As Epístolas dos Irmãos da Pureza e o misticismo sufitico em Silves no século XII.
José Garcia Domingues, in Novos Aspectos da Silves Arábica. Documentos e comentários, dado à luz em Guimarães, em 1956, escreveu um valioso e pioneiro apontamento para a espiritualidade algarvia no séc. XII, e mais concretamente em Silves e acerca do misticismo sufi, nomeadamente de Ibn Caci e dos Irmãos da Pureza, e dizemos pioneiro porque nos nossos dias Adalberto Alves já publicou bastante mais detalhadamente a vida e obra de Ibn Caci e de outros sheiks e sufis.
A obra é um in-4º de 41 páginas, e insere não só dados históricos como belas poesias inspiradas nos ares perfumados de Silves, nomeadamente da corte poética de Almotamide, Ibne Ammar, Ibne Almilehe e Almississi, e da época dos Almorávidas, tal a de Ibne Atalá, que nasce e morre em Silves (1082-115), bem cautelosa quanto ao fogo do amor transmissível pelos olhos
O texto refere também a influência entre nós da famosa enciclopédia dos Irmãos da Pureza, os Ihwan as-Safa, escrita na forma de 52 cartas ou epístolas, ao longo do século IX, que reflectem muitos ensinamentos pitagóricos, mas também de outros gregos (Sócrates, Platão, Aristóteles), e de babilónicos, zoroastrianos e sabeus (que serão contestados no séc. X, e perseguidos e extintos no séc. XI), e tratam das ciências: geometria, aritmética, astronomia e música, bem como de filosofia, magia, religião, vida depois da morte e estados espirituais no caminho da gnose. Foram escritos em Bashra, actual Iraque, por iraquianos e persas, shiias e pré-ismailitas que eram pitagóricos ou interessados no pitagorismo, discutindo-se a exacta autoria. Revelam uma consciência hermética e esotérica ecuménica valiosa no Islão inicial e não estão distantes de Sohrawardi e a sua filosofia da luz oriental ou iluminante, ishraqi. Exemplos valiosos dessa gnose observamos na concepção da vida depois da morte (que nos seus níveis celestiais implica uma reforma da alma, a aquisição da fé interior verdadeira e o conhecimento da realidade profunda), e na caracterização da magia verdadeira como aquela que está patente nos profetas e sábios, que ficam dotados duma palavra eficaz e são capazes de chamar a Deus, e de serem médicos das almas e transmissores de ensinamento divino, ao realizarem milagres e prodígios por um influxo intelectual que lhes vêm dos anjos por revelação e inspiração. [Epístola IV. Encontra-as no Internet Archive.]
Pois os escritos desta irmandade iraquiana-iranina, shiia e ismaelita, com a filosofia perene pré-islamica e islâmica, chegou até ao extremo Ocidente, com Ibn Caci, e outros sufis a conhecerem-na.
Oiçamos o breve capítulo, do sábio historiador, filósofo e arabista, natural de Silves, José Domingos Garcia Domingues (1910-1989), com extensa obra publicada:
Nota (1): «Antes de partir para Espanha, Louis Massignon (1883-1962, com Henry Corbin, grande sábio europeu do Islão místico e iniciático) comunicou-me que na sua conferência de Madrid trataria também da influência do neo-islamismo na obra de Ibne Caci. A conferência do ilustre arabista foi realizada na Real Academia de la Historia, no dia 5 Novembro de 1954. Teve como título Hallaj et les Isma'iliens.»
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