quinta-feira, 4 de maio de 2023

Poemas do Caminho espiritual. Abril, 2023

 
Quando começo a meditar
e sinto a aspiração a Ti crescer,
 só posso exprimir na voz
o que de amor consigo gerar,
ou o que a Tua graça fizer chegar.

Estou em mim mesmo,
atento ao som do ambiente
e lanço no espaço
flechas de amor
em nome e mantras sagrados
iluminando o espaço circundante.
 
Entre crises, inflações e conflitos
Como não lutar, orar, cantar, meditar, 
pois só assim o coração arde e brilha
e a alma em luz se desvenda e irradia? 
 
Cada dia é um desafio de criatividade
na busca de soluções harmoniosas,
cada um energetizando-se a seu modo
as diferentes naturezas se manifestando,
ora calma ora conflituosamente se dando.
 
O que comes, ouves, vês e lês,
o que fazes, pensas e dizes,
será verdadeiro e harmoniza-te,
ou desequilibra-te, engana-te 
e vais pela estrada semi-manipulado,
no diálogo sem escuta e discernimento
e nem da luz interior reconhecimento.
 
Quantos demandam a pura verdade
e cultivam a meditação e a consideração?
Quantos escapam às narrativas oficiais
e independentes, lúcidos e livres avançam?
 
Medita bem as tuas opções:
ao que te associares te tornarás,
do que repudiares te libertarás.
e o teu corpo espiritual afectarás.
 
Sê pois justo, fraterno e libertador,
 buscando o teu ser espiritual no interior
e a acção sincera no exterior,
e a presença divinal te abençoará.
 
Ao acordares a meio da noite
medita, reza e canta com ardor,
e inflama-te no ser amor,
 invocação ardente da Divindade,
 desvendação  espiritual do Ser.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Uma carta do Irmão Lourenço, teósofo e da escola Arcana: vida e ensinamentos. Os livros da FEEU e do dr. Treiger em Portugal.

O ambiente e fraternidade no começo da República no Arsenal da Marinha.
 O irmão Lourenço, como era conhecido o engenheiro eletrónico Manuel Lourenço, foi um membro valioso do espiritualismo português desde os anos vinte-trinta, já que tendo trabalhado nas Oficinas do Arsenal da Marinha, ao Terreiro do Paço, encontrou lá uma iniciação não só operária e fraterna, pelo que era um simpatizante do partido Comunista, e só bastante mais tarde - numa vida esforçada - se tornando engenheiro, mas também a iniciação espiritual por parte de José Racalho, ocultista e teósofo espanhol, bom conferencista, que o acompanhou e estimulou, dotado de certos poderes psíquicos, como Irmão Lourenço me narrou algumas vezes, nomeadamente o sair em corpo subtil para ajudar pessoas que, tendo morrido, precisavam de ser mais despertas e clarificadas ou esclarecidas, ou libertas de apego aos ambientes a que estavam demasiado ligadas...
Maria O'Neill, a 2ª mãe do Irmão Lourenço, já que não tenho fotografia dele.
Recebeu também bastante apoio geral e espiritual, de quem dizia que fora a sua segunda mãe,  Maria O'Neill, 1873-1932, nascida de um nobre irlandês e de uma filha de um general, e que veio a ser a avó do famoso poeta Alexandre O'Neil,   escritora bastante precoce,  feminista, jornalista, pedagoga, autora de muitos livros para crianças, teósofa e, nos últimos anos, sobretudo empenhando-se na causa espírita, tendo colaborado em numerosas publicações e organizações tanto cívicas com espiritualistas.
O irmão Lourenço foi membro da Sociedade Teosófica e o introdutor nela, creio, dos ensinamentos de Alice A. Bailey e da Escola Arcana fundada por ela, sendo o responsável de reuniões às quintas-feiras e aos Sábados à tarde, na cave da Rua Passos Manuel, nas quais ainda participei algumas vezes.  De facto, a 1ª tradução em Portugal de um livro de Alice A. Bailey foi o 1º volume do Tratado dos Sete Raios: Psicologia Esotérica, que ele editou ainda à sua custa, embora a sua tradução enfermasse de vários erros derivados de ter traduzido da tradução em francês, língua que não dominava. Conheci-o nessa altura, por indicação do meu pai, que era também engenheiro civil e militar, e ainda fiz circular exemplares da obra. 
Acabei por ser eu a avançar na tradução o 2º volume, A Astrologia Esotérica, já directamente do inglês, e a carta que transcrevo em seguida fala nisso, tendo sido publicada  no Brasil, pela Fundação Educacional e Editorial Universalista, FEEU, colaboradora e distribuidora da Fundação Cultural Avatar, esta fundada em 1973 e dedicada aos ensinamentos espirituais de vários autores, e primacialmente do casal russo Nicholas e Helena Roerich e o seu Agni Yoga (pelo contactos de Jayme Trager, Vladimir e Tamara Bodegar e Sina G. Fosdick), de Alice A. Bailey e de Inayat Khan, e que na altura, além dos editados pela Editora Pensamento, eram dos poucos com mais qualidade acessíveis aos leitores de língua portuguesa. Conservo algumas cartas, embora já de 1984, do dr. Jayme Traiger, filho de russos emigrados para o Brasil, médico, depois homeopata e psiquiatra, e fundador e director da Fundação Cultural o Avatar bem como dos seus Boletins de Estudos de Ciência Espiritual O Avatar,  estes com as habituais exposições didácticas espirituais, por vezes algo superficiais e muito tingidos pelas ilusões da entrada e grandes transformações espiritualizantes da Nova Era de Aquário, que aliás tanto Nicholas Roerich e Alice A. Bailey parecem ter também optimisticamente admitido ou sonhado.
O Irmão Lourenço, já na altura viúvo mas com uma filha e um filho, recebeu-me várias vezes na sua casa, em geral aos Domingos de manhã, num bairrozinho típico atrás da igreja de praça de Londres em Lisboa,  dando-me uma certa iniciação forte no caminho do não-egoísmo e humildade, e ainda na meditação  e na mentalidade de serviço, já que ele era de facto uma pessoa com  imensa sensibilidade  contra o egoísmo, ganância e injustiças e muito aberto à consciência e vivência fraterna. Fiz chegar até ele algumas pessoas para sentirem e receberem o seu entusiasmo esotérico e fraterno, por vezes meditando-se e sentindo-se bons resultados intuitivos da nossa dimensão espiritual ou mesmo dos seres e ligações invisíveis que nos abençoam. Foi o caso do meu irmão Luís, ou mais tarde de Maria, como registei em diários.
Estava ligado a outras personalidades da época que se movimentavam no meio sobretudo teosófico e espiritual português, ainda que tivesse por vezes  discussões fortes com membros  mais fortes na afirmação das ideias das suas personalidades-individualidade, ou então menos receptivos aos ensinamentos de Alice A. Bailey, que ela terá recebido do denominado mestre Tibetano, ou Djwal Kull, e que sendo frequentemente respeitantes a dimensões tão elevadas e distantes do nosso plano físico que são completamente improváveis, fora da vivência pessoal de cada um, e logo relativas para os outros.
Das pessoas suas amigas convivi mais com Marcelle Costa Pina, ligada ao ensinamento da Cosmogonia d'Urância e à revista Ondes Vives de Jean Claude Salemy, que eu ainda contactei em França; e com Mário Pinto, que fundara a revista Infante Mensageiro, policopiada, no Porto, onde ainda colaborei num dos últimos números já que, nos anos 80 e começo de 90, aí habitei e ensinei meditação, Yoga  e caminho espiritual. O coronel Rocha de Abreu, era outro amigo (e peço desculpa dos que não nomeei), mas só me encontrei umas duas ou vezes com ele e não sei se terei anotado algo do diálogo, embora tenha uns pequenos cartões com ensinamentos, meditações, orações que ele distribuía também no seu afã de espiritualizar, na sua linha teosófica, o meio português
Após muitos anos de trabalho abnegado, o irmão Lourenço deixou a Terra ao ser atropelado por um carro,quando seguia com uma das suas fiéis participantes no ramo teosófico, a Josefina (muita luz e amor para os dois) e como nada encontramos na web que fale dele, e merecia-o pela sua vida tão abnegada e entusiástica pela causa espiritual e fraterna, e porque foi um dos meus primeiros instrutores ou, se quisermos, discípulos dos Mestres, eis um pequeno contributo, a que espero juntar outro.
A carta é valiosa na auto-caracterização de si próprio, mostra as tendências um pouco exclusivistas de alguns grupos esotéricos, no caso a Eubiose, de Sintra, e da Escola Arcana, em Geneve, algo que eu senti também pouco depois desta carta quando os conheci num dos seus encontros-conferências anuais, como ele menciona, desiludindo-me de tal via e partindo inesperadamente para a Índia à boleia em busca da tradição espiritual e yoguica viva e não de intelectualizações e construções quase incomprováveis e algo elitistas.
«Lisboa, 8/III/ 1977
                                                 Meu caro e bom Amigo e Irmão           Pedro Teixeira da Mota
Desejo-lhe boa saúde e a continuação de tão boas condições que vem mostrando em serviço prestado e que tem projectado prosseguir em escala crescente.
- Embora só tenho lido a sua carta que acompanhava o trabalho [de tradução do Trtatado dos Sete Raios, 2º Vol.) que o seu amigo foi portador, nem por isso deixamos de falar da Teosofia e afins, tendo-me ele prometido assistir ao Ramo das 5ªs fªs, pois pareceu interessado pelos nossos assuntos.
Quanto à rapaziada de Sintra tudo continua na mesma toada, i.é., eu com o meu entusiasmo, mesmo que amanhã desapareçam. Abrem-se pouco e sei ter reaparecido o Snr. que em Sintra dirigia os trabalhos lá e que foram censurados de terem aparecido na Sociedade Teosófica, dizendo que a Teosofia estava ultrapassada. É caso para dizermos – qual Teosofia?
Eu não ataco ninguém e muito menos que saiam de onde estão. O meu labor é e terá de ser construtivo e não tenho pretensões, senão com o devido cuidado de procurar (quanto me for possível) desfazer uma ou outra teia de aranha, mas nunca, de modo nenhum afastar alguém de onde esteja. Diligencio, quanto posso ser impessoal, eclético e sempre (aí - sim ponho ênfase), de agir com desapego, dada a necessidade para uma faceta a construir no meu carácter e muito precisa para o meu caminho.
- O que lhe passou pela cabeça quanto à revisão da parte não revista por si do 2º volume dos Sete Raios também me passou pela minha, mas não tinha a coragem para lhe pedir tanto, depois da dura prova da sua paciência e perda do tempo, a seguir ao trabalho que tem vindo a prestar. Claro que para mim e sobretudo para os futuros leitores da obra isso vinha maravilhosamente, mas para aliviá-la de tão grande frete pensava em falarmos ao seu irmão Luís para dividirem entre os dois esse trabalho. Estariam de acordo? [Acabei por ser eu a fazê-lo, enquanto ele preferiu traduzir a Bhagavad Gita da versão francesa de Sri Aurobindo, inédita.]
- Sobre os seus projectos na galeria Orpheu [em Guimarães] parece-me óptimo empreendimento da sua parte, pelo mostrar, além de dinamismo, grande esforço de serviço para que se conheça o que é necessário que seja conhecido – o mundo espiritual.
Quanto à participação bem sabe que os meus recursos literários são bem parcos, sobretudo para um público com elementos exigentes com bastante poder crítico, embora outra parte mais aberta às necessidades espirituais esteja apta a ouvir-nos. Contudo, não me furto a qualquer simpósio informal. É assunto para tratarmos frente a frente.
Sobre os triângulos [constituição de grupos de três pessoas e que meditam em sincronia] tenho material mas em linguagem para alunos da Arcane School. São folhas em separata que talvez se pudesse aproveitar.
A morada donde parte todo o material dos triângulos que funciona como departamento da Escola, é: World Goodwill, 18 Fincley Road, Hampstead, London, N. W. 3.
Gostaria de conhecer o que a Arcane School lhe respondeu, pois ela é um pouco exclusivista. Sobre tudo isto era admirável uma ida a Geneve por ocasião das conferências de que já faláramos em tudo isso e que talvez já pudéssemos levar o trabalho concluído porque é uma fieira [termo técnico de construção, viga] imposta por eles.
- Depois de passar este fim de semana com o Dr. [Jayme]Treiger, procurarei meio de virmos a contactar mais detalhadamente, para aclarar alguns destes pontos.
- Sobre o livro que acabou de ler Cartas sobre Meditação Ocultista de A. A. Bailey, não consta estar editado em português, mas creio que os brasileiros pensam na sua tradução. É assunto para concretizar com o Dr. Treiger. [Acabei por traduzir apenas o livro Do Intelecto à Intuição, menos o capítulo final...]. Como saberá pelo seu irmão Luís, o Snr. chega a Lisboa no sábado de manhã (10:00.) e parte para Londres domingo pelas 16:00. Está firmemente ligado à Fundação FEUS [que se tornaria fundação Avatar, anos mais tarde) que publicou os livros já cá chegados e que conhece de A. A. Bailey., seu irmão irá apresentar-lhe a proposta da mesma Fundação publicar o livro [Bhagavad Gita] que ele traduziu já grande parte. 
Por hoje sem outro assunto abraça-o o amigo e irmão muito fraternalmente,
                                 M. Lourenço. »
"Peço que dê ciência de tudo isso ao nosso querido Irmão Lourenço... Lux! Amor!" 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Um poema espiritual, num diário de 1990, Maio.

 Escrito em Maio de 1990, sob uma indicação: Encontros com algumas pessoas ao acaso

Discorreram-se páginas da história,
invocaram-se altas teorias,
socorreram-se os atarantados dogmas,
esbracejamos pelo não naufrágio
nas águas turvas dos hábitos.

Recolhemos memórias do passado,
Comungámos em certos momentos
em que os olhares puderam dizer amor
e sentir e admirar o ser humano real.

Cada ser tem a sua vocação
e ela é plena e autêntica,
se é sentida e vivida
        e em atitude espiritual assumida.

Cresce a consciência pela união dos 3,
corpo, alma e espírito,
Cresce o Amor subindo do desejo,
vencendo violências e egoísmos,
já sem prazeres nem sacrifícios
antes chama calma e inteligente.

Muitos mistérios rodam o mal,
não será possessão nem diminuição,
antes uma falta de consciencialização
do que é verdadeiramente o melhor.

Corremos horas e horas sem fio
Ora velando-nos ora desvelando-nos.
Caíramos por fim nas areias exaustos
enquanto os barcos aportam às praias
trazendo consigo mensagens e convites
que nos remoçam e nos fazem partir.

Aventureiros, messiânicos todos o somos
mas é em nós que temos de erguer a Luz.
Não basta a erudição nem a tradição,
é preciso a experiência e a comunhão
com o espírito, anjos, mestres e Deus.

Transmitirei ensinamentos espirituais
pelos pesquisadores descobertos,
pétalas da rosa da alma,
sangue do cálice sagrado,
raios e ondas do Sol Eterno,
       comunhão na Unidade Universal. 


Pingos Fluidos, nos jardins de Lisboa. Um poema, numa aurora de 1994.

        [1994, dum diário]      Aurora. 

PINGOS FLUIDOS

Os jardins da Lisboa recatada
são despertados pelas odisseias e laudes
desferidas pelos anónimos cantores
que, na linguagem dos pássaros,
se inebriam nos píncaros de suas visões
do resplendor solar e divino.

Quando tentamos com eles vibrar
sentimos o peso do nosso intelecto
incapaz de sublimar todo o cérebro
numa simples canção de amor e louvor.

Fremem de alegria, esfuziantes,
transmissores de ocultas mensagens
que silfos e elementais do ar
lá fabricam com o invisível Espírito.

Nós, adormecidos ou fatigados os corpos,
temos de despertar, aspirar e batalhar
para que a circulação irrompa de novo
e corpo, alma e espírito se realinhem.

Braços e coração abertos ao astro divino,
Cresce no nosso peito oculto resplendor:
Saibamos no dia vencer as limitações
e gerar belas e divinas manifestações! 

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Livros antigos e marginália espiritual, em gravuras, florões e empresas tipográficas. Iconologias nos livros.

Sê, sob as bênçãos da Tradição
 Descobre e trilha o caminho do meio, unindo as polaridades ou postos num caminho ascendente na vida rumo à Verdade, no além, e à Divindade, no espírito.

Descobre a música das esferas, presente-a no silêncio e tenta ressoá-la nos teus cantos, orações, mantras..

Que haja em ti alguma imutabilidade, alguma auto-gnose do subtil mas permanente ou perene espírito...
  Foca bem a tua visão espiritual e aspira ao sagrado e à verdade...
Que o sol e a lua, as polaridades em nós, estejam bem equilibradas e felizes!
Divina é a fonte de Amor, mas poucos bebem e dão a beber dela...
Que o nosso coração, floresça, desabroche, ilumine, flameje...
                                                        
             Oração aspiração da alma: Ó Deus, eu amo-te e quero amar-te mais. Inspira-me
Não enfraqueças nem te desvies demasiado do teu caminho e suas etapas
Na Tradição espiritual portuguesa, o veio da demanda ardente...
Insiste na invocação, sintonização, comunhão com o Anjo na aspiração à Divindade...
Ergue a tua energia de desejo aspiração ao Alto, em ti, e irradia...

Está em Amor. Sente, ou tenta ver e intuir, o íntimo do coração.Om

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Um poema espiritual nestes tempos que correm e por eles. Com pintura de Nicholas Roerich e de Bô Yin Râ.

Nestes tempos de transição mundial
Quando a guerra queima tanta alma,
Que poderemos nós desejar
senão  o discernimento da verdade
raiar no horizonte, dissipar ilusões,
arredar os criminosos do poder
fortificar a justiça e a fraternidade?

É certo que corpos e almas entregam-se
ao Amor e à Unidade, melhor ou pior,
ou conferenciam, oram e meditam pela paz,
mas serão suficientes tais emanações
para mudar o curso dos acontecimentos
e converter os mais egoístas e opressivos?


Haverá que refluir mais sobre nós
e, na comunhão interior procurada,
alcançar aquela paz e ligação espiritual
que acalma as tempestades e ódios
e permite a Luz divina nos banhar
e sobre os seres e o mundo se derramar.

A Primavera entrou e o Verão já espreita,
e o que semeamos colheremos.
Saibamos amar o que deve ser amado
e sobretudo quem mais deve ser amado,
não por dever ou obrigação
mas por  aspiração de apoio e comunhão,
por intuição das afinidades electivas
que nos impulsionam para a iluminação.

Talvez assim se vão entrelaçando
almas, famílias, grupos e povos
em actividades criadoras e libertadoras
que realizarão e viverão mais
a Unidade divina e espiritual,
para além das tensões e conflitos,
no ritmo do coração dado à compreensão.

Lisboa, 26/4/23, 21.07
                                         

terça-feira, 25 de abril de 2023

Ramanuja jayanti de 2023, a 25 de Abril. Ensinamentos breves, no seu 1006º aniversário.

                                               
                                               Ramanuja, Aum Sri Gurabe Namah
Sri Ramanuja (1017-1137) foi um dos mestres da espiritualidade indiana mais importantes nascido n
os tempos medievais pois abordou, a partir dos textos tradicionais, mas com originalidade e profundidade os mistérios da ligação ao espírito e à Divindade. E estando a trabalhar nele para o divulgar hoje, dei-me conta, ao procurar a sua data de nascimento, que era exactamente hoje 25 de Abril  o seu dia de anos, jayanti, conforme o calendário lunar de 2023.
Vivendo no Sul da Índia, r
eligioso em Kanchipuran, na linha Vaishnava,   isto é, seguindo um linha devocional (bhakti) e com adoração especial a Vishnu Narayana, era também um filósofo Vedanta, mas não tanto só Advaita, pois foi o fundador duma das quatro escolas, a que vê diferenças entre Atman, espírito individual e  Brahmana Divindade.
Comentou,
 na sua Bhashya, as obras principais da espiritualidade da Vedanta, nomeadamente os Vedas, os Brahma Sutras, as Upanishads, a Bhagavad Gita, tal como compete a qualquer novo acharya ou professor mestre dum novo ensinamento.
Perante a l
inha dominante do Advaita Vedanta, ainda hoje muito seguida, só há um Espírito, uma Divindade, uma Consciência, sendo os diversos seres apenas manifestações transitórias ou temporais dessa Consciência Divina una, Brahman,  que perpassa por elas, de tal modo que a iluminação ou libertação está em reconhecermos que não existimos, que a ideia de eu (ahamtva) é uma fantasia de ignorantes, um egoísmo primário, uma ilusão, tal como a ideia de que há espíritos individuais imortais, e que devemos é reconhecer esse Um Espírito Consciência omnipresente, omnipenetrante.
Sri Rama
nuja vai então afirmar que embora a Divindade seja essa entidade única de consciência ela é também um ser individual e que acolhe em si os seres individuais, que são eus conscientes ou conhecedores de si mesmo, do mundo e da Divindade suprema, Parabrahman.
                                             
No Vedartha-Sangraha, no qual expõe sua cosmovisão baseando-se ou interpretando as Upanishads, escreve no s. 99: «Os eus individuais (atman) são essencialmente de natureza de puro conhecimento, sem restrições e limitações. Eles cobrem-se de ignorância ou nesciência sob a forma de karma. A consequência é que a abrangência do seu conhecimento é cortada de acordo com o karma. E assim revestem-se de formas desde as divinas até às das espécies mais baixas. O conhecimento é então limitado pelas especificidades corporais, e de acordo com elas ficam sujeitos a prazeres e dores, que na sua essência constituem o samsara, o rio da existência transmigratória. Para tais individualizações, tão perdidas no samsara, não há outro meio de emancipação, do que se entregarem à suprema Divindade (...) A natureza essencial do eu individual é tal que ele é [ou deveria ser] completamente servidor e instrumento de Deus e portanto Deus é o seu eu interior (...). Esta entrega é trabalhada ou fortificada pela devoção amorosa à Divindade...
Chamar-se-à
visistadvaita ao seu sistema ou cosmovisão, pois há a unidade não dual divina, advaita, mas que inclui as diferenças em si, visista.  Face às três visões de relacionamento do mundo, eu e Deus vistas pelos rishis védicos e expostas nas Upanishads, a 1ª como havendo diferença de natureza entre eles, 2ª Brahman é o eu interior de todas as entidades, da terra ao ser humano, e que constituem o seu corpo, 3ª unidade de Brahman com o mundo tanto no aspecto causal como factual, Ramanuja afirmará, no Vedartha Sangraha s 117: «Nós sustentamos a Unidade porque só Deus existe sendo todas as outras entidades seus modos. Nós sustentamos ou afirmamos ambos, a Unidade e a Pluralidade, já que o Brahman um tem todas as entidades físicas e espirituais como seus modos e portanto existe qualificado pela pluralidade. E defendemos ou afirmamos a pluralidade já que as três entidades - os eu individuais, o mundo e a Divindade suprema - são mutuamente distintas na sua natureza substantiva e atributos e não há transposição mútua das suas características.»
Este com
entário às Upanishads, o Vedartha Sangraha tem muitas passagens valiosas. Uma delas, por exemplo, é aquela em que explica que o éter ou akasa interno, referido na Chandogya VIII, i, 3 como o éter contido no lótus do coração, é infinito como o do exterior e é a própria Divindade. Algumas vezes Ramanuja recorre a outros textos, tal no Mahabharata, Moksa CLXXIX,4: em que Brahma diz a Rudra: «O teu eu interior, o meu eu interior, e o eu interior de todos os seres em corpos é o senhor supremo Narayana».
Também no seu comentário
à Bhagavad Gita encontramos detalhadas compreensões destes mistérios primordiais. Oiçamo-lo quanto à Divindade, Brahman:
A suprema Pessoa ou I
ndividualidade (parama Purusa) cujo jogo (lila) é a criação, preservação e dissolução de todo o Universo, e cuja natureza essencial está livre de qualquer traço de imperfeição e que é auspiciosa, e que é o imenso Oceano de todas as qualidades auspiciosas começando com o ilimitado e pre-eminente conhecimento (jnana balaisvarya), força (virya sakti), glória, energia, poder e brilho, que são naturais em si, é chamada a suprema Divindade (Parabrahma)» Gītābhāṣya 18, 73.
Ou ainda:« O
 atman é emitido ou manifestado por Brahman, é regido por Ele, constitui o Seu corpo, serve-O, habita Nele, é mantido por Ele, e [por fim] Ele retira-se dele.» Śrībhāṣya, 2.3. 42
Quanto
 ao caminho da realização, como era um Vaishnava, um devocional e não tanto um yogi da linha do Raja Yoga de Patanjali, ele vai desvalorizar as capacidades de percepção extra-sensorial do yogi, da meditação e do samadhi, para valorizar a meditação (dhyana ou upasana) apenas como um relembrar (smriti) firme de um texto ou frase sagrada, que gera pela imaginação um tipo de visão semelhante ao da percepção directa, mas que só ganha a capacidade de conhecer atman ou Brahamn quando alcançar o estado de amor ou devoção, bhakti prema.
Mas este estado de am
or e do mais elevado conhecimento vem ou acontece por graça e por isso cita no Vedartha-Sangraha, a famosa frase da Katha Upanishad, 2. 23: «Este Atman  não pode ser ganho pelo estudo dos Vedas, nem pelo pensamento, nem por muito ouvir; só aquele que Este Um escolhe, por ele, Ele é obtido; a ele este Atman revela a sua própria forma.»
                                      
Realçará muita a medit
ação devocional amorosa pelo Atman, já que pela sua indiferença ao mundo e o forte amor concentrado para com a  Divindade que gera, a pessoa consegue ser escolhida ou recipiente da Graça Divina.
A meditação ou a visão yoguica não leva, para Ramanuja, à auto-r
ealização, ou à realização de Brahman, mas apenas serve para gerar a devoção ou amor à Divindade.
E assim o camin
ho religioso ou espiritual para Sri Ramanuja  consiste em estudar os textos sagrados para obter um conhecimento correcto, em desenvolver as virtudes da equanimidade e generosidade, em realizar as acções desinteressadamente e como adoração a Deus, o que gera desprendimento e calma e, finalmente, a meditação ou visão do atman interno individual (atman darshana) que gera gratidão e devoção à Divindade, a qual deve ser aprofundada ainda pela consideração ou meditação dos Seus atributos, levando a que  Ela se manifeste ou desvende mais, nomeadamente como a regente interna  (antaryamin), a voz da Consciência de Antero de Quental, o reino dos Céus que está dentro de nós.
Saudemos e invoquemos as bênçãos de Sri Ramanuja e que a nossa devoção ou amor à Divindade aumente.
Bibliogr
afia utilizada, da tradição tão  valiosa deste mestre  e que foi abordada brevemente mas que esperamos aprofundar ainda:
- Sri RAMANUJ
ACARYA. Vedartha-Sangraha. English translation by S. S Raghavachar, with foreword by Swami Adidevananda. Mysore, Sri Ramakrishna Ashrama, 1978.
LESTER,
Dr. Robert C. Ramanuja on Yoga. Madras, Adyar Library and Research Center, 1976.