sábado, 24 de janeiro de 2026

Daria Dugina, ou Dasha: Um grande legado de uma vida pequena. Por seu pai Alexandre Dugin. 23/1/26,

                             

                 Um grande legado de uma vida pequena
«Em primeiro lugar e o mais importante, foi publicado o comovente diário pessoal  Altos e baixos do meu Coração – um verdadeiro romance moderno no género de posts nas redes sociais, com uma gama complexíssima de pensamentos, experiências, dramas existenciais, revelações, observações irónicas e estudos literários, abrangendo uma variedade surpreendentemente ampla – desde os problemas ingénuos de uma jovem até às altas e vertiginosas revelações metafísicas. Um roteiro completo das etapas de formação de uma alma feminina profunda e sublime. A última nota escrita no dia da morte ainda ninguém conseguiu ler sem lágrimas. Ela é dedicada ao modo como Dostoievski compreendia as profundezas do coração russo. A última coisa ou ser em que Dasha estava a pensar era no povo russo. Isto é o que ela realmente, total e ilimitadamente amava.

O segundo livro — Optimismo Escatológico — contém trabalhos filosóficos de Daria Dugina. Trabalhos de curso, rascunhos para a dissertação, artigos científicos, impressões de palestras e entrevistas, que reunidos revelam a imagem de um filósofo Tradicionalista completo, um especialista em Platonismo. Simultaneamente, o Platonismo não era apenas um objeto de estudo para Daria, mas uma fonte de profunda inspiração. Ela viu, na verdade, descobriu por si mesma, que o tradicionalismo que lhe foi instilado desde a infância – René Guénon, Julio Evola, a mística Ortodoxa –  na sua estrutura corresponde mais do que tudo ao ensinamento de Platão e seus seguidores – os Neoplatónicos. O Platonismo é tradicionalismo, que afirma sem compromissos a soberania radical do espírito sobre a matéria, da eternidade sobre o tempo, de Deus sobre a criação. Começando com os trabalhos de Dionísio Areopagita, cuja ideia  da interpretação apofática da Divindade atraiu inicialmente Dasha, ela rapidamente descobriu Proclo e toda a linha neoplatónica que remonta até ao seu fundador Plotino. E de lá, através dos platónicos médios, tudo levava ao próprio Platão. 

                                                            
Há um episódio em que Daria, ainda estudante, conversava num encontro com o escritor e filósofo idoso Yuri Mamleev, nosso amigo e ídolo e professor de longa data. Ele perguntou-lhe: "O que a Dashenka [diminutivo de Dasha] faz ?" É preciso dizer que Dasha sempre pareceu muito jovem, e até recentemente pediam-lhe o bilhete de identidade se queria comprar bebidas alcoólicas. Não há nada a dizer sobre os primeiros anos da universidade: ela parecia simplesmente uma criança. E então, a criança, sem a menor timidez, responde ao famoso escritor – com vivacidade e confiança: "O que mais me interessa é a teologia apofática e o conceito de ἐπέκεινα τῆς οὐσίας   [o que está para além do ser]. A expressão facial de Mamleev ficou bastante admirada – como se ele tivesse entrado nas páginas de suas próprias obras paradoxais. O tema do apofático "abismo em cima"  e do "abismo em baixo" igualmente incomensurável e inominável sempre foi para ele um mistério insondávell, um enigma, uma busca em torno dos quais se desenrolavam e resolviam os enredos de seus contos e romances, e onde nasciam e morriam as suas personagens. E de repente, a jovem criatura, sem hesitar, teoriza sobre o apofático e o indizível!  Mamleev desde então passou verdadeiramente  a amar e a respeitar Dasha. 

                                                   
Ao lado do Neoplatonismo, Darya chegou na realidade aos fundamentos de uma filosofia independente, que ela chamou de "Optimismo escatológico". Nele  incluía os seus autores favoritos:  Julius Evola, Ernst Jünger, Emil Cioran, Lucian Blaga. É uma abordagem peculiar ao mundo moderno, que é vivenciado como crise, decomposição, degeneração, um pesadelo contínuo e sem esperança. É assim que o mundo se torna após a perda do sagrado. Um mundo sem Tradição. E embora este mundo seja exatamente assim e, de certa forma, sem esperança, incurável, sem esperança de correção, o homem [ou mulher ] fiel à Tradição não desiste. Ele faz o impossível, vai contra a corrente –  contra o curso aparentemente mais objetivo da história, contra a sociedade, a cultura, a economia, a política, o entretenimento, a vida quotidiana. E embora esse seja um caminho condenado (a modernidade, infelizmente, é mais forte), aquele que é capaz de trilhar o caminho do "Optimismo Escatológico" torna-se um verdadeiro herói, o último guardião da fronteira, um guarda fronteiriço, fiel à Luz, mesmo quando é abandonado e esquecido num território que ninguém mais, além dele, protege, adjacente ao avanço da treva total».

                                      

          Que a Luz, o Amor e a Fortaleza Divina estejam com a Dasha e ela nos inspire! Que saibamos seguir a mesma via dos Fiéis do Luz e do Amor, da Tradição perene, da Multipolaridade, dos guardas das fronteiras entre as trevas e a claridade, e construtores das pontes entre a Humanidade e a Divindade!

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