sábado, 27 de janeiro de 2024

Um dito de Jesus sobre a destruição do seu corpo e ressurreição, e do Templo de Salomão e sua reconstrução.

Nestes tempos de tanto, tanto sofrimento na antiga Terra Santa, qualquer ser mais sensível, religioso ou crente na vida depois da morte, ora e medita e, simultaneamente, invoca e interroga o mestre Jesus sobre o que se está a passar e o que pensará ele, com os seus anjos e santos. Na incapacidade generalizada de o intuir, na ausência dum magistério eclesial claro e firme,  há que recorrermos ao que dele nos ficou e meditar alguma frase sua. E  eis um dos ditos do Evangelho de S. Tomé (aparecido em Nag Hammadi, Egipto, em 1945, num conjunto de códices em copta, do séc. IV) talvez apropriado e sem demasiadas dificuldades de interpretação, o logion 71: Disse Jesus: Eu deitarei abaixo esta edificação e ninguém será capaz de a reconstruir.
Está a referir-se a si próprio, ou seja ao seu corpo que iria em breve ser crucificado, ou será antes à religião mosaica e judaica, e em especial ao Templo de Salomão?
Em termos históricos, provavelmente seria ao Templo e, consequentemente, ao seu sumo Sacerdócio,  pois trinta e sete anos depois do rabi da Nazaré ser condenado e crucificado, o templo de Jerusalém sofre a sua 2ª destruição, ao ser arrazado pelos romanos, no ano 70, após um cerco demorado com a Arca de Aliança e outros objectos sacros a desaparecerem ou a serem levados para Roma. Com o fim do Templo-mór, do sumo sacerdote e da seita dos saduceus, serão os rabis, os professores religiosos, por vezes místicos, que em pequenas sinagogas  continuarão a orar e a estudar a Tora, levando-a até para a Europa, tal como os judeus e sírios tornados cristãos levavam a Boa Nova. Já na época medieval, dos finais do séc XI ao XIII, quando os cristãos com as Cruzadas tentaram libertar os lugares santos da Palestina do domínio islâmico, a Ordem dos pobres cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Templários, instalar-se-á interior e na cripta do que se edificara sobre parte do destruído templo de Salomão (desde o séc. VII,  a mesquita de Al-qsha, e que sofreu várias destruições e utilizações e é palco hoje de constantes opressões aos fiéis islâmicos das sextas-feiras), e pioneirizaram certos aspectos de uma religiosidade mais universal e iniciática, e pela sua sabedoria, coragem e pragmatismo constituindo uma fraternidade ou comunidade axial entre a terra e céu e que, com a sua abrupta atribulação e destruição em 1317 pelo ganancioso rei francês Filipe o Belo, entrando num legendário mítico perene.
A mística do Templo e dos seus avatares, que perpassará muito, muito pela Maçonaria, na sua doutrinação e ritualismo, desde o séc. XVIII, e entre nós bastante por Fernando Pessoa, chegará até ao séc. XXI, com muitos a desejarem ainda reerguer o Templo exterior, ou a destruir até as artísticas construções islâmicas resplandecentes, num recinto tão querido às três religiões. Mas sabemos que a reconstrução do Templo, sobrevivendo contudo parte do Muro exterior das Lamentações, muito cultuado, não mais, não mais poderá acontecer, como Jesus disse, não só por impossibilidades arquitecturais e político-religiosas, como por também porque fé e as crenças nas religiões ditas abraâmicas ou do Livro decairam muito, ainda que bastante menos no Islão.
                                                                   
Voltando ao dito de Jesus, como a
s palavras dos mestres têm sempre várias dimensões, e de facto são por vezes clarividentes, proféticas, Jesus poderia estar a dizer também mais iniciaticamente: «- Eu, enquanto ligado com o mundo espiritual e divino, como mestre ou ungido, sei que virá o tempo em que o Templo cairá. Mas também vos digo que quem se entregar à minha orientação, não se perturbará com tal perda dum templo externo e aprenderá a vencer o seu ego ignorante, de modo a reconhecer no seu santuário interior o  espírito imortal e a religar-se à Divindade, ao Pai.»
Se estudarmos as hermenêuticas mais comuns dos comentadores de S. Tomé e dos Evangelhos, vemos que em geral tendem a admitir mais o referir-se ao seu corpo e a consequente ressurreição, seguindo S. João 2, 13:22, onde o episódio é localizado após a expulsão do vendilhões do Templo, o que aponta  para ser até mais o Templo de Jerusalém, pelo que deveremos realçar estar indicada nessa imagem a  ultrapassagem da religião judaica, pelo ensinamento e morte de Jesus, como se depreende de outras falas dele que escaparam à redação conciliadora pragmática da Torah como Antigo Testamento com os Evangelhos, como o Novo Testamento, tanto mais que ele era verdadeiramente o principal ungido, messiah, em grego christos , e por alguns reconhecido como o profetizado em Daniel e Isaías, mas que acabara por não o ser, fatalmente, pelos sacerdotes e a maioria dos hierosolimitas.
De facto, nos Evangelhos sinópticos a ideia que passa é semelhante ao dito citado por Tomé, mas com fim oposto, pois ele dá o seu próprio corpo à destruição, e ao terceiro dia o reconquistaria para a vida eterna. Em S. Mateus, em 26, 59, lemos a frase de poder destruir o templo e reconstrui-lo em três dias, ser arguida como sendo de Jesus por duas testemunhas denunciadores face ao Sumo Sacerdote, o qual questionando Jesus, escandaliza-se e rasga as vestes por ele reconhecer que era o filho de Deus, decidindo-se então a sua morte. No evangelho de S. Marcos, o mais histórico ou fidedigno, vemos por três vezes ser mencionada a destruição do Templo,  a primeira vez no cap. 13:1-4  numa conversa real, simples mas profética entre os mestre e os discípulos, quando saiam do Templo pois estes, elogiando a sua estabilidade, fazem-no afirmar: «Não ficará pedra sobre pedra, que não seja deitada abaixo.» Mas será nos Actos 6:12-14, que encontramos a descrição mais alargada plausível, embora afirmando-se que provinha de falsas testemunhas diante do Sumo Sacerdote: «ouvimos dizer que este Jesus da Nazaré destruiria este local e mudaria os costumes ou mandamentos que Moisés nos entregara»
Só portanto nos Actos 6 parece emergir a versão mais completa da fala do mestre, mostrando-se que Jesus profetizara e quereria o fim (ou a transmutação) da religião de Jeová, pois os outros evangelhos omitem a declaração expressa de tal propósito. E será então que o dito, tal como é apresentado de modo reduzido no Evangelho de S. Tomé, visa não apoiar os que acreditavam que Jesus teria ressuscitado corporalmente, algo que aliás é desenvolvido com contradições nas narrativas evangélicas? 
Ou seja, o compilador dos ditos de S. Tomé desvalorizou o episódio da ressurreição física, que ele consideraria não um dito profético mas uma coisificação ou materialização de uma ressurreição espiritual e, no modo como o transmite, parece apenas indicar o fim do Templo e do seu Sacerdócio. Mas provavelmente também da própria da lei de Moisés e da sua dependência do demiurgo Jehova, natural numa compilação de ditos puros ou concentrados, que evidenciam o lado mais gnóstico e libertador de Jesus. 
Algumas conclusões parecem-nos então plausíveis, sobretudo a partir dos Actos dos Apóstolos, e dos progressos da crítica científica e espiritual histórico-religiosa, para o qual o evangelho de S. Marcos é o mais histórico e fidedigno: 1ª, a de que a religião mosaica foi na sua essência ultrapassada, nomeadamente quando os seus fiéis não souberam libertar-se, quanto à Divindade, da concepção exclusivista e violenta de Jehova, para a mais pura e íntima de Jesus, e duma religião demasiado ritualista e legalista para o do amor e caridade fraterna e libertadora, algo que nos dias de hoje ainda parece mais evidente.  2ª, que os sonhos messiânicos ou então de segundas vindas, sejam de judeus, cristãos, teosóficos, esoteristas e sobretudo evangelistas, mas também de outras religiões, são uma projeção de desejos e ânsias, que podem alucinar e alienar, gerando tendências perigosas de sectarismos fanáticos. 3ª, a de que o Templo de Salomão nunca mais será reconstruído, nem os lugares santos islâmicos serão destruídos, dada a sua historicidade, beleza e sacralidade. Sabendo-se porém nestes campo da proverbial teimosia, ou mesmo obstinação, judaica e dos fundamentalistas evangélico-cristãos, ainda muito pode acontecer, tanto mais que assistimos nestes últimos anos e particularmente meses a uma tentativa levada a cabo impiedosamente de destruição maciça da presença islâmica e palestiniana na Palestina, na faixa de Gaza, em Israel.
O que pensará o mestre Jesus da tragédia actual e proporá para o futuro? Certamente, cessar-fogo imediato, reconhecimento do Estado Palestiniano, co-habitação pacífica dos dois Estados e maior abertura dos dirigentes às forças de luz, amor, sabedoria e fraternidade, com uma ampla educação para a não-violência e paz nas populações...
Será possível realizar-se este desiderato, numa tarefa hercúlea, ou é uma utopia imensa, pois os traumatizados dos dois lados e os instintos de vingança acirrados, para além das muitas mentalidades violentas, racistas e cheias de ódio, e das disputas ambiciosas territoriais e das bacias petrolíferas no mar, dentro do grande confronto geo-político entre o império anglo-americano-israelita e a multipolaridade concretizada no BRICS e liderada pela Rússia, China e Irão, vão fazer perdurar por bastante tempo, ou intensificar a curto prazo, as guerras e escaramuças?
Embora seja utópico admitir-se a breve trecho uma paz estável, antes parecendo eminente uma conflagração, creio que todos devemos lutar pelo cessar fogo, a co-existência dos dois Estados, e a erradicação pela cultura, a educação, a arte e a espiritualidade do egoísmo feroz e do ódio.
Para estas metas ou elevados objectivos, o mestre Jesus deu muitas indicações esparsas pelos Cinco Evangelhos, ou recebidas e intuídas pelos seus santos e santas, e que encontramos noutros ensinamentos espirituais e éticos, mas que certamente só em corações sensíveis e receptivos é que medrarão. Oremos para que assim aconteça, e que das destruições do corpo de Jesus no ano 33, da cidade e templo de Jerusalém no ano 70, dos cavaleiros do Templo em 1317 e  de tanto, tanto de Gaza em 2024, renasçam agora seres, forças e edificações harmoniosas, amorosas e fraternas. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

O que dirá e fará Jesus face à decadência ética e juridíca do Ocidente, após as decisões do TPI quanto à Palestina? O que se deve esperar e fazer?

                                                     
Se havia dúvidas quanto ao famoso Tribunal Penal Internacional ser inepto ou ineficaz, para al
ém possivelmente  manipulado e, controlado, hoje a 26 de Janeiro de 2024 deixaram de existir pois, ao examinar  e deliberar acerca da queixa-crime apresentada pela África do Sul contra o genocídio em curso por Israel em Gaza, decidiu  não condená-lo, não emitir um mandato de captura contra Benjamim Natanyahu,  não sugerir ou impor um cessar fogo imediato, e apenas  limitar-se a pedir ao governo e militares israelitas que evitem actos que transpareçam demais o genocídio em curso, que permitam o acesso do auxilio humanitário e apresentem dentro de um mês um relatório do que fizeram. Deixaram porém em aberto, dado que o genocídio continua, tomarem outras medidas no próximos dias, e logo veremos se é apenas fumo, ou se há fogo da verdade e da justiça que Jesus quis trazer à Terra...
                                      
Consta que as sus
peitas de que os juízes-juízas deste tribunal estariam influenciados ou comprados por grupos de pressão israelo-americano, se confirmaram. Perante a ausência da condenação do 1º ministro  Netanyahu, compreende-se até melhor a recente sanha mediática deste russófobo tribunal, emitindo um mandato de captura contra Putin, presidente da Rússia, por ter feito sair crianças das zonas de Donbass em luta pela libertação em relação aos extremistas,  exactamente o que o extremista do ódio Benjamim Netanyahu não permitiu fazer às mais já de 15 mil crianças e mulheres mortas na faixa de Gaza.
                                     
                  Quando eram apenas 500, e não os mais de 10 ou 15 mil actuais...
Se uma actuação justa deste tribunal, a última esperança da aparente jurisprudência ocidental, se gorou,  perante a ineficácia das Nações Unidas, reduzida a uma lamentação do seu presidente pela brutalidade do genocídio, e que mesmo assim foi criticada por  históricos pseudo-democratas ocidentais, para quem nos poderemos virar com esperança?
                                                              
Do Ocidente anglo-a
mericanizado sabemos já que não se pode esperar nada, pois excepto a Espanha e a Irlanda, e uma ou outra voz mais corajosa de deputados (tal Clare Daly e Mick Wallace), a maioria dos líderes têm apoiado o genocídio e  Ursula (von Pfizer), vendida ao Fórum Económico Mundial, aos anglo-americanos-israelitas e à imperialista NATO, mantém as rédeas apertadas contra  as vozes contraditórias da sua péssima geopolítica, que está a causar a entrada da União Europeia e da população em decadência acentuada, com crescente sofrimento, pobreza, inflação e, portanto, quem sabe, revoltas, justas 
diga-se...
                                    
Então será do BRICS, da
 China, da África do Sul, do Brasil, da Turquia, da Rússia, do Egipto, do Qatar ou mesmo do Irão, que virá a voz da razão com  propostas de meios que ponham fim à mortandade e destruição tenebrosa, com implementação internacional do cessar fogo,  e o reconhecimento próximo dos dois Estados, o israelita e o palestiniano?
                             
Seria possível, é desejável m
as não se nos afigura como muito viável para já face ao antagonismo, pertinácia e ódio das duas partes em competição e luta trágica, seja a israelo-palestiniana, seja a hegemonia norte-americana versus multipolaridade.
Resta-nos então
virar-nos para o mestre da Palestina, Jesus o Cristo. Onde está ele, o que sente, o que envolve a sua aura e o que nos dirá ou recomendará?

Que ele esteja nos planos subtis e espirituais da Terra será a resposta mais curial, seja sentado à direita do Deus Pai, para usar a imagética antiga, seja dinâmico nos mundos espirituais. Mas sobre quem tentará fazer mais efectiva a sua força de amor, entendimento e paz? Quantos dirigentes importantes estarão abertos a tais influxos? Poucos, infelizmente, tanto mais que os dois principais e mais decisivos, Biden e Netanyahu, parecem estarem petrificados no ódio, diabólico...
Em quão poucas reuniões a chave de entrada dada por Jesus é accionada, aquela, tão famosa e importante, que ele nos deixou em testamento: «Se dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei entre eles?»
Quem o invoca ou, que seja, o seu amor, paz e ligação divina, que podemos considerar sinónimos ou incluídos no "em seu nome"?
Poucos, talvez alguns grupos de oração ou meditação, local ou ecuménica, e provavelmente activistas da paz e concórdia, ou mais generalizado, os cidadãos da fraternidade planetária, vindos de todas as religiões e povos e que, a arrepio dos seus governos europeus e em Israel, se opõe ao genocídio. 
Vemos porém a oposição à realização de tal desiderato possibilidade, quando se faz desaparecer os símbolos do apelo ao divino, como não há muito Ursula von der Leyen, fez, mandando retirar uma escultura quinhentista de Cristo crucificado de uma sala nobre na Alemanha onde realizava uma reunião com a sua presença, algo explicável por estar escravizada à Nova Ordem transhumanista-infrahumanista anti-divina veiculada pelo Fórum Económico Mundial e &, e pelos milhares de meios de informação e seus jornalistas e comentadores eles alinhados, amilhazados...
 A questão ficará então reduzida a um luta local até a Palestina edificada estar destruída, com milhares de seres traumatizados ou deslocados de todos os lados para todo o sempre, independentemente das baixas  recíprocas, ou  não haverá esse fim local, pois a guerra estender-se-á a países limítrofes, ao Yemen mesmo, ainda aumentando mais as destruições e mortes, tal como parece ser desejado por alguns?
Mistérios que o Futuro guarda no seu seio! Sob o pano de fundo da guerra movida pelos USA, Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, União Europeia e NATO contra a Rússia, de que a Ucrânia é a chaga mais visível actual, mas também na Síria, sob o pano de fundo da reacção dos países islâmicos e africanos ao imperialismo anglo-americano e israelita, tão desejoso de bombardear o Irão e as suas rosas de Isfahan, não é fácil descortinarmos os resultados futuros.
                                              
Resta-nos então trabalhar pela reflexão
, meditação e oração para nos mantermos lúcidos e informados, acima das manipulações e carneiradas, tentando a religação à sabedoria da alma divina no mundo, e aos seus mestres, onde Jesus, certamente hoje com a bandeira palestiniana brilha exemplarmente, inspiradoramente, na unidade do corpo místico e sábio da Humanidade perene.

Boa inspirações e realizações, bênçãos e fortuna para todos e para nós. Que a esperança e a vivência da dignidade, fraternidade e sacralidade dos seres humanos volte de novo ao de cima, ressuscite em árvores verdes de esperança, transmutando tantas mortes e sangue derramado na antiga Terra santificada pela passagem do mestre Jesus. Que as suas bênçãos e as dos outros mestres, santos e santas nos inspirem e fortifiquem. Amen, Aum...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

"Leonardo Coimbra. Testemunhos dos seus contemporaneos". (1º). Pascoaes, Régio, Luís Cardim, Hernâni Cidade, Pina de Morais, Augusto Saraiva e Pinheiro dos Santos.

                                  

 Leonardo Coimbra. Testemunhos dos seus contemporâneos, foi o nome dado ao In-Memoriam de Leonardo, que leva como explicação inicial a seguinte declaração, ao ser dado à luz em 1950 condignamente na Livraria Tavares Martins, no Porto: «Este livro de evocação e estudo, foi planeado pelos amigos e discípulos do pensador na data da sua morte [2-1-936], e coligido por uma comissão de iniciativa constituída por A. Casais Monteiro, Álvaro Ribeiro, José Marinho e Sant'Anna Dionísio.»

Contendo quarenta testemunhos, e alguns bem extensos, nomeadamente o final de Sant'Anna Dionísio e que é uma Bibliografia e Biografia de Leonardo Coimbra, de 120 páginas, o que cada colaborador transmite é pessoal e único pelo que da leitura da obra recebemos valiosas vivências, imagens, perspectivas e testemunhos  sobre o ser, circunstancialidades e obra de Leonardo e dos que com ele se relacionaram. Não sei se há revisitações ou críticas desta volumosa obra de mais de 400 páginas, mas que valerá muito recolher algo de mais luminoso ou instrutivo de tais homenagens ninguém terá dúvidas. É o que faremos, transcrevendo e contextualizando levemente algumas dessas pessoas e os seus testamentos leonardinos, de frases, parágrafos, ideias. E começaremos com os sete primeiros elos da tradição espiritual portuguesa que floresceu com Leonardo Coimbra.
A obra é antecedida por um
clarividente e interrogador prefácio de Sant'Anna Dionísio, que hoje lhe é respondido aqui, pois após apresentar a obra de Leonardo Coimbra como a «mais amadurecida, mais completa e mais relevante que em idioma português, como expressão de pensamento autêntico e consequente, se realizou neste século», confessa: «não podemos deixar de ponderar sobre o que tanto os contemporâneos como os mais afastados vindouros, acerca deste livro, tão heterogéneo, de evocação e estudo, hão de pensar ou dizer.
Que simpatias ou gestos de impaciência poderá provocar amanhã este livro entre os que o esperam? E sobretudo, que valor lhe será atribuído não nos nossos dias (porque uma obra desta natureza não pode deixar se ser julgada muito desencontradamente para já) mas, digamos, daqui a cinquenta ou cem anos? Eis-nos a responder-lhe passados 74 anos...
                         
Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes (seis anos mais velho), por volta de 1913.
O 1º contributo é de T
eixeira de Pascoaes (1877-1952), e sob o título de Lembrança, é tão conhecedor, poético, profundo, comovente mesmo, já que narra a sua última visita à modesta casa dele em Matosinhos, que mereceria ser todo transcrito. E começando assim: «Leonardo Coimbra é uma Trindade: o orador, o professor, o filósofo. Qual das três pessoas a verdadeira? A pergunta deve ser feita nestes termos: qual das três pessoas a mais verdadeira pois todas elas são verdadeiras. Para mim, é a de orador (...)», pois a filosofia estaria cada vez mais sujeita à ciência, sobrevivendo a parte intuitiva na poesia. «Prefiro, em Leonardo Coimbra, a eloquência poética do orador, pois entre o poeta e o orador há sobretudo uma diferença musical. Recitar uma poesia ou um discurso é uma questão de voz sujeita ou não à rima e à medida. Mas o fogo interior ao verbo é o mesmo, ou se expanda em longos períodos ou num certo número de sílabas, em música próxima ou remota. A poesia, refiro-me à antiga) é a música do remoto, a encantar os anjos, e a prosa é a música do próximo, que entusiasma as massas. Mas é a mesma inspiração, a força mais misteriosa da nossa alma. E, então, em Leonardo Coimbra, essa força tão cega e visionária da realidade e da verdade, isto é, da Natura dupla, ou humana e extra-humana, atingia uma intensidade sem rival! Deixava na sombra, qualquer outro orador, ou sagrado ou profano, desde o padre António [Vieira] dos Sermões ao das Conferências académicas [Antero de Quental]. Todas as grandes fugas do espírito ultrapassam os domínios científicos da razão e da física, e penetram na região etérea da poesia, que envolve a da ciência, como se esta fosse [e é...] o núcleo materializado duma esfera imaterial (...)»
«Leonardo Coimbra era, e é, um espírito das alturas, que, pairando, sobre sobre todas as coisas, contempla para além delas, o infinito. Esse além é uma fonte inesgotável...»
                                              
2º, Luís Cardim (1879-
1958), Leonardo Coimbra e a Filosofia (impressões dum profano), no qual valoriza e defende a filosofia unida à emoção do filósofo-poeta, terminando assim: «E que a mensagem essencial que ele, debruçado sobre a atroz e iniludível Dor Humana e sobre a atroz e iniludível Tragédia da Vida, pretendeu, imensamente compadecido (como tantas vezes o vimos), incutir no ânimo dos que o ouviam e liam, foi, luminosamente, - a mensagem da ESPERANÇA ABSOLUTA.»
                                        
3º, José Régio (1901-1969), e
m Algumas impressões sobre Leonardo Coimbra, dizendo-nos que tendo-o ouvido algumas vezes a discursar ou na mesa do café, e confessando de início que «nunca fui dos discípulos ou admiradores mais chegados do Mestre», pois estava mais do lado de António Sérgio que «violentamente o atacou», acaba por reconhecer, com muita sensibilidade, as grandes qualidades de orador inspirado e cultíssimo, de metafísico independente e de professor estimulador de almas: «O seu poder de sedução pessoal, pô-lo Leonardo Coimbra ao serviço, junto dos seus discípulos, tanto das suas tendências especulativas próprias, como das virtualidades e faculdades dele. Não quero dizer que alguma vez não o pusesse também ao serviço dos seus interesses, simpatias e antipatias e movimentos particulares. Mas eis o que bem menos importa, porque passou: Morto homem, morreu o que era de morrer. O que importa é que ele abriu aos seus discípulos o imenso mundo do Espírito. Isto, sim, importa. Assim, justamente, continuam eles a render-lhe a sua vibrante gratidão.»
E reconhe
cendo nele próprio certo constrangimento em valoriza-lo plenamente como filósofo «pela sua deficiência de sistematização e discursividade, o seu hibridismo, a sua retórica nem sempre boa», considera errado negar-se o seu valor: «Não é Portugal tão rico em autênticas vocações metafísicas, que possa desprezar uma das mais autênticas que tem havido em Portugal. Porque a verdade é esta: A vocação metafísica também era muito real num homem tão diverso, tão rico de dons e tendências, que simultaneamente pode ser um pagão e um cristão, um orador e um filósofo, um lírico e um cientista, um expositor superiormente culto e um conversador garoto como um colegial».

4º João Pina de Morais (1889-1953), militar, tendo estado na 1ª grande guerra, tal como Jaime Cortesão e Augusto Casimiro, seu aluno, opositor ao regime do Estado Novo, escritor. Leonardo: «Leonardo foi uma rajada de elevação mental, virgem, imperiosa e  fecunda, que agitou as ramarias combalidas do pensamento nacional.
Essa rajada, como todas as rajadas, não tinha disciplina, nem respeito e possivelmente nem limite. Nunca consegui moldar o seu talento dentro de normas humanas.
Era um semeador e deixava aos outros a faculdade de aproveitarem a farinha que se espalharia adrede por toda a parte.
Serviu o seu pensamento duma maneira absoluta, fazendo dele uma dádiva permanente e generosa para todos. A sua cátedra estava em toda a parte, os seus alunos eram toda gente, onde quer que estivessem e de todas as idades e categorias.
Nunca me lembro de o ver respeitar qualquer doutrina, qualquer pensador qualquer pessoa. Possivelmente, houve uma excepção para Einstein. »
Reconhecendo que Leonardo mais do que um filósofo «era uma chama ardendo solitária nos cumes solitários e altos como almenaras [torres de mesquitas]», lamentar-se-á de ter sido impedido no hospital, na véspera da desincarnação do fulgurante espírito, pois «Leonardo vendo-me aproximar de si naquela hora desoladora e de amargura inigualável, reconheceria que comigo ia todo o passado das nossas gerações até ao advento da ainda actual situação política e que para nós ele era exactamente como o fora sempre, eminente, generoso, batalhador incansável da liberdade e de todos os grandes princípios da dignidade humana e fiel ao seu e nosso credo. Levar-lhe ia nas minhas mãos amigas um po
uco da fortuna que nos dera.»
                             
  Leonardo Coimbra, ao centro, chapéu na mão, com os professores e alunos da Faculdade de Letras do Porto...
5º, Augusto Saraiva (1901?-1975), s
eu aluno e depois professor de filosofia, e que o homenageia "pelo muito que o admirei e pelo muito que lhe devo" com Alguns Aspectos da Personalidade de Leonardo Coimbra, que inicia assim: «Convivi muito com Leonardo Coimbra. Assisti pontualmente às suas aulas, durante dois anos (Leonardo Coimbra dava, pontualmente, as suas aulas) Ouvi-lhe dezenas de discursos. Sentei-me  com ele, vezes sem conta, à mesa do café. Visitei-o, sempre que me aprouve, em sua própria casa. Na aula, em casa, na rua, todos eram bons para o abordar, sobre as máximas coisas o poderíeis interrogar, acerca de tudo poderíeis com ele, discutir. Nenhuma distância entre ele e vós. Sempre o mesmo sorriso acolhedor, a mesma espontaneidade afirmativa e generosa. Leonardo Coimbra era o tipo do espírito que, em caso algum, se recusa. Na medida em que isto pode inculcar  largueza e abertura de alma, podemos ter Leonardo Coimbra, por uma alma estruturalmente aberta e ampla».
Discernindo a polarização racionalidade tendendo  "a tornar-se tautológica, superficializante, desumanizante, estéril" e o Irracional [ou espiritual supramental] como "garantia da liberdade, densidade e profundidade ontológica da pessoa humana" vê que este acaba em Leonardo por "polarizar-se em Deus sob a forma de sumo Bem e primeiro Amor",  tornando-se assim, mais do que a Razão, "garantia e fonte vivificante, de relações fraternais entre os seres".  E «assim a natureza profundamente afectiva, generosa (ou desprevenida), de Leonardo Coimbra, muito logicamente veio a culminar neste como que transcendental optimismo de mística 
raiz. (...)
                                          
6º Hernâni Cidade (1887-1
975), professor, escritor e historiador, e que nos últimos tempos da Faculdade de Letras no Porto entrara em desacordo com Leonardo. No Leonardo Coimbra, depoimento dum companheiro de trabalho, assinala bem os defeitos do lirismo e de uma certa falta de disciplina de um ser que conseguiu formar a Faculdade de Letras do Porto e a revista a Universidade Livre, a Renascença Portuguesa e a revista Águia, unindo em franca convivência vários escritores e professores, "sob a sugestão da sua palavra, pelos estímulos dos seus exemplos de ansiosa curiosidade intelectual e de alegre esforço no conceber, remover e combinar ideias", algo que hoje na terceira década do séc. XXI  diga-se, se tornou muito mais difícil de se realizar com o martelamento mental manipulador dos meios de comunicação e seus avençados comentadores, de tal modo que há frequentemente ideias erradas já irremovíveis em pessoas que se amilhazaram, coisificaram ou infrahumanizaram.

7º Lúcio Pinheiro dos Santos,  (1889-1950). Numa vida aventurosa em que teve de emigrar para o Brasil, por se opor ao Estado Novo de Salazar,  desenvolveu uma teoria de ciclicidade, a ritmanálise, que já Leonardo Coimbra em 1916 compreendera e valorizara. Na Profundeza e Perenidade de Leonardo Coimbra passa em apreciação elogiadora a sua obra, nomeadamente as críticas e sínteses filosóficas, o criacionismo como a característica da actividade pensante, a  monadologia social e afectiva, e mesmo o aspecto terapêutico contra a tristeza portuguesa do puro lirismo expresso n' A Alegria, a Dor e a Graça, mas vê porém uma certa queda na sua entrada final na religião católica, pois Lúcio Pinheiro dos Santos (recentemente estudado por Rodrigo Sobral) era um optimista nos Tempos novos supra-religiosos. Dará uma boa visão dialéctica e crítica da actividade relacional, base da visão mais psicológica e criacionista da ontologia de Leonardo: «Por generalização analógica e exame gnoseológico das outras ciências, alarga o conceito de actividade e relação social; e, de novo, apresenta-nos a sua metafísica de pluralismos coerentes, e de «pluralismo social», onde a unidade se faz e se refaz, sem aniquilar os plurais, senhores de suas liberdades, de invenção e de descoberta, em campo aberto a uma experiência progressiva. A verdade não é dada, e não há uma verdade feita; o que há, e o que vale, do ponto de vista intelectual, é método de investigação da verdade, em constante expansão. A tradição não é senão esse método de acção; e, no mais, é apenas a especulação do sistema de ideias da classe dominante que pretende impor-se sentimentalmente, porque lhe falta a razão de um privilégio que se tornou caduco».

Eis um resumo acanhadíssimo dos testemunhos dos seis primeiros amigos de Leonardo Coimbra, no seu In-Memoriam publicado em 1950, e da sua grande riqueza de ideias e sugestões, e relembraremos, para concluir, um sugestivo dito de Leonardo Coimbra relatado por Augusto Saraiva:«a sua inesgotável capacidade de assimilação permitiu-lhe realizar o tipo da consciência largamente informada [e não a desinformada ou manipulada, actual]: o seu inigualável sentido crítico assegurava-lhe perfeito domínio dos problemas. Poderia tentar-se a descambar na conhecida pecha do sábio luso: na erudição maciça e fastidiosa. Livrou-o, e livrou-nos, disso a sua personalidade forte e original. Disse-me um dia: "O melhor professor não é o que mais ensina, mas o que mais sugere". E ele realizava, de maneira acabada, este tipo de professor. Dificilmente se poderia imaginar alma tão interrogativa, espírito que para além do que dizia, tanto deixasse por dizer. Não era na verdade, um construtor de casulos ou betumador de frestas. Ao contrário, o seu verbo inquieto rasgava janelas, para lá das quais ficavam horizontes que apetecia ao nosso desejo, e à nossa ansiedade, abarcar. Tal desmesuramento dava às suas aulas uma sedução e um poder de contágio que ainda hoje, quem possa evocá-las, não pode deixar de sentir-se preso de indefinível encanto.»
                                           

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Fala de Sant'Anna Dionísio quando, de Leonardo Coimbra o corpo é dado à terra no cemitério da Lapa, no Porto, a 4 de Janeiro de 1936.

Pode ouvir o duo de harpas da amiga Andreia Marques e da Cláudia Cardeal,  enquanto lê o excelente discurso.  https://www.youtube.com/watch?v=WJ75Qgorf1E

 O discurso de Sant'Anna Dionísio  "momentos antes do corpo de Leonardo Coimbra ser abandonado a terra", no cemitério da Lapa, no Porto, a 4 de Janeiro de 1936, apenas com 53 anos, diante de centenas das "milhares de pessoas que acompanharam o orador poeta ao cemitério", tal como descreverá, com aspectos transfigurantes Teixeira de Pascoaes, no In Memoriam de Leonardo, foi transcrito por ele (parcialmente) na  sua obra Leonardo Coimbra. Contribuição para o conhecimento da sua personalidade e seus problemas, 1936, reimpressa em 1985 com uma adenda (que gravamos e está no blogue), é de tal modo evocador, despertante e perene que resolvemos transcrevê-lo, sublinhando as partes mais valiosas para não alongar o texto com comentários (breves e entre [  ]), a fim de poder circular pelos meios digitais de comunicação, dado a obra não se encontrar facilmente nos alfarrabistas. Demos graças a Sant'Anna Dionísio, um dos alunos, amigos, discípulos e companheiros que mais compreenderam, amaram e testemunharam Leonardo Coimbra, 1883-1936, mas espírito imortal! Muita luz e amor divinos neles! 

«Leonardo Coimbra  não é um homem que desaparece: o poder radiante do seu espírito, longe de diminuir e desvanecer-se com a morte, aumentará com o seu afastamento, pelo dobar do tempo. Ele ficará como uma força tão viva como  o de Antero. E se aqui falamos de Antero de Quental é porque, para definir o espírito de Leonardo Coimbra por um espírito que nos possa servir de referência, não se encontra outro, entre nós, além do de Antero, como termo de confronto. Um e outro foram os que, em toda a história espiritual portuguesa, testemunharam o mais alto grau de sinceridade, de constância diligente, na procura da solução do que mais importa ao homem. Ouso porém dizer que se, por certos aspectos, o valor de Antero, (sobretudo o valor ético da sua existência concreta de homem convivente), não padece confronto com nenhum outro, por outros aspectos, Leonardo Coimbra foi superior a todos, incluindo o próprio-filosófico dos Sonetos e das Tendências. Sem dúvida, Antero deixou uma obra artística mais perfeita; deixou uma imagem de ser convivente mais severa e vigilante; deixou um clima moral, que Leonardo Coimbra de modo algum [algo exagerado, porque conheceu ao vivo a ironia e causticidade de Leonardo] transmite; - mas Leonardo Coimbra deixa na sua obra duas realidades que sobrelevam visivelmente a de Antero: a consciencialização especulativa de uma cultura muito mais ampla e informada e uma acção mais eficaz no despertar dos interesses, entre os que participaram no seu convívio, pelos problemas fundamentais. De facto, Antero de Quental não deixou por morte, continuadores [embora tivesse deixado muitos seguidores do seu idealismo e da sua poesia, poetas]. Leonardo Coimbra, deixa-os. Continuadores - de quê? - dir-se-á. Da sua concepção da vida? da sua questão religiosa? das suas ideias políticas? da sua maneira de ser? de pensar? Não se trata de nenhuma continuação desse género. [O que irá Sant'Anna dizer: do fogo da demanda, da aspiração à verdade e à justiça?]. Nem ele teve, cremos, nunca a pretensão de preparar continuadores. O seu ensino sempre foi demasiado livre e despreocupado de espírito de magistratura para que nele se descobrisse algum dia a intenção de fazer discípulos no sentido estrito da palavra. A sua influência como mestre exerceu-se acima de tudo, não como captação, mas como perturbação, estímulo; por esse aspecto Leonardo Coimbra foi um professor único. Nunca, entre nós, de facto, existiu um professor no seu género; queremos dizer, tão influente no destino intelectual dos que tiveram a sorte de sofrerem em cheio, a influência do seu ensino sui generis. E contudo nós não queremos deixar de reconhecer que temos tido alguns notáveis professores na existência secular do nosso ensino universitário. Mas os catedráticos notáveis são, em regra, ou os professores que expõem bem, ou os ascetas da «preparação», ou os que investigam infatigavelmente na sua pequena célula [ou cela], ou os que animam com solicitude os investigadores novos na fase dolorosa do emparedamento espiritual, que se chama usualmente, «especialização»; por vezes mesmo, o professor notável é ainda menos que isso: é simplesmente o professor que cumpre. Leonardo Coimbra não estava dentro de nenhuma destas classes de professores. O seu ensino era específico: era o ensino de um homem que sacode espíritos, que agita latentes propensões e inquietudes, que remove tudo por dentro. Ele era tipicamente um professor removedor [um acharya ou guru, removedor das ilusões, ignorâncias, trevas]. Todos os homens novos que passaram a seu lado como alunos ou como simples conviventes reconheceram unanimemente o misterioso poder desse indefinível influxo da sua inteligência viva, inquieta, terrivelmente ágil e perturbante. 

Leonardo Coimbra, tendo no canto esquerdo Sant'Anna Dionísio, nos seus momentos mais felizes: rodeado das alminhas portuenses alunas e conviventes que receberam os seus influxos espirituais, anímicos, éticos e culturais.

O segredo da fecundidade, mesmo póstuma, desse instituto de Cultura, a Faculdade de Letras do Porto [1919-1931], (que enquanto incipiente laboração, foi uma das mais puras fontes de alegria íntima de Leonardo Coimbra, e, quando extinta, uma das suas mais profundas fontes de dor) deve ir buscar-se à acção deste estranho catalizador de interesses espirituais. Foi ele que sacudiu, pode dizer-se, todos os homens novos que aí estudaram e hoje principiam a dizer o que têm a dizer. [Sant'Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Delfim Santos, Álvaro Ribeiro, etc.] Os próprios professores que ele agregou como cooperadores [tal Ângelo Ribeiro, Teixeira Rego, Newton de Macedo, Luís Cardim, Hernâni Cidade, Magalhães Basto, Mendes Correia, Lúcio Pinheiro dos Santos, etc.] dessa escola de humanidades (à qual se irá fazendo cada vez mais justiça depois de tantas malquerenças) foram incontestavelmente tocados pela radiação da sua cultura.
É por este ângulo que mais tarde se a
preciará principalmente este homem, admirando-se a sua influência concreta e convivente, olhando-o, enfim, como um verdadeiro caso socrático; porque de facto, um dos dons mais característicos deste homem foi o dom do conversador ateniense: a dialéctica perturbante, o estímulo directo e concreto das inteligências meias dormentes pela técnica espontânea da contradição, pela ironia, pelo fingimento da mordacidade a encobrir a mais profunda sinceridade de procura do que mais importa ao homem, a compreensão de tudo e de si próprio.
Com isto não queremos fazer supor que a obra de
Leonardo Coimbra, como pensador, fique apenas sob a forma de refracção tradicional - e que será pelos que vierem depois dele que se poderá ter a verdadeira medida do seu espírito. O reconhecimento de que a sua personalidade total tinha as suas melhores ocasiões de revelação no acto concreto da comunicação das ideias, de pessoa para pessoa, não significa que as ideias depostas na sua obra escrita, estejam destinadas a serem tidas como as raspaduras literárias de um pensador essencialmente oral. De modo algum. Apesar de todas as suas desigualdades a obra literária de Leonardo Coimbra é o testemunho mais notável que possuímos de pensamento preocupado com o essencial. De resto, nessa obra, sob o ponto de vista artístico, há coisas belas que são únicas na nossa língua. Há nela imagens inesquecíveis, delicadezas descritivas de verdadeiro poeta, intuições súbitas, prodigiosas de poder iluminante. Mas, sobretudo, o que nessa obra interessará sempre é a inteligência extraordinariamente ágil e cultivada que nela se exprime. A Alegria, a Dor e a Graça, a Razão Experimental, o Pensamento Filosófico de Antero, o diálogo Do Amor e da Morte - bastariam para dar a Leonardo Coimbra, em qualquer país, a perenidade de um grande escritor de ideias.

Como todos os grandes homens Leonardo Coimbra foi um homem deslocado do seu tempo. Foi um homem inactual. Por isso teve o drama íntimo (e confrangedor para aqueles que o adivinhavam) de se sentir capaz de uma certa missão que não pode cumprir como queria: a missão do homem pensante, a missão do homem destinado a pensar e a fazer pensar [e a meditar, contemplar, silenciar].
                                           
Na realidade foi um verdadeiro delito colectiv
o a vida forçada de professor do ensino secundário de Leonardo Coimbra. Um dia se evocará essa condenação como um dos exemplos mais gritantes de incompreensão crassa dos poderes públicos quanto aos deveres de solicitude que todo o homem superior tacitamente requer.
Um homem como Leonardo Coimbra não era,
claramente, um mestre que se devesse coagir a queimar o melhor da sua existência a ensinar desenho e álgebra elementar a crianças. Leonardo Coimbra era um mestre talhado para despertar adolescentes, para tornar largos e humanos os interesses espirituais dos homens novos, e para estimular mesmo homens na maturidade. A sua vastíssima cultura científica, a sua profunda e rápida visão dos problemas, a formação especulativa do seu espírito [melhor, da sua mente], e por cima disso tudo, os dons dialécticos admiráveis que ele possuía, faziam dele um paradigma único, que nunca mais talvez teremos tão completo [e Fernando Pessoa reconheceu-o também], do professor universitário removedor. O seu lugar era, pois, em um instituto de altos estudos ou em uma faculdade de ciências, como agente de ligação e metodólogo; ou em uma escola de humanidades, como mestre livre de conferências; ou em alguma coisa deste género. A tacanhez do meio porém não permitiu que se visse esta oportunidade única de quebrar o quadro escolástico e especializante [e farisaico e invejoso] do nosso ensino superior.

  Ao fim e ao cabo, Leonardo Coimbra aceitou essa incompreensão do seu valor - mas, como em todas as personalidades inactuais, essa aceitação não se fez sem amargura. O seu sarcasmo foi uma das expressões digamos pudicas dessa resignação. Há que reflectir sobre esse complexo da resignação para se compreender as suas anedóticas reacções. Porque, intimamente - quero afoitamente levantar esta presunção, Leonardo Coimbra era um homem profundamento sério; simplesmente, essa seriedade foi gravemente lesada pelo modo inconsiderado e grosseiro com que o meio o tratou. Daí o seu expediente de defesa: o humorismo. Daí as quadras de surda abominação e indiferença mordente. No fundo, Leonardo Coimbra era excessivamente acompanhado da consciência do seu valor para não compreender que a sua obra ficava muito aquém do que ele poderia ter feito [e muito fez, publicou e irradiou pela palavra entusiástica removente, iluminante].
                                        
Um dia, indo ao seu lado, ao longo de uma rua, disse-nos ele [certamente amargurado com mais alguma],  de repente, depois de um longo silêncio: - «Qualquer dia dou por írrito [sem valor ou efeito] e nulo tudo o que tenho feito e começo de novo» [Que coragem...] Na realidade, Leonardo Coimbra não podia começar de novo [tantas tinham sido as maravilhas sentidas, pensadas, intuídas comunicadas]. Porque nunca se começa senão uma vez. Temos por isso que nos contentar com essa obra que ele queria dar como írrita e nula. Ela ficará, - apesar de tudo -, como um testemunho suficiente da inteligência mais fulgurante e mais culta que até hoje tivemos.
Leonardo Coimbra, este homem trágica e prematuramente morto de quem me despeço, em nome dos seus antigos alunos, com a comoção de quem abraça um irmão que parte para um continente de insondáveis mistérios - Leonardo Coimbra viverá por essa obra truncada, por esta obra que ele realizou em tristes circunstâncias em que no nosso país se trabalha espiritualmente.»

Que, no "continente de insondáveis mistérios", resplendam como espíritos unidos no íntimo a Deus e continuem a inspirar dinamicamente a Tradição espiritual da língua e alma portuguesa...

Pintura de Bô Yin Râ, dos mundos espirituais elevados.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Destilações de experiências, reflexões e meditações. Recolha da sabedoria em folhas soltas e ao vento dos anos...

Recolhas de sabedoria, para que não se perca e antes se aprofunde...
«Sobre os livros pode-se dizer que nos aproximam ou afastam da Verdade e Divindade por muitos meios,  um deles sendo a nossa atitude em relação a eles, pois não havendo livros totalmente maus em si, o mais importante será a nossa reacção, a qual pode ser passivamente absorvedora da sua negatividade, ou pelo contrário positiva, ao discernirmos e ultrapassarmos os seus defeitos ou erros, sem nos deixar manipular ou posteriormente envolver em disputas, e antes vibrando nos aspectos positivos e luminoso, que, mesmo que não estando expressos no livro, nós por reacção sábia a ele,  erguemos, ressuscitamos ou intuímos.
Uma posição crítica mas construtiva e aberta à verdade e à Divindade tenta não ficar no negativo, ao criticar a ignorância e erros ou troçar da ingenuidade e superficialidade, e procura antes compreender, sentir, intuir o que representará ou expressará mais a verdade, a vontade e os propósitos mais elevados, divinos mesmo, partilhando tal com a outra pessoa, ou não, conforme for o mais acertado e justo, pois há muita gente que não quer saber da verdade, ou reconhecer que os outros sabem mais do que eles...
Um segundo sentido ou meio da valorização dum livro quanto ao seu nível espiritual, é sentirmos ou discernirmos se o autor era ou não um canal para as ideias e forças divinas, se estava mais ou menos estabelecido em valores éticos, numa prática religiosa ou espiritual e se acreditava e demandava em Deus, se teve experiências e vivências valiosas. E realce-se que quem acredita na Divindade, ó fiéis e crentes, deverá de algum modo tentar demandá-la ou conhecê-la um pouco mais...
Os livros são assim tanto alimentos de comunhão, como ferramentas para um melhor discernimento e elevação, sobretudo se aprendemos com eles e praticamos ou pomos em prática o que realizamos como verdadeiro e útil. Os livros, com as energias que activam em nós, ajudam também a congregar e a eclodir as circunstâncias favoráveis à manifestação maior do que desejamos saber e ser, ou mesmo da sabedoria e amor divinos.                          
                   [Sobre as aulas ou práticas de Yoga:]
As posições físicas interessam ou valem  ainda no sentido em que com elas desenhamos posições geométricas e assumimos a circularidade energética que elas proporcionam, contando muito para tal o facto de as extremidades do corpo serem tanto antenas como fins de meridianos de energias. A postura do pentagrama é uma das que, fora das clássicas do Hatha Yoga, mais manifesta tais entradas e irradiações e por isso alguns ensinamentos de artistas, esotéricos e mestres desenvolveram correspondências para as cinco pontas, tal como entre nós o esboçaram Almada Negreiros e Fernando Pessoa, ou antes Paracelso e Agripa...

Daí a possibilidade de ligações ora de recebimento ora de irradiação conforme a nossa orientação psíquica, que pode procurar apenas um  harmonizar-se ora global ora mais local,  ou seja, receptivo-meditativo ou, ao contrário, uma irradiação que  pode ir desde o nível meramente interior harmonizador   até ao da transmissão à distância energética, magnética, física, curativa, catártica.

É quando aprofundamos a meditação  que começamos a pôr em ordem a nossa interioridade e psique, e a estabelecer mais o contacto com o espírito e a Divindade. E quando estão mais   harmonizados os contrários ou dualidades fontes de conflitos, então corpos físicos e subtis, e  suas respirações, ondulações e irradiações, vão-se acalmando e permitem, por vezes com a ajuda de alguma mantra ou oração,  o vislumbrar da luminosidade espiritual ou o sentir  da consciência espiritual e divina, a qual foi nomeada  pela tradição indiana yoguica e vedântica como Sat, Chit, Ananda, Ser, Consciência e Felicidade, um mantra que tem servido a muita gente para se equilibrar e interiorizar espiritualmente.

Da Paz nasce a gratidão e desta brota o Amor.»

                               
   Por vezes queremos procurar Deus, encontrá
-lo. Mas seria melhor contentá-lo, diminuindo as limitações e barreiras que nos afastam de O sentir.
Como?
Fazendo o coração psico-espiritual, central, brilhar sempre ou mais, apesar de todas as dificuldades e oposições. E prometendo, ou comprometendo-nos em certas práticas e virtudes que, mantidas ou preserveradas, ajudarão à ligação sensível, grata, entusiasmante, com o espírito divino ou mesmo a Divindade.
                                    
     A terra castanha fecundada pela á
gua branca, sob o amarelo ígneo do Sol, gera o verde do crescimento  e da esperança.
   As pessoas deviam fazer evoluir mais os animais, conversando com eles e tentando estimular a sua inteligência e a consciência. Os animais também podem ter um tipo de Anjo da guarda.
    Saber e morrer e transmitir a sabedor
ia da vida a outros. Ou então ser-se ajudado a fazer a sabedoria da sua vida, quando se está para morrer e a arte de meditar e arte de bem morrer não foram praticadas em vida. Devia haver a possibilidade das pessoas nos hospitais, lares ou casas poderem receber quem as ajudasse a consciencializar-se espiritualmente.
                            
Partindo ou brotan
do da educação e da cultura, ergue-se a coroa da espiritualidade e a rosa valiosa da caridade. Sê tu mesmo, criativa e corajosamente!

Deus,
surges sibilante,
ergues-te rutilante,
como o sol a bater no rio,
as gaivotas a rodopiarem,
as árvores calmas e nuas.
Assim, nós humanos, Te adoramos.

                                                           

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Conto espiritual: Visita de um Ancião na Floresta: diálogo silencioso, experiências e ensinamentos.

Começado a escrever em 24-4-98, no Gerês transmontano, e finalizado em 22-1-24. Fotografias tiradas por mim.
Quando o Sol começara a tingir a aurora no horizonte, fazia eu as abluções sagradas numa fonte de água cantante e fresca sobre a qual as flores da buganvília pareciam flutuar coloridamente na brisa matinal. O balde metálico que enchera de água fresca e purificadora estava já quase esvaziado quando subitamente olhei para o fundo da clareira, lá onde o bosque começava, e pareceu-me ver uma figura dum ancião vestido de branco e de longas barbas da mesma cor. Arregalei bem os olhos porque para distinguir se era visão real ou alucinação, embora estas não as tivesse. Contudo, desde que me mudara para aquela quinta isolada onde fazia vida simples, sentia a minha mente como desanuviada e no limiar duma visão lúcida expandida, algo extra sensorial ou mesmo supra-mental. Não me deixei perturbar, ao pensar que era mesmo alguém muito estranho que me fitava de longe, e restava-me esperar pelo que iria suceder.
Pousei a toalha sobre a sebe de buxo lateral e lentamente virei-me em direcção à estranha personagem, desconhecendo qual seria a sua intenção e interrogando-me sobre a identidade: um peregrino, um doido, um espírito de alguém morto há pouco tempo, um espírito da floresta ou quem sabe o Mestre sublime, confesso que sempre desejado mas já pouco esperado? Quem seria?
O ser levantou um braço e acenou-me num gesto de avançar, e  eu fi-lo, ainda que emocionado, mas à medida que me ia aproximando fui sentindo uma apreciável mudança qualitativa no meu próprio ser: as narinas desbloquearam-se completamente, mais leve caminhava, um calor anormal aquecia o meu corpo e uma estranha felicidade parecia querer irromper do peito, no qual o coração parecia estar a arder.
 À distância de uns dois, três metros já podia penetrar melhor no mistério que me interpelava. Alto, forte, um ancião de olhos fortes mas bondosos, parecendo estrelas num céu límpido de Verão. As suas mãos viraram-se para a terra e sinalizaram que me devia sentar nela, o que fiz num tão brando e natural movimento que até a mim me surpreendeu. Notava ainda que a minha consciência estendera-se bem para além dos contornos do corpo e sentia-a tão vasta como aquela clareira. O enigmático ser sentou-se também na terra esverdeada pela erva, enquanto algumas aves modulavam cantos de especial ressonância no meu ser, que  me fizeram sentir as árvores onde elas estavam  e que me rodeavam, o abanar das suas folhas e a linguagem de paz e alegria que por todos esses meios circulava.
Mas logo a atracção da comunicação pelos olhos brotou imparavelmente no silêncio que se estabeleceu e, depois de eu sustentar o olhar do venerável ser, a custo, pois tanto o peito como os olhos pareciam o oceano a querer saltar um dique, vi-o a ele a cerrar lentamente os olhos, acontecendo-me o mesmo naturalmente ou por espelho em mim. E o que me aconteceu consciencialmente foi simplesmente despenhar-me por entre falésias lisas de granito, sobre as quais a terra se abrira e descer até um fundo imenso e calmo.
  Abri depois os olhos algo impressionado com tal queda e de novo os nossos olhos continuaram o seu inefável diálogo ou comunicação parecendo-me agora que o seu olhar continha uma profundidade imensa, com cheiro a húmus da terra e sabor às cicatrizes de sofrimentos imemoráveis, o que se consubstanciava numa profunda vibração de humildade avassalando o meu ser, que repentinamente sentia bem o que  frases da tradição espiritual, tais como “não eu, mas Ele”, ou o «não nós, não nós, mas ao Teu Nome...» e o "tende piedade de nós", significavam de realidades do mais profundo do  ser verdadeiro e uno, emergindo por entre todo o historial humano até à superfície.
De novo o olhar do ancião interiorizou-se, e eu senti os olhos como que sendo puxados para cima e para dentro, ficando como que a olhar por um telescópio que rompesse a testa e  se abrisse e desembocasse na imensidão do cosmos de milhões de estrelas e galáxias. E, subitamente, ouve um estalo, a minha boca abriu-se de pasmo, pois repentinamente vira de olhos fechados o céu nocturno e estrelado  e que depois, tal como um cortinado que se fende ou abre para dentro, dera à luz ou fazia-me sentir e entrar num espaço de infinito silêncio e paz.
Quando abri as pálpebras de novo o ancião sorriu-me e senti-me com uma mente tão clara que parecia que todas as rugas dos pensamentos e das preocupações do meu ser quotidiano se tinham evaporado por completo e que as bênçãos do cosmos infinito estrelado e a grande unidade que está nele nunca mais me abandonariam.
A lua cheia despedira-se já para as bandas do ocidente, mais subtil e fina do que quando nascera tingida de avermelhado ao cair da noite anterior. E agora era o sol que irrompia a querer saltar, pular, rapidamente o limiar do horizonte, saudado por uma gritaria imensa de aves e pássaros. A figura venerável parecia querer desaparecer, mas não: apenas se levantara uma brisa mais forte e o seu peito abria-se com o meu numa comunhão fantástica que me ergueu quase do chão e de novo me pôs nas nuvens da eternidade.
Quando um suspiro aliviou o meu ser psico-somático e abri os olhos a enigmática figura partira já e  ao longe uma estranha claridade no obscuridade da floresta mais cerrada testemunhava a sua partida para um destino que era o seu e não meu, embora uma certa unidade entre nós parecia ter nascido ou renascido, talvez para sempre...
Quedei-me pois, e não pensei senão em sentar-me de novo, meditar e dar graças a Deus por aquele seu mensageiro e mestre. E meditando no que se passara vi-me então como caído estava, na Terra e neste corpo tão socializado, e como me despenhara de alturas fabulosas e que agora só suplantando os pensamentos, preocupações, desejos e distrações da existência egóica no mundo é que de novo entrava numa esfera de silêncio e paz, na qual, aos poucos, podia sentir o fogo divino alumiar-se, como um rio a desentranhar-se dum terreno absorvente e pantanoso e a irromper forte mas humildemente por entre as fragas tanto das nossas misérias, limitações, dúvidas, como dos diques que lhes fizermos, encaminhando-o rumo ao coração, ao alto...
Sentia-me renascer de novo, e uma paz profunda parecia tratar das circunvalações dos nervos e do cérebro, circular como corpo subtil dos pés à cabeça e tornar a dança dos meus átomos mais alegre, despreocupada e harmoniosa. Levantei-me, ergui os braços e abracei a clareira e a floresta na suas dimensões subtis e fiz alguns movimentos. Lá ao longe parecia-me sentir ainda algo daquele ser divino que me visitara e que ainda hoje não sei bem identificar, mas o que interessa isso se conheço melhor as minhas profundezas e alturas, se o meu coração está mais aberto e ígneo  e a minha vontade é mais a da verdade, do amor, do bem, do espírito, do ser divina?
                                                                      
Da visita do mestre ancião ficou-me ainda como seu testamento olhar a Natureza como o templo da Divindade e  invocá-La nela, senti-la como o seu Logos, Inteligência-Amor, ou descobrir nela, Gaia, aves e árvores, penedos e cristais, rios e montes, espíritos da Natureza e Anjos, ou mesmo nas personas e edificações humanas, a sua anima mundi e dynamis falando simbolicamente pelas formas, proporções, números, sons, ritmos e cores. E assim o cumpro, na medida do possível, seja quando estou no campo e montanhas, e cavo a terra ou abraço as árvores, seja quando apenas a olho pela janela, no céu azul e nocturno, com Sírios ou as Plêiades,  ou nalgumas árvores que, com as raízes para o fogo interno e as folhas verdes para o prana ensolarado, cumprem também a mesma função de ligar a Terra e o Céu pela aspiração e assimilação da luz e calor do Sol, o Ser e imagem principal para o nosso planeta da Divindade.
                                           
Daí que contemplar o So
l a nascer ou a pôr-se, abrir-me a ele a qualquer hora do dia, sentir a força benigna da luz solar, com todas as suas subtis qualidades, onde quer que ela se possa contemplar, invocar ou acolher mais, se tornaram sacramentos, ou seja, sacralizam, harmonizam e plenificam as minhas forças vitais e psíquicas, fortificando ou intensificando as nossas antenas e canais para os mundos espirituais e a Divindade infinita, imanente e transcendente, do que resulta uma melhor irradiação vibratória para as pessoas e a sociedade tão artificializada e manipulada e a Natureza, tão destruída e tanto necessitando de mais agricultura biológica, agro-floresta, famílias e grupos alternativos e amantes dela...
E o ancião tornou-se uma imagem do mestre, do sábio, do harmonizador e iluminador que todos devemos ser, de acordo com as nossas capacidades, e o swadharma, o nosso próprio (swa) dever-missão-especificidade, e por isso diariamente os saúdo, e na meditação tento silenciar e estar aberto a alguma intuição e indicação silenciosa, subtil com a qual ele ou eles, elos da Tradição Espiritual e da Divindade, nos impulsionem e abençoem.