segunda-feira, 8 de abril de 2024

A "Escada Espiritual de S. João Climaco", traduzida e muito acrescentada por Frei Luís de Granada, dedicada à rainha D. Catarina, e dada à luz por João Blávio em 1562.

          

 Entre as obras quinhentistas pioneiras de espiritualidade mais profunda editadas em Lisboa encontramos a dada à luz pelo impressor alemão João Blávio, no ano de 1562 e que leva como título  LIBRO  de S. IOAN CLIMACO, LLAMADO  ESCALA  SPIRITUAL: En el qual se descriuẽ treinta Escalones, por dõde pueden subir los hõbres a la cumbre dela perfection y fue agora tercera vez trasladado en lengua Castellana por vn Religioso de la orden de S. Domingo. Añadieronse le vnas breues Annotaciones en los primeros cinco Capitulos, para la inteligencia dellos..., e que foi  pelo tradutor e parafraseador frei Luís de Granada dedicada à mulher de D. João III, a rainha D. Catarina, irmã do imperador Carlos V, e que sabemos ter sido uma mulher culta e espiritual, pois era filha de Filipe o Belo, Duque de Borgonha e Arquiduque da Áustria, com a corte nos Países Baixos e onde o humanismo florescia maravilhosamente e tendo assim trazido consigo, qual dote para o seu casamento com Portugal, obras de Erasmo (que era conselheiro de seu pai), quando este sábio perene já era perseguido por certos sectores mais conservadores e "sorbónicos" da Igreja e censurado em algumas obras nos Índices ou listas de livros defesos.

Neste retrato de António Mouro (de 1553) qual seria o livrinho religioso de D. Catarina?    

A dedicatória do sábio místico Frei Luís de Granada (1504-1588, em Lisboa), que viu partes mais místico-quietistas das suas obras censuradas (e logo reimpressas emendadas) e que era admirador de Pico de della Mirandola e de Erasmo, como entre nós José V. de Pina Martins provava (ao inclui-los num dos seus volumes de Sermões) e gostava de realçar, tem mesmo algo de profético, pois a rainha D. Catarina, tendo vivido entre 1507 e 1578,  casada com D. João III de 1525 a 1557, e regendo na menoridade de D. Sebastião até 1562, acabaria por retirar-se da vida cortesã ou áulica. 

E o que diz a sábia dedicatória à "Sereníssima Senhora", uma caracterização quase impossível nos dias de hoje tão agitados, nas suas linhas finais? - «Receba pois V. A[lteza] com sua acostumada serenidade este pequeno presente: para que quando alguma vez for aos mosteiros da Madre de Deus, ou da Esperança [talvez os dois principais lisboetas de então] a respirar com Deus [que significativa caracterização do recolhimento] dos trabalhos contínuos o governo, tenha com que recrear algum tanto seu espírito com a lição deste divino Livro. Cuja mui alta e poderosa pessoa e estado nosso Senhor amplifique e engrandeça com perpétuos favores do Céu.»
E assim veio a suceder, porque a Rainha, abdicando no seu filho Sebastião, retirou-se para o mosteiro da Madre de Deus e certamente terá lido o livrinho.
Nos seus 22
0 fólios, e dividido em trinta capítulos, vinte e seis acerca dos vícios e das virtudes e da vida purgativa, e os últimos quatro sendo da sagrada Quietude do corpo e da alma, da bem aventurada virtude da Oração, e da maneira que nela assiste o homem diante de Deusdo Céu terreal, que é a bem-aventurada Tranquilidade; e da perfeição e ressurreição espiritual da alma antes da ressurreição comum, e da união e vínculo das três virtudes teologais, Fé, Esperança e Caridade, está repleto de psicologia ascética, filosofia moral, doutrina teológica e realização espiritual, baseada em grande parte nos primeiros Padres do deserto, nos místicos medievais, e em especial em S. João Clímaco (em grego, escada), o autor da Escada Espiritual (ou Escada Celestial) que, tendo vivido aproximadamente entre 540 e 610, chegando a abade do famoso mosteiro do monte Sinai, veio a ser traduzido para o latim (em 1300 pelo frade menor João Clareno, um franciscano espiritual) e para as línguas vulgares, conhecendo-se muitos códices gregos e várias traduções.

Houve em Portugal antes desta edição (alargada a outros autores e parafraseada, em castelhano e que tal como Frei Luís de Granada menciona  já era uma terceira tradução),  a tradução manuscrita da versão latina de João Clareno existente num códice em português-medievo, bastante mais pequena, realizada por um Frei Martinho do mosteiro de Alcobaça e que se encontra, desde a extinção das Ordens religiosas em 1834, na Biblioteca Nacional,  e que foi citada em parte pelo P. Mário Martins e excelentemente estudada e editada recentemente por Ilma Magalhães Alkima (estando online). Anote-se que houve uma tradução de João Mendes de Almeida Júnior, em 1902, no Brasil, da versão em castelhano de 1562, sob o título Clímax, ou Escada do Céu.

Dele destacaremos apenas alguns dos seus  ensinamentos bem substanciais, o primeiro acerca das fases ou partes da Oração mental, hoje dir-se-ia uma tema controverso e algo controlado na época: «Entre quatro escalões de que S. Bernardo arma uma escada espiritual, por donde os verdadeiros religiosos sobem ao cume da perfeição, o primeiro é a Lição, o segundo a Meditação, o terceiro a Oração, o quarto a Contemplação (...) Porque a Lição [ou  leitura de texto sagrado] dá matéria de Meditação, e a Meditação (quando se acende) desperta a Oração, e a Oração perfeita vem em parar em Contemplação: donde a alma esquecida de todas as coisas e de si mesma docemente repousa e se adormece em Deus. Por aqui pois se vê que a Lição é como semente e princípio de todos os outros graus; e a que assinaladamente é pasto e mantimento da alma, recolhimento do coração e despertadora da devoção; porque estes são ofícios próprios da palavra de Deus.» 
Escreverá ainda o tradutor e compilador deste livro Frei Luís Granada em relação ao valor quase divino do ensinamento de S. João Clímaco: «perseverando em contínuos jejuns, orações, e exercícios de virtudes, vivendo vida mais que humana. Por donde as palavras da sua doutrina não devem ser tomadas por quem as lê como as de um homem puro [ou só] senão como um órgão vivo do Espírito santo: e como de quem cheio deste Espírito escreve com a pena o que Deus havia escrito primeiro na sua alma.»
Eis-nos pois com dois excertos valiosos, o primeiro explicando a passagem das várias fases da oração, desde o trabalho do entendimento, ao despertar do fogo amor interior e ao alcançar da quietude divina, e que parece até abonar a ideia e fim do famoso soneto de Antero de Quental, Na mão de Deus, ao considerar que no clímax da mais alta contemplação «a alma esquecida de todas as coisas e de si mesma docemente repousa e se adormece em Deus».  
No segundo excerto encontramos uma bela aproximação ao Espírito, e ao enchimento Dele que teremos de fazer para haver uma inspiração recebida do mundo Divino, impressa nos cimos da alma e depois transcrita, e que meditada e aplicada dá bons resultados...
 
Resta-nos partilhar para finalizar quatro breves excertos, dois do Capítulo XVII, da Quietude: «A cela do verdadeiro solitário é o seu próprio corpo (onde trás a alma recolhida onde quer que está) e dentro dela esta a escola da verdadeira sabedoria».
«Porque o que alcançou esta maneira de Quietude solitária, tem grande conhecimento da profundidade das obras e mistérios divinos. Mas não chegará a esta profundidade, se primeiro não tivesse ouvido ou visto os desassossegos e estrondos das ondas e dos ventos deste mar. Confirma isto que dizemos o grande apóstolo S. Paulo: o qual se não tivesse sido levado ao paraíso (como a uma secretíssima Quietude) nunca por certo ouvira os segredos e mistérios que ouviu. O ouvido da alma quieta, receberá de Deus grandes coisas.»
E dois do capítulo XXVIII, da Oração: «Antes de todas as coisas ponhamos em primeiro lugar da nossa oração (à entrada dela) um sincero dar graças, e em segundo lugar suceda a confissão e contrição que saia do íntimo afecto do nosso coração; e depois destas duas coisas signifiquemos as nossas necessidades ao nosso Rei e peçamos  as nossas petições. Esta é uma boa ordem e maneira de orar, a qual foi revelada por um Anjo a um monge».
 «Falar muito na Oração, muitas vezes foi ocasião de inchar-se a alma de diversas imagens de coisas, e de perder a atenção; mas falar pouco, ou uma palavra [mantra] na Oração, faz recolher mais o espírito. Quando em alguma palavra da Oração sintas em tua alma alguma suavidade e compunção, persevera nela porque então o nosso Anjo ora juntamente connosco».
                                                              

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