quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Interrogações animicas e demanda espiritual. Como resistirmos e o que desenvolvermos espiritualmente. Um contributo.

 Este texto, concluído em 25-11-2021, que seria para o livro em preparação Ensaios Espirituais, é dado à luz antes no blogue, pois talvez seja mais lido do que em livro, uma realidade que teremos contudo de avaliar futuramente, pois poderá um dia, e  aprofundado, ter lugar nele. Cinco pinturas de Bô Yin Râ, bastante apresentado já neste blogue, e um Y pitagórico, ilustram-no.
- Por quanto tempo mais estaremos nós, tu e eu, vivos e com capacidades transformadoras?
- Quantas décadas aguentará o planeta a carga poluente e esgotante da vida moderna humana, e sobretudo das sociedades capitalistas mais ricas ou industrializadas, e das zonas de lutas e guerras constantes? 
- Quanto tempo mais as pessoas aguentarão a manipulação e opressão dos media e dos governos? Ou, pelo contrário, até quando é que haverá resistentes às narrativas, opressões e massificações sociais em curso?
- Como é que pode haver mais seres humanos, comunidades e grupos despertos e harmoniosos com a Natureza, os seres animais, os humanos e angélicos seres e com a Divindade na sua multidimensionalidade? 
 
 Eis algumas das perguntas que ressoam dentro de mim e de ti,  no peito e na cabeça, e em algumas conversas, livros, grupos, reuniões...
A força destas ideias-questões virá provavelmente, para além de serem de toda a humanidade, do espírito suscitá-las ou sustentá-las, não as deixando desvanecerem-se. E por isso elas ultrapassam  as barreiras da efemeridade e manipulabilidade do quotidiano e amoldam-se poderosamente ou subtilmente nos  recônditos do nosso ser e sensibilidade da alma de tal modo que intuímos que nos lançam tarefas profundas: participarmos na alquimia de tais questões e demandas, lutas e desafios actuais.
 Pessoalmente sinto ser uma tarefa  exigente, tanto quanto a afinidades grupais como à forte interiorização e individualização requerida, bem  contrária ao ritmos dos nossos dias, em que predominam as pessoas apressadas ou as turísticas, por vezes tensas, e desgastadas embora  tentando conservar a cabeça erguida, face aos receios dos vírus, que açaimam muitas, a maioria fatalmente arrastada pela luta  pela sobrevivência, mais ou menos egoísta, e que em geral provoca o esquecimento dos seus níveis e estados de alma mais profundos.
Hoje é bastante raro conseguirmos estar com alguém em paz, sabedoria e amor profundos, deixando os corpos e níveis anímicos e espirituais virem ao de cima, em silêncios, olhares, tactos, sentimentos e palavras ressoantes.  No trabalho, as vibrações psíquicas stressadas, as palavras que saem dos carretos ou cânones, as lutas pelo poder e invejas, afectam-nos. O ambiente internacional está igualmente tão perturbado pelo covid, as vacinas, os lockdowns, os desequilíbrios sexuais, as cargas policiais brutais, o imperialismo norte-americano, o sionismo israelita e a criminalidade saudita no Yemen, que ondas de sofrimento e indignação cruzam muitas almas e por vezes tocam-nos.
Reentrarmos então a nossa vista para dentro tentando debruçar-nos a pique e deixar-nos cair-entrar nas profundezas, nos níveis das raízes medulares onde fermentam energias e sensações semi-ddesconhecidas, ou aspirarmos às altitudes da alma, para os níveis das florescências onde despontam pensamentos, visões e intuições, é tarefa que temos de realizar com persistência e diligência, até para trazermos alguma ideia, compreensão ou metodologia nova que nos clarifique e ajude as pessoas a harmonizarem-se, a estarem mais calmas, lúcidas e a conseguirem ligar-se  ao Espírito, à Felicidade, à Divindade, ao Amor...
Se me relembro das  vezes que consegui atingir ou desencadear uma vivência e depois compreensão mais forte do nível espiritual ou ainda da unidade cósmica através da minha interioridade, e a penso partilhar, quantas pessoas a aceitarão valorizando-a minimamente?
Mesmo assim, falemos do que pode acontecer nas meditações, em que com o decorrer da nossa vida na Terra e entrada na curva descendente da força do corpo físico, se nos abrem mais  vistas subtis  sobre espaços interiores, florestas, árvores, flores, plantas e pedras. Ou até  animais, que nos revelam significações, em intuições rapidíssimas a passarem pela consciência lúcida  que as vê como numa espécie de filme em miniatura projectado no nosso ecrã interior,  animais que correspondem humanamente a sentimento destilados, ou a hábitos mantido por longos anos, ou  pensamentos erguido laboriosamente.
"Surpresa, surpresa", exclamaremos nós, face ao sentimento interior discernido e ao que se gera de compreensões, tais como a de que textura e formas dos suspiros das pastelarias têm certas afinidades com alguns sonhos e desejos subtis das pessoas,  capazes de gerarem ondas ou pombas brancas a voar no firmamento interior.
Podemos compreender também a origem dos animais fantásticos nas  obras de Hieronimus Bosh,  ou como o dar nome aos animais dos mundos interiores corresponde a conseguirmos identificá-los, consciencializá-los e, logo, controlá-los, sublimá-los, utiliza-los adequadamente, tal como é o cavalgar o dragão ou o tigre...
 Compreender também que estamos constantemente em encruzilhadas,  que nos fazem ora entrar ora sair de nós próprios, que são desafios sociais, televisivos ou interneticos que tentam atrair-nos, envolver-nos, captar-nos e frequentemente massificar-nos, para passarmos a ser um dos milhões que estarão a ver (e a sofrer) tal programa na televisão, ou tal notícia nas redes sociais, ou a consumir tal produto propagandeado.
Assim a cada momento, a cada escolha, a cada adesão, desistência ou repulsão estamos a sinalizar ao Cosmos e seus seres e a nós próprios  que nível realizamos na ponte entre a terra que somos e o céu de que somos parte e ao qual aspiramos.
                                  
Esta aspiração, este fogo interior, é o que nos faz deter em certos momentos, em encruzilhadas, pelos antigos pitagóricas simbolizadas no Y ou bivium, a forquilha da escolha  de um dos dois caminhos, num dos quais nos densificaremos ou obscureceremos. Assim podemos criativamente escolher como iluminar as nossas  almas e ambientes pelas mais opções mais coerentes, éticas, ecológicas ou harmoniosas, que põem e acção  capacidades  ou actividades de manifestação do espírito divino, luminoso e feliz, que é a nossa essência e para a qual o famoso e tão discutido (e diminuído...) livre-arbítrio fundamentado é fundamental...
Mas como melhor esclarecer  práticas, ou descrever metodologias, que possam em verdade e concretamente ajudar as pessoas e a Humanidade a tais consciencializações e harmonias?
Aproximemo-nos da alma, da luz, do céu, das cores, dos seres subtis...

Este céu interior, que nos chega de quando quando em visões de azul imenso e dourado, é accionado pele espírito, pois é ele e a abertura dos centros da alma que se tornam as portas para a Divindade, para as Suas Faces divinas, para os mestres, anjos e arcanjos  nos poderem tocar já que eles emanam vibrações e imagens tão ricas de cambiantes, significados e impulsões que  ficamos muito deslumbrados e gratos quanto tal merecemos...
Se fechamos os olhos e persistimos em deixar passar ou assentar as nuvens e neblinas dos pensamentos superficiais e quotidianos, podemos por vezes receber certas cores e formas, ou captar certas correntes minúscula de imagens, ou ainda aperceber-nos dum ouvir interno que, mais do que os diversos sons do exterior que chegam, regista o som do rio perene que corre pelo nosso crânio e que, sintonizado pela nossa consciência, nos pode  servir como fio de meada para a desejada comunhão com o mítico som primordial, vibração ou palavra divina.
  Sim, a subtil música das esferas de Pitágoras, ou o misterioso Reino de Deus, subtil mas firmemente, dizem-nos: - "Para além de todas as dores e dificuldades que atravessas na tua vida humana, lembra-te que pela audição do silêncio, pela aspiração à verdade, ao bem e à misteriosa Divindade, te aproximas da comunhão interior com os mundos e seres espirituais."
Quando sentimos isto podemos quase verter lágrimas, sobretudo quando atravessamos momentos difíceis e constatamos que não somos esquecido do Alto interno, profundo e universal. E há que fazer então algumas sintonizações do silêncio e da respiração e logo voos ou subidas para o Alto neste espaço silencioso tanto  interior como exterior que é o substracto do imenso e variado Mundo, tanto das ondas e partículas como dos sonhos, visões e actos, e que tão pouco conhecemos conscientemente nas suas características e causalidades.

Alguns gestos ajudam-nos, e em todas as religiões e tradições os encontramos, assim o erguer os braços é-nos natural, embora por vezes as dores das fracturas e feridas os baixem de novo à terra e humildemente tenhamos de reconhecer o valor da purificação em todo o caminho de conhecimento e de verdade. Mas claro, respiração e gesto ou movimento, como no Tai-Chi ou Hatha Yoga, ou nas nossas criatividades são meios valiosos para nos alinharmos, fortificarmos ou harmonizarmos...

Todavia, a imobilidade é o que permite mais entrarmos interiormente no coração em oração de gratidão e conciencializar-nos dos ritmos numerosos que atravessam os corpos físico e subtil, e deixarmos que eles venham ao de cima e respirem ou suspirem de alívio, graças à restauração das circulações em zonas do corpo afectadas, e que se libertam assim da lividez das sobrecargas, tensões, medos e más posições do quotidiano. É pela respiração aprofundada e o coração sintonizado que descobrimos uma pulsação ou ritmo por todo o nosso ser silencioso e sensível, o qual pode abrir-nos a sentirmos ou intuirmos, nos níveis subtis da alma, energias e inspirações luminosas.

O nosso coração pode tornar-se então uma grande abertura onde ora um sol dourado esparge os seus raios ora um oceano sem limites envolve-nos,  convidando-nos a uma natação suave e beatífica.

Também a fronte abre-se em olho e pode tornar-se ora um telescópio que nos faz ver o longínquo no sistema solar e no Cosmos, ora um caleidoscópio onde belas cores ou formas voltejam.

Se nos verticalizamos bem, somos como que arrancado a nós  próprios e a alma sente-se como energia cósmica presa como um papagaio colorido por um cordel ao braço ou âncora do corpo, qual barca da glória ou no caminho para a Luz, Kvarnah ou Xvarnath, na tradição zoroástrica e persa.

Podemos sentir então a paisagem ou ambiente da alma como uma foz,  e vamos numa barca, entre o rio e o mar, por entre remoinhos rítmicos, e subimos e descemos até de repente sentir-nos já como uma gaivota célere, livre, aspirando ao divino e infinito.

Por vezes, no vento que nos empurra,  vemos imagens ou intuímos  palavras sob a forma subtil de correntes energéticas nas quais, ao mergulhar ou entrar, podemos identificar as proveniências particulares: se uma constelação celestial ou um espírito celestial poderoso, ora ainda os mundos arquétipos e geométricos derramando virtudes divinas em raios e formas geométricas... 

Transformadoras e benéficas  são estas descobertas, estas vivências internas, pois quando abrimos de novo a consciência à horizontalidade da vida e do quotidiano observamo no nosso ser amor e paz profunda e até olhos, corações e ouvidos como que tremelicam ou latejam ainda com as cintilações donde viemos, e sentimo-nos com mais capacidades e vontade de ajudar os que nos rodeiam e que sofrem e aspiram a harmonizar-se e iluminar-se mais...
Assim vamos vivenciando o que foi ensinado pelos instrutores e mestres, ao longo dos séculos, dum modo que não nos perturba nem egotiza, antes ganhando sempre forças e paciência para as descidas às caves do nosso ser, às contas do passado, às dores e sofrimentos corporais e afectivos, às injustiças, sofrimentos e opressões e inépcias político-sociais, que tanto sanguesugam o melhor da Humanidade e de Gaia.
E a cada provação, a cada boa meditação,  o nosso ser perene vai talhando a sua consciência e forma e emanando harmonias. A certeza da vida futura no post-mortem e a da realidade do espírito e de Deus tornam-se medulares, ou colunas, do nosso ser e por vezes podemos tentar até introduzir tal consciência nos nossos  ainda assim frágeis e tão esquecidos ossos, de modo a verdadeiramente ressuscitarmos ou animarmos as nossas pedras de fundação últimas corporais.
É importante compreender que a vida é uma aventura, uma missão espiritual para todos os seres, mas que quase todos acabamos por a encerrar em limites tão estranhos aos seus fins originais de religação e libertação, e tão estreitos face a sua dimensão infinita e universal que quase todas as religiões e filosofias se tornam as práticas e os recreios de escolas primárias ou, vá lá, secundárias, embora nelas alguns mais devotos ou conhecedores as aprofundem muito bem pelo amor e a sabedoria, para a fraternidade, a liberdade e o Divino...
Com poucos seres poderemos compartilhar esta sabedoria que em nós renasce constantemente, pois a maioria  deseja ainda muito as ilusões e atracções externas da vida: riqueza, poder, prazer, posses, prestígio, distracções...
Temos então de deixar apenas que essas energias superiores passem  por nós, ou se ergam em centros específicos internos, e irmos pelos dias e ruas ora como aves em voo sereno, ou caminhantes peregrinos na calma atenta e forte que só se expande mais na afinidade com algum reencontro mais luminoso e afim, seja humano, da natureza ou da arte...
Certamente que por vezes devemos escrever, focalizar no papel, gerando mapas, as correntes subtis e profundas do oceano da alma, alertar algumas pessoas para estas lutas e explorações tão importantes e significativas para o auto-conhecimento, a realização imortal e  a harmonia dos seres. Como se as explorações ora fascinantes ora alarmantes dum comandante Cousteau tivessem o seu acompanhamento condigno nos níveis invisíveis, com tantas fossas do Mindanau inacessíveis à luz dos olhos, cheias de fogos subterrâneos, paixões e fanatismos que urge compensar com educação para a não-violência, ética e descidas da Luz mais divina e amorosa..
Escrevo assim porque me parece curial e transmissível o apelo espiritual que eternamente nos penetra, mas a que tão pouco ligamos, pois também nas alturas se travam batalhas para que a poluição terrestre não só não estilhace a camada do ozono e aqueça demasiado a terra, como pela sua densidade e confusão psíquica a humanidade não seja isolada das energias luminosas que tentam elevar e espiritualizar as consciências humanas, ainda tão sub-animalmente limitadas e destrutivamente desequilibradas por múltiplos hábitos e interesses egoístas.
Entrem pois as correntes espirituais, musicais e luminosas pelas nossas almas, peitos e ambientes. E como seres espirituais ergamo-nos para as tarefas e desafios que nos cabem, sabendo inter-comunicarmos e agirmos unidos e luminosamente, e em cada novo dia conscientes de podermos manifestar mais qualidades divinas que podemos e devemos desenvolver para uma melhor peregrinação e evolução de todos rumo à Divindade...
Eis o propósito final deste escrito, que deposito na sua alma leitora e afim. 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

João de Deus e Antero de Quental, ou as "Folhas Soltas" enaltecidas por Antero. Com o poema "Adoração, dedicado a Fernando Leal e comentado por Pedro Teixeira da Mota..

                                      

ADORAÇÃO

 (A Fernando Leal)


Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par!
Contemplei-o de longe, mudo e quedo,
Como quem volta d'áspero degredo,
E vê, ao ar subindo,
O fumo do seu lar!

Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual!
Suave como lâmpada sagrada,
Benvindo, como a luz da madrugada,
Que rompe ao navegante
Depois do temporal.

Vi esse corpo de ave!
Que parece que vai
Levado, como o sol ou como a lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!

Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!

Tremo apenas pressinto
A tua aparição!
E, se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor o que eu sinto!
É uma adoração!

Que as asas providentes
Do anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!»
 
Eis um dos belos poemas de João de Deus publicado nas Folhas Soltas,   dadas à luz pela Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, ao Largo dos Loios, no Porto, em 1876. 
Adoração dedicada ao seu grande amigo Fernando Leal, e embora  pouco saibamos de tal amizade, como Leal foi amigo de Antero de Quental desde Junho de 1880 observamos em algumas cartas posteriores de Antero de Quental a João de Deus interrogá-lo  por ele (e Gomes Leal, pois eram parentes e amigos) e enviar-lhes cumprimentos.
João de Deus, nascido em S. Bartolomeu de Messines em 8 de Março de 1830, tinha já 46 anos, e era bem mais velho que Antero de Quental, nascido em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, em 18 de Abril de 1842, e que Fernando Leal, nascido em Margão, na Índia, em 15 de Outubro de 1846, e que após uma vida de oficial e explorador botânico, a conselho de Antero, regressou à Índia e se casou, curiosamente com a irmã da minha bisavó. Foi a dedicatória a Fernando Leal, a 1ª do livro, seguindo-se-lhe uma a Luciano Cordeiro e outra a Gomes Leal, que me impulsionou a escrever este artigo quando folheava as Folhas Soltas.
 

Dessa maior madureza e classicidade estava bem consciente
 Antero de Quental que numa carta ao poeta  Tommaso Cannizaro, seu tradutor para italiano, e amante da Literatura Portuguesa, dez anos depois, em 5 de Dezembro de 1886, refere deste modo as Folhas Soltas:
 «Não sei porque esquecimento deixei em tempo de lhe enviar esse outro volume de João de Deus: Folhas Soltas. Remedeio agora esse esquecimento. Há neste volume muita coisa satírica e jocosa, que só os da terra podem apreciar e até entender, pelas alusões a coisas e pessoas de cá e pela linguagem familiar. Entretanto no meio dessas composições especiais, que para Você não oferecem interesse, encontrará outras líricas, do mais alto valor, e até não sei se diga das mais belas entre todas as deste incomparável poeta, pelo menos esteticamente, pois representam o seu período de equilíbrio e madureza perfeita, o período clássico ( se assim posso dizer) em que cada artista ou poeta atinge a sua maneira definitiva e a plena harmonia das suas faculdades de expressão. Pelo contrário, 3 ou 4 dessas composições (como, por exemplo, "Quando a luz dos teus olhos contemplo") são das primeiras que ele fez e quase ao sair da adolescência. João de Deus, como Rafael, tem variado umas poucas vezes de maneira, sem deixar de ser sempre o mesmo». Anote-se que uns meses depois Antero, respondia  a Tommaso Canizaro, que lhe pedira a morada de João de Deus ( Rua de S. António à Estrela, 138): «Deste nosso lírico lhe enviei, haverá três meses, o volume das Folhas Soltas, onde ao lado de muitas fantasias epigramáticas ou burlescas e de interesse só local, encontraria algumas das mais belas inspirações líricas do Autor»
Sentiria Antero de Quental esta Adoração, de João de Deus, como das mais belas? Creio que sim: na primeira sextilha, há a sensação da visão ao longe do olhar da amada,  como a do peregrino ou desterrado avistando por fim o lar.  Na segunda sextilha, João de Deus discerne no olhar dela um fluido especial, certamente do amor, e a luz santa, sagrada que irradia é como o bom porto para o navegante. Na terceira,   sente a sua corporalidade como que celestial, leve e majestosa. Na quarta, catolicamente, e João de Deus sempre o foi, ao contrário de Antero, face à atracção que o tenta, eleva-se à luz que ela irradia e sente-a mais como mãe. Na quinta, João de Deus vai ainda mais longe na sublimação da mulher que o atrai e encanta, pois se próximo dela estivesse, cairia de joelhos e a adoraria. Há como que uma elevação da mulher amada a face feminina da Divindade, algo que ao longo dos séculos muitos já sentiram enquanto cavaleiros do Amor perante a Amada que deixa passar através de si algo da Divindade, e se torna de certa maneira Deusa, Grande Deusa. Finalmente, na sexta e última sextilha, João de Deus vai ter de abandonar o seu voo poético amoroso e, podendo conclui-lo de várias maneiras, escolhe uma sublimação última, a amada não será como um anjo para ele, mas sim reza para que o seu  Anjo da guarda a proteja, já que ele se limitará à adoração de longe. 
Resta-nos concluir este poema de encantar contando que João de Deus se casou com Guilhermina das Mercês Battaglia em 1868 e teve dois filhos (um dos quais o continuador da sua obra pedagógica) e duas filhas, viveu na Terra até 1896, e certamente encontrou na sua mulher tanto os olhares e formas encantadoras como na sua alma e amor a Luz que todos demandamos, adoramos e eventualmente irradiamos.
 
Vinheta subtil e a contemplar-se de Bô Yin Râ, intervencionada...
 
Que a Luz e o Amor divinos fluam bem em João de Deus, Antero de Quental e Fernando Leal e que possamos nós comungar em tal fraternidade e luminosidade, agora e sempre, Amen, Aum...

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Giovanni Pico della Mirandola e os Anjos, Arcanjos e Espíritos celestiais. Tradução do latim da sua "Oratio". No dia da sua libertação da Terra há 527 anos.

Pintura seiscentista de Pico della Mirandola e que pontificava no scriptorium de José de V. de PIna Martins. Fotografia do autor.

Comemorando-se hoje, 17 de Novembro de 2021, os 527 anos da libertação da Terra do genial Giovanni Pico della Mirandola, quando apenas perfizera os 31 anos de idade, mas já tanto se realizara ou divinamente se religara, resolvemos contribuir partilhando aspectos da sua visão do Ser humano e dos Espíritos celestiais,  traduzidos do seu famoso e valioso livro de 1486, e que era um preâmbulo a um debate público sobre 900 Teses filosóficas e teológicas que redigira,  De Hominis Dignitate Oratio ou, conforme as duas traduções portuguesas existentes, de Maria de Lurdes Sirgado Ganho e de Maria Isabel Aguiar, Discurso sobre a Dignidade do Homem, tendo eu em muitos aspectos divergido das palavras escolhidas por elas.  A pintura quinhentista inicial pertenceu ao notável humanista e amigo José Vitorino de Pina Martins, autor de dezenas de obras sobre o Humanismo, como consta na biografia que lhe traçei recentemente, que muito me estimulou no studium humanista e a quem dediquei o Modo de Orar a Deus, de Erasmo, que traduzi com Álvaro Pereira Mendes, e contextualizei e anotei.

Não é  tarefa fácil descortinar-se dos textos de Pico della Mirandola  plenamente a sua compreensão e visão dos Anjos, ou seja, a sua doutrina angélica,  pois as referências a eles estão dispersas por várias das suas obras e frequentemente ecoam os ensinamentos tradicionais do Cristianismo mas também das teologias antigas,  do chamado Paganismo, que todavia se pode denominar antes, e assim o foi, de Filosofia ou Teologia Perene,  ou ainda Prisca (antiga), e que Marsilio Ficino, Angelo Poliziano e Pico della Mirandola, Erasmo (moderadamente), Filippo Beroaldo e Eugubino Steuco, entre outros humanistas, pioneiros em tal comparativismo, muito pesquisaram e valorizaram. 

Que acreditava na sua existência não há qualquer dúvida, seja por fé, por razão ou por visão. Que conhecia as posições e doutrinas angélicas dos principais filósofos e teólogos pagãos ou gentios e cristãos há amplas evidências por citações de suas obras ou doutrinas. Que esteve frequentemente animado por grande amor a eles (ou com eles, a Deus), também não se pode pôr em causa,  sendo talvez mesmo animado por eles, e por isso provavelmente foi designado  como o Anjo sábio do Renascimento, tanto mais que o seu aspecto e alma eram bastante angélicos, tal como podemos observar no centro dum fresco florentino da época, entre Marsilio Ficino e Angelo Poliziano.  Vamos então seleccionar algumas das menções, e para já apenas do Discurso sobre a Dignidade Humana,  para que possamos senti-las, meditá-las e aproveitá-las interiormente, para crescimento das nossas asas, para incremento da nossa comunhão com a Divindade e a sua Luz e Amor.

Nesta sua mais famosa obra, a Oratio,  para muitos o manifesto do Humanismo, Giovanni Pico della Mirandola partilha bastante da sua compreensão e visão bastante original das hierarquias angélicas e eleva-se através delas de um modo tão fulgurante e belo que valerá a pena transcrevê-la, ainda que muito provavelmente não se trate de fruto de experiências espirituais, místicas ou iniciáticas, embora por detrás de tão belas palavras e intensos sentimentos possam estar não só leituras mas também vestígios de boas meditações coroadas de certezas, intuições, visões ou sensações-sentimentos fortificantes e, assim sendo,  vivências espirituais, embora ele não o afirme explicitamente e antes se inclua, humildemente, na humanidade caída. Talvez por tal humildade e "miserabilidade", nos últimos anos de vida recebeu a influência mais ascética e pessimista do frade dominicano Girolamo Savonarola (1452-1498) e do seu círculo anti-platónico de S. Marcos.
                                      
  O princípio da obra reza assim: “Li, padres colendissímos [de colendu, respeito], nos monumentos [livros] dos árabes, que o sarraceno Abdallah interrogado, sobre o que nesta quase cena mundana via com mais admiração, respondeu que nada via de mais admirável de que o homem. Sentença esta que está conforme com aquela de Mercúrio: "Grande milagre, ó Asclépio, é o homem".

Cogitando a razão deste dito não se me fazia suficiente o que por muitos foi referido da prestância [superioridade] da natureza humana: esse homem internúncio das criaturas, familiar dos superiores, rei dos inferiores, intérprete da natureza pela perspicácia dos sentidos, a indagação da razão e a luz da inteligência, interstício entre a estável eternidade e o fluxo do tempo e, como os Persas dizem, cópula ou mesmo himeneu [vínculo] do mundo e, como testemunha David, pouco menos que os anjos  (...)

Hermes, ou Mercúrio, Trismegisto, três vezes grande, na catedral de Siena. Um dos elos da Filosofia Perene, muito citado ao ser-lhe atribuído o Corpus Hermeticum, colectânea anónima de textos neo-platónicos e ocultistas escritos nos séc. II a IV d. C. na zona de Alexandria,  e que foram traduzidos por Marsilio Ficino do grego para latim em 1471, e a partir de tal se divulgando mais facilmente na Europa renascentista.
Que invada a nossa alma aquela ambição sagrada de não nos contentarmos com as coisas medíocres e que aspiremos pelas maiores (...)» 
 
Pico della Mirandola imagina então e narra o hipotético pensamento-programa de Deus quanto ao ser Humano, a sua geração, o seu posicionamento no meio do mundo, o seu livre-arbítrio e a capacidade de se transformar no que quer, e estabelece depois com bastante e esforçado engenho  uma visão dos mundos celestiais, com as suas hierarquias caracterizadas, apoiando-se nos autores e personagens do Antigo Testamento, e do Novo, nos Primeiros Padres da Igreja e no Pseudo-Dionísio Areopagita, já que conheceriam e saberiam mais dos Anjos, o que frequentemente não é o caso, mas também alargando-se aos mistérios (délficos, báquicos e apolíneos) e filósofos espirituais gregos, onde, para além de afirmar a concordância de Aristóteles e Platão, cita bastante Pitágoras, seguindo-se Zoroastro, os caldaicos, cabalistas, árabes e persas (tal como Avicena), e faz algumas analogias originais, próximas do seu famoso dito «A filosofia procura a verdade, a teologia afirma-a e a religião possui-a», co-relacionando-as com o trilho purificador e ascensional do Caminho espiritual, que tem como fim ou objectivo a religação à Divindade. 

Oiçamo-lo: «Quem se absterá de admirar o ser humano? O homem, que se encontra designado com justiça nos textos sagrados de Moisés e dos Cristãos, tanto pela expressão «todo de carne», tanto pela expressão "toda a criatura", tomando qualquer aspecto de carne ou as qualidades de não importa qual criatura, pois ele mesmo se figura, se modela, se transforma. Também o persa Evantes pode escrever, quando ele expõe a teologia caldaica, que o homem não tem qualquer imagem inata própria, antes tem muitas estrangeiras e adventícias. Donde a fórmula dos Caldeus: Enosh hou shinnoujim vekammah tebatoth baal haj, "o homem é um ser de natureza variável, multiforme e voltigente".

Mas a que tende tudo?  A fazer-nos compreender que ele nos pertence, pois a nossa condição nativa permite-nos ser o que nós queremos, e de velarmos sobretudo para que não nos acusem de termos ignorado a nossa elevada missão, ao tornar-nos semelhantes às bestas de carga e aos animais privados de razão. Que digamos antes, com o profeta Asaph [Salmos, 81, 6]: "Vós sois todos deuses e filhos do muito Alto". Guardemo-nos de abusar da extrema boa vontade do Pai, fazendo um uso funesto do livre arbítrio que nos deu para a nossa salvação. Que uma espécie de ambição sagrada invada o nosso espírito e faça que, insatisfeitos da mediocridade, aspiremos aos cimos e trabalhemos de todas as nossas forças a atingi-los (pois nós podemos, se nós o queremos). Desdenhemos as coisas terrestres, não nos preocupemos com as do céu e, para acabar, releguemos para segundo lugar tudo o que é do mundo, voemos à corte que está para além do mundo, perto da supra-eminente Divindade. É lá, como nos relatam os mistérios sagrados, que os Serafins, os Querubins e os Tronos têm o primeiro lugar; quanto a nós, doravante incapazes de bater em retirada e de suportar o segundo lugar, esforcemo-nos por igualar a sua dignidade e a sua glória. Por pouco que nós o queiramos, não lhes seremos em nada inferiores...

Mas de que meio dispomos nós, e o que podemos enfim fazer? Vejamos o que eles próprios fazem, que vida  vivem eles. Se nós assumirmos tal vida, também nós teremos posto a nossa vida ao nível da deles. O Serafim arde do fogo da caridade; o Querubim brilha do esplendor da inteligência; o Trono eleva-se na firmeza do julgamento.
Se portanto,
dados à vida activa, nós tomarmos conta das coisas inferiores mantendo direita a balança, seremos mais firmes na imutável solidez dos Tronos. Se nos pusermos retirados da acção para meditar o trabalhador na obra, a obra no trabalhador, e se a nossa actividade tomar a forma de umas férias contemplativa, nós resplandeceremos de todas as partes do brilho dos Querubins. Se nós ardermos de amor apenas para o próprio trabalhador e para ele só, é do seu fogo, que é voraz, que à imagem dos Serafins seremos abrasados, abraçados subitamente. Sobre o Trono, ou seja o justo juiz, Deus, senta-se e julga os séculos. Sobre o Querubim, ou seja sobre o contemplador, ele voa; e, como se o chocasse, ele aquece-o.

Quando o Espírito do Senhor move-se sobre as águas, eu entendo aquelas que estão em cima dos céus e que, segundo Job, louvam o Senhor nos seus hinos matinais. Aquele que é Serafim, ou seja amante, está em Deus como Deus está nele, ou melhor Deus e ele não são que um. Grande é a potência dos Tronos, à qual nós atingimos pelo julgamento. Suprema a sublimidade dos Serafins, à qual atingimos pelo amor.
                                                          
Mas como levarmos o nosso julgamento ou o nosso amor sobre o que não conhecemos? É o Deus que ele viu que Moisés amou; é do que ele viu na sua contemplação sobre a montanha que ele fez na qualidade de juiz, uma regra para o seu povo. Intermediário, portanto, o Querubim prepara-nos pela sua luz ao fogo Seráfico, tal como ele nos orienta pelo seu brilho para o julgamento dos Tronos.

Tal é o nó dos primeiros espíritos, a ordem paládica [de sabedoria de Palas], que preside à filosofia contemplativa: é ele que devemos primeiro obrigar e nos esforçar de atingir, aquele que devemos compreender ao ponto de sermos raptados pelo facto do amor, para descermos de novo bem equipados e preparados para as obrigações da vida activa (...)» 

Ora se Pico della Mirandola nas descrições das hierarquias ou coros de que trata, os mais elevados, os Serafins, Querubins e Tronos, está algo devedor do pseudo-Dionísio Aeropagita, mesmo assim dá os seus toques pessoais e originais nas ligações deles com as metodologias purificadoras e aperfeiçoadoras do ser humano, nomeadamente a justiça, a firmeza e o abrasamento amoroso, realçando bem como por trabalharmos tais qualidades sintonizamos com os espíritos celestiais, pois o Serafim arde do fogo da caridade-amor; o Querubim brilha do esplendor da inteligência; o Trono eleva-se na firmeza do julgamento.
                                     
E concluiremos por ora, com o seu valioso contributo para a melhoria das nossas possíve
is relações com os três Arcanjos principais, ou mais conhecidos e venerados na Cristandade, conforme Pico nos segreda então  com bastante originalidade: «Invoquemos Rafael, o médico celeste, a fim de que ele nos liberte pela moral e a dialéctica, como por remédios salutares. Então, nos que formos restaurados, habitará doravante Gabriel, a força de Deus, que nos conduzirá através dos milagres da natureza: ele mostrar-nos-á por toda a parte a virtude e a potência de Deus, e por fim levar-nos-á a Miguel, o sacerdote supremo, para que, tendo-nos alistado ao serviço da filosofia, nos cinja, como duma coroa de pedras preciosas, do sacerdócio da teologia».

 E se não conseguirmos purificar tão bem o nosso pensamento e discernimento, nem sentirmos tais ligações tão elevadas ou excelsas, pratiquemos ao menos tais virtudes e concentremo-nos mais humildemente na oração, aspiração e comunhão, adorativa até da Divindade, com o "nosso" Anjo da Guarda....
E que Pico della Mirandola (muita Luz e Amor estejam com ele) possa inspirar-nos...
                                            

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Pensamentos, Reflexões e Máximas, do Padre Transfiguração, franciscano, publicados em 1806 e comentados em 2021.

Em 1806 saía a à luz no Porto, na Tipografia de António Alvarez Ribeiro, o Tomo I das Obras Póstumas do Reverendo Padre Mestre Transfiguração, franciscano, professor de Filosofia. Esse Tomo I que contém os seus Pensamentos, Reflexões e Máximas,  é dado à luz por "José Pedro da Cunha Coutinho, presbítero secular professo da Congregação de Oliveira do Douro [em V. Nova Gaia], único amigo do autor"...

E, passados 214 anos, possuindo o livro, resolvi seleccionar alguns desses pensamentos, transcrevendo-os e comentando-os, numa disposição anímica de comunhão com os geradores de um livro de sabedoria,  aparentemente algo trágico, pois diz-se que a obra é póstuma, que o seu autor «nunca pode resolver-se a dar à luz alguns de seus Escritos» e, morrendo cedo, «aos trinta e tantos anos», dependera «do único amigo» para os publicar, o que apontaria para que o autor estivesse  bastante isolado, apesar de ter sido Lente ou professor da ordem de S. Francisco, e alguns amigos ou colegas o tivessem instado a publicar as suas cogitações. 

É  valiosa a descrição da amizade dos dois:« Ora, este Padre, como era muito meu amigo, como fiava muito de mim, porque na verdade eu e ele éramos uma só alma, e posso dizer sem hipérbole, que eu a seu respeito fui este outro eu, que ele chame num dos seus Pensamentos - o só verdadeiro, e único amigo do homem; nas vésperas da sua partida legou-me todos os seus papéis, indicando-me os que podiam ver a luz da impressão...» 

A obra não é rara, tem pouca cotação como alfarrábio, e valorizarmos plenamente todo o seu conteúdo é difícil, pois se encontramos bons pensamentos, justos e sãos, de facto, como o "autor diz ao leitor", o tónus é o de uma visão crítica dos defeitos humanos, por vezes até com  preconceitos, nomeadamente em relação à pessoa normal, à mulher, aos protestantes, aos ateus, embora reafirme haver muita pessoa boa. 

Todavia, pelo amor aos livros e nomeadamente aos de reflexões, valiosos para a tradição espiritual portuguesa e até pela sua função de biblioterapia, porque  me veio parar às mãos algo cansado e manchado e, como já dissemos, ecoar certa incomunicabilidade, resolvi-me a ressuscitá-lo, relativamente, claro, nos pouco leitores do blogue, e fazendo votos que algumas energias de luz e de amor cheguem até aos dois amigos, que contudo na realidade serão um só e o mesmo, conforme nos esclarecem Sampaio Bruno, no Porto Culto, de 1912, e recentemente Joaquim Domingues num excelente artigo de investigação e contextualização O Padre Transfiguração na génese da nossa contemporaneidade, publicado na revista Itinerarum, no nº 199, de 2011, onde narra alguns dados importantes da sua vida,  tendo nascido em 1740 com o nome José Pedro da Cunha, o tal amigo  e editor, e vivido até 1740 e 15-IV-1815, como professor de filosofia e pregadora apreciado, pelo que vemos portanto que não era póstuma a obra, editada em 1806, em que entraremos agora um pouco...

                 O autor, na Justificação, deseja que todos entrem no fundo de si mesmos e, saindo do mundo e da natureza corrompida, encontrem o seu bem último e bondade intrínseca, tanto como espíritos individualizados imortais como também enquanto seres provindos da Divindade.
                                   

A obra tem a dedicatória e uma prefação do editor, da qual já transcrevemos partes, e umas palavras Do Autor a quem ler, e logo a Justificação do Autor a propósito, tudo encavalitando-se em mais  352 páginas de reflexões críticas das negatividades humanas, por vezes ousadas ou difíceis, e por isso não admira o P. Transfiguração ter de advertir de início (como se pode ler nas imagens) que há gente boa e não só desnorteada pelas paixões e corrompida, e na última página apresentar uma bem arquitectada Protestação, pois se em «algum destes meus sentimentos não vou coerente com o sentir comum da Santa Igreja Universal ou com o verdadeiro sistema da minha Pátria, de que eu faço muita glória, para eu me explicar, desdizer ou retractar, sendo possível, ou preciso. Sou igualmente filho da Igreja e Vassalo do Império». Justificava-se pois o autor era algo ousado na sua sede de justiça e perfeição para o meio português de então e já tivera problemas com isso.

Entremos então em alguns pensamentos dos professor de Filosofia, o Padre Mestre freire José da Transfiguração, que nas suas palavras introdutórias confessa ter apreciado muito «a obra imortal dos Pensamentos de Rochefoucauld  (...) embora muito antes de eu conhecer a este homem raro, e extraordinário, tinha eu já produzido em muitos dos meus Sermões não poucos dos Pensamentos do meu Livro; não me atrevo contudo a afirmar se com a mesma facilidade, que ele.»  Desses sermões foi publicado um volume de vários no Porto em 1790, e outro de um pronunciado em Braga em 1803, e Joaquim Domingues transcreveu de manuscrito o Sermão de São Marcos pregado na capela Real de N. Senhora da Ajuda em 1785, onde está patente a sua inteligente pregação e a sua exigente visão dos trabalhos a que todos somos chamados para um dia recebermos a paga justa do mestre Jesus, onde interroga quase erasmianamente os religiosos, os juízes, os oficiais, os pobres, e ele próprio quanto à correcção das suas vidas e esforços, pois «cuidamos tão  pouco em trabalhar por nos vencermos a nós mesmos e ao mundo, que são os dois únicos inimigos que se atravessam no caminho da nossa Salvação», aqui curiosamente saindo da tradição cristã que fala num terceiro inimigo, o Diabo.

O Padres Mestre Transfiguração,  aceitando a relatividade das verdades humanas, adverte, no final Do Autor a quem ler, que não iria responder a críticas, «porque sendo verdade, que o pensar de cada um dos homens se compõem directamente do espírito, do génio, e das instituições, cada um dos meus Leitores deverá ser racional para não me criminar de eu não discorrer como ele: e para estes é que eu deixo pesar um trabalho, em que só a boa fé teve toda a parte. Quanto aos Censores da língua, nem quero a sua aprovação, nem temo as suas notas.»

I - Amigo Verdadeiro.  1. «Um amigo verdadeiro é uma pedra preciosa; pode dar-se tudo para o topar.»  2. «É tão difícil achar-se um amigo verdadeiro, como é impossível encontrar-se outro eu.» (...) 4. Em toda a vida do homem há só um caso de se provar o amigo verdadeiro; que é o desconsolado momento da nossa desgraça. Em quanto somos felizes, e só o interesse quem nos faz roda. O comum dos amigos é bem como estas aves, a quem vemos somente na Primavera.»

Para além de enaltecer o valor das almas verdadeiramente amigas, e como tal é tão raro de se topar, e portanto tão merecedor de ser amorosamente cultivado, o padre mestre Transfiguração insere-se na tradição pitagórica discretamente, ao ecoar o famoso dito: "não tenhas andorinhas na tua casa", que se interpreta nesta linha de interesse, de egoísmo, de ingratidão e ainda da superficialidade no falar e nos interesses de algumas pessoas que se fazem amigas , ou o são, mas dispersantes das nossas melhores potencialidades.

II - Amor. «Não é bastante para enfraquecer um amor, que ele tenha sido mal pago: um amor generoso não espera retribuição, e uma alma grande paga-se de si mesma.»

Este pensamento ajuda-nos a discernir quão grande ou verdadeiro ou forte é um amor: não se enfraquece quando é mal respondido ou pouco reciprocado. E a razão que o P. Transfiguração dá é boa: característica do verdadeiro amor é não esperar retribuição, ´ter suficiente em si mesmo, de alma e de amor, que se satisfaz, se retribui, se replenifica ainda que tenho dado muito e nada recebido do outro.»

III -  Filosofia. «A Filosofia por uma de suas partes é tão necessária para os outros conhecimentos, de que se precisa nesta ordem coisas, como a alma é necessária para mover o corpo; de sorte que sem aquela, um grande Letrado será bem como um Navio carregado de géneros, mas imposto da barra sem leme.»

Nestes tempos de menosprezo pelo saber humanista e filosófico, é importante relembrarmos esta valorização do saber filosófico como a alma não só dos conhecimentos como da própria direcção ou orientação da vida.

«O primeiro bom efeito de uma sã Filosofia é ensinar aos seres humanos a conhecerem-se a si mesmos. Um Filósofo inchado é um odre de vento, que cede ao mais leve furo de uma agulha.»

Este auto-conhecimento implica muito ou a meditação ou uma escrita interrogante, às vezes num estilo de diário, ou então diálogos fortes e sinceros com alguém muito próximo.

IV - Paixões. «Somos tão cegos com as nossas cousas, que por mais defeitos, que elas tenham, nunca lhos divisamos; a nossa paixão é bem como um denso véu, que elas trazem sobre si, que não as podemos atravessar com a vista; de sorte que precisamente hão de ser boas, porque são nossas, e não nossas porque são boas.»

Bastante valiosa esta ideia que cobrimos seja as coisas seja a nossa percepção delas com um véu que nos impede de discernir verdadeiramente o seu valor, a sua justiça, e até que ponto é que estão a desviar-nos da verdade e da felicidade, acontecendo isto sobretudo ao que nós gostamos ou nos habituamos, ou ao que chamamos nosso.

V - Sábio. «O Verdadeiro Sábio parece algumas vezes ficar vencido não prosseguindo com calor nas demonstrações da verdade. É imprudência empreender de ensinar em um instante a ignorância, ou desabusar de repente a um juízo, encabeçado de puerilidades do berço, de preocupações dos Mestres, e das impertinências de alguns livros»

Estes pensamentos do nosso franciscano são valiosos, pois mostram-nos a necessidade de segurarmos com as rédeas o fulgor apaixonado de um diálogo ou discussão, quando podemos intuir que a outra pessoa sabe muito pouco do assunto e não vai gostar nada de consciencializar-se de tal. Como também, porque, certas vezes, as pessoas estão já tão habituadas a um conceito ou juízo, que tirá-las dele de uma vez ou muito depressa é contraproducente ou inútil.

A expressão "encabeçado das puerilidades do berço", também é muito forte e rica, pois mostra-nos algumas pessoas com grandes cabeças cheias de infantilidades ou imaginações recebidas na infância. É certo que este dito até se pode aplicar contra algumas puerilidades que a Igreja ensinou às crianças e aos católicos.

"Encabeçado das preocupações dos Mestres", é também uma boa crítica à dependência excessiva dos grandes teólogos, ou filósofos, ou professores, e quando quase já não se pensa ou medita por si mesmo. Já no Renascimento Erasmo e Ulrich von Hutten se ergueram contra os mestres sorbónicos e dominicanos que, petrificados na escolástica medieval e na literalidade das Escrituras se tornavam impermeáveis à crítica textual e ao sentido espiritual e  crítico libertador.

Finalmente "encabeçados pelas asneiras e insensatez dos Livros", tanto profanos e sagrados, e muita, muitíssima gente ficou apanhada nas malhas subtis de tanto livro sagrado, ou revelado, ou canalizado.  Em tudo isto sente-se bem a experiência do professor de filosofia e história eclesiástica e quem sabe mesmo se algo das críticas irónicas de Elogio da Loucura, de Erasmo, certamente lido por ele, ecoa em algumas destas imagens encabeçadas que se formam na nossa imaginação, quando o que devia brilhar são conhecimentos vividos e que geram auréolas, nimbos de sabedoria e amor, aberturas ao Sol divino da Verdade...

domingo, 14 de novembro de 2021

Sonho Oriental, Idílio e Aparição, sonetos de Antero de Quental, oferecidos inéditos a Maria Amália Vaz de Carvalho, para o "Feixe de Penas", sonhando o amor e intuindo a sua via solitária.

Em Março de 1884,  a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho,  convidada a colaborar numa festa de caridade, intuiu que a sua participação auxiliadora do Asilo das Raparigas Abandonadas seria organizar uma antologia, e  no ano seguinte nascia Um Feixe de Penas e, como  nos narra no fim das Duas Palavras de Explicação prefaciais, «pedi então a muitos dos mais formosos espíritos, das mais robustas individualidades literárias, dos pensadores mais sinceros e mais convencidos, dos mais finos e delicados cultores da poesia que me auxiliassem, e todos aqueles a cuja porta fui bater - romeira da Caridade - responderam fidalgamente e bizarramente à minha súplica.
A todos agradeço a obra boa e a obra bela, que a colaboração de tantos espíritos iluminados produziu.
Guardarei sempre no tesouro das minhas recordações
melhores, a memória deste momento, em que tantos nomes ilustres e geralmente queridos, vieram reunir-se num impulso generoso e santo, a pedido meu, sob a mesma bandeira caridosa, cujo lema abençoado, será sob todas as formas ainda as mais imperfeitas, para todos os espíritos ainda os mais cépticos, um das consolações eternas, uma das consolações inesgotáveis da cansada velha e entristecida Humanidade.» 

A colaboração foi ampla e valiosa, como ela diz e dos nomes estampados na capa do livro destacaremos apenas Camilo Castelo Branco, que o abre  com uma carta bastante irónica e até etnográfica, nos seus 59 anos adoentados e castigados com tanto pedido de colaboração, mas perenemente actual, pois conclui-a assim: "Além de que, Ex. Snr.ª, da maneira como neste país se está mendigando para tudo e por todos os motivos, o colaborador assíduo dos jornais de um número só [e por vezes almanaques], tornou-se o velho mendigo das romarias e das portas dos templos, garganteando clamorosamente: Ó pais e mães da caridade, contemplai... etc.

 Não seria indiscreta coisa, minha senhora, ver se os governos podem aguentar-se na sua missão providente de socorros à miséria dos seus administrados sem a nossa colaboração de Andadores das almas numa efectividade quase humorística».

Já Antero de Quental, em resposta ao pedido de colaborar nessa obra que sairia no ano seguinte, o Feixe de Penas, escreveu-lhe a seguinte carta  de Vila do Conde, a 1 de Abril de 1884: 

«Minha Senhora,  

Penhoradíssimo com a simpática confiança e boas palavras de V. Ex.ª, sinto não poder enviar-lhe coisa de mais valor do que três sonetos antigos - e oxalá não lhe pareçam, além de antigos, velhos também! Tentaria escrever algumas páginas em prosa, sobre matéria que valesse a pena, se V. Ex.ª me não dissesse que há pressa; e, com tal aperto, creio que me seria impossível achar um assunto, que é essa a dificuldade para mim maior. Eu mesmo pasmo às vezes, ao considerar quantos pensamentos e conhecimentos que tenho acumulado em tantos anos de estudo parecem não ter servido senão para me tornarem indeciso e para me esterilizarem! Mas, enfim, o que é, é.  - Os sonetos, que envio, apesar de antigos, são inéditos; e como imagino que o livrinho é destinado principalmente a correr mãos femininas, achei preferível contribuir com aquelas coisinhas antigas e ternas, que, em suma, são inocentes e não apavoram, a enviar-lhe dos Apocalipses que agora faço, "pesadelos rimados", como lhe chama um amigo meu, entendido em rimas e em pesadelos.

Folgo deveras por esta ocasião de poder dar a V. Ex.ª um testemunho da muito grande e respeitosa simpatia que sempre me inspirou e da admiração que professo pelo seu raro talento.

Sou, minha senhora, de V. Ex.ª

Criado humilíssimo, Antero de Quental»

 São então oferecidos a Maria Amália os sonetos Sonho Oriental, Idílio e Aparição, e esta carta é o único testemunho de Antero de Quental quanto a eles  e, tal como diz, são mais ou menos poemas inocentes e ternos, que pouco têm a ver com as suas produções denominadas "pesadelos rimados", estilo apavorante Apocalipse, este uma obra de imaginação de facto algo aterrorizante e messiânica e que hoje se sabe não ter sido escrita por S. João Evangelista, mas por um zelota que acreditava que brevemente seria o fim e julgamento do mundo, e a vinda de Jesus.  Todavia, além dos três sonetos, misteriosamente, o Feixe de Penas finda com mais uma colaboração de Antero de Quental, O que diz a Morte, que será posicionado como o penúltimo da edição dos Sonetos Completos, em 1886. 

 De quem partiu a iniciativa desta publicação, de novo de um poema inédito, e que não tem sido equacionado nas publicações modernas dos Sonetos? Falta o elo documental, tal outra carta, mas deverá ter havido um pedido de Maria Amália, ao qual Antero anuiu, disponibilizando o soneto final da antologia...

Escritos em Coimbra em 1864, como Antero assinala no envio, os três sonetos escolhidos, que estavam inéditos, andaram  20 anos com Antero até serem salvos do anonimato e dados à luz para mãos femininas de Maria Amália Vaz de Carvalho e das futuras leitoras dos poemas, como Antero imagina, descrevendo-se "humilíssimo" no respeito à viúva do poeta Gonçalves Crespo (1846-1883), aos quais muito empaticamente se referira por causa do desenlace, numa carta de Junho de 1883 a Joaquim de Araújo:«Senti a morte do Crespo, de que só agora tive notícia. Não conheço a Maria Amália, mas nem por isso tenho deixado de pensar nela com pesar e simpatia sincera.»

O primeiro soneto, Sonho Oriental, é muito simples, com um ambiente totalmente orientalista do final do séc. XIX (presente até noutras colaborações do Feixe de Penas, tal a de Cristóvão Aires) e permite-nos viajar um pouco com a imaginação oriental ou mesmo indiana com que Antero se revestiu animicamente para o compor, nada difícil pois sabemos que  para além do seu interesse pelos Vedas, o sânscrito e a sabedoria indiana (o que partilhava com o seu colega e amigo Guilherme Vasconcelos de Abreu, futuro 1º professor de sânscrito em Portugal), numa carta de Março de 1866 ao seu dilecto companheiro António de Azevedo Castelo Branco, interrogando-se para onde deve ir, diz, numa observação bem perene, que «talvez indague dum emprego para a Índia, para Goa ou Macau, países aonde a vida moderna não deve ostentar-se em muito excessivo luxo do seu vermelho sangue burguês e gordura de banalidade, como cá acontece nesta Europa soesmente comodista, esta Cartago sem Moloch, mas com muitos mercenários.» E continua instando-o:  «Tu deves, nesse caso, ir comigo: mesmo que só eu vá empregado, aquelas terras, que alimentaram a descuidada infância da humanidade, são fáceis para a vida e, quais santos richis ou macerados budas, viveremos de arroz e bananas. Continuaremos os nossos desprezados estudos orientais; e, em face das ruínas do que já foi ruidoso e imponente, aprenderemos a desprezar todos os ruídos e imposturas que hoje nos assoberbam e ensurdecem.»

Os aspectos orientais que lhe vieram do inconsciente e das suas leituras mais ao de cima vemos que foram a natureza tropical, a ilha frondosa de bosques, a lua refulgente na noite, os aromas das flores e árvores, nomeadamente o da baunilha, o mar e a sua espuma rítmica, e ele meditando numa torre de marfim enquanto a a amada passeia no jardim, com um  leão aos seus pés.

O que há de mais onírico?  Sonhar-se rei, numa utópica ilha, bem longe do que o rodeia, a lua cheia brilhante nos céus e espargindo seus mil raios na água, uma noite mágica de cheiros e luzes, pois o próprio ar se mostra diáfano, e o mar doce e terno lambendo a ilha, deixando transparecer em tais movimentos os seus desejo sensuais e amorosos pela amada, que contudo anda ao longe no bosque, e  tem um leão aos seus pés.
Este leão, e
m termos de projecção psicológica, poderá ser ele próprio Antero, ou o seu ardor do amor e do coração, calmo aos pés dela, mas capaz de se tornar o animal poderoso a qualquer momento.

                                      

É um soneto de grande calma e paz, com alguma irrealidade, transparecendo a força interior contida, ou não fosse ele rei. Quanto à amada, que não é apresentada senão com esse estatuto, ao contrário dele que cisma, divaga, e há neste contraste uma certa afirmação de maior concentração na sua actividade mental, enquanto a mulher apenas divaga, embora expandida pela luz da lua, enquanto que ele interiorizou-se mais, absorveu-se, queda-se absorto quase sem fim. 

É uma atmosfera irreal, simbolista, fazendo lembrar a da peça de teatro estático de Fernando Pessoa (que leu e traduziu vários sonetos de Antero para inglês, e o elogiou muito), o Marinheiro, náufrago numa ilha, e também sob um vago luar, onde três irmãs divagam, uma das suas primeiras publicações, em 1913, na revista portuense A Águia,  dirigida por Teixeira de Pascoes e Leonardo Coimbra. Todavia, se o ambiente psíquico no Sonho Oriental é de grande paz e harmonia com uma natureza idílica, já o envolvimento amoroso entre os dois paira numa certa interrogação que só a expressão "meu amor" a vence.  

                                         SONETOS ANTIGOS

                                                             I  

                                            Sonho Oriental

Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha... 


O aroma da magnólia e da baunilha 
Paira no ar diáfano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha3... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descansas debaixo das palmeiras, 
Tendo aos pés um leão familiar.»

Anote-se  estarem os três sonetos enviados por Antero de Quental como I, II e III e constituem um todo sob a designação de Sonetos Antigos,  e que portanto devem ser lidos de algum modo como um avançar na declaração de amor e vivência,  idealizado no 1º, Sonho Oriental,  embora com certa apreensão  face ao futuro, perante tanto amor e pudor, sensibilidade e intuição, comunhão e absorção, que os dois sentem, pois já no 2º Idílio, Antero surge como visionário do estranho, do triste e do trágico, pois acaba por sentir dúvidas quanto à luz húmida do olhar, ao emudecimento da amada e  ao estremecimento das mãos, mesmo com a entrada das vozes amorosas do universo no coração dos dois...

 Idílio 

    Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.» 

Já o 3º e último soneto, Aparição, revela, após a tese e a antítese,  a sua síntese amorosa algo derrotada e perdida. Desilusão da amada, que não o quis, e lhe estalou o coração, auto-biográfico, deveremos deduzir ou intuir? Cada um que o sinta ou adivinhe...

                                                    Aparição

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo...

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao tremulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo...

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E aflictos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos...

— «Ouve! espera!» — Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-hei no ar! »

Anote-se que, tomando os três sonetos como um todo (embora saibamos que na ordenação final dos Sonetos Completos em 1886 eles estejam espaçados), passamos do "meu amor", do 1º soneto,  para o "meu anjo", do 3º soneto final, e quem fora rei no 1º e depois no 2º namorado em idílio campestre e unidade de corações, transforma-se no 3º e último soneto, Aparição, num espectro, numa aparição que rejeita os pedidos da amada, ou porque já não a quer, ou porque já não pode.  

Há na obra de Antero, para além do seu grande amor, destemor e idealismo social, constantes sinais da solidão, de morte e mesmo de suicídio. Por vezes interrogo-me quantos dos seus amigos terão sentido intuitivamente isso, sobretudo com o avançar da idade, seja vendo-o ao longe a aproximar-se, seja nos silêncios das conversa.  Ou ele próprio, quantas vezes terá sonhado ou intuído que teria essa quase que predestinação à sua espera?

                                    

Há algo de desilusão e quase maldição do Amor humano. Ou a consciência de quão difícil  seria vivê-lo numa sociedade ainda com tantos aspectos injustos e opressivos e com as pessoas por vez tão divididas e longe da sua totalidade e sinceridade. Não é um Apocalipse, como disse na carta a Maria Amália, mas não era de modo algum um poema terno ou para sossegar jovens leitoras, sobretudo o último soneto. Anote-se que nesta época Antero, assinando como o Bacharel José,  entre 1864-1865, para o jornal O Século XIX, de Penafiel, testemunhava uma grande ironia e irreverência. E assim o amor terno e romântico era dissipado por um espectro, numa consciencialização da fragilidade da vida e dos sentimentos. Talvez devamos admitir que Antero só vivenciou na verdade o amor paixão unitiva nos namoros juvenis, o que alguns poemas das Primaveras Românticas espelham bem. E ficou mais com o da mãe, dos amigos, da poesia, da filosofia, da morte e da liberdade, o que já foi muito, e que nos fazem hoje enviar-lhe muita luz e amor para a sua ascensão espiritual...