Terminou hoje, 13 de Janeiro de 2021, a sua missão no centro de Lisboa mais uma livraria alfarrabista, a Campos Trindade, batida pelos ventos contrários da história e mais concretamente o preço absurdamente elevado e inegociado da renda e o actual lockdown, ou seja, as restrições confinantes geradas pela política portuguesa face ao famigerado Covid, que tanto pequeno empreendimento ou comércio tem destruído, pois poderia estar aberta ainda até ao fim do mês...
Flores dispostas por entre o gradeamento da ampla janela-montra e amigos foram passando na celebração da despedida e entre eles estive eu (encontrando o Raúl Perez e a Teresa Gonçalves Lobo, e a Cláudia Lopes e a Ana Mateus) para manifestar ao Bernardo Trindade a solidariedade de coração que nos une como amigos e no amor aos livros e à sua sabedoria e beleza.
Fundada por Tarcísio Trindade (1931-2011) há mais de 40 anos, continuada pelo seu filho Bernardo, por ela passaram grandes bibliotecas e livros, grandes pessoas e coleccionadores, ou gente humilde e necessitada, ou estrangeiros encantados, o que daria para um filme de milhares de horas valiosas, ora de imagens de livros ora de conversas e discussões, alegrias e tristezas que a funda livraria, mas não larga, acolheu com amor durante anos e anos, com uma cadeira-sofá mesmo ao fundo, ao lado da secretária do Tarcísio ou do Bernardo, posta ao dispor de algumas sumidades mais idosas que se sentavam e de algum modo "catedrizavam", discorriam e ensinavam, em vozes por vezes doces, encantadoras, arrebatantes... E ainda uma casa de banho podia apoiar os peregrinos dos livros, ao fundo de tudo...
Seu filho Bernardo foi assumindo nos últimos anos, ao lado do pai (e por vezes com a mãe), e depois só, a missão de continuar a fundação circulativa dos alfarrábios e deu uma dinâmica ainda maior, com compra constante de bibliotecas e também venda rápida e barata a muitos colegas, amigos e clientes, realizando ainda alguns catálogos de grande qualidade, sendo também de grande doçura no trato das pessoas. Teve ainda vários amigos e amigas que o ajudaram atendendo afavelmente as pessoas. E as suas belas montras de obras curiosas, suaves e raras ficarão a brilhar no inconsciente pessoal e colectivo...
A livraria antiquária Campos Trindade foi durante anos a fio a mais concorrida de Lisboa, e diariamente quem gostava de livros e vinha ao Chiado, quem tomava o comboio para a linha do Estoril ou quem passava para a outra banda, entrava a espreitar e refrescar-se com alguma obra que o atraísse, com preços para todas as bolsas...
Quanta gente de valor da cultura e do amor aos livros aqui passou e conviveu? Muita e lembro-me por exemplo de Pina Martins, António Valdemar, Barrilaro Ruas, Martim Albuquerque, Jorge Preto, Orlando Vitorino, os Bigotte Chorão, Dias Farinha, Aires do Nascimento, Pinharanda Gomes, Almeida Dias, António Barahona, Artur Anselmo, Cadafaz de Matos, Silvina Pereira, Miguel Faria, Santos Carvalho, Teresa Gonçalves Lobo, Raul Perez, Adel Sidarus, Luísa Frazão, José Simões-Ferreira, Ernesto Rau, Jorge Filipe de Almeida, José Barreto, Daniel Pires, José Bouza Serrano, Carlos Pessoa, Hugo Miguel Crespo, Júlio Magalhães, Isabel Maiorca, Carlos Bobone, Duarte Branquinho, Luís Filipe Tomás, Jorge Pereira de Sampaio, António Pedro Vicente, Ramada Curto, Duarte Braga, Rui Lopo, Nuno Rício, Clerence, Fernando Simões, Jorge Pires, etc. etc., além, claro, dos vários livreiros alfarrabistas, alguns dos quais também já afastados do centro, ou tendo partido para os mundos subtis...
Ficam perenes as memórias pessoais e gratas de cada um, nomeadamente um ou outro livro cuja aquisição nos tornou mais felizes, seja por ser obra que procurávamos há muito, ou o preço ser simpático, ou pela descoberta do que desconhecíamos, ou por podermos oferecer, e ainda pela encadernação, beleza, interesse ou valor. Perdurará também na fraternidade ou corpo místico dos amantes dos livros as pessoas amigas que lá levámos, tentando que se iniciassem e comprassem alguma obra, ou a quem mesmo oferecíamos...
Os últimos livros comprados no nº 44 da r. do Alecrim.
Bernardo, após esta morte certamente dolorosa, com os últimos anos bem difíceis dada a subida imensa de renda e depois a covinagem, vai encetar a sua peregrinação cisterciense (tal como seu pai realizara com o abade e escritor cisterciense Maur Cocheril, ajudando-o para o seu livro) e saberá descobrir qual a melhor maneira de continuar com o seu amor e conhecimento dos livros, e em interacção luminosa com tantos amigos e clientes, tanto mais que o seu site continua a funcionar...
Assim, continuemos a cultivar e a trabalhar o amor dos livros e da sua sabedoria, beleza e encanto, para harmonia e melhoria da Humanidade..
"Morrer é ser iniciado", disseram-nos os gregos e depois, recolhido tal dito na Antologia Grega Palatina, repetiram-no entre nós Antero de Quental, Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa. Hoje somos nós, com o Bernardo Trindade, mesmo que algo tristes, a tocar os sinos da morte e ressurreição, no Amor do Livro e da Divindade que passa por eles e que de certo modo nos constitui, fortalece, apura e espiritualiza ou imortaliza...





















