quarta-feira, 22 de julho de 2026

A ideia da imortalidade celestial no Ocidente, segundo Franz Cumont, proveio dos magos caldaicos e dos sacerdotes iranianos, e passou aos pitagóricos.

                                       
                                                         Franz Cumont, 3/1/1868-20/8/1947.

Franz Cumont foi uma grande estudioso e viajante, arqueólogo e historiador das religiões, em especial das orientais no período greco-romanoque,  se correspondeu com muitas pessoas e deixou uma obra muito valiosa, pouco conhecida em Portugal. Resolvemos transcrever e traduzir algumas páginas da sua obra póstuma e maravilhosa Lux Perpetua, que está dividida nos seguintes capítulos: I - As velhas crenças. II - A crítica filosófica. III - A Imortalidade celeste (a. As origens orientais e os Pitagóricos. b. De Posidónios à Seneca. c. Formas de imortalidade celeste).  IV - Transformações dos Infernos. (a. Onde localizar o Hades, b. Os suplícios do Inferno). V - Os Mistérios: ( a. Os cultos gregos. b. Os cultos orientais). VI - Sobrevivências mitológicas, A viagem para o além. VII - A Astrologia e as mortes prematuras (a. Doutrinas astrológicos e operações mágicas. b - A reação moral.). VIII. Neoplatonismo. (a. Plotino. b. De Porfírio à decadência do Paganismo). 

Esta é uma das obras mais fascinantes sobre as religiões, doutrinas e espiritualidades, nomeadamente em relação à imortalidade da alma e do espírito e à Luz espiritual e perpétua, bem como quanto aos conhecimentos pré-cristãos dos iranianos, gregos e romanos quanto aos mundos e seres subtis, espirituais e divinos

                                       

Imortalidade Celeste. As suas origens orientais e os pitagóricos,  neoplatónicos e neopitagóricos como seus transmissores

As crenças de que os espíritos dos mortos iam habitar a lua ou as estrela já existiam no Egipto e em Creta, mas as que se propagaram na Europa  foram intuídas na Índia védica e na Pérsia avéstica

 Cap. III, a partir do 3º parágrafo: «Não foi do Egipto faraónico e da Creta micénica que nos vieram as crenças que se propagaram na Europa. Nós encontramo-las, pelo contrário, nitidamente formuladas na Índia védica e e na Persa avéstica, e foi o dualismo zoroastrismo  que deu uma precisão rigorosa à concepção duma beatitude celeste oposta à condenação eterna [bastante prevalente anteriormente]. Ao despojo corporal, do qual se apodera o demónio da corrupção, opõe-se a alma que o deixara.  Três dias depois ela eleva-se através da atmosfera até à temida ponte Cinvat, onde os ímpios são precipitados nos abismos tenebrosos. Pelo contrário, os justos elevam-se até à zona da Lua ou à do Sol, e os mais santos chegam enfim ao Garotman [o paraíso, ou mundo mais elevado]  à Luz infinita onde está ou sedeia Ahoura Mazda.

Este sistema é certamente muito antigo: baseia-se em conhecimentos astronômicos rudimentares. Como os Upanishads da Índia, ele situa os dois astros maiores acima das estrelas; ignora os planetas, que ainda não haviam aprendido a distinguir das estrelas fixas. No entanto, a sua influência prolongou-se de maneira surpreendente. Não só a escatologia do maniqueísmo e do mandeísmo, ambos nascidos na Mesopotâmia, expressa convicções análogas, mas a ideia dos três céus sobrepostos só foi eliminada tardiamente da literatura religiosa, e pode-se dizer que ela foi conservada até os dias de hoje numa existência pelo menos verbal, pois graças a São Paulo, ainda falamos de ser transportado ao terceiro céu *•.

Desde a época dos aqueménidas, o mazdeísmo foi propagado na Mesopotâmia e na Ásia Menor. Colónias dos Magos, ou, como eram chamados por um nome semítico, de Maguseus , haviam acendido as suas piras até a Lídia, nos confins do mundo helênico. Esses Magos emigrados haviam sido fortemente influenciados pela Babilônia, que era então o centro de estudos mais activo do mundo. Sua religião, que se desviava em muitos aspectos do puro zoroastrismo, aparece como uma mistura do naturismo primitivo das tribos iranianas e de uma astrolatria erudita emprestada aos "caldeus", ou seja, ao clero babilônico, cuja atividade científica se prolongou até a época helenística. Esses sacerdotes-astrónomos já não confundiam os planetas com as outras estrelas; haviam observado o seu movimento sinuoso e a duração crescente de suas revoluções e concluíram a amplitude progressiva das suas órbitas e o seu afastamento cada vez maior da Terra. Em vez dos três céus dos indo-iranianos mais antigos, eles haviam imaginado essa ordenação das sete esferas planetárias, que sempre foi qualificada de "caldaica", Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua. É provavelmente a esses mesmos "caldeus" que remonta também a ideia inicial de uma parentesco (συγγένεια) entre a alma e os astros*, pois ela está implicada pelas relações que a astrologia estabelece entre as divindades siderais e o espírito que nos anima. Esta doutrina nasceu de um facto de experiência muito simples. O princípio que mantém o calor e a vida no nosso organismo deve ser ígneo, e, portanto, da mesma natureza que os fogos do céu. Assim eram formuladas duas teorias que, como veremos, serviram de justificação para a imortalidade astral.
                                                                   

1. S. Paulo, 1 Coríntios 12, 2; cf. infra, p. 185, n. i.
2. Cf. Mages hellenizés, p. 35 ss. etc. O misticismo e a escatologia que dele se inspiram foram tardios em Babilônia (Zimmern, ZDMG, 1922, LXXVI, p. 36 ss.) e talvez só tenham sido introduzidos lá na época helenística.
3. Ordem caldeia: "Chéol. solar, p. 471 [25] ss.; cf. infra, p. 185 ss.
4. Filon, De migr. Abrah., 178 (II, p. 303, 4 ss. C. W.) ; cf. De somniis, I, 54 (III, p. 216, 14). Sobre a doutrina da simpatia, cf. Rel. orient., p. 288, n. 41, e Rougier, op. cit., p. 72, que invoca o "Cimée, p. 90 b i Stemplinger, Sympathieglaube im Altertum und Neuzeit, Munique, 1919.
5. Alexandre Polyhistor em Diogène Laërce, VIII, 27, a respeito dos Pitagóricos: cf. Delatte, Vie de Pythagore, 1922, pp. 126, 208; Rougier, op. cit., p. 76 ss., e sobretudo Festugière, R.E.G., 1945, p. 31. — Cf. infra, p. 159, n. 2.

uma tão grande ignorância sobre o que foram as especulações teológicas da Ásia anterior sob os Selêucidas, que não se pode precisar mais.
Neste Oriente, onde as noites límpidas fazem brilhar a abóbada estrelada com um esplendor incomparável, seu esplendor desperta naturalmente um sentimento de fervor religioso. Segundo a palavra do Salmista, 18, 12 « os céus proclamam a glória de Deus». É natural que o culto dos astros tinha-se desenvolvido lá e que se tenha colocado o destino do homem, na terra como após a morte, em relação com esses "deuses visíveis". Pausânias pretendia saber que os caldeus e os magos foram os primeiros a afirmar que a alma humana é imortal e convenceram os helenos, em particular Platão. «Sob essa forma absoluta, tal afirmação é sem dúvida inexata, mas ela conservou uma lembrança infiel de uma grande verdade. É certo que os pitagóricos entraram em contato cedo com esses "Maguséios", que se estabeleceram nas proximidades das cidades gregas da Jônia. Uma tradição anterior a Aristóxenes de Tarento, o discípulo de Aristóteles, afirmava que o próprio Pitágoras tinha ido a Babilônia para estudar com Zoroastro, uma afirmação certamente falsa, mas que concretizava a lembrança das relações que existiram entre o antigo pitagorismo e os Magos da Ásia Menor. Mostramos recentemente, em um ponto de detalhe, como a proibição de sacrificar e consumir o galo branco, adversário dos demônios malévolos, com as razões invocadas para justificar essa proibição, havia sido emprestada a esses mazdeistas da Anatólia pela seita itálica. Esta última sofreu em muitos outros aspectos a influência desses mestres orientais: as suas primeiras noções de astronomia e matemática vieram de Babilônia, e foi dos Maguséus que recebeu essa doutrina da imortalidade celestial, que se apresenta como uma combinação da escatologia mazdeísta com a teologia astral dos "Caldeus". A transmissão dos resultados científicos aos quais uma paciente observação do céu havia levado esses caldeus,  conjugou-se com as crenças religiosas que, na mente de um clero de astrónomos, eram o seu corolário.

2. Pausanias., IV, 32, 4. As revelações sobre a vida futura sempre foram atribuídas pelos gregos a Magos; o Er de Platão é um deles, assim como o Gobryès do Axiochos infra, ch. IV, p. 193, e o Mithrobarzanès de Luciano, Nécyomancie.
3. Cf. Mages Hellenizés., I, pp. 33, 38, iio.
4. C. R. Acad. Inscr., 1942, p. 284 ss. ; cf. infra, N. C. XV.
5. Sobre « o pitagorismo primitivo e suas relações com o Oriente », cf. Bidez, Eôs, pp. 9-20; p. 160, n. 25.

Os gregos sempre acreditaram que heróis privilegiados podiam ser levados pelos deuses, corpo e alma, para viver com eles no Olimpo, escapando assim ao destino imposto aos humanos. Mas essa crença difere radicalmente desta antropologia segundo a qual cada indivíduo é composto de um corpo perecível e de uma essência imortal que, descendo do céu ao nascer, nele retorna após a morte. Essa ideia aparece pela primeira vez em Atenas na epígrafe, encontrada no Cerâmico, dos guerreiros mortos diante de Potidéia, em 432: «O éter, diz a inscrição, recebeu suas almas, a terra seus corpos.» *. A mesma ideia de que o homem é um composto de dois elementos que, no momento da morte, retornam um à terra e o outro ao céu, segundo a sua origem, encontra-se em versos falsamente atribuídos a Epicarmo, o dramaturgo de Siracusa, mas que certamente são antigos, pois Eurípides os conhecia. Uma indicação já mais precisa nos é fornecida por Aristófanes, na sua peça a Paz: representada em 421, a respeito do polímata Ion de Quio, poeta amigo de Sófocles, que havia escrito em prosa uma obra de filosofia pitagórica e que acabara de falecer: Trygée, ao subir ao céu em um besouro, assegura que «quando alguém morre, ele se torna um astro nos ares» e que Ion, autor de um ditirambo começado com as palavras «Estrela da manhã», se transformara  nessa mesma estrela*.
Ao lado desses testemunhos datados com precisão, podemos invocar os dos próprios pitagóricos. Entre os antigos akousmata, os preceitos transmitidos oralmente na Escola pitagórica, há um que diz: «Quais são as ilhas dos Bem-Aventurados?» O Sol e a Lua». Assim, essas ilhas para onde são transportados os heróis, e que Homero situava no Oceano distante nos confins da terra, tinham sido transferidas por esses filósofos, seguindo seu sistema habitual de alegoria, para os dois astros maiores, banhados pelas ondas luminosas do éter. A Lua era para eles a "terra etérea" ou "terra olímpica" (p. 175) para onde se elevavam, ao deixar este mundo, as almas dos heróis e dos sábios. Essa teoria retomava, ao inseri-la n um sistema filosófico, a velha crença popular de que a lua é a morada dos mortos. Numa infinidade de estelas funerárias, especialmente na África e na Gália, está figurado o símbolo do crescente, emblema de ressurreição (p. 173).

1. Rohde, Psyché, trad. fr., p. 56; cf. infra, cap. VI.
2. I. G. (éd. minor), I, 945;.
3. Kaibel, Fragm. poet. Gr., VI, i, 1899, fr. 245; cf. Rougier, o-p. cit., p. 108 ss.
4. Aristófanes, Paz, 827 ss. ; cf. Diels, Vorsokr., 25 (I^, p. 285).
5. Jamblique, Vit. Pyth., XVIII, 82 = Diels, Vorsokr., I^, p. 464, 5.. Cf. Símbolo, p. 183.

Paremos aqui um instante, para considerar o que nos ensinam esses testemunhos. Os antigos pitagóricos admitem uma imortalidade não apenas estelar, o que poderia em rigorosamente ter sido emprestado à opinião vulgar de que a cada alma pertence uma estrela, mas também a [imortalidade] luni-solar. Assim, entre tantas formas que a ideia de uma sobrevivência da pessoa humana pode assumir, encontramos precisamente aquela que assinalamos no Oriente entre os Indo-Iranianos. É uma prova muito forte de que, como dissemos, os filósofos gregos a tomaram emprestada desses Magos, cujas doutrinas, como sabemos, eles conheceram.

Uma vez admitida a ideia do destino além-túmulo na Escola Pitagórica, esta, como é frequentemente o caso, quis justificá-la por raciocínios teóricos, e, sua astronomia tendo chegado à conclusão de que todos os astros, incluindo os planetas impropriamente chamados de "errantes", são animados por um movimento circular constantemente regular, viu primeiro nessa constância e regularidade uma prova da divindade dos corpos celestes. Como, por outro lado, a alma também se move perpetuamente e é princípio de movimento, ela deve ser da mesma natureza que os astros e, como eles, imortal. Se tal raciocínio pode ser imaginado por uma mente abstrata para sustentar uma crença religiosa adotada pela Escola, é impossível ver nele a própria origem do dogma da imortalidade celeste, do qual os pitagóricos teriam sido não apenas os propagadores, mas os autores*, uma vez que esse dogma já existia antes deles no mazdeísmo mais antigo, assim como nos Upanishads, sob o triplo aspecto estelar, lunar e solar que lhe haviam reconhecido a Índia e o Irão.

Não podemos tentar determinar aqui a extensão dos empréstimos feitos ao mazdeísmo pela escatologia e demonologia pitagóricas. Mas se procurássemos que similitudes os aproximam, encontraríamos curiosas semelhanças entre a concepção que os discípulos do sábio de Crotona [Pitágoras] tinham da natureza e do destino da alma e aquela concepção que revela, ao estudar-se de perto, o caráter dessas divindades psíquicas às quais os persas prestavam culto sob o nome de Fravashis. Se fizermos vir ao de cima, no Yasht que lhes é dedicado, como fez outrora Söderblom, os elementos primitivos que aí subsistem ainda
1- Louis Rougier errou, segundo nós, ao sustentar essa tese (of. cit.), mas teve o mérito pôr à luz as doutrinas pitagóricas das quais tira abusivamente essa conclusão.
2- Nathan Söderblom, Les Fravashis, na Revue hist. des relig. 1899, XXXIX, PP- 229-260, 317-418. Cf. Moulton, na Encycl. de Hastings, s. v. « Fravashi » e Lehtnann, ibid. s. v.  Ancestor worship  (Iraniano).

 apesar da transformação que a teologia mazdeiana lhes impôs, ver-se-á que essas Fravashis são concebidos como deidades aéreas cujo domínio próprio é o espaço intermediário entre o céu e a terra. Elas preexistem ao nascimento do ser humano e, após se associarem a ele, sobrevivem-lhe. Elas unem-se não apenas ao homem, mas aos animais. Finalmente, uma conexão estreita é estabelecida entre os Fravashis e as estrelas. Para os pitagóricos, a alma também vive no céu antes de se encarnar em um corpo; após a morte, ela se torna um desses daimons cuja multidão povoam os ares. Aquelas que dão vida aos animais não diferem da do homem, e por outro lado são partículas desse fogo do éter que brilha também nas estrelas. Seria necessária uma análise mais aprofundada para determinar se essas analogias devem ser explicadas pela comunidade de uma origem indo-europeia e [portanto] se os traços comuns pertenciam já à antiga religião ariana, ou se [em vez disso] ideias que eram especificamente mazdeianas puderam inspirar algumas doutrinas dos filósofos itálicos.

Se nos propuséssemos a estudar o desenvolvimento da imortalidade celeste no mundo grego, teríamos que falar aqui de sua adopção pelo poderoso idealista que, mais do que qualquer outro pensador, a impôs à fé das gerações posteriores. Platão, durante sua viagem à Sicília, teve conversas [e comprou manuscritos] em Tarento com Arquitas, o filósofo e estadista pitagórico, cuja sabedoria todos gostavam de louvar. Ele aproveitou também os ensinamentos do astrônomo Eudoxo, que se havia instruído na ciência oriental. Talvez até mesmo, seguindo uma tradição que parece verdadeira, um autêntico "caldeu" tenha participado das discussões da Academia. Platão foi conquistado pela doutrina de uma pré-existência e sobrevivência celestes da alma, e  concedeu-lhe um amplo espaço nas discussões e, sobretudo, nos mitos de seus diálogos mais recentes. Assim, o mito de Er na República é uma página onde aparece claramente a intervenção de concepções caldaico-iranianas.

A harmonia e a constância dos movimentos dos corpos celestes provam que eles são dotados de inteligência e têm uma natureza divina. A alma descida do céu é formada do mesmo fogo que resplandece no éter e brilha nos astros,

1. Cic, De amie, XXIII, 88; Horácio, Oda, XXVIII, 5; Diels, Vorsokr., 35^ 3! cf. Bidez, Sur un fragment de l'Aristote -perdu dans Bull. Acad. Belgique, 1942, p. 2og. A influência pitagórica se manifesta com uma evidência indiscutível na passagem da República, 614 c; cf. Aristóteles, fr. 200 Rose; Platão, Leis, X, 885d; Xlimée 90 c, d.
2. Bidez, Eôs, p. 24 ss.
3. Ibid., p. I ss.
4. Magos helenizados, p. 12; Bidez, Eôs, p. 43 ss., e apêndice I.

 e esse «parentesco» permite-lhe entrar em comunicação com eles. A contemplação de sua beleza, o conhecimento que ela proporciona de sua natureza e das suas revoluções, faz com que o ser humano aqui na Terra participe da felicidade dos Bem-Aventurados. Ela é para ele uma antecipação da beatitude que a alma obterá quando, libertada dos laços da carne, elevar-se-á ao cume dos céus. Todas essas ideias místicas de Platão, desenvolvidas pelos seus sucessores imediatos, Aristóteles em suas obras de juventude, Heráclides Pôntico, Xenócrates, Crânio, deviam se transmitir de geração em geração e exercer sua influência nos séculos posteriores, muito além do fim da Antiguidade.»

Mas nosso propósito não é estudar aqui a história da imortalidade astral na antiga filosofia grega: é segui-la durante o período romano. Lembramos anteriormente (p. iio) que, na época alexandrina, a Academia, infiel às doutrinas de seu fundador, chegou ao cepticismo metódico e nenhuma doutrina lhe pareceu mais hipotética do que aquela que pretendia esclarecer o mistério do além.
O legado de Platão foi recolhido pelos Neopitagóricos, que o fizeram, não sem certa aparência de razão, o discípulo do Mestre, que veneravam como o Sábio por excelência. Foi deles que, em uma sociedade tornada céptica, se fizeram os defensores, propagadores e renovadores da crença na imortalidade celestial. Depois de a terem pregado no Egito ptolomaico, deviam ensiná-la aos romanos.

Quando, após o século IV, a escola científica do antigo pitagorismo declinou na Itália, a seita perpetuou-se obscuramente em conventículos misteriosos,  espécie de maçonaria cuja ação na época helenística é difícil de medir ou circunscrever. Ela recuperou um novo poder em Alexandria sob os Ptolomeus. Nesta metrópole onde se misturavam todas as correntes da Europa e da Ásia, o pitagorismo adoptou então muitas ideias estrangeiras ao ensino do velho mestre de Samos, que se tornara uma figura lendária, da qual já na época de Aristóteles se sabia pouco ao certo. A escola não tinha, ao que parece, até então, uma teologia claramente formulada e logicamente construída; e os pontos de contacto que ofereciam as suas doutrinas com as crenças do Oriente favorecia um vasto sincretismo. Pitágoras, afirmava-se, tivera por discípulo Platão, que foi quase tão venerado como o sábio de Crotona (Macróbio no sono de Cipião I, II.1, e Proclus, Teologia Platónica I, 62). A poderosa construção do panteísmi estóico também exerceu certo ascendente sobre as teoria da seita (neopitagórica). Esta esteve desde a origem (em Roma) em contacto com os mistérios órficos  e os de Dionísios e permaneceu, mas sofreu a acção amis longínqua das religiões da Babilónia e do Egipto, em particular das doutrinas "caldaicas", que os gregos aprenderam a conhecer melhor após as conquistas de Alexandria» 
Em seguida Franz Cumont narra como os neopitagóricos sobreviveram discretamente em Itália  até ser revitalizado em Roma pelo erudito senador Nigidius Figulus, um amigo de Cícero. Dando testemunho dela vemos então o historiador Castor de Rodes, e já na época de Augusto, Ovídio, nas Metamorfoses, inserir um longo discurso de Pitágoras sobre o vegetarianismo e a reencarnação.
No séc. III o neopitagorismo foi absorvido pelo neoplatonismo, tanto mais que influenciara as teorias de Posidónio e de Plotino, embora não fosse uma filosofia pura mas mais uma escola ou ordem religiosa com as suas regras ou observâncias e os pequenos grupos ou conventículos, nos quais "o conhecimento ou gnose era tanto condição como fim da santificação."

Pode consultar a continuação em francês no Internet Archive: Franz Cumont, Lux Perpetua.

1. Cf. sufra, cap. II, i, p. m.
2. Héraclide: Mages hell., pp. 14 ss., 81 ss.; Bidez, Eôs, p. 52 ss.
3- Xénocrate : Rich., Heinze, Xenokrates, 1892.
4- Crantor, cf. infra, Boyancé, p. 163, n, 2.
3- Cf. Plut., Non -passe suav. vîvi sec. Efic, 28 ss., p. iio, 5 c. "• Wellmann, Bolos, Demokritos und Anaxilaos (Abhandl. Ak. Berlin, 1928, p. 4 ss.). 7- Rathmann, Quaestiones Pythagoreae, Orfhicae, Halle, 1933, p. 152 ss.; Isidore Levy, La légende de Pythagore, Paris, 1927.

Que os mestres iraninanos e pitagóricos inspirem e abençoem mais a Humanidade e propiciem o fim da agressão ao Irão sagrado e luminoso!

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