segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 11ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva. O caminho de Santiago...

 Eis-nos na décima primeira parte (das 12) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora.

António Paiva – Mas Pedro, voltando aos excessos, não será também possível que na ferida resida o segredo da cura? De que na exaltação da dor eu me abra para a cura?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, em certos casos, mas em outros não. Frequentemente as pessoas acabam por enfraquecer-se e ficar muito na ferida quando deviam curá-la, vencê-la, ultrapassá-la e mesmo realizarem mais a sua dimensão espiritual que está para além da dor, algo certamente difícil mas que todos os que já suportaram dores muito fortes de algum modo vivenciaram, em especial durante as meditações que nesses momentos conseguiram fazer, e nas quais a dor se esfuma, diminui ou é melhor suportada. A dor e o sofrimento existem para serem compreendidos nas suas causas e vencidos, transmutados nos seus vários níveis.

António Paiva – Vamos pegar nisso e colocar a peregrinação, não só a interior mas também a exterior, que leva à movimentação do corpo, como um caso em que há uma prova imposta ao corpo, com estados de sofrimento físico, de exaustão. E o que pode resultar dessa ferida e dessa exaustão. Tu que já fizestes algumas peregrinações que dizes? 
 
 Pedro Teixeira da Mota – Sim. Já fiz várias peregrinações em alguns países, montes e montanhas, algumas delas difíceis ou desafiantes, nomeadamente no Marão ou no Gerês transmontano, tal como quando começa a chover ou tomba uma neblina densa e uma pessoa cai ou rasga-se nas silvas e arbustos, ou fica ensopada, ou perde-se e apesar de tudo tem de manter a sua calma algo estóica e a sua invocação das melhores correntes telúricas e espirituais sobre si. Outras vezes é apenas a dificuldade de algumas partes do caminho que aguça o nosso sentido espiritual e de ser que está a ligar o céu e a terra, e como eu digo nessas alturas montanhosas: caminhar com mil olhos nos pés...

António Paiva – A Serra do Teixeira de Pascoaes, o Marão!

Pedro Teixeira da Mota  – Sim, a serra do Teixeira de Pascoaes, o Marão que eu através da Dalila Pereira da Costa conheci bem, pelo lado da encosta de Fontes, da zona que vem do para mim mítico rio Douro, pois vivido na infância, nas Caldas do Moledo, em todo o seu esplendor de um curso poderoso, ora cinzento, ora azul e verde, ora dourado e bordejando as suas margens com frescura, brisas, peixes, barcos, sons...
A Dalila foi uma escritora e poetisa com grande sensibilidade mística e, ainda que com um balizamento católico por vezes condicionador, muito aberta ao paganismo, que ela estudou procurando discernir as suas conexões e continuidades no Catolicismo, valorizando sobretudo o Princípio Feminino Divino, cósmico e telúrico, tanto presente no xamanismo, como nos greco-romanos, celtas e lusitanos, como no culto mariano, e dando disso bons testemunhos em vários dos seus livros, tal o Da Serpente à Imaculada, e excelentemente no seu último, As margens sacralizadas do Douro através de vários cultos.
Pouco depois de ter vindo da Índia, onde estivera um ano, vivendo perto de Guimarães, fui visitá-la por indicação do Agostinho da Silva e nasceu uma amizade duradoura, com muitos encontros e diálogos na sua casa na Av. 5 de Outubro, no Porto. E como ela tinha algumas propriedades no Douro, ofereceu-me a possibilidade de ficar em pequenas casinhas sem electricidade nem água, a não ser da fonte próxima. Aí ficava uns 15 dias ou mais, sempre em Agosto, quando fazia anos e por ser a época de férias em que não ensinava Yoga no restaurante Suribachi, no Porto, o que me permitiu fazer várias subidas peregrinantes à Serra, registando em pequenos cadernos de bolso o que ia sentindo ou realizando, e assim de algum modo, reflectindo a vibração ambiental e as analogias interiores, os sons e orações da peregrinação num texto que as acolhia, fixava e perenizava. Espero um dia publicar algumas páginas de tais diários.
Mas lancei-me também em outras peregrinações, seja na Europa, tal a do monde Athos, seja sobretudo na Índia onde fui de ashram em ashram e indo até às nascentes do rio Ganges, em Kedarnath nos Himalaias, com dificuldades, embora tivesse chegado lá perto de autocarro.
Também quando deixando por uma semana Madras por Arunachala, a fim de conhecer e meditar no ashram de Ramana Maharishi, subi descalço, sob um calor forte,  essa montanha tão sacralizada de Arunachala, onde ele fizera as suas meditações e vivera em grutas. Foi uma ascese purificadora que pode ter contribuído para os bons resultados obtidos quando meditei na gruta dele.
Subi também ao Monte Fuji no Japão, no que foi talvez a experiência mais dura de sempre, com cerca de uma hora mesmo nas últimas de forças, mas consegui erguer-me do pouso onde parara encharcado de suor e gelado e começar a caminhar, como que ordenado pelo meu eu espiritual, e chegar ao seu cimo de 3.777. Depois de fazer as minhas orações no santuário e de meditar lancei na cratera vulcânica alguns cristais do Gerês, como este que aqui tenho, para irradiar a energia de Portugal e pô-la a comungar com os Kami, que são as entidades espirituais, seja espíritos que viveram na terra, seja divindades dos mundos elevados e que têm ali a sua montanha mais sagrada e que quem contempla ou medita pode com alguma graça sentir e ver. 
 
 A peregrinação tem esse desafio de sabermos utilizar a exaltação e a ascese com conta, peso e medida. Todavia, por vezes temos de chegar mesmo aos limites, pois se vamos só pelo mediano podemos não conseguir chegar à meta ou nem desenvolver forças suficientes para nos inspirarmos. Ora nesta subida sozinho ao sagrado Fuji, e praticamente sem nada nem qualquer preparação, após a exaltação inicial em que ajudei pessoas e avancei demasiado rápido, estive mesmo a dado passo na mó da morte, encharcado, enregelado e sem forças, mas recolhendo-me, observando-me, aceitando a morte, meditando e seguindo a direcção superior em mim, consegui vencer as dificuldades corporais e chegar ao cimo quase ao nascer do sol. E depois nas meditações e contemplações ter os sinais abençoadores dos Kami.

António Paiva - Sei que fizeste o Caminho de Santiago, o que nos podes dizer de tal experiência?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, realizei a peregrinação do Caminho de Santiago, sem dúvida sentindo-a bastante iniciática. Vim da fronteira da França-Espanha, de Roncesvales até Compostela, cerca de 750 kms em 28 dias, e passei por muitas situações, locais, vivências bem enriquecedoras, seja com pessoas, igrejas, natureza, meditações, esforços, intuições e escritas. Certamente há quem sofra mais, menos, ou nada, tudo varia de acordo com a Fortuna e a Providência divina, e pelo karma das pessoas e ainda o modo como a nossa vontade e intencionalidade reagimos às circunstâncias e dificuldades.
Se por exemplo uma pessoa caminhar demasiado num dia, pode provocar um certo tipo de lesão muscular forte. No dia seguinte ao levantar-nos temos a opção de ficar a tratar dela ou então continuarmos o Caminho. Se a pessoa tem a noção de ascese, de um certo estoicismo, lança-se ao caminho e consegue superar a dor. É nesse sentido em que a própria dor se torna, como tu referiste, factor de evolução. Comigo isso sucedeu, quanto caminhei mais de 30 kms seguidos num dia e, em parte, alguns sobre alcatrão. Mas a dor foi superada e transmutou-se a tensão e desgaste, seja pelo repouso nocturno, seja pela oração, seja pelo caminhar consciente e em oração frequente no dia seguinte.
Este teste do caminho e da nossa capacidade de transmutar é importante. Se uma pessoa consegue sentir a dor e aceitá-la e entrar nela conscientemente, ela pode dissolver-se nos seus aspectos que nos contraem e nos atemorizam. Perante o aspecto, aparentemente e na realidade, limitativo da dor, ao se invocar e introduzir as forças subtis dos mundos espirituais ficamos mais fortes e desenvolvemos o corpo psico-espiritual, o nosso corpo de luz. 
Podemos dizer que na peregrinação do Caminho de Santiago estamos a talhar ou a esculpir, como se diz na Tradição Espiritual Portuguesa, a nossa alma durante semanas numa relação única com a Natureza e com nós próprios, a sós, em silêncio, com os sons da natureza e das aves, e os pés na terra e a cabeça no céu. Sentimos porém que apesar de sós, mesmo que dialogando com um ou outro peregrino mais afim, há uma entrada numa egrégora energética que não só é telúrica, de cada terra que pisamos e percorremos, mas também proveniente tanto dos milhares ou milhões de pessoas que foram trilhando o Caminho, “El Camino”, como dos imensos pontos sagrados com que nos vamos cruzando ou inter-relacionando, sejam pedras, árvores, rios, pontes, templos, padrões, aves. Foi uma intuição muito sentida...
A peregrinação, despindo-nos de muitas artificialidades e reduzindo-nos ao homo viator, horas e horas, desperta tanto a nossa sensibilidade unitiva com a Natureza, como verticalmente com o mundo espiritual, sobretudo se durante e depois da caminhada fazemos oração, meditação ou mesmo participamos em missas que padres ou conventos especiais oferecem aos peregrinos, por vezes em cerimónias, cantos, diálogos ou contactos sublimes de doçura e fraternidade mística. 
A nossa identidade espiritual, com o decorrer dos quilómetros da caminhada e os esforços e asceses que vamos fazendo, vem mais ao de cima, ganha forças sobre a nossa personalidade e vida e como que cavalga o nosso corpo, fazendo-nos vivenciar uma felicidade subtil resultante de caminharmos livres, comungantes da natureza e investidos de estados ou forças espirituais afins das divinas. 
 
        Quando entramos na Galiza e seus bosques sentimo-nos mesmo em casa...
Sentimo-nos verdadeiramente num vasto campo em que tudo está ligado entre si subtilmente e nesse campo geomórfico e psicomórfico (ou seja, em que as formas e seres são modelados pelas energias naturais e as psíquicas) em que estamos e nos expandimos, podemos vivenciar experiências espirituais significativas, fortes.
Tal como a de sentirmos que estamos a dar os nossos passos num caminho que liga a terra e o céu ao som de um espécie de tambor gerado pelos passos das centenas ou milhares de pessoas que estão fazer naquele mesmo momento o Caminho, e que tem em si e sobre si os milhões de almas que fizeram ou contribuíram para o Caminho e com quem de alguns modos comungamos, por vezes sentindo a presença ou os sinais das entidades invisíveis ou celestiais que nos podem visitar ou abençoar, outras vezes simplesmente nos maravilharmos com um rio, uma árvore, uma paisagem, um abrigo ou capela erguida por um construtor ou devoto... 

António Paiva – Há então sinais que por vezes se tornam visíveis numa parte do caminho.

Pedro Teixeira da Mota – Exactamente, sobretudo para quem medita mais demoradamente, pois a maior parte das pessoas não meditam e realizam pouco a peregrinação como uma entrega e demanda espiritual. Eu era sempre das primeiras pessoas a levantar nas camaratas ou dormitórios, onde estavam por vezes cerca de cinquenta pessoas. Só ou com mais uma ou duas pessoas éramos os primeiros a sair, ainda à luz das estrelas, mas quando chegava a altura do nascer do Sol eu detinha-me para meditar e não via mais ninguém nessa orientação. Depois, uma ou duas pessoas com quem conversei começaram também a meditar e por vezes fizemo-lo em conjunto. 
Constatei também que certas igrejas românicas, fabulosas na sua arquitectura, simbolismo, ambiente e localização, e logo com uma energia bem forte, não atraíam as pessoas, que passavam ao lado sem aproveitarem para comungar com as energias telúricas do local, dos construtores e das mensagens deixadas nos capitéis e siglas, seja ainda dos santos, mestres e anjos invocados nelas e, por fim, da Divindade. 
Portanto, a interacção com os pontos de poder do Caminho, se é bem realizada e mais demoradamente, pode ocasionar experiências fortes, intuições e abertura do olho espiritual. A peregrinação serve verdadeiramente para uma pessoa ligar-se mais com o mundo celestial, irradiar melhores energias para antepassados, ou por quem rezar, e muitas vezes conseguir a intenção à qual pode ter dedicado a peregrinação.

António Paiva - Intenção ou dedicatória de uma peregrinação, tal como quando se faz um voto e se o vai cumprir nas nossas peregrinações domésticas?

Pedro Teixeira da Mota- Sim, vem de ex-voto, de voto, de dedicação, acto de graças para se cumprir a promessa feita, se um pedido fosse satisfeito, ou por intenção de alguém que falecera. Só que, quando falo das dedicatórias nas peregrinações, entendo o realizá-las com uma intenção: faço esta peregrinação com o voto que as energias luminosas que eu porei em acção, nomeadamente através de rezas e asceses, serão pelo meu antepassado que já está no além. Ou dedico os meus esforços para obter mais certeza se a Divindade tem para mim ou não uma certa forma ou face determinada. Ou se existem ou não os anjos, em especial os da guarda. Ou se me devo unir a certa pessoa ou não, etc.
Cada um de nós ao iniciar uma peregrinação pode escolher um pedido, uma bênção do alto e se trilharmos o caminho luminosamente a resposta vem, talvez no ponto mais difícil e mais alto do Caminho, ou quando meditamos mais tempo, e recebemos então os sinais ou esclarecimentos e alegramo-nos e fortalecemo-nos espiritualmente.
 

domingo, 24 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 10ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

Eis-nos na décima parte (das talvez 14) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora.
                                                     
António Paiva - Apontas para o mundo espiritual e o Ser divino de um modo diferente do que as religiões ou mesmo grupos nos falam. Explica-te um pouco melhor.

Pedro Teixeira da Mota - A partir de experiências e intuições, e em sintonia com a Tradição perene, podemos intuir, sentir, realizar e afirmar que a Divindade é a fonte primordial de tudo e logo da vibração, da Palavra, do Amor e, de certo modo, a principal emissora e sustentadora do Amor no Cosmos, na natureza, nos espíritos e seres humanos, embora tal corrente energética passe depois a estar condicionada pela auto-afirmação e egoísmo de cada ser, o que gera mais conflitos e lutas do que aberturas ao Amor....
Ora no ser humano, sendo a componente afectiva essencial, a palavra será um dos meios onde mais podemos infundir e desenvolver o Amor e assim podemos gerar e transmitir sons e palavras em si luminosas ou sagradas, invocadoras de determinadas qualidades divinas, deidades ou da Divindade. E desta adoração e invocação interior, e realizada audível ou em silêncio, ficamos mais alinhados e recebemos forças para melhor equacionarmos e lidarmos com as tarefas diárias e as suas dificuldades.
Assim o que vamos desenvolvendo já não é uma mera crença num Deus das Escrituras, ou que está sentado no Céu, ou que é ciumento e violento, ou que quer isto e aquilo, mas sim uma vivência anímica e espiritual interna, de sentir, de aspirar e estar ligado ao Deus vivo íntimo, o que se concretiza ainda como graças de visão subtil, de sentimentos, de audição, de inspiração, de presença, ou seja, de Luz, Paz e Amor.
Também as qualidades psíquicas harmoniosas em que nos concentramos ou meditamos nos fazem sintonizar o espírito e o ser Divino e assim uma pessoa pode sentir mais necessidade, atracção ou afinidade com a paz, e usar então o mantra om shanti, shanti, shanti, paz, paz, invocando, cultuando e intensificando a paz em si e à sua volta e, deste modo, acalmando a mente, cérebro, respiração e corpo e podendo então receber, sentir ou comungar com vibrações ou níveis mais elevados, seja de paz, seja do espírito ou do Divino.
Em verdade, estamos todos a trabalhar com o som, a irradiar sons e e a ligar-nos com os mundos subtis e os planos mais elevados através das vibrações e sons, com seus efeitos em nós e no campo unificado de energia consciência e informação que permeia o Cosmos e que foi sentido ou intuído também nesse sentido mais profundo e elevado como a Música das Esferas, exterior e interior, nomeadamente por Pitágoras e os pitagóricos. O que damos ou emanamos, receberemos. Deveríamos pois ser todos mais mantricos e musicais...
Há que reconhecer o grande poder da palavra, do som e da música e como ele cada vez está mais visivelmente em acção na sociedade, ainda que de formas frequentemente desfiguradas e enganadoras, tais como os políticos e pregadores aldrabões, convincentes pantomineiros, como vemos em tantas igrejas e seitas religiosas, ou mesmo em gurus sedutores pelas vozes e doçuras, e que acabam não por impulsionar as pessoas no caminho verdadeiro e divino mas no da ilusão e queda, como os pitagóricos já representaram no seu famoso Y
 
AP – E o poder da poesia? Fala-se tanto que Portugal é um país de poetas e não tanto um país de prosadores. O que pensas de tal?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, temos uma tradição poética muito boa e bem antiga, quase que dos primórdios da nacionalidade, com os romanceiros e com as cantigas de amigo e de amor. E depois sucessivos vates, ora líricos, épicos, naturalistas, religiosos e filosóficos deixaram-nos um valioso cancioneiro poético, de tal modo que foi mesmo considerado por Augusto de Santa Rita, em 1916, na revista modernista Exílio, na qual Fernando Pessoa colaborou duplamente, como uma tradição espiritual de rouxinóis, sua toada ou rimas poéticas ensinadas às mães que por sua vez a transmitiam às crianças, quando as cantam ou leem  sobre o berço.
Na realidade a poesia é investida de um poder grande quando é dita a crianças, com suas almas e cérebros bem receptivos, ou quando é acolhida por almas sensíveis, atentas e profundas, em especial quando o que se escreve ou exprime corresponde verdadeiramente a uma realização sentida, anímica ou espiritual.
Todavia há pessoas que podem alinhavar com mais ou menos arte, harmonia ou perfeição formal uma série de palavras, imagens, ideias, aparentemente fortes, belas ou elevadas, mas tal não corresponder a realizações interiores, sentidas e vividas não havendo assim uma verdadeira criação derivada de uma realização interior ou espiritual, o que nem sempre se discerne...
Também se dá o contrário, quando poetas com uma certa realização interior vão cultivar alguns estados depressivos e de niilismo, ou mesmo em estilos faustianos, como por exemplo Antero de Quental, que foi um ser de grande genialidade, líder da sua geração universitária, poeta de alta sensibilidade e inteligência, compondo magníficos poemas, só que vários dos sonetos algo negativos e próximos da morte, do vazio, da desilusão da vida, algo que na realidade na época (e de certo modo sempre) se podia cultivar, sentir, atravessar. 
A correspondência epistolar mantida por ele com muitos amigos, constitui talvez o melhor núcleo que nos ficou ao nível da transmissão do verbo ou palavra, do combate pela justiça e pelo conhecimento, e da amizade, empatia, amor, lucidez e sabedoria, mas também de ironia, tristeza, indignação e desânimo, testemunhando na sua grande alma o que era o ambiente psíquico de Portugal na segunda metade do séc. XIX bem como o poder da poesia e dos ideais assumidos por essa geração moderna coimbrã liderada por ele. Assim, os seus Sonetos continuam a ser justificadamente lidos e estudados, até nos programas do Ensino Secundário, alguns até porque são realmente além de belos e difíceis de compreender, bons nos seus efeitos anímicos. Antero de Quental tem sido um dos espíritos que de certo modo me visitou e eu visito e saúdo com regularidade, levando-me a gerar assim dezenas de textos e vídeos sobre ele no youtube e no blogue.
Como sabemos, terminou a sua peregrinação terrena suicidando-se, para isso contribuindo vários factores e ficando em abertos questões tais, como se foi uma desistência por doença, cansaço e desânimo ou se no acto estava lúcido, determinado e corajoso...
De qualquer modo é natural que quem corta o fio da vida antes de tempo precise de certas energias, para as quais as nossas orações, aspirações e energias elevantes poderão ser coadjuvantes.
Outro caso de poesia com grande e até mais poder mágico e elevante na nossa tradição cultural e espiritual, e igualmente com bastantes laivos de tristeza ou deprimente, foi a de Fernando Pessoa. São às centenas os seus poemas tristes, negativos, de vazio e indiferença. Mas também brilha, além da revolução pagã, franciscana e até com algo de zen de Alberto Caeiro, a notável Mensagem, o poema do Clarim e várias poesias esotéricas e iniciáticas, várias publicadas pela primeira vez por mim em 1989 no livro Poesia Profética, Mágica e Espiritual, e nelas as palavras, rimas e ritmicidades, imagens e forças podem ser mesmo mágicas, despertantes e actuantes na nossa alma, erguendo-se quase que em rituais iluminantes e transformantes, se bem lidas ou sentidas.

AP - E o que te parece o Livro do Desassossego, considerado por alguns como o mais triste do século XX?

Pedro Teixeira da Mota - Sim, o Livro do Desassossego, uma espécie de diário genial de um empregado de escritório com grande capacidade de sentir, analisar, analogizar e filosofar uma teoria de indiferença perante o quotidiano existencial do ser humano comum citadino europeu do início do séc. XX, está cheio de páginas cinzentas, de desânimo, tristeza e indiferença, mas volta e meia as suas vivências interiores são atravessadas por alguma estrela cadente, alguma luz da mónada, como ele próprio diz, que se derrama então pelo seu dia de sombra e pelas páginas transfigurando-as.
Fernando Pessoa estava até consciente de como tal tipo de sensibilidade e de visão passada à escrita era depressiva e negativizante, mas sabia que exprimia estados anímicos das pessoas das quais elas gostavam e portanto ele próprio de certo modo sacrificava-se nisso. Tanto nele como em Antero de Quental há a assunção das dores, frustrações e niilismos que assaltavam tantas almas que não se deixavam limitar pelas aparências, pelo Catolicismo ou pelo Materialismo e que não encontravam ainda suficientemente a Luz e o Amor, tanto no seu interior como nas suas relações, no exterior, na sociedade.

António Paiva - Então parece-te que eles usaram o seu verbo e palavra, talvez não dos melhores modos, mas no que eles conseguiram no meio das limitações sociais e ambientais da época?

Pedro Teixeira da Mota - Sim, e isso é mesmo afirmado por Antero, quando diz já perto do fim da sua vida, depois de ter renunciado a escrever mais poesia, que os versos que ele gostaria de fazer, harmoniosos espiritualmente, seriam outros que os viriam a redigir pois ele já não sentia nem a inspiração, musa ou forças para tal.

                                                   
Podemos considerar Fernando Pessoa o elo seguinte, o seu continuador nesta linha espiritual, e ele próprio o reconheceu por mais de uma vez por escrito (e traduzindo bastantes sonetos de Antero para inglês), sofrendo limitadoramente as condições algo pobres de vida e as forças religiosas e políticas ambientais. No último ano da sua vida, depois da instauração das directrizes de censura de Salazar, afirmou que não escreveria mais. Não se suicidou mas o seu consumo de álcool tinha um pouco disso, talvez a sua técnica de excesso compensatória, e assim bateram as asas dois grandes seres com 49 e 47 anos apenas... Uma pena!

António Paiva - Que ensinamentos em relação à palavra poderemos então nós recolher de tais exemplos, quase sacrificiais?

Pedro Teixeira da Mota - Talvez valorizar mais o uso da palavra correctamente, responsavelmente, magicamente, seja para nos harmonizarmos e realizarmos espiritualmente, seja para ajudar e estimular os outros, curando e harmonizando, não nos deixando ficar demasiado no negativo e no triste, nem demasiado nas críticas, ainda que justas e necessárias, nem também em mistificações e sectarismos como acontece em tantos grupos esotéricos ou ocultistas, em geral sofrendo uma certa lavagem ao cérebro inibidora do que é dissidente ou contrário.
Esta consciência da sacralidade da palavra, certamente difícil de ser mantida numa sociedade em que predomina a superficialidade, a inutilidade, a distracção, a mentira e a manipulação em tanto do que se ouve e escreve, é fundamental de ser constantemente recuperada e para isso servindo tanto o nosso repúdio das banhas da cobra esotéricas, políticas ou consumistas como também os nossos recolhimentos e meditações, silêncios e palavras proferidas sempre com plenitude ou, mais simplesmente, repetirmos mantras e orações quando sentirmos que é oportuno, bom.
Será pois a sós, em orações e meditações ou em diálogos com um ou dois ou, como se diz, reunidos no nome ou palavra da Verdade e do Amor, que poderemos melhor preservar o valor operativo da palavra. E assim chegarmos a tocar, abrir, estimular até a pessoa com quem dialogamos, harmonizando-a e clarificando-a em certa zona psíquica ou centro de forças, com as qualidades e níveis a que estejam ligados.
Mas este direcionamento sonoro ou psíquico intencional ou mesmo do olhar para os chakras é rarissimamente praticado e mais escassamente ainda se consegue observar e contemplar plenamente, em geral porque para tal acontecer seria necessário que se encontrem tais dois seres e que, estando em amor dialogante, sejam mesmo investidos de energias espirituais ou de Amor divino bem fortes.
Dentro desta magia da palavra, e do seu Talent de bien faire, como queria o Infante D. Henrique e mais tarde Fernando Pessoa, deveríamos ainda apurar a transmissão dos sons justos, não só para os humanos, mestres e anjos que permitem a comunicação com aves e animais, pois estes recebem, sentem e entendem à sua maneira, nomeadamente pela qualidade do som e intencionalidade com que lhes falamos. Tudo isto são subtilezas que devemos ir trabalhando...

sábado, 23 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 9ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

   Eis-nos na nona parte (das talvez 12) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para constituir o livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora. 

 António Paiva - E quanto aos vegans, o que te parece esta abordagem e o seu sucesso actual? 

Pedro Teixeira da Mota - O veganismo parece-me um esforço de pureza radical de alguma juventude ocidental, talvez ligada a linhas de força ecológicas, de sustentabilidade e de minimalismo, e seria bom discernirmos as motivações principais, tal como quantos sentem (ou consciencializam) mesmo o sofrimento que a produção dos lacticínios (e nem falamos da carne) provoca nos animais e quantos o fazem por um sentido de pureza ou então apenas por moda selectiva. É certamente uma movimentação valiosa, seja pelo empreendorismo e empregos que desenvolve, seja pela aproximação menos violenta à utilização e sobretudo exploração, por vezes muito pesada ou mesmo cruel e trágica, dos animais para a alimentação e vida humana, já que para além dos queijos vegans, mesmo ao nível de roupas, sapatos, cremes (e lembro-me da Sapato Verde, da Alexandra e do Mário, à rua das Chagas),  tem surgido muita oferta boa, embora algumas ainda não para todas as bolsas...
Contudo, descobrirmos e trilharmos o caminho justo, axial quanto às diversas energias possíveis de interacção, passando por excessos ou não, deve ser vivido e assumido diariamente, criativamente, sem ser algo demasiado fixado ou predeterminado, mas sim com atenção e empatia, liberdade e alegria, sinceridade e humildade, sabendo discernir, acolher e transmutar as energias e situações, nomeadamente as desarmoniosas e adversas, pressentindo os perigos e consequências, nomeadamente os que possam resultar de excessos ou de carências.
Há uma constante interpenetração de energias e de seres, pois estamos interligados num todo, e este holismo a física moderna tem comprovado, com alguns cientistas mais abertos às energias subtis e à espiritualidade, e alguns mestres e movimentos, a tentarem aprofundá-lo, com maior ou menor argúcia ou mesmo clarividência, com maior ou menor urgência de acções, como é o caso do aquecimento global.
Na verdade, afectamos globalmente muito a Natureza, mas mesmo individualmente e laboratorialmente o observador influencia o que observa, com a física quântica a comprovar tal, havendo até uma imitação empática resultante de mecanismos neuronais que espelham o que é observado, de tal modo que por vários processos subtis aquilo que somos, vimos, sentimos ou fazemos interage com os outros, põe-nos em ligação com eles, e em especial com as pessoas que vibratoriamente e animicamente estão mais próximas de nós.
As pessoas com uma vida mais controlada, auto-consciente e ecológica podem ser mais criativas e respeitadoras da ordem universo, dos ambientes, dos seres e impulsionar a humanidade num caminho de menos desequilíbrio consumista, semi-cego e violento, que afecta tanto os eco-sistemas, os animais e as pessoas, de modo a que haja mais harmonia, luz e unidade fraterna, tão ameaçadas nos nossos tempo por medidas autoritárias e repressivas que muitos governos e redes sociais têm implementado por várias razões e em especial à custa do corona virus, condicionando direitos humanos e destruindo empresas e economias médias e locais.

António Paiva – Tu és uma pessoa que escreve e que fala. Regularmente és um orador convidado em eventos. Voltemos pois à Palavra. Que usos tens feito dela?

Pedro Teixeira da Mota – É sempre bom questionarmos as nossas palavras, não só faladas como também escritas ou meramente pensadas, algo a que em geral as pessoas pouco ligam.
Na verdade não as aprofundamos tanto quanto deveríamos, em grande parte pela rapidez da vida e o escasso tempo para nos observarmos e conhecermos. Reconheço em mim próprio tal, já que em geral não vejo-oiço os vídeos que vou gerando e ficam no meu canal do Youtube, alguns deles com meditações, orações e mantras, não extraindo assim observações aperfeiçoadoras...
É evidente que quem está ligado com as tradições orientais, seja da Índia, seja do Japão e China, ou está a par de algumas realizações das últimas décadas, nomeadamente em movimentos e grupos ligados às energias, crescimento pessoal e transpessoal, estados expandidos de consciência, ou quem aprecia a música, o canto, os sons, as taças tibetanas, etc., tem alguma consciência do valor e do poder dela.
Tal é visível de vários modos e em muitos grupos com práticas de emissão e modulação de sons ou palavras, seja em voz alta, baixa ou inaudível, nomeadamente com mantras indianos, salmos, mistificantes decretos ou pretensas fórmulas mágicas e kabalistas. Ou então, mais passiva e frequentemente, apenas ouvindo-se certas músicas.
Na realidade, para além do valor da musicoterapia, ainda pouco desenvolvida e acessível, é útil ter-se algum tipo de hino, canto, mantras e orações, ligados a certas energias, ou mesmo faces da Divindade, com os seus nomes próprios, e que sejam trabalhados dentro de nós com mais regularidade ou fidelidade, com ou sem acompanhamento instrumental. E que em certa proporção nos talham, como dizia Fernando Pessoa, ou que nos esculpem, como escreveu em quadra, Agostinho da Silva.
Eu diria até mais, que configuram o nosso campo electro-magnético, psicomórfico e espiritual, tal como hoje em dia chamo, para acrescentar um pouco à designação de um bom investigador, Rupert Sheldrake, mais simples, de campos mórficos, em que estamos todos interligados, e que já não serão apenas energético-telúricos mas também, enquanto forças do mundo espiritual e dos seus seres, que subsistem mesmo como forças arquétipas ou específicas de certos locais, povos, crenças, tradições e grupos.
Não há só a ressonância mórfica (ou nas formas) de ritmos e padrões vibratórios que vêm de energias ligadas ao electro-magnetismo da Terra no seu posicionamento no sistema solar e ao corpo energético do ser humano e dos animais, mas há uma interacção possível a partir do que emanamos animicamente (e não diremos apenas mentalmente) e do que chega ao nosso próprio ser, nomeadamente dos níveis mais elevados das nossas opções e ligações superiores.
Um exemplo: é nos dado iniciaticamente, ou escolhemos, e praticamos ou trabalhamos certo som ou nome consagrado à Divindade, seja Aum, Krishna, Shiva, Narayana, Jesus, Deus, Allah Akbar, Al Rahim, Amaterasu omikami, etc. Todavia, nas práticas adoptadas, o que brotar ou ressoar mais no nosso interior e movimentar luminosamente as nossas energias anímicas é que deverá ser o nome, mantra ou oração mais importante de ser seguido ou praticado no momento para chegarmos ao silêncio e a uma unificação, a nossa.
Portanto, descobrirmos dentro de nós quais são os sons, mantras, dhikrs ou invocações que nos harmonizam, fortificam e religam ao Alto, dentro deste mundo de manifestação tão dispersante e ilusório e em que há tantas dualidades e tantas forças em luta, ou se quisermos tantas vozes e sons dissonantes, é uma ajuda importante no nosso Caminho.
Se tivermos de facto os canais anímicos abertos através do som, da oração, da meditação, da respiração, da atenção, da intenção, do amor e da aspiração é mais fácil uma pessoa manter uma ligação com os níveis superiores, e somos então menos afectados pelas acções e reacções do dia-a-dia, e conseguimos mais facilmente limpar-nos, harmonizar-nos e centrar-nos, nomeadamente quando chegamos a casa, ou quando meditamos mais tempo.

António Paiva - Mas tens tido experiências desses níveis subtis, dos efeitos dos sons, palavras, mantras, seja por ti mesmo seja do exterior?

Pedro Teixeira da Mota - Quem medita, e esforça-se por uma vida harmoniosa, verdadeira e peregrina acaba por ter ao longo dos anos vivências internas valiosas de tais invocações, cantos, meditações, ou então experiências e conhecimentos pelo exterior.
Há tempos estive a jantar no restaurante vegetariano Govinda, em cima do jardim de Oeiras. O dono de então tinha uma ligação forte com a Índia e com o movimento Hare Krishna, no qual há a consciência de que o amor ou devoção (bhakti) transmite-se aos alimentos ao serem preparados, tanto mais que são oferecidos a Sri Krishna e a Radha, havendo especial atenção ao que ocupa a mente e que sentimentos temos em tais momentos. Ora lembro-me na Índia de ter chegado a um ashram dum mestre com milhares de discípulos na linha da meditação no som e na luz e ele ter-me recebido. Fez-me sentar ao seu lado e depois de algum diálogo, valorizou a vibração de amor que emana de nós a cada momento e da importância dela ao cozinharmos, contando-me que uma vez recebera o almoço e quando começara a comer sentira que algo se passara. Interrogando os discípulos sobre o que sucedera na cozinha confirmaram-lhe que tinha havido uma discussão forte. Também uma vez, há muitos anos numa caminhada em Portugal, encostei-me a um muro e ao fim de pouco tempo comecei a sentir-me estranhamente mal e avançando um pouco percebi que era um matadouro. Dois pequenos exemplos.

Na verdade estamos constantemente a emanar e a receber energias subtis, envolvidos permanentemente por sub-campos energéticos e psíquicos específicos, algo que se reconhecia até outrora como os ambientes psíquicos ou as egrégoras de locais e grupos, pois as palavras, vibrações e pensamentos têm efeitos fortes sobre a nossa alma (ou mesmo no corpo) e nos outros, ainda que as pessoas frequentemente não se apercebam de tal, tanto mais que as influências, toques ou sons desses níveis são subtis.
Ora as energias subtis que emanam de seres (visíveis ou invisíveis) e de grupos algo negativos, que procuram fazer dinheiro, ter poder, visibilidade e explorar as pessoas e os seus prazeres, gostos e receios, acabam por envolver ou aprisionar dirigentes e seguidores de modos por vezes muito limitadores ou destrutivos das suas melhores potencialidades.
Isso acontece em alguns movimentos da nova Era ou de cultos religiosos novos, muitos originados na civilização, tão desequilibrada, consumista e exploradora norte-americana, cheia de aparências falsas, de palavras que parecem de oiro mas que são depois de chumbo, com muitas aldrabices ou mistificações quanto a canalizações, iniciações, extra-terrestres, datas proféticas, métodos, práticas, etc.
É então importante aguçarmos a sensibilidade e melhorarmos o discernimento, seja quanto às pessoas que falam e o que as suas vozes nos indiciam, seja o que escrevem ou ensinam, de modo a não deixarmos entrar na nossa consciência e mente (sobretudo sem darmos conta) informação falsa ou manipulada que afectará a nossa bússola interna da verdade, algo que pouca gente cultiva, frequentemente enchendo-se de informação desnecessária, por exemplo, ocultista ou esotérica, que é teórica, incomprovável e frequentemente falsa, e que no fundo só vai pesar e atrapalhar, pagando-se ainda por cima bastante (o que é em geral sinal de vigarice) pelos cursos, consultas, seminários, etc.
Uma ascese vigilante dos sentidos e dos instintos, dos alimentos e das palavras, das imagens e das músicas, das vibrações e intenções que entram em nós é fundamental, se queremos harmonizar e unificar os nossos níveis ou corpos físico, etérico, astral e mental, e assim mais integrados fortalecer as ligações com o mundo espiritual e os seus seres, e com o Ser Divino, nas Suas Faces, estas conforme a invocação, dedicação e adoração de cada ser.

domingo, 17 de janeiro de 2021

A Luz Eterna e as Cores, no caminho espiritual, por Bô Yin Râ. Comentários breves de Pedro Teixeira da Mota..

  O notável  pintor alemão e mestre Bô Yin Râ (1876-1944), na sua obra Das Hohe Ziel, Le But Suprême, O mais elevado Objectivo, impressa em 1925, em Leipzig, pela Verlag Mägische Blätter, transmite-nos muita sabedoria em dez pequenos capítulos, intitulados O Apelo do Espírito (onde realça a necessidade de afinarmos o nosso ouvir no silêncio), Os Dois Caminhos (o dos poderes e mistificações e o que leva ao reino do Espírito puro), Do Procurar e Encontrar (no interior e com o pensamento cerebral calado), da Luz Eterna, das Cores da Luz, Do Objectivo Supremo (que é a realização de ti mesmo na tua forma de manifestação engendrada pelo Espírito), Dos Caminhos dos Antigos (não caminhes sobre escombros), Das Bênçãos do Trabalho (é no trabalho bem feito que se recebe mais), do Poder do Amor (O espírito que é Deus e que é Amor, a maior força do ser humano, não deve ser identificado com o intelecto) e O Mestre da Nazaré (um mestre unido a Deus profundamente mas que não é Deus, embora nos venha ajudar a desvendar ou mesmo estar no reino de Deus).
                                              
Estão traduzidos e c
omentados por mim no Youtube, mas resolvi hoje  ler e comentar de novo brevemente os dois capítulos que tratam da Luz Eterna e das Cores da Luz, e disso resultou o vídeo apenso. Mas como faltaram algumas linhas quando o filme-bateria terminou, vou transcrevê-las aqui para as pessoas ficarem com o capítulo todo...
Mencionando
o seu desejo de descrever as maravilhas infinitas da Luz Eterna, Bô Yin Râ lamenta a incapacidade das palavras e escreve:
                                        
«Eu só posso, tal como uma pessoa que viu numa grande viagem maravilhas long
ínquas da Terra, tentar despertar em vós a possibilidade de representarem o que nunca viram; mas se quereis contemplar interiormente o que  vos devo transmitir, devereis ter a vontade de percorrer por vós próprios, conscientes de todo o esplendor que aqui vos prometo, o caminho que no fim conduz-vos à vossa própria visão, no mais profundo de vós. Possas tu ser reconhecido como um sábio desta terra ou que  vejam em ti alguém pouco familiarizado com a Sabedoria deste mundo, sabe que a Luz da Eternidade só será certamente tua se quiseres procurá-la em ti mesmo. Guarda-te das vias enganadoras que te querem induzir a procurar a Luz com os olhos dos outros. Procura-a mais em ti à tua maneira e sabe: só poderás obtê-la na tua própria cor, - e possas atinja-la já nesta vida terrestre, ou somente após teres abandonado a tua vestimenta terrena ao pó.

Avança tranquilamente e corajosamente no teu próprio caminho , e quaisquer que sejam as coisas que possas esperar de acordo com a tua natureza, elas serão em verdade ultrapassadas largamente pelo que um dia te deverá pertencer.» 
Segue-se o vídeo:

                    

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Cavaleiro de Oliveira será um Cavaleiro do Amor na sua "Viagem à ilha do Amor"?

 
Quem lê a Viagem à ilha do Amor de Francisco Xavier  de Oliveira, mais conhecido como o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783), dada à luz em 1744, em Amesterdão, não acha nada nela que ofenda os "bons costumes" ou mesmo sequer a religião católica, não se discernindo bem a proibição pela tétrica Inquisição Portuguesa, que aliás já o censurara  sob o pretexto de ter escrito contra o celibato dos padres, embora se suspeite que, mais do que a sua liberalidade de costumes e sucesso no reino feminino, tenha sido o conflito com o Conde de Tarouca, embaixador português na Áustria, onde Cavaleiro de Oliveira servira como secretário de Embaixada, de 1735 a 1738 (sucedendo a seu pai, embora tenha sido remetido mais para o expediente), a causa de tal proibição. Com efeito, em 1741 já publicara o 1º volume das suas Cartas Familiares, as Memoires de Portugal e as Mille et Une Observations, onde  farpejava os defeitos portugueses, dos quais a Inquisição era a incarnação máxima.
Três anos depois da saída à luz, e apenas na Holanda, Haia, onde então morava, desse livro que passou desapercebido, converteu-se ao protestantismo, e passou a ser protegido pela corte inglesa, chegando a viver até aos 82 anos, em Inglaterra, vencendo portanto a magia negra que a Inquisição lhe fizera de o queimar em efígie como herético num auto de fé realizado no Rossio em 1761, tendo tido ainda antes bastante sucesso com as suas obras acerca d0 Terramoto de 1755, escritas em francês.  Ora A Viagem à ilha do Amor é quase mais um exercício psicológico de nomear, numa progressão de viagem,  jogo ou peregrinação, as características psíquicas que em geral acompanham o amor, a busca do prazer e da felicidade, entre dois seres, com algumas observações bem vistas quanto aos seus traços e efeitos nos seres humanos. E não há uma excessiva personificação de tais virtudes e vícios, a descrição não é muito grande ou profunda, mas há algumas ideias que valerá a pena transcrevermos.
Apresenta-nos uma ilha utópica do Amor, e terá lido certamente  a Utopia de Tomas More, e teve presente a ilha dos Amores dos Lusíadas de Luís Camões, pois ela surge tentadoramente anunciada por zéfiros e cupidos que seduzem, quais sereias, alguns dos viajantes duma embarcação transviada.
Francisco Cavaleiro de Oliveira, surge com o nome de Tirso e tal pode ser um sinal de algum conhecimento dos mistérios e iniciações do Amor, nomeadamente das os greco-romanos de Dionísio e Baco, pois o tirso era a vara ou bastão de iniciação, podendo portanto considerar-se que Cavaleiro de Oliveira vai apresentar uma iniciação ao Amor, o que de facto faz mas sem atingir aspectos elevados ou iniciáticos, antes dando do amor as suas características principais psico-somáticas, por vezes  com grande sensibilidade e logo entrada nos planos subtis ou anímicos, como podemos ver nas descrições bastantes astrais e pressentidas, por exemplo, do Ciúme ou da Inquietação.
O que pretendeu ele com este tratado, que não teve sucesso, tanto mais que escrito em português não podia circular em Portugal em tempo da Inquisição (assim só surgirá entre nós na impressão lisboeta de 1855), ao contrário do discurso que escreveu  sobre as causas do terramoto de 1755, já em francês, a língua e o público internacional que o pode ler, não é fácil de discernirmos, embora possamos tanto considerá-lo um exercício de imaginação e psicologia sobre o Amor, como um livrinho com um título suficientemente atraente para ter mais sucesso do que mereceria, já que a viagem acaba por não ser muito feliz nem desvendar aspectos novos ou brilhantes do Amor, antes havendo como que uma submissão do Amor ao Destino, que o deixa quase como que mera lembrança agradável do bom tempo passado mas gerando até sofrimento.
Não há uma assunção do amor como um processo interior, como um estado anímico crescente, valioso, criativo, como o poder íntimo divino em nós, e fica-se pelo amor que une dois seres num nível só  psico-somático e que acaba por ser sempre vítima das muitas limitações psicológicas e sociais dos seres, as quais podem resumir-se na palavra Destino, a última alegoria ou personificação que vem cortar as esperanças amorosas do ser amante ou na demanda do amor.
O livro tem em si no final um travo amargo, e Cavaleiro de Oliveira não conseguiu erguer-se como Cavaleiro de Amor suficientemente nesta obra, ainda que creiamos que ele o tenha sido em vários aspectos, já que casou-se três vezes e namorou mais algumas, e enfrentou a poderosa Inquisição portuguesa e seus esbirros, bem como ainda alguma parte da aristocracia portuguesa, demonstrando ser um cavaleiro da Justiça, da Verdade e certamente em parte do Amor, embora neste livro não o mostre nos níveis elevados que ele tem, iniciáticos ou espirituais mesmo e que ele não terá reconhecido por experiência ou gnose interna
Embora ao aludir brevemente ao Amor que existe já antes do Caos inicial, ao mostrar a Felicidade (a Prem Ananda, da Índia) que ele proporciona e ao apontar para a fusão recíproca que acontece entre os dois seres que se amam verdadeira ou plenamente, Cavaleiro de Oliveira mostre ser um Cavaleiro ou Fiel do Amor, contudo não desenvolveu suficientemente tais aspectos para que a obra se aproximasse de um tratado do Amor, como no século XVI se escreveram alguns valiosos, em grande parte dependentes ou influenciados por Marsilio Ficino e o seu comentário ao Banquete de Platão.
Teria que ter intensificado, aprofundado, expandido o Amor em si e nos seres enquanto fogo cósmico e individual, como aperfeiçoador de características e qualidades, como capacidade de comunhão e  expansão universal e mesmo de unificação espiritual e divina.
O amor entre dois seres pode ser maior ou menor, mas no caso de seres que estão livres e sentem afinidades e amor suficiente entre si, então ele é uma escola ascensional que pode levá-los aos píncaros do amor, da unidade, da sabedoria, pois ao estar-se em amor estamos mais vivos, conscientes, verticais, irradiantes, e respiramos o Amor e irradiamo-lo, certamente num trabalho alquímico constante de soprar a chama no atanor (a relação, a casa, o corpo e alma, sushuma), para o qual temos de ser humildes e compassivos, criativos e livres, perseverantemente...
O Fiel do Amor valoriza mais do que tudo estar em Amor, e seja com a amada, seja na ausência dela, está em amor, sente o amor, pois o amor não depende de ser amado, mas ama naturalmente, e ele sente e sabe que o mais alto amor é o que nos liga a sós ou com outros à Divindade tanto Primordial como íntima, a qual é  a Fonte do Amor,
Sendo então o Amor essencial na Divindade e a força ou mais poderosa no cosmos, compreende-se que haja muitos seres em muitas igrejas ou seitas que se sentem muito em amor com os outros e mesmo tendo até apenas uma concepção de Deus bastante limitada,  sentem-se felizes, saudáveis, dinâmicos, optimistas em tais religiões ou igrejas.
O melhor então será os seres conseguirem meditar, sentir, ver e ser o Amor, e sentindo-o e adorando-o tanto na sua Fonte Primordial divina cósmica como simultaneamente no interior das suas almas e corpos, dinamizando-o, partilhando-o na peregrinação pelo sub-campos  unificados de consciência e energia, quais estrelas em vias Lácteas ou caminhos de SantoYagus, Santiago
Viva Deus Santo Amor, clamaram e clamam os místicos do amor..
 Sejamos a estrela do espírito, a qual é uma centelha emanada da Fonte primordial do Amor divino, e consigamos vê-la e senti-la mais no nosso corpo espiritual flamejante iluminante, que se exprime no talento de bem fazer por actos, pensamentos, palavras e intenções, o talent de bien faire, do Infante D. Henrique, de Fernando Pessoa, dos Templários e de todos portadores do santo Graal, os que trabalham em amor ou que verdadeiramente no Amor ardem e se entregam, sacrificam, elevam ou dão....

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Bernardo Trindade encerra a famosa livraria alfarrabista do nº 44 da rua do Alecrim, em Lisboa..

Terminou hoje, 13 de Janeiro de 2021, a sua missão no centro de Lisboa mais uma livraria alfarrabista, a Campos Trindade, batida pelos ventos contrários da história e mais concretamente o preço absurdamente elevado e inegociado da renda e o actual lockdown, ou seja, as restrições confinantes geradas pela política portuguesa face ao famigerado Covid, que tanto pequeno empreendimento ou comércio tem destruído, pois poderia estar aberta ainda até ao fim do mês...

Flores dispostas por entre o gradeamento da ampla janela-montra e amigos foram passando na celebração da despedida e entre eles estive eu (encontrando o Raúl Perez e a Teresa Gonçalves Lobo, e a Cláudia Lopes e a Ana Mateus) para manifestar ao Bernardo Trindade a solidariedade de coração que nos une como amigos e no amor aos livros e à sua sabedoria e beleza.

                

Fundada por Tarcísio Trindade (1931-2011) há mais de 40 anos, continuada pelo seu filho Bernardo, por ela passaram grandes bibliotecas e livros, grandes pessoas e coleccionadores, ou gente humilde e necessitada, ou estrangeiros encantados, o que daria para um filme de milhares de horas valiosas, ora de imagens de livros ora de conversas e discussões, alegrias e tristezas que a funda livraria, mas não larga, acolheu com amor durante anos e anos, com uma cadeira-sofá mesmo ao fundo, ao lado da secretária do Tarcísio ou do Bernardo, posta  ao dispor de algumas sumidades mais idosas que se sentavam e de algum modo "catedrizavam", discorriam e ensinavam, em vozes por vezes doces, encantadoras, arrebatantes... E ainda uma casa de banho podia apoiar os peregrinos dos livros, ao fundo de tudo...

Em momentos de chegada de bibliotecas acabadas de comprar, não era invulgar juntarem-se à porta alguns dos bibliófilos, ou talvez mais alfarrabistas, na ânsia de serem os primeiros a ver e a arrecadar as preciosidades pelas temáticas ou para as suas colecções, ou as que poderiam depois dobrar ou triplicar de preço, perante a bonomia ou generosidade da família Trindade, que ao longos dos anos preferiu manter os preços acessíveis, ganhando apenas, ou sobretudo, nos livros muito bons que por vezes compravam e logo vendiam... 
Quais terão sido os maiores compradores? Quantos dos livros adquiridos se consubtanciaram em novas obras? Quem sentiu mais gratidão, naquela biblioteca do mundo e fonte de Musas? Mistérios...
 
Tarcísio Trindade foi de uma época em que os livros quinhentistas e seiscentistas abundavam e a ele se deve a famosa descoberta do 1º livro impresso em português, e em Chaves, de 1489, o Tratado de Confissom, que veio a ser plenamente identificado e descrito por José Vitorino de Pina Martins. Mas muitas outras preciosidades lhe vieram parar às mãos, fazendo-as depois encaminharem-se para outras mãos, as de investigadores, bibliotecários e coleccionadores. Dotado de uma afabilidade e doçura muito grande, no coração, trato e na voz, era um bom conhecedor de livros e gravuras e foi poeta reconhecido no começo da sua carreira, vindo a ser depois um notável Presidente da Câmara e filantropo da sua terra natal, a Alcobaça do mosteiro de Cister e do amor perenizado de Pedro e Inês, temáticas que aliás Tarcísio e Bernardo Trindade souberam coleccionar museologicamente...

Seu filho Bernardo foi assumindo nos últimos anos, ao lado do pai (e por vezes com a mãe), e depois só, a missão de continuar a fundação circulativa dos alfarrábios e deu uma dinâmica ainda maior, com compra constante de bibliotecas e também venda rápida e barata a muitos colegas, amigos e clientes, realizando ainda alguns catálogos de grande qualidade, sendo também de grande doçura no trato das pessoas. Teve ainda vários amigos e amigas que o ajudaram atendendo afavelmente as pessoas. E as suas belas montras de obras curiosas, suaves e raras ficarão a brilhar no inconsciente pessoal e colectivo... 

                                

A livraria antiquária Campos Trindade foi durante anos a fio a mais concorrida de Lisboa, e diariamente quem gostava de livros e vinha ao Chiado, quem tomava o comboio para a linha do Estoril ou quem passava para a outra banda, entrava a espreitar e refrescar-se com alguma obra que o atraísse, com preços para todas as bolsas...

Quanta gente de valor da cultura e do amor aos livros aqui passou e conviveu? Muita e lembro-me por exemplo de Pina Martins, António Valdemar, Barrilaro Ruas, Martim Albuquerque, Jorge Preto, Orlando Vitorino, os Bigotte Chorão, Dias Farinha, Aires do Nascimento, Pinharanda Gomes, Almeida Dias, António Barahona, Artur Anselmo, Cadafaz de Matos, Silvina Pereira, Miguel Faria, Santos Carvalho, Teresa Gonçalves Lobo, Raul Perez, Adel Sidarus, Luísa Frazão, José Simões-Ferreira, Ernesto Rau, Jorge Filipe de Almeida, José Barreto, Daniel Pires, José Bouza Serrano, Carlos Pessoa, Hugo Miguel Crespo, Júlio Magalhães, Isabel Maiorca, Carlos Bobone, Duarte Branquinho, Luís Filipe Tomás, Jorge Pereira de Sampaio, António Pedro Vicente, Ramada Curto, Duarte Braga, Rui Lopo, Nuno Rício, Clerence, Fernando Simões, Jorge Pires, etc. etc., além, claro, dos vários livreiros alfarrabistas, alguns dos quais também já afastados do centro, ou tendo partido para os mundos subtis...

Ficam perenes as memórias pessoais e gratas de cada um, nomeadamente um ou outro livro cuja aquisição nos tornou mais felizes, seja por ser obra que procurávamos há muito, ou o preço ser simpático, ou pela descoberta do que desconhecíamos, ou por podermos oferecer, e ainda pela encadernação, beleza, interesse ou valor. Perdurará também na fraternidade ou corpo místico dos amantes dos livros as pessoas amigas que lá levámos, tentando que se iniciassem e comprassem alguma obra, ou a quem mesmo oferecíamos...

               Os últimos livros comprados no nº 44 da r. do Alecrim.
 Também sobreviverão os catálogos de grande qualidade que o Bernardo fez, algumas fotografias, entrevistas e notícias e, claro, o amor no coração para Tarcísio, a mulher, o Bernardo, para além da comunhão na fraternidade dos amantes dos livros, que é perene e apenas muda de lugares ou de planos, sem se quebrar a subtil ligação entre os elos...

Bernardo, após esta morte certamente dolorosa, com os últimos anos bem difíceis dada a subida imensa de renda e depois a covinagem, vai encetar a sua peregrinação cisterciense (tal como seu pai realizara com o abade e escritor cisterciense Maur Cocheril, ajudando-o para o seu livro) e saberá descobrir qual a melhor maneira de continuar com o seu amor e conhecimento dos livros, e em interacção luminosa com tantos amigos e clientes, tanto mais que o seu site continua a funcionar...

Assim, continuemos a cultivar e a trabalhar o amor dos livros e da sua sabedoria, beleza e encanto, para harmonia e melhoria da Humanidade.. 

"Morrer é ser iniciado", disseram-nos os gregos e depois, recolhido tal dito na Antologia Grega Palatina, repetiram-no entre nós Antero de Quental, Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa. Hoje somos nós, com o Bernardo Trindade, mesmo que algo tristes, a tocar os sinos da morte e ressurreição, no Amor do Livro e da Divindade que passa por eles e que de certo modo nos constitui, fortalece, apura e espiritualiza ou imortaliza...

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Paramahansa Yogananda e a sua "Autobiografia de um Yogi", no seu aniversário. Com um vídeo da época, divertido.

 Paramahamsa Yogananda nasceu em Gorakpur, Bengala, 5 de  Janeiro em 1894, de uma família kshatriya, de mais sete irmãos e irmãs, tendo  vivido na aldeia até aos 8 anos. Os seus pais eram discípulos de um grande mestre Lahiri Mahasaya, que os iniciou num tipo especial de Yoga,  Kriya Yoga, com o qual Yogananda se viria a destacar, ao trazê-lo para o Ocidente. Mas já então Yogananda sentiu desse mestre (quando já no mundo espiritual) as bênçãos, ao contrair a cólera asiática e, a instâncias da sua mãe, recorrendo a ele por uma fotografia curar-se subitamente. 

  A Autobiografia de um Yogi, publicada em 1948, quatro anos antes de morrer, é o seu melhor testamento biográfico e espiritual, pois com grande sensibilidade, amor e memória narra episódios muito curiosos e instrutivos da sua vida (e de outros, por vezes de espantar), na qual esteve com grandes seres (tais como Tagore, Gandhi, Ananda Moyi Ma, Mahendra Nath Gupta, Jagadis Chandra Bose, C. R. Wright, Therese Neumann, etc.) observando, dialogando e meditando, conseguindo tornar tal obra um verdadeiro sucesso nos livros de espiritualidade (ainda que com algumas ideias ou afirmações discutíveis), bem mais elevado que qualquer dos mais lidos das últimas décadas, muitos deles completas mistificações, como são tantos de conversas com Deus, canalizações, mestres ascensos, regressões e reincarnações, mundo subterrâneos, pleidianos e merkabas. 
Desde muito novo auto-consciente, conta-nos que tinha até vislumbres do que considerava serem memórias de vidas anteriores, tal a de um yogi nos Himalaias, sentindo também dolorosamente as limitações do corpo e da mente infantis, pois já tinha grande aspiração espiritual. 
Reflectindo posteriormente sobre tal, escreveu: «as minhas memórias que tanto alcançam para trás, não são caso único. Conhecem-se muitos yogis  que retiveram a sua auto-consciência sem interrupção durante a transição dramática entre a vida e a morte. Se o homem for só um corpo, a perda deste termina a sua identidade. Mas se os profetas através dos milénios falaram com verdade, o ser humano é essencialmente uma alma incorporal e omnipresente».                                    Talvez fossemos mais correctos substituindo "profetas" por yogis, místicos e sufis. E talvez a palavra "alma", que tem a  sua corporalidade subtil, devesse ser substituída por espírito. Quanto à omnipresença, creio melhor ser reservada para a Divindade, mas aceitemos a expressão de Paramahamsa Yogananda, pois pela tradição Yoga Vedanta a que ele estava ligado Atmam, espírito individual, e Brahman, espírito divino e total-primordial, são um.                                                      Educado apropriadamente com narrativas dos clássicos indianos pelos  pais tanto piedosos como  espirituais, iniciado e treinado na práticas  meditativas por um verdadeiro e valioso mestre yoguico, Sri Yukteswar Giri, alcançou boas realizações espirituais e partiu para a USA em 1920,  quando tinha  apenas  26  anos.   

Dotado  de  grande  aspiração espiritual, amor, dom da palavra e afabilidade,  conseguiu  em  pouco  tempo  juntar  bastante  discípulos e fundar a  Self-Realization Felowship,   a Fraternidade da Auto-Realização, que iniciou milhares de norte-americanos nas técnicas do Kriya Yoga, uma ciência de interiorização pela manipulação mental das energias subtis da respiração ao longo dos canais e centros de força na coluna vertebral.                                                                                     Escreveu além da Autobiografia dum Yogi, mundialmente conhecida, outras obras menores, entre as quais a Ciência da Religião, onde a dado passo afirma: «O sentido de identificação com o corpo transitório e a mente desassossegada são a fonte ou a causa-raiz da miséria do nosso Eu Espiritual. Se concebermos Deus como Felicidade ou Beatitude, então e só então podemos tornar necessária a religião universalmente... Assim como Deus une todas as religiões, é a realização dele como Bem-Aventurança ou beatitude (Ananda) que une a consciência dos profetas ou mestres de todas as religiões». Esta afirmação bem verdadeira é realmente muito importante de ser realizada e só sobre tal base é que poderemos avançar mais para a unidade pacífica e dialogante das religiões.                                                                  Várias linhagens de instrutores e praticantes de Kriya Yoga, os Kryabans, existem no mundo, algumas das quais conheci, como em França a de Rishi Atri (com o seu Atma Bodha Satsanga), e na Bengala, em Bhagalpur, a de Sri Tewarji, discípulo de Bhupendra Nath Sanyal, e que me iniciou,  havendo hoje quem venha de vez em quando a Portugal, tal como veio nos anos 80 o brasileiro Huberto Rodhen, embora não nessa função de iniciar pessoas nessa técnica respiratória e seus complementos (que refere nos seus livros), proferindo palestras e convivendo em Lisboa e Guimarães, nesta cidade na quinta do Gilde, em S. Torcato.                                                 Talvez se tenha exagerado um pouco o valor destas práticas respiratórias, algo recorrente em certos grupos que pensam  que se afirmarem ou repetirem frequentemente muitas vezes um mantra por um certo tempo, ou fazerem tantas saudações ao sol, ou prosternações, chegam a um estado elevado qualquer.                                                                                            Talvez o próprio Yogananda já tivesse exagerado tal valor e prática, quando explica e afirma o seguinte num parágrafo  do capítulo 26, intitulado a Ciência do Kriya Yoga, do qual passamos a transcrever algumas passagens: «Kriya Yoga é um método psicofisiológico simples pelo qual o sangue humano é descarbonizado e carregado de oxigénio. Os átomos deste oxigénio extra são transmutados em corrente vital para rejuvenescer o cérebro e os centros espinais. Ao parar a acumulação do sangue venoso, o yogi é capaz de diminuir ou prevenir a decadência dos tecidos. O yogi avançado transmuta as suas células em energia. Elias, Jesus, Kabir, e outros profetas foram antigos mestres no uso do Kriya ou numa técnica similar, pela qual eles provocavam à vontade a materialização ou desmaterialização do seus corpos», esta última afirmação algo discutível, pois Elias e Jesus não desmaterializaram os corpos nas suas mortes com desaparecimento do corpo. Quanto a Kabir não sabemos...

Continuando, logo a seguir, escreve:«Kriya é uma ciência antiga. Lahiri Mahsaya recebeu-a do seu grande guru, Babaji, que a redescobriu e clarificou a técnica que tinha sido perdida na era escura (Kali Yuga). Babaji, deu-lhe um outro nome, simplesmente, Kriya Yoga.                                                              "O Kriya Yoga que estou a dar ao mundo através de ti neste século XIX", disse Babaji a Lahiri Mahsaya, " é um revivalismo da mesma ciência que Krishna deu há milénios a Arjuna, e que foi mais tarde conhecida por Patanjali e Cristo, e por S. João, S. Paulo e outros discípulos»...                                                         Se estranharmos a menção do fariseu perseguidor dos cristãos, Saul, subitamente a meio da estrada para Damasco, convertido por uma visão de Jesus em Paulo apóstolo dos gentios, Paramahansa Yogananda explica, segundo a sua compreensão, que «S. Paulo conheceu o Kriya Yoga, ou uma técnica similar, pela qual ele podia ligar as correntes vitais para, ou dos, sentidos. Por isso podia dizer:"Eu afirmo pela nossa alegria que eu tenho em Cristo, que morro diariamente" (Ep. aos Coríntios, 15:31). Pelo método de concentrar internamente todas as forças vitais corporais (que normalmente estão dirigidas apenas externamente para o mundo sensorial, assim lhe dando uma validade aparente), S. Paulo experimentava diariamente uma verdadeira união yogi com o "alegrar-se" (beatitude) da Cristo Consciência. Neste estado de felicidade ele estava consciente de estar morto para, ou livre das ilusões sensoriais, o mundo de maya.»                                     Acrescentará as estâncias da Bhagavad Gita que mencionam o Kriya Yoga  IV-1,2; IV-29;  V-27,28, e  nos Patanjali Yoga sutras estará referido em I-27, II-1, II-49. 
E considerando que a luz e o som são  dois sinais da manifestação espiritual ou divina no ser humano, e que são onde o yogi se concentra após ter feito respirações, interiorizações ou o  Kriya Yoga, diz-nos «Patanjali fala de Deus como o actual Som Cósmico de Aum que é ouvido na meditação. Aum é a Palavra Criativa, o zumbido do Motor Vibratório, a testemunha da Presença Divina. Mesmo o principiante no yoga pode ouvir rapidamente o maravilhoso som do Aum. Através deste encorajamento espiritual, ele torna-se convicto que está em comunhão com os planos celestiais ("supernal).» 
Explicará ainda, embora exagerando os resultados, que o Kriya Yogi dirige mentalmente a sua energia vital para a movimentar-revolver para cima e para baixo, à volta dos seis centros espinais  (plexos coccígeo, sacral, lombar, dorsal, cervical e medular), que correspondem aos doze signos astrais do zodíaco, o Homem Cósmico simbólico. Meio minuto de revolução de energia à volta da sensitiva corda espinal causa progressos subtis na sua evolução; esse meio minuto de Kriya corresponde a um ano de desenvolvimento espiritual natural.». Eis um certo exagero... 
Não transcrevemos de um livro, que apesar de algumas superficializações e mistificações (tais como forçadas analogias com a Bíblia, onde a concepção de Deus Jeohva era tão primitiva e tribal), atribuindo a narrativas literais  simbolismos de espiritualidade muito elevada) é dos bons ou melhores para nos apresentar a mundivivência yoguica, o caminho espiritual, a Índia eterna e espiritual, e a realização da aspiração à luz e a Deus. 
Possamos com as bênçãos dos mestres, dos Anjos e da Divindade, através das interiorizações apropriadas, ligar-nos mais ao espírito, ao amor, à Divindade  e melhorarmos o estado da Humanidade...