Um grande legado de uma vida pequena
«Em
primeiro lugar e o mais importante, foi publicado o comovente diário pessoal Altos e baixos do meu Coração – um verdadeiro romance moderno no género de posts nas redes sociais, com uma gama complexíssima de pensamentos,
experiências, dramas existenciais, revelações, observações irónicas e
estudos literários, abrangendo uma variedade surpreendentemente ampla –
desde os problemas ingénuos de uma jovem até às altas e vertiginosas
revelações metafísicas. Um roteiro completo das etapas de formação de
uma alma feminina profunda e sublime. A última nota escrita no dia da
morte ainda ninguém conseguiu ler sem lágrimas. Ela é dedicada ao modo como
Dostoievski compreendia as profundezas do coração russo. A última coisa ou ser em
que Dasha estava a pensar era no povo russo. Isto é o que ela realmente, total
e ilimitadamente amava.

Há um episódio em que Daria, ainda estudante, conversava num encontro com o escritor e filósofo idoso Yuri Mamleev, nosso amigo e ídolo e professor de longa data. Ele perguntou-lhe: "O que a Dashenka [diminutivo de Dasha] faz ?" É preciso dizer que Dasha sempre pareceu muito jovem, e até recentemente pediam-lhe o bilhete de identidade se queria comprar bebidas alcoólicas. Não há nada a dizer sobre os primeiros anos da universidade: ela parecia
simplesmente uma criança. E então, a criança, sem a menor timidez,
responde ao famoso escritor – com vivacidade e confiança: "O que mais me
interessa é a teologia apofática e o conceito de ἐπέκεινα τῆς οὐσίας [o que está para além do ser].
A expressão facial de Mamleev ficou bastante admirada – como se ele
tivesse entrado nas páginas de suas próprias obras paradoxais. O tema
do apofático "abismo em cima" e do "abismo em baixo" igualmente
incomensurável e inominável sempre foi para ele um mistério insondávell, um enigma, uma busca em torno dos quais se desenrolavam
e resolviam os enredos de seus contos e romances, e onde nasciam e morriam as suas personagens. E de repente, a jovem criatura, sem hesitar, teoriza
sobre o apofático e o indizível! Mamleev desde então passou verdadeiramente a amar e a respeitar Dasha.

Ao lado do Neoplatonismo, Darya chegou na realidade aos fundamentos de uma filosofia independente, que ela chamou de
"Optimismo escatológico". Nele incluía os seus autores favoritos: Julius Evola, Ernst Jünger, Emil Cioran, Lucian Blaga. É uma
abordagem peculiar ao mundo moderno, que é vivenciado como crise,
decomposição, degeneração, um pesadelo contínuo e sem esperança. É assim que o mundo se torna após a perda do sagrado. Um mundo sem Tradição. E
embora este mundo seja exatamente assim e, de certa forma, sem
esperança, incurável, sem esperança de correção, o homem [ou mulher ] fiel à Tradição
não desiste. Ele faz o impossível, vai contra a corrente – contra o
curso aparentemente mais objetivo da história, contra a sociedade, a
cultura, a economia, a política, o entretenimento, a vida quotidiana. E
embora esse seja um caminho condenado (a modernidade, infelizmente, é
mais forte), aquele que é capaz de trilhar o caminho do "Optimismo Escatológico" torna-se um verdadeiro herói, o último guardião da
fronteira, um guarda fronteiriço, fiel à Luz, mesmo quando é abandonado e
esquecido num território que ninguém mais, além dele, protege,
adjacente ao avanço da treva total».




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