quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Bernardo Trindade encerra a famosa livraria alfarrabista do nº 44 da rua do Alecrim, em Lisboa..

Terminou hoje, 13 de Janeiro de 2021, a sua missão no centro de Lisboa mais uma livraria alfarrabista, a Campos Trindade, batida pelos ventos contrários da história e mais concretamente o preço absurdamente elevado e inegociado da renda e o actual lockdown, ou seja, as restrições confinantes geradas pela política portuguesa face ao famigerado Covid, que tanto pequeno empreendimento ou comércio tem destruído, pois poderia estar aberta ainda até ao fim do mês...

Flores dispostas por entre o gradeamento da ampla janela-montra e amigos foram passando na celebração da despedida e entre eles estive eu (encontrando o Raúl Perez e a Teresa Gonçalves Lobo, e a Cláudia Lopes e a Ana Mateus) para manifestar ao Bernardo Trindade a solidariedade de coração que nos une como amigos e no amor aos livros e à sua sabedoria e beleza.

                

Fundada por Tarcísio Trindade (1931-2011) há mais de 40 anos, continuada pelo seu filho Bernardo, por ela passaram grandes bibliotecas e livros, grandes pessoas e coleccionadores, ou gente humilde e necessitada, ou estrangeiros encantados, o que daria para um filme de milhares de horas valiosas, ora de imagens de livros ora de conversas e discussões, alegrias e tristezas que a funda livraria, mas não larga, acolheu com amor durante anos e anos, com uma cadeira-sofá mesmo ao fundo, ao lado da secretária do Tarcísio ou do Bernardo, posta  ao dispor de algumas sumidades mais idosas que se sentavam e de algum modo "catedrizavam", discorriam e ensinavam, em vozes por vezes doces, encantadoras, arrebatantes... E ainda uma casa de banho podia apoiar os peregrinos dos livros, ao fundo de tudo...

Em momentos de chegada de bibliotecas acabadas de comprar, não era invulgar juntarem-se à porta alguns dos bibliófilos, ou talvez mais alfarrabistas, na ânsia de serem os primeiros a ver e a arrecadar as preciosidades pelas temáticas ou para as suas colecções, ou as que poderiam depois dobrar ou triplicar de preço, perante a bonomia ou generosidade da família Trindade, que ao longos dos anos preferiu manter os preços acessíveis, ganhando apenas, ou sobretudo, nos livros muito bons que por vezes compravam e logo vendiam... 
Quais terão sido os maiores compradores? Quantos dos livros adquiridos se consubtanciaram em novas obras? Quem sentiu mais gratidão, naquela biblioteca do mundo e fonte de Musas? Mistérios...
 
Tarcísio Trindade foi de uma época em que os livros quinhentistas e seiscentistas abundavam e a ele se deve a famosa descoberta do 1º livro impresso em português, e em Chaves, de 1489, o Tratado de Confissom, que veio a ser plenamente identificado e descrito por José Vitorino de Pina Martins. Mas muitas outras preciosidades lhe vieram parar às mãos, fazendo-as depois encaminharem-se para outras mãos, as de investigadores, bibliotecários e coleccionadores. Dotado de uma afabilidade e doçura muito grande, no coração, trato e na voz, era um bom conhecedor de livros e gravuras e foi poeta reconhecido no começo da sua carreira, vindo a ser depois um notável Presidente da Câmara e filantropo da sua terra natal, a Alcobaça do mosteiro de Cister e do amor perenizado de Pedro e Inês, temáticas que aliás Tarcísio e Bernardo Trindade souberam coleccionar museologicamente...

Seu filho Bernardo foi assumindo nos últimos anos, ao lado do pai (e por vezes com a mãe), e depois só, a missão de continuar a fundação circulativa dos alfarrábios e deu uma dinâmica ainda maior, com compra constante de bibliotecas e também venda rápida e barata a muitos colegas, amigos e clientes, realizando ainda alguns catálogos de grande qualidade, sendo também de grande doçura no trato das pessoas. Teve ainda vários amigos e amigas que o ajudaram atendendo afavelmente as pessoas. E as suas belas montras de obras curiosas, suaves e raras ficarão a brilhar no inconsciente pessoal e colectivo... 

                                

A livraria antiquária Campos Trindade foi durante anos a fio a mais concorrida de Lisboa, e diariamente quem gostava de livros e vinha ao Chiado, quem tomava o comboio para a linha do Estoril ou quem passava para a outra banda, entrava a espreitar e refrescar-se com alguma obra que o atraísse, com preços para todas as bolsas...

Quanta gente de valor da cultura e do amor aos livros aqui passou e conviveu? Muita e lembro-me por exemplo de Pina Martins, António Valdemar, Barrilaro Ruas, Martim Albuquerque, Jorge Preto, Orlando Vitorino, os Bigotte Chorão, Dias Farinha, Aires do Nascimento, Pinharanda Gomes, Almeida Dias, António Barahona, Artur Anselmo, Cadafaz de Matos, Silvina Pereira, Miguel Faria, Santos Carvalho, Teresa Gonçalves Lobo, Raul Perez, Adel Sidarus, Luísa Frazão, José Simões-Ferreira, Ernesto Rau, Jorge Filipe de Almeida, José Barreto, Daniel Pires, José Bouza Serrano, Carlos Pessoa, Hugo Miguel Crespo, Júlio Magalhães, Isabel Maiorca, Carlos Bobone, Duarte Branquinho, Luís Filipe Tomás, Jorge Pereira de Sampaio, António Pedro Vicente, Ramada Curto, Duarte Braga, Rui Lopo, Nuno Rício, Clerence, Fernando Simões, Jorge Pires, etc. etc., além, claro, dos vários livreiros alfarrabistas, alguns dos quais também já afastados do centro, ou tendo partido para os mundos subtis...

Ficam perenes as memórias pessoais e gratas de cada um, nomeadamente um ou outro livro cuja aquisição nos tornou mais felizes, seja por ser obra que procurávamos há muito, ou o preço ser simpático, ou pela descoberta do que desconhecíamos, ou por podermos oferecer, e ainda pela encadernação, beleza, interesse ou valor. Perdurará também na fraternidade ou corpo místico dos amantes dos livros as pessoas amigas que lá levámos, tentando que se iniciassem e comprassem alguma obra, ou a quem mesmo oferecíamos...

               Os últimos livros comprados no nº 44 da r. do Alecrim.
 Também sobreviverão os catálogos de grande qualidade que o Bernardo fez, algumas fotografias, entrevistas e notícias e, claro, o amor no coração para Tarcísio, a mulher, o Bernardo, para além da comunhão na fraternidade dos amantes dos livros, que é perene e apenas muda de lugares ou de planos, sem se quebrar a subtil ligação entre os elos...

Bernardo, após esta morte certamente dolorosa, com os últimos anos bem difíceis dada a subida imensa de renda e depois a covinagem, vai encetar a sua peregrinação cisterciense (tal como seu pai realizara com o abade e escritor cisterciense Maur Cocheril, ajudando-o para o seu livro) e saberá descobrir qual a melhor maneira de continuar com o seu amor e conhecimento dos livros, e em interacção luminosa com tantos amigos e clientes, tanto mais que o seu site continua a funcionar...

Assim, continuemos a cultivar e a trabalhar o amor dos livros e da sua sabedoria, beleza e encanto, para harmonia e melhoria da Humanidade.. 

"Morrer é ser iniciado", disseram-nos os gregos e depois, recolhido tal dito na Antologia Grega Palatina, repetiram-no entre nós Antero de Quental, Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa. Hoje somos nós, com o Bernardo Trindade, mesmo que algo tristes, a tocar os sinos da morte e ressurreição, no Amor do Livro e da Divindade que passa por eles e que de certo modo nos constitui, fortalece, apura e espiritualiza ou imortaliza...

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Paramahansa Yogananda e a sua "Autobiografia de um Yogi", no seu aniversário. Com um vídeo da época, divertido.

 Paramahamsa Yogananda nasceu em Gorakpur, Bengala, 5 de  Janeiro em 1894, de uma família kshatriya, de mais sete irmãos e irmãs, tendo  vivido na aldeia até aos 8 anos. Os seus pais eram discípulos de um grande mestre Lahiri Mahasaya, que os iniciou num tipo especial de Yoga,  Kriya Yoga, com o qual Yogananda se viria a destacar, ao trazê-lo para o Ocidente. Mas já então Yogananda sentiu desse mestre (quando já no mundo espiritual) as bênçãos, ao contrair a cólera asiática e, a instâncias da sua mãe, recorrendo a ele por uma fotografia curar-se subitamente. 

  A Autobiografia de um Yogi, publicada em 1948, quatro anos antes de morrer, é o seu melhor testamento biográfico e espiritual, pois com grande sensibilidade, amor e memória narra episódios muito curiosos e instrutivos da sua vida (e de outros, por vezes de espantar), na qual esteve com grandes seres (tais como Tagore, Gandhi, Ananda Moyi Ma, Mahendra Nath Gupta, Jagadis Chandra Bose, C. R. Wright, Therese Neumann, etc.) observando, dialogando e meditando, conseguindo tornar tal obra um verdadeiro sucesso nos livros de espiritualidade (ainda que com algumas ideias ou afirmações discutíveis), bem mais elevado que qualquer dos mais lidos das últimas décadas, muitos deles completas mistificações, como são tantos de conversas com Deus, canalizações, mestres ascensos, regressões e reincarnações, mundo subterrâneos, pleidianos e merkabas. 
Desde muito novo auto-consciente, conta-nos que tinha até vislumbres do que considerava serem memórias de vidas anteriores, tal a de um yogi nos Himalaias, sentindo também dolorosamente as limitações do corpo e da mente infantis, pois já tinha grande aspiração espiritual. 
Reflectindo posteriormente sobre tal, escreveu: «as minhas memórias que tanto alcançam para trás, não são caso único. Conhecem-se muitos yogis  que retiveram a sua auto-consciência sem interrupção durante a transição dramática entre a vida e a morte. Se o homem for só um corpo, a perda deste termina a sua identidade. Mas se os profetas através dos milénios falaram com verdade, o ser humano é essencialmente uma alma incorporal e omnipresente».                                    Talvez fossemos mais correctos substituindo "profetas" por yogis, místicos e sufis. E talvez a palavra "alma", que tem a  sua corporalidade subtil, devesse ser substituída por espírito. Quanto à omnipresença, creio melhor ser reservada para a Divindade, mas aceitemos a expressão de Paramahamsa Yogananda, pois pela tradição Yoga Vedanta a que ele estava ligado Atmam, espírito individual, e Brahman, espírito divino e total-primordial, são um.                                                      Educado apropriadamente com narrativas dos clássicos indianos pelos  pais tanto piedosos como  espirituais, iniciado e treinado na práticas  meditativas por um verdadeiro e valioso mestre yoguico, Sri Yukteswar Giri, alcançou boas realizações espirituais e partiu para a USA em 1920,  quando tinha  apenas  26  anos.   

Dotado  de  grande  aspiração espiritual, amor, dom da palavra e afabilidade,  conseguiu  em  pouco  tempo  juntar  bastante  discípulos e fundar a  Self-Realization Felowship,   a Fraternidade da Auto-Realização, que iniciou milhares de norte-americanos nas técnicas do Kriya Yoga, uma ciência de interiorização pela manipulação mental das energias subtis da respiração ao longo dos canais e centros de força na coluna vertebral.                                                                                     Escreveu além da Autobiografia dum Yogi, mundialmente conhecida, outras obras menores, entre as quais a Ciência da Religião, onde a dado passo afirma: «O sentido de identificação com o corpo transitório e a mente desassossegada são a fonte ou a causa-raiz da miséria do nosso Eu Espiritual. Se concebermos Deus como Felicidade ou Beatitude, então e só então podemos tornar necessária a religião universalmente... Assim como Deus une todas as religiões, é a realização dele como Bem-Aventurança ou beatitude (Ananda) que une a consciência dos profetas ou mestres de todas as religiões». Esta afirmação bem verdadeira é realmente muito importante de ser realizada e só sobre tal base é que poderemos avançar mais para a unidade pacífica e dialogante das religiões.                                                                  Várias linhagens de instrutores e praticantes de Kriya Yoga, os Kryabans, existem no mundo, algumas das quais conheci, como em França a de Rishi Atri (com o seu Atma Bodha Satsanga), e na Bengala, em Bhagalpur, a de Sri Tewarji, discípulo de Bhupendra Nath Sanyal, e que me iniciou,  havendo hoje quem venha de vez em quando a Portugal, tal como veio nos anos 80 o brasileiro Huberto Rodhen, embora não nessa função de iniciar pessoas nessa técnica respiratória e seus complementos (que refere nos seus livros), proferindo palestras e convivendo em Lisboa e Guimarães, nesta cidade na quinta do Gilde, em S. Torcato.                                                 Talvez se tenha exagerado um pouco o valor destas práticas respiratórias, algo recorrente em certos grupos que pensam  que se afirmarem ou repetirem frequentemente muitas vezes um mantra por um certo tempo, ou fazerem tantas saudações ao sol, ou prosternações, chegam a um estado elevado qualquer.                                                                                            Talvez o próprio Yogananda já tivesse exagerado tal valor e prática, quando explica e afirma o seguinte num parágrafo  do capítulo 26, intitulado a Ciência do Kriya Yoga, do qual passamos a transcrever algumas passagens: «Kriya Yoga é um método psicofisiológico simples pelo qual o sangue humano é descarbonizado e carregado de oxigénio. Os átomos deste oxigénio extra são transmutados em corrente vital para rejuvenescer o cérebro e os centros espinais. Ao parar a acumulação do sangue venoso, o yogi é capaz de diminuir ou prevenir a decadência dos tecidos. O yogi avançado transmuta as suas células em energia. Elias, Jesus, Kabir, e outros profetas foram antigos mestres no uso do Kriya ou numa técnica similar, pela qual eles provocavam à vontade a materialização ou desmaterialização do seus corpos», esta última afirmação algo discutível, pois Elias e Jesus não desmaterializaram os corpos nas suas mortes com desaparecimento do corpo. Quanto a Kabir não sabemos...

Continuando, logo a seguir, escreve:«Kriya é uma ciência antiga. Lahiri Mahsaya recebeu-a do seu grande guru, Babaji, que a redescobriu e clarificou a técnica que tinha sido perdida na era escura (Kali Yuga). Babaji, deu-lhe um outro nome, simplesmente, Kriya Yoga.                                                              "O Kriya Yoga que estou a dar ao mundo através de ti neste século XIX", disse Babaji a Lahiri Mahsaya, " é um revivalismo da mesma ciência que Krishna deu há milénios a Arjuna, e que foi mais tarde conhecida por Patanjali e Cristo, e por S. João, S. Paulo e outros discípulos»...                                                         Se estranharmos a menção do fariseu perseguidor dos cristãos, Saul, subitamente a meio da estrada para Damasco, convertido por uma visão de Jesus em Paulo apóstolo dos gentios, Paramahansa Yogananda explica, segundo a sua compreensão, que «S. Paulo conheceu o Kriya Yoga, ou uma técnica similar, pela qual ele podia ligar as correntes vitais para, ou dos, sentidos. Por isso podia dizer:"Eu afirmo pela nossa alegria que eu tenho em Cristo, que morro diariamente" (Ep. aos Coríntios, 15:31). Pelo método de concentrar internamente todas as forças vitais corporais (que normalmente estão dirigidas apenas externamente para o mundo sensorial, assim lhe dando uma validade aparente), S. Paulo experimentava diariamente uma verdadeira união yogi com o "alegrar-se" (beatitude) da Cristo Consciência. Neste estado de felicidade ele estava consciente de estar morto para, ou livre das ilusões sensoriais, o mundo de maya.»                                     Acrescentará as estâncias da Bhagavad Gita que mencionam o Kriya Yoga  IV-1,2; IV-29;  V-27,28, e  nos Patanjali Yoga sutras estará referido em I-27, II-1, II-49. 
E considerando que a luz e o som são  dois sinais da manifestação espiritual ou divina no ser humano, e que são onde o yogi se concentra após ter feito respirações, interiorizações ou o  Kriya Yoga, diz-nos «Patanjali fala de Deus como o actual Som Cósmico de Aum que é ouvido na meditação. Aum é a Palavra Criativa, o zumbido do Motor Vibratório, a testemunha da Presença Divina. Mesmo o principiante no yoga pode ouvir rapidamente o maravilhoso som do Aum. Através deste encorajamento espiritual, ele torna-se convicto que está em comunhão com os planos celestiais ("supernal).» 
Explicará ainda, embora exagerando os resultados, que o Kriya Yogi dirige mentalmente a sua energia vital para a movimentar-revolver para cima e para baixo, à volta dos seis centros espinais  (plexos coccígeo, sacral, lombar, dorsal, cervical e medular), que correspondem aos doze signos astrais do zodíaco, o Homem Cósmico simbólico. Meio minuto de revolução de energia à volta da sensitiva corda espinal causa progressos subtis na sua evolução; esse meio minuto de Kriya corresponde a um ano de desenvolvimento espiritual natural.». Eis um certo exagero... 
Não transcrevemos de um livro, que apesar de algumas superficializações e mistificações (tais como forçadas analogias com a Bíblia, onde a concepção de Deus Jeohva era tão primitiva e tribal), atribuindo a narrativas literais  simbolismos de espiritualidade muito elevada) é dos bons ou melhores para nos apresentar a mundivivência yoguica, o caminho espiritual, a Índia eterna e espiritual, e a realização da aspiração à luz e a Deus. 
Possamos com as bênçãos dos mestres, dos Anjos e da Divindade, através das interiorizações apropriadas, ligar-nos mais ao espírito, ao amor, à Divindade  e melhorarmos o estado da Humanidade...

          

domingo, 3 de janeiro de 2021

General Qassem Soleimani (1957-2020), um herói e mártir elevado a mestre da nossa época...

                                   

O dia 3 de Janeiro de 2020 ficará na história como o da morte do heróico general iraniano Qassem Soleimani, traiçoeiramente assassinado por um drone comandado pelos norte-americanos às ordens de Donald Trump, Mike Pompeo e cerca de mais 36 intervenientes na operação traiçoeira que o vitimou, ao chegar ao aeroporto de Bagdad, Iraque, induzido em erro, para vir negociar uma aproximação pacífica entre o Irão e a USA. Embora apresentado como um vulgar bandido que preparava acções que faziam perigar os interesses norte-americanos o facto é que o general Soleimani era um herói regional na luta contra o terrorismo e os que apoiavam, bem como contra a opressão israelita-sionista na Palestina e Líbano, sendo por isso odiado não só pelo ISIS como pelos norte-americanos, israelitas, sauditas e britânicos.

O crime, que para além de vitimar Qassem Soleimani, ceifou também o iraquiano Abu Madhi al-Mohandis (1.VII.1954-2020, bem marcado pelo desgaste da vida abnegada e lutadora, já até contra Saddam Hussein), chefe das forças populares mobilizadas (Al-Hashd Al-Sha'abi)  que mais lutaram contra os terroristas no Iraque, e outros cinco companheiros, foi de tal modo brutal que chocou o mundo mais informado e sensível ainda que o mais que vendido Donald Trump e os seus tenham tentado disfarçar a importância seja do general, seja do crime e arrogância norte-americana, enquanto os criminosos Benjamin Netanyahu e o ISIS-ISIL se regozijavam.                                                                  Neste sentido, ficarão para sempre na História as afirmações do brutamontes Secretário da Defesa Norte Americano e vociferador de sanções e ameaças Mike Pompeo, desinformando um  dia depois que os vídeos que circulavam de iranianos a manifestarem-se eram de satisfação pela morte dele, quando era o contrário. 

  A resposta a esta típica manipulação da verdade foi dada uns dias depois com o maior enterro da história da humanidade, não só por ir do Iraque até ao Irão  mas por ter feito confluir sobre tal percurso e sobre Teerão e por Karman, a cidade natal de Soleimani, milhões de admiradores e seguidores do bravo estratega e libertador de povos oprimidos, como os Irão, Iraque, Síria e Palestina, alma muito religiosa e sensivel, nomeadamente como dedicado protector dos órfãos infelizes.

                            

                            

Poucas horas depois de se concluírem as cerimónias fúnebres, o Irão, depois de ter feito um pré-aviso de ataque, enviou uns poucos de mísseis sobre algumas bases norte-americanas no Iraque do que resultaram alguns mortos e forte destruição de infra-estruturas, embora mais uma vez os norte-americanos escondessem o que se passou falando apenas de concussões cerebrais não graves, preferindo o insensível Trump ridicularizar as multidões por estarem a seguir apenas uma mão e um anel, que seria o que restara do corpo explodido do mártir Soleimani. O que não terá de sofrer psiquicamente no além por isto tudo?

No dia seguinte ao do traiçoeiro assassinato,  na cidade santa de Karbala, no Iraque, que alberga os restos mortais e mausoléus do 3º imam shia, Hussain, Sayyid al-Shuhada, o Mestre dos Mártires, foi desfraldada a bandeira do Amor  e Justiça, em razão do qual foram também disparados os poucos mísseis sobre as bases ocupantes norte-americanas, ficando para a altura certa o exercer-se da justiça. Para já estão identificados os principais agentes a serem chamados a julgamento, mas onde certamente não irão...

Passado um ano, ontem e hoje, 2021, celebrou-se com grande fé e amor a passagem ao plano subtil e espiritual dos mártires de Qassem Soleimani e Abu Madhi al-Mohandis e seus companheiros, donde verdadeiramente têm exercido e exercerão uma grande acção impulsionadora nos iraquianos e iranianos (povos da tradição mártir, shuhada), bem como nos Shia e muitos outros povos de todo o mundo, em relação a fortificarem-se e libertarem-se do imperialismo opressor norte-americano, tão corruptor dado a sua capacidade incontrolável de imprimirem dólares e os darem a quem se lhes vende, exercendo assim verdadeiramente uma função diabólica em relação à justiça, ao trabalho e à fraternidade dos povos, dentro de uma comunidade internacional livre e dialogante.                                                                               Entretanto saiu hoje dia 3 a autobiografia de Qassem Soleimani, Eu não tenho medo de nada, uma compilação do seus diários, escritos e ditos, prefaciada pelo líder da nação iraniana Ali Khamenei, no qual este diz:

«Ainda que Deus tenha erguido a memória de Qassem Soleimani a alturas proeminentes e, deste modo, recompensado a pureza das suas boas acções, cada um de nós tem também um dever,» o de continuar a sua obra para o bem da Humanidade... 

                                                                      
Também valiosa foi a mensagem breve enviada pelo ex-presidente boliviano Evo Morales, que conseguiu com o seu povo libertar-se da corja opressiva e vendida (liderada por Ignes Anez) aos norte-americanos, e acompanhada da seguinte imagem:  
                                           
«A luta contra o imperialismo tem heróis e mártires no mundo, tal como o General Qassem Soleimani, assassinado um ano atrás. Os povos reconhecem a sua luta pela justiça e a defesa da soberania de nações que sofrem agressões externas. Nós juntamo-nos à sua homenagem no Irão.» 

                                Can Qasem Soleimani's young daughter ...

Fiquemos agora com a filha do próprio hazrat Qassem Soleimani, Zeinab, numa entrevista valiosa sobre o seu pai, desejando muita luz, amor e poder divinos neles e em nós para este tão desafiante ano de 2021.   [2015, revendo este artigo, vemos que o vídeo foi retirado, cremos pelo Youtube. Experimente esta ligação a um outro vídeo... https://www.youtube.com/watch?v=dolc3JxXLSM ]

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O Amor no ano de 2021: quem não se alienará e o saberá encontrar, despertar, viver e emanar?

O Amor, e o Amor em nós, é um mistério subtil, ígneo e mesmo espiritual e divino. Embora vivenciado e aprofundado por alguns, continua semi-ignorado, apesar de há milénios o cogitarmos e vivermos em diversos níveis da sua manifestação, sendo para a maioria mais um sentimento-energia de atracção ou de desejar e querer o bem e que só é parcialmente conhecido e controlado. "O Amor é cego", tornou-se um dito popular, que foi mesmo trabalhado por alguns de nós (na galeria Novo Século) em obras de arte e escritos. Escapando ao domínio mental e racional, pois é uma realidade de origem espiritual, manifesta-se todavia, por ser multidimensional, de muitos modos e níveis, desde os mais instintivos e carnais aos mais sublimes e celestiais, de modo consciente ou inconsciente, renascendo sempre e desafiando-nos quanto à sua força poderosa, quanto sua essência subtil e quanto à sua presença em nós, na Natureza e no Cosmos.
                                         
Estamos contudo sempre mais ou menos em Amor, mais ou menos conscientemente, e logo a irradiar ou a emanar tal, apercebendo-nos porém quando estamos bem ou alegres e coincidimos, ou flamejamos mais nele em momentos de auto-observação, meditação e união, ou de maior admiração, diálogo e gratidão, mas também de luta e empatia contra o mal, o sofrimento e a ignorância.
A quase permanente oscilação do amor em nós seria mensurável nas pessoas se conseguíssemos ter aparelhos que registassem a sua maior ou menor presença ou manifestação, ou mesmo temperatura, ou ainda irradiação, através do corpo e psique, provinda da misteriosa fonte do amor, algo muito pouco consciencializado, embora todos nos referimos ao coração, ao peito, como a sede do amor.
Podemos relembrar-nos da tradição da demanda do santo Graal, do cálice tanto de sangue, como de vinho, de bebida imortalizante, ou seja do amor, da luz e do espírito, que aflorou bastante na idade Média e depois sobreviveu em alguns grupos espirituais, por alguns denominados esotéricos e gnósticos.
Vaso, Graal que acolhe, recebe e manifesta o Amor no nosso íntimo e dele para o Universo. O Graal, na sua multidimensionalidade, é especialmente uma imagem simbólica do fogo do amor acesso dentro do centro da nossa alma, o espírito... Quanto à oscilação diária, de ondas de menor ou maior amplitudes, ela é causada pelas nossas reacções (frequentemente inconscientes) aos impactos sensoriais, emocionais e mentais que constantemente nos tocam e nos fazem reagir e assim oscilar e perder a sintonização, ou o caminho desimpedido, para o amor irradiante, a consciência do fogo interior desabrochado e emanante.
Sabermos estar mais ligados ao centro do Amor perene em nós, manter a chama ardente e dardejando os seus raios solares, eis uma arte bem difícil que todos devemos tanto investigar como nela perseverar... Há pessoas que têm uma estabilidade maior do Amor, seja pela paz da alma-psique, seja pela fidelidade do coração, seja pelo ambiente amado (familiar ou local) em que vivem, seja pela força dos seus ideais, embora por vezes não se auto-consciencializem disso senão quando oscilam e se sentem pior ou menos bem dispostos. São pessoas que estão mais em amor, simples, desprendidas, alegres, altruístas em geral. Se são religiosas sentem que estão a fazer a vontade divina, e consagram-se plenamente a ela, ou ao que pensam ser ela, cumprindo os seus deveres, as suas profissões ou missões (ensinar, curar, tratar, etc) com amor e sentindo amor, e fazendo consciente ou inconscientemente as suas orações simples, mas nessa simplicidade estando em amor e ligando-se bem (consciente ou inconscientemente) ao divino nelas e nos outros. Podemos admitir então que o Amor nas pessoas brota do seu fundo íntimo e que está acesso ou não, e que é desperto ou intensificado pela auto-consciência da seu fogo em nós, pelas meditações unitivas interiores e pelo presente em si mesmo vivido em harmonias dialogantes e plenificantes, e ainda pelas expectativas futurantes.
Assim, as pessoas mais jovens, animicamente e não só fisicamente, facilmente sentem o seu amor vivo, por exemplo, ao começarem um novo dia, pois com aspirações, dedicações e forças esperam e encontrarão os modos de as manifestar e assim no amor se realizarem. Seria recomendável a cada ser de manhã, antes de se levantar, auscultar o seu estado de amor e, eventualmente, o corrigir, ou seja, melhorar, isto é, despertar e intensificar por alguma oração, invocação, consideração, meditação, tentando religar-se aos mestres do Amor, aos espíritos celestiais e à Fonte Divina do Amor...
Mas que coração é este que devemos aprofundar? Será o centro de forças subtis, o chacra, na terminologia hindu, do coração, o anahata?
A um primeiro nível, o energético e emotivo, sim, e deste modo ele está ligado com os outros centros de força e depende deles. A energia no ser humano é uma, embora tenha várias fontes ou proveniências e se manifeste em vários tipos, órgãos e funções. Respirar então interiormente e profundamente e reter algum ar e prana será bom para fortalecer os diversos centros e órgãos e dar mais energia apoiante ao centro do coração, e para nos interiorizar no sentir, algo fundamental no caminho da auto-realização.
                                 
Ora como qualquer acto ou pensamento tem efeitos no nosso ser de alma e coração, devemos ir-nos consciencializando a cada momento como estamos, o que dialogamos e logo discernirmos onde pode ter havido algo de anti-amor, de anti-verdade, e como podemos harmonizar tal, bem como o que nos pode elevar, animar, pôr-nos de novo mais em amor, aprendendo-se assim a cultivar-se alquimicamente o fogo do amor. Mantermos um culto fiel e íntimo seja à Fonte Divina e aos mestres e anjos seja a quem mais amamos, face a todo o impacto sensorial que afecta o nosso tónus cardíaco e amoroso, em especial quando nos expomos a tanta violência, guerra, corrupção, injustiça, presencialmente ou nas notícias televisivas ou da web, é fundamental, pois de tal nível ou ser cultivado retornará mais Amor, que nos fortificará.
Cada pessoa deverá escolher os seus seres mais amados, e poderemos dizer que tais momentos de culto serão ocasiões de ora de recebermos ora irradiarmos e logo sentirmos o Amor que banha o Cosmos e que objectivamente nos toca ou se ergue mais de dentro de nós, em si mesmo ou para algo ou alguém.
Isto pode-se equiparar a entrarmos no jardim ou santuário espiritual da nossa alma ou mesmo participarmos na construção do templo ao Divino.
Certamente que face a tantas energias desequilibradas ou mesmo negativas que caracterizam o viver citadino moderno devemos desenvolver resistências, estruturas da alma, mas como se passa tal?
É o chacra que se fecha, é a aura que adquire uma forma e uma tonalidade vibratória mais resistente? Deveremos considerar a forma oval, ou a da vesica pisces, como as melhores? Ou então imaginarmos uma muralha de luz à nossa volta? Ou abraçarmos as árvores, contemplarmos as nuvens e os céus e caminharmos pela Natureza? Ou invocar o dragão celestial protector do coração?
                                        
Ou será o mais importante o sol espiritual do coração estar a irradiar o mais permanentemente possível, observando as nuvens que se interpõem mas que são coloridas, fendidas ou dissipadas pelos raios que emanam dele?
                                       
Quão será importante mantermos a consciência e a invocação frequente do espírito, da satsanga, ou companhia na verdade, com almas amigas, os mestres e a Divindade?
Que oração ou mantra conseguiremos lançar ou irradiar e que nos fortifica mais no Amor? - O «Meus Deus, eu amo-vos de todo o meu coração», ou simplesmente,«Meu Deus eu amo-vos»?
A tarefa de estarmos ou mesmo sermos Amor está nos nossos dias muito dificultada pela extrema violência e injustiças que se passam em várias partes do mundo ou mesmo de Portugal, que nos ferem e revoltam. Sabermos reagir não emocionalmente, não conflituosamente e conservando a comunhão interior e o estado de irradiação de Amor é bem necessário, e difícil pois as redes sociais e os noticiários inundam-nos de injustiças, violências, manipulações e criminalidade.
Sabermos reagir com as meditações, contemplações, orações ou jaculatórias e mantras que nos elevam, ou que harmonizam ou sublimam as energias negativas ou reactivas, é então bem importante, uma luta constante....     
 Concluamos: Que neste ano, depois da relativa desgraça do anterior, seja verdadeiramente pentagonal, espiritual. Haja  persistência e boa sorte no acesso à fonte do Amor em nós, o coração, o cálice, o Graal e que a partir dele e nele a Luz e o Amor da centelha espiritual, na sua religação à corrente divina do Amor, emanem bem de nós para o mundo e ainda nos inspirem e proporcionem um sistema imunitário forte, saúde, discernimento, libertação, realização.... Aum...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Contributo de Leonardo Coimbra no "In Memoriam de Sebastião de Magalhães Lima". Com vídeo do texto, comentado...

 Leonardo Coimbra (1883-1936), o genial filósofo homenageou Sebastião de Magalhães Lima (1850-1928), como ele outro grande tributo ou orador da passagem do séc. XIX para o XX, quando Sebastião morreu, no In-Memoriam que lhe foi dedicado,  e realçou não possuir o dom da palavra mas sim os  valores da sua personalidade, tal como a sinceridade, o esforço, a lealdade e ainda a luta pelos ideais do socialismo e pacifismo, que Leonardo Coimbra considerava cristãos.
                                                       
Sebastião de Magalhães Lima fez u
m percurso típico da época: estudante de Direito em Coimbra (1870 a 1875), escritor, advogado, jornalista e fundador do Século, defensor dos ideais republicanos e socialistas, com um pendor forte de livre pensador e anti-religioso, pois era maçon, ao contrário do seu irmão Jaime, ou mesmo de Antero de Quental e de Leonardo Coimbra, que embora passando por fases mais revolucionárias, se elevaram depois a demandas mais filosóficas e espirituais, Leonardo chegando mesmo a converter-se ao catolicismo por acção do popularmente santo padre Cruz, uns meses antes de morrer.
Já Antero de Quental apenas admitiu, cre
mos que a instância de Oliveira Martins, concluir os seus Sonetos com o famoso Na Mão de Deus, no que pode ser visto como uma aceitação do Deísmo ou de aspectos do Cristianismo, embora evidentemente Antero tenha sido sempre  um ser em demanda da Luz, um espiritual, de certos modos místico na sensibilidade e aspiração e embora algo condicionado pelas ideias-forças alternativas na época ao materialismo e ao catolicismo que se lhe ofereciam: as doutrinas do inconsciente, do budismo, do panpsiquismo e do espiritualismo, tanto imanentista como transcendentalista, nestas estas últimas, as melhores, por fim se inserindo por afinidade.
                                             
Sebastião de Magalhães Lima, desde a época de estudante de Coimbra, sobretudo a partir
do seu 3º ano, notabilizou-se como revolucionário e foi certamente uma das consciências e vozes mais progressistas do nosso meio social, erguendo a voz sucessivamente contra o imperialismo britânico, a corrupção nos bancos,  a manipulação e opressão da Igreja e as incapacidades da Monarquia e foi dos maiores obreiros da implantação da República, do movimento internacionalista pacifista e do fortalecimento de Maçonaria, onde tendo sido iniciado em 1874, veio a ser o grão-mestre de 1907 a 1928. Certamente que tinha limitações na sua visão do mundo, nomeadamente as derivadas da sua repulsão forte de todas as religiões (e particularmente da Igreja em Portugal), que considerava pré-históricas, prevendo o fim delas, algo que não se verificou, pois há ainda nelas ensinamentos morais, éticos e espirituais que sempre serão necessários à Humanidade. 

 
Poderíamos fazer entrar neste diálogo Fernando Pessoa, dos maiores conhecedores da Maçonaria em Portugal, crítico dela enquanto mera carbonária, anti-jesuítica e ignorante dos veios gnósticos que lhe caberiam preservar e transmitir, nomeadamente nas doutrinas iniciáticas que Fernando Pessoa aprofundou bastante. E por isso na sua nota final uns meses antes de morrer Pessoa se confessa Cristão gnóstico, referindo mesmo a Maçonaria, que acabara de defender face à opressão e proibição que Salazar e o deputado José Cabral instauraram.
Oiçamos então Leonardo Coimbra elogiando Sebastião de
 Magalhães Lima, com alguns comentários meus inspirados no momento, do qual transcrevemos agora apenas os primeiros parágrafos:
«A vida do ho
mem é testemunho da realidade, como, pelo menos, qualquer outro acontecimento da realidade fenoménica. E esse testemunho é tanto mais valioso quanto mais essa vida se apresenta sincera, esforçada e leal.
Foi Magalhães Lima um servidor do Ideal e a sua
vida foi o combustível dessa chama, que acende os astros do destino humano.
Sociali
sta e pacifista, eis a forma simples do seu cristianismo de realizações.
O seu testemunho sobre a vida é, pois, o da existência duma vontade de amor, duma unificação de instintos e tendências no grande abraço da s
ociabilidade consciente, perfectível e progressiva. (...) »

                            

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Leonardo Coimbra, "A Luta pela Imortalidade", 2ª parte, por Pedro Teixeira da Mota, com vídeo.

Continuamos com a 2ª leitura comentada de extractos do 3º capítulo do livro A Imortalidade da Alma, no qual Leonardo Coimbra apresenta as suas ideias, memórias e experiências acerca da morte e da imortalidade.
                               
No 1º vídeo, de homenagem a Leonardo Coimbra no seu
137º aniversário e contextualizando-o, lemos uma descrição de impressões de criança, e a menção às orações de quem «pedia memória dos vivos para os mortos que se foram na tranquilidade dos seus campos ou no tumulto e vastidão das águas do Mar», oração que José V. de Pina Martins também me contou ouvir na infância, do seu pai, em Penalva de Alva. E continuámos, lendo-o a mencionar rapidamente as concepções de morte na antiguidade, nomeadamente Grécia e Egipto, «Já no velho Egipto a vida imortal tinha a sanção duma Justiça tocada de bondade», dizendo depois Leonardo: «Todas as religiões são noticiosas desse além e as suas notícias são interpretações da morte à luz da vida moral que os homens se vão fazendo, por vezes, à luz duma moral tão alta que aparece como uma revelação perdida nos tempos ou uma saudade da original perfeita edénica.
Ao lado dessas sínteses, dessas disciplinas da Morte,
nunca deixaram os homens de colher e contar factos avulsos, que formam em toda a parte uma larga zona de mistério banhando todas as banalidades - feiticeiras, encantamentos, mouras que ao luar choram seculares saudades, espectros alucinatórios», narrando em seguida um visão de uma camponês dos seus sítios, «numa ourela do rio Tâmega».
Realcemos a expressão «de sínteses, de disciplinas da Morte» em relação às concepções, morais e espirituais que o ser humano conseguiu erguer a partir das suas sensações, crenças e práticas psico-espirituais, por vezes atingindo uma compreensão ou moral tão elevada que é já uma reminiscência (saudade) ou visão-sentimento-clarividência do estado de vida espiritual antes de termos descido ou caído na manifestação e finalmente no corpo animal terreno.
Narra depois algumas histórias semi-fantásticas e em seguida
casos de psicometria e de telepatia, que ele aceita, nomeadamente as vivências dos escritores Silva Passos e Souza Costa, e terminámos esta 2ª leitura com uma das objecções postas por ele quanto ao espiritismo, que ele investigou com entusiasmo e rigor, tal como transmitiremos na próxima leitura e artigo, investigação complexa de ser sintetizada em 23 minutos de vídeo pois Leonardo Coimbra dedica ao assunto 80 páginas neste seu sexto livro, não datado, mas que  sabemos ser de 1918,  de 270 páginas, na edição original da Renascença Portuguesa.

                                                              
Oiçamos então o inspirado Leonardo Coimbra e sua demanda do espírito imortal, com comentários, julgo que enriquecidores e ampliadores...

                   

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Leonardo Coimbra e "A Luta pela Imortalidade", 1ª parte. No dia do seu aniversário...

 Um  pensador, escritor, professor, pedagogo, ministro e orador dos mais fulgurantes de Portugal (nascido a 29 de Dezembro de 1883) foi Leonardo Coimbra, e na sua vida curta mas tão fértil de 52 anos atreveu-se a sondar a morte, em escritos específicos mais de uma vez, talvez algo na esteira de Antero de Quental mas naturalmente num nível superior filosófica e esotericamente, pois teve acesso a mais informação e a sua alma não teve os problemas psicosomáticos de Antero.

                                                            
No seu acercamento ao enigma da morte e imortalidade, primeiro, publicou em 1913 A Morte, logo após a morte do filho, e mais tarde, em 1918, com mais experiência, A Luta pela Imortalidade, a qual no dia dos seus anos, em 2020, revisitei, lendo alguns excertos e comentando-os, como poderá ouvir no vídeo final de 23 minutos, a que se seguiu outro com a mesma duração e que em breve partilharei.
                                                                    
 Será o nosso presente de aniversário a Leonardo: lermos e comungarmos as suas memórias, ideias e aspirações, interagindo harmoniosamente dentro do corpo místico da Tradição Espiritual Portuguesa onde ele ocupa um lugar, uma estação, bem luminosa.
Transcreveremos, para esta apresentação e contextualização do vídeo, a própria apresentação do livro por Leonardo, dedicado "A MINHA ESPOSA":
«Minha querida amiga:
Lembras-te daquela madrugada trágica em que na casa de meu Pai, sob o uivo dos cães e duma aragem rápida, fina, incoercível, de Junho, nos fomos do quarto onde morrera o nosso filho?
Muito enleados, árvores destroçadas pelo ciclone, fomos para o quarto onde dez anos antes quase nos meus braços morrera meu pai.
A tua dor era toda do nosso filho, a minha dor era a dele e a tua; nunca senti tão claramente que o homem é o protector da mulher, que lhe cumpre trazê-la ao colo e no coração.
Como eras dolorosa - os cabelos caídos, a tua desolação. o frio do teu mortificado corpo!
Eu tinha escrito o meu primeiro livro. Era uma síntese filosófica, chegando a conclusões optimistas sobre o mundo como sociedade de seres espirituais imperecíveis.
Acabara esse livro num sábado, no domingo lera as conclusões ao poeta Teixeira de Pascoaes, na segunda-feira adoecia o nosso filho bruscamente e para morrer.
Era a grande experiência, o meu pensamento à prova crua e insofismável.
O livro aí anda - "O Criacionismo" - a mostrar o heroísmo e a honestidade do meu pensamento.
Tu, minha querida amiga, pedias-me que abrisse os teus olhos à minha severa e melancólica esperança.
Por ti trabalhei, para ti muito especialmente procurei provas experimentais e acessíveis do meu pensamento metafísico.
O meu livro - "A Morte" - é um compromisso entre o meu método e os teus desejos.
Foi escrito naquela terra, tanto da minha saudade, para onde fomos escorraçados pela má vontade dos reitores dos liceus do Porto - a Póvoa do Varzim.
Aqui absolvo os meus inconscientes inimigos (tanto que hoje um é amigo) e aqui deixo a nossa infinita gratidão aos bons amigos, ao delicado carinho que na Póvoa encontrámos.
Um Domingo saímos os dois, e, diante do arcos partidos do aqueduto de Vila do Conde, arcos escondidos debaixo do abraço vegetal da hera, disse-te eu que o meu coração era uma ruína verde.
Lembro o teu abraço, promessa de ressurreição - é o nosso filho que mesmo agora te está beijando!
A minha promessa aí está também - é este livro, que viste nascer sob o doce e claro olhar da tua Alegria.
Toma-o.
                                                           O Teu
                                                           L.C.»

Oiçamos então o flamejante Leonardo Coimbra, com alguns comentários religantes ou unitivos meus: