sexta-feira, 12 de abril de 2024

O Anjo do Banho. Pouco conhecido e trabalhado, mas não é a água purificadora, misericordiosa, divina?

                                                                

O banho é uma actividade diária que podemos ou não sentir mais profundamente e trabalhar psico-espiritualmente. 

Duplamente tal pode acontecer: pela água que nos limpa, descontrai ou vitaliza, purifica, harmoniza e inspira, na sua pluridimensonalidade visível e invisível, profusamente coloridad  diferentemente mineralizada, e pelos Anjos e Espíritos da Natureza que a ele se podem associar, conforme os ambientes e águas em que nos banhamos e, claro, tanto a nossa sintonização e invocação, como a resposta das dimensões subtis.

Esta bela imagem dum Livro de Horas, do séc. XV, francês, atribuído a Jouvenel des Ursins, existente no Museu Calouste Gulbenkian, de um Anjo alegre com uma felpuda toalha na mão, que também poderia ser um manto, pode servir-nos como registo imaginal para quando vamos tomar banho, agradecendo ao Anjo, seja da Água purificadora, seja da Guarda, que zelará pela nossa limpeza e melhoria de saúde física, circulatória, energética e psíquica, e que poderá propiciar alguma associação de ideias nova, alguma inspiração ou intuição, donde eventualmente relembrar-nos ou suspirarmos mais por ele, nessa sua presença constante ou velada da nossa alma de noite e de dia.

O banho é um momento muito importante e especialmente quando estamos muito cansados, ou adoentados. Quantos de nós não melhoraram bastante das suas febres, dores de cabeça e das costas ou de  grandes cansaços psico-físicos por um bom chuveiro, ou que sejam uns baldes de água, ou apenas uma chuveirada na face, ou mesmo o mergulho no tanque de infância, lago, rio ou mar?

Ora se durante o banho e limpeza invocarmos o Anjo, se estivermos atentos à dimensão angélica e colorida, se estivermos gratos, melhores efeitos ainda se passarão no corpo e alma e até no ambiente.

Providencialmente em Portugal temos uma tão grande variedade de termas e de águas minero-medicinais, e milénios de consagrações a Deuses ou Anjos de fontes e termas, de norte a sul do país, com diversas deidades aquáticas ou curas milagrosas... Santas Águas...

Mas sem termos que forçosamente peregrinar a tais locais ou mantrizar tais nomes, os "Lam-Vam", as Bandas, Nabias e outros, bastar-nos-á sintonizar com o Anjo do Banho e receber dele raios purificadores, e estimularmos os nossos, e transmitirmos-lhe gratidão e amor, numa religação à Fonte Divina.

Bons banhos saudáveis, purificadores e angélicos!

Post-scriptum: Não incluí o banho de banheira, inegavelmente  propício ao contacto com o Anjo. 

E quando tomar o chuveiro e esquecer-se da ligação ao Anjo, dê uma última chuveirada fria e ligue-se a ele. Certamente que, ao entrar na banheira, lembrar-se mesmo dele, será a melhor regra iniciática da religação a ele...

Viva o Anjo da Guarda e dos Banhos, limpezas e purificações...

quinta-feira, 11 de abril de 2024

A Madre Soror Brízida de S. António, qual Serafim. Do estado intensificado de Amor do coração e alma das místicas do séc. XVI-XVII

                                              

 Artigo ainda em laboração, : 

Da Madre Brízida de S. António (1576-1655), segundo a sua História da  Vida (...) escrita por Frei Agostinho de Santa Maria, e dada à luz em 1701: 

«Os ardores da inflamada caridade da Nossa Venerável Madre Brízida pareciam em tudo de Serafim; e vivia tão absorta em o amor, que parecia que já não vivia em si, senão no seu amado. O único alvo de seus afectos era Cristo bem nosso, só, e verdadeiro exemplar de verdadeiras virtudes, as quais procurava copiar em seu coração, reduzindo-as à prática, para exemplo. Sentia muito a torpe ingratidão, e cega insensibilidade dos mortais, que podendo amar a um Deus tão amoroso, e tão digno de ser amado, o põem em esquecimento distraídos e derramados em afectos de terra, e privados daquela suprema felicidade, que o Amor divino comunica às Almas.»

Neste 1º texto observamos uma chamada a orientação do nosso amor aspiração para Deus, e para o mestre Jesus, como fonte de mais amor e felicidade.

 (...) «Deste grande fogo do Amor divino, experimentava em si uma tão amorosa e penosa violência, que como lima a ia desfazendo, sem lhe permitir muitas noites nem poder dormir nem comer» ... E acrescenta doutamente o biógrafo: «Muitos místicos referem estes e outros efeitos semelhantes, que tem as almas, que chegam ao perfeito grau de Oração, de que gozava esta devota de Cristo» (...) e das «que sentiam em um coração uma roda com um curso muito apressado, o que se conhecia, e experimentava pondo-lhe a mão sobre o peito. Esta serva de Deus abrasava-se com a chama do Amor Divino, a qual sentia já em si a Alma, não só como fogo, que a tinha consumido; mas como incêndio, que ardendo nela suavemente, banhava a alma e a refrescava com doçura da vida eterna. E esta é a operação do Divino Espírito em a Alma transformada em seu amor» (...) 

Dois estados do fogo do amor em nós, a chama que consome ou se eleva subitamente, e o constante incêndio que arde lenta e suavemente. Em geral temos pouca consciência do estado do fogo do amor na nossa alma, e apenas sentimos mais ou menos. A oração incessante é num dos seus níveis estarmos mais atentos ao estado do nosso centro cardíaco e amoroso...

 «Verdadeiramente foram muito grandes os frutos espirituais, que aquelas Santas religiosas [do convento da Esperança, onde ela esteve sete meses] colhiam da doutrina deste abrasado Serafim. E tinham razão em senão poderem apartar dela, pois as suas palavras, eram palavras de vida; porque assim o experimentavam nos ferverosos desejos, com que andavam em servir a Deus. Estes se iam aumentando cada vez mais; e à mesma medida os favores que recebiam suas almas, da liberalidade divina, por meio da intercessão desta sua serva.»

E uma das suas intercessórias e ígneas cartas, breve, ao bispo de Elvas Pantaleão Rodrigues Pacheco:
«Jesus, Maria, José.
Ilustríssimo
 Senhor. O Divino Espírito more sempre na alma de V. Senhoria. Faça-me V. Senhoria mercê de favorecer este homem, , cujo é este escrito (...) A Irmã Inês, e eu pedimos a bênção a V. Senhoria. N. Senhor abrase o coração de V. Senhoria em seu divino amor, amen, Amen, amen.
Serva, e indigna Oradora de V. Senhoria
Sor Brízida de Santo António.»

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Das vias espirituais e místicas, do coração, da pureza e da graça, da unidade libertadora do corpo, alma e espírito.

                                                    

                                                 

O coração duma pessoa mais mística, ou seja, de quem procura sentir, conhecer, religar-se ao espiritual e ao Divino, é de certo modo diferente do coração do crente normal, e mais ainda do descrente, pois é mais sensível e profundo pelo trabalho por ela realizado de se harmonizar e interiorizar em demanda do espírito divino, pelo que está mais desperto e aberto, capaz de se ligar a seres e energias elevados e subtis. Mas também fica sujeito, pela sua sensibilidade e abertura, a momentos mais intensos ou alargados de dor e alegria, sofrimento e júbilo.Há assim pessoas religiosas que caiem demasiado nos sentimentos, que as podem avassalar, por isso se recomendando o equilibrio do coração e da cabeça, e ainda do corpo, com as suas tarefas manuais ou o contacto enraizador com a terra, a horta biológica.
O cerne da mística está na abertura do coração e da al
ma, e no despertar dos sentidos interiores anímico-espirituais,  que em geral apenas se sentem ou pressentem, embora alguns místicos fossem mais agraciados, por exemplo, com a visão espiritual de si mesmos ou dos outros, enquanto seres e corpos energético-espirituais e deixassem alguns registos do que viram, tal como raios, vestimentas, cores, chamas, asas, coroas de flores nas auras ou almas.

As flores, as rosas e as rosáceas da iconologia sagrada representam e manifestam ora essas visões ora a abertura do coração e a rotatividade dos centros psíquicos, nomeadamente do anahata chakra, o centro cardíaco subtil da tradição indiana. Eis uma das raízes das simbolizações das rosáceas manuelinas, tão presentes nos espaços sagrados do mosteiro dos Jerónimos, do convento de Cristo em Tomar e em noutros locais sacros.

Um dos princípios importantes para sentirmos e aprofundarmos a operatividade da arte sacra é o da unidade atingida pela contemplação: o que nós vemos, podemos tornar-nos, ou sermos.
Quando vemos um c
ristal, ou o pomos na mão com uma intenção espiritual, estamos a querer e a orar a Deus para que a nossa alma seja una com o cristal e se torne mesmo um cristal, e nomeadamente para a Divindade. Uma candeia, uma vela ígnea simbolizam e impulsionam a nossa  devoção e ardente aspiração, e pela comunhão com as energias ígneas  dissipadoras das trevas externas e internas, o nosso espírito intensifica-se e eleva-se para a Divindade. De igual modo, muitos símbolos e imagens religiosas, para quem os souber sentir interiormente, mística ou espiritualmente, tornam-se instrumentos impulsionadores da nossa harmonização, crescimento e religação.

Consideraram alguns mestres da via espiritual uma tripartição humana, entre os hílicos, os mais da terra , os psíquicos e os pneumáticos, sendo importante a passagem do nível mais comum, o psíquico ou mental, para o estado pneumático, de pneuma, espírito, no qual se consegue ultrapassar ou diminuir e controlar a dualidade e discursividade, e a alma se estabilizar mais na paz, no silêncio, na luz, na auto-consciência espiritual, na Unidade simples.

Ora esta passagem é ajudada pelo não envolvimento na multiplicidade, dispersão e conflitualidade do mundo, e a consequente interiorização,  de que somos um espírito, um monakos, o monge ou monja, em pé diante de Deus, solitário, ou então junto a outros em comunidade de sorores e fraters, na esperança e na milícia de poderem  assim resistir melhor à clássica tríade do "mundo, carne e  diabo", menos presente, mais controlada, em tais mosteiros e comunidades, mais dissipável pela convergência ou a união que faz força e até seguindo o preceito máximo de Jesus: «onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles»

Mas sempre houve quem não apreciasse estas realizações individuais ou de pequenos grupos, a subida a estados de luminosidade ou mesmo de unidade e portanto a ultrapassagem ou saída da situação ignorante, desligada, trevosa, pecadora, manipulável. E como era e será sempre uma passagem estreita, uma travessia íntima, uma via difícil, os que a realizavam, em parte ou muito, foram frequentemente invejados e atacados por os que nem místicos nem sábios, nem amantes, em geral já demasiado importantes nos seus cargos ou posições, fossilizavam-se nas suas materializadas suspeições, convicções, dogmas, preconceitos, securas esterilizantes.

Todavia as almas protagonistas da demanda das profundidades e alturas  espirituais forçosamente tinham de estar livres e nuas para que no seu despojamento seja a Verdade, seja o Amor, seja a Divindade chegassem a elas, e assim algumas foram acusadas de impúdicas e sensuais, os acusadores não realizando que o amor expresso com o corpo não tem de ser impuro, sobretudo quando tais pessoas não tinham assumido o voto de castidade. Talvez esteja relacionado com tal o episódio  no dia em que Jesus foi preso em Getsemani, de um jovem deixar a sua capa nas mãos dos que o prendiam e escapar nu [«E um certo adolescente seguia-o, envolto num linho fino sobre o [corpo] nu. E eles agarraram aquele adolescente. Mas ele, abandonando a túnica, fugiu nu.» S. Marcos 14.51,52].
Nesta
passagem misteriosa, podemos interrogar-nos sobre quem seria o discípulo adolescente e de poucas roupas? O ele deixar a túnica e escapar nu pode simbolizar  que deveremos desprender-nos de vestimentas e identificações externas e assumir antes a independência da essência, e que portanto a pureza, o amor e a consciência justa são invencíveis e o ser que se desnudifica em si, e não se deixa prender por revestimentos ou pressões sociais, mesmo quando o Mestre é preso, é o verdadeiro discípulo que livre flui na vida...
                                               
Talvez sejam estas algu
mas das razões dos jainas digambharas, os vestidos de vento, meditarem nus nos seus templos e florestas indianas, ou de alguns eremitas do Médio Oriente também nus adorassem, alguns sendo santificados, tal S. Onofre, e em gravuras ilustrados, gerando devoções mais fáceis pela contemplação da vera efígie.
                                                                   
Também Hieronimus Bosh (1450-1516), que pertenceu  a uma Irmandade do Livre  Espírito, dando sinais disso nas suas tão visionárias quão simbólicas pinturas, valorizou os corpos nus, ora híbridos com animais, ora como almas adolescentes,  nomeadamente no tríptico do Jardim das Delícias, nas quais refulge a dimensão espiritual, unindo assim o mais central e alto do ser humano com o corporal animal, numa  visão clarividente pura e luminosa, sem dúvida  difícil de ser realizada senão entre seres vivendo na natureza pura ou comungando intimamente com ela, nos que se amam verdadeira, pura e livremente, e nos que meditam e oram mais cardiacamente, e em si harmonizam e unem as duas polaridades axial e divinamente.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

A "Escada Espiritual de S. João Climaco", traduzida e muito acrescentada por Frei Luís de Granada, dedicada à rainha D. Catarina, e dada à luz por João Blávio em 1562.

          

 Entre as obras quinhentistas pioneiras de espiritualidade mais profunda editadas em Lisboa encontramos a dada à luz pelo impressor alemão João Blávio, no ano de 1562 e que leva como título  LIBRO  de S. IOAN CLIMACO, LLAMADO  ESCALA  SPIRITUAL: En el qual se descriuẽ treinta Escalones, por dõde pueden subir los hõbres a la cumbre dela perfection y fue agora tercera vez trasladado en lengua Castellana por vn Religioso de la orden de S. Domingo. Añadieronse le vnas breues Annotaciones en los primeros cinco Capitulos, para la inteligencia dellos..., e que foi  pelo tradutor e parafraseador frei Luís de Granada dedicada à mulher de D. João III, a rainha D. Catarina, irmã do imperador Carlos V, e que sabemos ter sido uma mulher culta e espiritual, pois era filha de Filipe o Belo, Duque de Borgonha e Arquiduque da Áustria, com a corte nos Países Baixos e onde o humanismo florescia maravilhosamente e tendo assim trazido consigo, qual dote para o seu casamento com Portugal, obras de Erasmo (que era conselheiro de seu pai), quando este sábio perene já era perseguido por certos sectores mais conservadores e "sorbónicos" da Igreja e censurado em algumas obras nos Índices ou listas de livros defesos.

Neste retrato de António Mouro (de 1553) qual seria o livrinho religioso de D. Catarina?    

A dedicatória do sábio místico Frei Luís de Granada (1504-1588, em Lisboa), que viu partes mais místico-quietistas das suas obras censuradas (e logo reimpressas emendadas) e que era admirador de Pico de della Mirandola e de Erasmo, como entre nós José V. de Pina Martins provava (ao inclui-los num dos seus volumes de Sermões) e gostava de realçar, tem mesmo algo de profético, pois a rainha D. Catarina, tendo vivido entre 1507 e 1578,  casada com D. João III de 1525 a 1557, e regendo na menoridade de D. Sebastião até 1562, acabaria por retirar-se da vida cortesã ou áulica. 

E o que diz a sábia dedicatória à "Sereníssima Senhora", uma caracterização quase impossível nos dias de hoje tão agitados, nas suas linhas finais? - «Receba pois V. A[lteza] com sua acostumada serenidade este pequeno presente: para que quando alguma vez for aos mosteiros da Madre de Deus, ou da Esperança [talvez os dois principais lisboetas de então] a respirar com Deus [que significativa caracterização do recolhimento] dos trabalhos contínuos o governo, tenha com que recrear algum tanto seu espírito com a lição deste divino Livro. Cuja mui alta e poderosa pessoa e estado nosso Senhor amplifique e engrandeça com perpétuos favores do Céu.»
E assim veio a suceder, porque a Rainha, abdicando no seu filho Sebastião, retirou-se para o mosteiro da Madre de Deus e certamente terá lido o livrinho.
Nos seus 22
0 fólios, e dividido em trinta capítulos, vinte e seis acerca dos vícios e das virtudes e da vida purgativa, e os últimos quatro sendo da sagrada Quietude do corpo e da alma, da bem aventurada virtude da Oração, e da maneira que nela assiste o homem diante de Deusdo Céu terreal, que é a bem-aventurada Tranquilidade; e da perfeição e ressurreição espiritual da alma antes da ressurreição comum, e da união e vínculo das três virtudes teologais, Fé, Esperança e Caridade, está repleto de psicologia ascética, filosofia moral, doutrina teológica e realização espiritual, baseada em grande parte nos primeiros Padres do deserto, nos místicos medievais, e em especial em S. João Clímaco (em grego, escada), o autor da Escada Espiritual (ou Escada Celestial) que, tendo vivido aproximadamente entre 540 e 610, chegando a abade do famoso mosteiro do monte Sinai, veio a ser traduzido para o latim (em 1300 pelo frade menor João Clareno, um franciscano espiritual) e para as línguas vulgares, conhecendo-se muitos códices gregos e várias traduções.

Houve em Portugal antes desta edição (alargada a outros autores e parafraseada, em castelhano e que tal como Frei Luís de Granada menciona  já era uma terceira tradução),  a tradução manuscrita da versão latina de João Clareno existente num códice em português-medievo, bastante mais pequena, realizada por um Frei Martinho do mosteiro de Alcobaça e que se encontra, desde a extinção das Ordens religiosas em 1834, na Biblioteca Nacional,  e que foi citada em parte pelo P. Mário Martins e excelentemente estudada e editada recentemente por Ilma Magalhães Alkima (estando online). Anote-se que houve uma tradução de João Mendes de Almeida Júnior, em 1902, no Brasil, da versão em castelhano de 1562, sob o título Clímax, ou Escada do Céu.

Dele destacaremos apenas alguns dos seus  ensinamentos bem substanciais, o primeiro acerca das fases ou partes da Oração mental, hoje dir-se-ia uma tema controverso e algo controlado na época: «Entre quatro escalões de que S. Bernardo arma uma escada espiritual, por donde os verdadeiros religiosos sobem ao cume da perfeição, o primeiro é a Lição, o segundo a Meditação, o terceiro a Oração, o quarto a Contemplação (...) Porque a Lição [ou  leitura de texto sagrado] dá matéria de Meditação, e a Meditação (quando se acende) desperta a Oração, e a Oração perfeita vem em parar em Contemplação: donde a alma esquecida de todas as coisas e de si mesma docemente repousa e se adormece em Deus. Por aqui pois se vê que a Lição é como semente e princípio de todos os outros graus; e a que assinaladamente é pasto e mantimento da alma, recolhimento do coração e despertadora da devoção; porque estes são ofícios próprios da palavra de Deus.» 
Escreverá ainda o tradutor e compilador deste livro Frei Luís Granada em relação ao valor quase divino do ensinamento de S. João Clímaco: «perseverando em contínuos jejuns, orações, e exercícios de virtudes, vivendo vida mais que humana. Por donde as palavras da sua doutrina não devem ser tomadas por quem as lê como as de um homem puro [ou só] senão como um órgão vivo do Espírito santo: e como de quem cheio deste Espírito escreve com a pena o que Deus havia escrito primeiro na sua alma.»
Eis-nos pois com dois excertos valiosos, o primeiro explicando a passagem das várias fases da oração, desde o trabalho do entendimento, ao despertar do fogo amor interior e ao alcançar da quietude divina, e que parece até abonar a ideia e fim do famoso soneto de Antero de Quental, Na mão de Deus, ao considerar que no clímax da mais alta contemplação «a alma esquecida de todas as coisas e de si mesma docemente repousa e se adormece em Deus».  
No segundo excerto encontramos uma bela aproximação ao Espírito, e ao enchimento Dele que teremos de fazer para haver uma inspiração recebida do mundo Divino, impressa nos cimos da alma e depois transcrita, e que meditada e aplicada dá bons resultados...
 
Resta-nos partilhar para finalizar quatro breves excertos, dois do Capítulo XVII, da Quietude: «A cela do verdadeiro solitário é o seu próprio corpo (onde trás a alma recolhida onde quer que está) e dentro dela esta a escola da verdadeira sabedoria».
«Porque o que alcançou esta maneira de Quietude solitária, tem grande conhecimento da profundidade das obras e mistérios divinos. Mas não chegará a esta profundidade, se primeiro não tivesse ouvido ou visto os desassossegos e estrondos das ondas e dos ventos deste mar. Confirma isto que dizemos o grande apóstolo S. Paulo: o qual se não tivesse sido levado ao paraíso (como a uma secretíssima Quietude) nunca por certo ouvira os segredos e mistérios que ouviu. O ouvido da alma quieta, receberá de Deus grandes coisas.»
E dois do capítulo XXVIII, da Oração: «Antes de todas as coisas ponhamos em primeiro lugar da nossa oração (à entrada dela) um sincero dar graças, e em segundo lugar suceda a confissão e contrição que saia do íntimo afecto do nosso coração; e depois destas duas coisas signifiquemos as nossas necessidades ao nosso Rei e peçamos  as nossas petições. Esta é uma boa ordem e maneira de orar, a qual foi revelada por um Anjo a um monge».
 «Falar muito na Oração, muitas vezes foi ocasião de inchar-se a alma de diversas imagens de coisas, e de perder a atenção; mas falar pouco, ou uma palavra [mantra] na Oração, faz recolher mais o espírito. Quando em alguma palavra da Oração sintas em tua alma alguma suavidade e compunção, persevera nela porque então o nosso Anjo ora juntamente connosco».
                                                              

domingo, 7 de abril de 2024

Antero de Quental, Mestre rutilante, num soneto do figueirense Manuel Cardoso Marta, em "Corpo e Alma", 1957.

Manuel Augusto Cardoso Marta (Figueira da Foz, em 1882 e 1958),  estudante no seminário de Coimbra e  republicano, professor nas Escolas Móveis e na Escola Industrial Fonseca Benevides, jornalista, fundador de revistas (Feira da Ladra, e Nova Gazeta de Lisboa), poeta e etnógrafo, no seu 28º e último livro, Corpo e Alma, inseriu uma carta do "poeta insigne" Eugénio de Castro, de 1941, quando Cardoso Marta lhe enviara o manuscrito, e que se torna o prefácio da obra finalmente impressa na Figueira da Foz em 1957. Eis o elogio de Eugénio de Castro (1869-1944): «é um livro de relevo, de notável avanço espiritual sobre a anémica poesia dos nossos dias (...) e desejava que os Deuses lhe ponham a virtude e selo do triunfo». 
A obra contem vários sonetos "magníficos", tais como Menino e Moço, Amor, Ela, Ramaiati (Índia) e Serra da Boa Viagem (Figueira da Foz), alguns dedicados a amigos como Matos Sequeira, Natália Correia, Aquilino, Francisco Lage, Jaime Lopes Dias,  e cinco sonetos sobre escritores: Bocage, Camilo, Junqueiro, Cesário Verde e  Antero de Quental. E é o deste que transcrevemos, pois assinala um acolhimento bem luminoso da poesia, palavra e logos fulgurante do vate e líder da geração de 70, embora exprimindo-se nas duas quadras iniciais sob uma forma bastante espectrizante, aliás de acordo com muita da poesia do famigerado poeta açoriano.  Oiçamo-lo:

A  ANTERO  DE  QUENTAL

«Quando a noite, espalhando o véu sombrio,
esconde em treva a terra adormecida;
quando a razão sucumbe, esmorecida,
ao terror do ignoto e do vazio;

quando surge, num gélido arrepio,
a nocturna visão indefinida;
às horas em que a Morte espreita a Vida
na máscara dum ricto escuro e frio;

abro o teu livro, Mestre. E já cerradas
essas páginas rútilas, vibrantes,
duas auroras, duas madrugadas

nascem e casam-se em abraço estreito:
a que apaga as estrelas cintilantes
e a que acendem teus versos no meu peito.»
 
Eis um profundo soneto em que Cardoso Marta afirma em si algo que Antero de certo modo vivenciou, batalhou, sofreu:
 «quando a razão sucumbe, esmorecida,
ao terror do ignoto e do vazio». 
E nesses momentos  de dúvida vividos na noite, em sintonia com a vida e morte do poeta-filósofo, nessas horas de travessia nocturna, sob o tremendo mistério da vida que esmorece a razão, Cardoso Marta, relendo os poemas de Antero Quental, sente dentro de si o milagre da concordância da aurora exterior e da interior pois  realiza rutilantemente (de rutilus, cor de fogo, resplandecente, brilhante) as forças luminosas e vitoriosas que certos sonetos de Antero encerram madrugantemente e lhe transmitem num abraço não espectrante mas auroral, fulgurante, cintilante. Não admira pois que o sinta e chame com gratidão e amor:
« abro o teu livro, Mestre. E já cerradas
essas páginas rútilas, vibrantes ...»
Anote-se que outro soneto, Regresso, tem como epígrafe inicial o verso de Antero "Só quem teme o Não-Ser é que se assusta",  e nele Manuel Cardoso Marta  dialoga com o espírito-irmão de Antero, muito ascensionalmente e com fé no seu Deus:
 «Se acaso é um cobarde quem receia
o Não-Ser, oh meu Mestre e meu Irmão,
eu não n-o temo e tenho a convicção
de um Mais-Além, por que a minha alma anseia.
 
E tanta vez me alucinava a ideia
da volta ao Nada, sem continuação...
Já não me assusta a eterna escuridão!
Há um Deus que condena e que premeia.
 
Torne, Senhor, de novo a fé; também
torne a esperança à razão já convencida
e asas que, sendo filho, eu te mereço.
 
Ó minha ingénua crença antiga! Ó Mãe,
que me ensinaste a crer numa outra vida
melhor do que o desterro em que apodreço!»
 
Manuel Cardoso Marta era um republicano, socialista no bom sentido, etnógrafo, amante do povo português e das suas tradições (danças, folclore, gravura popular, humorismo), grandes almas (jornalistas e escritores figueirenses, Antero, Camilo, Eça de Queirós) e história consagrando-lhe vários livros e orientando exposições e revistas. Deu-se com muitos escritores, poetas e investigadores e neste blogue encontra um livro que lhe foi oferecido por Carlos Sombrio  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2019/06/carlos-sombrio-artista-da-figueira-da.html

sexta-feira, 5 de abril de 2024

De 5 para 6 de Abril de 2024, a Noite do Poder, Laylatul Qadr, no ano a mais auspiciosa para o Islão.

                                    

Acontece hoje de 5 para 6 de Abril de 2024, a Noite do Poder, Laylatul Qadr, no ano considerada a mais auspiciosa segundo o Islão, pois as ligações entre o Céu ou mundos espirituais e a Terra ou plano físico, são intensificadas, em comemoração da primeira revelação do Alcorão de Allah a Maomé através do anjo Jibril, correspondente a Gabriel e assim, dos níveis espirituais Imams, tal Ali e Hussain, Mestres como Al-Khidr, o imortal ou sempre verdejante, ou ainda Sohrawardi, Dara Shikoh, Nur Ali Shah, Anjos, tal como o seu da Guarda, e almas guias santas podem ajudar-nos a estabilizar a mente, a intensificar o coração, a abrir o olho espiritual, e a sentir, ver e religar-nos mais às realidades espirituais e divinas.

Aproveite então para, mais demorada ou persistentemente, saudar e invocar os anjos, os mestres, santos e santas e a Divindade e tente interiorizar-se, harmonizar-se e receber alguma luz do espírito divino e, quem sabe, inspirações.

 

Santa e luminosa noite! Boa sorte! Bata e abrir-se-á... 

Saiba querer abrir-se às forças luminosas do Espírito e da Divindade 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Reflexões sobre o Y pitagórico, o bívio, a via bifurcada, com um poema de Gabriel Gomes de Senabria.

                                                
A escolha entre o vício e a virtude, o que será bem ou melhor e o que será mal ou pior, a partir dos ensinamentos de Pitágoras, referida em autores como Xenephon, Persius e outros, foi simbolizada com a vigésima letra do alfabeto grego, o Y, denominado então como o Y de Pitágoras, o ípsilon (que se lê até mais upsilon), já que tendo sido um mestre do caminho da harmonia do corpo e alma com o espírito e o Cosmos, ensinara o discernimento da escolha certa em tal símbolo, entre outros que atravessarão os séculos algo misteriosos, a partir da sua escola de Crotona.
                                                
Ao longo dos séculos tal símbolo e metáfora das escolhas na vida peregrina humana, referido ainda como o bivium, o bívio, a dupla via ou o caminho bifurcado, foi sendo comentado ou poetizado por alguns seres luminosos e conscientes da Filosofia Perene ou da Tradição espiritual pitagórica, e num artigo referi-os: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2021/12/da-meditacao-e-do-discernimento-o-y.html
Vemos portanto que este símbolo, tanto da
sabedoria perene ou universal como mais especificamente da tradição pitagórica e, em seguida, da literatura e sabedoria greco-romana, teve ao longo dos séculos quem o trabalhasse, e assim Jesus emprega-o espontaneamente quando fala da via estreita e da via larga, tal como alguns dos primeiros padres da Igreja que conheceram melhor a sabedoria pagã, e poderíamos chamá-los tanto pitagóricos como espirituais pois,  face à existência do egoísmo e da solidariedade, das virtudes e vícios, da violência e do amor, do bem e mal (relativos, pelo menos), valorizaram  a existência do caminho de harmonização, aperfeiçoamento, ascensional, bem como da auto-consciencialização, ponderação serena e  livre determinação, qualidades e capacidades que nos nossos dias vemos enfraquecidas, com os meios de comunicação a servirem  desígnios controladores, como tem vindo acentuar-se com  várias manipulações, tais como as das farmacêuticas, as alimentares e de bebidas, as editoriais, e as de ideias, preconceitos e fobias.

Saber-se discernir a cada momento o melhor caminho, a melhor compreensão, a melhor acção ou atitude exige de nós serenidade desprendida e aspiração à verdade, ao bem, ao justo, o que tem de ser trabalhado, estudado, respirado, meditado, aprofundado regularmente ou constantemente, seja de manhã, seja a meio da noite, seja especialmente ante qualquer desafio urgente ou opção mais difícil.

Frequentemente somos confrontados com escolhas, comentários, julgamentos, conflitos e não podemos ficar sempre calados, indecisos, submissos ou ignorantes, sobretudo quando há vidas em perigo, em sofrimento, em opressão, em alienação e perdição, ou quando simplesmente temos de decidir-nos por uma das duas vias ou hipóteses, e então a tradição do Y pitagórico estimula-nos a meditarmos e discernirmos o que nos eleve e será o melhor e o que nos rebaixa e subanimaliza, para tal discernimento ajudando antevermos as consequências próximas e futuras...

Saibamos pois manter a bússola da verdade acessa no nosso peito, e com a mente e coração investigar as situações-problemas, para cooperarmos com o Bem,  a Verdade e a Justiça e não sermos cúmplices da ignorância ou, pior ainda, do erro, da mentira,  da violência e do ódio ou mal.

 De Gabriel Gomes de Senabria, nascido na segunda metade do séc. XVI no grande centro cultural de Alcala de Henares, filho de um médico e que foi trabalhar para a América do Sul na administração do reino castelhano, desincarnando em 1647 e que era dado  à poesia e à ética,  oiçamos como poetizou o Y pitagórico, de certo modo segredando-nos: se queres não te lamentar na vida depois da morte, deves de seguir o caminho mais áspero da virtude para assim alcançares o supremo Bem ou a Glória, a qual significa a Luz e o resplendor espiritual e divino.

                                       «Nasce o homem mortal no mundo vão,

E apenas com a vista o ar mede,

Logo um caminho vê, que se divide

Em duas veredas do viver humano.

Áspera aquela à mão direita

Ao caminhante mísero despede;

E a da esquerda a nada impede o passo,

Antes o oferece deleitoso e fácil.


Mas no fim são diversas: a primeira

Por penhascos de penas se remata

Em glória perdurável, e verdadeira.

Com seus deleites a segunda mata.

Quem quiser acertar consulte a Consciência

Quanto à melhor via a optar.»