si mesmo, ou não faltar ao seu interesse; a Probidade para se gozar confiança e se poder inter-relacionar com felicidade recíproca; e a Beneficência com os mais desfavorecido ou os seres da natureza, obtida pelo desenvolvimento da benevolência.
Saibamos pois discernir constantemente o que de mais útil a nós e aos outros podemos sentir, pensar e realizar, e perseverar no que pensamos poder ser mais útil ao nosso ser eterno e ao dos outros seres...

            
                    Como e quando se resolverá o enigma do nome, verbo ou palavra do autor?

segunda-feira, 24 de junho de 2024

In Memoriam de José Teixeira da Mota, e da sua livraria Antiquário do Chiado. E pequena meditação-oração por familiares e amigos que deixam a Terra, em vídeo.

                 

Um dos bons livreiros alfarrabistas de Lisboa, José António de Lencastre Teixeira da Mota, acabou de deixar o seu posto de conselheiro de almas e cuidador e transmissor de livros, funções que exerceu com grande sensibilidade e disponibilidade, gosto e erudição, desde 1990, quanto tomou conta da antiga Livraria Moreira & Almeida, sita na Rua Anchieta, nº7,  perto da centenária Livraria da Bertrand e,  acrescentando-lhe o nome de Livraria Antiquário do Chiado e devolvendo-a à sua traça setecentista, a metamorfoseou luminosamente num espaço acolhedor e harmonizador, com gravuras,  mapas, obras de arte, manuscritos, folhetos de cordel,  e naturalmente  bons livros de Literatura, nomeadamente séc. XX e modernistas e surrealistas, História, África, Oriente, Viagens, Estrangeiros sobre Portugal, Etnografia, Religião e outros temas. Em simultâneo à actividade de livreiro, na qual publicou oito catálogos de notável qualidade de obras, descrições e grafismo, e em que participou em Bienais e exposições, fez investigação histórico-genealógica, editando um Brasonário da Nobreza de Portugal,  inédito, do século XVII, e elaborou um precioso catálogo (ainda por publicar) das edições ao longo dos séculos do mítico Livro das Sete Partidas do Infante D. Pedro.

Foral de Vila Verde (dos Francos), dado por D. Manuel em 1513 e assinado por Fernão de Pina

 Este catálogo de Outubro de 2008 continha algumas obras extraordinárias, tais documentos reais dos séc. XIV e XV, dois manuscritos de Almada Negreiros e José Régio e uma Iluminura excepcional, assim descrita: «Estêvão Gonçalves. Iluminura sobre pergaminho de 14,9 x 10,0 cm. Assinado "Stepha Gonçalves".
Estêvão Gonçalves foi Abade de Serem e capelão d
o Bispo de Viseu. Nasceu no século XVI e morreu em 1627, como diz Taborda nas Regras da Arte da Pintura. Foi o célebre artista que executou as iluminuras do notável Missal de Estêvão Gonçalves, que se guarda na Biblioteca da Academia das Ciências em Lisboa. Nas palavras de Esteves Pereira, falando deste missal, "Este primoroso manuscrito iluminado, com quanto já pertença ao século XVII, merece o lugar mais distinto, o mais eminente entre os manuscritos iluminados".
Era sobre o missal de Estêvão Gonçalves que juravam os no
ssos reis quando eram aclamados. Do nosso conhecimento é o único [grande] iluminador português que assinava por vezes as suas miniaturas. Muito raro e de grande beleza.» Quem será o feliz custódio?

Já no catálogo de Setembro de 2009, a apresentação dizia: «Cada uma das obras que faz parte deste catálogo, foi cuidadosamente escolhida pelo seu interesse, raridade, estado de conservação. Gostaria de partilhar a sua história, a sua iconografia, ou a beleza da sua composição ou encadernação com todos os verdadeiros bibliófilos.
Quero aproveitar também para agradecer aos meus clientes, colegas e amigos, todos os encorajamentos recebidos, que me incitam a continuar o trabalho começado, esforçando-me sempre por melhorá-lo.
Não me esquecendo que somos todos muito solicitados pelos n
umerosos catálogos que recebemos, dei maior realce à representação gráfica das obras, tendo voluntariamente restringido a descrição das mesmas com apenas um pequeno comentário», mesmo assim razoável e bem esclarecedor...

De destacar foi também sempre a qualidade das suas montras, e no ano de 2013 foi mesmo considerada como a melhor montra livreira do Natal, bem se diferenciando, por exemplo, dos livros cor de rosa, ou romances históricos ou outros repetitivos, presentes em todos os aeroportos e bookstores do mundo. Consagrei-lhe um artigo neste blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2013/12/melhor-montra-de-natal-alfarrabista.html

O ambiente antigo e estético da livraria, os livros e obras nela contidos e a sua sensibilidade e boa bagagem de conhecimentos sobre antiguidades (já que fora antiquário, com a sua mulher, na Clepsidra), livros, manuscritos, cartas pré-filatélicas, cédulas antigas, gravuras e mapas, permitiu-lhe ser um excelente descobridor de obras boas e raras e um valioso conselheiro para investigadores, colecionadores, bibliófilos e colegas de profissão, que o visitavam e conversavam,  e ora lhe compravam ora lhe pediam a opinião (nomeadamente sobre mapas antigos, e gravuras de Lisboa), havendo ainda a registar o convívio durante uma certa época num almoço semanal com alguns dos livreiros.

 Destacar nomes dos que passaram mais tempo em convivência é sempre melindroso, mas António Barreiros (Cardoso), Sigismundo Bragança, Almeida Dias, João Alarcão, Jorge Brito e Abreu, Lourenço de Sousa, Daniel Pires, João Esteves, Filipe Loulé e Sérgio Moreno foram dos que mais apreciaram e desfrutaram a sua alma e livraria. Mas como amigos, visitantes, compradores e dialogantes, houve muitos desde José V. de Pina Martins, Jorge Preto, Mariano Gago, Martim de Albuquerque, Carlos Monjardino, D. Diogo de Bragança, José Simões-Ferreira, Paul Hugo Thiran, Miguel Faria, José Castelo Branco (Fornes), Eng. Melo Mendes, Perry Vidal, Gustavo Andersen, Ricardo Sá Fernandes, Paulo Falcão Tavares, Silvina Pereira,  José Francisco de Noronha, Paulo Waschman, Nuno Rízio e Celestino, aos confrades Isabel Maiorca, Margarida Teles da Silva, Margarida Rebelo, Luís Burnay, Alfredo Gonçalves, Ernesto Martins, Richard Ramer, Comandante Palma, Luís Gomes, Nuno Franco, Carlos Bobone, Freitas e o já mencionado Lourenço de Sousa, e perdoem-me os que esqueço, tanto mais que na rua e quase à porta da livraria realizava-se (e realiza-se) aos Sábados a Feira dos Alfarrabistas. Do livreiro e leiloeiro José Manuel Rodrigues ouvimos hoje a sua afirmação sentida: «era um joia de pessoa. Quantas vezes me ajudou em certas identificações ou descrições mais difíceis...»

Luís, José, Pedro e Francisco, há uns bons anos, aquando dum casamento.

Sendo irmão mais novo, ele o quarto e eu o sétimo, duma família de nove irmãos e irmãs, e de pais e antepassados ligados à cultura e ao amor de livros, logo com boas bibliotecas, dele não poderia deixar de referir como como nos apoiou, seja em estadia na sua casa, já que esteve alguns anos em França, seja ainda em livros e conselhos, tanto mais que trabalhei para ele em algumas feiras de livros ou mesmo na livraria. Do seu grande amor pelos livros falam ainda eles próprios, agradecendo as muitas encadernações boas com que os revestiu, preservou e embelezou, nomeadamente através dos encadernadores Vasco Antunes e Império Graça, este também o preferido do prof. José V. de Pina Martins, que visitava com regularidade as livrarias do Manuscrito Histórico, Biblarte, Olisipo, Arte e Letras,  a Campos Trindade e Antiquária do Chiado, referindo o meu irmão, nomeadamente por adquirir-lhe um dos primeiros manuscritos sobre a livraria real em Portugal, na sua tão erudita quão divertida obra Histórias de Livros para a História do Livro, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde o prof. Pina Martins trabalhou vários anos, marcando a época mais humanista desta tão valiosa e histórica Fundação.

A mulher  Margarida Teixeira da Mota, notável antiquária e empreendedora, foi uma excelente e amorosa companheira, praticamente toda a vida, tal como os dinâmicos quatro filhas e filhos, Maria e Teresa, Filipe e Tomás, e nos últimos anos com os netos e netas. O Zé era basicamente um pater familias, e os seus melhores momentos eram com eles, tendo-lhes dado muito de alegria e lucidez, exemplos e valores. Muita amizade dinâmica e bem disposta viveu ainda com primos, primas e amigos nas casas do Outeiro em Mondim e na casa da Cruz Gagos, nas Terras de Basto dos seus avoengos paternos, e com amigos e amigas em Vila de Conde, Lisboa e Paris, tais os pintores Luiz da Rocha, Cargaleiro, Rodrigo Ferreira e a poetisa Merícia de Lemos, ou muitos dos atrás referidos.

Neste catálogo realçou, num caderno manuscrito de 94 p, intitulado Exterminio da Inglaterra. Trovas alegres por Camilo Castelo Branco, Visconde de Correa Botelho,  «a muito comovente descrição da morte de Camilo Castelo Branco narrada pelo seu filho Nuno», e «as duas maquetas de António Pedro para o Nº3 da revista Variante, mostrando as ligações deste ao surrealismo internacional».

O que se poderá mais dizer senão que o José Teixeira da Mota foi mais um amante e sábio dos livros que ilustrou e beneficiou a pátria e a gente lusa e que partiu rumo ao mundo Espiritual, onde já se encontra, no plano de luz e de amor e com a consciência que lhe corresponde e que só os desígnios da Providência Divina conhecem plenamente, restando-nos desejar-lhe ou orar para que a sua alma espiritual esteja numa luminosa ascensão, tal como eu fiz, durante dez minutos e gravei em vídeo, neste interim entre a sua desincarnação física - que foi calma e desprendida, diante da estante dos seus livros preferidos e da qual peguei na altura num do Herberto Hélder, um dos seus autores preferidos e abri à sorte, o istixara persa, uma página lendo-lhe o início dum poema que referencia um dos míticos antepassados de muitos portugueses, Carlos Magno -, e a velada a realizar-se Quarta-feira, 26 de Junho, a partir das 18 horas, e missa a 27, às 15 horas, na Basílica da Estrela, consagrada ao sagrado coração de Jesus, e que encontrará num barro português também no vídeo-áudio (pois é na realidade para se ouvir e sentir), e que desejamos que esteja bem aceso na sua e nossa alma...

Ps.Acrescente-se que na noite anterior à sua partida, recebendo a extrema unção do padre Vasco Magalhães, primo direito da mulher, a propósito deste lhe falar em "descansar na mão de Deus", o Zé recitou de cor o belo soneto de Antero, Na mão de Deus, capacidade que ninguém da família sabia, e que manifesta a sua inserção na tradição anteriana e espiritual portuguesa, tal como eu já referira quanto a este poema: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2016/07/antero-de-quental-e-nos-na-mao-de-deus.html, e na sua utilização como bom encaminhar em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2022/11/antero-de-quental-um-bardo-thodol-um.html.

                        

Poesia à Lua, em Sintra num pôr do Sol. Do diário do Inverno de 1990.

 Da Lua escorre leite levemente.
Todo o céu é um mar de suavidade.
Uma ligeira neblina, como um véu,
religa-nos levemente ao Cosmos
e a Lua parece um planeta misterioso.

As nuvens encavalitam-se
sentindo-se atraídas para a Lua
e desenham raios, réguas, esquadrias
que tingem a Lua ao pôr do sol
dum rosa amarelado tão belo
que parece mesmo a aura lunar.

O céu-se abre-se subitamente
e parece uma imensa vastidão
fecundada por uma fraterna rainha
presidindo a toda a vida e movimento
na esfera lunar, terrestre e sub-terrestre.

Os pássaros chilreiam felizes
enquanto as árvores não abanadas pelo vento
contemplam a acção da Lua nelas próprias
extasiadas com a seiva e o crescimento fortes.

Momentos tão calmos e sossegantes
que todas as dificuldades e limites atenuam.
Parece trazer neve nos seus seios, dona Lua,
e um frio veste a terra ainda nua do Inverno.

Nuvens cinzentas da chuva e da electricidade
transmutam-se em homenagem à Lua
em alvas montanhas ao longe
num desfile vagaroso e majestoso,
conduzido por algum Anjo silencioso.