Pedro Teixeira da Mota - Sim, as pessoas mais evoluídas, com a consciência já mais desperta, expandida, tendendo ao universal ou também à não-dualidade, ao darem-se conta de tantas limitações e barbaridades feitas em nome de religiões começam a tentar aprofundar outras formas de religação consigo próprias e os outros, com seu espírito, com a Ordem do Universo, com a Divindade, sem estarem dependentes de tantos intermediários desequilibrados ou impuros, seja em livros, pessoas ou concepções e ritos... Podemos pois considerar que mestres, movimentos e grupos espirituais, no seu melhor, têm aprofundado as metodologias de auto-conhecimento e os modos de viver e de se ter uma alma harmoniosa, mais apta à religação com o espírito e com o Divino e que já não estão tão dependentes dos mitos e crenças do passado, de cultos e rituais ligados com tradições ultrapassadas e saudosismos inférteis, ameaças e promessas dualistas e radicais.
AP - Não haverá perigos de as pessoas ficarem numa terra de ninguém e poderem logo ser exploradas por gurus e grupos manipuladores, e acabarem por ficar pior de que quando eram meras ovelhas e carneiros?
PTM - Sim. Esta modernidade de abertura plena a todas as doutrinas, vias e técnicas, e já pouco submetida a dogmas, pode gerar muita mistificação e basta olharmos para muitos ensinamentos transmitidos por “canalizadores” ou médiuns, frequentemente ditos como provindo de anjos, de mestres ascensos, de seres extraterrestres mas que no fundo são bastante mais incursões no inconsciente do que leram ou ouviram, ou então fragmentos que entidades invisíveis lhes transmitem, explorando-os a certos níveis. Casos típicos deste tipo de nova Era libertadora superficializante e mistificadora, encontramos nos livros de Neale Donald Walsh, que clama mesmo ser directamente de Deus que recebe, embora numa linguagem tão corriqueira como tendenciosa, em Silvya Brown que dava mensagens do Anjo da Guarda da pessoa por uns tantos (não pouco) dólares ou ainda nos que canalizam uma entidade Kryon, para não falar de outros "canalizadores e decretadores", frequentemente evocando os mestres e mestras ascensos, que Elizabeth Claire Prophet reinventou a partir dos já mitificados mestres que teriam estado em contacto na Índia com Helena P. Blavatsky, uma ocultista também algo mistificadora em certos aspectos, mas que continua a ter os seus fervorosos seguidores apesar de terem sido expostas algumas das suas menos correctas afirmações, autorias e metodologias, entre outros, por Vsevolod S. Solovyov e Réne Guénon, este com o seu Le Theosophisme, histoire d'une pseudo-religion, de 1921, tal como já fizera com o Espiritismo.
Pedro Teixeira da Mota – Fascinantes não será expressão que use. Mas considero que o New Age, no seu início e nos melhores aspectos, enquanto movimento anti-mecanicista, holístico e espiritualizante de busca universal do conhecimento pode considerar-se ter raízes históricas na época do sincretismo hermetizante de Alexandria e no Renascimento e Humanismo dos séc. XV e XVI, com as suas vertentes de reunião das várias tradições (a Philosophia Perenis ou Prisca Theologia), e de valorização do estudo, da palavra e dignidade humana, tão presentes em Marsilio Ficino e Pico della Mirandola, de tal modo que a tradução da obra completa de Platão para o latim em 1487 foi considerada como abrindo uma nova Era para o Ocidente.
Tais tendências e aspirações estão presentes nos rosacruzes ou rosicrucianos do séc. XVII, e no magnetismo, ocultismo, espiritismo, teosofia e vinda de mestres indianos para o Ocidente, no séc. XIX, começa a desabrochar nos anos trinta e quarenta do séc. XX, com a física moderna, e um relacionamento maior da ciência, da filosofia e da espiritualidade, com bons pensadores e mestres a fomentarem uma busca intensa de mais conhecimento sobre a consciência e a mente, a alma e o espírito.





















