quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os mestres do Amor do Irão, Jami, poeta, cientista, iniciado e sufi. Dedicado a Ali Larijani e Ali Khamenei que certamente o conheceram.


 Nour  ud-din Abdur-Rahman Djami ou Jami foi um dos mais valiosos poetas religiosos, isto é, éticos e místicos,  iranianos do século XV, 1414-1492, que tem sido lido e comentado ao longos dos séculos, tendo deixado cerca de 90 obras, por ter conseguido recolher e sintetizar o melhor da tradição sufi, que ele dominava alargadamente, pois viajara e dialogara muito, fora iniciado em fraternidades sufis, nomeadamente na Naqsbandhi e no ensinamento do místico da Andaluzia, Ibn Arabi, transmitindo com  profundidade e experiência a sua compreensão e realizações no caminho do auto-conhecimento e da religação a Deus, tal o Amor, cósmico e individual,  profano e místico. 

Abd-Ul Ghafour Ravan Farhadi foi um dos seus bons comentadores modernos (Iran Moderne) e vamos citá-lo um pouco, pois embora, por exemplo, os dois mártires Ali Larijani e Ali Khamenei o conheceram não cremos que tenham escrito sobre a sua obra e intuições, tanto mais que ambos tiveram de lutar muito militar e politicamente para conseguirem manter a República Islâmica do Irão livre da opressão do Ocidente hegemónico.

Como sabemos o amor é no Irão quase que a religião nacional, e a  interior da religião islâmica, e nesse sentido tantos mestres e poetas a trabalharam e transmitiram ensinamentos bem valiosos. E poderemos referir os fiéis do Amor de Isfahan, Rumi,  Hafiz, Ruzbehan de Balk, já abordado neste blogue e que tive a graça de visitar e meditar o seu tumulo em Shiraz tendo mesmo gravado um vídeo que pode observar no youtube.

Mas já em Zoroastro a visão de Deus, Ahura Mazda é a do Ser Supremo da Sabedoria e da Bondade e que apela a nós para desenvolvermos a trindade dos Bons pensamentos, boas palavras e boas actos. O Amor entre os seres, a família, o amor do cultivo da Terra e da Verdade, numa luta contra a mentira e a injustiça são deveres de todos nós, e essenciais para que Asha, a Ordem e Providência Divina e amorosa se realize. 

Com Jami já se passaram muitos séculos dos ensinamentos dos magos e de Zoroastro e com muita experiência, visão e doutrinação sobre o Amor de tantos iniciados e sufis, pelo que Jami, filho dum sufi, iniciado e místico,  pode voar bem alto na sua visão  cosmogónica,  de certo modo na peugada dos que o antecederam tal Ibn Arabi, Rumi, Attar, Sohrawardi, Ruzbehan. Vejamos a sua visão:

«A Beleza do Único existe desde a pré-eternidade (azal). A Vontade do Único alegrou-se em manifestar  (tajjali) esta Beleza. Esta Vontade foi portanto a base da Criação, que vendo do nada à existência, aspira a adorar a Beleza. Esta Vontade esteve consequentemente na origem do Amor que está fora do tempo, sem princípio nem fim (Sabhat-ul Abrar Silsilat-us-Zahab). Tudo depende portanto do Amor: a criação, o movimento dos astros e dos ceus, o desabrochar das flores.»

No ser humano o amor manifesta-se como o desejo instintivo da união sexual, e o desejo de união psíquica e espiritual, com a amada ou com Deus. Neste amor mais intenso e verdadeiro, há  necessidade de nos libertarmos do que nos prende, seja por desejo seja por receio. Assim, nos estados de amor mais intensos ou elevados, tanto a razão  ou racionalidade, como o ego ou o eu são  abandonados, queimados no fogo do amor do coração, no fundo trocados pelo ser Amado,

Nesta movimentação o ser tanto conserva o amor humano, como passa ao divino, que é o elixir da vida eterna, Muitos místicos sentiram-no mais no coração transparente ao Amor Divino, tornado taça ou cálice.

Esta movimentação passa por estações sucessivas, que vão «da sua procura do ser que se ama por causa de nós mesmos, e depois já se deseja esse ser por ele mesmo, e por fim consagra-se a tal ser pelo Amor.»

«Quando esta consagração é realizada, a dualidade diminui ou desaparece , já pouca ou nenhuma distinção havendo entre os dois amantes, só havendo o amor para sempre, ou até ao fim dos tempos ou da manifestação. Esta vontade unificada pode então reger ou determinar tudo, num equilíbrio entre o destino, o dever, a providencia, e o livre arbítrio.»

O ser que mais sente o amor deve renovar a sua consagração ao Divino, à Verdade, ao Amor, e ser-lhe mais fiel, mesmo quando  sente mais intensamente o amor humano, pois só por esta aspiração ígnea não materializada ou fixada é que o coração se torna o atanor ou o ovo alquímico onde o oceano de Maomé, ou a Haqiqat mohammadiya,  a realidade mohammedica, se manifesta e apura a nossa essência divinamente, pois para todos os níveis, e em espacial nos internos, a Fonte do Amor na Criação e Manifestação é Deus, Allah.

Transcrevemos agora um bem elevado poema do Diwan de Jami, que oferecemos a Ali Khamenei e a Ali Larijani, neste findar do dia 8 de Julho enquanto oiço em directo as orações e cantos em homenagem a Seyyed Ali Khamenei, na cidade santa de Karbala. 

Assassinados pelos invejosos e opressivos do eixo do Mal, ressuscitaram como mártires, shahid, os seres que testemunham nas dificuldades e perante a ameaça da morte o seu amor e união a Deus, entrando no além bem conscientes da sua dimensão espiritual, imortal e fiel do Amor e de Deus, passando a reflectir a Luz divina, tal como os profetas, e os Imams, para nós, como todos nós, não cegos pelo infrahumanismo ocidental, observamos com os mais de 30 milhões de seres que tem participado nestas procissões e orações, e recebendo do heroico e sábio Ayatollah Ali Khamenei e dos awlia, ou amigos de Deus que estão com ele, certamente muitas inspirações e bênçãos, para que a vitória das forças da Luz e da Justiça seja bem contribuída pelo povo iraniano e a família shiia, ahl al-Bayt.


                         «Olha, Jami, desde a criação
Todo o átomo, aos olhos dos fornecidos de visão,
É uma taça partida por uma ferida eterna.
Envolvendo-a completamente, está inscrito um nome.
Que taça é esta? A taça ou cálice do Permanente.
Que nome é ele? O nome do Escanção.

Do cálice bebe o néctar e está em paz.
E quanto ao nome, eleva o olhar para o seu detentor.
Nele perde todo o sinal, toda a marca.
Perdido no Seu Ser, recolhe-te do mundo
Afim de te libertares do teu ser,
Das trevas da tua adoração de ti mesmo.
E chegarás a um lugar donde não há qualquer saída,
Donde não se tem conhecimento senão do não-conhecimento,
Do mundo sem traços, eu te pus sobre o traço
E o resto é contigo"

Avança pois, amigo, orando e cantando no teu coração,
para que o amor a Deus arda tanto em ti,
que de Deus descerá o fogo do Amor,
que te aperfeiçoará e  libertará
dos erros, desejos e receios.
Dança com o teu corpo de glória
abrindo-te ao amor e à luz divina,
assimilando-os em teu corpo e alma,
e dando muitas graças por participares
no corpo místico ou Ummah dos qutb,
de Allah,  Mohammed, Ali e Fátima
e dos Shahid actuais, tantos, aqui e agora
connosco vibrando no Amor invencível.
Allah, Ali, Jami, Ali Khamenei.

Sem comentários: