segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Silêncio como Deus ou guia iniciático na Doutrina Moral, de Gomberville.

                                                      O Silêncio é a vida do Amor.

O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do sábio e do amante:
Só fala raramente,
Jamais ofende quem ama.

«É por vezes justo que o Amigo fale livremente  ao seu Amigo (a); Mas quase nunca acontece que o amigo fale livremente do seu amigo. 

 Se a primeira Lei do Amor é amar, e a segunda é ter boa opinião do seu amigo, a terceira é infalivelmente, como nos Mistérios dessas antigas Religiões, ver, desfrutar e calar. Porque nada é tão apropriado para conservar a amizade quanto esse silêncio respeitoso, que nos faz guardar no coração tudo o que sabemos dos nossos Amigos.
O Pintor representa-nos esta verdade pela figura do Deus do silêncio, que sempre mudo, e sempre Mestre de si, comanda todas as paixões que podem perturbar ou o repouso das almas ou a harmonia da perfeita Amiza
de.
Se ele tem As
as, é para testemunhar que ele toma de empréstimo ao Amor a  sua actividade, e que elevando-nos do afecto amoroso pelas criaturas aquele do Criador, ele pode levar  os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus, que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada.»
                                      

Creio ser esta a explicação mais elevada espiritualmente de todas as do livrinho, e nela Gomberville mostra que é um conhecedor e valorizador dos mistérios e da iniciação que neles era facultada.
Primeiro, já pela pictura, ainda que provinda do livro de Otto Vaenius, que nos representa o Deus do silêncio, Harpócrates, no seu gesto iniciático, que é no silêncio que ouvimos, e é guardando o silêncio que o que recebemos ou realizamos não é diminuído ou mesmo atacado. E só é transmitido a quem o merece receber.

"Saber, querer, ousar, calar", afirmaram alguns. Outros "contemplar, maravilhar-se e calar-se". Era a regra do silêncio a que os iniciados nos mistérios de muitas religiões e tradições estavam obrigados: não deviam a revelar os ensinamentos, visões e experiências que tinham tido. Os ensinamentos mais elevados dos mistérios de Eleusis, por exemplo, ainda hoje apenas se suspeita que seria isto e aquilo...
Silêncio que nos permite conservar no coração e aí nos fortificarmos, elevarmos, harmonizarmos, deliciarmos com o que amamos, ou com quem amamos.
Silêncio sobre nós próprios, enquanto c
ompostos de corpo, alma e espírito, e portanto necessitando de persistentemente tentarmos controlar a agitação mental ou, mais basicamente, instintos, desejos, receios, que perturbam a harmonia, e que no fundo são barulhos na nossa aura e mundos interiores, e que não nos permitem aceder aos mundos espirituais, ou mesmo ouvir a voz interna ou até a música das esferas.
Silêncio que cala a horizontalidade e nos verticaliza para o espírito, para a anima mundi, para o Bem geral, para o Logos, para Deus. 

O anjo-daimon do silêncio, neste sentido  tem o dedo vertical sobre a boca, cerrando-a ou fazendo a cruz nela, crucificando o Verbo, revertendo-o para o mundo interior. E tem na sua mão um estandarte bem erguido, com as famosas iniciais SPQR, Senatus PopulusQue Romanus, Senado e Povo Romano, que no fundo direcionam para a tenção ou talento de bem fazer pelo povo e o Estado. 

Quanto às asas do anjo-deus, elas indicam que a nossa aspiração amorosa ou unitiva faz com que sublimamos e elevemos as nossas energias anímicas tornando-as capazes de merecer adorar e contemplar os seres celestiais, o espírito santo, a Divindade.
A parte final da explicação ou narratio de Gomberville é perfeita, como um hino ao Amor que pelo silêncio nos dá asas e eleva à Fonte. É uma explicação pitagórica ou platónica que nos é oferecida por Marin, ou Martin, Le Roy Gomberville. 

Há mesmo algo da linguagem  das nossas sorores e místicas cristãs mais extáticas, nas asas, no anjo, no silêncio,   impulsionar ou levar  «os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus». Inegavelmente uma boa realização:  conseguirmos entrar no templo eterno, sermos pedras ou colunas nele, na adoração da Divindade, e numa compreensão de grande profundidade e altitute, religando terra e céu. Gomberville conclui, «verdadeiro Deus que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada»

Possa Marin le Roy de Gomberville desfrutar da natureza bem aventurada divina, e inspirar-nos nela, tal como aos vários amigos que nos últimos tempos têm partido para os mundos subtis e espirituais, e que saudamos na Luz, Amor e silêncio da guarda no coração iniciado, elevado.  

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