quinta-feira, 2 de julho de 2026

As Epístolas dos Irmãos da Pureza e o misticismo sufitico em Silves no século XII. Ibn Caci, poesia e magia. Por José Garcia Domingues...

As Epístolas dos Irmãos da Pureza e o misticismo sufitico em Silves no século XII.

José Garcia Domingues,  in Novos Aspectos da Silves Arábica. Documentos e comentários, dado à luz em Guimarães, em 1956,  escreveu um valioso e pioneiro apontamento para a espiritualidade algarvia no séc. XII, e mais concretamente em Silves e acerca do misticismo sufi, nomeadamente de Ibn Caci e dos Irmãos da Pureza, e dizemos pioneiro porque nos nossos dias Adalberto Alves já publicou bastante mais detalhadamente a vida e obra de Ibn Caci e de outros sheiks e sufis.  

A obra é um in-4º de 41 páginas, e insere não só dados históricos como belas poesias inspiradas nos ares perfumados de Silves, nomeadamente da corte poética de Almotamide,  Ibne Ammar, Ibne Almilehe e Almississi, e da época dos Almorávidas, tal a de Ibne Atalá, que nasce e morre em Silves (1082-115), bem cautelosa quanto ao fogo do amor transmissível pelos olhos  


«Nunca olhes fixamente para quem tenha encanto.
Acautela-te com as consequência de um tal olhar...
Quantos não vimos nós serem vítimas do amor
só por causa de um olhar
e o logo o destino a abatê-los...»

O texto refere também a influência entre nós da famosa enciclopédia dos Irmãos da Pureza, os Ihwan as-Safa, escrita na forma de 52 cartas ou epístolas, ao longo do século IX, que reflectem muitos ensinamentos  pitagóricos, mas também de outros gregos (Sócrates, Platão, Aristóteles), e de babilónicos, zoroastrianos e sabeus (que serão contestados no séc. X, e perseguidos e extintos no séc. XI), e tratam das ciências: geometria, aritmética, astronomia e música,  bem como de filosofia, magia, religião, vida depois da morte e estados espirituais no caminho da gnose. Foram escritos em Bashra, actual Iraque, por iraquianos e persasshiias e pré-ismailitas que eram pitagóricos ou interessados no pitagorismo, discutindo-se a exacta autoria. Revelam uma consciência hermética e esotérica ecuménica valiosa no Islão inicial e não estão distantes de Sohrawardi e a sua filosofia da luz oriental ou iluminante, ishraqi. Exemplos valiosos dessa gnose observamos na concepção da vida depois da morte (que nos seus níveis celestiais implica uma reforma da alma, a aquisição da fé interior verdadeira e o conhecimento da realidade profunda),  e  na caracterização da magia verdadeira como aquela que está patente nos profetas e sábios, que ficam dotados duma palavra eficaz e são capazes de chamar a Deus, e de serem médicos das almas e transmissores de ensinamento divino, ao realizarem milagres e prodígios por um influxo intelectual que lhes vêm dos anjos por revelação e inspiração. [Epístola IV. Encontra-as no Internet Archive.]

                    

Pois os escritos desta irmandade iraquiana-iranina, shiia e ismaelita, com a filosofia perene pré-islamica e islâmica,   chegou até ao extremo Ocidente, com Ibn Caci, e outros sufis a conhecerem-na.

Oiçamos o breve capítulo, do sábio historiador, filósofo e arabista, natural de Silves,  José Domingos Garcia Domingues (1910-1989), com extensa obra publicada:

«O venerado Mestre Dr. David Lopes apresentou na sua obra Os Arabes nas obras de A. Herculano a tradução de um interessante trecho de Ibn Alcatibe, o ilustre historiador granadino, na sua obra Noticias acerca dos que foram proclamados reis antes da maioridade, intitulado Sucessos de Abu Alcacime Ibne Caci pretendente a Madhi. Infelizmente a tradução que o Dr. David Lopes deu não é completa, nem valoriza devidamente o trecho.
Preocupado sobretudo com a história política, o Dr. David Lopes passou por alto o que a ela não dizia directamente o respeito.
Julgamo-nos no dever de fazer uma nova tradução desse trecho visto que ele nos ilumina sobre as origens do movimento sufítico de Silves pondo-o imediatamente em relação com as ideias orientais das Epístolas dos Irmãos da Pureza (ou da Fidelidade, como modernamente se traduz). O trecho em questão diz o seguinte:

«Foi a revolta deste homem a primeira revolta do Andaluz nos fins do Império dos Lamtúnidas e ficou conhecida por a revolta dos Muridas pois este homem era xeque dos xeques (cheikh supremo) dos sufis conhecidos entre os seus sectários no Ocidente do Andaluz por partido tornou-se muito numeroso e violento no Ocidente do Andaluz, principalmente na cidade de Silves e aumentou o entusiasmo dos seus sectários pelos livros do sufismo e pelo objecto das ciências do ocultismo assim como pelas Epístolas dos Irmãos da Pureza e por outras coisas como estas.
Divulgou-se esta doutrina em Silves e Niebla e no termo de Mértola e esta foi a terra de Abu Alcácime Ahmede Ibne Al-Hossaine Ibne Caci.»

Como se vê, o trecho faz revelações sensacionais.
1º que em Silves se haviam difundido as Epístolas dos Irmãos da Pureza de Bagodá e outros livros do mesmo género transmissores das ideias místicas orientais. 2º que entraram não só as ideias místicas como também as preocupações ocultistas.
Ficam assim, em parte, explicadas as origens das ideias místicas de Ibne Caci até há pouco bem obscuras e sobre as quais vem derramar nova luz um recente trabalho do eminente arabista francês Louis Massignon (1) em que este procura mostrar que as ideias do Ibne Cace reflectem  também o misticismo neo-ismaelita, quase único na Hispânia.»

Nota (1): «Antes de partir para Espanha, Louis Massignon (1883-1962, com Henry Corbin,  grande sábio europeu do Islão místico e iniciático)  comunicou-me que na sua conferência de Madrid trataria também da influência do neo-islamismo na obra de Ibne Caci. A conferência do ilustre arabista foi realizada na Real Academia de la Historia, no dia 5 Novembro de 1954. Teve como título Hallaj et les Isma'iliens.» 

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