sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Sri Ramakrishna visita Chandra Vidyasagar. Como é inútil falar da Divindade, Brahman, sem a sua visão e conhecimento. Nos 188 anos do seu aniversário.

                                    
Ocorrendo o aniversário de Sri Ramakrishna a 18 de Fevereiro (1836), resolvemos ho
menageá-lo partilhando algumas páginas do seu ensinamento, transmitido em bengali na forma dum livro em cinco volumes por M [Mahendranath Gupta, 1854-1932], onze anos depois do mestre ter morrido (a 16 de Agosto de 1886), ou seja, a partir de 1897,  intitulado Sri Sri Ramakrishna Kathamrita, e que se tornou conhecida como o Evangelho de Ramakrishna. Em 1995 estive alguns meses em aprendizagens, traduções, diálogos e palestras no Instituto de Cultura da Missão Ramakrisnna em Calcutá, dirigido então pelo sábio e simpático Swami Loskesvarananda, e onde traduzi bastantes páginas e palestrei até, além de visitas e diálogos valiosos. A tradução deste texto em inglês, e de outros em sânscrito com o querido e sábio professor Satchitanandadhar, foram realizados em cadernos e só agora tenho mais tempo para os passar para o computador.

Sri Ramakrishna foi um dos últimos grandes mestres  da Índia, praticamente analfabeto, mas com uma precoce sensibilidade espiritual e  uma aspiração muito grande à Divindade, que o levaram por um percurso em valioso dados os múltiplos encontros com yogis e yoginis, filósofos e religiosos (os ocorridos entre 1882-1886 foram registados por Mahendranath Gupta), que foram alargando a sua realização espiritual de tal modo que conseguiu sentir ou realizar a Divindade através das diferentes sadhanas, ou linhas de prática indianas, mas também através dos ensinos dos diferentes mestres fundadores das religiões, algo que o seu contemporâneo e amigo Keshav Chandra Sen também tentou, como já descrevemos no blogue. A pintura naif representa a unidade das religiões, pioneirizada por eles, ainda que já antes Akbar (1542-1605) e sobretudo Dara Shikok (1615-16599, dois príncipes e mestres mogóis, tivessem brilhado nessa junção de oceanos ou tradições.
                              
Consciente da época cíclica histó
rica em que estava, a Kali Yuga, em que a influência do mundo e da mundanidade nas pessoas era cada vez maior, impossibilitando ou dificultando a realização da Divindade de modo não dual, ou seja só se vendo a Unidade divina em tudo, recomendou, como o método mais acessível, a devoção à Divindade, seja sob que forma a adoremos, valorizando a repetição do nome de Deus (japa mantra) que mais gostarmos.
                                 
Durante cerca de quinze anos exerceu um magistério intenso com os visitantes do templo da deusa Kali junt
o ao sagrado Ganges onde vivia e oficiava e, a partir de dado momento, com um grupo de fiéis amigos, dialogantes, admiradores, discípulos, que irão após a sua a morte formar a Missão ou Ordem de Ramakrisna e espalhar-se pelo mundo, embora bastante mais na Índia, onde se dedicaram tanto à transmissão dos ensinamentos do mestre, como do seu discípulo principal, Swami Vivekananda, e de vários outros monges ou swamis, como também ao serviço (seva) educativo e humanitário. Estive em alguns dos centros e dialoguei com vários monges sábios em diferentes locais ao longo dos dois anos e meio que estive na Índ
ia.
É do registo do dia 5 de Agosto de 1882, que vamos apresentar um extracto da visita de Ramakrishna a Chandra Vidyasagar, e o diálogo que aconteceu. Está no começo do 3º capítulo do Evangelho de Ramakrishna, por Mahendranath Gupta.

                                                                           
                                      Mahendranathgupta, o autor do texto que traduzimos:
«O pandita Ishwar Chandra Vidyasagar nasceu na aldeia de Birsinga, [a 26 de Setembro de 1820, vivendo até 29 de Julho de 1891] não longe de Kamarpukur, o local de nascimento de Sri Ramakrishna [a 18 Fevereiro de 1836]. Era conhecido por ser um grande erudito, educador, escritor e filantropo [e defensor da emancipação das mulheres]. Sendo um dos criadores do bengali moderno, era também muito versado na gramática e na poesia em sânscrito. A sua generosidade fez com que seu nome se tornasse um sinónimo de partilha entre os seus compatriotas, ao dar em caridade a maior parte dos seus rendimentos a viúvas, órfãos, estudantes indigentes e outras pessoas necessitadas. Mas a sua compaixão não se limitava aos seres humanos: deixou de beber leite durante anos para  que os vitelos não ficassem sem ele e também não guiava uma carruagem por receio de causar desconforto aos cavalos. Era um homem de espírito indomável, o que demonstrou quando abandonou a posição bem renumerada de principal do Colégio de Sânscrito de Calcutá, por entrar em desacordo com as autoridades. A sua afeição pela sua mãe era especialmente profunda. Um dia, na falta da barcaça fluvial, atravessou um rio impetuoso com risco da própria vida, para satisfazer o desejo dela que estivesse presente no casamento do irmão. Toda sua vida foi de uma profunda simplicidade. O título Vidyasagar, que significa “Oceano de Sabedoria”, foi-lhe dado em reconhecimento da sua vasta erudição.

Sri Ramakrishna há muito que desejava visitar Ishwar Chandra Vidyasagar. Ao saber que M. [Mahendra Gupta, o autor do Evangelho] era professor na escola de Vidyasagar, o Mestre perguntou-lhe, “Pode levar-me até Vidyasagar? Gostaria muito de vê-lo.” M. contou a Iswar Chandra o desejo de Sri Ramakrishna e o pundit (sábio ou erudito) concordou que M. traria o Mestre Ramakrishna num sábado, às quatro da tarde. Apenas perguntou a M. que tipo de paramahamsa [grande cisne ou alma] o Mestre era: “Ele usa roupa ocre [de renunciante]?” M. respondeu: “Não, senhor. É uma pessoa invulgar. Usa uma roupa com uma franja vermelha e chinelos polidos. Mora num quarto no jardim do templo da Rani Rasmani [a recente fundadora, muito rica e não brâmane]. Em seu quarto há um divã com colchão e a rede para mosquitos. Não tem qualquer sinal exterior de santidade. Mas excepto Deus, não conhece mais nada. Dia e noite pensa na Divindade .” (...)
Hamsa, o cisne do discernimento no emblema da Ordem de Ramakrishna
Vidyasagar era muito reticente quanto a dar instrução religiosa aos outros. Havia estudado filosofia hindu. Uma vez quando M. lhe perguntou sua opinião cerca dela, Vidyasagar disse-lhe: “Creio que os filósofos esqueceram-se de explicar o que estava nas suas mentes.” Mas no seu dia a dia seguia todos os rituais da religião hindu e usava o cordão sagrado  de brâmane. Sobre Deus uma vez declarou: “É sem dúvida impossível conhecê-Lo. Qual deve ser então o nosso dever? Parece-me que devemos viver de tal maneira que, se os outros seguirem o nosso exemplo, esta mesma Terra seria um paraíso. Toda a gente deveria tentar fazer bem ao mundo."
A conversa de Ramakrishna passou então para o conhecimento de Brahman.
Mestre [Ramakrishna]: Brahman,
a Divindade, está para além do conhecimento (vidya) e da ignorância (avidya). Está para além de maya, a ilusão da realidade.
O mundo consiste
da dualidade ilusória do conhecimento e da ignorância. Contém conhecimento e amor devocional, e também o desejo ou apego à sensualidade e ao dinheiro; rectidão e justiça, bom e mau. Mas Brahman está desapegado [ou acima] destes. Bem e mal aplicam-se ao jiva, à alma individual, tal como a justiça e a injustiça, mas Brahman, a Divindade, não é de modo algum afectado por eles.

Uma pessoa pode ler a Bhagavad Gita através da luz de uma lâmpada, e outra pessoa pode cometer uma fraude através dessa mesma luz, mas a lâmpada não é afectada. O sol derrama a sua luz tanto nos malvados como nos virtuosos.
Perguntareis: Como se pode então explicar a miséria, o pecado, a infelicidade? A resposta é que eles só se aplicam ao jiva, à alma individual. Brahman [o Absoluto, a Divindade] não é afectado por eles. Há veneno numa serpente, mas apesar de outros poderem morrer se forem mordidos por ela, a serpente em si não é afectada pelo veneno.
O que é Brahman é indescritível. Todos as Escrituras - os Vedas, as Puranas, os Tantras, as seis Darshanas (sistemas de filosofia) - foram profanadas, como a comida tocada pela língua, pois foram lidos e pronunciados pela língua. Apenas algo não foi desta forma profanada e tal é Brahman. Nunca ninguém conseguiu estar apto a dizer o que é a Divindade 
infinita.
Vidyasagar
: (para os amigos que assistiam): “Oh! Isto é uma afirmação notável.  Aprendi algo novo hoje.”
Mestre: "Um homem tem dois filhos e envia-os a um perceptor ou mestre para aprenderem o Conhecimento de Brahman. Após alguns anos regressam a casa e inclinam-se diante do pai. Querendo medir a profundidade do conhecimento que detinham de Brahman, interroga o mais velho:- Meu filho, estudastes todas as Escrituras, diz-me agora qual é a natureza da Divindade? O rapaz começou a explicar Brahman pela recitação de vários textos védicos. O pai não se pronunciou e fez a mesma pergunta ao outro filho. Mas o rapaz silencioso, pôs os olhos no chão, e palavra alguma escapou dos seus lábios. O pai ficou contente e disse-lhe: Meu filho, compreendeste um pouco do Brahman. O que é, não pode ser expresso por palavras."
Os seres humanos pensam que compreenderam plenamente Brahman. Uma vez uma formiga encontrou um montão de açúcar. Um grão encheu o seu estômago. Pegando noutro grão com a boca pôs-se a caminho da casa. A certa altura pensou, na próxima vez trarei para casa todo o monte."
Isto é o modo como as mentes estreitas pensam. Não sabem que Brahman está para além das palavras e pensamentos. Por muito grande que seja um homem, quanto é que ele pode conhecer de Brahman? Sukadeva [filho de Vyasa, o autor do Bhagavat Purana e seu narrador] e outros sábios podem ter sido grandes formigas, mas mesmo eles
apenas poderiam levar  oito ou dez grãos de açúcar.
Quanto ao que foi dito nos Vedas e Puranas, sabeis a que se assemelha? Suponde que uma pessoa viu o oceano e alguém lhe pergunta: "Então, como é o oceano?" Ele abre a boca tanto quanto pode exclama:" Que vista imensa! Que ondas e sons" A descrição de Deus nos livros sagrados é como tal. Diz-se nos Vedas que Brahman é de natureza da beatitude - É Satchidananda. [Sat-Ser, Chit-Consciência, Ananda-Felicidade, palavra muito usada para meditação.]
Suka e outros sábios estiveram na margem deste oceano da Divindade. Viram-no e tocaram a água. Mas de acordo com uma escola de pensamento nunca mergulharam nele. Aqueles que o fazem não podem voltar ao mundo de novo.
Em samadhi [estado de intensificação energético-espiritual] uma pessoa atinge o Conhecimento de Brahman - uma pessoa realiza Brahman. Nesse estado o raciocínio pára completamente e a pessoa torna-se muda. Ele não tem o poder de descrever a natureza da Divindade.
Uma vez uma boneca de sal foi medir a profundidade do oceano (riem-se todo os que escutam Ramakrisna na satsanga). Queria contar às outras quão profunda
era a água. Mas isso ela nunca poderia fazer, pois assim que entrou na água dissolveu-se. Portanto, quem estava lá para relatar depois a profundidade do Oceano?
(...)
Os
rishis (sábios videntes) de antigamente atingiram o Conhecimento de Brahman. Não se pode alcançar esse estado enquanto houver o menor traço de mundanidade. Quão arduamente os rishis trabalhavam! De manhã cedo saíam do eremitério e passavam o dia inteiro na solidão, meditando em Deus [Brahman]. À noite voltavam ao eremitério e comiam algumas frutas e raízes. Mantinham as mentes isoladas dos objetos da visão, audição e tacto e das outras coisas do mundo material. Só assim eles realizaram Brahman como a sua própria consciência interna.
“Mas no Kaliyuga [a época actual segundo a ciclicidade tradicional indiana], o homem estando totalmente dependente da comida para viver, não pode libertar-se completamente da ideia de que é o corpo. Nesse estado mental, não é apropriado ele dizer: ‘Eu sou Ele’, Aham Asmi, [uma das grandes afirmações (mahavakyas) da realização espiritual].  Quando uma pessoa faz todo o tipo de trabalho mundano, não deve dizer ‘Eu sou Brahman’ [Aham Brahmasmi, outra das grandes afirmações, em que se medita]. Os que não podem desapegar-se das coisas do mundo, que não podem libertar-se do sentimento do ‘eu’, deveriam dizer: “Sou um servidor de Deus; Sou um seu devoto’. Pode-se também realizar Deus seguindo o caminho da devoção. [Bhakti, que Ramakrishna seguiu fortemente, além do caminho (marga) do conhecimento-visão, Vijnana]».

Que Sri Ramakrisna Paramahamsa nos inspire na realização espiritual e divina!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Vida, morte e ressurreição, livre-arbítrio e predestinação. Arte de bem morrer e gestação do corpo espiritual.

                                               
A morte e a origem da V
ida e do Universo terão sido ao longo dos séculos da história da Terra humanizada os mistérios maiores enfrentados, pensados e investigados mas ainda hoje pouca gente tem ideias  relativamente claras e acertadas sobre eles, embora os que seguem religiões e tradições ou investigam filosófica e cientificamente tenham em geral algumas ideias e compreensões melhores, ou mesmo intuições felizes.
Para uns, pouco in
teressa o que possa vir a suceder no além, embora, quando lhes morrem pessoas queridas ou amigas, sofram e se interroguem, e das religiões recolhem ou aceitam alguma base explicativa  que serve mais para não terem que pensar num assunto algo desagradável, e adoptam uma crença vaga, quase como um anestesiante.
                                                
Outro seres, porém, d
esde cedo sentem o confronto com o mistério da morte, ora apenas apreensivos pela sorte de quem mais amam, e rezando por eles, ora questionando de frente o mistério, estudando-o, investigando-o, tanto dentro como nas margens ou fora das religiões, nomeadamente nas investigações psíquicas.
Outros deixam-se prender pelo rom
antismo da Morte libertadora e quase se apaixonam por ela, poetizando-a, cultuando-a, chamando-a, e por vezes ela não demora  muito a vir.  Sucedeu bastante no século XIX e começos do XX entre os poetas, mas ainda hoje há almas que se deixam atrair pela ideia da morte libertadora que o suicídio proporcionaria, quando é o contrário que colherão, dramaticamente.
Podemos admitir que alguns desses poetas e poetisas, dos quais temos mais testemunhos históricos, por vezes tinham já uma intuição interna do que de facto precocemente lhes iria chegar.
Na realidade, na tradição
das Letras portuguesa encontramos Camilo, António Nobre, Antero de Quental, António Fogaça, António Molarinho, Manuel Laranjeira, Florbela Espanca, Maria da Silva Vieira como alguns dos seres muito sensíveis e inteligentes que, na vida terrena, a partir de certa altura, se ligaram demasiado à Morte, desejada e libertadora, sob a qual soçobraram precocemente, e  podemos interrogar-nos se tais seres  tinham em si essa matriz (ou mesmo destino) demasiado viva ou próxima,  como se a sentissem dentro de si ou sobre eles, e em sensações psico-somáticas, sonhos, poemas e intuições surgisse mais fortemente, influenciando-os, atraindo-os..
                                                               
                                          Talvez o que Antero nos segredasse hoje...
Não é fácil certamente, ao ser parte do mistério da morte e dos seus campos de força, discernirmos se há uma predestinação, se há um "destino que marca a hora", se "o casamento e a mortalha no céu se talha", e sabemos como ao longo dos séculos graves pensadores se afrontaram entre si, nomeadamente defendendo uns a predestinação, que proviria até da Divindade, e outros o livre arbítrio, nomeadamente na questão da salvação das almas.  Uma das mais importantes batalhas numa época de fractura no Ocidente, no começo do séc. XVI, foi a travada entre Lutero e Erasmo, o primeiro com o determinismo protestante, o segundo, com a responsabilidade criativa e livre da persona humana. E que escreveu também um sábio livro de preparação para a morte, e ascensão espiritual...
                                       
Parece-me que esta é a melhor li
nha de aceitarmos como base de investigação e confirmação, pois torna-nos responsáveis do que pensamos e fazemos e logo de irmos gerando uma vida mais ou menos higiénica, alegre, criativa, harmoniosa, benéfica e feliz, para nós e para os outros.
Todavia, sab
emos que, seja por hereditariedade, seja por acidentes externos, a morte pode irromper aparentemente inesperada e injusta, e por causalidades que frequentemente abstraem de razões pessoais e inserem tais mortes em karmas ou causas que abrangem várias pessoas, um local, ou mesmo os cidadãos de uma cidade ou país.
Duas linhas de força podemos talvez trazer à cola
ção: ora hereditariamente já estava programado geneticamente, embora mais tarde ou mais cedo, dependendo da vida, e então há a doença e morte, ora ela surge por causas exteriores, e a desatenção, o azar de se estar no local errado, o ataque por forças opostas ou de mal e o envolvimento em karmas familiares, grupais ou colectivos serão os responsáveis da precocidade do desenlace terreno.
Face a algumas pessoas que têm certas pr
emonições em relação a esses casos, podemos admitir que as suas almas conseguiram dar-se conta dos processos em curso conducentes à desincarnação,  ou então usufruíram de uma consciência acima da linearidade do tempo, ou mesmo tiveram acesso a uma dimensão mais elevada, quem sabe se a do eterno Presente Divino, que inclui toda a História, e nesse sentido entre nós o P. António de Vieira escreveu a sua utópica imaginação da História do Futuro. Mas a um nível mais seguro e modesto são muitos os casos das pessoas que anteveem a sua morte e talvez possamos admitir que é o espírito delas que passa alguma energia, imagem, informação ou abertura do olho espiritual, que lhes permite ver-antever a desincarnação próxima ou mesmo na data exacta.
                                          
Outras pessoas praticam uma antevisão da morte dentro duma arte de bem morre
r, a ars moriendi do Renascimento, ou seja, para se prepararem para a morte, e tentam-se ver mortos, sentir que o momento está quase a chegar e assim sentirem o eclodir das transformações necessárias, arrependimentos ou conversão, e sobretudo desprendimento, e assim compreenderem melhor o que deveriam ainda fazer antes de morrer, tal o congraçar-se com certas pessoas,  distribuir isto e aquilo,  publicar ou dar à luz, etc. Mas talvez o mais forte e profundo seja o provocarem um desdobramento, uma acuidade de auto-consciência, um choque iniciático interno, um maior discernimento do nosso verdadeiro ser espiritual e, identificados a ele, sabermos melhor partir desprendidos das transitoriedades e apêgos.
Convém saber que n
ão deveremos partir ainda agarrados a muitos desejos insatisfeitos, ou projectos,  e por isso a sabedoria iniciática recomendava não se desejar nem começar o que não se pode realizar, ou seja, devemos desenvolver uma certa comensurabilidade, estar bem conscientes no que deve avançar e realizar, e o que se deve evitar já que dispersará a pessoa e pode a morte vir com ela a meio e logo a alma voar para o além ainda dependente dessas energias emitidas e não realizadas...
                                         
Um dos objectivo fulc
rais da meditação na morte é o de nos religar e identificar mais ao corpo espiritual, que sobrevive ao corpo físico, e que na maioria das pessoas é pouco ou nada sentido e desenvolvido, o que dificulta depois o despertar no além, atrasando as pessoas, mantendo-as em estados letárgicos ou limitados, em planos baixos astrais, passando a depender de outros espíritos o seu despertar e a sua ascensão a planos ou mundos subtis mais luminosos. Daí as razões e utilidades das orações, jaculatórias ("avança para a Luz divina", "Luz e amor, luz e amor para ti"), missas, promessas, ofertas sacrifícios, etc., pelas "almas penadas", como outrora se dizia ou, melhor, "alminhas", que de facto o são, ao não frutificaram em si mesmas, ao não terem crescido consciencialmente ou frutificado eticamente...
Saibamo
s então tornar a semente ou a pouca forma da nossa alma num corpo luminoso ou de glória, como outrora se dizia,vencendo instintos e medos da morte, mas também vivendo psiquicamente de modo a que quando ela chegar, estejamos com o corpo espiritual já desabrochado e pronto a deixar o corpo físico e avançar para os níveis mais elevados possíveis, algo que se procurou persistentemente realizar em vida, através da oração e meditação e daa vida justa, criativa, amorosa, abnegada e espiritual, na aspiração de religação maior nossa ao Bem e à Verdade, ao Espírito e à Divindade...
                                          

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Três orações poemas, manuscritos verticalmente, rumo à Divindade.

 

Escritos em sucessivos dias, os dois últimos em Fevereiro de 2024. O primeiro já fora publicado. Vocabulário estrangeiro: Dharma, dever ou missão. Rita, Ordem do Universo, Logos, Inteligência, Razão, Palavra, Verbo. Tao, o princípio e ordem imanente da manifestação. Satsanga, companhia, associação, discurso, na Verdade. Sampradaya, comunidade que segue uma tradição. Umma, a comunidade dos fiéis, vivos e mortos, do Islão. Houve pequenas alterações ao transcrevê-los.

                                                      I

DEUS,
só Ele
sabe plenamente

na luz 
sábia
e dinâmica

quem é.

 E nós?
Nós somos o Ser
e o não-Ser
ora somos
ora não somos,
mas aspiramos a ser
mais plenamente;
e eis as religiões
e espiritualidades.

A busca da entrada
na nossa intimidade
onde está a Divindade
é altamente valiosa
e harmonizadora,
em tudo e todos.

Eis o que inscrevemos
aqui e agora:
- Aspira a que Deus
desça mais em ti,
nasça mais em ti!

    Aum, Amen, Hum.

                                                      II
A Divindade desce sobre nós
quando muito a invocamos.
Desce do Alto,
por níveis e elos,
e pela cabeça até aos pés,
unindo o Céu e a Terra,
num eixo dos mundos
vivo em nós e nas árvores,
nas colunas e na Natureza.

Escreve, pensa, medita,
ora e fala com o coração
e o olho espiritual abertos.
Sê grato à sua Luz,
e comunga pela
    justa liberdade multipolar
no corpo místico 
da vera Humanidade,
  que nos religa 
à íntima Divindade!

III

Ó Brilhante Luz
que nos geraste e iluminas,
Ó Divindade
íntima e subtil,
que em nós habitas,
Ó fonte do Amor,
e da Sabedoria,
torna-nos mais abertos
ao Teu Projecto,
Plano, Ordem,
Plenitude,
Dharma e Rita,
Logos e Tao!

Saibamos fluir
criativamente
com os Anjos, Mestres
e seres afins
na Tua imanente companhia,
em satsangas, sampradayas
e ummas brilhantes,
gerando amor e paz,
justiça e fraternidade,
entre todos os seres,
na multipolaridade
que deve triunfar,
para estabilizar no bem
a reunida Humanidade,
sob a tua Luz, ó Divindade!
 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Agostinho da Silva: nascimento, vida e morte, e dos projectos, realizações e ensinamentos. No seu aniversário, em 2024.

O ciclo de vida e morte é inelutável na Terra; nada dura eternamente, tudo passa, tudo se transforma. Ontem nasceu-se e amanhã morre-se e nesse interim entre o não ainda e o mais não, temos nós de Ser e logo de agir o mais sábia e plenamente possível, sem nunca sabermos bem a fortuna da duração viva do fio de prata que nos liga ao corpo espiritual, e que as Moiras, Karmas e Parcas (Cloto, Láquesis e Átropos), ou ainda as Fúrias, Diabos e diabólicos, podem deixar cortar, ou cortar, a qualquer momento.
Onde tal se torna mais impressionante é quando os seres morrem  precocemente para o que poderia ter sido o seu projecto de vida natural, embora certamente seja difícil deslindarmos quanto tempo cada pessoa teria, ou então deveria ter, para cumprir seja os seus projectos de vida, seja os que a Vida quereria que ele realizasse, e Vida entenda-se aqui a Providência Divina, a Alma do Mundo, a Santa Sabedoria e suas Musas e Parcas...
Não é fácil e discernirmos claramente o projecto de vida de uma pessoa, com as suas sucessivas fases, objectivos, metas e que frequentemente são atacadas, abortadas, não alcançadas pois as pessoas podem não conseguir realizar várias hipóteses criativas que lhe eram possíveis e que seriam convenientes tanto para si ou como para o Todo, face aos ambientes e circunstancialidades adversas.
Outras pessoas conseguem viver muito longamente, ultrapassarem os 80 anos, por exemplo, e realizarem os seus projectos ou missões, ou mesmo a maior parte das suas potencialidades mais valiosas e úteis aos outros, conseguindo terminar até os últimos anos de vida com sabedoria e serenidade.
Sabermos então discernir em que ponto da nossa jornada estamos, quais os objectivos, metas ou frutificações mais adequados, é então fundamental mas respeitando-se de preferência sempre aquela obrigação de todo o ser  praticar o auto-conhecimento e a religação espiritual ou mesmo divina.
Os seres que conseguem isto mais plenamente são poucos e naturalmente irradiam energias dinâmicas de maior completude e, além de poderem intensificar mais o desenvolvimento de relações e criatividades humanas benéficas e frutuosas, são o que se chamam polos, eixos, centros de ligação entre a terra e o céu, o mundo dos factos e o das ideias, entre a matéria e o espírito, entre a horizontalidade humana e a verticalidade supra-humana, a imanência e a transcendência e em algumas tradições reconhecidos como mestres espirituais, qutb, imam.
É natural que tais seres ao longo da sua vida desenvolvam ora estados interiores mais elevados, que ensinam ou transmitem a alguns discípulos, ou então, no mundo ocidental, onde gerem inúmeros alunos, diálogos, actos, publicações, criações luminosas, sendo reconhecidos e acolhidos no que de mais sábio e útil à humanidade têm e podem dar.
Entre nós Agostinho da Silva foi um pensador, escritor e pedagogo  que ao longo da vida teve sempre uma boa aceitação ambiental e profissional, ou na leitura das suas publicações culturais e ensaios, e atingiu uma merecida e mais reconhecida aceitação nas últimas décadas da sua vida, atingindo uma notoriedade maior através da amizade com alguns governantes e sobretudo de conversas televisivas, entrevistas jornalísticas e diálogos para livros, brilhando ou cativando pela sua sabedoria, espontaneidade, independência, graça e animada convivialidade... 
                                              
Todavia a sua visão de um movimento de harmonização e espiritualização das pessoas e da sociedade, num projecto de reactualização das festas e do culto do Espírito do Santo, iniciado no tempo de D. Dinis e da rainha Santa Isabel e que ele ainda encontrara sobrevivendo em alguns aspectos em núcleos de luso-descendentes ou em povos da língua portuguesa espalhados pelo mundo, não conseguiram ser implementados, não desabrocharam, goraram-se com o enfraquecimento da sua idade, pela dificuldade de juntar as pessoas mais afins e aderentes às suas ideias visionárias e de conseguir-se organizarem-se por assuntos ou departamentos e,  sobretudo ainda, por obstáculos dos seus amigos políticos, nomeadamente Roberto Carneiro ao impedir que o dinheiro que Agostinho da Silva tinha numa conta bancária em nome do Fundo D. Dinis, chegasse a projectos alternativos, rurais e comunitários na linha do Espírito Santo.
Mas talvez devamos reconhecer que para várias dos seus amigos, e nelas me incluo, face a esses projectos mais utópicos, o mais valioso era ainda ele, no que era, sabia e propulsionava individualmente, numa teia de relações de amizade que nascia de pessoa para pessoa, assente ora de boca a ouvido, ora em cartas, ora em conversas que eram frequentemente socráticas, maiêuticas, tanto despertantes das nossas possibilidades e confiança como também clarificadoras de múltiplos aspectos do ser humano, da história, da espiritualidade, contemporaneidade e que se pragmatizavam ou enraizavam no real através das sugestões de autores e livros, de pessoas, de telefones e moradas, de relações, viagens, projectos, dinamismos... 
                             
Quando um tal ser parte da Terra (e muita luz e amor para ele, Maria Violante Vieira, sua vizinha e companheira, e Pedro Agostinho, seu filho), embora fiquem os livros, as gravações e as memórias, e se comemore a data da sua morte e nascimento, como hoje estou a fazer, muito da impulsão viva, da confiança e coragem clarificadora deixam de operar a partir dele diante de nós e, ou nós a conseguimos ressuscitar bem por meditação, leitura, reflexão, meditação e escrita ou então frequentemente as palestras em que se fala (e falou-se tanto...) dele ou dos seus ensinamentos acabam por enfastiar ou tornarem-se letra algo morta, sobretudo quando o orador, escritor ou palestrante não tem a sua identidade espiritual mais assumida, desperta e irradiante, se o seu fogo interior não foi acesso ou comungou no de Agostinho, se nada de original ou de aprofundamento nos pensamentos de Agostinhos  realizaram, e assim quase que acabam  por matar ou diminuir a potencialidade impactante e transformante do encontro das pessoas com as melhores ideias forças do seu magistério, amplo e tão variado, que exige ser bem investigado, para que encontramos o que nos diga mais, ou nos pareça o mais certeiro e elevado e não o sintamos demasiado no ar ou contraditório...
Este último aspecto é importante de se reflectir pois Agostinho da Silva tanto foi um ser que viajou, peregrinou, amadureceu, evoluindo portanto, como também foi e muito um ser de conversa, de diálogo a dois ou em pequenos grupos, o que levava que as suas palavras fossem frequentemente específicas para cada pessoa, momento ou situação, ainda que certamente o núcleo das suas ideias e valores pouco mudasse, formado na base provavelmente na infância junto ao rio Douro com pais sérios e abnegados e depois desenvolvido nos anos universitários na Faculdade de Letras do Porto, com professores ou mestres como Leonardo Coimbra, Teixeira Rego, Hernâni Cidade, os quais mais de uma vez elogiou e na companhia de amigos ou condiscípulos como Sant'Anna Dionísio, José Marinho, Delfim Santos, com quem coordenou até a revista portuense A Águia, seguindo-se depois a sua passagem pela revista Seara Nova, mais racionalista, de António Sérgio, Raul Proença, Câmara Reis, Aquilino Ribeiro mas também Sant'Anna Dionísio.
A sua missão de semeador cultural, de divulgador de noções básicas ou conhecimentos mais complexos e por fim dos mais abstractos, subtis e espirituais, é bem visível pela quantidade de publicações culturais divulgativas que deu à luz (por sua iniciativa e a baixo preço), para além dos ensaios ou reflexões mais históricos, filosóficos, axiológicos e éticos, onde contudo desde cedo alguns aspectos de uma revisitação da tradição cultural e espiritual portuguesa o fizeram aperceber-se de núcleos bem importantes e perenes, alguns dos quais já bem discernidos e desenvolvidos por Jaime Cortesão, seu mestre e amigo na sua longa passagem e estadia no Brasil, casando-se mesmo com a sua filha, ou outros em que foi pioneiro na abordagem, tal Fernando Pessoa.
Serão estes núcleos que Agostinho da Silva potenciará com múltiplas aproximações e congregando no círculo das suas amizades e influências uma série de outros pensadores que vibravam nas mesmas linhas culturais-espirituais, mais velhos e mais novos e que entre si se encontraram, dialogaram e frutificaram e poderemos mencionar, depois da experiência longa de duas décadas no Brasil e onde conviveu com valiosos políticos e pensadores brasileiros,  Dalila Pereira da Costa e Aldegice Machado de Rosa, António Quadros e Lima de Freitas, António Telmo e José Florido, Raul Traveira e muita gente nova, dos tais 500 e depois 700 que na décadas de 80 e 90 recebiam as suas cartas várias e folhinhas onde ia lançando as suas ideias e intuições, ora como reflexões, propostas, ora já como quadras aforísticas de alta condensação de sabedoria, na sua linha de valorização da liberdade, da criatividade, da fraternidade, da solidariedade e de uma espiritualidade universal que conseguisse abordar e mostrar o que de comum há entre as várias religiões e tradições, a física moderna e uma vida simples e natural.  
Antero de Quental, um dos elos importantes para Leonardo Coimbra e em certos aspectos inspirador de Agostinho da Silva
Talvez possamos dizer que a sua última floração desiderativa, expressa nos últimos anos da sua vida, foi a da criação de centros de estudo, de comunidades, e conventos de vida comum, algo na linha da Ordem dos Mateiros de Antero de Quental (sobre a qual já escrevi neste blogue), investigando e implementando a tradição do Espírito Santo, a qual é de certo modo a harmonia do seres com os outros e com Natureza bem como um auto-conhecimento do divino espírito, manifestado socialmente numa vida que torne imperantes a criança, a poesia, a dádiva, a criatividade, a solidariedade, o amor, e daí a sua reflexão reiterada sobre a Ilha dos Amores em Camões, e o que caracterizava as festas do Espírito Santo, considerando tais valores e realizações os que norteariam não só os povos de língua portuguesa, para os quais sempre mais trabalhou na sua missão dialogante, pacificadora e universalista, mas para o mundo inteiro, numa certa utopia impossível, evidente para os amigos mais realistas e que ele tinha também de reconhecer face à crescente absorção da tradição nacional pela burocrática e oligárquica União Europeia.E o que diria ele hoje desta última degradação da União Europeia de Ursula von der Leyen e seus acólitos que tanto destruíram a alma e a vida de milhões de europeus...
                                                  
Já passando três décadas depois da sua morte, e parece que foi há tão pouco tempo dada a magnitude do que com ele sentimos ou ouvimos, ou mesmo dada a semi-abertura da porta do coração-memória,  há que reconhecer que a luta continua, e que o seu ideário, enquanto veio de uma Tradição fraterna e espiritual universal continua vivo em numerosos seres, unidos sobretudo na lusofonia, os quais o vão ainda trabalhando, por diversos modos nos nossos dias, em certos casos aprofundando-o mesmo, e abrindo assim realizações 
mais completas, nesta incessante corrente que denominamos Tradição cultural e espiritual, não só portuguesa e da língua portuguesa, como perene e vasta, já que o Graal é universal e multipolar e implica um "optimismo escatológico", na bela frase da  sábia Daria Dugina Platonova, e que muito vivo sempre esteve e está em Agostinho da Silva. Aum...
                                   

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Um conto espiritual: O fim do mundo, os cavalos apocalípticos dos medos e das seitas. E o cavalo ou o dragão do discernimento libertador.

O Kalki avatar (de Vishnu Narayana), do Sanatana Dharma ou tradição indiana, montado no seu cavalo branco do discernimento libertador.

Já há muitos séculos que tanto as datas como os sinais dos fins dos tempos eram profetizados, anunciados ou imaginados. Para a entrada no ano de 2000 tal intensificou-se e já não apenas a um nível popular, de seitas religiosas ou de pastores evangélicos norte-americanos e brasileiros, mas até de alguns tidos como gurus modernos e mais cultos. Uns citavam, de origem popular ou bíblica, o dito: “aos mil chegarás, dos dois mil não passarás”; outros acreditavam nas Centúrias do astrólogo francês Nostradamus, nas quais, segundo certas interpretações, o ano de 1999 estaria apontado como o começo do fim; e outros baseavam-se em "canalizações" de espíritos ou de extra-terrestres. 
Não foram portanto poucos os que começaram a perscrutar o famoso Apocalipse, um dos falsos ou fakes do Novo Testamento, atribuído ao apóstolo S. João mas escrito já depois dele e num estilo e escopo bem próprio do visionarismo zelota e messiânico da época e que nada tem a ver com o helenismo ambiental dos escritos joaninos, embora ao longo dos séculos tenha tido, pelo seu visionarismo, uma fortuna grande na arte e literatura religiosa, tal como podemos ver em Albrecht Dürer.
Alguns recorriam aos sinais dos céus nesse mesmo ano de 1999, guiando-se pelas tabelinhas astrológicas ou pelas previsões de reputados astrólogos, mais ou menos estudiosos, imaginativos ou exploradores.
E como os satélites
, as televisões, os jornais os rádios e a internet levam a toda a parte o que se passa no mundo, muitos começaram a destacar os desastres e cataclismos que estavam a acontecer, para comprovarem o crescimento de tragédias que anunciavam o fim dos tempos. 
É claro que numa questão destas a mistura de superstição e medos pode engendrar imagens com tal poder energético, emotivo e logo de contágio no invisível das almas das pessoas que grupos ou mesmo populações podem vir a reagir violentamente, irracionalmente.

Ora precisamente em finais de 1999 assisti eu numa cidade, do interior, indiana, a uma cena verdadeiramente fantástica. Encontrava-me na praça central, que era também o local donde partiam as  camionetas em todas as direcções do distrito, quando repentinamente uma azáfama e excitação tremenda deflagrou impelindo todas as pessoas  a quererem fugir nos autocarros ou a pé, porque já não longe subindo em direcção à cidade e à praça ouvia-se  e era visível uma grande nuvem de
poeira, um estrépito  prolongado e crescente e que se desvendava como uma profusão de cavalos pretos à desfilada suscitando o medo e logo o pânico.
Tudo se pôs a fugir mas os que se
atrasaram na debandada viram-se a breve trecho envolvidos por dezenas de cavalos que na sua cavalgada e saltos os podiam ferir. Foi então que eu berrei: - Não se assustem, não se atirem pelas estradas, não receais os cavalos negros, entrem ou encostem-se às casas. Mas a atmosfera, exterior e interior, estava já tão poeirenta e conturbada que muitos continuaram a ferir-se escusadamente.
No meio da cavalgada e fuga geral, enveredei por uma rua estreita, e junto a uma casa branca
ouvi duma porta sair um som de orações, que me fez pensar: é aqui que eu devo entrar Bati, ouvi um Om, empurrei a porta e entrei.  Um mestre  indiano estava sentado em cima duma cama-estrado de madeira  junto a uma bela estátua de Krishna e Radha abraçados.  Ele respondeu ao meu juntar das mãos e inclinar-me e indicou-me  que arrancasse duma planta uma folha. Era o sagrado tulsi ou manjericão, e assim o fiz cheirando-o, passando-o pelo terceiro olho e mastigando-o. 
Indicou-me que me sentasse em  meditação, pronunciou algumas orações, das quais conhecia algumas, o que me possibilitou acompanhá-lo e entramos em silêncio. Não demorou muito o meu olho espiritual a abrir-se e pude contemplar a explicação do fenómeno que se passara: eram os medos das pessoas, os cavalos negros, os receios de se morrer com o fim do mundo, mais os de se adoecer, de se perderem as forças intelectuais ou as possibilidades de se sobreviver condignamente, pavores que são enxames no inconsciente das pessoas e que em determinados momentos da vida, duma pessoa ou de muitas, ao dominarem-nas, se tornam suficientemente fortes para se materializarem mesmo aos olhos físicos e logo a amedrontá-las, enfraquecê-las, adoentá-las, forçando-as por vezes a comportamentos selvagens, irracionais, violentos, impulsivos ou então a estados crédulos, hipnotizáveis, submissos. 
 Compreendia agora como, ao contrário  das pragas dos cavaleiros e cavalos do Apocalipse, os profetizados cavalos brancos do Kalki avatar da tradição indiana, ou o do Imam Madhi da tradição islâmica Shiaa, viriam para os seus fiéis em majestade, pureza e justiça e trazendo em cima de si a Divindade mais manifestada, seja neles seja num mestre reconhecido pelos  que aspiram à Divindade e à ligação com Ela, seja como a comunhão com um estado de justiça e de firmeza na ligação ao espírito no interior da comunidade (satsanga, sampradaya ou ummah) dos fiéis ou adeptos.
São mesmo daninhos os cavalos negros das ameaças e desgraças que relincham em nós e à nossa volta e que as televisões e as redes sociais nos transmitem de forma manipulada eficaz, obrigando constantemente a nossa alma a adaptar-se, a insensibilizar-se ou a resguardar-se, pois pensa-se que basta carregar num botão para acabar com tal, quando no fim de contas muito fica registado no interior, de tal modo que mesmo quando não ligamos nem acreditamos no que ouvimos ou vimos, tais energias de violência, mentira e medo podem envolver-nos e germinarem em associações subconscientes nós, com múltiplos efeitos adversos.
Por exemplo, agressividade na condução automobílistica, rispidez e sem tempo de escuta para os outros, tensões a subirem facilmente nos contrastes ideológicos que se tornam confrontos, indiferença ou insensibilidade para apreciar o ritmo e a beleza das manifestações da natureza, diminuição do estado de devoção e amor para os seres que amamos e a Divindade, tudo isso fazendo com que a nossa alma estiole ou se torne um canavial seco nos nervos e seivas, facilmente agitado por qualquer rumor, irritado por discórdias ou dificuldades, ou fendido e desnorteado ou desligado do Oriente luminoso...
Estaremos disposto a valorizar e a dar-nos mais pela harmonia da nossa trindade de corpo, alma e espírito, mais do que a deixar-nos conduzir pela vulgaridade das emoções que a sociedade moderna e os seus media arregimentados, mais do que informando desinformando e desimunizando, tendem a produzir em nós? Para quê continuar a encher-nos e a carregar com tanta ignorância, arrogância, selvajaria, ambição, exibicionismo, cupidez e vaidade de tantas figuras da cena política mundial e nacional, ao recebê-la nas televisões, jornais, internets, livros ou conversas?
E o mundo espiritual, os sábios eternos, as ideias e valores que eles contemplaram, intuíram ou deduziram e nos deixaram para continuarmos a melhorar a nossa acção e compreensão do Universo, da Divindade, da comunhão das almas-espíritos? Quais lemos e reflectimos, e o que queremos fazer deles, ou com eles? Porque oramos e meditamos tão pouco, e tanto nos dispersamos e enfraquecemos?
Com quantos seres nos relacionamos, com quantos continuamos os seus testamentos anímicos, com quantos estabelecemos relações que atravessam as distâncias e barreiras que há entre a vida e a morte, e asseguram-nos a continuidade da amizade e criatividade nos planos subtis da imortalidade da alma espiritual?
As portas daquela casa branca e templo íntimo estavam fechadas e só o rame rame subtil de litania me tocara, mas dentro dela vivi uma grande clarificação da minha compreensão das sombras do inconsciente e do universo,  recebendo mesmo no fim da meditação a sublime luz divina a abençoar-me. Despedi-me do mestre bem grato e ele sorrindo fez-me sentir como ele comungara comigo na meditação e fortuito encontro. Definitivamente, o mundo não acabará senão daqui a milhares ou milhões de anos, e outros mundos e planos existem mas as nossas ignorâncias, violências, injustiças e asneiras essas devem terminar, antes que arrastemos mais seres para tantas situações de sofrimento e de animalidade desnecessárias, frequentemente passando mesmo pelos fins dos seus mundos, ao serem mortas pelo egoísmo, nacionalismo ou imperialismo de alguns grupos e governos mais conflituosos e insensíveis aos valores humanos, éticos e espirituais, como tanto vemos nos nossos tempos..
Decididamente não devemos deixar-nos influenciar ou afectar senão dentro de certos limites pelo que se passa no mundo político e social, embora devamos agir com justiça e sabedoria face a qualquer situação que se possa tornar uma ameaça de fim de mundo, mesmo que seja apenas da justiça, paz e calma de alguém próximo, ou duma zona de Gaia e da sua terra santa.
Há então que trabalharmos criativamente por criar locais, famílias, relações e grupos onde predominem as vibrações da auto-consciência espiritual e cooperação, não-violência, equanimidade e espiritualidade, harmonia sábia e amorosa.
E em que os cavalos, tigres ou dragões do nosso interior ou mesmo do misterioso poder dinâmico não consciente sejam bem domados e guiados por cavaleiros e cavaleiras com discernimento e coragem, abnegação e fraternidade...
Acompanhe, guie ou comungue bem e luminosamente o Dragão azul em 2024! Aum Loong! Om!

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Um conto espiritual: O sopro do vento e do espírito impulsiona-nos montanha acima.

                                        
Admirava pela janela o
vento forte a abanar o grande carvalho na linha do pôr do sol quando subitamente a porta se abriu, fazendo-me sentir algo surpreendido um vento mensageiro e animado a entrar.
Quedei espantado e interiormente interroguei-me: O que quererá, o que será?
E intuí ser um convite a sair de casa e a caminhar.
Soprava forte lá fora, mas gostava de desafios, de caminhar de noite sob as estrelas, e decidi-me a sair do  abrigo da casa.
                                       
Uma calma grande parecia cair do
céu estrelado e pairar, enquanto o caminho íngreme para a montanha parecia cintilar no meio do lusco-fusco do crepúsculo.
As folhas eram arrastadas pelo vento junto ao chão e empurravam-me e fui embrenhando-me pelos carvalhos e castanheiros e os penedos graníticos. Parecia uma estranha marcha aquela em que me encontrava, guiado pelo vento invisível e as folhas do chão que volteavam, e pensei mesmo numa marcha entre o fúnebre e o nupcial. Senti porém que tudo dependia da minha alma, da sua visão e por isso procurava só descortinar vultos simpáticos enquanto avançava para a cla
reira.
                                    
Ao chegar a ela, obs
ervei destacar-se num dos topos um grupo de  carvalhos e castanheiros maiores e com mais idade, com os troncos muito esculpidos, carregados de mistérios. Saudei-os psiquicamente, sem saber se eram habitados por espíritos da natureza, se por devas ou anjos das árvores mais individualizados e dispostos a comunicarem connosco.
O vento criara um remoinho com as folhas numa zona da clareira e para aí senti que me devia dirigir por ser o sítio de maior poder e, ao entrar nele, senti-o como um círculo mágico, intensificando por conjunções subtis, telúricas e celestiais as minhas energias interiores e gerando um calor forte sentido pelo meu corpo e ser, talvez correspondente à minha aspiração ao sagrado e ao divino intensificada naquele momento.
Subitamente senti a clareira tornar-se um cimo, uma rampa de lançamento ou aterragem e tudo à volta parecia arder numa cintilação vibratória especial. Os meus braços lentamente abriram-se, esticaram-se e o coração e os pulmões começaram a respirar em comunicação com todos os seres subtis que eu pressentia encontrarem-se naquele local e momento. Era o aqui e agora.
Uma estrela cadente sulcou o céu, vinda das proximidades do brilhante planeta Júpiter e, repentinamente, o meu corpo espiritual começou a alargar-se pela clareira e a expandir-se para o céu estrelado,  que estremecia num cintilar
sincopado ou sincrónico do cântico das cigarras. A minha consciência sentia-a já pouco limitada ao corpo e o coração subtil estava mais quente, como  um sol espiritual.
Os meus ouvidos desentupiram-se num estalido e percepcionei uma espécie de acorde sinfónico provindo das estrelas e planetas misturando-se
com o das cigarras e com os sons conhecidos do arvoredo soprado pelo vento.
Quando desci de novo à consciência de clareira e do corpo na Terra, pareceu-me que passos misteriosos se acercavam de vários lados, e logo os meus sentidos se intensificaram, como se fosse um solitário na noite imensa, qual lobo sem alcateia nas faldas da serra.
Rajadas de vento batiam na minha face e nas carvalhos e castanheiros à volta e por momentos o animal em mim, selvagem e solitário, sentiu todos os medos e desejos possíveis da sua natureza.
Uma ave piou na clareira, i
nesperadamente, e fez-me abrir de novo as janelas do olhar para a copa das árvores e o céu. Eram duas corujas grandes que pareciam troçar de mim, ou apenas brincar e enriquecer a musicalidade do momento.
O anoitecer estava a tornar-se ricamente povoada de sons, pois de repente uma voz humana chegou até ao meu ser e ouvidos, e tocou-me com uma tal qualidade interior que houve como que um embargar da garganta ou o começo dum choro de alegria, de criança.
Intuía quem vinha lá, em resposta a tantas orações e meditações, e vi então um ser, com o sorriso que emanava e que como um braço do rio da Via Láctea me envolvia.
 O Mestre
desvendou-se então numa das entradas da clareira. Era mesmo ele. Vinha só e os seus olhos eram duas estrelas faiscantes, misericordiosas, amorosas, capazes de limpar qualquer negatividade da alma em que tocassem, e pareciam as contrapartes órbicas dum coração tão cheio de amor e amplo como o infinito, que o meu ser foi rapidamente arrancado para fora do seu estado normal e tornou-se uma cana verde ao vento, um fogo a ser soprado com mestria.
- Mestre, Mestre, exclamei, com a voz a ajoelhar-se na garganta e a deixar-me inclinado, reverente, emudecido, mil vezes grato.
- Vem, disse-me ele, e os seus braços abertos eram um convite maravilhoso a entrar na sua consciência e felicidade.
Ao avançar senti as pernas como que de chumbo e, olhando-as, vi subtilmente nelas todos os medos da minha vida aferrados como um cão a morder-me, ou uma bruxa a fazer-me mover lentamente, ou os inimigos a quererem imobilizar-me.
Tive de olhar intensamente, até à medula dos ossos, e gritar-lhes: - Ide-vos, liberto-vos, dissolvo-vos, na felicidade e liberdade que também é vossa. E subitamente vi como que sombras negras a dissolverem-se pelo chão abaixo, lestas até por  irem ser transmutadas e depois absorvidas pelas raízes dos harmoniosos e poderosos carvalhos, que cintilavam como cristais de quartzo, crucificados há muito, entre o menosprezo e a incompreensão dos homens quanto aos seres subtis que os animam ou às energias cósmicas que os alimentam de luz vital e amor.
Senti isto profunda e claramente porque a minha imobilidade, postura e transmutação me ligavam com os carvalhos e porque a minha árvore interior subitamente despertava e crescia, limpa e desafogada dos medos e limitações.
Um calor suave subia pela minha coluna e o cimo da cabeça parecia crepitar. O coração espiritual desabrochava plenamente e sentia-me a abraçar e a incluir no amor os carvalhos e todas as árvores e seres do planeta, enquanto o mestre sorria e dizia-me telepaticamente: - Avança agora, eis o Homem.
E ao avançar para ele, vi-o como o Cristo transfigurado, como um portador do espírito e religado à Divindade, que me acolhia e nele subtilmente entrei, despertando mais à minha consciência espiritual . Hoje, quando como qualquer ser na Terra
vou ora curvado pelos sofrimentos, ora apressado com os olhos no chão ou no céu, ora irradiando verdade e amor, a verdade é que no meu peito, visão e sentir posso comungar e intensificar mais esta realização espiritual e divina, perene: -  Viva Deus santo Amor

Pintura de Bô Yin Râ.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Um auspicioso ano do Dragão, Loong. Que ele seja benéfico para a justiça, a fraternidade, o amor e a harmonia da Humanidade

                                              

 Começando hoje dia 10 de Fevereiro de 2024 o novo ano do Dragão, Loong, saudemo-lo, bem como à civilização, tradição e almas chinesas que o discerniram e cultivaram, e oremos para que inspire e gere realizações e movimentações  lúcidas e  sábias geo-estratégicas, ideológicas e políticas em prol, não da transhumanista-infrahumanista da nova Ordem Mundial, mas  da verdadeira e livre Humanidade provinda da Divindade e da longa evolução na Terra, e de modo a que os seres possam renascer mais espiritualmente e divinamente. 

Segundo a tradição  este ano é  considerado mais favorável aos povos orientais (e nomeadamente à China, pelo que podemos esperar um papel mais activo seu...) e aos nascidos, segundo esta ciclicidade astrológica sínica do zodíaco dos animais, nos anos de 1940, 1952, 1964, 1976, 1988, 2000 e 2012. Se é o seu caso, aproveite ao máximo, arrisque, empreenda, ouse, crie...

O facto de Vladimir Putin ter nascido a 7 de Outubro de 1952 e ser portanto um Dragão, vai certamente  impulsioná-lo  para um ano excepcional, já anunciado pelos milhões de pessoas que apreciaram  a convite de Tucker Carlson a sua sábia lição (na fotografia em cima) dissipadora das lavagens ao cérebro das Ursulas e Clintons, CNN e Milhazes de todo o mundo, e que terá como ponto alto as próximas eleições presidenciais russas em que triunfará, para além da crescente unidade próspera do povo russo sob a sua liderança no cumprimento da sua missão histórica, ou swadharma, algumas vezes já confirmada muito abnegadamente, nomeadamente com os seus grande sacrifícios contra a Alemanha nazi na II grande Guerra, Alemanha que hoje dirigida por burocratas e tolas parece não ter aprendido a lição, mantendo o seu ódio à Rússia.

Se o fim do conflito na Ucrânia e a Pax profunda e justa, que  Putin e os russos, Jinping e os chineses e os países do multipolar BRICS desejam se realizará, já que os neo-cons e neo-nazis da hegemonia excepcionalista e opressiva ocidental (dos USA, NATO, WEF e EU) se opõem ferozmente, com o seu slogan "até ao último ucraniano", é certamente um mistério, pelo que só talvez alguns dos que conseguem transcender as limitações espaço-temporais terrenas e aceder aos planos subtis, espirituais e arquétipos poderão intuir o rumo dos conflitos, e em geral simbolicamente. Mas cremos que sim, e para que cesse tanta mortandade, destruição e enfraquecimento da harmonia eslava, europeia e planetária, oremos nós também... Aum, Amen...

                                            

Oremos e meditemos então diariamente e persistentemnte para que o novo ano do Dragão (com seu mantra Loong), e do elemento madeira (e assim comungue mais com a Natureza, as árvores, as plantas, objectos em madeira), seja bem inspirador, impulsionador  e benéfico, para si, para nós, para muitos, de modo a que saibamos singrar ou mesmo voar criativamente na shakti ou energia interna do Dragão, que une a Terra (Di) e o Céu (Tian), a Humanidade e a Divindade e seus mensageiros, o Passado e o Futuro, o Yin e o Yang, na perenidade sábia, corajosa e invencível do Tao e da sua ordem fluída, inteligente e divina...