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| Quarta-feira, Lua Cheia; às 15.30. Boas meditações! |

Os Almanaques nos séculos XIX e XX tiveram em Portugal um grande desenvolvimento que não pode ser imaginado hoje na sua profusão, variedade e qualidade, a menos que se investigue e estude bastante. Cada um deles, e foram milhares regionais e nacionais, era animado por um grupo de pessoas, transmitia um conjunto de informações, ensinamentos e imagens que tocavam e satisfaziam muita gente, alguns deles sendo verdadeiramente dinamizadores psíquicos, políticos, culturais, artísticos, patrióticos, regionalistas, religiosos, espirituais.
Amílcar de Sousa nasceu em 1876 em Alijó, no Entre Douro transmontano, formou-se em 1905 em Medicina pela Universidade de Coimbra, especializando-se em doenças de alimentação em Paris e, retornando ao Porto, animado pela sua adesão ao vegetarianismo, ao naturismo, ao frugivorismo, ao crudivorismo, criou a Sociedade Vegetariana de Portugal, com a Editora, em Março de 1911, assumindo então a direcção da 2ª série da revista mensal o Vegetariano (fundada em 1909 por Manuel Teixeira Leal, Jerónimo Caetano Ribeiro, o libertário e esoterista Ângelo Jorge e outros), e lançando o Almanaque Vegetariano ilustrado de Portugal e Brasil, em 1912. E escreveu artigos para jornais e revistas, traduziu (por vezes com notas de tradutor críticas) e publicou livros de ensaio e romance, para além das consultas médicas naturistas que curaram muita gente, como a revista e o almanaque registam. Um pioneiro importante no movimento revolucionário naturista e utópico português.
Vamos abordar o II ano do Almanaque Vegetariano ilustrado, de 1914, e ele publicar-se-á até 1920, e destacar o que nos parece mais valioso ou perene não só de Amílcar de Sousa como dos seus amigos e amigas colaboradores.
Na apresentação, Amílcar de Sousa destaca como cada Almanaque é um bom e leal amigo sempre disponível, e um condensador de conhecimentos, ou de distrações e humor mas «o Almanaque Vegetariano visa um mais alto fim. Procura encaminhar a Humanidade para a Verdade que dimana da Natureza! Pretende interpretar os fenómenos naturais pela conjugação da Vida no mistério que promana do Sol, o Criador e o Pai assim como da Terra, a fecunda Mãe de tudo quando palpamos, sentimos e mesmo quase vemos. O homem do Século Vinte de tal modo se aniquilou nos diversos males da sociedade corrompida que nem sequer ama a Saúde. A todas as horas e em todos os momentos se corrompe e se suicida! Foge da Luz divina que gradua a paisagem e esmalta os campos (...), acrescentando mais à frente «O Sol, o Ar, o Exercício e os Frutos são as quatro linhas do quadrado que urge ter sempre presente para dele recebermos o vivo reflexo, o rijo influxo, o valeroso esforço e pujante vitalidade dimanante.»

Destaquemos das colaborações, primeiro, Maria da Câmara Reis Jardim (na fotografia), moradora na Azambuja, com Menus e receitas e A regeneração pelo Naturismo, com boas citações, de Eça, Garret, Goethe que «dizia que conseguira ser belo pensando em coisas justas. Ser-se justo é meio caminho andado para realizar a beleza», e artigo que é em si um autêntico manifesto patriótico do valor do Naturismo: «Sejamos portuguesas pelo Naturismo e ensinemos nossas filhas a sê-lo também; vivamos patriarcalmente, que só para isso temos recursos, e seremos um povo invejado pela nossa independência.», tão actual face à globalização anti-nacional de Bruxelas que tanto tem descaracterizado o país e escravizado os políticos com altos ordenados e submissões aos interesses e objectivos da oligarquia infrahumanista.
Em segundo destaquemos o grande amigo de Antero de Quental, o sábio Jaime de Magalhães Lima, num texto bastante filosófico, Consciência, Ciência e Vegetarianismo, onde analisa e critica o romance de Roman Rolland, Jean Cristophe, Le Buisson Ardent, e defende que o princípio da vida é mais o amor, que brota da consciência interior e muita na linha de Antero de Quental, nomeadamente na famosa carta a Fernando Leal (já abordada neste blogue) e não tanto a luta de matar para viver, exemplificando bem: «Se as faias têm uma vontade, vontade de crescer e de conquistar a floresta, o homem tem também e simultaneamente uma outra vontade, vontade de se sacrificar e amar e banir o sofrimento alheio. Tudo é obra da mesma criação; e não há lei alguma que nos obrigue a preterir a lei que trazemos no espírito por aquela outra lei que os nossos olhos supõem ver regulando o comércio dos outros seres. O que vemos no mundo externo não poderá prevalecer contra o que sentimos dentro de nós....»

Num almanaque de saúde natural, de naturismo e vegetarianismo, não poderiam faltar as colecções de ditos de seres famosos, e assim encontramos os Conselhos de Saúde (55), os Preceitos de Saúde (47), Conselhos alheios (44), Pensares Naturistas, O exercício Muscular tem intimas relações com a vontade (18), Preceitos (10), Os 10 mandamentos do banhista, Conselhos de Outrem (48), Conselhos de Higiene (49) alguns deles bem valiosos, e que abordaremos num dos próximos artigos do blog.

João Vasconcelos, ou João Pinto Soares de Vasconcelos, foi um dos médicos que apresentou mais o Naturismo como religião, e como sabemos na época houve em França quem assumisse bastante essa opção como religião face ao Cristianismo, e assim tanto parafraseou o Pai Nosso, como a Salvé Rainha, como o Decálogo. Oiçamo-lo nos Mandamentos da lei da Saúde:
1. Amar a Natureza sobre todas as coisas
2. Não pronunciar o seu nome em vão.
3. Guardar repouso e sestas.
4. Honrar-se no trabalho.
5. Animais não devorar.
6. Guardar sobriedade.
7. Levantar cedo
8. Fugir da ociosidade.
9. Não invejar a sorte do próximo.
10. Na Atmosfera pura e luminosa se retemperar.
Estes mandamentos se encerram em dois: - Amar a natureza e respeitar a sua obra, como a nós mesmos.»
Num artigo intitulado Ar, Luz e Sol João Vasconcelos defende o valor destes agentes na higiene e medicina, afirmando a dado passo: « o ar alimenta-nos, directamente pelo oxigénio, e pela eletricidade, magnetismo e outros elementos imponderáveis que absorvemos pela pele e os pulmões (...) e que estimula todas as funções orgânicas , suave e docemente, por intermédio dos sistema nervoso que á superfície cutânea recolhe, pelas suas finas e sensíveis ramificações, a mais ténue impressão vinda do meio ambiente. Foram estes verdadeiros elementos, mais valerosos do que geralmente se julga, e estas acções estimulantes , que faltaram a humanidade civilizada e, desta forma, a obrigaram a suprir, por uma alimentação gástrica superabundante, aquela deficiência nutritiva...»
Valioso para o conhecimento de Amílcar de Sousa é um testemunho de J. Vitorino Pinto, descrevendo um passeio dialogante «onde eu apenas o acompanhava, visto que o grão-mestre desta ordem atávica e natural, o patriarca inexcedível, o apóstolo incansável era ele», que tentava convencê-lo, citando Schlickeysen, Cuvier, Abramowski, V. Bruant, que o frugivorismo era mesmo o melhor.
O almanaque, na informação ou ensino do ciclo doze meses de características climáticas, estações, tradicionais e actividades agrícolas próprias está bem desenvolvido, nomeadamente com estímulos de apreciação às árvores e seus frutos para cada mês.
Entre várias poesias dedicadas às arvores, às aves, ao naturismo e à Natureza, destaquemos a final de Teófilo Carneiro, que vou apenas fotografar, e, a quem quiser transcrever, agradeceremos...
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