domingo, 14 de janeiro de 2024

Da Europa e de Portugal, seus rostos e almas, desgraças e graças. Poema de 1993, melhorado.

Qual é o rosto da Europa? Para onde fita seu olhar?

- Olha em todas as direcções, move-se sem cessar. 

Mil rostos acodem às costas do mar e às montanhas, 

fitando Oriente e Ocidente, Norte e Sul. 

A Europa é um remoinho.


Portugal é a porta do gado e da esperança, 

E há as maresias e campinhos franciscanos.

Vê-se a pata dos governantes calçada em carros de luxo

e as cangas dos bois a jazerem por terra.


Os passos perdidos são de muitos 

e há correrias e tragédias nas noites.

Tudo quer dinheiro, poder e prazer

e poucos se esforçam pelas virtudes.

Vai mal a marcha da ronda, 

vejo pobreza e desordem na rua.


Cada dia traz o seu mal e cada um colhe o que semeia.

Vejo pragas e irritações, fogos sombrios a lavrarem.

Ninguém põe os olhos para as bandas do Oriente,

lá donde vem a elevada Luz do Espírito.

 

Reina pois  a lei da selva nas cidades

e as savanas são pasto das desavenças da democracia.

Há fome no mundo e desperdícios sem fim.

Consome-se demasiado e some-se a simplicidade.

Produzir, criar, dar e  partilhar são forças raras

apesar de tanto reformista e conselheiro da República.

Mas esta é uma rês onde muitos cevam seus apetites

e não se olha à vaca sagrada da Índia,

nem a Mãe natureza é respeitada,

só galinha de ovos de ouro a ser explorada.


Vem a noite e tudo vai estrebuchando

e caindo na inconsciência e sonhos. 

Poucos são os despertos no outro lado,

Ao subirem, espíritos, pela escada e eixo dos mundos.

Já pouca e infantil é a oração e a meditação

e as bênçãos do céu não encontram recipientes,

nem o orvalho penetra a terra seca e árida

e esterilizada pelo plástico e o cimento,

e poucas almas chorando e orando

dissipam as nuvens opressivas

e atraem a chuva luminosa divina.


Abro os ouvidos ao som e os olhos ao Espírito.

Não quero saber das poucas vergonhas do país.

Um dia verão com os olhos da alma

os que hoje se recusam a ver com os do corpo.


O meu coração sangra, dói e arde de aspiração.

Oh Deus, Oh Deus, tu és tudo e nós somos nada,

mas pretendemos ser importantes na feira de vaidades.


Dispo-me das coisas e dos apegos

E torno-me chama luminosa,

erguendo-me para ti, ó Divindade.

Vem. Desperta-me. Que eu seja.

Amen

                           7/3/93.

                        

sábado, 13 de janeiro de 2024

Um poema geométrico espiritual.

  Escrito já há algum tempo, numa serra.

«Na gruta da ara de água,

nos pingos concêntricos de irradiação,

vi o reflexo do cone misterioso.

A energia concentrada numa forma

adquiria propriedade miraculosa,

um ovo na ponta do coração.


E quando a noite cai como num poço reflexo

e vejo o buraco cavado na forma do cone inverso,

irradiação mais poderosa e larga no próprio lugar,

sei então que a descida energética cria o triângulo inverso,

reflexo dum outro plano, talvez dum triângulo no ar,

Mas não vejo ainda a quadratura do círculo da Natureza.

Será um dia realizada pelo espírito no coração!»

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

"A Peregrinação a Cristo", por Keshav Chandra Sen. 1880. Com vídeo. Nos 140 anos da sua ascensão.

                                                                
Foi uma invenção bastante original de um valioso pensador, filósofo, orador e místico, a Sadhusamagama, a Peregrinação aos Profetas, sadhus, ou santos, realizada em Colcota (Calcutá) ao longo de alguns meses de 1880, por Keshav Chandra Sen (1838-1884), e o seu grupo de associados ou discípulos do Bharatvarsya Brahmo Samaj, ou Nav Vidhana, a Nova Dispensação, a qual foi posteriormente descrita e publicada em livro.  Consistia,  através de leituras, imagens, roupas, caminhadas, orações, visualizações e meditações, em aproximações ou peregrinações a alguns importantes seres, santos ou profetas do Ocidente e do Oriente:  Moisés, Sócrates,  Sakya (Buddha),  Rishis (os videntes dos Vedas),  Cristo,  Muhammad, sri Chaitanya e os Cientistas (tais Galileu, Kepler e Newton). 
Realizavam-se de forma  original, com preparação em reuniões de leitura de textos sobre eles ou deles, seguindo-se a procissão ou peregrinação à Casa do Lírio, que era preparada de acordo com os mestres ou profetas que se evocavam e peregrinavam, havendo então as orações-discursos de Keshav Chandra Sen, com invocações divinas ou dos mestres, e com os adeptos do grupo respondendo, numa espécie de diálogo entre Deus e os adeptos-peregrinos.  Pode ler mais sobre a vida de Keshav e esta obra em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2024/01/comemoracao-dos-160-anos-da-morte-de.html
                                           
Resolvemos ler, traduzindo directamente d
o inglês a partir da edição do Sadhusamagama publicada em 1956,  pelo comité de Publicação da Nova Dispensação, da Peregrinação a Cristo, o sétimo Serviço Preparatório, intitulado Spiritual Insight, traduzível por Intuição, ou Vislumbre espiritual, dado conter compreensões ou intuições valiosas, e consubstanciar uma florescência cristã num notável espiritual do renascimento bengali do final do século XIX, ou então uma boa capacidade de discernimento e apreciação espiritual bastante universal, de Keshav, e no caso em relação a Jesus. 

Após os Serviços Preparatórios,  a segunda parte, a Jornada propriamente dita e que não gravamos, tem também hermenêuticas originais quanto a Jesus, ou então interrogações desafiantes, tais: «Ó Mãe Divina, o teu filho está já preparado para o seu trabalho com as pessoas. Que mecanismo  misterioso é esse que conecta a língua de Jesus com a Tua, fazendo dele a boca donde fluem pérolas preciosas de verdades divinas? Tu estás com ele enchendo-o da luz que irradia da sua face, e da ambrósia que brota em palavras para a cura do mundo (...) Ao lírio chamou ele o seu guru, e às aves do céu os seus amigos, porque lhe ensinaram o desprendimento correcto, - aquele ânimo que torna uma pessoa livre tanto do glamor do falso ascetismo como do medo «de estar no mundo. »

Além de poder ouvir a 1ª parte, com os comentários e contextualizações que me apareceram no fluxo da tradução, pode ler agora algumas partes dela :«Jesus era todo alma. Ele só tinha olhar para o espírito. Ele contemplava-Te, ó Divindade, em todas as coisas: e vendo-Te, e entrava no verdadeiro coração da Natureza, nos locais secretos do Universo. Ele não tinha um lugar a que pudesse chamar seu, e não tinha necessidade de nenhum. O reino da fé, o espírito no mundo era a sua casa. Quando olhava uma rosa, a flor parecia desabrochar num guarda sol, afastando o brilho e o calor excessivo. Quando Jesus contemplava o coração da flor de lótus, este parecia convidá-lo a repousar dentro dele.»

Jesus, visto por Bô Yin Râ
«A vida depois da morte não era para ele um tema de especulação. A sua fé  contemplava em visão imediata o outro mundo. Quando falou de haver "na casa do seu Pai muitas mansões prometendo quartos para todos", isso não era para ele uma doutrina ou ideia. O que viu com o seu olho espiritual, proclamou para todos no mundo. Quando  era perseguido pelo mundo, ele desferia um voo e procurava refúgio nessa casa espiritual invisível sempre presente.»
«Ele denunciou os descrentes como gerações de víboras, mas chamava a si os que acreditavam para  poder-lhes transmitir paz e repouso. Orientou os seres humanos para uma vida de fé, e ensinou-lhes os seus segredos. O seu ensinamento estava baseado na ciência. Ele levou as mulheres e os homens a verem Deus na Natureza. Sabia com certeza que quando entramos no reino da fé a alma-espírito, a mente e o corpo funcionam todos harmoniosamente. Então, o que nós pedimos ou oramos nunca fica sem se realizar.» 
Boa escuta, e boas inspirações e realizações.

                     

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Um colóquio entre Jesus, Erasmo, Ramakrishna, Antero de Quental, Bô Yin Râ e Fernando Pessoa.

Colóquio entre Mestres da Humanidade....

Diálogo travado entre alguns mestres e sábios no séc. XXI, no mundo imaginal e espiritual, segundo a aspiração e a intuição de Pedro Teixeira da Mota, invocando-os. Começado a escrever há algum tempo e publicado em 11-I-2024. 
Vera efígie de Jesus, pintada por Bô Yin Râ
Jesus: Aceitemos esta escrita invocadora nossa, e assim chegamos até vós para animar-vos, já que é bem visível o vosso sofrimento, frustração e indignação em relação ao estado geral das sociedades e dos seus governantes, e aos tipos de vida conflituosas, carentes ou oprimidas em que tantos se encontram.
Muitos aspiram à justiça, à luz, ao amor, à verdade e à felicidade, à fraternidade, à multipolaridade, mas estão tão envolvidos, contaminados ou oprimidos pelos ambientes negativos que dificilmente lhes chegam ao coração subtil as energias psico-espirituais  luminosas que irradiamos da aura da Terra. E contudo muitos poderiam resistir melhor às opressões e manipulações, e serem mais coerentes e plenos,  se sintonizassem connosco interiormente nas suas meditações, cogitações, orações e recebendo alguns raios  enviados subtilmente, internamente.
Erasmo, pintado por Quentin de Metsys
Erasmo: No século XXI as pessoas deveriam participar mais naturalmente no corpo místico da Humanidade e da Divindade, no Campo energético, de informação e consciência espiritual que une todos os seres, pese cada pessoa ser única e distinta na sua personalidade, dotada de livre arbítrio, embora saibamos que a maioria dos meios de informação e de cultura tentam sobretudo manipular, distorcer, desequilibrar o discernimento e o livre arbítrio das pessoas, para as explorar. Pelo que só podemos clamar: despertem, fechem as vossas televisões, controlem os telemóveis e internets e regressem mais à Natureza, façam agricultura biológica e alimentem-se com ela, peregrinem, dialoguem, leiam, escrevam, desenhem, esclareçam, curem e sobretudo orem e meditem mais para que possais estar mais religados espiritualmente.
O que era antes uma tarefa e designação reservada, o corpo Místico da Igreja, um campo de forças cuja cabeça era Cristo e incluía os crentes, santos e mestres, deve hoje ser entendido como acolhendo e abrangendo os seres de todas as vias, religiões, tradições e povos pois nos planos mais interiores e elevados do mundo, os espirituais e divinos, há uma só Religião, a Divina, a do Espírito e do Amor, e  a ela chegam e participam tanto pagãos e cristãos, como islâmicos e budistas, hindus e shintoístas, judeus, animistas e siks, desde que vivam justa, harmoniosa e fraternalmente para o Bem Comum e para a religação espiritual e divina e que saibam interiorizar-se pelo coração suficientemente.
Antero de Quental: Sim, nesta Religião e seus planos e templos subtis ou internos contribuem, ou podem aproximar-se ou entrar  mesmo, todos os que pela sua vida justa e consciência luminosa conseguem elevar-se acima das personalidades conflituosas e limitadas e comungam e vivem com os valores, virtudes e ideais da Humanidade: conhecimento,  cultura, sensibilidade,  piedade, justiça,  solidariedade  e, simultaneamente, conseguem perseverar na interiorização meditativa de modo a sintonizarem e religarem-se com o espírito, os mestres e anjos e a Divindade. Algo que eu não consegui realizar tanto, embora em alguns dos meus tão trabalhosos e sacrificiais sonetos tivesse invocado a comunhão com os mortos e noutros tivesse referido a meditação e a contemplação, sem contudo tê-la aprendida directamente de algum mestre ou tradição específica, o que é hoje no Ocidente muito mais fácil, embora haja muita mistificação e ilusão, muito ego nos instrutores e pouca realização espiritual...
 Fernando Pessoa: Muitas pessoas vivem num tal desassossego e superficialidade, tão apanhadas na agitação, manipulação e desinformação dos meios de comunicação,  que será bom para elas  reflectir e meditar os bons ensinamentos espirituais que possam encontrar através das pessoas, livros e religiões. No  meu caso não tive  muitas oportunidades de grandes diálogos espirituais, pois  poucos eram os amigos mais afins desses níveis. Na minha ânsia universalista gerei  heterónimos para dar voz a complementares visões da vida, mas a essencial era a espiritual, e na busca da qual li e anotei bastantes livros, talvez algo demasiado influenciado pelas ordens secretas e de  magia e que culminaram com o encontro iniciático com Alesteir Crowley, que tanto me impressionou, embora ele estivesse algo ligado a forças negativas,  ao menosprezar a devoção, o amor divino, a religação à Divindade eterna, que é o mais alto objectivo oculto e espiritual.
Frustrei-me afectivamente na solidão interior citadina, embora para mim propícia à poesia e a esse algo desanimado livro do Desassossego, solidão ainda hoje tão presente ainda que disfarçada pelos meios de informação cada vez mais ruidosos e omnipresentes,  pois não conseguem ocultar quão  enfraquecidas, manipuladas e perdidas se encontram tantas pessoas, mesmo com as seguranças sociais e medicamentos, os canais televisivos e espectáculos, as publicações, internets, redes sociais.  Fora da embriaguez dos mitos, ou dos ritos sem alma, as pessoas têm mesmo de trabalhar interiormente pela meditação e a oração, a abnegação e a contemplação, para terem mais vivência espirituais e despertarem, convindo ainda desenvolverem amizades profundas e espirituais, com vivos ou com os que já partiram, pois as inspirações e apoios são fundamentais para fortificaram as nossas auras, amor e vontade.
 Jesus: estamos a partilhar algumas compreensões, ensinamentos, ditos, que não exigem de vós demasiado, e que sem efeitos secundários serão capazes de vos harmonizar mais do que os medicamentos e distrações que dão lucros aos que exploram a  vossa ignorância e dependência psicosomática. Um dos principais é: "Procurai primeiro o reino ou nível dos céus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo". Disse-o há dois mil anos e repito-o hoje. 
Erasmo, pintado por Hans Holbein
Erasmo: "O que é o reino dos céus e o que é a sua justiça", perguntarão?  - O reino dos Céus é o mundo espiritual interior, mas que cada ser emana mais ou menos. É o mundo ou dimensão dos espíritos e onde pontificam o amor e pureza, a verdade e a fraternidade. Se estamos sintonizados ou afins dele, tal reflecte-se numa consciência mais serena e  alegre, a  de sermos seres espirituais, luminosos, ou filhos e filhas de Deus, personalidades por onde passa a Vida pulsante e vibrante e que em nós quer ser divinamente criativa, fraterna, multipolar.
Nesta sintonia ou pertença se pode pronunciar e emitir, mais ou menos sábia, amorosa e criativamente, a Palavra, o Verbo, o Som Primordial, o Logos divino, que é a vida inteligente no mundo, o Logos spermatikoi, o intelecto ou consciência  derramada universalmente, tal como, entre outros, os estóicos e indianos discerniram, a que temos acesso e manifestamos pela mente, o sentimento e a palavra, esta que tanto move as almas, na sua magia e terapia, como desde os tempos do Egipto, de Orfeu e de Pitágoras se ensina e conhece, e tanto se desenvolveu no canto, na poesia, na música, nas orações, nas litânias, nos mantras. E praticas tu esta arte sagrada do som e da palavra com regularidade?
Quando há pouco falei do corpo místico da Humanidade, estava já a apontar para este Logos spermatikoi, para esta Inteligência ou Intelecto divino que perpassa todo o Universo, tão trabalhado filosoficamente por exemplo pelos gregos e os islâmicos, tal Averróis, e que podereis sintonizar  nos níveis mais profundos ou  elevados da vossa alma, e que hoje no nível físico virtual, na internet, tem um bom reflexo..
Esta demanda é bem importante mas na verdade difícil: sintonizar e comungar diariamente, regularmente com o vosso espírito, o qual tem acesso ao Logos, Intelecto primordial, Amor-Sabedoria divino, para que não vos sintais tão frustrados, carentes e sofredores, como fatalmente sucede face ao que o mundo exterior  causa com as injustiças, guerras,  invejas, opressões, desilusões, doenças, mortes
Antero de Quental: Benditos os que conseguem ser puros do coração, quais lírios ou rouxinóis, ou seja, quem não se deixa corromper pelos poderes, distrações e manipulações do mundo e se limpa, alinha e persevera na religação interior e a celebra criativamente em esforços, cantos, poemas, danças, arte e abnegações.  Puros são os que conseguem regularmente abdicar do que se torna obstáculo para se acercarem interiormente do seu coração, aí onde mora o espírito e obterem algo da sua visão, pois conseguirão fluir no pan-dinamismo do Logos, que circula mais acessivelmente pelo corpo místico da Humanidade, com os seus mestres, guias, antepassados...
Esses são os que verão ou realizarão mais a fraternidade, a luz, o amor, a alegria e ainda, de quando em quando, na medida adequada, embora seja sempre  graça das graças, a bênção da Divindade. Os que sentirem mais dentro de si tal influxo espiritual, ou já certa religação  divina,  agirão mais calma e lucidamente, procurando que o Espírito divino, na profundidade íntima ou no seu panpsiquismo, brilhe e seja mais reconhecido, respirado e manifestado pelos seres.
Nós: - E que orações nos aconselhais? 
Fotografia de Bô Yin Râ (1876-1943), em Lugano, Suiça.
Bô Yin Râ: Muitos de nós ensinaram e escreveram sobre a oração, nomeadamente Jesus, Erasmo e eu, e poderemos aconselhar, por exemplo, os mantras e jaculatórias, orientais (tal o Om Mani Padme Hum Hri, que o missionário António de Andrade no começo do XVII trabalhou ecumenicamente no Tibete) e ocidentais, como os sentirmos mais, tal: "Meu Deus, vem nascer em nós.", "Meu Deus, venha a nós o vosso reino, ou influxo", e são bem  valiosos nos seus efeitos ao brotarem de almas e bocas que aspiram e  se vão tornando luzes na Luz, trabalhadores da seara divina, que é o mundo manifestado. Dos mantras orientais, referiremos ainda o o Aum Ah Hum, Hri,  o Aum Tat Sat, Om Vishnu Narayana, Tat Twam Asi, Om namo Shivaya, o Om Jivatman, pois eles  ajudam a harmonização das  forças psíquicas, o concentrar-se e  interiorizar-se, o alinhar-se com as forças espirituais  e logo  com estados de consciência mais profundos e iluminados, de tal modo que a serenidade lúcida, o amor compassivo, espírito e o Divino se possam fazer sentir ou manifestar mais.
  Nós: - Mestres amigos,   na Terra andamos sempre em processos de harmonização e cura, esclarecimento e pacificação, ao sofrermos e estarmos algo dilacerados pelo corpo frágil, e pelas instáveis e conflituosas personalidades, nossas e dos outros, e num mundo tão dividido e em conflito pelas  potências económicas, militares, ideológicas e egóicas.  Como vencermos tais obstáculos e desenvolvermos mais as aspirações, qualidades, valores e realizações espirituais?
Om Sri Ramakrishna Namah.
 Ramakrishna: Pois trabalhando nesta dialéctica: quanto mais desenvolvermos estados meditativos interiores espirituais, temporale e qualitativamente, mais as pressões e influências materializantes, dispersantes e conflituosas diminuem,  tornam-se menos opressivas ou esfumam-se mesmo.
Já no final do século XIX, em satsangs, eu dizia que as pessoas devem desenvolver mais a sua devoção (bhakti), o seu amor (prema), e a interiorização (pratathayara), usando curtas orações, ou mantras, e até escolhendo uma face ou  imagem divina, Ishta Devata, seja Jesus, Maria, Amaterasu, Fatima al-Zhara, Shiva, Vishnu, Kali, seja o Pai, Allah, Brahman, e tentando desenvolver então uma relação íntima e profunda,  com perseverança e em amor.
Meditai com regularidade e tentai manter a vossa alma aberta e sintonizada connosco, mestres e anjos, e  com o espírito, a Divindade, e as suas faces (já referidas) que mais sentirdes, Deuses ou Deusas, e no meu caso foi sobretudo a Mãe divina, Kali, e sereis inspirados a contribuir adequadamente para a realização espiritual libertadora das pessoas e a melhoria do estado geral da humanidade, do planeta, da ecologia, das sociedades e ambientes, da terra, mares e céus.
É o swadharma, a missão ou dever de cada um, que devemos discernir e aprofundar criativa, alegre e abnegadamente, dando exemplo discreto e desprendido de independência, discernimento e amor. E isto é possível ou fortifica-se com a prática regular de sintonização, oração e meditação. E numa vida de harmonia psico-somática e ecológica, em que o trabalho é realizado com consciência, amor e habilidade ou comensurabilidade.
Todos: Almas amigas, avancemos criativamente nesta grande fraternidade, em satsanga, ou companhia da Verdade, no Campo unificado de energia informação consciência, no Corpo Místico da Humanidade, no Cosmos! Aum...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

A Tradição Espiritual Portuguesa. Sete formas de a sintonizarmos, trabalharmos e comungarmos...

                                                                    
A Tradição Espiritual Portuguesa pode ser contactada através de vários ramos ou raízes da sua existência como milenária  árvore e eixo, interna e externamente, entre a Terra, portuguesa, e não só, e o Céu, o Mundo pluridimensional Espiritual e a Divindade.
Entre tais raízes e seivas destacaremos sete, a primeira sendo a invocação dos principais seres que deixaram forças anímicas, memórias ou obras com as quais podemos estudar e assimilar, sintonizar, comunicar. Se aprofundarmos bem esta relação mais íntima é possível  receber as bênçãos de tais seres ou das suas ideias e forças, seres que se vão assim libertando multiplamente da lei da morte e do esquecimento.
                                                        
Através desta prática espiritual, que é invocação e oração, meditação e contemplação, e que
poderíamos sintetizar talvez numa palavra nova, que ainda não está claramente cunhada, mas que não andará longe de sintonização e afinação ressoante, nós aspiramos e pronunciamos sentidamente os seus nomes e estabelecemos uma primeira ligação com a Tradição Espiritual Portuguesa, que tem no subtilissimo Arcanjo de Portugal o seu cimo.
                                              
A segunda, e certamente bem
importante, é saudarmos e invocarmos antepassados, ou apenas seres conhecidos, familiares e amigos, que já partiram, intensificando a relação vertical ascendente invocadora de correntes de luz e amor divinos para eles, embora se alguns deles precisam das nossas orações e energias, já outros podem ser auxiliadores ou inspiradores nossos...
A terceira, é escolher ou então in
tuir, seja no coração seja na cabeça, e pronunciar interna ou então audivelmente algumas palavras mantras da Tradição Portuguesa, que mais sintamos, como por exemplo: Ser, Sermo, Amor, Deus, Espírito, Anjo, Luz, Paz, ou ainda Spiritus, Ordo, Theos, Logos, Sophia, Gnothi se auton,  já que o latim e o grego, entre outras língua, tal a do Désir, e do Talant de bien faire, também entraram na Tradição Espiritual Portuguesa.
Essas palavras, ou c
ombinações de duas ou mais delas, tornam-se palavras, versos, jaculatórias, mantras e que ao longo da vida deveremos trabalhar, sondar, conhecer, aprofundar, deixando-as ressoar e moldar tanto o nosso vasto ser anímico como irradiar beneficamente para o ambiente e o mundo. Há aqui muito trabalho a fazer-se e muitas combinações de palavras e sons, em versos e orações, foram dados pelos nossos poetas e místicos, e por mestres de países que, por certas transmissões, até nós chegaram, tais como Ramakrishna, Yogananda, Guru Ranade e Bô Yin Râ. E se orarmos, mantrizarmos ou cantarmos bem, ou seja, se desenvolvermos as combinações de palavras eficazes na unificação e intensificação da nossa alma psico-espiritual, ou na dos outros e na portuguesa, poderemos merecer as graças de estados de visão espiritual, de expansão de consciência, de unidade e de bênçãos do alto ou do íntimo...
                                         
A quarta: meditar ou contemplar monu
mentos, pinturas, gravuras, formas geométricas, símbolos, artefactos, elementos da natureza mais notáveis (de serras, a rios e árvores), acontecimentos e feitos, ideias, ensinamentos  e livros que sejam marcantes, transformantes, significativas na Tradição Espiritual Portuguesa e nessa meditação e comunhão interior  haurir forças, impulsos, intuições, graças...
                                          
A quinta, é invocar, orar, m
editar e adorar a Divindade interiormente, o que se pode realizar por vezes também associando um ritmo de passada numa peregrinação, ou uma postura especial do corpo, braços e mãos, pronunciando-se as orações ou jaculatórias mais ressoantes em nós: tal, o «Meu Deus vem nascer no nosso coração», ou o «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos...» e «Oh Divindade, eu amo-vos de todo o meu ser», ou ainda a do Anjo da Guarda, o Pai Nosso, o Non nobis Domine, non nobis sed Nomini tuo da Gloriam, o Veni Sancte Spiritus, e outras...

                                      
A sexta é respirar mais co
nsciente e profundamente as energias prânicas, psíquicas e solares, assimilando-as nos centros de força psíquicos e pronunciar os sons ou vogais apropriados ou intuídos, algo ligado à demanda das palavras ressoantes iniciais... Em suma, devemos ir descobrindo os nossos mantras, orações, tais as tabuinhas douradas de orações para o além dos iniciados órficos.

A sétima,  é sintonizar e invocar e depois aspirar e sentir, e logo afirmar: «Eu comungo da Tradição Espiritual Portuguesa," dum modo sentido e receptivo e, se quisermos até, com alguma movimentação dos braços ou do corpo, tentando sentir mais a grã-corrente que interliga a Humanidade aos seres espirituais, mestres, anjos, e Divindade e que ultrapassa os intelectualismos das doutrinas ou os dogmatismos das religiões embora se tinja e fortaleça pelas  especificidades das tradições e nações e das nossas individualidades, experiências, intuições e aprofundamentos.

                             Boas inspirações e realizações! 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Um diálogo com Sant'Anna Dionísio: elos da tradição espiritual portuguesa, brasileira e russa, realizado no final da década de oitenta.

   Sant'Anna Dionísio (1902-1991), na sala onde trabalhava e dialogava, junto aos seus livros. Fotografia da RTP.
Transcrição dum apontamento manuscrito em folha solta, não datado mas dos finais da década de 80, quando ensinava Yoga e Meditação no Porto, no centro alternativo e restaurante Suribachi (ainda hoje valioso), e visitava Sant'Anna Dionísio com muita regularidade, nesta vez  com três alunas. Principais acrescentos contextualizantes entre [...], e reproduz-se o texto manuscrito.
                                        
«Para Sant'Anna Dionísio,
na [ou para os principais escritores do movimento da] Renascença [Portuguesa] não havia grandes mestres. Eram eles próprios. É claro que Antero de Quental e Sampaio Bruno  tinham sido e eram figuras importantes. E se o segundo era um pensador mas também um homem público de [tertúlias] de cafés, de Antero de Quental, ainda que nos deixasse, aqui e acolá indicações [duma maior espiritualidade], eram  fragmentos e quase que disfarçados, pois a época não era propícia. Por outro lado das suas próprias meditações há poucos registos [a não ser nas suas cartas, sonetos e em alguns dos contributos para o seu In-Memoriam]. E aí é que estariam os maiores testemunhos da sua originalidade e pensamento profundo.
Pergunto-lhe qual dos escritores que conheceu ou leu teria tido mais esse aprofundamento e sugere-me que um deles seria o brasileiro Raimundo de Farias Brito (1862-1917). Já entre [os dois grandes mestres russos] Dostoievski e Tolstoi, respondeu-me que o primeiro seria o mais espiritual, e que os russos sempre tiveram almas impressionantes.
Quanto à evolução do movimento da Renascença Portuguesa e dos seus escritores, lamentou-se que entre Lisboa, Porto e Coimbra, na altura, bem como agora,  houvesse muita separação, e que essa falta de entente prejudicou sempre os movimentos.
Tal como eu, penso eu, vindo de
 tempos a tempos ao Porto, para estar com Santana e Dalila [Pereira da Costa],  alunos e alunas, uns poucos deles mais interessados [para além das aulas, nos meus ensinamentos culturais e espirituais, mas não os acompanhando tanto como seria desejável.] Ontem levando a Manuela, a Petit (Gabriela Mariz) e a Teresa até a casa dele, reavivando-lhe ou satisfazendo-lhe um pouco a nostalgia e talvez o ambiente das tertúlias antigas [nomeadamente as mais extraordinárias sob o magistério de Leonardo Coimbra]. Será ele próprio que nos convidará a descer e ver os quadros e os livros do andar de baixo da sua casa [algo que raramente deve ter feito] e que nos diz [com a sua seriedade  profunda e grave], que aqueles momentos contam, que são sugestivos, que deles se podem extrair ideias [impulsos, aspirações]. Que se deveriam realizar de tempos a tempos tais encontros e fazer daquele local um centro. Que se deveria criar mesmo um centro de estudos. Mas está quase com 90 anos [Porto, 23 de Fevereiro de 1902 — Porto, 5 de Maio de 1991] e talvez as possibilidades de concretização sejam já muito escassas, pese a extrema lucidez com que funciona ainda o seu cérebro quase todo o dia.
Mas retomando
 as suas apreciações sobre os vários escritores [e os que manifestaram mais a espiritualidade], concordará que Teixeira de Pascoaes foi o mais pagão. Era um livre pensador e muito independente. Já quanto a Leonardo Coimbra, [que tanto estudou e ama], confessa que ele quando fora ao enterro de Teixeira Rego (1881-1934), ao dizer a frase "Este homem enganou-se", fazia-o também como católico [pois aderira mais ao Catolicismo, mas talvez também por Leonardo ser menos mirífico nas hipóteses esotéricas, que contudo conhecia, pois estudava e praticava, e em alguns livros partilhou, tal na Luta pela Imortalidade], já que Teixeira Rego acreditava em transformações espirituais, que este mundo era muito mais do que se via e que a própria humanidade havia de chegar lá [a esse estado de maior justiça económica e alimentar, gnose e  harmonia planetária].
                                
Já Álvaro
Ribeiro [1905-1981, na imagem] era algo ensimesmado consigo próprio, mas aqui e acolá nos seus livros fazia alusões [ao espiritual].

[Relembro-me de dizer que] Antero de Quental sofreu bastante no tempo de espera até que a morte chegasse, depois de ter disparado sobre si próprio. Foi também uma morte misteriosa [tal como a de Leonardo Coimbra, sobre a qual Sant'Anna tanto meditou e escreveu, embora a de Leonardo tenha chegado involuntária num acidente de automóvel, na Lixa, poucos dias depois de se ter convertido, embora sempre tivesse sido um ser crístico, um espiritual profundo, publicamente pelas mãos do beato Padre Cruz.]
S. Francisco de Assis e Antero de Quental. Sobre cada um deles escreveu Leonardo Coimbra: para o santo canonizado um livrinho de espiritualidade e para o outro "santo" tragicamente abnegado, sobre a sua elevada filosofia.

Assistiu ao discurso de Leonardo Coimbra no Jardim da Estrela [aquando da inauguração da estátua a Antero de Quental, a 18 de Maio de 1929, e que gerou como habitualmente grande levitação ou entusiasmo nos ouvintes]. Leonardo era sempre magnífico, falava de dentro, de improviso. Era um orador...

Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes, jovens flamejantes, idealistas.
Os livros de Teixeira de Pascoaes eram [além das suas pesquisas] também fruto dum diálogo consigo próprio. Eram os livros dum homem só.
No Agostinho da Silva falta qualquer coisa, mas está ainda forte.
O Teixeira Rego e o Sampaio Bruno eram fortes e avantajados, mas discretos.

 ----    Escrevo estas memórias agora sobre um pouco de relva num jardim portuense. Pelo fim da coluna vertebral entra algo da força do fogo latente no interior da Terra, que é aspirada pelo Fogo Solar e se funde dentro de nós no fogo do Espírito Santo.
Falei desta minha teoria do Espírito Santo como iniciação, como continuação da obra dos Mistérios [gregos] que ele conhece [e sobre os quais escreveu] e ele acha bem.
[No verso da folha:] O que é preciso é continuar, diz em relação aos que só publicaram um livro...»..., pois era um estimulador da escrita e, como dizia, da publicação de obras importantes, significativas.
E assim sobreviveram boiando no papel, com tantas limitações e omissões, umas leves palavras, imagens e ideias de um dos diálogos, sempre tão ricos e variados, com Sant'Anna Dionísio, e nos quais com frequência revisitávamos os escritores que ele conhecera pessoalmente ou mais amara, e sobre os quais escrevera, caso de Pitágoras, Sócrates, Platão, Antero de Quental, Leonardo Coimbra, Teixeira Pascoaes, ou ainda os seus confrades na aventura da Renascença Portuguesa e da sua inolvidável revista A Águia, publicada entre 1910 e 1932 e da qual Sant'Anna Dionísio veio a ser, com Leonardo Coimbra, o último director.
                               
Partilho, agora já no séc. XXI, estas anotações fugazes para alguns seres que ainda valorizam o memorialismo invocador e comungante de alguns elos e forças da Tradição Cultural e Espiritual Portuguesa dos séc. XIX e XX. Que saibamo-la continuar criativa e luminosamente!

Na época, Sant'Anna Dionísio, Dalila Pereira da Costa e Pedro Teixeira da Mota, diante do portal da bela e iniciática (conforme os seus capitéis) igreja românica de S. Pedro de Rates, Vila do Conde, numa das nossas peregrinações organizadas pela Dalila. Fotografia pelo senhor Acácio, feitor nas terras do Douro e condutor. Lux-Amor Dei!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Comemoração dos 140 anos da morte de Keshav Chandra Sen, um mestre do renascimento cultural e espiritual...

                                                                 

Comemoram-se hoje, 8 de Janeiro de 2024, os 140 anos da desincarnação de um dos grandes reformadores religiosos do século XIX, na Índia, Keshab (ou Keshav, ou Keshub) Chandra Sen, um dos da ínclita geração que impulsionou o famoso "Renascimento Bengali", preparando a independência indiana.
Nascera a 19 de Novembro de 1838, em
Calcutá, numa família  de pessoas cultas e devotas de Vishnu (vaishnavas), o pai morrendo quando ele tinha dez anos, sendo o avô, Ramkamal Sen, um conservador nos costumes (defendendo a sati, imolação da viúva), e  diligente trabalhador, tesoureiro e editor, que chegou a secretário da Sociedade Asiática. Keshav Chandra Sen foi desde novo um ser de espiritualidade marcada e já aos 17 anos criara uma associação de estímulo da educação e cultura, a Fraternidade de Boa Vontade,  com dois ingleses, mas será em 1859 que ingressa no movimento Brahmo Samaj [fundado em 1828 por Raja Ram Roy (1782-1833), e Dwarkanath Tagore]sendo acolhido de braços abertos pelo então presidente e filho de Dwarkanath, Debendranath Tagore (1817-1905), o pai de Rabindranath Tagore (1861-1941, prémio Nobel de Literatura em 1913), e trabalha como secretário do seu filho mais velho por algum tempo.  Pouco meses depois  criava uma associação, Sangat Sabha, a Associação Amiga,  com os membros mais entusiásticos e jovens, para estudarem os problemas sociais e espirituais da época,  nomeadamente discriminarem o que era certo e errado nos costumes hindus de então, e dissociarem-se de actividades consideradas idolatras ou imorais, valorizando a verdade, a temperança e o serviço desinteressado. Um dos membros era Bijoy Krishna Goswami (1841-1899) e, como Keshav Chandra Sen, cheio de aspiração à realização da verdade, e que se destacou rapidamente. De tal trabalho de jovens resultou da parte do mais ancião e presidente Debentranath Tagore a eliminação de certas práticas até então admissíveis nos membros do Bramo Samaj.

Debendranath Tagore, 15-V-1817 a 19-I-1905.

 Ao escrever em 1860 os opúsculos Jovem Bengala, isto é para Ti e Um Apelo à Jovem Índia, teve um grande impacto na juventude e celebrizou-se. Em 1861 funda com Debendranath Tagore o Indian Mirror, sendo assim o editor do primeiro jornal indiano em inglês, muito influente na reforma das mentalidades, nomeadamente vencendo os preconceitos de castas e tentando modernizar os conhecimentos educativos. Em 1862 é dentro do Brahmo Samaj nomeado acharya, ensinante, por Debendranath Tagore, e impulsiona reformas modernizantes e pragmáticas de ideias e costumes religiosos  milenários, viajando e pregando pela melhoria da educação e o trabalho das mulheres, a abolição da imolação das viúvas e a da proibição de casamentos entre castas diferentes e exigindo a proibição de casamentos de mulheres com menos de 15 anos. 

Ao acolher demasiado ideias e práticas cristãs gera-se porém em 1866 um desacordo entre Debentranath Tagore e Chandra Sen, de tal modo afectando o agraciado místico Bijoy Krisna Goswami que este abandona o Brahmo Samaj e encaminha-se para as linhas mais tradicionais da prática yogica (sadhana) e devocional (bhakti). Debendranath Tagore vai conservar-se à frente do Adi Brahmo Samaj (adi-primordial), mais ligado ao hinduísmo,  e  Keshav Sen, funda o Bharatvarsya Brahmo Samaj, ou Nav Vidhana, a Nova Dispensação, ou o Novo Ensinamento, uma designação (utilizada em várias tradições) que ele deu ao que acreditava ser a aproximação metodológica religiosa mais actual, que englobava em si todas as religiões e os seus santos, mestres e profetas, numa comunidade ou corpo místico e numa unidade que ultrapassava qualquer predominância e exclusivismo, de tal modo que a universalidade  deveria ser vivida por cada discípulo a partir de uma experiência interna, aceitando-se os textos sagrados e as práticas devocionais das várias religiões, e já não condicionada pelo hinduísmo e os seus diferentes deuses. Predominava assim um certo Teísmo unitário.
O vice-rei inglês John Lawrence, reconhecendo o seu g
énio e talvez crendo que ele se estaria a converter ao Cristianismo, ao valorizar a oração e o arrependimento, e ao apreciar Jesus e a sua mensagem, convidou-a  ir em 1870 a Inglaterra, a Londres, onde esteve seis meses, brilhando pela sua palavra inspirada sábia e entusiástica, encontrando-se com a Rainha Vitória, Max  Müller e Stuart Mill, mas sentindo alguma desilusão, bem natural face à vaidade e arrogância proverbial inglesa, resumindo assim a imersão no mundo britânico, no discurso antes de regressar à Índia: «Cheguei aqui como um indiano, e regresso reforçado como indiano. Cheguei como um Deísta, e regresso confirmado como um Deísta. Aprendi a amar o meu próprio país mais e mais».  

Tendo tido várias controvérsias quanto a reformas religiosas e educativas, ao permitir em 1878 o casamento, ainda que por procuração, da sua filha apenas com 14 anos com o noivo de 15, o filho do maharaj de Cooc-Bear,  contrário aos princípios que no seu Brahmo Samaj proclamara, causou uma forte desilusão em muitos dos associados que deixaram o grupo e criaram o Sadharana Brahmo Samaj. Com a sua desencarnação em 1884, sem a sua alma e palavra ígneas, a Nova Dispensação não encontrou um sucessor à sua altura e foi-se extinguindo exteriormente. Os seus discursos e livros, ideias e intuições, esses fazem parte do património imaterial da Humanidade e neste dia 8 de Janeiro de 2024, dos 140 anos da sua "Ascensão" da Terra física, viemos até ele e eles em peregrinação, grata e luminosa.... Aum, Keshab Chandra Sen!

  Muito importante na vida de Keshab Chandra Sen foi o contacto com o carismático e realizado mestre Ramakrishna Paramahamsa (1833-1886), que aconteceu em 1875, quando este foi propositadamente a casa onde estava Keshab Chandra para o conhecer e de certo modo para mostrar o que era a verdadeiro caminho de realização espiritual. Terá sido Narendra, mais tarde swami Vivekananda, que participava e cantava nas reuniões do Brahmo, quem terá causado esta aproximação, gerando um valioso diálogo entre ambos, e com os cantos entoados em êxtase por sri Ramakrishna diante dos seguidores de Keshav, a serem de tal modo impressivos que, quando aqueles lhe perguntaram no fim porque não reagira à leve ironia com que Ramakrisna os avaliara em termos de realização espiritual, Keshav Chandra Sen confessou que pregar sobre Deus, ou tentar ensinar Sri Ramakrishna, seria como oferecer alfinetes a um ferreiro. Keshav Chandra  aprofundará então, graças aos repetidos encontros  com sri Ramakrishna,  a aproximação devocional a Deus com forma, já que antes era mais um Teísta, vendo um Deus imanente como força omnipresente e como Criador adorado, sendo estimulado por Sri Ramakrishna para uma  devocionalidade de comunhão interna e de base tântrica ou shaktica em que a Mãe Divina era adorada principalmente. 

O Templo dedicado a Kali onde Ramakrishna era sacerdote em Dakshineswar  junto ao  rio Ganges, Ganga Devi...

Sri Ramakrisna gostava muito de Keshab Chandra Sen e as páginas do valioso Evangelho de Ramakrisna narram belos episódios dialogantes desse relacionamento não se dirá tanto de mestre e discípulo mas de duas grandes almas, tanto mais que como Ramakrishna era sacerdote num templo em Dakshineswar  junto ao Ganges, onde acolhia os seus visitantes e discípulos, Keshub ia buscá-lo de barco e singravam no tão sagrado e profundo rio Ganges em elevadas conversas por vezes entrecortadas por cantos que geravam estados de grande amor e felicidade em ambos e em quem assistia. Através de Keshav e do Brahmo Samaj, Ramakrishna tornou-se bastante mais conhecido em Calcutá, e ambos ofereceram uma visão mais universal e ecuménica das religiões e seus mestres, ao mesmo tempo que valorizavam e vivenciavam a realização espiritual interior. 

Em 1882 Keshab funda uma outra Nova Dispensação, um Novo Ensinamento libertador, e em seguida iremos lê-lo em alguns discursos ou textos, do ano de 1880, quando realiza de Janeiro a Setembro com os seus discípulos e seguidores o que ele chamou Sadhusamagama (e cujo livro, de 1956, me serviu para as transcrições in fine), isto é, discursos de aproximação ou peregrinação aos santos ou profetas, na sua característica universalidade da religião, e que foram a Moisés, a Sócrates, a Sakya (Buddha), aos Rishis (os videntes dos Vedas), a Cristo, a Mohamad, a sri Chaitanya e aos Cientistas (tais Galileu, Kepler e Newton). Realizavam-se de forma muito original, com preparação em reuniões, leitura de textos sobre eles ou deles, seguindo-se uma procissão ou peregrinação à Casa do Lírio, que era preparada de acordo com os mestres ou religiões que se invocavam e peregrinavam, havendo então as orações-discursos espirituais de Keshab, com invocações divinas ou dos mestres, e com os adeptos do grupo respondendo com orações, numa espécie de diálogo entre Deus e os adeptos-peregrinos.  Embora contenham aspectos de comparativismo algo superficial, ou sincretismo pouco fundamentado, nomeadamente ao equacionar como idênticos Jehova e Brahma, têm contudo aproximações bem sensíveis e originais a alguns dos mestres e ensinamentos peregrinados, e que valerão a pena ser estudados por comparativistas, orientalistas e espirituais.

 Oiçamo-lo então em 1880, a proclamar muito entusiasticamente algumas das suas ideias-forças: «Nos dias de hoje a Ciência matou a distância, no mundo físico pelo vapor e a electricidade, no mundo espiritual pela introspecção e a visão imediata (...) A ciência é o que nos ensina os modos da Divindade viver em nós e em toda a parte como a força espiritual que reside imanente. Olhai, e vede subjacente a toda a força secundária esta força imanente Divina, o poder central causal ou Poder Divino. Não vemos uma longa cadeia causal mas um círculo no qual tudo na criação está directa e imediatamente conectado com a força central.
Mas mani
festa-se este Deus vivo sozinho?.... O céu, o lugar de residência dos santos e profetas está incluído nesta visão de Deus. Todos eles habitam em Deus, e retiram a sua alimentação espiritual e inspiração dele. Todos eles brilham na luz do Sol Central e reflectem a sua Glória. (...) Está a chegar o tempo em que não só o Deus vivo revelar-se-á à visão imediata dos seres humanos por todo o mundo, mas também os santos desencarnados no céu manterão comunhão com os homens e mulheres nos seus corações». 

Esta doutrina do corpo místico, ou comunidade de mestres ou santos e santas, será reforçada no discurso de 11 de Abril de 1880: «Desde o começo da criação-emanação todos os santos e profetas enviados pela Divindade são mantidos juntos na matriz da união vital e espiritual, não só da Índia mas de toda a Humanidade. Assim no último dos santos todos os santos de todos os países estão juntos e unem-se numa festiva dança em círculo de amor (rasa-lila).  Este é o seu modo de se alegrarem, de celebrarem a união espiritual, a qual o devoto espiritual pode testemunhar na visão mística (ou no terceiro olho). (...) Apesar de pertenceres ao nível mais baixo (ou terreno) da Escola Divina, tu podes mostrar ao mundo que em cada um de vós habita a hoste unida dos santos e santas de todos os tempos. Se quereis aceitar a religião da Nova Era, - a religião da Nav Vidhana, a Nova Dispensação, então permiti que todas essas almas luminosas vão convosco para toda a parte. Não abandones uma que seja. Aprecia cada um e todos, mas toma cautela de moldares a tua vida apenas pelo padrão do teu santo ou mestre patrono. Nenhum profeta particular é o ideal da vida espiritual deste século, mas a espiritualidade de toda a hoste de homens e mulheres santos na sua totalidade será o teu exemplo. Todos os bons livros, todas as escrituras, todos os nobres exemplos que o mundo produziu devem ser aceites pelos que acreditam na Nova Dispensação. A Nav Vidhana apropriar-se-á de cada século o que de mais excelência espiritual existe. O mais ilustre e glorioso santo ou mestre dum século é o portador santificado dos valores espirituais desse século. O santo ou santa de qualquer período é o vaso escolhido de todo o bem de todos os que já partiram (...)

Ó irmãos Brahmo (na Divindade), tomai o vosso lugar no mais baixo dos vasos na ordem da dispensação, e assim como a água flui do quatro, terceiro e segundo nível para o primeiro, assim o elixir de todas as épocas do passado vivo fluirá até à vossa alma, e será como um presente celestial gracioso para a vossa felicidade. Cada gota desta ambrósia leva consigo a quinta-essência da precioso sangue vital dos abençoados de todas as eras, de tal modo que tereis uma experiência única de Hindus, Budistas, Islâmicos e Cristão todos unidos num só coração e alma. Abençoados, três vezes abençoados sóis vós aos serdes favorecidos com este presente da vossa Mãe Divina, tornando-vos herdeiros do reino celestial.»

Saudemos por fim Keshab Chandra Sen, e ainda sri Ramakrisna Paramahamsa, invocando as suas bênçãos e inspirações para todos nós e esta humanidade ainda tão manipulada e sofredora.  Aum, Lux Dei, Om Brahman!