quarta-feira, 10 de abril de 2024

Das vias espirituais e místicas, do coração, da pureza e da graça, da unidade libertadora do corpo, alma e espírito.

                                                    

                                                 

O coração duma pessoa mais mística, ou seja, de quem procura sentir, conhecer, religar-se ao espiritual e ao Divino, é de certo modo diferente do coração do crente normal, e mais ainda do descrente, pois é mais sensível e profundo pelo trabalho por ela realizado de se harmonizar e interiorizar em demanda do espírito divino, pelo que está mais desperto e aberto, capaz de se ligar a seres e energias elevados e subtis. Mas também fica sujeito, pela sua sensibilidade e abertura, a momentos mais intensos ou alargados de dor e alegria, sofrimento e júbilo.Há assim pessoas religiosas que caiem demasiado nos sentimentos, que as podem avassalar, por isso se recomendando o equilibrio do coração e da cabeça, e ainda do corpo, com as suas tarefas manuais ou o contacto enraizador com a terra, a horta biológica.
O cerne da mística está na abertura do coração e da al
ma, e no despertar dos sentidos interiores anímico-espirituais,  que em geral apenas se sentem ou pressentem, embora alguns místicos fossem mais agraciados, por exemplo, com a visão espiritual de si mesmos ou dos outros, enquanto seres e corpos energético-espirituais e deixassem alguns registos do que viram, tal como raios, vestimentas, cores, chamas, asas, coroas de flores nas auras ou almas.

As flores, as rosas e as rosáceas da iconologia sagrada representam e manifestam ora essas visões ora a abertura do coração e a rotatividade dos centros psíquicos, nomeadamente do anahata chakra, o centro cardíaco subtil da tradição indiana. Eis uma das raízes das simbolizações das rosáceas manuelinas, tão presentes nos espaços sagrados do mosteiro dos Jerónimos, do convento de Cristo em Tomar e em noutros locais sacros.

Um dos princípios importantes para sentirmos e aprofundarmos a operatividade da arte sacra é o da unidade atingida pela contemplação: o que nós vemos, podemos tornar-nos, ou sermos.
Quando vemos um c
ristal, ou o pomos na mão com uma intenção espiritual, estamos a querer e a orar a Deus para que a nossa alma seja una com o cristal e se torne mesmo um cristal, e nomeadamente para a Divindade. Uma candeia, uma vela ígnea simbolizam e impulsionam a nossa  devoção e ardente aspiração, e pela comunhão com as energias ígneas  dissipadoras das trevas externas e internas, o nosso espírito intensifica-se e eleva-se para a Divindade. De igual modo, muitos símbolos e imagens religiosas, para quem os souber sentir interiormente, mística ou espiritualmente, tornam-se instrumentos impulsionadores da nossa harmonização, crescimento e religação.

Consideraram alguns mestres da via espiritual uma tripartição humana, entre os hílicos, os mais da terra , os psíquicos e os pneumáticos, sendo importante a passagem do nível mais comum, o psíquico ou mental, para o estado pneumático, de pneuma, espírito, no qual se consegue ultrapassar ou diminuir e controlar a dualidade e discursividade, e a alma se estabilizar mais na paz, no silêncio, na luz, na auto-consciência espiritual, na Unidade simples.

Ora esta passagem é ajudada pelo não envolvimento na multiplicidade, dispersão e conflitualidade do mundo, e a consequente interiorização,  de que somos um espírito, um monakos, o monge ou monja, em pé diante de Deus, solitário, ou então junto a outros em comunidade de sorores e fraters, na esperança e na milícia de poderem  assim resistir melhor à clássica tríade do "mundo, carne e  diabo", menos presente, mais controlada, em tais mosteiros e comunidades, mais dissipável pela convergência ou a união que faz força e até seguindo o preceito máximo de Jesus: «onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles»

Mas sempre houve quem não apreciasse estas realizações individuais ou de pequenos grupos, a subida a estados de luminosidade ou mesmo de unidade e portanto a ultrapassagem ou saída da situação ignorante, desligada, trevosa, pecadora, manipulável. E como era e será sempre uma passagem estreita, uma travessia íntima, uma via difícil, os que a realizavam, em parte ou muito, foram frequentemente invejados e atacados por os que nem místicos nem sábios, nem amantes, em geral já demasiado importantes nos seus cargos ou posições, fossilizavam-se nas suas materializadas suspeições, convicções, dogmas, preconceitos, securas esterilizantes.

Todavia as almas protagonistas da demanda das profundidades e alturas  espirituais forçosamente tinham de estar livres e nuas para que no seu despojamento seja a Verdade, seja o Amor, seja a Divindade chegassem a elas, e assim algumas foram acusadas de impúdicas e sensuais, os acusadores não realizando que o amor expresso com o corpo não tem de ser impuro, sobretudo quando tais pessoas não tinham assumido o voto de castidade. Talvez esteja relacionado com tal o episódio  no dia em que Jesus foi preso em Getsemani, de um jovem deixar a sua capa nas mãos dos que o prendiam e escapar nu [«E um certo adolescente seguia-o, envolto num linho fino sobre o [corpo] nu. E eles agarraram aquele adolescente. Mas ele, abandonando a túnica, fugiu nu.» S. Marcos 14.51,52].
Nesta
passagem misteriosa, podemos interrogar-nos sobre quem seria o discípulo adolescente e de poucas roupas? O ele deixar a túnica e escapar nu pode simbolizar  que deveremos desprender-nos de vestimentas e identificações externas e assumir antes a independência da essência, e que portanto a pureza, o amor e a consciência justa são invencíveis e o ser que se desnudifica em si, e não se deixa prender por revestimentos ou pressões sociais, mesmo quando o Mestre é preso, é o verdadeiro discípulo que livre flui na vida...
                                               
Talvez sejam estas algu
mas das razões dos jainas digambharas, os vestidos de vento, meditarem nus nos seus templos e florestas indianas, ou de alguns eremitas do Médio Oriente também nus adorassem, alguns sendo santificados, tal S. Onofre, e em gravuras ilustrados, gerando devoções mais fáceis pela contemplação da vera efígie.
                                                                   
Também Hieronimus Bosh (1450-1516), que pertenceu  a uma Irmandade do Livre  Espírito, dando sinais disso nas suas tão visionárias quão simbólicas pinturas, valorizou os corpos nus, ora híbridos com animais, ora como almas adolescentes,  nomeadamente no tríptico do Jardim das Delícias, nas quais refulge a dimensão espiritual, unindo assim o mais central e alto do ser humano com o corporal animal, numa  visão clarividente pura e luminosa, sem dúvida  difícil de ser realizada senão entre seres vivendo na natureza pura ou comungando intimamente com ela, nos que se amam verdadeira, pura e livremente, e nos que meditam e oram mais cardiacamente, e em si harmonizam e unem as duas polaridades axial e divinamente.

Sem comentários: