terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mestres espirituais da Ordem de Cristo e os ensinamentos de meditação: Frei Paulo de Vasconcelos, de Aveloso, Lamego. Extractos da sua "Arte espiritual."

Frei Paulo de Vasconcelos foi um dos mestres espirituais da Ordem Cristo, natural de Aveloso, Lamego e que professou no Convento de Tomar em 8 de Setembro de 1587, exercendo sucessivamente importantes posições no convento, no colégio de Coimbra, onde foi Prior tal como no Convento de N. Senhora da Luz em Lisboa, e por fim  Prior Geral da Ordem ao ser eleito a 22 de Maio de 1647, vindo a deixar a Terra no convento de Tomar a 29 de Junho de 1654. Embora tivesse deixado manuscritos importantes sobre a Ordem de Cristo e um Tratado da Oração, só sobreviveu  a Arte espiritual que ensina o que he necessario para a meditação, e contemplação, repartida nas tres vias, purgativa, illuminativa & unitiva; o tempo em que se há-de entrar, e deixar cada uma delas com seus particulares exercícios, e o de cada dia..., impressa em Lisboa, em 1649,  e na qual encontramos ensinamentos bem valiosos sobre a oração, a meditação, as potencias e qualidades da alma activas no caminho espiritual, os estágios de purificação, iluminação, amor e união. Escreve dentro da tradição da Ordem de Cristo e da Cristandade e dos seus subtis ou ardentes místicos e místicas que cita (dos quais cita o pseudo-Dionísio, Dionísio Cartusiano e Santa Teresa de Ávila, de quem comenta no fim algumas advertências), e dos quais era um bom conhecedor, iniciador e transmissor, como mestre de noviços. 

                                          

É certo que a obra  ressente-se por vezes da cosmovisão do Antigo Testamento, que cita no livro a par do Novo Testamento, embora este seja muito mais privilegiado natural e acertadamente, já que o Antigo Testamento está cheio de fábulas demasiado exageradas e violentas. Tal podemos observar, por exemplo, nas suas considerações sobre os Anjos, por vezes bem valiosas, outras absurdas ao aceitar a literalidade dos textos referentes aos anjos do Antigo Testamento. Todavia, são muito mais as páginas de ensinamentos valiosos e correctos.
                                       
A obr
a teve uma segunda edição em 1725, o que prova o reconhecimento público do seu valor no discernimento subtil dos estados meditativos, amorosos, contemplativos, que conhece por experiência interior e não só por leitura e especulação, e que transmite com grande profundidade e clareza. Estamos diante dum verdadeiro e valioso Tratado da Oração Mental, ou Arte espiritual, tal como ele põe como cabeçalho da obra, na primeira página, com lições bem úteis para a via purgativa-iluminativa, aquela na qual devemos mais tentar e perseverar nestes nossos dias tão agitados e absorventes do mundo...
                                              
Impressa num i
n-4º de 419-(4) páginas a obra está dividida assim: A Oração e suas seis partes: Lição, Preparação, Meditação, Contemplação, Acção de graças e Petição. A via Purgativa: exercícios, considerações, colóquios e oferecimentos. A via Iluminativa: considerações gratas aos Anjos,  N. Senhora. Da página 91 à 210, numerosas meditações sobre a vida de Jesus Cristo. Seguindo-se até à 229 as Advertências da Via Unitiva. Seguem-se as Advertências sobre a Meditação passada, que é do Divino Amor, e os motivos do Amor Divino. Começa então na p. 257, o Tratado de Contemplação e as considerações sobre a união da alma com Deus, as visões, a purificação da alma, o amor que se recebe, e por fim uma hermenêutica de algumas advertências da Santa madre Teresa sobre a contemplação. Da pág. 362 às finais do Índice,  de novo considerações  sobre nascimento, morte de Jesus Cristo e o Juízo final.
                                  
Há portanto
 páginas bastante valiosas, como se pode deduzir ou intuir, sobre a oração, a meditação, as potências da alma, os afectos, imagens sobrenaturais, os Anjos, a Luz, as Perfeições Divinas: sua essência, eternidade, imensidade, fortaleza, providência, bondade, formosura e imutabilidade. E como hoje tanta gente fala e escreve sobre as Ordens do Templo e  de Cristo mas do espiritual e divino delas pouco  realiza e transmite, creio ser um bom serviço partilhar estas centelhas da  Tradição Espiritual de Portugal

 Vamos apenas transcrever alguns parágrafos, e mais tarde comentaremos, para nos inspirarmos talvez sobretudo mais no caminho da compreensão do controle e elevação mental e da intensificação ígnea amorosa da alma para Deus e seus estados expandidos e unificados de consciência.  
Como prior e mestre de noviços Frei Paulo de Vasconcelos partilha a  visão tradicional da oração mental, composta de seis partes com   duas mais essenciais, a meditação e a contemplação, ensinando que  a contemplação nasce da meditação, e nesta «o fim há de ser contentar a Deus, e o menos principal há de ser o proveito, que determina tirar daquela meditação, a saber, ser humilde, ser casto, aborrecer o pecado, desejar o Céu, etc. A causa eficiente são as três potências da alma: Memória, Entendimento e Vontade. A Memória representa a história, o Entendimento vai tirando de umas coisas outras, a Vontade escolhe conforme o entendimento lhe mostrou, ama, ou aborrece, etc. (...).
 A terceira advertência seja, que nenhum caso se pare nos discursos do entendimento sem chegar aos afectos da vontade: porque se parar nos discursos do entendimento ficará sendo especulação e não meditação, de forte que todas as três potências da alma, Memória, Entendimento e Vontade, hão de obrar na meditação, a Memória há-de representar ao entendimento,  há-de ir conhecendo, fazendo ilações e discursos, e descobrindo verdades; e a Vontade ir amando, ou aborrecendo, alegrando-se, ou entristecendo, e tirando outros afectos conformes a matéria sobre que vai meditando. (...)
A Quarta advertência é que o que medita não deixe ao entendimento discorrer livremente quanto ele quiser, senão que quando vir que é tempo, e que tem já conhecido o que vai especulando, ele há de ir amando [sentindo no coração, pronunciando jaculatórias, determinado-se em actos] para que não gaste o tempo todo em discursos e perca o que é mais, que são os afectos e actos da vontade, porque não está o caso em conhecer e especular as virtudes e os vícios, senão em aborrecer os vícios e amar as virtudes, e a razão é que o discurso do entendimento não serve de mais que acender o fogo na vontade, e tanto que a vontade tiver este desejo e fogo acesso, não há para que o entendimento trabalhe, porque escusado é ferir com o fuzil na pederneira depois que o fogo está acesso, assim que cesse o entendimento de conhecer, e ame a vontade quanto quiser as verdades, que o entendimento lhe descobriu, ou aborreça os erros que ele lhe declarou.
 Advertência quinta: Também se advirta, que sempre a meditação se há-de encaminhar para conhecer mais de Deus, ou para adquirir alguma virtude, ou desbaratar algum vício, como destro Capitão, que acode com mais socorro à parte mais necessitada, e que em qualquer parte da oração, em que achar devoção, ou movimento algum, que não há de passar avante em quanto lhe durar o tal movimento, porque como na oração não se trata de mais que de buscar meios para amar a Deus, e as virtudes, e aborrecer os vícios, em os tendo não há para quê buscar com dúvida o que está possuindo, pelo que em chegando a este bem, ali pare, e gaste o tempo todo que determinava ter de oração, e advirta que todas as considerações que fizer hão de ser uma escada para subir a alguma das perfeições divinas, e a que mais leva delas é a consideração da vida e milagres de Cristo Senhor nosso (...)
A sexta advertência é que a meditação parte é do entendimento, e parte da imaginação. A meditação do entendimento é de coisas espirituais, como são os atributos divinos, a sabedoria divina, sua eternidade, e imensidade, a graveza e fealdade do pecado, e outras coisas semelhantes. A meditação da imaginação é de coisas coroporais ou que já passaram...ou que ainda estão por vir (...)  
      Quarta parte da oração que é a Contemplação.
«A contemplação é uma simples, suave e qu
ieta vista de Deus, sem variedade de discursos, com grande amor, espanto, alegria e humildade, pelo que dizemos, que é meditação tomar no entendimento algum mistério, e depois de considerar nele o literal, considera as circunstâncias, e tira alguns afectos de vontade. Porém quando o entendimento por discursos que tem feito, ou também porque o Senhor sem eles lhe deu particular luz, conhece claramente a verdade e fixa os olhos nela, e está vendo com quietação e sossego. sem ter necessidade de mais discursos para se convencer, e a vontade pelo conseguinte convencida da verdade que tem em vista, com alegria a está vendo, ou se está espantado dela, ou a está a amando, então está em contemplação. De modo que a meditação busca e a contemplação chega ao porto desejado, pelo que em chegando a ele hão de parar todos os discursos do entendimento aplicando a vontade ao que está amando, porque este amor é fruto da oração e contemplação. Nunca o contemplativo se tire desta quietação, por seguir os demais pontos, salvo quando vir que se torna a distrair, porque então pode ir avante com seus discursos.» p. 17.

Em seguida Frei Paulo de Vasconcelos escreve acerca «do que se deve fazer para adquirir esta quietação [contemplativa] e tirar de Deus um conceito» seguindo pseudo-Dionísio, que recomenda dois modos para se chegar a tal contemplação: o imaginativo, em que vai pondo em Deus em grau máximo todas as perfeições que vê no mundo, tais a bondade, a formosura, agregando-as num conceito altíssimo de Deus. E o negativo, no qual vê que Deus não é nem entendimento, nem sabedoria, nem poder nem luz, pondo a morada de Deus na luz inacessível, «não afirmando dele coisa alguma, não o chamando grande, senão infinito, não lhe chama perfeito, senão inefável, imenso, incompreensível...» 

Seguem-se as partes quinta e sexta finais da oração, que são a acção de graças, e a petição. Acrescenta ainda a oração de repetição, e  a oração da presença de Deus, sobre a qual desenvolverá a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e como nós ao realizarmos-la mais poderemos entrar num estado de oração mais incessante ou permanente, tal como também Erasmo ensinava ou propunha, e que a voz da consciência e a música das esferas aludem. É num subcapítulo bem valioso, Também a presença de Deus é modo de oração, e que transcreveremos e comentaremos brevemente no próximo artigo, e que se inicia assim: 

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança. (...) 

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