domingo, 21 de janeiro de 2024

"Leonardo Coimbra, contribuição para o conhecimento...", por Sant'Anna Dionísio. Com vídeo da gravação da Adenda, de 1985, comentada por Pedro Teixeira da Mota.

Leonardo Coimbra, contribuição para o conhecimento da sua personalidade e seus problemas, foi uma obra publicada por Sant'Anna Dionísio, no Porto, em 1936, tendo sido originalmente lida em Vila Real, cerca de um mês depois da morte inesperada de Leonardo Coimbra, a 2 de Janeiro, junto a Lixa, a sua terra natal e em cuja domus paternal está hoje a Casa da Cultura Leonardo Coimbra.
Em 1985 foi reimpressa a obra e foi-lhe  acrescentada uma Adenda, no fim.  Como já escrevi um artigo no blogue sobre o livro, resolvi ler a Adenda, comentando-a com certa brevidade, pois a máquina só permite meia hora de gravação.  O resultado está ao seu dispor mas, para substanciar mais este artigo, passo a transcrever os parágrafos finais da conferência tornada livro, antes da anotações Marginais, valiosas, e da Adenda, de facto excelente, e que espero que oiça e aprecie.  
A transcrição que pode ler em seguida permite-nos sobretudo comungar a sensibilidade anímica bem lúcida de Sant'Anna Dionísio (os seus "esquissos psicológicos") e compreender melhor as causas das modificações humorais e "fracassos " de Leonardo Coimbra e de Antero de Quental, e como elas subsistem e parcialmente se agravam nos nossos dias...

« A olhar as coisas do lado de fora, parece que Leonardo Coimbra não devia ter razão para possuir esse sentimento [de amargura e desilusão], pois aparentemente, ele foi um dos homens mais aplaudidos e admirados do nosso tempo, do nosso país. Mas quem pode iludir-se? De facto os aplausos e a admiração que Leonardo Coimbra colhia (como ele não podia deixar de perceber) eram puramente espectaculares, dirigidos apenas [ou em grande parte] à sua personalidade exterior de tribuno e homem estranho: na realidade, ninguém o compreendia; e o homem de valor o que deseja é que participem das suas preocupações e não que admirem a sua figura, ou timbre de voz, ou facilidade de palavra; o que ele quer, em suma, é que o compreendam e não que o aplaudam. Leonardo Coimbra sentia com nitidez a sua incomunicabilidade, e sofria como todos os homens superiores a têm sofrido, em todos os tempos e lugares, e sofrerão sempre; sob a máscara do tribuno que frequentemente subia aos estrados para falar, falar, falar, dando-se o ar de homem que tinha a satisfação e transferir as suas ideias, havia o rictus secreto, cheio de amargura, do pensador que sabia que as suas obras somente eram vendidas nas feiras do livro a preços irrisórios, para não serem vendidas a peso. Quantas vezes nos últimos anos, quando os amigos lhe perguntavam de longe a longe se andava a pensar em algum livro, ele replicava com rápida mordacidade! - - Mas par quê? Neste país nãos e pensa; neste país...»
 A submissão deste homem ao ensino secundário (já o dissemos no dia em que o seu corpo deu entrada num adro) será seguramente apontada no futuro como um dos exemplos mais gritantes da incapacidade hostil que os contemporâneos de um homem superior têm em reconhecer o seu valor e sobretudo em lhe reconhecerem o direito de trabalhar, por solicitude social, em condições adequadas à máxima realização das suas possibilidades. Como é que um homem destes, tão consciente das suas enormes virtualidades, tão duramente amarrado ao potro dum pedagogismo burocrático e primário, deveria reagir perante a hostilidade ambiental? Como reagiu Herculano? e Soares dos Reis? e Raul Proença? Aqueles que acentuam demasiado a causticidade de L. C. esquecem que este homem extraordinário, sem dúvida alguma o homem melhor dotado de inteligência especulativa até hoje aparecido no nosso país [e Fernando Pessoa reconheceu-o numa carta], o homem que merecia do meio a maior generosidade, foi compelido a consumir o melhor da sua maturidade a dar lições e desenho e aritmética elementar a crianças e a ensinar o abcedário de filosofia a adolescentes dos liceus   ele que por si só (como mostrou), valia uma universidade. A história dos dramas espirituais mais dolorosos e significativos da nossa existência colectiva é demasiado rica em casos de mordacidade para que se possa apontar L. C. como um caso doentio e esporádico de reacção agressiva e arbitrária. Em última análise L. C. é mais um caso de fracasso, análogo ao de Antero. Num, como no outro, a vontade (em Antero lesada misteriosamente pela nevrose; em L. Coimbra prejudicada por hábitos e complexos de muitas proveniências) teve uma parte notória nesse fracasso; é essa hostilidade que é necessário ter presente, se se quer compreender a irrealização das mais profundas virtualidades destes dois pensadores, e compreender em parte a justiça vingativa que há no silêncio severo de um e na causticidade do outro.
Certo é
que alguns dizem que os homens superiores nunca podem falhar; que o que eles realizaram é precisamente o que eles tinham a realizar. Perante a obra de Leonardo Coimbra, como perante a de Antero de Quental) tal teoria afigura-se-nos radicalmente irreflectida. De facto, os homens superiores podem falhar; e falham quase sempre. O que eles realizam fica desmedidamente aquém do que lhes era possível. Ora, desde que um desses homens tem a consciência de que as suas melhores virtualidades foram contrariadas e esmagadas pelo que lhes é exterior, natural é que no seu espírito ecluda qualquer forma cancerosa de «desforra»: nuns essa desforra é uma simples abominação surda seguida de afastamento; noutros é a reacção colérica conducente à própria perda; noutros é o silêncio seguido de um desaparecimento enigmático, etc. Em Leonardo Coimbra foi a mordacidade implacável. Que é, porém, a mordacidade senão uma reacção ofensiva dos ofendidos? E quem sabe se, sem a intervenção fortuita e trágica do desastre [de automóvel], o seu fim não seria mais nitidamente uma acusação contra o meio?
Concluamos, pois. Leon
ardo Coimbra, como homem aparente, foi na verdade, um homem muito humoral, muito perturbante e perturbador. Mas deve fazer-se o esforço de ver que para além do seu humorismo, das suas fugas, dos seus volta-faces, houve por ventura um homem verdadeiramente homogéneo e profundamento sério. Será decerto muito difícil desvendá-lo, nomeadamente para aqueles que ainda vivem sob a recordação demasiado viva das perplexidades suscitadas pela sua convivência. Mas o sentido mais lúcido da compreensão diz-nos que as impressões da convivência são quase sempre impressões da superfície  e que perante todo o homem superior que parece excessivamente desconcertado (sendo todavia saudável), a mais fecunda e justa pesquisa é aquele que se faz no sentido de se descobrir, para lá das expressões desconcertantes, o homem compreensível de que, as mais das vezes, as aparências humorais são simples traições, ou actos de legítima defesa, ou deliberados expedientes de encobrimento.»

                             

sábado, 20 de janeiro de 2024

Estamos já na terceira grande Guerra? Sim. O que irá suceder? O que poderemos fazer?

Qual a posição de Jesus Cristo face ao actual conflito da Palestina pouquíssima gente terá intuído. Ou orado e meditado para saber a sua intencionalidade e posição inspiradora, e alinhar-se e comungar com ela e ele, o mestre e messias da Palestina.

Uma das principais causas da escalada ameaçadora da guerra, na antiga Terra Santa e não só, é o facto do governo israelita de Benjamim Netanyahu, mais do que destrutivo (70% das casas em Gaza), genocida mesmo (milhares de crianças e mulheres palestinianas), estar a tentar nestes últimos dias intensificar e ampliar os conflitos já declarados da III grande Guerra em curso lento, atacando e assassinando na Síria, Irão e Líbano e contando com o apoio praticamente incondicional anglo-americano, devido em parte ao controle detido na principal banca mundial e na Reserva Federal dos USA. E contam ainda com o armamento nuclear que dispõem e desejarão utilizar nas terras dos outros, no caso principalmente o Irão, sem que os danos e mortes de pessoas os façam retraírem-se um pouco.  Como se irão espiralizar as energias e consciências desses povos, na maioria islâmicos, e seus exércitos, face aos constantes assassinatos dos seus dirigente realizados pelos israelitas à distância, os mais recentes condenados até pelo secretário geral das Nações Unidas, António Guterres, só no futuro veremos, mas para já  as respostas têm sido muito pontuais, estóicas, dir-se-á, mas provavelmente não será muito tempo...

 Quanto ao papel da União Europeia, devido à  direcção da Ursula von Pfizer, Borrel (o único que ainda defende o Esado Palestiniano), Scholz, Micron e Stoltenberg ser toda ela composta de seres orgulhoso e que não podem com, ou mesmo odeiam, a Rússia e o seu poder,  observa-se que ele é crescentemente adverso aos verdadeiros interesses e aspirações luminosas do cidadão comum europeu. A direcção da União Europeia é hoje uma coisificação de cinzentos,  inepta e corrupta e, à parte alguns parlamentares corajosos (nomeadamente Clare Daly, da Irlanda), tem muito pouca ética, sentido de justiça e verdade, estando indiferente aos cidadãos europeus e ao seu sentir e querer, disfarçando, por exemplo, o encarecimento da vida resultante da péssima geo-estratégica energética, basicamente anti-russa e pró-americana, com algumas esmolas, do infinito dólar-euro, nas pensões do Estado.

A degenerescência do Ocidente patenteia-se ainda com os grandes CEOs e bimilionários reunidos em Davos  a prepararem publicamente mais uma pandemia e suas vacinas. Quanto a disponibilizarem uns 5% das suas riquezas imensas para projectos educativos, sanitários, económicos nas terras e gentes mais desfavorecidas, praticamente nada...

Entretanto  os apoios em armamentos a Zelensky,  e " até ao último ucraniano", continuam a dizimar eslavos, em vez de se apostar em negociações realistas (que não as propostas por muitos tolos russófobos, tais os nossos Milhazes, Pinheiros e &) rumo a uma paz justa, exequível. 

O império anglo-americano-israelita não quer perder a sua hegemonia excepcionalista opressiva e destrutiva, pese o crescimento da Organização para a Cooperação de Xangai e do BRICS, em que além dos dois já em luta, Rússia e Irão, há ainda a China, Brasil, África do Sul, Turquia e outros  a poderem erguer a sua voz, alma e forças em defesa da justiça e da Humanidade multipolar livre e fraterna. 

O que vai suceder da parte deles em defesa própria e contra o imperialismo anglo-americano e do seu infinito e injusto dólar, tão patente em tantas intervenções desgraçadas no mundo? Conseguirão escapar e criar alternativas a tal hegemonia, monetária e de influência e domínio, ou haverá mesmo guerra mais forte, declarada e alargada? 

Se na Ucrânia o conflito parece contido e favorável às reivindicações das populações russas ou pró-russas e anti-nazis  de Donbas, já no Médio Oriente o carácter de certos modos diabólico de alguns políticos e de Benjamim Netanyahu, praticando o genocídio e recusando a evidente justiça dum Estado Palestiniano, não permite bons augúrios, nada de bom para a humanidade, e ainda por cima estando demasiado apoiados pelo Ocidente da UE e da NATO, com algumas raras excepções onde se destaca a Espanha. Não cremos assim que os conflitos se alarguem a mais do que às duas frentes já activas, a da Ucrânia e a do Médio Oriente, Palestina, Líbano, Síria, Yemen e, por fim, e até agora só indirectamente, o poderoso Irão shia, de Ali, Shorawardi, Rumi, Hafiz, Saadi, Khayyam e  Soleimani...

As Nações Unidas, que ainda têem algum peso e potencial, enquanto a organização de representação mais completa da diversidade dos Estados,  deveriam ser reformuladas e tornadas mais activas? É utópico pensar-se nisso, enquanto houver tanta pressão de hegemonia do Ocidente americanizado. É preciso reeducar para os valores, a ética e a verdade, professores, políticos e jornalistas pondo mais em diálogo os saberes tradicionais e as ciência moderna, os ideólogos, pedagogos e filósofos, os sábios, ecologistas e cientistas de todos os quadrantes e povos, para se descobrirem as soluções e caminhos adequados ao bem dos povos, da Terra, da Humanidade, do Todo...


O que se pode fazer? Cada um tem certamente o seu swadharma, o seu dever ou missão própria, na família, grupo, profissão, vila, cidade ou terra em que está. Mas será sempre importante trabalhar a religação à terra, com projectos de agricultura biológica, agro-floresta, comunidades ecológicas, terapêuticas, etc. Participar em pequenos grupos, ou maiores, de harmonização e desenvolvimento das pessoas e terras, causas e ideais,  tentar que os partidos, políticos e governantes deixem de estar vendidos e alienados da verdade, da justiça, da ética e da fraternidade fazendo-lhes chegar mais informações e  energias nesses sentidos conscienciais, para que a justiça e a paz possam  vir a estabelecer-se mais estável e fecundamente. 

E, por fim, sobretudo, ajudar e estudar, trabalhar e servir, orar e meditar, amar e criar, ou seja trabalhar criativamente pela melhoria do estado psico-somático de todos os seres e da religação e realização espiritual e divina deles no Cosmos, em que todos vivemos em unidade entretecida tão subtil e luminosamente.... Aum. Lux, Pax.

                                         

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Debendranath Tagore, e os seus ensinamentos espirituais. Uma homenagem nos 119 anos da sua partida da Terra

Debendranath Tagore, um maharishi, ou grande poeta sábio de visão espiritual...

Comemoram-se hoje,  os 119 anos da partida para os mundos espirituais (a 19 Janeiro 1905) de Debendranath (ou Devendranath) Tagore, nascido a 15 de Maio de 1817, em Shiladaiha, Bengala, numa das famílias mais antigas e importantes  bengalis, tendo estudado como era tradicional em casa até 1827, entrando depois no colégio Anglo-indiano. Em 20 de Agosto de 1828 fundara-se o Brahmo Sabha, uma associação de despertar social e religioso, com Ram Mohan Roy, Devekarana Tagore, o seu pai, e o erudito Ram Chandra Vidyabagish. Em Janeiro de 1830 abre-se  o 1º local de culto, samaj, passa a denominar-se Brahmo Samaj, e na inauguração no mesmo mês, há já 500 membros, continuando Ram Chandra Vidyabagish como 1º secretário e o oficiante nos cultos , Como Ram Mohan Roy parte para Londres  em 1830  e aí morre em 1833,  o que provoca, apesar do apoio monetário de Vekranath Tagore e do fogo espiritual de Ram Chandra, um enfraquecimento na frequência das reuniões, abertas a todo o tipo de fiel religioso, pois o Brahmo estava dedicado «ao culto religioso e adoração do Ser imutável, indescobrível e eterno, que é o autor e preservador do Universo».

Trabalhando para a família, mas cada vez mais atraído para o conhecimento e realização espiritual, em 1839, após a morte do pai, Debendranath Tagore funda a Tattwabodhini Sabha, A Sociedade da Vibração (ou estado) de Sabedoria ou Conhecimento, com grande sucesso e  atraindo alguns intelectuais valiosos que colaborarão bastante, tais os geniais e tão influentes Akshay Kumar Datta (1820-1886) e  Ishwar Chandra Vidyasagar (1820-1891).  Publica uma revista Tattwabodhini Patrika, onde partilha os seus pensamentos e as traduções dos Vedas, e em 1840 dá à luz uma pioneira tradução em bengali de uma das Upanishdas, a Katha

Em 1843 os directores do Brahmo Shaba, pedem a Debendranath Tagore e aos principais membros Tattwabodhini Sabha que entrem para o Brahmo Shaba e participem. E assim sucede, desenvolvendo-se bastante mais e no seu papel para o renascimento e modernização da Bengala e  preparando-a para a futura independência.

 Os objectivos eram os de reforma e modernização da sociedade pela melhoria e alargamento da educação, protecção e desenvolvimento das mulheres, viúvas e crianças, apoio aos mais pobres, diminuição de superstições e idolatrias, destacando-se certos aspectos doutrinários, tal a não afirmação da reincarnação, desvalorização dos avatares e as aspirações religiosas tendendo completamente  ao Teísmo, a uma concepção unitária da Divindade, Brahman, ou Brahmo, donde o nome Brahmo Samaj, a associação, local de culto ou comunidade de Deus. 

Ao aprofundar a hermenêutica das escrituras sagradas, Vedas e Upanishads, já que era um erudito e fiel do amor do sânscrito (ao contrário de Ram Mohan Roy, que se abriu mais ao Cristianismo e ao Islão), ao partilhar com grande beleza física, psíquica e espiritual a sabedoria em conferências, sermões e escritos, e ao prosseguir uma demanda  intensa da verdade, embora casado (vindo a gerar 14 filhos), e com vida social intensa, passou a ser considerado maharishi,  grande sábio vidente, sobretudo quando dá à   luz a sua obra principal, em 1850, o Brahmo Dharma, onde partilha a sua visão da religião espiritual teísta universal, baseada em versos extraídos dos Vedas e sobretudo  das Upanishads, os de maior sabedoria espiritual e divina, e que ele adapta e aperfeiçoa, ao juntar as partes mais significativas delas, e cortando as que menos interessavam, traduzindo-as e comentando-as segundo a sua sensibilidade, e logo por vezes divergindo das traduções e comentários (bhasya) dos grandes mestres da Vedanta, tais Shankara, Madva, Ramanuja, etc

 Em 1854, funda com Akshay Kumar Datta a Samjjyoti Bidhayini Sahrit Samiti, uma instituição com os objectivos sociais de diminuir tanto a pobreza como a superstição, e torna-se outra frente de batalha por um racionalismo de costumes e crenças.

A dado momento, em 1866, dá-se uma cisão dentro do Brahmo Samaj, formando-se  um grupo, Bharatvarshiya Brahmo Samaj, ou seja, o Brahmo Samaj da Índia, liderado por Keshav Chandra Sen, que estudara num colégio anglo indiano, não sabia sânscrito e se abrira demasiado ao Cristianismo e aos diversos profetas, enquanto a linha original liderada por  Debendranath Tagore, contrária ao culto das imagens e à infiltração do Cristianismo, passa a ser conhecida como o Adi Brahmo Samaj, o antigo ou primordial.

Em 1867 compra uma vasta terra a norte de Calcutá onde começa a construir o seu ashram ou centro espiritual  que se torna o famoso Shantiniketan, a abóbada da paz, e a universidade ao ar livre de um dos seus quatorze filhos, o mais famoso, prémio Nobel de Literatura em 1913, Rabindranath Tagore, ainda hoje muita valiosa (e onde estive em peregrinação em 1995.)

Tendo escrito  muitos artigos e seis livros, o que se tornou mais popular foi de facto o Brahmo Dharma, ou seja o Dever ou Ordem Divina, ou ainda o Caminho de Deus, e é dele que vamos extrair algumas ideias forças, homenageando Debendranath Tagore, provavelmente pela primeira vez em Portugal. Aum!

Escrita em 1848, embora traduzida para algumas línguas regionais da Índia, só em 1928 receberá a sua primeira tradução em inglês, dada à luz em Calcutá, por Hem Chandra Sarkar, com comentários para cada verso, e quando estive cerca de sete meses no Instituto da Missão de Ramakrishna em Gol Park, Calcutá, comprei um exemplar  nos alfarrabistas de rua, e assim passo a partilhar alguns dos melhores versos, com os comentários de Debendranath Tagore.

Começa assim o Brahmo Dharma, Cap. I, 1º verso « Om, assim dizem os instrutores do conhecimento divino.
O fogo divino do conhecimento de Deus est
á escondido no coração de todos os seres humanos. A consciência da infinita bondade de Deus está escrita em letras inextinguíveis nas almas de todas as pessoas. Podemos ver Deus quando este fogo é acesso pelo estudo do universo. Ele imprimiu a sua imagem da bondade pura em todas as coisas materiais e em todos os corações humanos. Essas grandes almas abençoadas despertas que estavam aptas a realizá-la, eles estão ateístas e aqueles que o realizaram ensinam acerca dele, eles são os professores do conhecimento. Para ser um teísta ou um professor de teísmo não é necessário pertencer a qualquer país, idade ou nacionalidade. Os teístas de qualquer país tem o direito de ensinar acerca de Deus. As ideias e as verdades realizadas nas almas e ensinadas pelos antigas teístas sábios da Índia ficam compiladas na primeira parte do Brahmo Dharma.

2º verso: Esse do qual nascem todos os seres, pelo qual todos os seres  criados são sustentados e para o qual  eles procedem e entram, esse é a Divindade. Deseja conhecê-lo profundamente. (...)»

3º verso: A partir do Amor seguramente todos os seres nasceram; pelo Amor os seres  criados são sustentados e para o Amor eles caminham e entram.
Este Deus absoluto, o cri
ador, preservador e destruidor, não tem nome particular. Os antigos teístas que o realizaram nas suas psiques como infinito, omnipresente, habitando no interior da pessoa beneficiada, desfrutaram-no como felicidade pura e declaram que ele era Beatitude (anandam), nós também, que fomos suavizados e imersos nesta beatitude chamamos-lhe Beatitude.

Cap. V, verso 1: Deus é omnipresente em tudo o que existe neste universo. Abandona pensamentos negativos e ganância terrena, e  desfruta da felicidade de Deus; não cobices a riqueza dos outros.

Cap. VI, verso 41: Quem conhecer Deus, como  a Realidade, a Consciência ou Razão e o Infinito, habitando na alma, no mais alto céu do seu próprio corpo, desfruta de todos os objectos do seu desejo com essa Divindade omnisciente.

Verso 43: Os que conhecem o seu próprio Eu, realizam o Espírito Supremo que não tem corpo nem impureza, o santo, a luz da luz dentro do mais alto e mais brilhante revestimento das almas (...)

Verso 44 (...) O Espírito supremo não é revelado pela luz do sol a da lua. Ele revela-se a si próprio, na luz da nossa alma, na nossa visão interior. O inteiro universo brilha, ao ser iluminado pela resplandecência deste brilhante Deus. Tudo pereceria se fosse separado Dele.

Verso 46: Ele é infinito, glorioso, para além do alcance do pensamento. Ele é mais subtil que o subtilíssimo. Ele está mais longe que o mais longínquo, e está muito perto de nós. Ele mora na gruta do coração de todas as criaturas inteligentes.

Verso 47: Ele não pode ser atingido pelos olhos, nem pelas palavras, nem pelos outros sentidos; nem pode ser obtido pelo ascetismo, ou por actos sacrificiais. Aquelas pessoas, cujo coração se torna puro pela purificação do conhecimento, realizam na meditação a Divindade sem forma.

Quando o coração se torna puro pela procura do conhecimento e a prática da justiça, então ele pode ser visto na nossa alma. Ele não pode ser alcançado pela realização de sacrifícios, a observância de votos, e as práticas ascéticas, tais como jejuar, cultivar o fogo, etc. Estes não são os caminhos para o atingir. O Seu caminho é o do conhecimento (Jnana).»

Terminaremos homenageando também Hem Chandra Sarkar, pelos seus valiosos comentários para cada verso e comentário de Devendranath, citando exactamente a parte final do comentário que ele fez ao último verso transcrito, 47, já que aborda um aspecto essencial do caminho. 

Explicando que o verso provém da Mundaka Upanishad e que nela se exprime uma verdade profunda do mundo espiritual, traça o paralelo com o dito de Jesus: «Bem aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus», e realça que ambas as tradições afirmam que Deus pode ser visto, e enfatiza que ambas falam «em ver, e não conhecer, e ambos reservam esta suprema bênção apenas para os puros de coração. A Mundaka Upanishad é mesmo mais explícita e enfática, do que o Evangelho. O sábio que a escreveu explicita que a visão de Deus não pode ser obtida por sacrifícios, ascetismos e outras práticas, e só quando o eu mais íntimo foi purificado, se pode esperar então ter ou receber a visão de Deus. A frase "num estado psíquico extremamente puro", (visuddha sattva), é mais expressiva do que "os puros de coração", de Jesus. Significa a purificação do eu mais íntimo e esta purificação não pode ser obtida só pelo  conhecimento, Jnana. O Jnana  das Upanishads não é um mero conhecimento intelectual. Inclui a perfeição tanto moral como espiritual. E para além disso, o sábio,  Rishi, desta Upanishad diz que a pessoa só pode ter a visão de Deus meditando. Estamos diante de uma exposição muito completa das condições da visão divina.»

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Poesias dedicada a José V. de Pina Martins, e desafiadas pela alma do seu livro poético "Rio Interior". No dia dos 104 anos do seu nascimento.

José Vitorino de Pina Martins (18-1-1920, Oliveira do Hospital, a 28-4-2010, Lisboa) e Henri-Jean Martin, na biblioteca da Academia da Ciências, de Lisboa.  

Comemorando-se hoje 18 de Janeiro de 2014 os 104 anos do nascimento do tão ilustre pensador, investigador, professor, escritor, conferencista e verdadeiro académico José V. de Pina Martins, autor de centenas de trabalhos valiosos sobre a cultura portuguesa e europeia e o Humanismo e seus mestres, com quem tanto convivi como amigo pleno de afinidades e como ajudante de investigações e livros, resolvi partilhar o que lhe dediquei   algum tempo após a sua partida, escrito nas folhas brancas e  margens do  seu livro, que eu lia, Rio Interior, sua última obra poética (escrita em 1954 e dedicada a Teixeira de Pascoaes que acabara de partir), primeiro um poema, depois frases e versos que dialogam, resumem e intensificam espiritualmente o que ele sentira e escrevera...

Ó amigo e caminhante na senda,
que a música do Sermo Divino
te desperte e te erga à mística viva
dos que conhecem e sentem Deus.

Oh mestre querido, joia do Renascimento
incarnada na Lísia milenária,
vem tecer raios de Luz nas almas,
fazer galgar distâncias, vales e montes
e ascender à montanha da contemplação.

  Ó Deus, guia o nosso ser e viver,
leva-nos até à fonte de Teu Ser
  que com humildade  adoramos,
  invocamos e sintonizamos.
Vem, ó Mestre divino,
clamam os discípulos no caminho.

Saudaste Pascoaes, outra borboleta 
ardente na chama do conhecimento,
da Gnose, dos gnósticos e  amantes
dos alfarrábios quinhentistas,
dos Aldos aos Picos e Erasmos,
quantas estradas calcorreadas
com as afinidades electivas de
Eugenio Asensio, de Marcel Bataillon
ou ainda de Teixeira de Pascoaes
agora de Pedro Teixeira da Mota?

Olhos frementes, almas intensificadas,
invocando desesperadamente Deus
e rompendo o sono e a noite
com um tão forte desejo
que a Luz e o Amor de Deus
nos inundem e iluminem,
e Te desvendes em nós, ó Divindade.

Ó rio das águas brancas
que corres no mundo espiritual
e nos ligas à fonte Divina,
eu aqui te invoco entre mim
e o José Vitorino de Pina Martins,
escritor e bom amigo.

[E falta-me encontrar o exemplar para fotografar alguma folha, com o acrescento poético meu.]

Cavalos ao vento, crinas flamejantes,
nasçam desejos de transfiguração,
de consciencialização e revelação do espírito.

Caminhamos decerto pagando o preço da carne,
mas ainda assim Espíritos sempre renascendo.

Sê o amor compassivo e prestável para todos
e manso e humilde não critiques mas ajuda.

Rio interior, insatisfeito, sempre em busca
do oceano infinito de Deus
e querendo levar nele mais e mais almas.

~~~~

Deus é o centro do espírito de cada um no peito,
no centro da nossa alma habita.
Nuns como gérmen abafado pela ignorância,
noutros resplandecente como o sol.


Vós sois deuses, disse o mestre Jesus.
Vem pois, ó Deus, brota das entranhas
do meu ser, mostra-te, brilha,
ilumina-nos, guia-nos, torna-nos Amor.

~~~~~~~~~~~~
Dias em que o intelecto duvida,
meses em que a alma não brilha,
momentos de descrença em ti, ó Deus,
tal como um rio sem linfa, dizes tu.
Mas se eu sou um espírito luminoso,
um filho de Deus,
porque me hei-de de identificar
com as limitações acessórias
e não me reconhecer 
na minha origem divina?

Ó Deus, dá-me um verdadeiro
ardor de aspiração por ti,
uma confiança serena e certa
que Te hás-de revelar em mim.

Sim, no silêncio da alma
fala e ressoa o Verbo,
Sermo Divino em nós.
Ardam as escórias da personalidade,
morra o passado.
Aqui e agora, Eu e tu,
Deus brilhe em nós. 

Caminha da inocência infantil
para a curiosidade juvenil
na demanda aventureira de luz.
As austeridades do homem discípulo
são para se chegar agora ao intemporal.

   Água tempo que nutres minhas células
agora em amor e me ergues em ondas
  até à unidade com o Oceano divino,
alma nossa religada à Alma mundi Divina...

Que palavra sussurra a fonte da nossa alma:
- Amor, amor, amor és, são, somos!
Oh Unidade Divina... Aum...

Na olisiponense Biblioteca de Estudos Humanísticos, onde tantas vezes trabalhamos e dialogamos, sob  as bênçãos do mestre dos humanistas Desidério Erasmo, José V. de Pina Martins, já com 88 anos, e eu. Muita Luz e Amor nele e na Primula, sua mulher

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

De Mira Bai, um poema em versão do P. Alberto Mendonça, de Goa e levemente contextualizado por Pedro Teixeira da Mota, seu amigo.

                                                  

             Uma canção de Mirá, a grande mística da Índia.

Saudades do Infinito, versão livre do texto hindi, foi publicada na revista do Instituto Menezes Bragança, de Panjim, Goa, pelo reverendo Padre e Doutor em Filosofia Alberto Mendonça,  com quem eu tive umas horas de luminosa conversa no alto de Porvorim há décadas, além de duas cartas, e que espero continuar nos mundos invisíveis, quando retornar a eles e o encontrar, se tal couber na graça ou dispensação divina, ou dharmica. É um poema que manifesta tanto a prática espiritual (sadhana) de Mira, de oração, devoção à imagem e canto-dança, como a intensidade da sua devoção amorosa, bhakti, em imagens, ideias e ritmos de grande beleza e eficácia nas almas.

É uma homenagem a ele e a grande mística Mira Bai (1547-1614), desde tão nova enamorada de Krishna que conseguiu que os seus pais a casassem com ele em cerimónia tradicional, não mais deixando de manifestar um amor tão imenso quanto poético, e assim, Krishna, nomeadamente como Girdhar nagar (criança),  tornou-se de tal modo o rei do seu coração, para além das perseguições de uma tia, que abdicou de ser rainha, e  dos cerimoniais sociais e religiosos, e se assumiu como uma bhakti yogini peregrina dirigindo-se para Brindavan, o centro da devoção a Krishna, tendo grandes encontros (nomeadamente com Sri Jiva Goswami), satsangas e experiências psico-espirituais, sendo reconhecida como uma Gopi, uma pastora amante de Krishna. Destacar-se-á como trovadora itinerante do amor e da devoção, cantando em vários dialectos as suas experiências espirituais devocionais, a sua aspiração, a  visão (darshan)  no seu coração espiritual do seu adorado Krishna, a sua união com ele, com as suas dores de separação, as revelações e êxtases, sendo ainda hoje muito lida e musicada, e sobretudo estudada e meditada, pois foi claramente uma mestra espiritual, com profundo conhecimento e realização das doutrinas, métodos e níveis espirituais.

Música: Kanha Kanha tujh sang preet na - Meera bhajan (The sound of Soul)

«Pulsa, oh meu coração, com ardor com veemência,

Rompe os laços que te prendem ao mundo dos vai-vens,

Livre das peias, lança o voo para o azul para o infinito.


Nas profundezas do meu ser, eu sinto a sua presença indefinida.

No silêncio da noite, quando a paixão do Infinito me assalta,

Os ecos longínquos da sua flauta arrancam-me a vida do coração.


Nas manhãs luminosas, quando a magia da ilusão me arrebata,

A doce cadência da sua flauta lança-me no êxtase profundo  da oração,

Com o olhar sumido em mim mesma, a carícia do seu contacto me faz desmaiar.


Quando o sol triunfa no alto e a ânsia do Infinito [da Divindade] me inflama o seio,

E eu diviso o seu rosto azul [Sri Krishna] profundo em tudo o que me rodeia,

Luzindo como diadema sublime das penas de pavão,

O ritmo forte da sua flauta me desengana e transporta

Sem eu saber, desfalecido, fremente e oca,

Para o mundo vertiginoso do rodopiar da dança sagrada.


Ao cair da tarde quando o céu se veste de azul e oiro,

E o poente é um vasto leito cor de rosa envolto em nuvens doiradas

E da terra suplicante se evola para o azul a fragrância da erva sagrada,

No disco inflamado do sol que lentamente mergulha no mar,

O infinito revela-me a sua face transfigurada e acena-me...

Oh roubador dos corações, sem pátria nem morada, leva-me contigo!


A jornada para o Infinito, dizem os sábios da tradição,

É cortante como o gume afiado de uma navalha. Que importa!

O desejo do infinito divino é um peso cruel, pungente, angustioso,

Que cresce com o dia que passa e se avoluma sem cessar.

Se o corpo fatigado me não servir na dura marcha infindável

Farei dele a oferenda suprema às chamas rutilantes do fogo sagrado

Ou lançá-lo-ei às carícias das ondas do mar. Que importa!...

Para Mira, Infinita é a Vida, o Infinito o segredo do seu coração.»


 E nós, o que conseguimos, nestes tempos tão dispersos e preocupantes mundialmente, demandar e cultivar de aproximação e aspiração ao Espírito, ao Infinito, ao Divino na nossa consciência e coração, com quantos minutos, ressonâncias, destilações e assimilações do espírito, do Infinito e da presença Divina nos vamos alquimizando e com as quais entraremos mais luminosos e consciente no além, no mundo subtil espiritual? 

Demandemos e aspiremos  silenciosamente, ou com os cantos de Mira Bai e outros,  a a paz, o amor, a luz, a Divindade interna e a consciência subtil fraterna e espiritual, para que haja mais  harmonia e presença divina na Humanidade...

Que  bênçãos inspiradoras de Mira e do padre Alberto Mendonça cheguem até nós...


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Leonardo Coimbra: sua personalidade e seus problemas, por Sant'Anna Dionísio. O clima anímico de Leonardo e Antero...

Leonardo Coimbra (1883-1936), foi certamente no século XX um dos  maiores génios portugueses, destacando-se enquanto escritor, filósofo, professor, político, orador e ser religioso e espiritual embora a sua personalidade irreverente, irónica, livre e poética não fosse  apreciada por alguns, porque lhes fazia sombra,  que o atacaram por diversos modos. Teve contudo um impacto grande nos que o conheciam, ouviam ou liam, e sobretudo numa série de alunos e depois discípulos que germinaram sob a água e o fogo por ele lançado nas suas almas e que souberam apreciá-lo, e se fosse o caso criticamente mesmo, ou defendê-lo. Entre eles um se destacou, José Augusto Sant'anna Dionísio (1902-1991, licenciado em Filologia Românica e depois em Ciências Filosóficas), que chegou a ser com Leonardo Coimbra co-director da revista A Águia, para muitos  a mais influente e rica no século XXI. Foi mesmo dos primeiros, após a inesperada e trágica morte de Leonardo a atrever-se a mantê-lo vivo interrogando-se sobre a sua vida, personalidade e morte, que ocorrera nesse fatídico ou, no dizer de Teixeira de Pascoaes, diabólico, dia 2 de Janeiro de 1936, sendo mesmo quem discursou a 4 de Janeiro "no cemitério da Lapa, momentos antes do corpo de Leonardo Coimbra ser abandonado à Terra."

                                                

A 15 de Fevereiro, a mês e meio da morte de Leonardo, Sant´Anna Dionísio palestrava em Vila Real, onde era professor liceal (de 1935 a 1940), e o texto foi ampliado e rectificado para uma leitura na Casa da Imprensa e do Livro, no Porto, realizada, certamente com comovida assistência, a 31 de Março de 1936. Publicada ainda em 1936 em livro, Leonardo Coimbra. Contribuição para o conhecimento da sua personalidade e seus problemas, a obra sairá de novo à luz em 1983, com uma pequena (cinco páginas) mas intensa adenda, impressa sob a chancela da Lello & Irmão, Porto, num in-8º de 125 páginas, valiosas e pouco  estudadas. 

Ora como na década de oitenta me dei muito com Sant'Anna Dionísio, visitando-o em sua casa ao Campo Lindo, no Porto, e saindo com ele e Dalila Pereira da Costa algumas vezes, ao conservar o livro que me ofereceu com dedicatória, e que li e anotei, resolvi partilhar alguns extractos, seja pela excelente prosa, argúcia e sensibilidade de Sant'Anna Dionísio, seja para destacar melhor o valor de Leonardo Coimbra, tanto mais que o livrinho precioso e hoje quase ignorado foi pioneiro e profético, pois Sant' Anna Dionísio escreveu no prefácio  que «a sua contribuição para o estudo de Leonardo Coimbra não é mais do que o primeiro sinal de uma obra de reparação que será levada a cabo por um grupo de homens novos ligados à memória do pensador e professor pelo sentimento de que ele, além de ser um dos mais poderosos valores espirituais portugueses de qualquer época, foi o mais forte removedor das latentes propensões intelectuais [e espirituais] deles.»

Começa então Sant'Anna por justificar o «tentar exprimir uma preocupação de indagação que vive em nós há muito. Referimo-nos à preocupação que sempre existiu acessa na nossa intimidade, desde que o nosso espírito se cruzou com o de Leonardo Coimbra, de querer saber quem era, na sua mais profunda autenticidade, esse Homem; quais as ideias que, na realidade, eram fundamentais na sua maneira de ver as coisas; quais os motivos mais íntimos e sérios das suas reacções e viragens; qual em suma a sua verdadeira personalidade [e centelha espiritual central de si.]

Entra em seguida, com a sua magnífica linguagem, numa descrição dos aspectos mais notórios de Leonardo: como homem total, génio, convivente, professor, tribuno, escritor, pensador, filósofo e político, e a dado momento faz um desenho pessoal:  «Estruturalmente, Leonardo Coimbra, eis a primeira impressão pessoal -, parece-nos dever definir-se como um homem de temperamento fáustico. Os dois traços fundamentais, idiossincrásicos, da sua pessoa, eram o que nós supomos ser a característica essencial do homem deste tipo: o universalismo e a inquietação; ou, por outros dizeres: a aspiração de compreender, pela intuição convertível em conhecimento, as questões mais dramáticas da Existência. pondo ao serviço desse esforço todas as formas de saber e inquirir: as experiências científicas e as experiências afectivas, a indagação objectiva da Natureza e as técnicas tradicionais (ainda as mais acusadas de superstição), de comunicação com os Espíritos das coisas; a filosofia, a ciência, a medicina, a teologia, a magia! Leonardo Coimbra foi essencialmente um homem deste padrão. Por natureza, foi um homem que aspirou à compreensão inteira e íntima do Essencial; não porém,a compreensão integral e inefável que é dada pelos espasmos [êxtases, visões tocantes] da contemplação, - mas a compreensão aproximativa (digamos assim, se é lícito) que é possível vislumbrar pelo esforço porfiado da reflexão informada», continuando depois a desenvolver a ideia de que Leonardo «não era um homem temperamentalmente nascido para a fixação definitiva num modo de ver a Vida», nomeadamente religioso, mas sim o do exercício do pensamento especulativo livre. 

E assim, depois de nos revelar que Leonardo Coimbra, «na véspera mesma do desastre que o vitimou, estivesse para escrever  um estudo que seria a apologia dum livro [de Kierkegaard], traduzido para a nossa língua por sua indicação calorosa, e ao qual os franceses puseram o título estranho de Tratado do Desespero? - Na realidade, Leonardo Coimbra   foi um espírito que nasceu, pode dizer-se, para aspirar atingir uma verdade absoluta - mas, no fundo, ele viveu sempre no desespero surdo de sentir que não poderia esperar atingir essa verdade como, de modo veemente, desejava: pelo pensamento livre. A feição interrogativa, característica da sua dialéctica, não é senão uma expressão dessa desesperança subjacente - e toda a sua obra esforçada de crítica, de reflexão, não é senão uma prova de que ele desejava acima de tudo resolver os seus problemas pela meditação».

Considera pois Sant'Anna que Leonardo era um homem fáustico, que privilegiava a meditação discursiva, a especulação metafísica, a interrogação, a curiosidade insaciável do saber,  mais do que a adesão a um credo religioso ou a uma prática contemplativa,  e que portanto a aura e ambiente que irradiava não era a do religioso, pois  «o sinal mais significativo pelo qual se identifica o homem religioso é o clima moral, que o seu procedimento impecavelmente equânime irradia, Ora Leonardo Coimbra de modo nenhum foi uma individualidade equânime no modo de ser; e sobretudo de conviver. O que fez, verdadeiramente e sempre, perturbante a sua convivência foi a facilidade com que passava da seriedade mais profunda para a reação caustica, (libertina mesmo); e vice-versa. Por isso não irradiou nada que sugira esse clima - ao contrário, por exemplo, de Antero de Quental que, em vida, e desde cedo, foi cercado de um verdadeiro respeito profano de santidade, - não mercê da tranquilidade interior que, segundo as melhores presunções, o poeta-filósofo nunca atingiu, mas da constância da sua seriedade convivente. O clima que Leonardo Coimbra criou, e esse, sem dúvida, (ou pelo menos como se verá decerto no futuro) mais estimulante e largo que o de Antero, foi o clima intelectual, especulativo; sob esse aspecto não houve ainda entre nós quem o superasse; porque ninguém foi, de facto, entre nós, tão profundamente instruído acerca dos problemas essenciais e ao mesmo tempo tão decisivo na abertura de caminhos para certos sectores da vida espiritual, pouco menos que inexistentes para nós. Se fosse possível fazer a colheita inteira da sua actividade de agitador, como removedor de ideias, como conferencista, como orador político, como professor, como conversador de ocasião, - e adicionar a esta produção esparsa e imensa as controvérsias obscuras, e algumas de grande importância, que por vezes as suas orações e palestras suscitaram -, ter-se-ia seguramente o documento mais notável, no ponto de vista de cultura, de toda a história espiritual portuguesa (...)».  Anote-se que neste aspecto, já nos últimos anos, Pinharanda Gomes, secundado por Paulo Samuel conseguiram fazer um levantamento da obra leonardina bastante razoável e publicá-lo na editorial Verbo e na Fundação Lusíada.

Desenvolve em seguida melhor a caracterização de Leonardo como um pensador por imagens e depois por dialéctica conceptual, mas que dotado de sensibilidade grande e menor vontade disciplinadora, face a um meio adverso, enveredou ora pelo humorismo e a causticidade, ora por grandes elevações de horizontes que não eram bem compreendidos pelos seus ouvintes, já que Leonardo dotado de uma sede e capacidade insaciável de saber dominava o conhecimento até nas suas últimas descobertas científicas e punha já então em causa o determinismo materialista ("o abuso da óptica determinista, mecanista e entrópica"), realçando o valor da consciência, do pensamento livre, do fluir do espírito ("uma óptica da contingencialidade e da espontaneidade ascensional") para se poder captar a essência ou intimo das coisas e seres, embora o mistério da morte fosse para ele, mesmo tendo-o investigado até pelo espiritismo e o esoterismo, algo que o angustiaria ou deprimiria, pesem momentos de grande exaltação e crença na imortalidade e em Deus.

Sant'Anna Dionísio realçará muito a amplidão de horizontes a que a inteligência de Leonardo se aventurava, chegando a afirmar que, «se somente os homens que vivem de um modo constante, nos seus momentos de mais elevada intimidade, na preocupação da procura dum ângulo de inteligibilização global de todas as coisas, são filósofos, Leonardo Coimbra, foi depois de Antero, o único homem que mereceu, entre nós, o nome de filósofo.»

Muito importantes são as páginas consagradas ao mistério do sentido da morte em si, na demanda filosófica e espiritual de Leonardo e por fim na sua vida, já que este sofrera a morte do seu primeiro filho e reagira bem escrevendo a Luta pela Imortalidade, onde relatava as experiência metapsíquicas em que participara, e concluía afirmando a sua luta consciencial pela imortalidade, mas ainda sem certezas. E  por a morte  ser «o facto mais brutal e absurdo da Natureza», e de estarmos todos à mercê dela, lhe teria nascido uma certa angústia e desespero, já que era um ser convivente e de amor, «na sua mais grossa raiz temperamental era, em suma, um homem preso a esta margem».

Sant'Anna Dionísio considerará assim circunstancial e provavelmente não definitiva a conversão ao catolicismo de Leonardo: face à insuficiência da filosofia, recorria  à fé num Deus e numa religião para fugir do medo que sentia de novo por o seu 2º filho, muito doente, poder morrer. Não fora uma conversão transformadora, o pensamento indagador e livre que o caracterizava não aguentaria muito tempo num corpo doutrinário que o limitaria certamente, pois embora houvesse nele desde há muito «uma tendência acentuada para a aceitação formal do cristianismo como atitude de convivente e como concepção», isso não o impedia de confessar que nunca conseguira "sentir a realidade ontológica do pecado", ou de dizer que "se fosse católico, seria um católico anarquista", ou, à hora da morte, confessar que "nunca fizera mal a ninguém". 

Podemos resumir (a excelente obra)  e concluir dizendo que Leonardo Coimbra era de certo modo um mestre, um génio (e logo malquisto)  no abarcar e transmitir compreensivel e removedoramente a universalidade do conhecimento e um espírito tão poderoso na independência ética, reflexão, afirmação e diálogo livre, que não se deixaria amordaçar por qualquer sistema de crenças. Mas creio, ao contrário de Sant'Anna Dionísio, que ele até conseguiria permanecer no seio da Igreja Católica, exercendo equilibradamente o "lume rebelde da inquietação" e o da "reflexão livre" e agindo nela como um Fiel ou Cavaleiro do Amor, aprofundando até, com sua vastíssima inteligência e cultura, o que ele afirmara no prefácio à Luta pela Imortalidade, conter o Criacionismo, o seu primeiro livro:«era uma síntese filosófica sobre o mundo como uma sociedade de seres espirituais imperecíveis.»

«Ao Pedro Mota, ao seu espírito tranquilo e ávido de transmigração anímica, terrena e astral, oferece como singela expressão de discreta simpatia este opúsculo consagrado ao perdurável problema de uma "conversão religiosa". Porto, 21-V-1984, J. Sant'Anna Dionísio».~~ Brevemente abordaremos a conversão e morte de Leonardo, vistas por Teixeira de Pascoaes e Sant'Anna Dionísio. Muita luz e amor divinos neles!


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Um conto espiritual: Arhats e suas tentações e uniões. Os sonhos limitam a sabedoria luminosa? Há a ilha do Amor?

 

Um texto escrito já há algum tempo e concluído em 16 I 24. Aum mani padme hum!

É interessante sabermos que as primeiras divisões que ocorreram nos discípulos de Budha baseavam-se na hipótese do Arhat, o merecedor ou santo, ser ou não ser perfeito e, nomeadamente, poder sonhar com mulheres e ser tentado, derramando a sua energia sexual em sonho. 

Era a grave questão das poluções nocturnas: um monge considerado muito santo, um arhat, sonhara e a energia sexual saíra-lhe. Não podia ser mais considerado arhat ou mestre, pois não conseguia controlar a energia, reclamavam os mais antigos e austeros. Uns poucos, achavam que um arhat, embora significando um ser que atingira um estado iluminado, continuava a ser  humano e portanto sujeito à beleza feminina ou aos meros instintos, pelo que isso não diminuía as austeridades que exercera, o desprendimento das ilusões e do ego, a capacidade de trabalho, de dádiva e sobretudo de interiorização e penetração na realidade das coisas em si e do Universo transitórios.

Esta realidade íntima dos seres e das coisas também andava em debate e perplexidades: era mesmo vazio, ilusão, ou os seres teriam uma certa realidade, e portanto o amor não seria um resquício da personalidade, um sonho vão, mas uma energia unitiva e libertadora de tal modo que, e quem saberia, a mulher com quem ele sonhara, o desejava também e que invisivelmente as duas almas se tinham encontrado e comungado a unidade de tal forma intensamente que o corpo cá em baixo dera de si mesmo os fundamentos generativos em oblação amorosa.

Se uns mais dados a visões de espíritos e deidades achavam que isso era bem possível, sem contudo quererem identificar a sua consorte, outros mais psicológicos consideravam que no homem havia a mulher e na mulher o homem, e que não se podia ter a certeza se a relação sexual onírica não tinha sido com a sua anima, a sua parte feminina, quem sabe se a definhar no isolamento austero do mosteiro e por isso reclamando a sua parte.

 "Nem só de ideias, renúncias e orações vive o homem", afirmavam uns, enquanto que outros defendiam que a sensibilidade imaginativa, amorosa e compassiva, a anima feminina, vive tanto na psique e animus masculino, como no corpo e não  deve ser ostracizada e condenada mas apenas controlada.

Os debates prolongaram-se por meses, e os mais experimentados nas lutas ascéticas da juventude não consideravam o caso grave: era natural que a energia seminal saísse de tempos a tempos pois a perfeição do arhat residia na sua capacidade de exercer a consciência de modo perfeito enquanto desperto e vigilante, mas que não se lhe podia pedir que controlasse o corpo, quando este estava adormecido.

Pensava-se no que o Buddha diria, e se ele alguma vez sonhara com a sua bela mulher, e se por acaso alguma vez tivera uma polução nocturna, sobretudo quando no parque das Gazelas, algumas cortesãs de corpos mais plenos o rodeavam embevecidas pelo Amor que dele emanava. Mas onde estaria ele naquele momento, para lhes dissipar as nuvens das dúvidas?

Dissolvido o seu ego, restava ainda alguma entidade que os pudesse ajudar? Sempre haveria um espírito-alma individual que continuava a inspirar os que o invocavam ou os que tinham entrado no nobre caminho óctuplo da Verdade?

Por fim triunfou a voz da razão compassiva: nada se deve dogmatizar e absolutizar, e poderia alguma vez estar Prajna, a elevada sabedoria do discernimento luminoso, alcançada e exercida pelos Arhats e Bodhisatvas, dependente e limitada pelos sonhos e uma necessidade psico-somática?

O arhat respirou fundo: poderia continuar a exercer-se nas práticas contemplativas já não só da vacuidade de todos os seres e coisas, agarrado a tal como tábua de salvação no oceano de Mara, mas admitir  que a sua alma profunda lhe transmitisse vislumbres do eterno feminino, da deusa e shakti (energia) interna dentro de si.

Veio a constar mais tarde que, dias depois, o arhat sonhou que dentro de si uma grande serpente perdera a pele velha e se transformara numa bela princesa e, dando-lhe a mão, sussurara: "Eu sou tu, tu és eu", e que nesse momento o seu ser unido a ela se expandira no universo, vivenciando a compaixão e felicidade mais intensas que jamais experimentara ou conceberia, chegando por fim a uma ilha do Amor Búdico. Quando, à hora da partida da Terra, transmitiu aos companheiros e discípulos o testamento anímico da sua vida, e estes o assimilaram e revelaram depois aos outros, um novo debate se iniciou:

Deveremos admitir e procurar, no seio do subtil Oceano cósmico, uma ilha do Amor,  a ilha dos Amores, as ilhas do Amor, e serão elas utópicas ou reais, imortais ou nirvânicas?