terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Visita e diálogo com a filha de Bô Yin Râ, Datti Schneiderfranken, na villa Gladiola, Massagno, Lugano, Suíça. 2010.

 Visita na sua casa, a villa Gladiola, em Massagno, Lugano, Suíça, a Datti Schneiderfranken, última filha do pintor e mestre espiritual alemão Bô Yin Râ (Joseph Anton Schneiderfranken,1876-1943) e de sua mulher Gattin, ainda viva nos seus 91 anos bem lúcidos, embora com alguns problemas de verticalidade na coluna vertebral.
                                                
Serve uma bebida agradável, que eu brindo a Bô Yin Râ e a nós. Falamos descontraidamente em língua francesa cerca de uma hora e meia numa das salas, rodeados dos quadros de Bô Yin Râ nas paredes, alguns dos quais que ainda não conhecia. À saída mostra-me da porta uma sala ou quarto onde estão muitos quadros de Bô Yin Râ armazenados.
                                                
               Uma das gravuras de Yoshijiro Urushibara a partir de uma obra de Bô Yin Râ...
Também estão expostas gravuras dum japonês, Yoshijiro (Mokuchu) Urushibara, uma delas baseads numa pintura de Bô Yin Râ e que editou numa impressão de 200 exemplares, e nela desfrutamos da Grécia e da Natureza, em beleza...
                                               
O poderoso retrato de Jesus, feito a partir da sua comunhão anímico-espiritual com o mestre, e do qual tenho
 uma reprodução na minha sala e que me acompanha já há alguns anos ( reproduzida em cima), encontra-se aqui e Jesus parece mais pequeno mas com uma coloração mais amarela, quente, luminosa, seja por ser o original e estar carregado de forças, seja pelas reproduções diminuírem o seu brilho. Datti dá-me e à Maria Valentina dois postais de reproduções de obras de Bô Yin Râ. Peço-lhe para assinar dois livros e ela assim o faz, a lápis, tal como assinava também o seu pai.
                            
                                    
Durante a conversa esclareceu-me que não fora a sua mãe Gattin, mas a primeira mulher de Bô Yin Râ, médica de profissão, quem se interessara pelos mistérios gregos da Antiguidade, e a quem Bô Yin Râ se refere num dos seus livros. Quanto a alguns dos objectos orientais presentes, provieram dum tio da primeira mulher, que viajava muito, tal um belo vaso em metal.
Conto-lhe o meu percurso e a minha situação actual e ela sugere calmamente que viver só das traduções do Bô Yin Râ não chegaria certamente. E que para se publicarem os livros o tradutor precisa ser um bom conhecedor do alemão e do ensinamento do Bô Yin Râ, algo que eu certamente não sou.
Não há hoje em Lugano muita gente que conheça Bô Yin Râ ou siga os ensinamentos dele. Apenas alguns operários que foram aprendizes nos anos 30 e 40. Já Emil Zillig, com quem me tenho correspondido e de quem lhe falei, é um bom conhecedor do ensinamento, sendo ainda o actual responsável das traduções francesas e membro da fundação Stiftung Bô Yin Râ, sediada em Basileia.
Datti tinha 24 anos quando o pai, Bô Yin Râ, morreu em 1943, não inesperadamente mas em consequência duma doença prolongada e com várias causas e sintomas. Não explica bem a doença mas diz que foi o resultado do desgaste da sua vida (na fotografia em baixo, com 66 anos e a sua mulher Gattin). E que, muito cansado, não podia falar tanto para ela, então com 24 anos, para a ensina
r, e que era mais como pai e filha que surgia o ensinamento.
                                       
Em relação às forças ou impulsões es
pirituais revelou que Bô Yin Râ tinha alguns planos ou projectos para pinturas que não completou, mas os ideais ou as forças passam de uns para outros. Perguntando-lhe do perigo de não satisfazermos os nossos desejos e aspirações. respondeu-me  que não devia haver tanto receio das impulsões, ou desejos de fazer isto e aquilo e que não conseguimos completar em vida, pois eles  depois passam para outras pessoas para as (e se...) completarem, pois tal é natural. Lembro-me contudo que Bô Yin Râ no seu Livro do Além, recomenda não criarmos muitas impulsões que não podemos realizar em vida, porque depois ficamos algo atados a elas até que se realizem. Datti transmite talvez uma visão mais desprendida destas energias.

Diz-me que também lhe é natural aceitar facilmente a morte e, no último caso, de um seu familiar há meio ano, porque quem como nós conhece o ensinamento sabe bem da vida post-mortem e ainda porque já se tem certos graus ou níveis de auto-consciencialização.

Assim terminou o testemunho escrito à noite, mas algo à pressa [e a letra ressente-se...)  e claramente para continuar mais tarde.

*** Há pouco, quinze dias passados, folheando este caderno, resolvi continuar a transcrever memórias da conversa com Datti (ou Devadatti) Schneiderfranken, nascida em 1919, e relembrei-me que, como no livro  Wegweiser, em francês Jalons, o seu pai escrevera que durante centenas de anos ninguém daria um novo ensinamento espiritual tão valioso como o dele, lhe perguntei o que pensa de tal, já que muita gente descrê disso, mas ela calma não parece ter dúvidas de ser verdade que o ensinamento de Bô Yin Râ é o melhor que a Humanidade terá para mil anos.

Já antes a interrogara quanto ao ritmo lento da divulgação e acolhimento do ensinamento de Bô Yin Râ, comparado com o ritmo muito mais rápido de nova Era e esoterismos  superficiais, o Carnaval ocultista,  como lhe chama Bô Yin Râ, e Datti responde que é o que tem de ser, e que não nos devemos preocupar em o acelerar, mas antes deixar desenrolar naturalmente o que  tem de ser...

Outra dúvida que tinha e lhe pus foi, a propósito de Bô Yin Râ ter escrito que Lutero tinha feito uma obra algo frustre mas que abrira caminho e lançara bases para outros que a completariam, se haveria aqui  uma referência a ele próprio Bô Yin Râ, mas ela responde que não, e de facto foram obras e ensinamentos a níveis bem diferentes...

Acerca da casa editora parisiense Librairie Médicis, a minha grande fonte de leitura da obra de Bô Yin Râ, já que traduziram e editaram cerca de uma vintena de livros, disse que o fundador dela tinha grande devoção pelo ensinamento e que era amigo do barão Robert de Winspeare, de quem eu li uma obra acerca do ensinamento de Bô Yin Râ e que fora publicada em 2ª edição  pelo mestre francês, de Kriya Yoga e simultaneamente da linha de Bô Yin Râ,  Rishi Atri, e que foi ele quem me iniciou na via de Bô Yin Râ.

 Por cima da secretária estão algumas fotografias dele, da mulher, das filhas e uma de Robert Winspeare e Bô Yin Râ. No átrio da casa está um busto de Bô Yin Râ, uma fotografia da mulher e umas flores, mas passamos por eles sem nos determos e não faço perguntas ou observações. Apenas me detive para tirar uma fotografia a falar ao telefone, saudando de todo o meu ser Bô Yin Râ, em sua casa e no seu próprio telefone antigo. Já fora de casa a Maria Valentina tirou uma fotografia da afável senhora Datti comigo, à porta da entrada, e era a última do rolo. [Anos mais tarde, em 2019, tornaria a subir a pequena escadaria e franquear a entrada aquando da discreta inauguração da casa museu, preparada após a partida de Datti da Terra em 2015].

Mostrou-me alguns livros escritos, e não há muitos, sobre o ensinamento do seu pai e dado que há poucos livros traduzidos para português (um por mim) e brasileiro (dois) admite a ideia de eu escrever sobre o seu ensinamento. Quanto à nacionalidade do misterioso mestre de Bô Yin Râ, à minha pergunta se era indiano, respondeu  que era dos Himalaias, não especificando mais. É um dos mistérios da sua vida, embora haja algumas referências a ele de René Guénon, Hiran Singh (ou Narad Mani) e Paul Chacornac, e uma pintura até dele...

** Chegado a Milão, após os dois dias em Lugano. Na noite seguinte ao encontro com a filha de Bô Yin Râ tive imagens fortes de pequenos quadros que seriam espirituais ou dele e que provinham dos lados do horizonte da minha visão interior, e a mensagem compreensão foi a de que o olho espiritual se abre por vezes por todos os lados ou, melhor, se vê por e para todos os lados, como as abóbadas pequenas de certas capelas nos fazem lembrar, tal como experimentei algo hoje nas deambulações arquitectónicas vespertinas por Milão. Uma praça bela de sabor renascentista, a piazza Mercanti.

Ontem estivemos no monte S. Salvador, ponto alto sobre Lugano, com boa vibração. A igreja de santa Maria dos Anjos é a mais bela e valiosa, com belos frescos do séc. XVI e seguintes. Meditações de rápida comunicação de sentimentos para com Anjos, mestres e espíritos amigos.

Comprei três livros antigos de razoável sabedoria: de S. João Damasceno, Cirilo de Alexandria  e Ludovico Castelvetro. Há muita riqueza mas também muita dispersão nas cidades. Esta viagem e peregrinação à casa de Bô Yin Râ  não teve grandes heroísmos ou devoções, excepto uns cantos e sons proferidos em S. Salvador, um belo pôr do sol em simultâneo com uma erupção de sinos a tocarem quando saíamos da valiosa visita dialogante a Datti na casa de Bô Yin Râ e duas comunhões da Eucaristia, uma  na igreja de S. Carlos em Lugano, outra na igreja dos dominicanos em S. Maria del Cruzal. E algumas orações e meditações mais conseguidas, nomeadamente a das imagens dos mundos espirituais, na linha de Bô Yin Râ, e que a pintura seguinte (óptima para contemplação) mostra e finaliza inspiradoramente este grato testemunho de homenagem reconhecida a Bô Yin Râ, a Gattin e a Datti Schneiderfranken. Lux, Amor!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Ensaios Espirituais: viver plenamente o presente, o difícil e o único, nas três Graças, no Espírito e na Divindade.

                                    

Sabermos aprofundar os momentos valiosos, os locais bons ou belos, as situações estimulantes, harmoniosas ou únicas, as mudanças e desenlaces libertadores, mas também as dores e as dificuldades, passa por uma assunção deles plena, isto é, com todo o nosso ser, pensante, sentiente, criativo, espiritual, universal...

Deste modo o que foi ou é pensado, sentido e vivido mais intensificadamente, se for bem enfrentado e assimilado, torna-se parte integrante do nosso ser presente e perene e propulsiona o processo de despertar, nosso e dos outros seres, frutificador no futuro, mesmo para além da morte, gerando efeitos belos, úteis e luminosos...

Em cada momento, em cada grau da nossa escada, há degraus à frente e é da atenção, força e consciência manifestada, que já foi testada, recolhida e desenvolvida nos estágios anteriores, que recebemos também forças para interagirmos plenamente (em amor e sabedoria) no presente e no futuro e nos guindarmos aos degraus seguintes de desprendimento, de compreensão, de gnose, de expansões consciencial e visão espiritual.

É diariamente, cumprindo as pequenas tarefas ou objectivos, que vamos capacitando-nos para realizar as grandes tarefas e fazer desabrochar as sementes que, lançadas agora harmoniosamente à terra, querem germinar e ser benéficas no presente e futuro...

Certamente nem toda gente tem a visão da vida como uma subida de escadas ou degraus, seja de madeira, em caracol ou talhada na terra montanhosa, granítica ou xistosa, mas deveríamos a cada momento ter mais consciência do que acabámos de deixar para trás, onde nos encontramos, que caminho bifurcado em Y pitagórico nos desafia, nomeadamente quanto aos estados conscienciais que deveremos cultivar,  com quem estar ou comunicar e o que de melhor de qualidades podemos desenvolver, num conjunto de decisões e trabalhos que, ao interpelarem-nos, geram esforços, capacidades, ideais, encontros, obras, bênçãos e graças.

 Assim, a gratidão pela estação do nosso percurso onde estamos é fundamental. Ou seja, estar no aqui e agora com  gratidão, alegria e plena atenção e, logo, sentirmos que tal felicidade e a aspiração à consciência de Deus baseiam-se numa vida justa, amorosa e harmoniosa e no darmos graças à Divindade e à sua Hierarquia, tanto mais que tal impulsiona outros a se alinharem e darem graças também. E os que se sentem bem pelo que nós partilhamos  crescem também no bem e podem sentir mais a subtil presença espiritual interna ou ainda a do Amor unificador, que brota do coração ou que se derrama do Sol no Cosmos e na atmosfera.

Deste modo, neste círculo ou elo de graças, a gratidão funda-se e eleva-se da Terra e retorna ao Céu e ao Sol, pois a sua etericidade e leveza substancial fazem-na facilmente chegar aos mundos espirituais, manifestando a unidade subjacente de Amor, que é no fundo também a base da vida social em comunidade e não em competição e imperialismo e, portanto, do progresso evolutivo dos seres, tornando-nos mais transparentes, redondos e condutores-transmissores do Amor...

Saibamos pois aproveitar os momentos mais saudáveis, luminosos ou decisivos do dia a dia, ou das nossas vidas, e não os deixemos partir ingloriamente (e "glória", doxa em grego, e kvarnath em persa, significa luz, resplendor), nem serem soterrados sob novos dados de informação ou de consumo, tão frenéticos hoje, antes consigamos percepcionar a luz interna  e deleitar-nos um pouco, no nosso íntimo, na gratidão, no Amor aos seres, à vida e à Divindade adorável, sob que forma, tradição ou face afim...

Ou seja, vivamos mais no aqui e agora pleno, no qual a transparência e a unidade dos mundos e seres pode  ser mais sentida ou vivenciada com a Graça do Amor libertador a brilhar e a Divindade a ser intuída no círculo e na circulação do que é recebido, amado e gratamente devolvido, ou  reintegrado, o que foi representado nas Três Graças por tantos pintores e escultores, e glosada por filósofos e espirituais, sobretudo no Renascimento, e a imagem que vemos mais à frente é de Rafael: Recebemos da Divindade e do Cosmos, damos e partilhamos aos outros e numa linha ascendente de gratidão as energias amorosas retornam à Fonte, donde se derramarão de novo em chuva de bênçãos e inspirações sobre os seres nos mundos intermediários e finalmente em nós, numa circularidade geral...

Saibamos pois constantemente sentir o que vivemos com gratidão elevante e abençoante: seja o que se passou há umas horas e que é agora oferecido em amor e em memorização amorosa aos que participaram e aos seres dos planos superiores, seja o que se encontra virginalmente diante do tempo que nos resta por trabalhar nesta peregrinação terrena: - Venha a nós o vosso dinamismo vivo, ó graça do Amor...

Saibamos pois peregrinar e navegar corajosamente e plenamente os momentos ora mais difíceis ora mais especiais e invulgares e que  apelam às nossas melhores qualidades ou virtudes e à descida ou assunção do espírito dinâmico, tendo presente e vivo o importante reconhecimento do valor do presente intenso do dito nipónico: icchi go, icchi e, um momento único na vida, irrepetível. E podem ser muitos...

Tentemos então descobri-los e criá-los mais pela nossa plena atenção e amor, unindo o exterior e o interior, quem somos e o que queremos ser, os outros e nós, por todos e por nós, pelo Cosmos e pelo Divino e seus fiéis do Amor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

"Ensaios espirituais": das incertezas e sonhos ao discernimento e à Luz, por Pedro Teixeira da Mota,

Texto do livro futuro Ensaios Espirituais, com três pinturas de Bô Yin Râ, do livro Welten, a 1ª intitulada Labirinto,  a 2ª Te Deum LaudamusA Ti, Deus, te louvamos, e a 3ª Emanação.

Por vezes, os afluxos de informações contraditórias e as incertezas e mudanças tornam-se tão constantes na vida das pessoas, tornada algo labiríntica, que quase perdemos a noção de continuidade, de estabilidade, de identidade própria, de eu, de individuação e de auto-realização espiritual.

Algumas escolas filosófico-religiosas antigas realçaram que tudo seria ou é fluxo impermanente, mesmo a individualidade, mas alguns seres resistiram a tal caracterização do que é  vivenciável, de certo modo desvalorizadora do eu, e conseguiram aprofundar com fidelidade valores, práticas, amizades e identidade,  chegando à hora da morte certos da sua indestrutibilidade consciencial. 

Também os que adoptaram ou agarraram-se a crenças religiosas de imortalidade, tais as do cristianismo, islão e mesmo até no budismo que nega o eu, criaram expectativas e sonhos de continuidade, paradísiaca até e, chegados à hora da morte, e passado o canal estreito, não ficaram perdidos nem totalmente adormecidos. Mas quem sabe ao certo as rotas e veredas que se patenteiam ou abrem às pessoas que conseguem ter a mobilidade subtil que lhes permite internarem-se no além e deixarem as praias e costas da terra física?

Para quem não é clarividente, e há pouquíssimas pessoas que o sejam com segurança, para quem não pratica com regularidade e algum fruto as meditações da Arte de Bem Morrer em vida, é de noite, no dormir, que as paisagens e interacções de alguns sonhos podem indicar, em geral de um modo subtil, enigmático, indirecto, em que níveis estamos e por que caminhos passaremos, ficando à nossa incerta adivinhação os planos subtis que mereceremos e onde mais ou menos tempo estacionaremos,

Os sonhos provocam a sensação ou tomada de consciência que a vida, embora tão evanescente, ligeira, ilusória, pois  ninguém conseguirá controlar todos os seus actos de dia ou os seus tão finos sonhos nocturnos, tem contudo uma ordem, razão ou inteligência que passa por nós, ou que em nós está incarnada, activa, manifestada, visível mesmo nessa actividade onírica da mente e da alma...

Tal controle pleno da vida relacional e dos sonhos é na realidade impossível, pesem as tentativas de sonho lúcido,  porque eles são tanto meras associações semi-automáticas de impressões e memórias, como também desenvolvimentos interiores da psique, livre da mente pessoal e social consciente na vigília, conseguindo viajar com a imaginação-consciência não apenas já limitada aos dados do quotidiano e  assim escapar às limitações, controles e opressões, que  mesmo no mundo astral existem, como que imitando ou replicando o que se passa de policiamentos ou repressões na Terra. Podemos dizer que ao haver mais controles exteriores sobre o exterior e  o interior das pessoas, ao haver mais violência e mercenários de forças e grupos opressivos, tal nos mundos subtis e nos sonhos pode repercutir-se. 

Mesmo as almas mais recolhidas em conventos, os ascetas, os eremitas e os yogis, dos que mais têm escapado ao longo da História dos laços e paixões do mundo,  viram por vezes os seus isolamentos  atravessados por estranhas visitações nocturnas, em certos casos as que eles menos desejariam ou esperariam, mas através desses confrontos desenvolveram a sua força de vontade, a que pode fazer exactamente diminuir tanto a impermanência do bem e do espírito como as ilusões, vaidades e opressões que os reis ou dirigentes foram e vão impingindo, obtendo ainda frequentemente a experiência de serem apoiados pelos seres e forças subtis que conseguem invocar, amar e merecer.

Cada ser porém será  sempre um mistério pois não só não nos conhecemos plenamente como também nunca saberemos o que vamos sonhar ou o que o dia de amanhã nos vai trazer ou proporcionar, por mais intuitivos que estejamos, por mais metódicos e regulares sejamos.

É claro que as pessoas com quem queremos ou aceitamos estarem mais próximas de nós, ou mais ligadas afectivamente, transmitem influências, originando encadeamentos de causas e consequências que tanto nos podem arrastar para uma impermanência ou uma infelicidade de valores e realizações, como para nos impulsionar para estágios de felicidade e iluminação, para referir os extremos, que se tocam mais vezes do que se pensa na medida em que este mundo da manifestação psico-física assenta na lei dos opostos e da complementaridade, a qual funciona tanto como lei de atracção e de Amor, como ainda de repulsão ou não Amor, já  estando fora desta polaridade natural o ódio, ao ser uma energia nociva psico-somaticamente,  proveniente dum ser, visível ou invisível, em desequilíbrio negativo, destrutivo, maléfico.

Um dos mais necessários requisitos no nossos dias será então a serenidade pois ela permite o desanuviamento, o discernimento, a lucidez e a ligação com o mundo interior e espiritual, e por isso não nos admiremos por os noticiários tentarem causar medo e apreensões para que as pessoas se percam e se tornem autómatos consumidores do que se lhe impinge mais ou menos sedutoramente.

Evitarmos tais lavagens cerebrais, evitar ou repelir a comunicação social, nomeadamente antes de adormecermos, é importante, não só para preservarmos alguma pureza de intimidade e um bom ambiente onírico, não só porque queiramos ver o que gostamos, numa vida mais ou menos de aperfeiçoamento ou de evolução, mas apenas porque não queremos ignorar o interior mais profundo e espiritual que nos desafia ou interpela, embora sem fecharmos os olhos às imperfeições e erros nossos e dos outros, os quais podem vir a fazer-nos despenhar pelas ravinas de desequilíbrios, doenças, vícios e assim entrarmos em certa impotência, angustia e desânimo, como em tanta gente se verifica, e que as leva a afundarem-se mais nas teias armadilhadas das televisões, consumismos e redes sociais.

Com uma regularidade perseverante deveremos então escapar da mediocridade horizontal e verticalizar a nossa consciência. Assim  foi prática dos iniciados dos mistérios e confrarias antigas concentrarem todas as suas forças em certos momentos orativos e meditativos, pondo  em movimento alinhado, sincronizado ou ressoante as suas antenas internas com as finas camadas do subtil éter por onde poderiam receber as inspirações ou confirmações adequadas provenientes de níveis superiores e supra-sensoriais e seus seres, em geral designados como guias, mestres, anjos, deuses e a Divindade, e: - "Louvada, sentida, acolhida e amada seja Ela em nós e em todos: - Viva Deus, todo poderoso."

Certamente não estamos a propor a demissão da assunção do ser humano como centro independente, mas apenas se aponta a necessidade e humildade de se reconhecer a relatividade das nossas capacidades actuais de conhecimento e execução, e aceitar e desejar as inspirações do alto, as ajudas de espíritos, santas, mestres, anjos e deuses, ou faces da Divindade.

Todos nós nos debatemos por vezes entre dúvidas e esperanças, nas bifurcações do Y pitagórica, ora de face erguida ora cabisbaixa, até podermos ir atingindo esse meio termo, que sempre se enalteceu e que poderíamos chamar de presença consciente, ”singramento do coração”,  abertura firme ao espírito,  e em que a ressonância do som, palavra e mantra, e a disposição de oração mais permanente, se pode efectivaram, mais ou menos conforme as necessidades e a nossa aspiração de libertação e união, e capacidade de por ela lutar...

Todavia a nossa vida é muitas vezes mais uma mistura de altos e baixos, de forças e fraquezas, de certezas e questões irresolúveis, de que a tal oração sem cessar, ou plena consciência permanente, pelo que em geral não estamos suficientemente alinhados e orientados para sabermos se os passos que estamos a dar serão os melhores quanto às direcções e resultados.

Caber-nos-á pois ter mais presente diariamente quais os estados conscienciais, os sítios ou os objectivos em que queremos estar ou atingir, e discriminar os meios mais apropriados e, logo, fazermos ou aplicarmos tais meios e demandas no Caminho, tanto mais que para muitos o sol da vida já vai alto e os resultados anímicos substanciais são escassos e demoram a formar-se...

Se é a sobrevivência, a saúde, o dinheiro, os prazeres, a família, a verdade ou Deus o que mais vale na vida, só cada um o poderá decidir por si. E nestas escolhas todos deveríamos ser originais, independentes, hereges ou heterodoxos, se não queremos continuar a estar vendidos, alienados, manipulados e escravizados.

Este despertar, perseverante, é certamente custoso, pois teremos de vencer hábitos e instintos, pressões sociais e gregárias, mas sempre foi dito que o caminho para o cimo da montanha, para o céu, para a luz e ao amor, é dificultoso, áspero, ad astra per aspera.

Saibamos pois criar, cultivar e comungar do fogo de aspiração ao amor, ao espírito e à Divindade e, como fiéis e cavaleiros e cavaleiras do Amor, vencer dinamicamente as preguiças e dispersões, e prudentemente as censuras, ameaças e estocadas.

É discernindo constantemente a verdade da mentira e meditando frequentemente, que conseguimos sonhar e viver melhor e, mais ligados às profundezas e altitudes interiores, unificar-nos animicamente e sentir a adoração grata à Divindade, nossa fonte primordial.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Fragmentos de um livro de subidas às Montanhas. Com fotografias do Gerês transmontano.

                                                   

Não haverá muitas melhores maneiras de conhecer a alma das pedras e penedos, cristais e fragas, vales e montes do que subir a uma montanha, escalá-la com a força das mãos e dos pés, da alma e do espírito e encontrar os apoios imensos que ela nos dá para não cairmos e para chegarmos onde queremos parar e sentir, orar e contemplar, e a alma expandir...

Cumprido o esforço ascendente, ela pode oferecer-nos cadeirões, em 1ª fila, de gigantescos anfiteatros donde avistamos o horizonte imenso, qual mundo desdobrado aos nossos pés, abrindo-se por sucessivos planos ao infinito. Já outras vezes elas são ao longe catedrais naturais nos seus recortes e cumeadas permitindo-nos, frente ao sol nascente ou poente, filtrado por nuvens de efeitos sublimes, sentirmos a adoração à Divindade cósmica e intuirmos e participarmos no templo espiritual da  Humanidade. 

Outras vezes abrem-se e desvelam-se em recantos inesperados, frondosos e frescos do arvoredo ou abruptos e dilacerantes do matagal, solitários ou com aves e animais que nos encantam. Mas testam-nos, obrigando-nos ao esforço, à atenção plena, seja nas subidas como nas descidas, e em que um pé em falso, uma distracção pode significar queda e aflição.  Isto e muito mais nos oferecem com muito amor as pedras, as fragas grandiosas, os trilhos e caminhos das montanhas, tal por exemplo, das que conheço melhor, do Gerês, Marão, Estrela...  

Mas muito mais nos transmitem se damos tempo a que os ventos soprados por entre elas limpem os nossos ouvidos e olhos, por vezes pedindo-nos mesmo para tirarmos os óculos, se os levamos, limpando-nos os ouvidos e os olhos algo até molhados e, sentados, oremos, meditemos e contemplemos o tempo suficiente para recebermos intuições, das árvores e penedos, nuvens ou horizontes, anjos e espírito...


É natural suspeitar-se da maior acessibilidade da vida invisível nestes altos e cimos de montes rarefeitos, entrecortados com anfiteatros e clareiras revestidas de árvores centenárias e de erva bem verde, quem sabe se para danças das subtis fadas e sílfides, rodeadas de sisudos e acerados penedos, os quais mesmo assim vão-se derretendo em grãos de mica e quartzo, esboroando-se ao longo dos séculos, para constituírem com mais alguma matéria orgânica o solo, o nutriente do reino vegetal e sobre o qual o animal e o humano se erguerão, alimentando-se e gerando novas formas de vida, mais livres e ricas de movimentos, de expressão, de qualidades.

 Como faces mudas e quedas emergem do solo,  poderosas e estranhas, meio humanas meio espíritos da natureza, em figurações de índios dos Andes, anões, budas. Mas não são apenas força e poder o que a almas das penedos nos sugere e transmite por associações interiores. Muitas vezes é fragilidade, suavidade, ligeireza, tais as pedras bolideiras, ovais quase a balançarem nos cimos, parecendo bocas abertas ao infinito, ou ovos que ecoam o Caos primordial ou as explosões vulcânicas que as projectaram remotamente e agora docemente se deixaram amestrar por uma mão que nelas se pousa e as faz oscilar, e até com palavras ou orações tremer e irradiar.

                                  

Dos cultos e ritos que as pedras proporcionaram ou ainda providenciam todos adivinhamos pela riqueza infinita de práticas que as anfractuosidades, covinhas, orifícios, regos, inscrições e picos permitem, e nelas podemos até colocar alguma estatueta portátil, ou ver os alinhamentos e interacções do Sol e da Lua em harmonia com elas. Mas também podemos trabalhar os elementos, tal a água que sorvemos ou o óleo que se derramou, ou o fogo nelas ateado, em chama que crepita e se ergue para o alto, por vezes com  tomilho, rosmaninho ou alecrim encontrado junto aos trilhos, ou trazido com incenso de antemão.

Algumas destas fragas, difíceis de se escalar, são verdadeiros cavalos onde nos encavalitamos e ora observamos as maravilhas envolventes e descobrimos novas faces ou facetas que nos são presenteadas, ora pressentimos as correntes telúricas que passam por nós e nos fortificam, ou apenas comungamos gratos com o que sentimos de imenso,  infinito, eterno.

                                   
Por vezes intuímos nas fragas, ou em árvores, faces sorridentes de gnomos e anões, divertidos por verem um humano a sondar a alma das pedras, ou os animais que elas nos sugerem, no fundo a alma do mundo que as sustenta. E assim figuras míticas, psico-mórficas ou imaginadas surgem do ambiente e da memória colectiva, tal o gato da Alice nos país das Maravilhas, ou o Dragão, a Serpente, o Urso, o Cão, o Sapo, o Lagarto e, graças a essa nossa capacidade receptiva plástica que abre as portas, ou usa a chave da receptividade empática, podemos ir mais fundo na comunhão com a Natureza e a sua pluridimensionalidade de seres e informação.

Há  fragas ou pedras que são tão ricas de formas e funcionalidades e que se abrem em grutas convidativas a nelas se penetrar e até mesmo deitar, pedindo-nos: - "Deita-te aqui amigo". E aí estamos nós presenteados com uma cama de colchão de relativa suavidade, com erva e giestas à mistura, com vista directa para o céu e por vezes travesseiro de musgo. Quantos animais ou seres ali se protegeram, descansaram e refrescaram? Que conversas ou ritos aqui se travaram?

E tudo oferecido gratuitamente apenas com a condição do nosso corpo espiritual vibrar com o subtil das pedras e gruta e, de algum modo osmótico, conseguirmos intensificá-lo e concentrar-nos.

Mas as forças anímicas que realizamos nestas fragas ocas, nestas trocas calmas, nestas aberturas para o céu, nestas meditações, com guardiões esfíngicos rodeando o nosso corpo, ligando o céu e a terra, são sempre um mistério, mas querido, apreciado e assimilado ainda que semi-conscientemente...


Por vezes descobrimos nos penedos pedras viradas para o Sol nascente e a contemplá-lo diariamente há milénios: são as pedras contemplativas, algumas já só cabeças, o resto  desagregado para os solos férteis dos arredores e até, com as chuvadas, dos vales mais distantes, elas só mantendo ainda certa comunhão com as alturas, as nuvens, as estrelas cintilantes e cadentes e, quem sabe, com os Devas e espíritos celestiais e solares...

Em cada subida a um monte ou uma montanha, através sobretudo das esforços e conseguimentos,  esculpimos o nosso corpo espiritual e não o deixamos mais apenas potencial adormecido mas antes o dotamos de alturas e relevos, cores, profundidade e infinitude,  e o que foi sendo trilhado e vencido, sentido e assimilado fica no graal do coração e estará sempre pronto a arder e a iluminar-nos e impulsionar-nos....

                             

domingo, 12 de dezembro de 2021

Da meditação e do discernimento. O Y pitagórico e as escolhas e vias mais luminosas, agora e no além.

 É vital cada alma ir lendo e escrevendo, reflectindo e meditando, dialogando e tentando compreender-se melhor, tanto a essência ou espírito, com o seu projecto de vida, como o que cada um vai sendo e projectando, conhecendo e realizando no mundo, que pode não ser o que o seu espírito quereria ou devia, mas o que resulta face às características e limitações da sua educação, treino e pessoas que a afectam ou com quem se associa, nomeadamente nas interacções sociais,  frequentemente algo alienantes ou superficializantes...

Discernir a actividade justa ou a ser elegida prioritariamente pela sua criatividade e utilidade, beleza e valor, é algo que diariamente nos  desafia, entre a liberdade de escolhas que possamos desfrutar, com consequências importantes para nós e os outros, e até para além  desta vida. Infelizmente não estamos conscientes do que haveremos de encontrar e vivenciar no post-mortem, tanto mais que a Arte de Bem Morrer, por exemplo trabalhada pelos pitagóricos e Erasmo, não se pratica e escapa-nos portanto o que de mais necessário ou valioso  deveríamos realizar em vida física terrena...

                                     

"- Foste à Terra física, recebeste tantas energias e apoios no teu caminho, e o que realizaste em ti e levas contigo, e o que partilhaste ou transmitiste aos outros e deixas a frutificar?

 - Quantas vezes pensaste, meditaste e escreveste sobre o que és,  sabes,  podes, fazes e no que te deves aperfeiçoar para  melhorar o conhecimento e o amor, a justiça e a fraternidade na humanidade e no planeta?

Todavia, dispersamo-nos demasiado com as pessoas, as notícias, os filmes, o mundo, a internet, as redes sociais, os objectos, as roupas, as comidas e enfraquecemos o essencial:  a vida harmoniosa e criativa, a realização interna espiritual,  e a adoração e a religação à Fonte Divina. Ora são estas conexões  que nos dão forças e capacidades de melhorar o nosso alinhamento e discernimento e e diminuirmos ou vencermos assim ilusões e dúvidas, obstáculos e erros. 

Quando meditamos diariamente, tendo como base o querermos aprofundar os mistérios da vida e cumprir os desígnios mais elevados possíveis, gera-se uma  harmonização da aura, alma e espírito e uma elevação de ligação que nos permite obter como que "foto-radiografias" de nós próprios e até dos outros, e vislumbres do que devemos fazer ou ser.

As pessoas porém meditam pouco, desconhecem estas capacidades e utilidades orientadoras que os momentos de meditação nos proporcionam e deixam-se distrair e abafar por muita energia, matéria e informação, tanto artificial como desnecessária, e assim  não conseguem sentir bem ou deixar vir ao de cima o seu interior, a sua alma profunda, em cujo centro ou topo está o espírito imortal que somos e no qual e pelo qual nos fortificamos e o mistério da Divindade pode ser vislumbrado ou até algo sentido, amado e adorado.

Hoje em dia a maioria das pessoas não acredita ou não liga ao Ser Divino, ou então tem uma noção muito simples e passiva: a de se aceitar que existe algo, ou, vamos lá, Alguém, de superior a tudo, num acreditar  pouco frutífero e incapaz de se tornar o crer e o querer necessários para libertar-nos de falsas identificações e vencermos tendências e hábitos e assim criarmos momentos em que nos religamos mais ao espírito, ao mundo espiritual e os seus seres e à Divindade, e nos quais recebemos inspirações, bênçãos e graças, que se transmitem depois naturalmente aos outros e ao mundo...

Momentos de meditação, reflexão, escrita,  oração e  contemplação são então essenciais para que a nossa alma se exprima, se auto-conheça, se clarifique e tanto atraia energias luminosas como irradie as suas próprias, em ondas e círculos vastos ainda que subtis...

Claro que há sempre muitos mistérios na vida, desde os mais metafísicos e cósmicos, que a Humanidade ainda pouco discerne, até aos mais pessoais de erros e falhas que cometemos, sobre nós e sobre os outros, porque estivemos ou estamos distraídos e ignorantes, egoístas e oportunistas ou convencidos.,,

Face a tais mistérios da vida e dos caminhos de conhecimento e realização, muitos instrutores e escritores se ergueram, frequentemente mais iludindo e complicando, enchendo as cabeças dos seguidores de diagramas e cabalas, iniciações e portais, textos secretos e profecias,  mestres ascensos e pleidianos e as pessoas já não conseguem discernir que o caminho tem o seu Oriente ou Norte no interior de cada ser e é apenas a vida justa ou harmoniosa e o recolhimento psico-espiritual que o desvendam e nos vão despertando e intensificando os sentidos, a identidade espiritual e as ligações superiores...

Também frequentemente encontramos  hesitações quanto às veredas mais adequadas, os objectivos mais importantes,  os trabalhos, relacionamentos e responsabilidades a assumirmos, seja profissionais e  familiares ou de criação artística, literária e científica, seja de realização espiritual, ou ainda de dinamização e irradiação interactiva, abnegada e social...

Ora de tempos muito recuados, da Grécia clássica, mitos, histórias, ensinamentos e símbolos valiosos brotaram a propósito dos caminhos e escolhas certas e erradas, e dos primeiros encontramos nos Trabalhos e Dias de Hesíodo (750 a 650 a. C.), em algumas sequências de versos, tais as iniciadas no v. 212, ou no 287, que traduzimos a partir da tradução  francesa de E. Bergougnam e da portuguesa de Alessandro Rolim Moura:  «A miséria (ou prazer viciado) apanha-se facilmente e mesmo em abundância: o caminho é plano e está muito próximo. Mas no caminho da virtude os deuses imortais puseram o suor. Longa e escarpada é a vereda para ela, e ao princípio pedregosa; mas quando se chega ao cimo, torna-se então fácil, por  dificultosa que seja». 

Tal escolha entre o vício e a virtude, ou entre o que será bem e o que será mal, a partir dos ensinamentos pitagóricos, referidos em autores como Xenephon, Pérsio e outros,   foi simbolizado  na vigésima letra do alfabeto grego, o Y, denominado então como o Y de Pitágoras, o ípsilon (que se lê até mais upsilon), e ao longo dos séculos tal símbolo, referido por vezes também como o bivium, a dupla via, foi sendo comentado por alguns seres luminosos e conscientes da Filosofia Perene ou da Tradição espiritual perene e pitagórica. 

A dificuldade ou perigo das escolhas realizadas sem discernimento encontra-se em verdade em todas as tradições, em muitas histórias, cantos e contos, e foi realçada na civilização greco-latina não só em Hesíodo mas também nos míticos e simbólicos Trabalhos de Hércules, na escolha de Páris na Ilíada de Homero (tão representada na arte), na Eneida de Virgílio, ou ainda na Tábua de Cebes, havendo também referências claras no ensinamento de Jesus (e dos seus seguidores) ao caminho largo e o estreito, de facto no próprio Y assinalada, já que um dos braços o da esquerda é mais largo.

        Para alguns pitagóricos espirituais, essa subtil fraternidade ou irmandade de almas que vivas na Terra ou já nos planos espirituais tentam trazer mais harmonias cósmicas e divinas às pessoas, é valioso meditar com esta letra gráfica, a de uma linha vertical que se bifurca em duas levemente diferentes na espessura, com todas as associações que podem vir à consciência...

Assim, quando meditamos e contemplamos imaginalmente o Y do caminho ascendente e da escolha certa, não só estamos a galvanizar as nossas forças interiores para a mais alta realização possível, como estamos também a criar um vaso por onde as energias do alto se podem derramar em nós, por vezes sendo possível pressentirem-se as consequências ou karmas que virão no futuro, se assumirmos o avançar por um ou outro dos braços.

 A harmonia de vida do ser humano, tão necessária até para a subsistência dos eco-sistemas planetário, é uma luta diária, criativa e subtil que para ser bem realizada deve apoiar-se na ligação a seres e correntes de sabedoria que sulcam o Cosmos e os seus subcampos unificados de energia, consciência e informação, pelo que devemos estar bem atentos às pessoas, grupos, relacionamentos, ideias ou práticas que nos  atraem ou envolvem, sobretudo nos dias de hoje quando qualquer ser se erige ou arma em sacerdote ou mestre, curador ou sábio, líder ou iluminado e propagandeia, vende, manipula...

Que nas nossas reflexões e meditações o Y Pitagórico nos inspire a conseguirmos escolher a via direita ou correcta diariamente, qual bússola da verdade, outra expressão e imagem simbólica em uso nas almas peregrinas espirituais...

 E como referimos a existência ao longos dos séculos da fraternidade espiritual pitagórica, concluamos com alguns nomes portugueses a ela ligados através de um poema em latim consagrado ao Y, dado à luz e traduzido na Ortografia da língua portuguesa de João Franco Barreto, impressa pela primeira vez em 1671, e onde se podem ler adscritos a Virgílio (71 a 29 a. C., um neopitagórico pois manifesta certos aspectos da tradição e escreveu um discurso em nome do mestre de Samos, imaginando-o a partilhar a sua sabedoria), mas que serão obra de um tal Maxilimo. 

Alguns  anos mais tarde o sábio padre teatino Rafael  Bluteau (1638-1734, francês, mas sessenta e seis anos em Portugal), autor do tão volumoso quão valioso Vocabulário Português e Latino,  de novo transmitiu tal poema na sua Prosa Simbólica, de 1728, embora só na versão original latina, utilizando-o a propósito de Alvedrio, ou Arbítrio e comentando-o levemente, o que um dia comentaremos. 

 Será já no final do século XVIII que o impressor humanista Luís de Azevedo publica em 1795, em apêndice final, na primeira edição portuguesa dos Versos de Ouro, por Fernando Pessoa dactilografado, tal como publiquei e comentei em Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação, 1988, o poema latino e a tradução por João Franco Barreto (algo livre) e que hoje avança mais um passo nesta catena aurea de transmissões: 


"De Pitágoras parece
A letra em ramos partida,
Que os dois caminhos da vida
Aos olhos nos oferece.

A via da mão direita
É a da virtude, e tem
A entrada difícil, bem
Apertada, e muito estreita.

Mas no cume seu mais alto,
Que parece inacessível,
Acha descanso aprazível
O que vai de forças falto.



A via larga nos mostra
Caminho suave e brando,
Porém ao cabo chegando
Nos precipita, e nos prostra.
Quem pois por amor somente
Da virtude não temer
Trabalhos, poderá ser
Louvado, e honrado entre a gente;

Mas aquele, que seguir
A preguiça, e o inerte
Regalo, sem que o desperte
Louvores de outro ouvir,
Em quanto faz nesciamente,

Por que os trabalhos esquive,
Sempre torpe e triste vive,
E acaba mais tristemente. "

Como vemos esta letra Y dos pitagóricos no poema é significante da necessidade de sabermos optar pelo caminho estreito ou esforçado mas correcto e luminoso, o da virtude, da meditação, do trabalho, e não enveredarmos pela estrada larga dos prazeres, do egoísmo, da irresponsabilidade, do consumismo televisivo, da alienação, da confusão...

Inspiremo-nos pois mais no Y, que pode até ser usado como som de unificação e coluna interior, já I ou IU, e saibamos escolher ou determinar-nos dentro ou em sintonia com um dos lemas da Tradição espiritual portuguesa, Talan de bien fere ou Talent de bien faire, usado primeira vez entre nós por um dos irmãos da Ínclita geração, o Infante Dom Henrique, e que significa "tentando fazer o bem", ou ainda "fazer o Bem com talento"... 

Vibremos, estejamos, mais no Bem, no Amor e na Verdade ou nas suas veredas e montanhas, auras e criatividades...

Do livro em gestação, Ensaios Espirituais...  YYY... 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Poemas do Amor e do Coração espiritual. Gerês transmontano, Verão de 2021.

  

 - Meu coração, porque suspiras tu?

Que desassossego é esse de estares sempre a ir à janela?

Ele escutou-me e calou-se como que envergonhado.

Mas, depois, replicou-me serenamente:

- Sofro da coita do amor,

Ardo por ninguém e alguém,

E assim busco no horizonte

Vulto ou ser conhecido ou amado.

- Não vês que a esta hora do dia ou da vida

Já é tarde demais para alguém chegar?

O coração refluiu sobre si e respondeu-me:

- Não sabes nada do sofrer do amar:

O coração que arde busca outro peito para inflamar.


- Mas se não te aparecer alguém, o que farás?

- Neste alto monte em que me encontro

Quatro ligações posso encetar: aspirar e meditar, invocar e criar.

E com tal me devo contentar e alegrar, ser e estar.


Dia 23-VII, pelas 21:58, Gerês Transmontano. Melhorado e partilhado às 0.00 de 12-12-2021.   Lux Dei!

Pintura russa antiga, parafraseada nos dias de hoje por Pedro Manuel Teixeira da Mota...

Estampas levemente antigas com pinturas de artistas russos, com legendas actuais, minhas. Faltará decifrar as autorias e legendas escritas no, para mim, praticamente desconhecido mas belo alfabeto russo, em que tantas obras primas foram escritas, enriquecendo tanto a Humanidade, rumo a uma maior unidade com a Divindade, fonte do bom, do belo, do justo e do verdadeiro...

Não chores. Libertaste-te dum companheiro que não seria o melhor para ti. Sê livre. Morre mas renasce!
 

        Neste retiro nas montanhas, lendo, meditando e contemplando, a minha alma não poderia deixar de pensar em ti e desejar que estejas bem e consigas vencer todos os obstáculos que nos separam e chegar até mim.

        I am geting better all the time. My heart is in a soft and hopeful mood. We shall meet. Stay strong!

                   Que as maiores adversidades não nos façam perder a fé mas antes, através delas, vençamos os medos e desânimos e manifestemos as melhores qualidades ou virtudes de fortaleza, ética e espiritualidade.

I shall cross all the dangers and troubles, pains and sufferings with strong will and  my inner heart open to the Divine and the Helpers...

                                               

Este nascer do sol tão suave e belo, esta maresia que adoça os meus pulmões, esta música que escorre dos meus dedos e coração são um hino à  existência natural e amorosa.

Eu tenho força, paciência e fé e tal, como dia amanhece e desponta, assim avançarei na luz e no amor, na plena consciência e maior unidade!

Love is being manifested all the time, even if wars are happening. Let us fight for the truth, justice, fraternity and Love, and we shall win in the eternity, like the Divine Sun is  shinning forever...

 Com a bela e tão valiosa Tradição russa, saibamos erguer-nos com a aurora do Sol físico e espiritual e, criativamente, perseverantemente, manifestar a Hagia Sophia, a Sabedoria Perene...