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A Dalila, sábia, doce, sibílica, na sua sala-biblioteca do andar-térreo na Av. 5 de Outubro 444, Porto, parte duma fotografia tirada por mim.
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Publicada em 1986, a obra Os Místicos Portugueses do século XVI contém posicionamentos ou afirmações que cremos terem sido aprofundados, corrigidos ou melhorados pela Dalila Pereira da Costa (4-3-1918 a 2-3-2012), durante os 20 anos ainda activos das suas realizações, compreensões e publicações antes de partir para o mundo espiritual em 2012.

Assim, no 1º parágrafo do 1º capítulo, intitulado A Mística Portuguesa, Dalila
mitifica ou exagera um pouco o domínio da Mística, 1º, ao
caracterizar o objectivo do conhecimento a atingir "como visão
e usufruição da Realidade última, ou Absoluto", algo que na
realidade pouquíssimos místicos terão alcançado, e 2º, ao citar o
ocultista francês, maçónico e teúrgico Louis Claude Saint-Martin:
"Todos os místicos falam a mesma linguagem porque vêm do
mesmo país", o que é algo inexacto, pois há uma
muldimensionalidade psíquica, espiritual e divina tão grande que, reflectindo-se em múltiplos países, tradições e linguagens, gera diferenças grandes tanto no que se realiza como na capacidade de
entendimento pelas palavras, pois as mesmas aludem ou exprimem
realizações diferentes de acordo com as tradições e religiões.
Entrando na religião e mística portuguesa, Dalila, sempre
navegando ou voando também em si mesma entre o fundo pagão e o cristão, reconhece que
nas suas manifestações poéticas a mística lusa assumiu formas
panteístas, embora sempre (ou quase, pois houve heréticos e
heréticas...) "dentro das normas do catolicismo e da sua
teologia", para logo umas linhas mais abaixo afirmar «mas na
religião dos portugueses, para além do catolicismo e sua estrutura
e dogmas, nela haverá oculto um fundo naturalista, antiquíssimo,
vindo de sua religião arcaica, primevamente ligada à Terra-Mãe; e fundo persistindo desde os milénios pré-históricos até aos históricos em formas de piedade, indo desde o culto dos mortos ate às celebrações festivas da fertilidade, em coloração telúrica, cristianizados ambos». E este campo foi por ela muito bem investigado em muitos dos seus livros, e destacaremos a Corografia Sagrada, 1993, e As Margens Sacralizadas do Douro através de vários cultos, de 2006.

Em
seguida, após ver bem que neste seu típico panteísmo e naturalismo a nossa mística
se situa em oposição à mística do espírito renana, tal do mestre
Eckhart, tece duas comparações, uma não sendo tão exacta, a de que a mística portuguesa
se aproxima do monismo, próprio da mística da Índia, pois creio
que não será tanto do monismo, o Advaita, mas mais do Dvaita, do
monismo dual, em que além da unidade omnipresente do Brahman ou
Divindade, se reconhecem e cultuam as formas pessoais da Divindade. E
tece uma antevisão bastante corajosa numa época em que dialoguei com ela nessa ligação do Oriente e do Ocidente, sob a
oposição de um ou outro dos seus amigos ligados à Filosofia
Portuguesa. Oiçamo-la:«Portugal, como fronteira, traço de união, por opostos, entre o Ocidente e o Oriente, surgirá como o país de cunho mais oriental do Ocidente. (...) Anunciando um novo Oriente-Ocidente, nele se darão combinações novas, de pensamentos (e aqui, de místicas), desconhecidas no Ocidente. E que assim, a este surgirão, como suspeitas, ou insólitas»
Realçará
depois os principais afloramentos desse veio de "uma religião
naturalista pagã" sublimada, em Frei Agostinho da Cruz, com a
sua mística franciscana acrisolada no amor pela serra da Arrábida
e por Maria nossa Senhora, e patente ainda em Teixeira Pascoaes e Guerra Junqueiro,
aos quais deveremos acrescentar Leonardo Coimbra, nas
suas obrinhas Jesus e o S. Francisco de Assis: visão
franciscana da vida.
Dois parágrafos bem importantes seguem-se, no 1º considera que a concepção
filosófica e a mística portuguesa não conseguiram na sua
escatologia e ascensão abandonar o mundo terrestre e o anímico
astral, nem sair do tempo e da continuidade lunar das metamorfoses e
gerações, para "uma imortalidade na eternidade celeste" e
a "total reabsorção no Espírito", ficando-se por formas
de imortalidade limitadas, o que contudo me parece bem mais realista e
possível de ser realizado do que essa mítica extinção. E no 2º parágrafo, analisando
o pensamento europeu, nomeadamente nórdico e alemão, na sua característica "racional e discursiva", originadora de "sistemas
abstractos e idealistas", opostos à natureza, esta vista como força cósmica
negativa, e que «assumiu no puritanismo seus exemplos derradeiros,
extremados e radicais, e no pensamento germânico, formas de absoluto
desprezo e ódio, tal como as que surgem, notadamente em Kant, em
Portugal surgiria o contrário desse protestantismo: a exaltação,
cântico de louvor e adoração do homem perante a Natureza», bem patente
por exemplo em Teixeira Pascoaes, e em especial no livro e personagem Marânus, em que a
distinção entre Deus, o ser criado e o mundo se desvanecem, ou em
Frei Agostinho da Cruz, onde a Natureza segreda-lhe os segredos
divinos, ou eleva-o à fonte da Formosura, privilegiando Maria, como
avatarização da Terra sagrada, como a Mestra intermediária da
ligação entre a Terra e o Céu.
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Frei Agostinho da Cruz, num painel de azulejos do convento da Arrábida..
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Admirar-se-á
contudo por haver entre nós, como no resto da Europa, «raros casos
de formas acabadas e finais de conhecimento místico, como estados
unitivos. Conhecimento como aquele que se opera de forma imediata,
por via racional, por intuição e via experimental de união com o
Absoluto. Via [ou caminho] que, na sua realização perfeita terminará nesse estado de beatitude, como união actual e contínua da alma do homem com Deus».
Estas
compreensões-visões enfermam de um certo idealismo, o da possibilidade da tão
limitada ou condicionada alma humana, e para não falar do cérebro, poder unir-se com o Absoluto, ou
com Deus, e em especial continuamente, se mesmo Jesus, o mestre dos
mestres ocidentais, sofre, pede ao Pai que afaste o cálice, e diz
que não pode responder a uma pergunta (e ainda por cima sobre a 2ª
vinda...) pois só o Pai sabe. Expressões como "realização
perfeita", "formas acabadas e finais de conhecimento
místico" são absolutizações de realizações bem mais
limitadas que alguns místicos ou iniciados conseguiram de religação
(num tempo e espaço, ainda que a sua percepção seja alterada ou
então desapareça momentaneamente) ao seu espírito, ao mestre, àa
forma pessoal de Divindade ou Deus, ou ainda com a presença do
Espírito divino como força cósmica e de amor. Quanto ao Absoluto
ou à reabsorção no Espírito que alguns admitem tão facilmente, também
parece ilusória enquanto o Cosmos estiver em manifestação.
Do
último parágrafo citado, passa a Dalila Pereira da Costa outra afirmação nascida do seu grande amor por Portugal e da sua inserção na
corrente mitificante da excepcionalidade providencial da missão de
Portugal e dos portugueses que teve como corifeus, por exemplo, o P.
António Vieira, Fernando Pessoa, António Quadros e outros. Diz-nos
então nessa mitificação exagerada de Portugal: «que outro povo do
Ocidente seria o mais indicado para criar formas superiores de um conhecimento experimental, aqui de Deus, tal o da mística, como o português? Ele tão dado a essa forma de conhecimento no mundo e preferentemente usando mais as formas não-racionais, como a intuição e o sentimento, do que as racionais, discursivas? Usando mais o coração do que o intelecto no acto de conhecer», acrescentando uma transcrição da teórica inglesa do
misticismo, hoje algo ultrapassada, Evelyn Underhill e outra do tratado
anónimo inglês do séc. XIV The Cloud of Unknowing que apenas reafirmam que o
intelecto ou a razão não podem pensar o Divino e que este apenas pode ser
amado, ou realizado pelo coração, na nudez e obscuridade mental.
Dalila
interroga-se em seguida porque teria o português se confinado
demasiado à alma e não atingido o espírito, e pensa até, creio
que erradamente, que «a mística, na sua forma última, realiza-se
justamente na anulação de toda a forma e imagem, para além desse
mundo da alma: no mundo do espírito onde, por uma ignição
derradeira, toda a forma imaginária [mas não a verídica e essencial...] é anulada, na única luz
deslumbrante, como fulguração de Deus: "Na tua luz nós veremos
luz", Salmo 35, 10,» como esta citação final que pouco diz e
de uma fraca autoridade de realização mística unitiva, que aconteceria entre o salmista e o temível e cioso Jehova.
A
inexactidão da Dalila neste passo, creio eu, é a de pensar que nos planos
do espírito não há formas e apenas luz, uma posição comum a vários estudiosos do esoterismo, misticismo, budismo e do comparativismo religioso, mas que a ser real
impediria a existência dos espíritos individualizados durante a
criação ou a fase de manifestação....
Aborda
a nossa querida Dalila em seguida e com originalidade o povo português, pois
"pertencendo étnica e culturalmente ao contexto céltico ou
celtizado da comunidade europeia norte-atlântica, aceitando e usando na Idade Média e Renascimento os livros de aventuras no mundo da alma que lhe vieram desse Norte, de brumas e claridade, a diferença e inovação por ele concedida a essa comunidade e sua antiga civilização milenária [e Dalila sentia-o genética e animicamente pela sua ancestralidade maternal irlandesa]", é que ele seria o primeiro a transportar essa aventura, antes vivida no mundo da alma, e só a ele até então confinada, ao longos desses milénios de civilização, para o mundo da terra visível e
acção nela realizada: e pela primeira vez integrando-a na história da Humanidade».
E valoriza então os místicos escritores e poetas que tiveram as
suas intuições, visões e imaginações, taisl D. Manuel de Portugal, Frei Sebastião Toscano, D. Hilarião Brandão e o P. Manuel Bernardes, na Nova Floresta, e as transmitiram com "uma exposição e ordenação" "clara, rigorosa e obedecendo às leis e exigência da ratio, sem nada em si de confuso e obscuro", aos quais acrescenta os profetas Bandarra e Fernando Pessoa que teriam visto o futuro, e que foram capaz de intuir o divino na
História e de o transmitir, e que foram elos duma tradição
visionária e profética imemorial. Aqui Dalila exagera ou mitifica um
pouco a veracidade das suas imaginações ou visões, ao considerar que «a profecia é outra forma afim da mística, e nela se encontrará também essa mesma nitidez e ordenação de uma intuição primeira [ou mera imaginação ou mistificação, diremos]. Bandarra, além da veracidade [?] de suas visões, impressa [e tão manipulada] e declarada na sua mensagem...», e acredita mesmo, exagerando-mitificando, algo seguindo Fernando Pessoa que também à luz, estilo e imaginações de Bandarra consagrou muitas páginas e até belos versos, que «os oráculos do sapateiro de Trancoso, serão realizados numa comunhão com a história [certo]; como estado afectivo levado aos limites do poder humano, onde ele se transmutará no divino [exagero]; é sempre partindo duma intuição [ou desejo e imaginação] que aqui se atinge e transmite um conhecimento. Conhecimento que se fará como adivinhação do divino [ou do futuro desejado] na história.»
Observando
a inexistência entre nós de místicos que foram teólogos,
ressalvando apenas, e com as sua limitações, Frei Tomé de Jesus e sua teologia cristológica baseada na vida, paixão e ressurreição de Jesus (e que Frei Tomé sofreu santamente no cativeiro e morte), Frei Agostinho
da Cruz e uma teologia de ascensão Mariana, sentida na intrínseca
beatitude unitiva e franciscana, acentuará que na vivência da Trindade entre nós
e os nossos místicos há predominância quase total do Filho, de
Jesus Cristo, e que se alguns escritores com o P. Manuel Bernardes, Frei
Amador dos Arrais e Frei Heitor Pinto abordam a mística e os mistérios
da Trindade fazem-no especulativamente como teólogos e não pela
vivência ou união sentida dos místicos, pela intuição ou visão,
algo que ela reconhecerá contudo em Frei André Dias, um beneditino
do séc. XV, estudado e publicado entre nós pelo Padre Mário
Martins bom amigo da Dalila, e sobre cuja obra Dalila faz uma
boa hermenêutica das suas vivências e ensinamentos mais importantes, com
certa comparatividade europeia até, e transcrevendo os passos mais importantes.
As
páginas seguintes e que finalizam o I capítulo são bastante valiosas na tentativa de
contextualizar a mística portuguesa nas suas características de quente
ou do coração e nos seus níveis mais elevados de conhecimento ou
união com Deus, com a Deidade ou Divindade e com o Absoluto,
baseando-se nos místicos já mencionados e em D. Manuel de Portugal e
Frei Hilarião Brandão (que abordará mais detalhadamente noutros
capítulos), em Frei António das Chagas, e ainda Nuno Álvares
Pereira, Gil Vicente e Leão Hebreu, para além de consagrar algumas
páginas belas e sentidas à serra da Arrábida como local desde os tempos
islâmicos, já que rabida é nome para convento sufi, que ali
existiu, num local telúrico e marítimo eleito ou propicio à aproximação à Divindade, sobretudo a partir do seu espelhamento na Natureza pura....
Nos
restantes quatro capítulos do livro Dalila contextualiza e compara com outras tradições, e aprofunda alguns dos autores
citados, trazendo à luz algumas das suas importantes realizações, intuições, efusões e ensinamentos, oferecendo-nos sem dúvida uma
obra bem importante quanto ao conhecimento do caminho místico,
subtil, espiritual e divino, clarividente, vivencial, amoroso e
unitivo, em Portugal.
Muita luz e amor, alegria e Divindade na sua interioridade, na alma de Dalila, e que ela nos possa inspirar!
