sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"Leonardo Coimbra. Testemunhos dos seus Contemporâneos", (3º): Cardoso Júnior, Faure de Rosa, Augusto Casimiro, Francisco Torrinha, Aarão de Lacerda e Damião de Peres.

O genial e corajoso Leonardo Coimbra nos anos vinte, já depois de ter sido ministro, contestado, da Instrução Pública, em 1919 e 1923.
No 26º contributo, para o livro Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus Contemporâneos, [Francisco José] Cardoso Júnior, nascido  a 14 de Junho de 1884, de família do Tabuaço, notável professor, jornalista e escritor (que chegou a director da Escola Normal do Porto  mas com o movimento militar do 28 de Maio foi logo demitido por ser um republicano democrata), em O meu Preito transmite e, por veras afinidades muito bem, a aspiração à Verdade que impulsionava e guiava Leonardo Coimbra,  e transcreveremos quando o caracteriza como professor e mestre, e abordagem à sua faceta mais contestada: a reforma da Universidade e do Ensino religioso, já que nos iluminam quanto à dimensão bem vasta e profunda da alma de Leonardo Coimbra, filho de um médico que morreu cedo, e que quis sempre continuar essa missão do pai no plano das almas, da filosofia, da ética, da espiritualidade:
O pai, o médico António Coimbra (1848-1901). Lux!
«Evoco sempre com estremecimento a memória de Leonardo Coimbra. Formosíssimo e luminoso espírito (com os defeitos e as virtudes peculiares de tantos homens eminentes), mereceu em  vida a minha admiração humilde, merece na imortalidade o meu preito sincero. Conheci-o nos belos tempos da propaganda da República, quando mal saíamos da adolescência; acompanhei-o na sua fulgurante actividade de tribuno e de professor; tive a honra de partilhar do seu convívio, sem embargo de estar distante de tantos dos seus discípulos na cátedra e no verdadeiro Jardim de Academo [em Atenas] que era a tertúlia em que ele professava naturalmente, ainda quando não tinha a pretensão de ensinar. Tal como Sócrates - e divergindo tantas vezes de Sócrates - Leonardo Coimbra comprazia-se em ensinar e discutir, nos encontros fortuitos da rua, nas deambulações com os alunos ou com os amigos, ora contrariando-os, ara animando-os, com perfeita bonomia lhaneza, como quem cumpre o mais simples e humano dos deveres.
Ensinar, transmitir a quem o esc
utava as doutrinas apreendidas rapidamente, mercê das suas prodigiosas faculdades de assimilação, o produto das suas elucubrações constantes, as dúvidas que agitavam o seu espírito cintilante e que o abrasavam tantas vezes - eram para ele uma necessidade imperativa. Aquilo que muitos julgariam versatilidade, inconstância, contradição em matéria, política e religiosa, ou filosófica - se é lícito separar alguma dessas modalidades da sua omnímoda actividade espiritual - era apenas o anseio vivo, tenaz, persistente e procurar, se não a verdade absoluta, aquela verdade que aos humanos é dado esperar atingir».
Depois desta excelente descrição da alma em
constante aspiração de realizar e partilhar a verdade, oiçamo-lo acerca das intervenções públicas mais criticadas: «Tão vasta e variada era a sua cultura, que tratava, sem preparação especial, os temas mais díspares com igual à vontade. Sim, pude ouvi-lo em reunião pública na crítica à reforma do ensino primário de Março de 1911, reforma que denominou uma obra de instinto, e na justificação da reforma da organização o ensino filosófico na Faculdade de Letras. E vem a propósito, para confirmar asserções anteriores, dizer que Aarão de Lacerda, então estudante de Coimbra, pertenceu ao número dos que o combateram, e foi depois escolhido para o corpo docente da Faculdade de Letras do Porto. A escolha desse corpo docente, feito em hora feliz por Leonardo Coimbra, testemunha a ausência de preocupações sectárias, de partidarismo político. E podemos acrescentar que a criação dessa Faculdade, donde saiu um verdadeiro escol, representa na vida de Leonardo Coimbra alto título de glória.
Quando um dia, que oxalá não tarde, essa Faculdade ressurgir, o seu espírito pairará nas suas aulas, e no átrio deve erguer-se o busto do egrégio fundador e patrono.
Quero, a
ntes de rematar as pobres palavras que dedico à memória do grande tribuno, recordar que foi a mim que Leonardo Coimbra recorreu para justificar a sua proposta de concessão de liberdade de ensino religioso nas escolas particulares. Partidário da escola neutra, consciente de que o lugar do ensino religioso pertence à família e às confissões respectivas, não hesitei em explicar publicamente o pensamento do ministro [Leonardo Coimbra], glosando a sua afirmação:"O livre pensamento é um método e não uma doutrina". Bem haja a memória de Mayer Garção  e de Louis Derouet, que acolheram as minhas palavras modestas, dando-lhes especial relevo na Manhã, não por mim, mas pelo prestígio do ministro, independentemente de ele ter ou não razão. O que teve foi coragem moral para arrostar com a oposição que a sua proposta, aliás inconstitucional, despertou.»

O 27º contributo, do escritor neo-realista, natural de Goa, e coronel Faure de Rosa (1912-1985), é certamente importante pois intitulando-o As experiências metapsíquicas  de Leonardo Coimbra, aborda-as baseando-se em dados transmitidos por Sant'anna Dionísio e nas quarenta páginas que Leonardo lhes  dedica na sua A Luta pela Imortalidade, transcrevendo este passo: «A primeira conquista da metapsicologia - escreve ele - é que os nossos conhecimentos não têm por única porta os sentidos normais. Vemos e ouvimos dentro de certos limites e normas. Essas normas são excedidas em certos indivíduos e condições, cujo determinismo está longe da nossa apreensão. É assim que se verificam casos de transmissão dum pensamento sem a sua expressão sensível. São por vezes, de ordem experimental, as mais das vezes são espontâneos.» E dá alguns exemplos, tal o o seu filho de quatro anos «uma noite estando ao meu lado deitado no meu braço e lendo eu um livro, ele pronunciou claramente a palavra "genie".» Surpreendido, verifiquei que tinha acabado de ler mentalmente a palavra genie». Leonardo narra mais casos de telepatia, por ele praticados, ou os que o jornalista Silva Passos e o romancista Sousa Costa lhe confessaram.
Faure de Rosa, praticante e teorizado
r do espiritismo, pensa que Leonardo não teve mais respostas dos espíritos que invocava com alguns médiuns seus alunos ou amigos, «um deles era amigo íntimo de Leonardo Coimbra e seu colega no professorado: o Dr. Ângelo Ribeiro [e já lhe dedicámos um texto no blogue], a quem Leonardo Coimbra apresenta como um temperamento dramatizante», porque Leonardo «não se acomodava com as indicações do Além; em vez de se deixar dirigir pelos conselhos dos desencarnados, era ele quem pretendia a direcção das indagações»,  e por essa teimosia pouco conseguira nas suas tentativas, embora numa delas comprovara-se mesmo, por misteriosa carta enviada por um médium a pedido dum espírito, para o professor Leonardo Coimbra, no Liceu Gil Vicente, os dados apresentados numa sessão espírita anterior. Leonardo, confrontado, com as dificuldades de explicação e criticando certos aspectos das sessões espíritas, mas sempre animado pela demanda da verdade, concluiria:«é sempre bom que a certeza não nos adormeça e, em pleno mistério, uma grande emoção nos erga dramáticos, assaltantes, pugnazes conquistadores da imortalidade.»

Jaime Cortesão, Augusto Casimiro e Leonardo Coimbra, nas vésperas de Augusto partir para a Flandres, na guerra contra a Alemanha imperialista, e onde corajosamente se cobriu de glória e condecorações...
O autor do 28º contributo, Para o In Memoriam de Leonardo Coimbra, Augusto Casimiro (1889-1967), natural de Amarante, foi um companheiro de Leonardo no movimento da Renascença Portuguesa, e da revista A Águia, e depois co-fundador da Seara Nova, cedo se destacando  pela sua sensibilidade e coragem, participando com Leonardo em comícios pela República e entrando nas batalhas na I grande Guerra, onde esteve com Jaime Cortesão (e foi amplamente condecorado), ambos vindo a descrever as suas vivências. Pelo seu democratismo republicano foi perseguido pelo regime de Salazar, demitido do Exército e desterrado de 1933 a 1936 para Cabo Verde, ironia do destino ele que tinha sido governador interino de Angola de 1923-1926. Mas nunca deixou de ser um opositor activo do regime salazarista e um prolífero escritor, até para sobreviver, deixando uma extensa obra histórica, literária, patriótica e memorialista. Neste contributo Augusto Casimiro descreve sumariamente a longa e fraterna amizade  de 1909 a 1926, e as múltiplas ocasiões em que colaboraram em comícios ou em revistas, narrando depois alguns episódios desses tempo agitados e emocionantes, "desse tempo de mais viva camaradagem". Começa-o assim: «Para mim, Leonardo foi, sobretudo, um grande orador. Dele evoco a lírica eloquência, a figura dominadora e bela no alor mais vivo dos seus discursos que ressoam ainda na minha memória com toda a sua música imperativa e viril. (...) Entre os seus amigos e admiradores fui talvez aquele em quem a amizade e a admiração mais frequentemente ousaram dizer-se na desassombrada confiança que discorda ou censura sem deixar de admirar e amar. O melhor prémio da minha ousadia vinha-me dele, sempre, com o silêncio confirmativo e cheio de consciência ou as palavras ricas de explicação fraterna que mais nos aproximavam, justificando-o.»

Dos dois episódios da genialidade da eloquência de Leonardo Coimbra, o último passado em 1916, quando Leonardo, Jaime Cortesão e ele propagandeavam a intervenção portuguesa na grande Guerra, numa Associação em Arroios, é quase comovente, pois depois de Augusto Casimiro ter falado e sido interpelado no fim, ainda que discretamente, por ter utilizado a palavra Deus, emocionado, sem saber ainda como responder, eis que Leonardo, tocou-lhe no braço e pediu-lhe para dar a resposta, irradiando o seu fogo espiritual numa intervenção genial, e na qual, ainda que alguns pudessem não o ter acompanhado, «nenhum deixou de aplaudi-lo com um arrebato que era um eco da sua ardente emoção.»

Anote-se que em 1916, na revista A Águia, Leonardo Coimbra escrevera umas linhas valiosas sobre A Primavera de Deus, o último livro então de Augusto Casimiro, onde a dado momento, após ter dito que «só é grande a palavra dita a sós, a conversa do homem com a própria alma», afirma:«O canto do Poeta começa no mais íntimo da própria alma, onde os amores, as aspirações, a fome de comunicar se concentram num ponto incandescente e indestrutível./ A alma do poeta é, então, um firmamento de eternos astros, um oceano de indissolúvel fundo./ Alguma coisa de certo e substancial se encontrou, e o Poeta vai subindo o canto, do Abismo à Altura. (...) O Poeta ergue o seu canto, o ar abriu-se à sua voz, o Espaço recebeu a forma do seu verbo; eis um acordo que o anima e sustenta», intuindo e exprimindo bem certas fases do processo criativo da Poesia...
                                                
O 28º contributo, de Francisco To
rrinha (1879-1955), natural de Joane, Famalicão, formado em Teologia, especialista de Latim, professor na Faculdade de Letras criada por Leonardo e ainda no liceu Rodrigues de Freitas até 1949, aí conheceu  Leonardo, que vinha com fama «de ateu, inimigo da sociedade constituída, um demolidor, a verdadeira pessoa do Anti-Cristo vindo ao mundo só para o mal» [no rodar da fortuna, o mesmo dizem hoje os milhazes  de Putin] (...) mas, depois, convivendo com ele, compreenderá que afinal «alma franca, generosa e leal, Leonardo Coimbra rejubilava com a alegria dos outros e enternecia-se com os sofrimentos e agruras alheias a tal ponto que se esquecia, por vezes, de si e dos seus para valer a amigos e até a desconhecidos não bafejados pela sorte. O seu ministro das Finanças - como ele dizia [e quem sabe se seria piada a Salazar], referindo-se à Esposa - o que o livrava de apuros, se a tempo conseguia arrecadar a receita dos seus honorários.[Pouco conhecidos estes aspectos domésticos, mas significativos].
«Perdulário do seu extraordinário talen
to, quer como professor quer como orador, o que lhe granjeou grande prestígio e renome, despendia naquele meio os frutos do seu saber, de mistura com críticas e apreciações, que lhe criaram inimizades e invejas e avolumaram o número de detractores que por todos os meios procuravam amesquinhar-lhe o mérito».
Concluirá confessando que durante
algum tempo, «por causa do espírito crítico e cáustico e da agressividade de temperamento que lhe eram atribuídas, não era sem constrangimento que eu fazia o interrogatório nos júris de exame a que ele assistia. Por fim tudo se dissipou e hoje só me resta uma saudade profunda desse grande Homem, que tão tragicamente desapareceu na pujança e fulgor do seu talento.»
                                                            
O 29º contributo é de
Aarão de Lacerda (1890-1947), escritor e professor, sobretudo de história de Arte, director da revista Dyonisios e nele, em duas breves páginas, transmite bastante do espiritual que era Leonardo, um mestre que passou fulgurante e até apedrejado entre nós. Conheceu-o no Porto dos comícios pela República, depois, «a par de Teixeira de Pascoaes e Jaime Cortesão, na sua magnífica cruzada da Renascença Portuguesa», vindo a ser em seguida chamado para ser professor no sonho efémero mas de tanta sabedoria e alegria esfuziante da Faculdade de Letras do Porto. Eis como Aarão de Lacerda começa as Duas Palavras de Saudade: «Na admiração ninguém excederá a que lhe devotei, desde há muito, do momento em que pela primeira vez o ouvi, e fui envolvido, levado pelo arrebatamento da sua palavra ardente, ungida de uma fé apostólica, como de alguém que espalhava um evangelho e procurava convencer, não pela violência, mas pela graça, o amor, os que acorriam a escutá-lo.
Nos estrados das
assembleias populares onde se pregava a República, em conferências, em discursos e orações tribunícias, Leonardo Coimbra apareceu sempre, não como orador vulgar das turbas, mas como um raro, um excepcional espírito que nunca se confunde, tal a maneira bela e levitante como falava, num estado de inspiração que sempre me deixava abismado, ante o milagre do verbo que ele próprio encarnava [um Christos, um ungido], num fenomenal desenvolvimento de ideias, avassalador e contagioso.
Cabeleira ao vento, laço à Lavallière, sempre v
estido de preto, no olhar um ígneo fulgor, tal foi o Leonardo que conheci em plenitude romântica, no rubro, generoso e puro instante histórico, no momento extraordinariamente belo da Propaganda.»
E terminará assim o seu belo contributo, convidando-nos a medita-lo, a acomp
anhá-lo: «A sua profunda confiança na continuidade da vida moral, permitia-lhe afirmar que o verdadeiro caminho de Deus é o da bondade.
Estou a ouvi-lo no seu sublime discurso sobre a Morte:
"- O que precisamos é saber destilar a podridão em beleza e frescura, como sabem as raízes transformar o pântano em jardim, alado e balsâmico aroma."
Assim vejo Leonardo, projectado já, muito alto, na luz astral, como ele decerto quer que o ergamos
[orando, visualizando]- "afastando a inconsciente e habitual imagem da morte, feita de horrores e acusações irreflectidas"»
                                                 
No 30º contributo, intitulado
A Ideia de Pátria na Obra de Leonardo Coimbra, o notável e fecundo historiador Damião Peres (1889-1976), que veio a ser também professor na Faculdade de Letras do Porto, partilha a ligação que Leonardo tinha desde criança com o Infinito como sua Pátria, e ainda a que ele com a Pátria Portuguesa expressou constante, intensa e genialmente, num grande o seu amor, dando disso exemplos. Oiçamo-lo:«Leonardo Coimbra, filósofo e pensador, foi também um poético espírito inebriado de Infinito - inebriamento que, ou em absoluta substantivação ou adjectivamente, iluminou, avassalador as páginas dos seus livros. Antes, porém, que o Eterno e o Ilimitado nelas surgissem sob raciocinada forma, já essas noções tinham nimbado, em mimoso devaneio, a juvenilidade de Leonardo Coimbra.»
Depois de transcrever as confis
sões de Leonardo sobre os seus primeiros contactos com o Mistério do Infinito, realça do livro a Luta pela Imortalidade "as conclusões optimistas sobre o mundo como sociedade de seres espirituais imperecíveis"; e em seguida que «o homem, consciência no Infinito, é cidadão na sua Pátria" ou ainda que "as fronteiras dum país não são os estagnados marcos convencionais, mas sim a linha onde morre a palavra maternal". Concluirá o seu preito com bastante subtileza anímica:
«Em hor
a de mais funda emoção patriótica essa espiritualidade ditava-lhe expressões de inusitada profundidade. Assim, ao encerrar o seu primoroso discurso de 1920, comemorativo do dia de Camões, Leonardo Coimbra, enternecidamente dominado pela imagem duma Pátria agradecida aos seus leais servidores - a Pátria portuguesa [e nós diríamos, o Génio ou Arcanjo de Portugal] - rematou, exclamando: "No Infinito, radiosa e feliz, a Pátria há-de sorrir!"»

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Conto espiritual: Dos eremitas solitários e dos seres unidos amorosamente.

  Escrito em Junho de 1998 e melhorado e finalizado em 1-II-2024.

Fora um eremita no mundo, embora pouca gente se desse conta pois  nada exteriormente o denunciava; mas  era-o interiormente na  forte valorização da religação espiritual e porque a vida social estava reduzida ao mínimo necessário e justo e pouco o afectava ou influenciava. O mais importante para si era mesmo o sentir interior, a liberdade de pensamento, as suas leituras e escritas, práticas e orações, meditações e contemplações, e o ajudar natural.
O
azul do céu não era só o atmosférico que apreciava pois também interiormente o recebia, com gratidão, nas suas meditações, e aprendera ainda a unir-se  com o verde das árvores e arbustos, o cinzento dos penedos de granito e o castanho da terra humilde e discreta que amava e com a qual se envolvia periodicamente em subidas e nascer do sol, peregrinações e comunhões nas faldas do Marão, da Estrela e do Gerês.

                                        

Cavara terras, ensinara almas, apontara caminhos, rasgara regos, semeara palavras e ideias e abrira sulcos para o céu. Mas as contas subitamente saíram-lhe ao contrário pois quando menos esperava um anjo sob a forma humana viera-lhe ao encontro e a sua vida solitária parecia estar terminada
Diga-se pois que o anjo era uma mulher, com todas as suas características femininas e pessoais e portanto não já era apenas inspiração ou subtil visão a agraciarem-no e a conviverem com ele mas um outro corpo, personalidade, alma e espírito.
Lentamente teve de aprender a deixar-se ser beijado, tal como as dunas pelo vento e a responder na mesma linguagem. E as partículas de areia que voavam e se depositavam na praia eram como as palavras doces que transmitia ou no seu peito se aninhavam e iam alterando a sua paisagem anímica, agora mais horizontal e humanizada.
Natural da província a viver em Lisboa não era, mas um sonho tinha ainda, o de regressar à terra, à pureza primordial na qual o humano encontra, e está mais sensível, os sinais divinos na harmonias da Natureza. Mas dizia-lhe ela que o trabalho a dois era o mais importante e que o cultivar a terra absorveria muito do tempo necessário para o que eles deveriam desenvolver...
Por vezes um espaço entre os dois abria-se ou criava-se, ora evaporado nos abraços de grande fusão e em que os êxtases do coração podiam surgir, ora algo alargado nos encontros com outras pessoas, que assim entravam de algum modo na relação espiritual, afectiva e unitiva, ora beneficiando do ambiente ora ondulando-o.
Era evidente que a fluidez dos sentidos e sentimentos se erguia forte sobre os escombros das antigas regras solitárias, dos ermos, dos conceitos, das orações. E quando tal comunicação amorosa irrompia mais, gerava-se o desvio das energias ascendentes em direcção ao corpo e alma femininos, o que provocava uma diminuição da consciência meditativa e adorativa ascética metódica e regular, como estava habituado quando vivia sozinho.
Era o tempo de leitura a diminuir, era uma estranha dualidade entre a liberdade e a unidade, entre o solitário e a companhia, com a necessária co-responsabilidade a vigorar mais.
Paulatinamente, ao estilo do final de uma audiência, algumas pessoas das mais amigas e amadas retiravam-se perante a associação nova e tão absorvente e o minguar comunicativo do amor, agora partilhado sobretudo na amiga e amada, o que gerava uma certa frustração, embora aceite como uma poda da distribuição da seiva no tronco da vide.
As forças naturais comunicativas das realizações e riquezas anímicas desenvolvidas ou ganhas eram assim limitadas, sacrificadas. Era como se o arquétipo da união das águas do amar e do mar, das costas e dos litorais, dos montes e dos vales, da terra e das estrelas do céu, se concentrasse só num homem e numa mulher, a sós, quando outros também deveriam entrar nessa obra alquímica mais directamente, embora certamente algo emanava deles para as outras pessoas, mesmo quando estavam dias e dias sem ver ninguém.
Despontavam, assim, algumas interrogações dos subtis sonhos que se erguiam e duma certa insatisfação interior que se formava. Provinha ela contudo de quem? De si mesmo ou da sua personalidade, ou realmente porque outra era sua natureza e missão, e logo afectividade?
Rasgar este interrogador dilema, afastar as nuvens que como um véu cobriam o sol tornava-se imperioso, e assim teria de discernir se estava unificado no que sentia e queria, ou se era apenas um campo de luta de múltiplos desejos e aspirações. compreender e assumir se o mais importante era o despertar e ser espiritual, ou o amar, o estar e relacionar-se amorosamente. Era um ponto quente, ainda não bem assente, controverso: egoísmo e eremitismo ou dádiva e partilha, uma unidade a dois?
Todavia, assim como as páginas do livro ou do breviário se podem tornar cansativas ou repetitivas, assim a relação adquiria alguns desses aspectos criadores de insuspeitadas frustações ou limitações: a obrigação de amar, a culpabilização de não amar tanto, uma aspiração universal geral mais do que particularizada do amor.
Diz-se que a paz só chega após o sofrimento. Ou que os olhos só se cerram quando verdadeiramente cansados. Ou que é preciso morrer para renascer. Caía a noite e cada um regressava a si mesmo após as escritas, meditações e uniões realizadas mais ou menos plenamente.
Sobre a alma passavam as questões e tensões e o futuro era como um mistério fechado ou dificílimo de se abrir ou ver claramente. Só podia orar para ser inspirado, fechar os olhos e entrar no mundo subtil, movimentado e enigmático dos sonhos, onde entramos todas as noites sem nunca sabermos até onde iremos e que indicações ou intuições acolheremos.
Foi então que acordou e viu que tudo fora um sonho, e ali estava ele sozinho na sua mansarda lisboeta, com as andorinhas a chilrearem e a pedirem-lhe que lhes assobiasse, que com elas comunicasse com simpatia ou alegria. Calmamente, alinhou o corpo e alma, fez umas breves orações e, após ter-se espreguiçado, levantou-se do seu leito, e orou na posição do pentagrama e invocando as bênçãos do Alto e do íntimo: «Irradiarei mais o fogo do Amor, olharei o futuro com optimismo, unir-me-ei com o espírito ígneo que é a minha essência, que eu sou,  comungarei com os seres no Dharma ou Dever-Ordem que nos compete pelo Bem da Humanidade e a religação maior à Divindade.» E após meditar-orar, avançou pela aurora e novo dia a dentro...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus Contemporâneos: Santos Graça, Paulo de Castro (Francisco de Barros Capachuz), Álvaro Ribeiro, Eduardo Dias Ribeiro Padrão e Manuel Couto Viana.

Nos Testemunhos dos seus Contemporâneos, acerca de Leonardo Coimbra, após o  contributo de Eudoro de Sousa, encontramos o 21º, de António dos Santos Graça (1882-1956), um notável etnógrafo e jornalista poveiro, intitulado Leonardo Coimbra, professor do Liceu da Póvoa do Varzim, narrando essa fase da sua vida, de 1912 a 1913, com  pormenores emocionantes, patenteando a força anímica luminosa do grande orador e pedagogo. Ao ser nomeado para professor do liceu, gerou receios dos mais conservadores, entre os quais o médico Caetano de Oliveira, que pedira até a Santos Graça que tentasse evitar a entrada desse perigoso "anarquista e destruidor de crenças" no meio pacato ou conservador da Póvoa. Nada de mais ilusória tal fama, e a breve trecho Leonardo tornara-se querido de toda a gens poveira, sobretudo após um discurso no Teatro Garrett, com fins de beneficência, em que «a cada momento a plateia levantava-se num aplauso entusiástico, jamais visto na terra.»
Dirá
ainda este notável etnógrafo dos barcos (e simbolismo) e  pescadores da Póvoa do Varzim: «Como professor, teve sempre a estima e a mais alta consideração pelos alunos. A Bondade era uma das pautas do seu carácter e onde se mostrava realmente uma pessoa  superior. O cuidado pelos humildes e desvalidos enchia-lhe a alma. (...) Era, sem dúvida, um amigo dedicado ao seu amigo. Alma aberta e leal, que ao abandonar a nossa terra deixou em todos nós, em cada poveiro, um amigo que muito lhe queria.
Não admira, pois, que a sua morte dramáti
ca e brutal caísse nessa terra poveira como um raio que fulminou os nossos corações, já cheios de saudade pelo Mestre querido da nossa juventude.»

O 22º contributo, enviado de S. Paulo, Brasil, em Junho de 1948, do jornalista Paulo de Castro, pseudónimo de Francisco de Barros Capachuz (1911-1993), notável democrata e lutador anti-fascista em Portugal e no estrangeiro, preso e deportado por mais de uma vez, e exilado no Brasil desde 1946,  sob o título de Evocação, consegue fazer sentir a genialidade   desafiante, desconcertante e trágica de Leonardo. Todo o artigo é valioso, e é com dificuldade que seleccionamos: «(...) Ia caminhando até à avenida dos Aliados, depois até um café onde ficava na companhia de seus alunos e alguns operários, vindos para o interrogar, contrariar ou agradecer um pouco da espiritualidade que se desprendia do seu diálogo ágil e encantador.
Leonardo Coimbra foi um desses homens a quem vulgarmente se chama de temperamento trágico. Ele imprimia a tudo o que o rodeava um sentido de transcendente inquietação, de nervosismo visceral, de pânico metafísico. Foi como Antero, um homem de tipo faustico, mas enquanto o primeiro conseguiu atingir uma serenidade aparente ou real e certa inteligibilidade convivente e especulativa, Leonardo Coimbra foi durante toda a vida um homem desconcertante e perturbador, um caso específico de inclassificação do ponto de vista humano e até filosófico (Nota: Numa página admirável da Luta pela Imortalidade, ele responde indirectamente aos que o acusavam de bergsonista).
O mais competente dos seus biógrafos, Sant'Anna Dionísio, descreve-o como homem alternadamente idílico e agitado, por certos ângulos amorável, por outros, satânico, em certos momentos tocado de angústia religiosa, em outros impelido por desalinhos arbitrários, ora místico, ora naturalista - e possuindo apenas esta característica constante: a curiosidade de saber.
Uma outra constante de seu espírito que importa pôr em relevo, se o quisermos considerar na sua totalidade, é o amor entranhado, diríamos quase totémico, ao círculo da sua afectividade, compreendendo a família, os amigos e os discípulos. (...)
Leonardo Coimbra não era um homem de adesão definitiva a nada, exceptuando o seu mundo afectivo. O discurso que pronunciou no teatro S. Carlos em que fora previamente entendido que seria de adesão, quase finalizou em escândalo, pois, ao atacar o bolchevismo, como sistema totalitário, ele atacou igualmente o nazismo e o fascismo e todas as formas e pretextos de esmagamento da pessoa humana. Terminou citando uma profecia de Gogol tão surpreendentemente herética para um auditório tão ortodoxo, que o público emudeceu de espanto.
Assim foi Leonardo Coimbra até ao fim, um semeador de perplexidades, um catalizador de cultura, um homem seduzido pela multiplicidade dos caminhos mais propícios à problemática do que à conclusão.
Longe de nós esboçá-lo como um cidadão exemplar à maneira de Antero ou de Raul Proença (...) Em Leonardo Coimbra há também humildade, quando longe de tudo o que lhe inspirava intuito de combate tinha momentos de elevada compreensão, de afectividade, de lirismo e de veemente exortação às melhores virtualidades humanas.»
 O testemunho de Paulo de Castro, que vale ainda por ser o de um anti-fascista que admirava muito Leonardo, concluiu assim: «Mesmo quando a nossa interpretação seja diferente da sua, há uma essência que nos transmitiu, e que conservaremos como mensagem de um dos espíritos mais complexos, brilhantes e inquietos que nos foram dado a conhecer». S. Paulo. Junho de 1948.
                                         
Já o 23º contributo é u
m  profundo estudo acerca de Leonardo Coimbra e a política do seu tempo, já que a autoria é de um dos seus principais discípulos, Álvaro Ribeiro (1905-1981) e que, embora portuense, por Lisboa impulsionaria a chamada Escola da Filosofia Portuguesa, congraçando à sua volta a segunda geração de admiradores e estudiosos de Leonardo e que muito escreveriam posteriormente. Traça a evolução social e psico-filosófica, desde os tempos em que o estudante Leonardo Coimbra aparecia nos comícios a fazer discursos incompreensíveis, de corpo varonil, gravata à Lavalliere, «um revolucionário do grupo mais temível, proferindo tolstoianas palavras de esperança e amor», e narra como, já bastante depois da proclamação da República, em que passara de anarca ("os avançados") a republicano, alguém o acusara, num comício eleitoral em que ele criticara os extremismos, de já ter sido anarquista,  Leonardo replicara magnificamente: « - Sim, senhor. Também mamei, também gatinhei, mas, palavra de honra, não fiquei toda a vida a andar a quatro patas. E agora que tenho os braços livres para os erguer em prece, dou graças a Deus por me ter feito à sua imagem e semelhança».
Perante a crise ideológica da I República, com os políticos incapazes em aplicar os princípios e programas, Leonardo expõe e desenvolve «uma doutrina democratista, um pensamento político original e autónomo, que inteiramente se distingue do republicanismo dos seus contemporâneos e compartidários. Raras vezes se prestou a devida justiça à iniciativa isolada deste doutrinador».
Comentando a passagem "rápida e fulgurante" de Leonardo como ministro da Instrução Publica em 1919 e 1923, e a sua luta contra todas as forças da oposição, o que gerou a Questão Universitária e «que proferisse na Câmara de Deputados a sua obra prima de eloquência parlamentar» considera, e é sempre uma lição para nós este "morrer para renascer", que «Leonardo Coimbra perdeu a questão universitária. Nem a Faculdade de Letras foi transferida de Coimbra para o Porto, nem foi dada execução à reforma de estudos filosóficos. A cidade do Porto, berço do Infante D. Henrique, obteve, porém, um benefício para a sua Universidade: a existência de uma Faculdade de Letras, de que Leonardo Coimbra foi mestre, ou melhor, grão mestre. Leonardo Coimbra teve de passar pelo ministério para chegar ao magistério, e para reconhecer que a escala de valores consentida pelos políticos seus contemporâneos estava na razão inversa da ordem tradicional.»
Aluno directo de Leonardo, Álvaro Ribeiro saberá descrever bem a originalidade do funcionamento da Faculdade de Letras e o magistério do mestre estimulador de almas, e embora não mencionando aspectos valiosos da sua doutrinação juvenil anarquista, fraternalista, republicana, espiritualista, transmitidos em tantos artigos na Nova Silva e na A Águia, sem dúvida resumiu bem no último parágrafo da sua comunicação a evolução leonardina:
«A experiência política de Leonardo, que foi do pessimismo anarquista ao misticismo cristão, mediante um democratismo original e singular, não seguiu uma carreira rectilínea, desenhada pela vontade estóica na cidade cosmopolita e geométrica; mais se assemelha a uma curva descrita pela ansiosa procura da equação entre o amor humano e o amor divino. Na ordem da eticidade, todos os actos políticos de Leonardo Coimbra exprimem a mais elevada intenção do filósofo, sem quebra de coerência, sem mancha de oportunismos, embora numa linha de públicos insucessos e de privados desgostos.»
                                          
        Leonardo Coimbra, por Eduardo Malta. Pintura que era de Sant'Anna Dionísio.
Do 24º contribut
o, Duas palavras simples, memórias dum seu aluno num trimestre no liceu da Póvoa de Varzim, no ano de 1913, o  professor primário poveiro Eduardo Dias Ribeiro Padrão, e que desencarnou em 1956, destacaremos a bem realista fotografia de Leonardo em acção:  «Era Leonardo Coimbra uma figura simpática e risonha. Todos nós gostávamos dele e das lições que nos dava.
Sempre que ele realizava conferências, a sua eloquência arrebatava o público que acorria para o ouvir. As mulheres, sobretudo, comoviam-se com a sua palavra ardente, sempre tocada da mais pura poesia. Era para elas um ídolo.
Tive uma irmã (com que saudades a evoco!) que algumas vezes o ouviu; e entusiasmava-se, - mais do que por isso, transfigurava-se - quando se referia a este Homem extraordinário que possuía o dom da palavra, sempre eloquente, substancial e burilada no melhor ouro da língua portuguesa. (...) Ficou-me sempre gravada no espírito a sua figura inconfundível, em cujo todo se adivinhavam as crepitações do génio. (...) Morreu como um justo. Aproximando-se de Deus, na hora imprevisível do seu trágico fim, mais se engrandeceu aos nossos olhos. Até nisso foi grande e dramática a sua existência».
Leonardo Coimbra pouco antes de partir para os mundos espirituais, precocemente e por isso deixando alguma perturbação e saudade nos seus amigos mais próximos.

O testemunho 25º é do Manuel Couto Viana, e intitula-se Já lá vão quarenta anos, e narra o impacto e influência exercidos por Leonardo Coimbra num grupo de estudantes e amigos, que se reuniam no café Central, na praça D. Pedro IV, no Porto,   pois ele  «aparecia frequentemente lá, discutindo e persuadindo com o seu verbo fácil e profundo, atraindo pela simpatia pessoal que de si irradiava e pela bondade com que acolhia todos os que dele se aproximavam (...) Trazíamos debaixo do braço, a alardear cultura, A Força e a Matéria, de Büchner, e A Origem das Espécies [de Darwin], mas não tínhamos coragem nem pachorra para demorar os olhos no recheio dessa e doutras brochuras, compradas no Lelo, onde amiudadamente entravamos a vasculhar os escaparates. Líamos sim, avidamente Hugo, Zola, Tolstoi, Gorki e creio que já nessa altura Dostoievski, cujos dramas sociais, por eles tratados nos seus romances, nos emocionavam até às lágrimas e geravam em nós a maior revolta contra a sociedade burguesa.» Narra ainda o grupo Os Amigos do A.B.C, que «tratava de iniciar operários no conhecimento das primeiras letras e de lhes formar o cérebro na doutrina anarquista - então familiarmente designada, entre nós, pela palavra "Ideia"», quem sabe com que forças ligadas ao ideário e poética de Antero de Quental. Mas explicará:«Não éramos contudo, apologistas da acção directa, porque o não era também Leonardo Coimbra. Nunca ouvimos da sua boca uma palavra de incitamento à violência ou uma expressão de ódio. Nas conferências em que combatia o Positivismo, contra o qual vigorosamente se insurgia, nunca ouvi Leonardo Coimbra descer à injúria ou ao ataque pessoal. Tudo tratava no campo elevado das ideias, apesar da sua obsessão, que era, por essa altura, a de arrazar o credo positivista (...)
O certo é que no Porto univer
sitário dessa época, de febris preocupações políticas, avultava a sua figura, a despeito dos que o detestavam ou malsinavam - sem se atreverem a enfrentá-lo ou a medir com ele forças no plano da cultura. Leonardo Coimbra era efectivamente já alguém por essa altura de 1908», ou seja, no fulgor dos seus 25 anos. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus contemporâneos: Mário Beirão, João de Barros, Alberto de Serpa, Alves Correia, A. Correia de Oliveira, Sousa Costa, Umberto Araújo e Eudoro de Sousa.

                                                              

 Avançando na revisitação da obra Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus contemporâneos,  apresentamos mais alguns dos depoimentos dos quarenta companheiros, amigos e alunos de Leonardo Coimbra, transcrevendo deles informações, ideias e frases estimulantes e luminosas:
                                        
Comecemos pelo 13º participante, o p
oeta saudosista Mário Beirão (1890-1965), autor dum soneto Solilóquio de Leonardo Coimbra, num lamento de noite obscura ou de exílio, bastante sentido ou cultivado na época, nomeadamente em Augusto de Santa-Rita  na sua vibrante Justificação da revista Exílio, de 1916, e onde Fernando Pessoa contribui também forte e esotericamente, terminando-o assim: «Mas, à flor dos meus ais, fulgindo, esvoaça/ Éterea voz... sonhas (eu sei!) comigo,/ Fonte piedosa, múrmura, da Graça!-» Anote-se que Leonardo Coimbra escrevera a crítica de dois dos seus livros: O Último Lusíada e, em 1923 na revista Águia, Pastorais, neste desenvolvendo uma valiosa teorização sobre o movimento da alma para o outro mundo e que nasceria «da inquietação do vazio, duma carência», a que se sucede o sentimento duma presença partir da qual se gera a «percepção espiritual, dando visões, que se garantem pelas profecias ou poderes de alegria e saúde com que se acompanham», visão que lhe «parece ser um privilégio da santidade ou beleza moral». Eis um valioso contributo de Leonardo Coimbra para a arte e ciência da Meditação...

O 14º contributo é de João de Barros (1881-1960), notável poeta, político republicano e pedagogo. Intitulado Leonardo Coimbra, depois de confessar que ouvira Leonardo pela 1ª vez em 1911 no Teatro Sá da Bandeira, do Porto, descreve a sua arte da oratória, ao estilo de Jean Jaurés, que era «um construtor da própria eloquência, erguida a pouco e pouco, à medida que ele falava, até aos mais elevados cimos da oratória, palavra a palavra, momento a momento.
Leonardo Coimbra dava-me de facto, a mesma impressão: - os conceitos iam-se edificando, sobrepondo, subindo pedra a pedra, atingindo por fim vertiginosa altitude de emoção e de pensamento. Espectáculo admirável! Não duvidei da justiça dos elogios que o meu inesquecível Cristiano de Carvalho [1874-1940, notável desenhador e  animador cultural e político] prodigamente lhe dispensava.
Passado tempo, publicava Leonardo Coimbra esse livro único em toda a literatura portuguesa moderna: A Alegria, a Dor e a Graça, poema lírico dum artista excepcional que sabia transformar em poesia as mais nobres e profundas ideias.
O deslumbramento - confesso-o sem exagero de nenhuma espécie - continuava. Não sou crítico, e ignoro tudo ou quase tudo da filosofia. Não me atrevo, pois, a discutir as criações e doutrinas filosóficas de Leonardo Coimbra. O que me atrevo, porém, é a afirmar que muitas das páginas d'A Alegria, a Dor e a Graça são páginas de antologia, que entre bastantes outras não deixarão esquecer o nome e o génio do seu autor. Possuem uma densidade e uma capacidade capacidade de irradiação, que nos cativam e iluminam a alma. Igualá-las em seu valor e em sua beleza - não é fácil. Excedê-las - é impossível.»
Após esta recomendação à leitura de tão espiritual obra (e que já abordamos parcialmente neste blogue), João de Barros concluirá o seu belo testemunho, pois convivera com ele familiarmente vários anos, desenhando um quadro impoluto de Leonardo, que terminava assim: «Era na mais pura e digna acepção do termo, um grande homem, um homem de forte, ampla e delicada estrutura de espírito (...)», ou talvez dizer melhor, um homem de grande sensibilidade, com uma alma, corpos subtis e capacidades psíquicas poderosos, abertos ao infinito, ao Divino e ao próximo...

O 15º participante o poeta e presencista Alberto de Serpa (1916-1992), partilha um fulgurante poema de hermenêutica religiosa de Leonardo, em duas quadras, À Alma de Leonardo Coimbra, Agradecendo a fé que em mim renovou, a primeira interrogando as vias e disputas em que Leonardo se envolveu, a segunda e última: «Mas quando a morte, de asa aberta/ Tua fronte roçou e a venceu, A tua vida estava certa:/ O horizonte era só o céu.», pois a sua alma  na graça da infinita Divindade e mesmo do Cristo, confiava, aspirava e tendia ao mais alto. O poema veio a ser publicado em 1952 no seu livro Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, em que homenageia os seus melhores amigos, desde Leonardo Coimbra a José Régio, Ribeiro Couto, Carlos Queiroz, Frederico Schmidt, António Botto, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, etc.  

Na 16ª contribuição,  À Memória de Leonardo Coimbra, o padre, franciscano e democrata Alves Correia (1886-1951)  analisa e transcreve o percurso filosófico de Leonardo Coimbra à luz  de comparações com grandes filósofos, entre os quais Antero de Quental, e partilha um ramalhete de pensamentos e histórias da sua convivência com Leonardo, nomeadamente o amor a S. Francisco de Assis que os unia, valorizando e citando do seu livro S. Francisco de Assis, Visão Franciscana da Vida:«S. Francisco de Assis é o homem espontaneamente cristão, o homem que reencontra a natureza paradísiaca, aquele que é o tipo  divino, que é a ideia do acto do pensamento criador.», ou seja, um arquétipo dinâmico, fonte inspiradora nossa.
E nas comparações dos dois "filósofos monadologistas e dinamistas": «Antero de Quental foi mais hegeliano do que Leonardo Coimbra e Leonardo Coimbra mais platónico do que Antero.
O espírito atribulado do Antero, se conseguiu sair do inferno do desespero, em que se contorceu, desde 1874 a 1880, não pode libertar-se do limbo da unidade ou confusão panteísta.
[Em Antero] O ideal supremo da perfeição moral, o santo, compreensor e ao mesmo tempo intérprete do Universo, ficava imanente ao espírito humano, dominado mas absorvido, dignificado mas anulado. 
Mais auto-consciente do seu eu espiritual, da sua centelha divina, diremos nós, Leonardo Coimb
ra «firmava-se num individualismo irredutível», e dizia:«chamem-me, se quiserem mónada; não me resigno, porém, depois tantas filosofias, a ficar só com as últimas sílabas - na-da. O que me apaixona na questão religiosa não é a separação da Igreja e do Estado, mas sim a separação nítida de Deus e do mundo», poderosas afirmações tanto da personalidade espiritual imortal humana, como da transcendência Divina...
                                         
O 17º contribut
o é de António Correia de Oliveira (1878-1960), o poeta nacionalista católico de Belinho, um soneto intitulado Leonardo Coimbra, onde traça bem a sua ascensão de "Artesiano verbo", "ainda Palavra e não Padre-Nosso", ao homem da acção amorosa e poderosa e, por fim, sua entrada no "Credo", pois «Leonardo, «Construtor de ideias,/tinha em seu coração, - além da veias/ do sangue, - os veios do Sinal-da-Cruz

                                                                       
O 18º contributo, de [Alberto de] So
usa Costa (1879-1961), Leonardo Coimbra, Orador, é um vívido testemunho, pois mostra a amplidão tremenda de Leonardo, que não se compadecia com visões de aspectos ou planos separados, e o seu percurso interior espelhado nos livros, narrando um episódio no Porto, no qual,  a convite de Leonardo, então Presidente da Associação  dos Jornalistas e Homens de Letras, discursou sobre a Montanha, o Marão e  Trás os Montes, com uma intervenção final de Leonardo a emocionar toda a gente e a gerar  um abraço estreito entre ambos, com os olhos emudecidos.

                                
                           Leonardo e Pascoaes, por volta de 1914. Amizades perenes...
O 19º contributo,
de Umberto Araújo, de quem pouco sabemos, além de ter prefaciado em 1924 uma obra, na conimbricense Atlântida Editora, acerca do "bandoleiro" João Brandão, e em 1925 ter dado à luz Incoerências, dos mais vibrantes e simultaneamente mais completos sobre a sua vida e alma, percurso e morte. Oiçamos o princípio tão subtilmente clarividente:
«Felizes os que sentiram o bater próximo de asa
s de tão grande espírito, o frémito da sua inspiração; a força galvânica da sua eloquência caudalosa e borbulhante, arrastando as multidões, ao despenhar-se como uma catarata de Niágara, solene, arrebatadora, vertígica, sacudida por vibrações incoercíveis.

Era nesses momentos que pairava a grande altura o seu verbo prodigioso de cristão, a sua alma eleita de filósofo e de visionário, numa rajada nervosa que parecia o relâmpago fantástico de uma tempestade criadora.»
Depois traça a passagem de Leonardo pelo mundo do poder público, numa caracterização ainda hoje tão idêntica, dir-se-á, e como ele «não pode compreender os bas-fonds medonhos onde pululavam todos os vibriões da vida pública. E a desilusão foi tremenda e amargurante. Enganara-se. Um pensador de raça nunca se adaptaria às coisas mesquinhas e vulgares da democracia partidária. Existia uma antítese orgânica e fatal entre o primado da inteligência e a hipocrisia prosaica e vergonhosa do servilismo das coteries [grupinhos ou cliques]». Talvez discordemos no final, da visão que tem de Leonardo no fim de tudo, mas sendo instrutiva e psicologicamente bem vista, ei-la: «Leonardo Coimbra caiu. Foi o último herói forense imolado ao Moloch estranho das tramas parlamentares e apesar da sua envergadura de gladiador antigo, do seu panache vitorioso de moço resoluto e decidido, ficou na história calamitosa dos acontecimentos como um homem fracassado. Não por incompetência, mas somente por incapacidade manifesta de conformismo. Como tantos outros precursores da liberdade, deixou apenas atrás de si o exemplo simbólico e doloroso de um homem que lutou - mas foi vencido.»
Ou será que a sua v
ida e obra imortalizaram-no, e que as derrotas dos seus projectos educativos eram inevitáveis no dialéctica circunstancial e que o mais importante era a sua evolução interior, a sua realização espiritual e divina, que lhe permitiram ao morrer ir como espírito bem desperto e luminoso para os planos ou dimensões luminosos e elevados do mundo psico-espiritual, tendo portanto vencido as diversas provações, tanto mais que a sua obra pode hoje ler ser lida, meditada, dialogada?

                                                                 
O 20º contributo, um dos que mereceria ser transcrito in toto, de Eudoro de Sousa (1911-1987), um notável filólogo, helenista e mitósofo, no Brasil desde 1953 e fundador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Brasília em 1962, intitula-se O Pensamento eloquente e romântico de Leonardo Coimbra, e é bem fundamentado e esclarecedor do ser e pensamento de Leonardo, contextualizando-o na história da Filosofia em Portugal, nomeadamente na sua luta contra o positivismo de Augusto Comte e de Teófilo Braga, dominante no Curso Superior de Letras de Lisboa, valorizando a biografia de Leonardo por Álvaro Ribeiro, e demonstrando que, ao contrário do que se dizia, o bergsonismo de Leonardo derivava da mesma oposição ao positivismo "circunstante e dominante"  e que antecedera até Henri Bergson (1859-1941) em certos aspectos das afinidades conceptuais e religiosas que tinham, ou que com originalidade formularam, tal a função mediadora da filosofia entre a ciência e a religião (e ambos se converteriam no fim da vida, embora Leonardo sempre fosse um cristão), suplantando-o mesmo quanto à intuição, "complementar da razão e do intelecto". Também realça o romantismo e idealismo do movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia, em oposição a futuras  revistas mais caracterizadas por «receituários de técnica económica e pedagógica», e mostra a grande comunhão e complementaridade de Leonardo com Teixeira de Pascoaes na valorização do Povo, da Mulher, do Feminino, elogiando, como muitos outros e até por outras perspectivas, a obra prima filosófico-poética de Leonardo: «é ainda na Alegria, a Dor e a Graça, que se nos deparam as mais generosas páginas acerca da infância que jamais foram escritas em língua portuguesa» (...); valorizando muito  nela e em Leonardo  a união do pensamento ou especulação, com a a expressão, estilo e no fundo «a imaginação que encarna e vivifica a especulação». Ora tal união,  em Leonardo, manifestava-se também na palavra eloquente, no orador, no tribuno, no professor,  com uma tal força e qualidade que grande era «a largueza e fundura do sulco de admiração que dele nos ficou», admiração que «é a maior abertura, ou o maior tropismo, da alma à luz irradiante do exemplo».
E apoiando a acus
ação de que Leonardo fora um orador romântico, esclarecê-la-á  e concluirá: «Não há dúvida: foi um orador «romântico». .Só esta preocupação do Mistério longínquo, que na universal diversidade do Cosmos se refracta, deixando cintilas de luz aderentes aos símbolos do Povo, da Criança e da Mulher, só esta incessante preocupação do Mistério - o do Eterno Feminino, o da Infância Edénica, o do Povo - mar infinito das possibilidades sociais -, só este traço tão vincado e tão característico da fisionomia espiritual de Leonardo Coimbra, bastaria, de per si, para justificar e verificar a apelidação de orador «romântico».
Quan
to à acentuação minoritária e depreciativa da opinião comum, deixemo-la ficar inerte nas «almas não verídicas» nos «esboços de almas, nos cárceres utópicos dos únicos verdadeiros ateus: deixemo-la morrer sufocada na aridez da indiferença dos que em vida nunca admiraram, e portanto, nunca puderam amar.»

Imagem extraída da página no facebook "Eudoro de Sousa", que foi  colega e amigo de Agostinho da Silva  e profundo estudioso e conhecedor da riqueza dos mitos gregos como iniciação à complementaridade dos opostos e do imanente e transcendente.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

"Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus contemporâneos", (2º): Eugénio Aresta, Marques Ferreira, António de Sousa, Alfredo Brochado e Américo Durão.





Continuando a apresentar os quarenta companheiros, amigos e alunos de Leonardo Coimbra (1883-1936) que participaram no seu In Memoriam publicado em 1950, com os seus nomes e os títulos das comunicações, e transcrevendo excertos estimulantes e removedores, entremos no:
                                       
8º contributo, de Eugénio Aresta (1891-1956), participante na 1ª grande Guerra, aluno de Leonardo na Faculdade de Letras do Porto, e depois professor de filosofia,
 intitulado Leonardo Coimbra, o Homem e a obra, do qual selecionamos: «Aceitando a classificação simplista, dividindo os filósofos em musicais e arquitectónicos, ou a de Bertrand Russel, separando-os em místicos e lógicos, Leonardo Coimbra baralha as categorias e fica indefinido, misturando o místico e o lógico, o poeta e o geometrizante. Aqui e ali fuzila um lampejo de ironia ou aviva-se um traço de caricatura.
É este homem omnímodo e vário, é esta obra densa e irregular que se trata agora, e vai sendo tempo, de julgar com serenidade.
Creio que é poss
ível mostrar o que o homem teve de elevado e uniforme, para além da pluralidade das atitudes conviventes. E o que há na obra de reflexão profunda e séria, empurrando o leitor para novas direcções na marcha do pensamento. Removedor de ideias, catalisador de cultura, se Leonardo Coimbra usou a ironia, também na sua obra há maiêutica que chega e sobra para explicar a acção que ele exerceu sobre os seus discípulos e o comovido respeito que a sua memória lhes inspira.»

Valiosa também é a  síntese que Eugénio Aresta faz em Leonardo da compreensão do conhecimento do Universo não limitado pela razão teórica de Kant, antes vendo as infinitas possibilidades criadoras dos seres, num esforço de consciencialização que vai das plantas e animais até chegar à Inteligência humana mas recusando-se a separar Intuição-Inteligência, pois Leonardo «procura fundir os dois conceitos antitéticos num só conceito mais compreensivo de Razão Experimental, [título duma obra sua  e um dos seus conceitos chaves], ora intuitiva ora raciocinante, pressentindo por simpatia o latejar das pulsações do Universo [o que ele como ser de grande sensibilidade e poesia muito partilhou nos livros e discursos] e desenvolvendo os pressentimentos intuitivos pela lógica da inteligência.» 

O 9º contributo é de [Manuel] Marques Teixeira [Oliveira],  professor de Física e que escreverá em 1961 uma obra Leonardo Coimbra e a Escola Única. Intitulado O Pensamento Criacionista e o Pensamento científico, nele Marques Teixeira pesquisa e tenta justificar uma presciência de Leonardo Coimbra, em relação às teorias da física moderna, na sua valorização do Criacionismo, do pensamento e das ideias que, como José Marinho notou (e cuja obra O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra Marques Teixeira muito elogia), se encontra situado entre a indeterminação e a liberdade, intuindo as ondas de probabilidade geradas pelo comportamento em ondas ou partículas das subpartículas atómicas comprovadas pela física quântica, e afirmando pioneiramente o conceito de "cousismo" e "cousar", que Bachelard (1884-1962) utilizará, desvalorizando as coisificações  e prevendo já em 1912 na sua tese do Criacionismo, pelos avanços que a física moderna fazia, ser «a ciência uma dialéctica de noções, cuja base é o pensamento tendendo para a mais completa racionalização e íntima unidade e acordo.»
                                             
No 10º contributo,
  intitulado A Última vez que vi Leonardo Coimbra, Alfredo Brochado (1897-1949), o tão sensível como discreto poeta, natural de Amarante e vizinho de Pascoaes e de Leonardo, colaborador na revista Águia, e em muitas outras, dá-nos em duas páginas uma sensível quase clarividente visão do dinamismo removedor do magistério de Leonardo Coimbra, «uma grande luz que se acendeu na terra portuguesa», e que «tinha o singular poder de agitar ideias. A seu lado sentia-se o rumor da inteligência, a maré viva, vindo não se sabe donde, como um Oceano sem fim.
A água do lago estava calma e tranquila e a sua presença agitava-a de singulares ondulações. Por isso, quem algum dia o conheceu, teve sempre necessidade do seu convívio e da sua presença. Era o contrário de um ser parado e concordante. O poder de especulação filosófica que animava o seu espírito, traduzia-se na conversa, em contínuos ensinamentos, em discussões, das quais na verdade nascia a luz. Todos aprendemos muito com ele. As suas aulas não terminavam. Saía da cátedra e continuava a ensinar. Mais do que qualquer outra missão, coube-lhe a mais bela de todas: ensinar aqueles que tanto desejavam alargar o horizonte do seu conhecimento e encontrar resposta consoladora para as perturbantes interrogações do seu espírito. Fazia-o por uma inclinação natural do seu espírito, pelo prazer que tinha da comunicabilidade, da vida social, de viver, repartindo pelos outros a sua alma.» Que extraordinária descrição de um bom professor...

O 11º contributo, de António de Sousa (1898-1981), portuense, notável poeta, animador de Coimbra e seus fados, da vida associativa e das revistas literárias, e buscando a harmonia dos contrários, é um  profundo poema O Mistério do Homem. Á memória de Leonardo Coimbra, onde intui a pré-existência do ser e destino de Leonardo Coimbra, quando o Universo  se estava ainda a gerar e, concluindo, quando «Ainda não havia igrejas/ milagres, filosofias,/ Deus verdadeiro ainda não chorara,/ já ele sabia Deus/ porque amava.», realçando assim a forte irradiação do coração espiritual de Leonardo Coimbra, bem poderoso, quase inextinguível.
                                               
O 12º contributo, do poeta Am
érico Durão (1896-1969), colega na Universidade de Lisboa de Mário Beirão e de Florbela Espanca, a qual muito o apreciou, e que teve mesmo o privilégio de um dos seus livros, Tântalo, de 1914, ter sido prefaciado por Leonardo Coimbra, com ideias e imagens bem valiosas e elogiosas («No fluxo-refluxo da esperança, é, meu querido amigo, o seu livro um ser vivo, o seu coração anima-o, ouvimos bater a cadência do seu ritmo cardíaco»), é uma breve mas sentida e pessoal saudação, intitulada Despedida, finalizada com a narrativa dum fenómeno invulgar que o tocou bastante, mas que transcreveremos noutro artigo. Começa assim a sua evocação e preito de homenagem: «A ironia acerada que com frequência lhe polvilhava a conversa, a princípio, surpreendeu-me. Não me foi, porém, preciso muito tempo para compreender que só as ideias fecundas e belas achavam guarida na sua inteligência e no seu coração. Os comentários acerbos, que por vezes fazia a pessoas e factos que de eles não eram merecedores, tinham um sabor epidémico, surgiam-lhe de momentâneo humor, ou até de um simples jogo de palavras.
O forte poder de sugestão que do seu convívio pessoal emanava, foi um dos seus dons mais alto, sobrelevando, ainda agora, a influência da sua obra escrita, a qual só nos últimos tempos adquiria a força e a serenidade luminosa das coisas perenes.
Os amigos e discípulos de Leonardo quando não envenenados por qualquer despeito incompreensivo e mesquinho encontravam nele um amigo confiado e certo como um irm
ão.»
Narra em seguida como, mal soubera da
morte, partira de Guimarães para o Porto, e ainda participara na comovente velada em Matosinhos: «Leonardo Coimbra dormia na sua pequena sala, entre flores e círios, as primeiras horas do derradeiro sono.
Nenhuma dúvida era possível!
O grande orador, o filósofo, o poeta, o amigo excepcional deixara-nos! Na salinha, ainda não há muito cheia do seu desbordante entusiasmo e da sua clara alegria de viver, só o seu corpo inanimado repousa
va agora (...).
Que Leo
nardo Coimbra, dos elevados planos espirituais em que perdura, receba os nossos raios espirituais e continue um mestre de Portugal, inspirando subtilmente os que o leem, cogitam e amam!
                                                    

domingo, 28 de janeiro de 2024

Guilherme Filipe, "Invocação e testemunho de Leonardo Coimbra". Transcrição. E breve biografia do notável pintor de Fajão, Pampilhosa da Serra.

Guilherme Filipe, quando viveu cinco anos na Nazaré, fundindo-se plenamente com as pessoas e o ambiente. Fotografia do blogue de José Queiroga: Homenagem ao Pintor Guilherme Filipe.
No In Memoriam de Leonardo Coimbra, publicado no Porto em 1950, entre os vários contributos valiosos, belos e sentidos, um só provém de um pintor, Guilherme Filipe, que tendo nascido em Fajão, Pampilhosa da Serra, em 1897, quatorze anos mais novo que Leonardo Coimbra, teve uma vida dedicada plenamente à arte, à pintura, aprendendo primeiro com Cândido Sotto Mayor, José Malhoa e António Tomás Conceição Silva e estudando em diferentes centros de Espanha (onde foi importante o magistério de Joaquim de Sorolla) e França, com constantes idas e vindas, exposições e convivências, até estabilizar em Portugal em 1932, desenvolvendo, dir-se-á, um estilo profundo de realismo social, com as figuras muito humanas e frequentemente plenas de simbolismo...
A sua 1ª exposição em Coimbra, em 1923, e na Universidade, mais complexa na sua pujança inicial, foi apresentada por almas artísticas e sábias como Eugénio de Castro (que lhe arranjara um atelier na Faculdade de Letras), Afonso Duarte, Virgílio Correia, e  do catálogo da exposição, José Queiroga partilha no seu blogue parte das valiosas apreciações. 
Resolvemos transcrever o seu testemunho pelos belos ensinamentos que nos transmite, tanto de Leonardo como dele próprio. E se lermos a sua biografia, e há-as valiosas online, tal a da sua sobrinha-neta Rita Cortês na wikipédia, e as dos blogues de José Queiroga e do ancestralpampilhosense, compreendemos melhor a riqueza artística, pedagógica, ética e espiritual vivida por Guilherme Filipe  com tantas exposições e sobretudo iniciativas culturais, tal no Estoril, em 1934,  a Escola de Acção Artística e Intelectual, que funda com Augusto Pina, e patrocinado por Fausto Figueiredo e Guilherme Cardim, e em 1944, na Nazaré, o Jardim Académico de Belas Artes, onde se realizaram cursos, conferências, exposições, sessões de cinema, e que ele animou abnegada e entusiasticamente,  mencionando-o até neste texto, já que o escreveu quando trabalhava e vivia na bela vila piscatória
 Realçaremos ainda as suas amizades com Eugénio de Castro, Leonardo Coimbra, Miguel Torga, Sant'Anna Dionísio (que ele pintou, bem como ao seu filho) ou mesmo os democratas opositores do repressivo Estado Novo, pois integrou a comissão de apoio à candidatura eleitoral de Humberto Delgado à presidência da República, passando desde então a ser mais silenciado ou publicamente inviabilizado.
Miguel Torga (1907-1995, aqui em jovem pintado por Guilherme Filipe), será o autor da sugestiva e valiosa inscrição na lápide do pintor em Fajão, na qual se pereniza «a tua humanidade de sonhador de impossíveis, de arquitecto de Jardins Universitários, de construtor de Falanstérios utópicos, de artista que pintou a manta de todas as maneiras e cores... Igual  ti próprio para todo o sempre: transitório e fabuloso.»

 Este testemunho de Guilherme Filipe, certamente pedido por Sant'Anna Dionísio, o co-coordenador do In-Memoriam, é pois uma boa oportunidade de comungarmos com a sua alma e a de Leonardo Coimbra, bem como  o fogo do amor ao bem, à verdade, ao belo e à liberdade que os animava. O título já indica muito, e pena foi que não tivesse debuxado ou pintado uma vera efígie de Leonardo Coimbra: 
                             INVOCAÇÃO E TESTEMUNHO
«Sou admirativo por natureza. Infelizmente, porém, admiro pouca gente, e quando tenho que fazer sentir a alguém a não admiração por si ou pela sua obra custa-me isso os olhos da cara.
De todas as coisas e de todos os seres esforço-me sempre por encontrar o seu lado bom; porque o mau, se o vejo, uma de duas; ou o escondo, para que, por minha parte, ele não influa na formação e desenvolvimento dos que, por qualquer desvio de natureza são sensíveis ao mal, ou o corto rente como quem corta a parte do corpo afectada pela gangrena, mostrando-o em toda a sua maleza e fealdade.
Há nisto, reconheço-o, qualquer coisa de fatal e desditado missionarismo nato, superior à minha vontade e às eventuais razões de conveniências pessoais. Mas que fazer! Sinto que, ante tudo, é preciso defender a vida, a arte, a beleza e o amor dos perigos que a ameaçam.
Conheci e admirei Leonardo Coimbra [pena não ter detalhado mais como e quando, ainda que descrevendo-o bem, como pintor e espiritual]. Era um tipo exemplar de homem, fisicamente bem constituído e intelectualmente bem formado, jorrando de luz de verdadeira inteligência, optimismo e simpatia humana.
Alto, forte, gordo, moreno, corado, cabeça arredondada, cabeleira negra, grandes olhos castanhos duma melancolia profunda, embora vivos, raras vezes o víamos sem um grande charuto na boca, cujas fumaradas eram algo assim como o fumo vulcão do seu espírito.
Em qualquer parte onde se encontrasse, Leonardo Coimbra dominava sempre. A sua presença era daquelas que enchiam o espaço: um salão, a praça pública, o parlamento, o país. Quando falava, a sua voz, o seu verbo eloquentíssimo, revelavam logo nele a força da natureza com Dom de gente.
Tinha as aptidões necessárias para ser o filósofo que a Península Ibérica requeria e continua requerendo. Mas era português; tinha sido nado e criado em Portugal e essa fatalidade perdeu-o para a filosofia e até para a política.
Não foi ele, de resto, o primeiro nem o último dos grandes portugueses que se perderam assim. Se valesse a pena dizer porquê, diríamos que a trágica verdade está em todos nós: somos poucos e temos os encargos de muitos. Toda a energia do povo português se gasta na manutenção da independência material do país. Se há casos individuais em que alguma [energia] fica para sonhar, pensar, filosofar, pintar, fazer ciência, isto é, fazer Pátria, esses casos nunca podem garantir a independência espiritual, que é essencial porque, além de serem raros, padecem do mal da origem: são devidos a essa estranha coincidência entre a fortuna particular, feita ainda à custa da energia do povo, e uma formação moral em culturas estrangeiras, sem sentido de unidade [uma das falhas constante na nossa história]. E assim, como só por milagre constituímos uma Nação, eu penso que enquanto se não destruir esse monstruoso rochedo da fatalidade nacional, que tantas ondas de talento e de génio tem desfeito, não haverá possibilidade de construir, dentro das fronteiras, a Pátria ideal da cultura em relação com a Humanidade, e desgraçados dos portugueses que nascerem com vocação para as artes, para as letras ou para as ciências.
Ora a minha admiração por Leonardo Coimbra estava em que eu via sempre nele o homem capaz de formar ao lado a pequena legião de bravos capazes de destruir esse tal monstruoso rochedo da fatalidade nacional.
Se hoje fosse vivo tinhamo-lo certamente no Jardim Universitário de Belas Artes, animando e orientando os seus debates, nesse sentido. Quantas vezes, antes de abrirmos essas sessões, ou já depois de as abrirmos, quando ouvimos gaguejar alguns, impossibilitados de coordenar ideias e construir um pensamento, nos lembramos de lhe enviar um convite para o outro Mundo!... [Bela afirmação da sua abertura à comunicação com os espíritos já partidos].
Pouco nos importaria que não fosse um filósofo ou um pensador feito; e, no caso de o ser, que a sua filosofia ou o seu pensamento não agradasse ou satisfizesse por não corresponder às exigências históricas do nosso tempo. O importante seria que estivesse presente. Porque sendo ele, como era, isso sim, a filosofia em potência e o pensamento em acção, no sentido genésico, a seu lado ninguém permaneceria indiferente aos altos problemas da vida, pois era como poucos homens têm sido no Mundo - um grande agitador das almas.

A garra espiritual de Leonardo Coimbra sente-se nas gerações que formou. E se nenhum dos seus discípulos o seguiu o seu "criacionismo", mas antes o recorda com admiração e saudade, é porque ele foi o verdadeiro «Mestre»    : formou inteligências, criou personalidades.
Era assim Leonardo Coimbra!
Que o seu espírito esteja presente, neste momento excepcional, em que o Mundo vai dar uma grande volta, no seio da História.»
Guilherme Filipe. 

Que a alegria, o amor e a graça divina brilhem em Leonardo Coimbra e Guilherme Filipe, e nos inspirem. Aum, Amen...