sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. 2ª parte. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

                                        

  A Doutrina Moral ou dos Costumes, aliás La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada em 1646 por Marin Le Roy Gomberville, já abordada nas sessenta figuras da sua  primeira parte, contém  na segunda parte cinquenta e três com lemas valiosos de serem meditados por quem quer trilhar caminho da Sabedoria humana e divina.

 Embora o fim da obra seja algo negativo, e muitos dos lemas finais são sobre a Morte, dentro do princípio de que Filosofar é aprender a morrer, ou seja desprender-se dos bens, dos desejos, da necessidade e assim conseguir libertar-se dos laços terrenos, seja ainda em vida e nas suas meditações, seja à hora da morte, para não se ficar retido nos planos subtis do umbral e do astral menos luminoso,  há vários ensinamentos bem valiosos seja pelas imagens, seja pelos lemas, seja pelo texto explicativo. O que destacaremos mais: o valor duma boa consciência limpa e tranquila, e logo confiante, destemida, imperturbável. Os estudos e os esforços pela virtude, equilibrados pelos afectos sãos e a boa disposição, geram a sabedoria, que dá frutos perenes. Registe-se que Marin le Roy de Gomberville nesta 2ª parte não utilizou a palavra amor,, que só foi desenvolvido ou valorizado em alguns lemas, na 1ª parte, ainda que bem importantes, tal o Ama a Virtude (ou se quisermos a Sabedoria) pelo amor a ela. "O ser humano nasceu para amar". "Ao amar uma pessoa torna-se perfeita", "é preciso amar para ser amado". "O Amor dos povos é a força dos Estados" (como falham hoje tanto os governos, só amando os "seus" companheiros na governança). "A inveja é a morte do Amor". Nesta 2ª parte a valorização é mais dos estudos, dos esforços, do vencer os sofrimentos, o desenvolver uma consciência, e o desprendimento perante a morte, e a confiança na na consciencia justa nossa e de Deus. Leiamos o conjunto dos lemas transcritos:

Cada um deve seguir a sua inclinação. 
O tolo queixa-se sempre da sua condição.
Todos os nossos defeitos têm o seu pretexto. 
Quem vive bem, viaja feliz. 
O estudo das Letras é a felicidade do homem. 
A preguiça é a mãe dos vícios.
Só o sábio é livre. 
O sábio é inabalável. 
A pessoa de bem estar em toda está parte segura.
Quem sofre muito, ganha muito. 
A boa consciência é invencível. 
Quem vive bem, não esconde nada a sua vida. 
A Virtude tem em toda parte a sua recompensa.
A eternidade é o fruto dos nossos estudos.
A virtude torna-nos imortais.
O espírito precisa de repouso.
O sábio não está sempre sério.
A alegria faz parte da Sabedoria.
O Sábio ri quando deve rir.
A Virtude é objecto de inveja.
A inveja só cede à Morte.
A Virtude triunfa de todos os seus inimigos. 
Nada dura assim que tudo dura.
Todos os Séculos tiveram seus vícios. 
É preciso acomodar-se ao tempo.
Não lamentes o tempo passado.
Não há nada de tão curto que a vida.
Tudo se perde, com o Tempo.
Filosofar, é aprender a morrer. 
A Velhice tem os seus prazeres. 
Não te informes do futuro.
A Morte é inevitável. 
Vivamos sem temer a Morte.
O Velho não deve pensar senão morrer. 
Não há providência contra a Morte.
A Morte despoja-nos de todas as coisas.
A Morte iguala-nos a todos.
Nada de mais certo quanto a Morte.
O caminho da Morte é comum a todos. 
A Morte inexorável.
O Homem não é mais do que um pouco de lama.
A Morte é o fim de todas coisas.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

 

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