domingo, 5 de julho de 2026

Os Persas na História das Civilizações, segundo Gustave le Bon. Como na concepção de Deus e da luta entre o bem e o mal eles influenciaram judeus, cristãos e islâmicos

  Gustave le Bon (1841-1931), embora não concluindo medicina tornou-se um antropólogo e sociólogo de renome graças aos seus livros sobre a psicologia das multidões e as raças e civilizações humanas. Contudo,  por alguns académicos mais exigentes, tal Durkheim, foi considerado um divulgador pouco científico e,  de facto, as suas obras contém  algumas apreciações incorrectas e datações erradas (tal afirmar que a Índia não tinha monumentos anteriores a 250. a. C. com o imperador Asoka). Uma das mais controversas foi a de considerar as mulheres inferiores aos homens por razões de massa cerebral e que portanto não deviam ser muito instruídas. 

A sua obra mais volumosa e impressiva foi de história, Les Premières Civilizations. Ouvrage illustré de 443 figures, num in-fólio de 820 páginas, carregado de boas gravuras, muitas a partir de fotografias, outras de desenhos e ou mesmo aperfeiçoadas a partir de esboços de recreação história que ele imaginava e desenhava, tal como podemos ver.

No Livro Primeiro, a Evolução das Civilizações, trata do O nascimento e desenvolvimento das Instituições, Costumes e Crenças nos primeiros povos civilizados, dividindo em capítulos sobre a história, família, linguagem, crenças religiosas, moral e direito, propriedade, indústria e governos. No Livro Segundo, Como os povos se elevam à civilização, há dois capítulos: a influência dos meios e da raça, e as lutas pela existência e a aptidão dos povos a variarem, as ilusões e as crenças. No Livro Terceiro, o mais extenso, aborda a civilização Egípcia. No Quarto a civilização caldaica-Assíria e no Quinto a Judaica. No Livro Sexto, segue-se já não assim consideradas mas como Aparição dos Arias na História e na Civilização: Os Persas e Medas. No Livro Sétimo, Como as civilizações do Oriente se propagaram no Ocidente, aborda o Papel dos Fenícios na História, considerando ter sido através deles que os gregos receberam os resultados das civilizações egípcia e caldaico-assíria.
Gustave le Bon, nesta obra, como podemos verificar pela ordem dos capítulos, pelo número escasso de páginas, dedicadas à Pérsia, e pelo começo do capítulo, parece trair algum menosprezo por ela:
«O papel dos Persas foi muito grande na história política do mundo, mas muito fraco na história da civilização.
Durante dois séculos que durou o seu poder, eles fundaram um gigantesco império; mas nas ciências, as artes, a indústria, a literatura, eles não criaram nada, e  ao tesouro dos conhecimentos acumulados pelos povos aos quais eles sucediam nada acrescentaram. (...) Ainda esclarecerá que «O contributo real dos Persas no fundo comum do progresso humano é tão mínimo que poderíamos reduzir ainda as páginas que lhes vamos consagrar.» Abordemos as suas páginas sobre a religião, onde a sua opinião já é bem diferente. Comparando os dois ramos indo-europeus, escreve: «Enquanto que os iranianos pela grande reforma de Zoroastro, adoptavam uma religião estática, distinta, fundada sobre o princípio do dualismo [algo errado], os Arianos da Índia conservavam o seu panteísmo vago e continuavam a oferecer os seus sacrifícios pacíficos aos manes dos antepassados e às forças da Natureza».

Já ao descrever as instituições, a moral e costumes, tem de reconhecer alguns dos bons caracteres persas, citando Heródoto amiúde:« Não lhes é permitido falar de coisas que não lhes é permitido [ou que não conseguem] fazer. Não acham nada de mais vergonhoso que mentir, e a seguir à mentira, contraírem dívidas, dizendo que, entre outras razões, que quem dívidas mente necessariamente». A bondade e a valorização da mãe e dos seus conselhos, eram também característica deles.
A sua abordagem à religião é ainda assim boa, baseando-se quase sempre em Heródoto, e observará acertadamente que «Ahura Mazda assemelha-se ao Iahve dos Israelitas; não ao sombrio ídolo, ávido de massacres e de sacrifícios, que presidia à época heroica do estabelecimento na Palestina, mas ao Eterno espiritualizado e afinado dos profetas», embora não esclareça que este afinamento religioso e civilizacional resultara da influência directa da Pérsia de Ciro, sobre eles. Considerará ainda, na evolução das concepções religiosas persas, que «Ahura Mazda, cujo nome significa "soberano e omnisciente" é uma personalidade divina muito elevada, e que os Iranianos poderiam ter adorado exclusivamente num monoteísmo infinitamente mais puro que o de Israel, se o grande problema da existência do mal no mundo não tivesse atormentar os seus espíritos», o que os levara a admitir um deus do mal, Ahriman, embora destinado um dia a ser definitivamente derrotado, e a reconhecer a existência de entidades celestiais elevadas, do bem e do mal, diminuindo (aparentemente) o seu monoteísmo. 

Considera mais ou menos correctamente que «os Persas receberam dos Assírios alguns dos seus símbolos: os leões e touros alados que, para eles, eram emblemas, não dos deuses mas dos génios. Eles foram mesmo mais longe, e representaram o seu grande Ahura Mazda sob a figura de Assur: um homem de pé no centro dum disco alado. Mas esta imagem não foi nunca mais do que uma espécie de hieroglifo do deus e nunca se tornou um objecto de culto. É preciso portanto reconhecer, que entre todas as religiões da Antiguidade, nenhuma foi mais espiritualista, mais moral, mais desprendida de ritos grosseiros e de superstições que a religião mazdeísta»

Tentando abordar  o Mazdeísmo, concentrando-se na época áurea de Ciro, transmitida por Heródoto, e depois de realçar quão diferente era já do panteísmo dos arianos na Índia, afirma «que eles representavam a divindade como independente do Universo, e como tendo-o tirado do nada só pela sua vontade e pelo poder do Verbo. A sua narrativa da criação aproxima-se muito da Génese. [Não afirma, certamente para não pôr em causa a ideia de revelação sagrada, dos meios judaico-cristãos, quanto os profetas e redactores da Torah aproveitaram disfarçadamente das concepções persas.]

Ahura-Mazda (Ormuzd), o grande deus dos Persas, falando ao seu profeta Zoroastro, diz-lhe: " Eu pronunciei esta Palavra, que contém o Verbo e o seu efeito, para obter a criação do céu, antes da criação, da água, da terra, da árvore, da vaca quadrúpede, antes do nascimento do homem verídico de dois pés."

Também Gustave Le Bon, abordou as Fravashis segundo a sua sensibilidade e cultura e depois de referir a hierarquia de espiritos celestiais, bons e maus, escreve: «Uma categoria curiosa era a das fravashi, espécie de duplos de todos os seres vivos, tipos espirituais das criaturas carnais, tanto intercessores como representantes dos homens diante de Deus.
Cada vez que uma criança vinha ao mundo, um [uma] fravashi ligava-se à sua pessoa, protegendo-a um pouco ao modo do anjo da guarda [outra influência, talvez algo discretamente aludida]; seguia-o em toda a sua existência e só a deixava à sua morte. Quanto mais uma pessoa era virtuosa, mais à sua fravashi era benfazeja e poderosa.»
Os seus resumos sobre o pretenso dualismo, a escatologia da luta do bem com o mal e os princípios morais do Mazdeísmo são valiosos:« O puro ensinamento de Zoroastro negava a eternidade do princípio do mal no futuro. Agra-Mainyous ou Ahriman devia ser exterminado, vencido e o triunfo definitivo de Ahura Mazda seria anunciado pela vinda de três grandes profetas que estabeleceriam  o mazdeismo no mundo inteiro [não é bem assim]. A seita dos Maniqueus, criada muito mais tarde, no séc. III, proclamou a eternidade dos dois princípios e luta sem descanso através do tempo infinito de Agra-Mainyous contra Ahura-Mazda.  Esta doutrina desencorajante não nascera ainda nas colinas do Irão, a Pérsia dos antigos sábios mantinha vivo no cimo do seu altar simples o fogo sagrado, símbolo de Ahura-Mazda, o fogo eterno que nunca se deixava extinguir. O crente cumpria então, pela sua parte, com confiança, a luta do bem contra o mal, que uma vitória suprema deveria no fim coroar.
A moral do mazdeismo era muito elevada. Ela exigia que se fosse justo, verídico e casto, não só em acção, mas na palavra e mesmo em pensamento. Ela inspirava sobretudo o horror da mentira. Os Persas, segundo Heródoto, ensinavam três coisas às suas crianças: andar a cavalo, desfechar o arco e dizer a verdade. A pureza dos costumes, a rectidão, o amor do trabalho, são as principais virtudes recomendadas pelos livros sagrados. 
A ocupação mais meritória, à qual se pode dedicar um Iraniano, era lavrar a terra. A função do agricultor era quase religiosa: ao estender o território fértil, restringindo o espaço árido, ele fazia triunfar Ahura Mazda, autor das colheitas, contra Agra-Mainyous, pai dos ermos e da infecundidade.
"Justo juiz, pergunta Zoroastro a Ahura Mazda, qual é o ponto mais puro da lei dos Mazdeus? 
É semear  na terra boas ou fortes sementes. Aquele que semeia grãos e o faz com pureza, cumpre a lei dos Mazdeus em todo a sua extensão. O que pratica esta lei é como se tivesse dado o ser a cem criaturas, a mil produções ou recitado mil orações"

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