domingo, 12 de julho de 2026

No 490º aniversário da morte de Erasmo. A perenidade da sua vida e obra. Carta sobre as qualidades dos governantes, o valor da história crítica, e o elogio dos livros

Pequeno oratório erasmiano em Lisboa, com um rosário ou mala jaina e um cálice persa

     Nesta terceira década do século XXI, celebrando-se já quase o quinto centenário da morte de Erasmo, daquele de quem André de Resende escreveu a Damião de Goes, que com Erasmo chegara a viver, dando-lhe conta de uma voz que ouvira em sonho: «extinguiu-se para o mundo aquele que era o ornamento que os séculos nunca chorarão suficiente», o que deveremos relembrar do seu ser, vida e obra como sendo o mais perene?

O moralista, o satírico e irónico, o classicista, o cristão, o reformista, o irenista, o filólogo e retórico, o pedagogo das crianças e dos príncipes, o polemista, o epistológrafo, o guia da intelectualidade cristã, o ecuménico, o conciliador, o conselheiro de príncipes, governantes, papas e altos eclesiásticos, o filósofo, o teólogo o renovador do Cristianismo, e da palavras de Jesus?

Como humanista, sintetizador ou unificador da sabedoria pagã ou greco-romana e a cristã, recolhendo tanta sabedoria popular dos provérbios e tanta clássica dos exemplos, o que devemos mais realçar como conceitos, valores, princípios que nos possam inspirar e guiar?

O logos ou inteligência, intelecto activo, palavra, verbo, sermo, ordem, tão trabalhado pelo estoicos com o logos spermatikoi  que permeia o mundo e que ele tanto sentiu nas suas investigações e intuições, ou com os confabulators mais próximos?

O corpo místico da Igreja e da Humanidade que a todos envolve e  que todos pertencemos, subcampo da alma do mundo e no qual colaboramos com a nossa devoção, trabalho, amor e criatividade?

O valor da vida simples e sincera, da justiça distributiva eficaz e alargada, a critica dos poderosos, arrogantes, pedantes, opressores, 

O defensor do livre arbítrio, como exemplificou n polémica com a predestinação de Lutero, certamente condicionado pela hereditariedade, o ambiente e a educação mas a vida  apela à nossa liberdade interior e responsabilidade de sabermos escolher o melhor possível.

A demanda da verdade e a recusa da mentira, o elogio do bem e a crítica do erro, como ele corajosamente praticou toda a sua vida, sendo por isso tão atacado e censurado, mas perseverando nos seus trabalhos e edições e nas suas cartas, que tanta gente inspiravam e guiavam, sobrevivendo hoje cerca de 3.000, publicadas por Allen e pela Toronto University Press e das quais publicamos algumas traduçoes e excertos no blogue.

Nada melhor do que concluir esta breve homenagem a um amigo e mestre querido, com quem convivi bastante alguns anos (e que me fez subitamente intuir hoje que era o seu dia), publicando um seu livro, Modo de Orar a Deus, e peregrinando ao local em que está a sua lápide da entrada na imortalidade, e nos quais dialoguei bastante com José V. de Pina Martins, um moreano e erasmiano de valor internacional, traduzindo um excerto duma sua carta de  actualidade enorme quanto à formação humanista dos dirigentes e das pessoas, quanto ao valor da História escrita como elogiadora ou condenadora dos governantes e do amor e leitura dos livros, sobretudo quando a manipulação da populações é tão desejada e implementada pela UE e a oligarquia mundial: 

Carta 586 na Opus Epistolarum de Allen, e na tradução de Marcel A. Nauwelaerts.   Antuérpia, 5 de Junho de 1517. 

Ó Frederico e Jorge, [duque da Saxóni] os mais integrais dos duques, de igual modo que eu não exigiria dos homens que uma decisão da Fortuna colocou ao leme do mundo um conhecimento preciso e exacto das disciplinas eclesiásticas - onde nós vemos que aqueles que envelheceram, longe de estarem capazes de segurar as rédeas do governo, flata-lhe mesmo o senso comum - de igual modo  afasto-me resolutamente daqueles que desviam os reis e governantes, como se fosse algo nocivo, de toda a relação com os livros, como se o que e verdadeiramente real consistiria em pouco saber e nada fazer senão jogar aos dados, caçar, ouvir bobos  e entregarem-se a prazeres ainda mais baixos.

Com que amigos, com efeito, um príncipe experiente e piedoso poderá  relacionar-se voluntariamente senão com aqueles que se encontram lá sempre, sabem de um grande numero de assuntos e não dizem nada por complacência?

Ora não se pode, na minha compreensão, extrair mais proveito de um livro que não seja das obras que transmitiram fielmente à posterioridade os feitos realizados nos domínios públicos e privados, sobretudo se é alguém de sangue real ou nobre e que se nutriu dos preceitos da filosofia pelos quais se interessa. Na realidade, os que se ocuparam de estudar a boa fórmula de conduta a adoptar mais do que narrarem minuciosamente a conduta que tiveram (Heródoto faz parte deles) são utéis na medida em que propõem ao olhar dos outros a estátua dum bom príncipe, pelo menos desde que a tenham esculpido  com arte e verdade. Por outro lado, além de outros benefícios, e são numerosos, que se retiram dos escritores de boa fé, há um de primeira importância: nada entusiasma  tanto os bons reis e os impulsiona  a realizarem acções louváveis, nada retém mais e refreia as paixões dos tiranos do que aperceberem-se, uns e outros, que pelos escritos dos historiadores, toda a sua vida vai ser brevemente representada sobre a cena do mundo inteiro, e o que é mais ainda, por todos os séculos; que tudo o que realizam, por hora em segredo, tudo o que cobrem de um pretexto ou constrangem, pela intimidação,  à dissimular mais que a ignorar, vai ser daqui a pouco tempo ser exposta  ao olhos de todos em plena luz e que, libertos do medo tanto quanto da esperança, e garantida contra a corrupção do espírito partidário [infelizmente dominante na UE, já quase monolítica e ditatorial], a posterioridade vai, na sua maioria, aplaudir as acções honestas, e também deliberadamente apupar e assobiar as que não são», hoje muitas e muito graves no mundo ocidental anti democrático e anti-multipolar.

Saudemos luminosamente Erasmo e que ele possa inspirar-nos a reagir e a lutar contra o estado calamitoso do Ocidente em guerra com a Rússia e com o Irão, dois países que lutam pela justiça, a liberdade, a multipolaridade, a república das Letras e da Sabedoria fraterna, e aprofundarmos o conhecimento, a gnose, a filosofia e teologia perene, e a religação crística e divina.

                                     

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