terça-feira, 14 de maio de 2024

Afonso de Cautela. Poema iluminado do fim de viagem: "De asa em asa e de flor em flor". In "Campa Rasa e outros poemas"., 2011

                                  

O Afonso Cautela escreveu em 25 de Julho de 2006, um ano em que ressurgiu poeticamente, quando tinha já setenta e três de idade, um belíssimo poema espiritual que José Carlos Marques, através das suas Edições Sempre-Em-Pé, em janeiro de 2011, deu  à luz  em Campa Rasa e outros poemas, num in-8º de 70 páginas (com dezanove poemas escritos de 1955 a 1970, um de 1990 e quinze  de 2006), donde o selecionamos, para o homenagear aquando da apresentação pública da Lama e Alvorada, Poesia reunida 1953-2015, Volume II, na casa da Imprensa, em Lisboa, realizada a 15 de Maio de 2024, volume que inclui a Campa Rasa, e logo o poema que seleccionaramos.

                                              

Neste poema, como em vários dos outros, a leveza da alma esforçada, purificada e grata de Afonso Cautela ergue-se já alada e dotada da palavra mágica e musical em harmonia com a Natureza e a Divindade, para ele então mais desvendadas em insinuações de frescura de rosas e de fim de viagem e passagem para vida em glória (isto é, Luz) auroral, estado anímico-espiritual e consciencial onde sinceramente intuímos estar o Afonso. Eis o poema:

De asa em asa e de flor em flor...

«De asa em asa e de flor em flor

O caminho passa

Traçando o mapa da viagem

Que o destina ilumina e fala

 

Calando de novo a fortuita miragem

De palavra em palavra e de asa em asa

Ao ritmo dos dias e das eras

Que o calendário dos cânticos usava


Quem se guia nas trevas e na estrada

É porque tem o mapa da paisagem

É porque abre a rosa fresca e límpida

Da doce e fresca e linda madrugada


O caminho passa enquanto o sono fica

O canto madrugador da cotovia

O fresco alvorecer da flauta que flutua

A gloria de deus que se insinua

Na dobra mais recôndita.


De flor em flor e de asa em asa

O caminho passa.»

 "Sabe guiar-te na viagem madrugante pela abertura da rosa fresca e límpida  do teu coração", diz-nos assim o Afonso...

Muita Luz e Amor para ele e nele!...

Post scriptum:  Na Casa da Imprensa, na apresentação a 15 de Maio da Lama e Alvorada, Volume II, resolvemos ler e parafrasear, para o realçar,  este valioso poema  e pode ouvi-lo em: https://youtube/48zP1yG9D2Y

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Sementes e flores da demanda espiritual e divina...

Ambrogio Borgognone, S. Francisco recebendo a visão de Jesus e do Serafim. 1510

O conhecimento de Deus vem-nos na medida em que aspiramos a Ele, o absorvemos, o recebemos, uns mais como amor no coração e gratidão, outros como força e poder, outros como inteligência imensa ou ainda felicidade e alegria criativa.

A Divindade cobre-nos sempre, mas pouco estamos receptivos a ela. S. Francisco de Assis  conseguiu vê-la como um Serafim, ou conseguiu receber as bênçãos Dela através desse elevado espírito celestial, as quais se plasmaram como chagas ou estigmas e um estado intensificado de amor unitivo a Jesus Cristo. 

Alguns seres recebem-no como Pai, fecundando-os, gerando o desabrochar do Filho neles, o gérmen e impulso crístico, ou ungido, de mais perfeição e sabedoria, amor e fraternidade, tão necessários na seara imensa e sofredora da Humanidade.

Dentro dos ciclos de celebrações religiosas ou tradicionais o  Natal, os feriados, os fins de semana são  épocas de maior possibilidade de aspirarmos, sentirmos e realizarmos a nossa religação com a Fonte Divina, seja Pai,  Mãe, Maria, Fatimah, Amaterasu, Céu e Terra, Espírito infinito, Sol de Amor Primordial, ou  como cada um sentir, se predispuser, merecer...

Assim alguns de nós nascidos no Cristianismo podem na meditação ver e sentir interiormente o Pai em forma de cruz, mas de voo aberto abraçante, unificante, connosco. Muitas das nossas sorores antigas viram o mestre Jesus dardejando amor. Outras almas mais abertos às concepções da Divindade do Oriente vêem-na como Oceano de Luz, e assim sucessivamente. Louvado seja Ela e os seus amigos, mestres, sorores e anjos inspiradores!

O mistério da Divindade e a necessidade de demanda de religação com Ela deviam mover-nos mais, entusiasmar-nos mais, por entre estes tempos tão agitados, manipulados e oprmidos horizontalmente e infrahumanisticamente  por forças e seres negativos, que dominam execssivamente os meios de comunicação, e aos quais devemos resistir, não nos expondo, não nos deixando influenciar, e assim desmascará-los, vencê-los.

Para estarmos mais lúcidos e fortes conviria viver-se harmoniosamente e orar-se ou meditar-se mais, num ritmo pelo menos matinal e nocturnal, mesmo que sem obrigatoriedade e duração, tal como se fosse um mergulho para entrar nas profundezas da alma ou uma subida purificadora à montanha, por vezes árdua ou mesmo inglória e aparentemente não abençoada, mas que mesmo assim nos fortifica num alinhamento com os níveis mais espirituais, com o omnipresente campo unificado de energia consciência informação na quarta dimensão, o que nos permite avançar de dia mais alinhados e orientados, ou de noite  mais aptos a interagir e compreender nos sonhos os seus testes e ensinamentos simbólicos.

Saibamos pois resistir e avançar luminosamente!

domingo, 12 de maio de 2024

Princesa Santa Joana. Convento de Jesus, em Aveiro. Algumas interrogações no 534º aniversário da sua desincarnação

A vida psico-espiritual da princesa Santa Joana contém ainda mistérios que só por grande investigação e intuição conseguiremos clarificar e iluminar:
Quando começou  verdadeiramente e não hagiograficamente a sua capacidade ou mesmo vocação  religiosa a afirmar-se? Quais foram as influências e factores determinantes?  Como caracterizar a sua religiosidade? Como discernir o que era espontâneo, tendência própria, ou pressão do exterior e imitação de exemplos de santas, nomeadamente da rainha Santa Isabel, como ela recolhida vários anos como soror no mosteiro de Santa Clara, em Coimbra?
Dois cronistas contam que ela até aos 15 ou 16 anos, e nascera a 6 de Fevereiro de 1452, manifestara as suas afectividades ou paixões; Rui de Pina diz mesmo que se dava ao luxo e ao esbanjamento. Contudo, aos 20 anos, a 4 de Agosto de 1472, deixou a corte e entrou no convento de Jesus, em Aveiro, de freiras dominicanas, fundado em 1461, e que a acolheu não como soror professa, mas como infanta religiosa, retirada do mundo.
                                     
 A morte da sua mãe, a rainha D. Isabel de Lencastre, com 23 anos, mulher de D. Afonso V, quando ela tinha apenas três anos, certamente traumatizante, pode ter contribuído para a sua via religiosa e paixão.
Quem fez de mãe foi a sua tia Filipa, mais velha quinze anos, pessoa muito culta e que desenvolverá na sobrinha os estudos precoces de gramática e latim, bem como as práticas religiosas, embora o rei D. Afonso V tivesse passado todo o séquito ou corte da sua mulher falecida, para a filha, num total de quase trinta pessoas.
Esta tia Filipa, tal como Isabel, a mãe de Joana, filha do infante D. Pedro, certamente lhe falou da tragédia de Alfarrobeira.
Terá essa tragédia influenciado na renúncia ao mundo e à corte? Ou será que ela era incómoda na corte, e por isso o rei D. Afonso V a impulsionava a partir para o mosteiro?
Sentia-se ela mais ligada à mãe D. Isabel e ao infante seu avô, de que por exemplo, o seu irmão, o qual se sentiria mais ligado ao pai D. Afonso V, ou também este sentia o mal de terem morto o avô infante D. Pedro, desocultando-o ao fazer mais tarde justiça pelas suas mãos, já como rei D. João II, ao matar o chefe da casa de Bragança, a principal motora da morte trágica na batalha de Alfarrobeira do infante D. Pedro das Sete Partidas?
Quando ela escolheu a coroa de espinhos como sua divisa ou emblema, poderá haver uma assunção não só da paixão de Jesus, mas também da própria paixão do infante D. Pedro, de quem recebera, via a filha dele e sua mãe,  um espinho da coroa de Jesus, relíquia muito venerada e que só recentemente desapareceu, embora conservando-se uma fotografia? 
 E a sua mãe D. Isabel, que morre aos vinte e três, quando Joana tinha só três e pouco e o seu irmão D. João sete meses apenas, como conseguiu ela, com que sofrimento, ter relações e gerar três filhos do seu marido,  o rei D. Afonso V, que mandara matar o infante D. Pedro, seu pai?
Que repugnância não devia sentir Isabel por tal ser e rei cruel, embora o seu amor por Portugal e sentido de Estado a fizesse orar fortemente para ter filhos, como se descreve beatamente no famoso Memorial da vida de santa Joana escrito por uma sua companheira do mosteiro, Margarida Pinheiro?
Que repulsão à vida marital e à corte não terá transmitido ela à filha?
Que desejo de morrer não se gerou na princesa Joana, que desencarnará assim aos 38 anos, em 12 de Maio de 1490, estando sepultado o seu corpo (num túmulo belíssimo em mármores incrustados e coloridos, ao estilo italiano da pietra dura, do arquitecto régio João Antunes) no mosteiro onde viveu, e tornando-se desde 1693 santa e podendo logo ser mais venerada e rezada, e logo abençoadora e inspiradora.
O ascetismo violento sobre seu corpo era uma repulsa da própria humanidade, desiludida tão fortemente? Visava purificar-se? Visava diminuir as culpas ou penas dos familiares ou de almas no purgatório? E por quem, além de se sacrificar e disciplinar, pediria ou rezaria mais? Seriam sua mãe, seu pais, seus avós, seu irmão e rei, pelo reino, pela comunidade?
Será que S. Joana estava também a querer dar uma lição aos seus contemporâneos e suas vaidades? 
Quando teve as suas primeiras visões da Paixão de Jesus, qual era a génese principal delas?
 A sua vida individual e da família, ou a sua intensa vivência de tal momento crucial da vida de Jesus? 
 Ou mesmo uma descida de forças psico-espirituais com essas características, talvez para a irem preparando para uma doença muito dolorosa, desgastante, ardendo de febre, sem poder beber água e com feridas diversas no corpo?
E teria ela pedido esse sofrimento em vida, como tantas outras freiras ou sorores pediam, para partilhar o sofrimento de Jesus e para diminuir o mal no mundo, além do redimir pecados de família?
Tornara ela abnegadamente a sua vida  um processo alquímico da via seca, directa, dolorosa para chegar a uma renúncia plena do corpo, do ego, da vida, como alcançou ao longo da sua curta e abnegada vida e foi ratificado ou demonstrado plenamente na doença da morte e ainda confirmada por milagres que rapidamente lhe foram atribuídos?
No séc. XXI, o que nos ensina esta beata portuguesa, que sacrificou a sua beleza e felicidade fácil a uma vida de humilhação ou humildade, renúncia e sofrimento?
A sermos talvez um bocadinho mais ascetas, e limpos no eu, receptivos ao que vier de meditação e visão do mundo espiritual. E  proporcionarmos ao corpo as condições para que ele não seja um estorvo mas antes um impulsionador da nossa realização individual e espiritual.
E desenvolvermos algumas qualidades que lhe foram reconhecidas no Memorial da Infanta Santa Joana: «a muito santa vida, o amor divinal [isto é, a aspiração amorosa à Divindade, e ao seu Logos e Cristo, ou ainda amor divino em nós, o amor à Presença Divina], fervente caridade e profunda humildade, pura e inteira castidade», saber exercer a prudência, conseguir discernir os espíritos e profetizar, e saber morrer bem ou santamente, no amor divinal!

Convite: 15 de Maio, apresentação do livro de Afonso Cautela, Lama e Alvorada - II Volume, na Casa da Imprensa, Lisboa.

                                      

  Convite

Apresentação do livro
LAMA E ALVORADA - II VOLUME, de AFONSO CAUTELA
15 de Maio, 4ª feira, 18:00
CASA DA IMPRENSA
Rua da Horta Seca, nº 20, Lisboa. Tel. 213420277
Edição: Afrontamento, Porto 2024.
Agradece-se divulgação. 
Se não puder estar presente, pode adquirir esta antologia poética junto do editor José Carlos Marques, Edições Afrontamento, Porto,
ou da legatária do Poeta, Cristina Cautela (cristina.cautela@gmail.com)
 

EM EVOCAÇÃO DE AFONSO CAUTELA (1933-2018)
– CIDADÃO, JORNALISTA, POETA

 

«Estará presente Cristina Cautela, filha do Poeta, que introduzirá a sessão.

Como organizador dos dois volumes de LAMA E ALVORADA - Poesia Reunida 1953-2015, de Afonso Cautela (Edições Afrontamento, Porto, abril 2017 (I), janeiro de 2024 (II), José Carlos Costa Marques fará uma breve introdução tendo em conta o lapso de tempo decorrido desde 2017, ano de publicação do I Volume.

  

José Luiz Fernandes, jornalista como Afonso Cautela, autor da mais aprofundada entrevista que lhe foi feita, falará do colega e do profissional da Imprensa.

 

 Pedro Teixeira da Mota, escritor, investigador, em particular de Antero de Quental e de Fernando Pessoa, amigo e companheiro da ação de Afonso Cautela, abordará o Poeta na sua vertente ecologista, macrobiótica e espiritual, o utopista e o investigador da cura natural e das energias subtis e das transformações das consciências.

 

António Cândido Franco apresentará uma visão cultural e literária da  Poesia do Autor.

 

AFONSO CAUTELA, CIDADÃO, JORNALISTA, POETA

 

Personalidade multifacetada, Afonso Cautela foi para alguns antes de mais o jornalista, para outros o cidadão, para outros ainda o ecologista interventivo. Para alguns poucos, o Poeta.

Ele próprio parece só ter dado o merecido valor à sua obra poética tardiamente, quando o jornalista se reformara já, o cidadão tinha já sofrido as deceções e agruras de quem estava décadas à frente do seu tempo, e finalmente se dera ao trabalho de digitalizar os seus poemas e redescobrir o que alguns poucos amigos lhe diziam há muito, que a sua poesia é grande Poesia – o que ele intimamente sabia sem nunca ter achado necessário fazer o que quer que fosse para combater a obscuridade.»  

José Carlos Marques.

sábado, 11 de maio de 2024

Poesia como questa do Verbo, do Conhecimento e da Divindade,

Poesia. Inicio o rito de a escrever,
  deixar passar um Verbo que vem de mim:
- "Não a nós, Senhor, não a nós,
mas ao Teu Nome dá Glória". 

Assim apontou a tradição Templária,
e todos retomamos falas antigas e perenes
e só nos distinguimos se as vivemos ou não...

Seja pois a poesia invocação da Verdade e não palavras,
e resposta aos poetas do insincero ofício da forma.
Quem pode falar do espírito, de Deus e do Graal
sem os ter invocado, aproximado e entrevisto?

Entre a poesia rasa da angústia e do vazio
e a da construção formal, estética, aprumada,
 a crítica e o vulgo que escolham. 
 
Mas àquele que tente os temas sagrados
atenção, aqui é essencial a purificação,
para além da espiritual meditação.

Tantos poetas, prosadores, livros e frases ecoaram,
Mas quem se desperta a si próprio
e se conhece realmente como alma e espírito?
Esse é luz para si e ilumina os outros sem palavras
sem ter que provar, nem demonstrar.

Deus está no coração de cada ser
mas quem o não tiver sentido e redescoberto
Dele não pode irradiar nem ensinar.

Quem não O deixar abrir a janela do peito
e aquecer o quarto ou ambiente à volta,
esse nada sabe da imanência divina.

Mundos e seres infinitos nos rodeiam.
Os que agarrados a poleiros e a doutrinas,
a interesses e a ilusões da forma
são como vermes terrestres perecíveis. 
 
Poema escrito há já uns anos, e melhorado.
É preciso contemplar os mundos e seres distantes
e orar, amar, saudar os desincarnados,
 Espíritos e Anjos que nos rodeiam e até guiam.
E, por fim, 
adorar a transcendência
e amar a imanência, Divina.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Dos Anjos e da nossa ligação com eles.

O Anjo como amigo celeste e guia da alma peregrina no Caminho.

Outrora os seres humanos tinham mais perto de si os Anjos e cultivavam tal relacionamento, em geral até de um modo familiar, através de um pequena ara ou altar e que era fonte de inspiração e protecção. Na Pérsia chamados Fravashi, na Grécia Daimons, em Roma Génios, na Cristandade Anjos da Guarda, e com outros nomes noutras tradições, representados, e correctamente, com asas das energia subtis, eles faziam com que os seres não se sentissem tão sós ou desamparados, pois quando se sofria por  isto ou aquilo ou quando havia dúvidas quanto ao que seria o mais correcto ou verdadeiro, cogitava-se, orava-se e deixavam-se vir à mente as consolações, inspirações e intuições que eles poderiam fomentar,  harmonizando as pessoas e contribuindo também para que a ligação entre a Terra e o Céu, a Humanidade, os seres Celestiais e a Divindade estivesse mais viva.

Hoje a maioria dos seres perdeu a relação interior e vertical com eles e talvez os próprios anjos se tenham de certo modo afastado, já que nos horiontalizámos ou mesmo animalizámos muito, E se oramos e os invocamos para que ajudem nos nossos pedidos, preces, trabalhos, fazemo-lo apenas por uns minutos e depois admiramo-nos de não receber nada e desistimos.

Todavia esses minutos talvez nem tenham chegado para diminuir a agitação mental e as sombras na nossa aura que impedem que os nossos pedidos se elevem nítidos até ao plano consciencial deles, mesmo que em volta de nós...

A comunicação com os Anjos não é como uma chamada telefónica para uma central, onde logo está pronto a responder um deles, ou mesmo o que imaginariamente tem um nome que seria o do Anjo do dia do nosso nascimento, uma mistificação cabalística que no séc. XIX e XX, nomeadamente com o francês Haziel, recebeu um tratamento de pronto a vestir superficialíssimo e enganador em vários livros de grande sucesso no new age comercial que alienou e aliena ainda tanta gente com miranbolices e cabalices.

Não, nada disso. Só o esforço dos nossos trabalhos e de vida e depois uma meditação e oração mais perseverante e longa, que deve partir do coração, com aspiração e amor, é que vai abrindo por entre a neblina da aura, e a agitação da mente, um canal de ligação entre eles e a nossa visão espiritual.

A ligação com o Anjo da Guarda, ou a conversa-convergência com ele é portanto um trabalho bem difícil para quem está muito envolvido nas dispersões e preocupações do mundo e só por uma prática de vida mais harmoniosa e auto consciente, pautada perseverantemente por momentos regulares de oração, meditação e contemplação,  é que podemos ser agraciados com as suas bênçãos ou mesmo com a sua visão abençoadora e inspiradora.

Boas religações e inspirações. Mantenha o graal do seu peito e coração acesso com a chama do amor e da invocação do Anjo e da Divindade!

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A conversão e morte de Leonardo Coimbra, vista por Teixeira Pascoaes, segundo Sant'Anna Dionísio, em "O Poeta, essa ave metafísica"

                                                  

O princípio do 4º capítulo do livro O Poeta, essa ave metafísica, (Lisboa, Seara Nova, 1953), consagrado a uma visita de Sant'Anna Dionísio a Teixeira de Pascoaes na sua casa em Gatão, Amarante, intitulado Fim de tarde, é verdadeiramente de antologia pois Sant'Anna Dionísio consegue fazer-nos quase sentir que estamos na Grécia ou no Mediterrâneo nos tempo antigos, ao mesmo tempo que nos aproxima do mistério do fatum anímico-espiritual de Leonardo Coimbra e de Teixeira Pascoaes:
«Depois de uma pequena volta pelo jardim, sentamo-nos junto de uma antiga fonte sob um dossel de velhas videiras ainda com alguns cachos de uvas brancas e lilases, de Corinto. Por momentos afasto-me para provar alguns bagos de um belo cacho doirado.»...

Estamos bem preparados, aguçados mesmo no sorver o néctar, para entrar no diálogo mais dramático que  os dois vão travar nesse memorável dia outonal de 1949 e talvez  sobretudo para Sant'Anna Dionísio, o discípulo mais fiel e pleno de Leonardo Coimbra, constantemente envolto em polémicas em sua defesa,  quer no valor de sua personalidade, vida e obra como também acerca da sua conversão ao catolicismo e súbita morte em acidente de automóvel numa curva da estrada da Lixa.  

Sant'Anna Dionísio

Vejamos como Sant'Anna Dionísio narra o diálogo e as ideias que Teixeira de Pascoaes concebia quanto à conversão e morte de Leonardo Coimbra:
«E voltamos ao assunto do Leonardo Coimbra. Pascoaes, como sempre, em dois traços define o desaparecido companheiro: 
-  Era uma alma forte e alegre... Mas foi pena aquele passo final... aquela conversão... Foi o Diabo....
S. Dionísio.- Na verdade..., respondo. Mas Leonardo viveu sempre em estado de perigo diante do catolicismo. Era uma espécie de vertigem a chamá-lo.
T. Pascoaes. - Pois sim. Mas foi pena que se convertesse na ocasião em que o fez. Se estivesse um governo anti-religioso, duro, avermelhado, - está bem; a sua atitude seria justificada e heróica. Assim, - foi o diabo.»
Falam depois de outros assuntos mas de repente Pascoaes, certamente sabendo da grande devoção de Sant'anna Dionísio a Leonardo Coimbra, e consciente de ser misteriosa a sua afirmação, contra-ataca: «E não julgue que digo que foi o diabo, como quem diz merecia uma surra. Digo foi o diabo porque estou em crer que foi o próprio Satanás quem esmagou o pobre Leonardo naquela noite de breu, no fundo de uma horta, - foi o filho das Trevas... A não ser que tenha sido outra a força invisível que o moveu. E essa razão pode ser ainda mais trágica que a caprichosa vontade do Diabo. Pode ter sido a força do Desespero. A queda na descrença ou na crença religiosa é sempre o mesmo acto desesperado»

Esta última afirmação parece desvendar-nos Pascoaes na sua velha linha anarquista, libertária, mas muito dualista de Deus Jehova e do Diabo,  pois equipara a descrença, do agnosticismo, com a crença religiosa, considerando-as ambas como actos de desesperados, e talvez possamos aceitar tal se ele se refere a certo tipo de crença cega num corpo de dogmas, doutrina e ritos, ou a concepção de Deus violenta e absurda que é a de Jehova. Mas que haja uma força do desespero que pode matar quem se converte, só se pensarmos que o Diabo ou as forças do Mal desesperadas pela conversão de Leonardo decidiram matá-lo, apoiando ou causando invisivelmente as circunstâncias geradoras do acidente fatal.

Na realidade, a frase de Pascoaes é profundamente contestária da adesão religiosa, pois considera-a um acto de desespero, e poderemos equipará-lo mais luminosamente, para não ser o desesperado-perdido-atemorizado e sem mais recursos, que não assenta em Leonardo Coimbra,  como o não se ter conseguido esperar por um conhecimento, por uma gnose individidual, auto-conquistada. Ou seja, Leonardo teria renunciado à sua autonomia, subsumindo-se na tradição cristã, pela conversão, que não seria tanto  conversão como mais a aceitação dessa tradição religiosa portuguesa e que contém tantos grandes seres e ensinamentos, como igualmente aspectos mais de crença infantil ou no absurdo, recomendada por alguns teólogos mais conservadores ou conformistas.

Teixeira Pascoaes parece apresentar uma visão quase política da morte de Leonardo Coimbra. Num momento em que o salazarismo e a igreja do cardeal Gonçalves  Cerejeira cresciam, triunfavam Leonardo não deveria ter aceitado a conversa do sábio e santo padre Cruz, que o converteu ou conduziu à conversão, ocorrida a 23 de Dezembro de 1935, ainda que se diga que ele reentrara no seio da Igreja  apenas para se poder casar e legitimar o filho. E assim, tendo errado, deixando de estar no seu caminho de Luz, Leonardo ficou exposto a que dez dias depois de tal reingresso no Catolicsmo, se desse o acidente de automóvel e, após dois dias no hospital, a desencarnação.

Leonardo Coimbra nos seus últimos anos

Se admitirmos, como queria Teixeira de Pascoaes que a conversão foi errada, seja por não ser a hora-época, seja por em si mesma ser algo de desesperado, então poderemos facilmente pensar também que Pico della Mirandola, que estivera semi-excomungado alguns anos pelo carácter esotérico ou mesmo herético de algumas das suas teses religiosas,  morreria tão precocemente com 32 anos já que abandonara parte do seu independente universalismo esotérico e, sob a influência austera de Jerónimo Savonarola, se entregara ao cristianismo mais simples ou de ser mesmo um missionário de uma crença religiosa.

Eram indubitavelmente dois seres de grande coração e amor e abertura intelectual e espiritual e que cederam às influências de dois seres, Padre Cruz e Frei Savonarola, que no Cristanismo se tinham elevado animicamente poderosamente e os encantaram e os convenceram a confessarem os seus pecados e a aceitarem essa intermediarização deles, sacerdotes, e da Igreja e seu corpo doutrinal, para com Deus, abdicando humildemente de o realizarem independente  e talvez como que preparando-se para a morte e para um progresso na vida no além menos desconhecido de direcionament, e mais acompanhado pela Igreja e o seu corpo místico a que se tinham entregue mais formalmente ou oficialmente.

 Poderemos contudo pensar ainda que Leonardo Coimbra aceitou a adesão à Igreja Católica porque sentiu que a sua afinidade religiosa com o Cristo era tão grande que podia aceitar os males menores da instituição Católica e que acreditava tanto nos ensinamentos e na pessoa de Jesus Cristo, que podia bem manifestar essa aceitação do Cristianismo, sem se importar com os seus antigos companheiro, ou os portugueses em geral, que eram anti-religiosos, ateus ou anti-católicos. 

Na hermenêutica de Pascoaes da morte de Leonardo ressalta porém que teria sido mesmo Satanáz o príncipe da trevas, quem estivera por detrás do acidente talvez por odiar que um dos melhores pensadores e oradores de Portugal, sem necessidade de estar a lutar contra perseguições anti-religiosas e ateísmo, aderisse à Igreja, à Religião.

Não é fácil pronunciar-nos com um mínimo de probabilidades quanto à ingerência de forças negativas, satânicas nas mortes súbitas e inesperadas de pessoas e no caso do grande professor e orador, como certamente não conseguiremos adivinhar o que poderia ainda resultar de grande espiritualidade fecundante do catolicismo pela conversão à instituição católica do malogrado Leonardo, que dera já com fundo teor espiritual cristão obras como Jesus e S. Francisco de Assis.

Uma das últimas fotografias de um dos génios de Portugal, como Fernando Pessoa reconheceu.

Nestes vários sentidos cabe-nos orar e vigiar, isto é meditar e estar de plena atenção ou com mil olhos para não nos deixarmos abater precocemente seja pela febre piciana seja pelo acidente de automóvel na Lixa que propulsionou Leonardo de Coimbra para os planos espirituais com passaporte cristão.

Vigiai e orai, pois nunca sabereis quando vem o filho de Deus ou o Diabo...