sexta-feira, 7 de março de 2025

Um poema ao Mestre, do diário dos meus 27 anos. Ilustrado com uma pintura de Nicholai Roerich


                             O Mestre é um centro luminoso,
                                     a porta que se abre,

                                  a voz amiga que ensina. 

    O Mestre é um vento do qual somos folhas,
  a presença que em nós se intui,
     a certeza da gloriosa renascença.

O Mestre traz a paz e o amor
e a sua visão é infinita,
e a nossa resposta é uníssona.

Mestre, rente ao horizonte
como a gaivota esvoaçante
ou o barco na onda gigante.

Mestre, a antiga catedral incarnada,
o mantrizar de mil agradecimentos,
a frescura do tanque no Verão.

Mestre, és só tu o Sol,
    o fogo, a força, a inspiração
e a religação à
unidade divina.
Aum, Mestre, Om, Om.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Saudação aos que buscam. Um poema espiritual, extraído do diário dos 30 anos.


Saudações aos que buscam!

Em comunhão com esta pátria terra,
descerro as pétreas lápides
inclusas sobre a ramagem da hera
para que se ergam verdades límpidas.

Eternos caminhantes nos elementos,
esforçados artesões do desapego,
retomemos intimamente os rudimentos
das sacras artes de abrir os regos.

Terra com seiva
Mar agitado
Ar puro
Fogo sublimado.
 
Que cruz oculta se forma assim
na memória subterrânea dos átomos
erguidos em aspiração sem fim,
impulsionando-nos intemeratos?

Sim, o tempo ingente de avançar:
cascatas de novos raios caem
e uma turba imensa se espanta
antes do fulgor da aurora raiar.

Cavaleiros firmes na suas missões,
trabalhadores lutando por suas perfeições:
 a igualdade de potencial na fraternidade,
a hierarquia da experiência na Unidade.

Portugal, terra do santo Graal,
quantos dos teus a alma conhecem
e querem o caminho real trilhar?
É a hora do fogo espiritual despertar!

quarta-feira, 5 de março de 2025

Um poema espiritual, em inglês, quando ensinava Yoga aos trinta anos. Com tradução.

Do sábio russo Nicholai Roerich. Drops of Life.1924. Revendo diários para um texto sobre Afonso Cautela, eis um poema...

 I will transform my love for you, o God,
in the most secret poems and doctrines.
Poems from the depths of my heart,
abyss of aspiration to your fulness.


In my body grows a fruit of several specimens
from the tree that you have planted in me.
So we are one with Thee.

That is transmissible.
From being with
 you,
as I sit with someone, at that moment
you pass through my soul's mirror
to enlighten the other's soul
and it is found that we are all one.
****

 Transformarei o meu amor por ti, ó Deus
Nos mais secretos poemas e doutrinas.
Poemas do fundo do meu coração,
abismo de aspiração à tua plenitude.

No meu corpo cresce um fruto de várias espécies
da árvore que plantaste em mim.
Assim, somos um contigo.

Isso é transmissível. De estar contigo,
quando me sento com alguém, nesse momento
tu passas pelo espelho da minha alma
para iluminar a outra alma
e descobre-se que somos todos um só.

terça-feira, 4 de março de 2025

Poemas antigos, dum caderno diário.


Onda alta e redonda
Meu mal espanta sem sonda.

Barco velho e revelho
Solta as amarras do lodo que não quero.

Vento que tanges as liras
rebenta as cordas que nos prendem aos dias.

Sol que abençoas os que trabalham
faz os corações reverdecerem no orvalho.

Sentinelas, não há inimigos a temer
E a aurora já está a chegar. 

Só polícias é que estão crescendo
porque as ruas de vícios se vão enchendo.

Chega, chega velha Era,
agora vem o Desejado.

Este que aqui aporta és tu próprio,
descoberto e manifestado.

Ser de Luz, em comunhão com Deus
irmão de todos, vivente da Eternidade:
- Melhorar, melhorar a Humanidade 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Do Diário de Tomar, de 1990: meditações e visões da Cruz e dos seus signíficados nas almas místicas.

Do diário de Outubro 1990.
Quarta-feira de manhã. Acordar às sete horas como de costume. E 
meditar.

Surge a imagem que está por detrás do porta-paz que comprei há dois dias em Lisboa: vísivelmente está pintada a Cruz. Invisivelmente estava Jesus vestido de túnica vermelha, comprida, calmo, simples e na mão direita com a palma.
Será a con
traparte que eu intuí dos planos superiores, ou a que eu projectei. Ou será a do artista [que a deixou plasmada no plano psíquico subtil da peça em madeira com a cruz pintada?]

                                                                         
Meditações que me levaram a sentir Jesus apenas como um ser humano que atinge uma forte ligação com o Pai, com a Divindade.  Assim [temos] um só ser, Jesus o Cristo, o purificado [o ungido]. Desafio maior a nós: sem incarnação divina especial, ou filiação único divina, um ser manifesta profundamente a Divindade imanente.
Agora:
a cruz templária, ou de outras ordens sem Jesus representado, é como sinal de: "Se tornares-te, se atingires a Cruz, tornas-te um Cristo, [um ungido]". Talvez não tão perfeito como Jesus, mas houve muitos santos e mestres, [sorores e místicas que conseguiram assumir a sua cruz e serem ungidas pelo espírito, e logo ico-simbolicamente empunharam a palma do martírio, tal como vi hoje com o olho espiritual, com certa originalidade significativa em relação a Jesus.]

Que os objectos, em especial sagrados e já com alguma antiguidade podem estar carregados de emanações não há dúvidas e daí a sua tão apreciada circulação, e com as relíquias e amuletos atingindo o seu expoente máximo protector ou inspirador. Mas também pode ter sido apenas a forma geométrica, e o que está representado ou pintado que despoleta na nossa meditação ou contemplação o acesso (denominado anagógico) aos planos subtis, arquétipos ou espirituais ligados a ele, e que se podem mesmo consubstanciar com hierofanias, sagradas, ou teofanias, divinas, como tantas místicas e místicos conseguiram.

Consigamos merecer a contemplação que a oração e a meditação perseveradas e aprofundadas podem propiciar...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Tomar: no cineteatro o "Não ou a vã gloria de Mandar" de Manuel de Oliveira e depois no castelo Templário e iniciático. Do diário de 1990, com leves acrescentos.

   «Vai haver cinema à noite e iremos ver, Manuel de Oliveira, " Non ou a vã glória de mandar" sobre a história de Portugal, a ambição e imperialismo. O que irá acontecer: sair a meio do filme? Fazer uma crítica no jornal de Tomar? Trabalhar invocações e linhas de forças antigas?
    O filme é razoável. Recupera a história de Portugal no seu cerne, os descobrimentos como enriquecimento cultural da Humanidade. Mas compara apenas as pesquisas cosmonauticas e as do progresso técnico e científico. Não consegue ir às descobertas espirituais.
Do cine-teatro saímos para o Castelo. Subimos o muro numa zona em que é possível, saltamos para dentro e meditámos junto à Charola. Sempre um sítio ígneo. No quarto da meditação no Vale da Figueira devo pôr algumas pedras de lá e outros ícones e começar a trabalhar mais com o Agni Yoga, o Yoga do Fogo, nomeadamente aprofundando os ensinamentos dos seus quatorze livros dados por Helena Roerich.
A cruz templária arredondada expansiva recolheu-se na de Cristo em quadrado e interiorizante. Hoje a cruz, que liga o alto e o baixo, será espirálica, ligando o interior e o exterior revelando os defeitos e manifestando as qualidades pelo Espírito da Verdade: exemplificado no ser humano por Jesus, o Cristo, vivido na harmonia com a Natureza inspirado pelo Espírito santo, e graças ao Poder Divino, universal, o Pai.
Manuel de Oliveira é algo agnóstico, pois vê ainda apenas o enigma da vida e do ser [embora anos mais tarde conversando umas duas horas com ele tenha apreciado a sua forte aspiração à experiência e certeza espiritual, que ainda não possuía), mas tem uma excelente visão estética e algumas cenas são muito bem conseguidas, e devo referir nelas o meu amigo Diogo Dória, notável actor. Mas quanto à sua argumentação ou argumento, o non deixara de o ser em Portugal e passar a não, já não capicua mas atravessado, pegado, empunhado. Non, não, negação, a serpente, força atractiva, palavra, olhar, desejo... Quando conseguiremos controlar e unificar todos estes níveis, por vezes contraditórios, e sermos verdadeiros discípulos-mestres em comunhão com o coração e o mundo espiritual?
Há-de chegar a altura. Pacientemente, não deixarei que a esperança seja vã ou inerte mas trabalharei para que ela frutifique e se exercite no dia a dia.
A Missão de Portugal. A dádiva de se ter uma língua suave e bela de cultura, em grande parte vinda do latim e do galaico-português, pela qual muito se escreveu, poetizou, dialogou, conversou ou convergiu luminosamente, mas o seu sentido maior é a de poder permitir a auto-consciência espiritual e ligação com a hierarquia dos guias, santos, mestres, anjos e Arcanjo de Portugal e finalmente Deus. O Logos, inteligência, ou Sermo, palavra, sacralizante, órfica, mágica, em acção sábia e libertadora, em oração, litanias, mantras, com seus efeitos harmonizadores, invocadores, desvendadores.
Seres mais clarividentes, eis agora e sempre a questão e tarefa. O que implica uma maior sublimação e concentração das energias e capacidades de que normalmente dispomos. As obrigações familiares e profissionais [e agora as redes sociais] são o maior obstáculo a uma intensificação mais forte do trabalho vertical, ainda que as possamos realizar com bastante amor e consciência espiritual. Devemos pois controlá-las, cerceá-las das suas tendências absorventes e sabermos elevar-nos mais vezes ou com mais intensidade à nossa consciência espiritual, ou seja, irmos erguendo a serpente e o graal,o que se faz em geral pelo esforço, a oração, a meditação.
Seja pois a nossa demanda irradiar como o sol radioso, sem nos deixar ensombrar pelas nuvens temporárias, obstáculos, doenças, desilusões, alienações.
Brilhe a estrela do espírito em nós.

Sábado de manhã.
Acordar cedo. E fazê-lo com uma visão no olho espiritual alargada ----~~~~~ de chamas.... Penso que a falha entre os planos espirituais e materiais é menor aqui no campo. A terra e o céu estão mais unidos nas aldeias do que nas cidades. Como se a transição entre o plano subtil e o físico fosse mais harmoniosa e suave e pudéssemos conservar a consciência da descida dos planos espirituais para o físico.
Mas a visão do fogo ao acordar pode ter sido por ter estado de noite dentro do recinto amuralhado da cerca do castelo de Tomar, um local cheio de fogo sagrado invisível, que se manifestou ainda no meu olho espiritual de manhã. O convento e castelo de Tomar é um local de fogo e de iniciação...

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Diário dum retorno ao campo, em Vale da Figueira, Tomar. Páginas de Outubro de 1990.

 Nascer do Sol rosa vermelho. Mas se ontem as nuvens que chegaram do Norte e do Leste prenunciavam degradação do bom tempo, hoje o céu limpo mostra como é difícil prognosticar. Mas, claro, o tipo de nuvem ainda não foi observado com mais atenção e aprofundado e comparado suficientemente.

Meditação a receber algumas forças do Sol. E tentar compreender  diferença entre desejo e amor. O amor é uma casa de dois andares, em que o 1º é o desejo ensual e o 2º a dádiva pessoal. Ou pode ser de três ou sete andares, se formos subindo pelas dimensões subtis do ser humano.

A neblina vinda do rio e dos vales baixos subiu e o céu está enevoado agora.

Meditação boa, até atingir a consciência de que sou o Espírito, sem medo de nada. [Uma boa realização, que nos cumpre actualizar, sentir mesmo].
A tarefa meditativa é realizar, manifestar o que já compreendemos ou sabemos. E aprofundar rumo ao que não sabemos nem compreendemos.

Noite: Foi um dia activo. Arranjos da casa. Ida ao empreiteiro e a Tomar. Na Feira comprar couves diversas para plantar: bróculos, flôr, lombarda, boi. E sementes. E fruta e rosas.
Tarde: plantar, limpar, pôr betume nas janelas, tirar as tábuas velhas da coelheira (que dá um estrume bom) para fora. Surgirá um dia uma divisão, mas não sei ainda para quê
Veio chuva. As nuvens indicavam-no. E choveu, como era natural, primeiro nos vales. Para vermos cá de cima (nesta casa num encosta). Foi só às 19:00 quando meditávamos que ela caiu aqui, mas não muita.

Os dedos estão com as pontas secas, mas o pior podia ter sido aquando da destruição da coelheira. Uma tábua caiu-me na testa, mesmo me baixo da cicatriz  por pouco que o galo não era sangue. Pensei mais tarde  que devia ter cuidado com as entidades que podiam estar ligadas aquele edificiozinho. Na dimensão astral quem habitava nele?Será que há seres que prendem os bichinhos do outro lado? Até onde vai a imaginação dos seres desencarnados?
Curiosamente na feira quando comprava as três rosas por 60$00e os marmelos a 60$00 o kilo, fiz um afago a um coelhito no canto duma caixa  o dono disse-me, "já está vendido". Respondi-lhe, parece bem comportado. Mas o que descobri nos olhos do coelho era afinal medo. Suspeitaria de que estava a ser exposto para ser comido? E a cara avermelhada do camponês-coelheiro era do vinho, do rio ou dos animais mortos?
Cada ser numa feira é um mundo. Desde a beleza, à força, aos anões, às velhinhas, há de tudo.