segunda-feira, 18 de maio de 2020

Uma oração espiritual ao Anjo da Guarda. Por Pedro Teixeira da Mota.

Santo Anjo da Guarda,
minha querida companhia,
dai-me firme a tua mão
para te sentir no coração.

Faz com que as tuas asas
e as infinitas de Deus
influam na minha alma
e a façam em paz brilhar
na aureola profunda
da comunhão constante
com a essência espiritual.

Ajuda-me a caminhar
com o bordão das virtudes
e no eixo dos mundos,
que tu conheces e mostras,
para que Deus esteja
mais presente em nós
e nos livre de desgraças,
pelo Amor invencível
do Bem e da Verdade real.

Saibamos erguer-nos da horizontalidade e comodismos, e erguermo-nos na espada ou vontade angélica, de abertura à comunhão com a Divindade!

quarta-feira, 13 de maio de 2020

"Réquiem", na editora Tartaruga. Poesia de Manuela Morais sobre os tempos actuais.

Acabou hoje de me chegar pelo abnegado carteiro mais um presente da Tartaruga, ou seja, foi dado à luz o último livrinho (in-8º de 38 p.) da apreciada editora alternativa Tartaruga, sempre com o seu grafismo e qualidade de papel de grande qualidade. 
E se muitos têm sido os autores publicados nos mais de oitenta títulos em carteira, este é mais um da autoria da própria fundadora da editora, a transmontana Manuela Morais, uma vida muito completa, licenciada em Literatura comparada, tendo acompanhado prolongadamente, ou vivido em amor e dedicação, dois grandes artistas Fernão de Magalhães Gonçalves, professor de literatura, leitor de português e grande amigo de Torga (sobre quem escreveu dos melhores ensaios) e, depois da sua precoce morte na Coreia do Sul, o escultor, pintor, medalhista e sábio da geometria sagrada Espiga Pinto, que passou a ser o ilustrador das capas e não só.
Este último livro tem ainda a actualidade de ter a sua génese na famigerada pandemia que tem perturbado bastante a vida e a morte de muita gente. É um canto da sua alma, simples mas sentido, de angústia e amor, de morte  e renascimento, e por isso foi gerado em verso e reverso: Réquiem e Canto da Alegria.
Tendo-me pedido umas palavrinhas para a contracapa, eis o que lhe enviei, e que ficou no meio das palavras de Cláudio Lima, Júlia Serra, e nas de dois amigos antigos e grandes Afonso Cautela, um jornalista pioneiro da ecologia e da saúde natural já a pendular nos outros mundos (e ver o artigo que lhe dediquei  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/07/afonso-cautela-vida-e-obra-com-um-video.html, e, a fechar o canto laudatório, o Rão Kyao, sempre soprando a sua flauta tão religiosa como pacificante...
 «Requiem e Canto de Alegria. Estes curtos mas incisivos poemas reflectem uma viagem sensível da autora tanto no inferno das vidas abruptamente cortadas e para o mundo do além atiradas sem qualquer preparação e celebração, como no purgatório dos que vivos sofrem a doença, os confinamentos, os receios, as angústias. É um pequeno filme de uma cidade ocidental em quarentena perante um misterioso e muito destrutivo vírus. E contudo, com o passar do tempo, com as forças da primavera, com as vitórias de muitos, começa a soprar uma outra viragem na alma pela qual a autora passa a sentir o amor subtil e imortal que parecia para sempre desterrado, morto. Os últimos poemas são um canto à esperança e renascimento, à vida e ao amor, em especial à comunhão amorosa com o amado, mesmo que já partido para o além. Através destes poemas somos convidados a comungar no corpo místico da humanidade, pois onde há amor ai está Deus, a Unidade, e esta infunde paz e esperança em cada individualidade e em toda a Humanidade.» 
Por fim, fiquemos com o 17º poema dos vinte e um, e inspirações e realizações de Saúde e Força, Discernimento e Destemor, Luz, Amor e Paz!

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O "imenso olhar" de Antero de Quental, nos sonetos de Carlos Eugénio Corrêa da Silva (Paço d'Arcos).

É na Visão imperfeita dum Parnaso cristão, dada à luz postumamente em 1932, prefaciada por Vieira de Almeida e dedicada a Ladislau Patrício (entre outros destinatários dos sonetos), que as primícias poéticas do malogrado Carlos Eugénio Corrêa da Silva (Paço d'Arcos) chegaram até nós, presenteando-nos com sonetos de profunda erudição e sensibilidade, embora talvez sem a fluidez musical que lhes poderia corresponder. 
 Era Carlos Eugénio um espiritual cristão, com algo de um místico medieval ou humanista mas com os anseios apropriados da modernidade, mormente na unidade entre o catolicismo e o paganismo, entre a civilização greco-romana e a ocidental cristã. 
Os 33 títulos dos sonetos dividem-se em 3 partes:
A I - Medalhas, subdividida em 3 capítulos, intitulados: De Delos ao Baixo Império (com 6 sonetos), Do Monte Cassino  a Versailles (com 4) e No Limiar do Mundo Moderno (com 11). Algumas grandes almas greco-romanas são invocadas e homenageadas, tais como Eneias, Cícero e Marco Aurélio, mas também locais, tais como Beja, onde uma jovem grega Nike recebeu versos exarados no seu epitáfio e que anunciam os de Camões a Inês de Castro.
A II - Impressões de Viagem contem sete sonetos, sobre S. Tomé e Príncipe, Barcelona, Lago de Lugano, Alentejo (2) e castelo de Marvão.
A parte III e última, Folhas da árvore da vida, tem quatro conjuntos sonetos, com títulos bem significativos, o último A uma rapariga linda e doente, composto no sanatório Sousa Martins na Guarda, contendo três sonetos, belíssimos, trágico, pois narra, já condenado pela tuberculose (o mal do século, sobretudo nos poetas) o enamoramento breve pelo seu "anjo de caridade",  e como a mão da Maria Celeste F. apoiou-o e com bálsamo precioso ungiu seu corpo e  alma, preparando-o para o Morrer é ser iniciado, que a Antologia Palatina dos gregos, Antero de Quental e Fernando Pessoa tinham afirmado e escrito. 
 Fotografemos a página intervencionada do terceiro e último soneto e transcrevamos os dois tercetos finais dessa dedicatória final, e com votos que no mundo espiritual se tenham reencontrado : 
«Deus há de coroar tua fronte formosa
Pois bálsamo trouxeste ao pobre Prometeu
Agrilhoado ao leito, à noite dolorosa.
 
 Onde vou? Ninguém sabe. À Morte? À vida? Ao céu?
Quiseste ser p'ra mim a aurora luminosa
De um dia mais feliz que nunca amanheceu.»

Depois desta contextualização, bem pequena para a imensa sensibilidade e erudição de Carlos Eugénio, depois de anotarmos que em 1931 a imprensa da Universidade de Coimbra dava à luz a antologia dos seu textos em prosa, de doutrina ou sensibilidade católicos, a Jornada de Um Crente, vindo a publicar-se depois ainda a Vita Brevis, com prefácio de Joaquim de Carvalho, transcrevamos, dessa II parte onde Antero ombreia com as outras referências de Carlos Eugénio, tais como Schiller, Bethoven, Chateubriand, Vigny, Psichari, Teresa de Brunswick,   o belo e sábio soneto dedicado a Antero de Quental:
«O Divino Platão disse a um filho errante:
Hoje reina a Matéria! O Espírito morreu!
Mas quem pode esquecer que eu transportei ao céu
A subsistente ideia em seu fulgor brilhante?

Na Grécia rica em luz em meu poema distante
Um pensamento eterno ao jovem mundo deu.
«Vai tu lampeão acesso em denso véu
Falar no Pensamento ao mundo agonizante!»

Assim falou Platão... E Antero do Quental
(Era ele o filho errante) ao mundo gasto trouxe
Um pensamento expresso em estilo de cristal.

Ébrio de soluções, no Oceano embrenhou-se...
A dúvida afogou-o. Em parte o mal.
Ergueu o imenso olhar. Faltou-lhe a fé. Matou-se.»
 Muito belo esta ligação, muito evidente, entre Antero de Quental e Platão, e implicitamente com Sócrates, com quem aliás Antero até se comparou no sentido de ser mais um dialogante que um escritor e, quanto a mim, por terem sido dois mártires do conhecimento e do amor, Logos. Na Grécia eles tinham elevado o pensamento até ao mundo arquétipo ou das Ideias, mas como agora a matéria triunfava cada vez mais sobre o espírito, era preciso um novo cavaleiro andante (ou "filho errante") e por isso Antero de Quental enviado à Terra com missão elevada.
Todavia, com mil hipóteses diante de si, ébrio do vinho do conhecimento das grandes questões e soluções, as dúvidas, o mal e a falta de fé acabariam por o fazer sucumbir e mata-se.
Este diagnóstico é correcto, em parte ou na totalidade?
Parte de um observador imparcial e conhecedor dos problemas em causa, ou há algum tingimento da sua religiosidade católica.
Que se inebriou, sobretudo em Coimbra, das mil soluções filosóficas sociais e religiosas que se agitavam nos ares europeus, certamente. Que tenha perdido algum tempo nisso, mais do que seria desejável, bem possível. Que tenha enfraquecido e adoecido, em parte também por isso, certamente possível também, pois desgatara-se ao não estar a cumprir a sua vocação mais alta, que no caso seria a de que o mestre Platão lhe destinara...
As dúvidas e a falta de fé, enfraquecem-no? Em parte, certamente, embora elas possam ser estímulo a trabalho mais intenso, como Antero exprime na sua evolução de cosmovisão nos Sonetos e como compreensão filosófica espiritualizante que se confirma nas Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, dada à luz uns meses antes de morrer.
Quanto ao mal, eis uma acusação quase, complexa, pois como um dos sucessores de Antero de Quental, Fernando Pessoa, se afirmava no último poema da Mensagem na mesma época de Carlos Eugénio Paço d'Arcos, ninguém sabe o que é o bem e o mal. Mas admitamos que Antero tenha namorado ou cultivado demasiado tempo o pessimismo, o niilismo, a morte e por isso se tenha deixado enfraquecer na sua solaridade espiritual, contribuindo para uma diminuição de forças psico-somáticas e até de fé e vontade de prosseguir a sua demanda.
Mal por oposição ao Bem, não. Antero foi nesse aspecto um santo, sempre lutando pelo bem do próximo, pelo bem da humanidade, crente nas forças positivas e de uma humanidade melhor. A sua ampla correspondência é um testemunho notável disso e constante ao longo de toda a sua vida.
Mal físico? Esse, provavelmente sim. O desarranjo psico-somático enfraqueceu-o demasiado e sentiu-se sem forças ou já sem missão para continuar na terra. E logo, "samuraicamente", matou-se.  
Ficaram a sua poesia amorosa e revolucionária inicial, e, como Carlos Eugénio realça os seus sonetos cristalinos, numa sua dura e sentida pesada travessia do das correntes do pensamento da época, que culminam em cinco ou seis sonetos, tais como o Mor-Amor, Com os Mortos, Comunhão, Solemnia Verba e Na Mão de Deus, pois, como diz bem Carlos Eugénio Corrêa da Silva, Antero de Quental era um "lampeão acesso",  dotado de um "imenso olhar"
Todavia, talvez, apesar de tudo, Platão e Sócrates estivessem ao seu lado quando acabando de se matar se viu num além diferente do que pensara. E a própria mão de Deus, na sua luz dourada, recebesse o seu puro e atribulado coração-alma em sangue, quem sabe se até pouco depois com as suas crianças adoptivas, tragicamente atingidas, chorando e rezando por ele com capacidades intercessoras. 
E depois, a sua legenda dourada, com tantos anterianos tecendo considerações valiosas sobre a sua vida, obra e morte, com o decorrer do tempo no além, ele próprio já não apenas como coração cansado descansando nas mãos de Deus, se tornasse o espírito, filho de Deus, mais consciente desta verdade e das realidades correspondentes, lá no céu das Ideias, onde certamente sorrirá, lampeão de olhar imenso, a estes pensamentos e sentimentos tanto do Carlos Eugénio Correia Marques como meus e  seus, leitora ou leitor.
Foram dois seres unidos  numa comum aspiração amorosa e gnóstica, em ambos mais ou menos meteórica e um pouco infausta, mas certamente ao nível de alma de grande luz e perenidade.
Muita luz e amor em Antero de Quental, e em Carlos Eugénio Corrêa da Silva e sua Maria Celeste, e para nós, nesta comunhão no corpo místico da Humanidade.

domingo, 10 de maio de 2020

Yoga e a Índia em Portugal. Ensinamentos na década de 1980.

Ños anos 80, depois de ter estado dois meses e em seguida um ano na Índia, praticando os vários yogas e aprendendo com mestres e em ashrams, ensinei yoga esporadicamente em Gilde (S. Torcato, Guimarães) e Braga, com regularidade em Lisboa, Évora e Covilhã e sobretudo no Porto, no restaurante macrobiótico e centro alternativo Suribachi, à rua do Bonfim, ainda hoje em actividade, e onde antes de mim estivera a ensinar o Carlos Hargraves. Além das aulas, meditações, diálogos ou satsangas e idas à Natureza, dava umas folhinhas com ensinamentos tradicionais e dos mestres que conhecera, com  o esquema da sequência das posturas e práticas nas aulas e com explicações de espiritualidade e yoga.  
A Manuela, o Miguel Canelas e eu, na muralha do castelo de Guimarães.
As aulas continham uma síntese, um graal, de Raja Yoga, na linha de Yoga Vedanta e do que aprendera na Índia com mestres e instrutores, e dos ensinamentos dos livros de Agni Yoga, mais o que ia descobrindo.  Ensinava sob a denominação Agni Raj Yoga.
Na quarentena de 2020, pondo os milhares de livros, imagens e papéis em ordem, encontrei  algumas folhas e vou transcrever uma, com acrescentos ou explicações entre colchetes:
                                      Textos sobre Yoga.
Das Upanishad (2.000. A.C.) [Embora os Vedas tenham começado a ser compostos oralmente nesse período, as Upanishads, que fazem parte dos quatro Vedas,  começam a surgir por volta do séc. VIII, a.C.]
- Conduz-nos do irreal ao Real [Verdade], da escuridão à Luz, da morte à Imortalidade. [Asatoma sadgamaya, Tamasoma jyothirgamaya, Mrithyorma amritangamaya.   Proveniente da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.3.28.), recentemente traduzida por António Barahona, e que é muito utilizada como oração yogi.

- O Conhecedor [o que adquiriu o conhecimento verdadeiro] é feito de fé, de verdade, de exactidão recta de majestade - e de Yoga (a sua alma).
- O corpo humano é um carro puxado por cavalos indisciplinados (os sentidos), que o cocheiro (o pensamento) não consegue dirigir. A alma - atman - embarcada nesta corrida para o precipício sofre, a menos que o Yogi abra a sua inteligência intuitiva do coração à luz de Atman...
- Aquele que sente em si a necessidade de saber, o desejo de salvar-se (mumuksa) possui já em si o sagrado Atman a agir para a sua libertação. 
- Diz-se que o Espírito humano pode ter dois aspectos, o puro e o impuro. Este quando se é escravo do desejo, puro quando está livre do desejo. É o pensamento a causa do cativeiro ou da liberdade dos humanos. Se apegado aos bens deste mundo conduz ao sofrimento, mas livre desta ligação conduz à libertação. É só quando o espírito humano está livre de todo o apego que conquista o auto-domínio e que extinguindo [silenciando] o pensamento atinge o estado supremo [Ou uma certa comunhão com o Espírito]. Mas enquanto a instabilidade reinar no seu coração longos serão os esforços para a realização. Conhecimento (Jnana) e Meditação são estes esforços. É preciso portanto combinar  a prática atenta de Yoga com a enunciação da sílaba secreta OM, cujo silêncio final se dirige para o Ser. Quando o adepto reconhece que ele próprio é  Brahman, ele realizou-o para sempre. 
[Esta identidade de atman (espírito, ou o ser em nós com Brahman, pois haverá só este Brahman, Divindade, Espírito Abslouto, ou Eu, é a visão e realização Advaita (ou não dual), de muitos yogis e filósofos. Já outros, onde me incluo, são Dvaita, dualistas, sentindo ou realizando que são duas realidades verdadeiras  mas diferentes, o espírito individual (atman ou jivatman) e o Espírito Absoluto, Atman ou Brahman]. [Assim hoje a afirmação final seria assim redigida por mim:  Quando o praticante toma consciência da sua ligação com o Espírito (atmam) ou com a Divindade (Brahman), obtém uma certa realização luminosa, mais ou menos profunda e duradoura.]
***
[Citações de Mestres] Contemporâneos:
Sri Yogi Jnana Sidha (mestre do Kavi Yogi Shudhanana Bharati): -Yoga é sentir na alma a unidade embraçante [envolvente] de Deus.
                                   
Sri Yoga Shudhananda Bharati (um dos mestres com quem vivi mais tempo e me iniciou, em Ram Nagar, Madras): - Procurai a companhia dos grandes seres (satsanga) mas sede vós mesmos.
- Elevai-vos acima das personalidades até ao Eu impessoal que está no vosso coração. Sede sempre centrados em Deus.
- O Yoga estabelece-te dentro de ti mesmo, independente dos outros. 
***
Sri Yogi Vidwans (um dos mestres que me iniciou, sendo yogaterapeuta em Wardha): Através das cinco Yamas [As cinco observâncias de Raja Yoga: Satyam, a Verdade, Ahimsa, a não-violência, Astheya, o não roubar, Aparigraham, o desapêgo e Brahmacharya, o controle da energia sexual],  reduzem-se as tensões sociais e a cooperação e simplicidade generalizam-se. A dedicação de tudo ao Divino  (Iswara pranidhana) é habilidade de estarmos conscientes da sua Presença.
O Guru (Mestre) é o que destrói as trevas. O que vira as almas para a luz.
 O Yoga ajuda a despir-nos das malhas que nos puseram em crianças e torna-nos seres livres.
***
Sri Morya: Agni Yoga [O mestre que teria inspirado o ensinamento de Agni Yoga ao casal russo Helena e Nicholai Roerich, este um fabuloso pintor, como vemos na imagem. Estive no local onde ele viveu em Naggar, Kulu Valey, e correspondi-me com o filho Svetoslav.] 
Hagia Sophia e a bandeira da Paz: a religião, a ciência e a arte em triangulação no círculo da cultura
- «Eu proteger-te-ei com um capacete de fé, uma armadilha de devoção e um escudo de vitória. Mas na bandeira estará inscrito: Amor - O Conquistador. 
- A transmutação da consciência é a substituição da memória pela compreensão do Espírito, envolvendo todo o ser como um chama.
- Notai o efeito do pensamento de matar e acção de matar no espectro da aura. Os resultados serão idênticos.
- O Mundo inteiro está dividido por uma linha de fronteira dentre o bem pessoal e o bem geral. Quando agimos na esfera do bem geral e temos motivos sinceros, então por detrás de nós acha-se toda a reserva das acumulações cósmicas.
-A Fé em si próprio e a procura da Verdade criam a Harmonia.»
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Saudações aos que buscam.
Ligação para esclarecimentos: Sri Pedro
Quinta do Gilde. S. Torcato, Guimarães. T: 42875 (de Braga).»

sábado, 9 de maio de 2020

Os Anjos, quem são e o seu relacionamento connosco. Texto e vídeo.

A pequena gravação nocturna (que encontra no fim desta introdução) de uma leitura e comentário de duas páginas de um livro-santinho dos começos do séc. XX, francês, é uma pequena homenagem aos Anjos e à bela tipografia devocional francesa do século XIX, contendo algumas indicações, tradicionais e minhas, de como melhor entendê-los, senti-los, amá-los e assim nos relacionarmos.

Na verdade, o nosso Anjo da Guarda quer e gosta de inspirar e até envolver-nos e penetrar-nos, desde que nós o invoquemos com sentimento, ou mesmo ardor-amor, e perseverança, e merecendo-o por uma vida activa e ecológica, luminosa e amorosa, conscientes que somos seres espirituais e peregrinos na Terra para cooperar num plano cósmico seja de desenvolvimento das nossas potencialidades psíquicas e espirituais, seja de realização e libertação espiritual, e que se manifesta numa melhoria das pessoas amigas, ambientes e sociedade, para que haja mais religação com o mundo espiritual, seja nas suas qualidades e virtudes, seja com os Anjos e Arcanjos, os mestres e santos e santas, e a Divindade.
 Momentos diários de maior sintonização com o Anjo da Guarda ou com os Anjos e com o mundo espiritual, seja por orações e mantras, meditações ou contemplações são bem importantes para nos aproximarmos, interiorizarmos e elevarmos. E assim podermos com eles comungar com os nossos sentidos espirituais, em especial a visão e o coração, mas também, embora mais raramente, o tacto, o olfacto e a audição.
A oração tradicional: «Anjo da Guarda, minha doce companhia, guardai a minha alma, de noite e de dia», presta-se a muitas variantes, de acordo com o nosso sentir interior, e graças à criatividade nossa espontânea pode até surpreender-nos em variantes.
A contemplação de alguma imagem angélica num dos pequenos altares que tenhamos em nossa casa ou local de trabalho é também bastante útil não só para nos concentramos através dela, como para criarmos vibrações e ligações subtis tanto na imagem como no local, que de algum modo estimulam a nossa ligação aos Anjos e à Divindade.
Quanto aos nomes dos Anjos para cada dia, isso é uma invenção tola, de magia e de ocultismo muito tingidos de comercialismos e, portanto. quando vir algum livros com essas tabelas já sabe que é mistificação originada no Renascimento e da Cabala e sobretudo desenvolvida no ocultismo francês, do século XIX. Escrevi uma revisão crítica de cerca de 30 livros sobre Anjos, ajudando as pessoas a discernirem melhor as diferenças entre as patranhices e mistificações, de que Haziel e Doreen Virtue   foram dos últimos protótipos, do que é ora estudo e pesquisa séria ora verdadeira experiência interior. E eis a ligação para tal: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/08/livros-sobre-anjos-os-melhores-e-os.html
 Para finalizar esta introdução, lavrada qual vagalume sob uma manhã chuvosa e melhorada já numa noite outonal, lembremos que acima do nosso Anjo da Guarda está o Arcanjo de Portugal (ou do Brasil, ou de que país se for), o qual não é o Arcanjo Miguel, como muitos iludidos, ou tentando iludir, propagaram e ainda propagam e que, se trabalhamos bem e o invocamos meditando, por vezes podemos merecer a sua bênção ou, como se diz na Índia, a luz colorida e amorosa do seu darshan, ou visão e graça...
Muitas luz e amor, gratos, para eles, e para todos, na invocação da graça Divina, para que ela seja mais cultivada, cultuada e merecida em nós e para a harmonia e paz no mundo...
                       

sexta-feira, 8 de maio de 2020

"Sadhana", de Rabindranath Tagore. Transcrição da tradução e vídeo da leitura comentada de excertos.

Sadhana é sem dúvida uma das obras primas de Rabindranath Tagore, talvez mesmo a mais valiosa do ponto de vista da espiritualidade expressa, face à implícita presente em toda a sua obra dada a sua sensibilidade anímico-espiritual imensa. 
Sadhana, palavra sânscrita que significa conjunto de práticas e modo de vida assumido no caminho do conhecimento e da religação (Yoga), foi dada à luz em 1913, quando Rabindranath Tagore (1861-1941) já atravessara, pela morte da sua mulher e filhos, o seu tremendo rasgar de alma, e continua hoje bastante actual na sua abordagem de oito perenes questões do ser humano, assim intituladas nos capítulos em que está dividida: «I - A relação do indivíduo com o Universo. II - Consciência da Alma. III - O problema do mal. IV- O problema do Eu. V - Realização no Amor. VI - Realização na Acção. VII - Realização da Beleza. VIII - A Realização do Infinito.» E podemos pensar que seria muito bom se todos fizéssemos de quando em quando uma reflexão, ou mesmo uma redacção, acerca destes temas...
Pelo título, Sadhana, e pelos temas tratados, vemos que os oito capítulos da obra nos fazem circular por entre a espiritualidade indiana em geral e até pelos quatro caminhos, ou margas, típicos da espiritualidade indiana: Raja Yoga, o do conhecimento e o auto-conhecimento; Bhakti, o do amor, devoção, compaixão; Karma, o da acção correcta ou boa; e Jnana a percepção ou visão do divino, do infinito, no universo, na vida, em nós, numa unidade de uma só consciência omnipresente.
Embora haja uma tradução recente brasileira, Sadhana é uma obra que merecia ser traduzida e publicada em Portugal. Traduzimos neste artigo alguns excertos substanciais do 1º capítulo, e comentamo-los um pouco, nestes dias das comemorações do seu 159 aniversário de nascimento. E posteriormente gravámos uma parte valiosa do capítulo , que contudo não chegou ao fim, pois a bateria findou...
Logo no começo do 1º capítulo, depois de contrastar a civilização grega nascida nas cidades e entre muros com a indiana nascida nas florestas e aberta à imensidade da vida, deduz que de tal nasceu uma tendência para se possuir e defender no caso grego, enquanto que na Índia o que se desenvolve é «um objectivo não de adquirir mas de realizar, para alargar a sua consciência crescendo com, e crescendo para, os seus ambientes. Ele [o povo indiano] sentiu que a verdade é omnicompreensiva, que não há isolamento absoluto na existência, e que a única maneira de atingir a verdade é através da interpenetração do nosso ser com todos os objectos. Realizar esta harmonia entre o espírito humano e o espírito do mundo foi o esforço dos sábios habitantes das florestas da antiga Índia.»
Este esforço concretizou-se e tornou-se a sadhana, um tipo de vida com as suas práticas, a qual procura abrir a ligação consciente do nosso  interior tanto consigo mesmo na sua pluridimensionalidade como com o campo unificado de infinita energia e informação que é o Universo e a sua Fonte Divina.
De realçar a visão de Tagore bem abrangente e panteísta de que o caminho, para se alcançar a verdade, é o da interpenetração  do nosso ser com tudo, ou seja, o estabelecermos pontes de comunicação, simpatia e comunhão. 
"O caminho faz-se caminhando", foi dito, e tal significa que o caminhar ou avançar já é em parte manifestar o que se quer atingir e que devemos sentir a harmonia e amor com o que nos rodeia, e aceitar o que vamos recebendo, firmes nos nossos pequenos propósitos que estão em harmonia «com o propósito que opera através da natureza», o Sanatha Dharma, a Ordem cósmica.
«Para a Índia a unidade fundamental da criação não foi apenas uma especulação filosófica e o seu objectivo de vida era realizar esta grande harmonia entre sentir e agir. Com a meditação e o serviço, com uma regulação da sua vida, ela cultivou de tal maneira a sua consciência que tudo tinha um significado espiritual para ela».
 Rabindranath Tagore realça que esta percepção da unidade é algo vivido e sentido e desenvolvido por uma vida justa e espiritual, destacando a tradicional divisão da meditação ou via contemplativa e o serviço desinteressado ou via activa, numa interacção com o que nos rodeia não limitada ao que é registado como aparência sensorial mas bem mais vasta e subtil.. 
Assim «o ser que tem os seus olhos espirituais abertos sabe que a verdade última acerca da terra e da água  está na nossa apreensão da vontade eterna que opera no tempo e  toma forma nas forças que nós realizamos sob esses aspectos. Isto não é um mero conhecimento, como a ciência é, mas uma percepção da alma pela alma. Isto não nos conduz ao poder, como o conhecimento faz, mas dá-nos alegria, a qual é o resultado da união de coisas afins»
Realça então Tagore que este desabrochar da alma se faz pela abertura dos sentidos espirituais, os quais fazem-nos sentir a comunhão com a vontade divina ou cósmica, que podemos  denominar não só Dharma como também Amor, e simultaneamente uma felicidade (Ananda) grande na união ou comunhão com os objectos ou seres próximos ou afins. 
É muito valioso este discernimento de Rabindranath Tagore que a verdadeira alegria não vem de se possuir ou se conhecer superficialmente mas sim da união dos seres, da sua comunhão nos seus níveis subtis e dentro do propósito divino que perpassa o Cosmos.
                                       
Sob esta comunhão mais subtil ele explicita que «quem se limita pelo conhecimento científico nunca compreenderá o que o ser com visão espiritual encontra nos fenómenos naturais: A água não limpa apenas os seus membros, mas purifica o seu coração; pois toca a sua alma. A terra não sustenta ou apoia o corpo apenas, mas alegra a sua mente, pois o seu contacto é mais do que um contacto físico, é uma presença viva». 
Poderíamos pensar que Rabindranath Tagore iria falar ou apontar para os espíritos da natureza, os devas, mas não é o caso, descrevendo mais a sensibilidade da alma com os elementos da natureza. A visão espiritual que ele valoriza e desenvolve é mais profunda e elevada, na linha ou tradição da darshana ou filosofia Vedanta: «Quando o ser humano encontra o espírito eterno em todos os objectos, então torna-se emancipado, pois descobre então o significado ou sentido mais completo do mundo em que nasceu; então ele encontra-se na perfeita verdade, e a sua harmonia com o todo está estabelecida».
                                         
Mas logo em seguida
Rabindranath Tagore apela a um despertar para o mundo não apenas na realização da Unidade Divina, mas também de interacção e interpenetração: 
«Na Índia recomenda-se que as pessoas despertem plenamente para o facto de que estão numa relação estreita com o que as rodeia, corpo e alma, e que devem saudar o sol nascente, a água fluindo, a terra frutífera, como manifestações da mesma verdade que os sustém num abraço. E assim o texto da nossa meditação diária é a Gayatri, uma oração que é considerada o supremo resumo ou epítome dos Vedas. Através dela nós tentamos realizar a unidade essencial do mundo com a alma consciente do ser humano. Aprendemos a perceber ou discernir a unidade mantida pelo Eterno Espírito Um, cujo poder cria a terra, o céu, as estrelas e ao mesmo tempo irradia as nossas mentes com a luz de uma consciência que move e existe numa continuidade não partida com o mundo exterior». 
Eis-nos com algumas indicações sobre a sadhana, sobre as práticas  harmonizadoras e espiritualizantes: ver o nascer do Sol, saudar o Divino astro, sentir com amor a força da fluidez da água, dardejarmos, meditarmos, assimilarmos, sintonizarmos e sermos um com os conteúdos de alguma  oração ou mantra, tal a Gayatri: Om Bhur Bhuva Swaha Tat Savitur Varenyam, Bhargo Devasya Dhimahi Dhiyo Yonah Prachodaya. Uma tradução possível, a minha de agora: "Na vibração de Deus, saudações à terra, ao mundo subtil e ao celestial e àquela Divindade solar excelente. Possa a sua luz gloriosa estimular e abençoar as nossas meditações."
Sendo talvez das mais fortes e misteriosas questões que nos desafiam dia e noite, a da relação entre a mente cerebral, a consciência, a luz e o espírito,  bem como a do nosso ser individual com o Universal, Rabindranath Tagore afirma que o «Espírito irradia as nossas mentes com a luz de uma consciência que move e existe numa continuidade ininterrupta com o mundo», ou seja o Espírito, a Divindade, emana, irradia uma consciência luminosa que vai impactar, penetrar, influenciar as nossas mentes. Esta consciência luminosa, este Eu sou divino é omnipresente e assim o que sentimos em nós é para sentirmos reconhecermos e amarmos nos outros, a verdade.
 Em seguida Rabindranath Tagore desenvolve a ideia que na Índia o entendimento da superioridade do homem na Terra ou na criação não era o poder de possuir ou dominar mas sim o poder de estar em união, sem dúvida uma clarificação muito bela e útil, pois as pessoas, apesar do mote a união faz força, esquecem que devemos trabalhar sacrificando ou vencendo o nosso egoísmo e liberdade para, em união, com os outros, ajudá-los ou impulioná-los.
É também valiosa e original a explicação que Rabindranath Tagore dá para a escolha de certos locais como santuários e metas de peregrinação, de certo modo em sintonia com o Shinto japonês que ele apreciará em 1916, quando visita o Japão (receando já porém o nacionalismo), pois o Shinto é também uma religião muito sensível à natureza e aos espíritos ou deuses, os Kami, que a habitam. Diz-nos assim: «A Índia escolhe os seus locais de peregrinação onde quer que haja na natureza  algum tipo especial de grandeza e beleza, de modo que a mente humana possa sair do mundo das estreitas necessidades e realizar o seu lugar no Infinito.»
Estampa trazida de uma peregrinação a Kedarnath, uma das fontes do santo Ganges.
 Para Rabindranath Tagore os locais sagrados seriam os mais indicados para os seres saírem dos seus limitados horizontes e expandirem-se na imensidade e assim sentirem ou realizarem algo da infinidade e unidade do Espírito divino.
E continuando a explicitar como a Índia desenvolveu o poder da união, faz logo a seguir uma afirmação também muito original: «Esta foi a razão porque na Índia todo um povo que outrora era de comedores de carne abandonou a ingestão de comida animal para cultivar o sentimento de simpatia universal pela vida, um acontecimento único na história da humanidade.»
Foi o imperador máuria Asoka (304-232 A. C.) que, após uma guerra violenta e aderindo ao budismo, promulgou o princípio yogi da ahimsa, não-violência, em relação à mortandade de animais na alimentação e nos sacrifícios, e Rabindranath Tagore vê tal como uma decisão consciente de manter a simpatia viva com todos os seres vivos. 
  «Os escolhidos para representarem o ser humano na Índia foram os rishis. Quem são os rishis: Aqueles que tendo atingido o conhecimento da alma suprema foram enchidos de sabedoria, e que tendo-a encontrada em união com as suas almas estavam em harmonia perfeita com o eu íntimo; tendo-o realizado no coração, libertaram-se de todos os desejos egoístas e vivenciando a alma suprema em todas as actividades do mundo, atingiram a quietude. Os rishis foram os que tendo atingido o supremo Deus (purusa) por todos os lados encontraram uma paz duradoura, tornaram-se unidos com o Todo, entraram na vida do Universo».
Om sri Ramakrishna namah! Um rishi e yogi moderno.
 Os parágrafos seguintes, um deles muito valioso sobre o que ele sentia ser o Amor, bem como as críticas a uma compreensão superficial ou limitadora da espiritualidade indiana, foram lidos e comentados, como pode ouvir no vídeo final.  Mesmo assim traduzo aqui a parte melhor: «o verdadeiro espírito do ser humano é o espírito de compreensão. Essencialmente o ser humano não é um escravo nem de si nem do mundo; mas é um amante. A sua liberdade e realização plena está no amor, que não é senão outro nome para a compreensão perfeita. Por este poder de compreensão, esta permeação do seu ser, ele é unido com o omnipenetrante Espírito, que é também a respiração da sua alma»....
Das quatro pequenas páginas que faltavam para terminar a leitura do capítulo gravado, transcrevo alguns parágrafos onde Rabindranath Tagore acentua a sua forte vivência amorosa da Unidade da vida e a partilha dela, bem fundamentada com a tradição espiritual indiana.
«O Infinito na Índia não era uma frágil não-entidade, vazia de todo o conteúdo. Os rishis da Índia afirmaram enfaticamente,
"Conhecê-lo nesta vida é ser verdadeiro, não o conhecer nesta vida é a desolação da morte". Como conhecê-lo então: "Realizando-o em cada um e em todos". (Bhuteshu bhuteshu vichintya). Não só na natureza, mas na família, na sociedade, no Estado, e quanto mais realizarmos esta consciência do mundo melhor para nós. Se falharmos na realização disto estamos a virar as nossas faces para a destruição».
Algo que é bem difícil nestes momentos em que sociedades e estados estão tão apanhadas por forças desinformadoras, manipuladoras, opressivas, mas que é certamente um ideal, uma linha de força, para des-desconfiarmos e des-confinarmos....
Reconhece e bem desafiantemente Rabindranath Tagore que os antigos videntes (rishis) sentiam na profundidade serena das suas mentes que a mesma energia, que vibra e passa nas inumeráveis formas do mundo, manifesta-se a si própria no nosso ser interior como consciência; e não há uma quebra de unidade», prosseguindo com a visão que mesmo com a morte não há quebra dessa continuidade consciencial: o ser humano é imortal...
E termina o capítulo assim, começando com a sua tradução de dois versos das Upanishads: «Tudo brotou da vida imortal, e vibra com vida» (Yadihna kincha prana ejati nihsritam), pois a «Vida é imensa» (prano virat).
                                                   
Esta é a nobre herança dos nossos antepassados, esperando por ser reclamada por nós como nossa, este ideal de suprema liberdade de consciência. Não é apenas intelectual ou emocional, tem uma base ética, e deve ser traduzida em acção. Na Upanishad diz-se: "O supremo ser é omnipresente, e portanto é a divindade inata em todos". (Sarvavyapi sa bhagavan tasmat sarvagatah çivah). Estar verdadeiramente unido em conhecimento, amor e serviço com todos os seres, e assim realizar o seu próprio eu na Divindade omnipresente é a essência da bondade, e esta é a nota chave dos ensinamentos das Upanishads: "Prano virat, a Vida é imensa".»
 
Aum Bhagavan namah, Om sri Gurave namah. Saudações à divindade amada, saudações ao mestre.
Saudações à Divindade amada. Saudações ao mestre,  e em especial a Rabindranath Tagore... Que saibamos aprofundar a sabedora milenar da Índia por ele transmitida... Possam-nos inspirar e iluminar... Aum...
                      

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Rabindranath Tagore, "Crise na Civilização". Último discurso. Leitura comentada, com vídeo.

A última conferência ou satsanga de Rabindranath Tagore, já com 80 anos e a três meses da sua partida da Terra é valiosa e pouco conhecida, e tendo um exemplar dela, trazido da sua Universidade Livre, em Bengala, em 1995,  resolvemos lê-la traduzindo-a e gravando. Encontra no fim o vídeo, com alguns comentários, realçando a sua actualidade. 
 Estávamos em Abril de 1941, quando a 2ª Grande Guerra dilacerava inúmeros povos. Para um humanista e místico,  artista e pedagogo, e bem documentado viajante universal, que vivia num país colonizado, tal desabar das aparências da tão proclamada superioridade civilizacional foi motivo de desilusão e dor. 
Era natural tal sentimento para quem estudara a língua e a literatura inglesa dois anos em jovem em Londres e apreciara o liberalismo político britânico de "grande coração", particularmente nos discursos de John Bright, e o bom acolhimento que davam aos refugiados políticos, e para quem mais tarde recebera consagrações, como a sua tradução para várias línguas, o prémio Nobel de literatura em 1913 e o grau de cavaleiro pelo rei Jorge V Inglaterra, em 1915, e que ele renunciaria e devolveria em 1919, em sinal de repúdio dos métodos punitivos e desproporcionados exercidos recentemente pelos ingleses.
Todavia, pelo egoísmo e os maus efeitos da colonização da Índia pelos Ingleses, demasiado gananciosos e apenas interessados em retirar lucros para eles, Tagore compreendera que os bons aspectos deles tinham sido corrompidos e degenerados pelo imperialismo. Confessa mesmo, que se não fossem dois ou três ingleses mais generosos que há muito teria perdido esperanças na raça inglesa, exaltando mesmo Andrew o seu íntimo amigo e braço direito (e protector face à opressão inglesa) na Universidade Livre que fundara em Shantiniketan, não longe de Calcutá.
É um texto surpreendente pois vemo-lo a elogiar primeiro o liberalismo e o modelo civilizacional inglês  que ajudara até a pôr em causa os moldes sociais petrificados das castas, mas logo em seguida criticar o egoísmo colonizador face à pobreza da Índia que se acentuara com os cerca de 200 anos de subjugação e exploração britânica, guardando para si todos os progressos industriais, e no fundo satisfazendo-se de uma mão de obra baratíssima.
Ora era o contrário disso que ele observara na Rússia soviética, onde estivera, pelas realizações extraordinárias que se tinham conseguido, pondo-se o progresso técnico ao serviço de todos, com resultados excelentes na erradicação da pobreza, na melhoria da saúde e da educação, e sem conflitos de classes nem de religiões. Escreve mesmo quanto à manta de retalhos de 200 povos diferentes:«Enquanto os outros poderes imperialistas sacrificam o bem estar das raças submetidas à sua ganância nacional, na U.S.S.R. eu encontrei uma genuína tentativa de harmonizar os interesses das várias nacionalidades que estão dispersas por uma vasta área. E vi povos e tribos que um dia antes eram nómadas selvagens sendo encorajados e de facto treinados, para verem livremente por eles próprios os benefícios da civilização».
 Elogia depois o Irão e vamos, até  por alguma actualidade de luta pela independência face às sanções norte-americanas, transcrever  o parágrafo que lhe dedica: «Eu vi também o Irão [visitara-o em Abril-Maio de 1932], que desperta recentemente para um sentido de auto-suficiência nacional, tentando cumprir o seu próprio destino livre das mortíferas mós de pedra de dois poderes Europeus. Durante a minha recente visita a esta país descobri para a minha delícia que os Zoroastrianos, que outrora tinham sofrido  do ódio fanático da comunidade maioritária e cujos direitos tinham sido coartados pelo poder regente, estavam agora livres dessa longa repressão, e que a vida civilizada tinha-se estabelecido na "terra feliz". É significativo que a boa fortuna do Irão data do dia em que finalmente se desatou das malhas da diplomacia Europeia. Com todo o meu coração eu desejo o bem ao Irão.»
Elogia ainda o Afeganistão, já na altura insubmisso face aos arrogantes poderes europeus e critica a Inglaterra por ter levado o ópio para a China e ter-se apropriado de seus territórios e contrapõe o Japão e o seu dinamismo tecnológico ao serviço de toda a população.
É um discurso bastante actual, na sua crítica forte ao imperialismo da civilização ocidental, e como eu ainda nunca o lera, ao traduzi-lo directamente na gravação acabei por deixar transparecer algo da adesão à visão crítica mas construtiva.
Na parte final Rabindranath eleva-se, profetizando que a roda da Fortuna há-de de certamente dar a independência à Índia, e não seriam necessários muitos anos para Gandhi, Nehru, Vinoba, através de ahimsa (não-violência) e swaraj (auto-governo), chegarem a tal libertação, a 15.VIII.1947. E conclui com a esperança de que quando o «cataclismo tiver findado e a atmosfera estiver limpa graças a um espírito de serviço e de sacrifício»,  uma aurora civilizacional, talvez provinda da Índia e para que esta  cumpra a sua missão ou dharma e para que as sociedades recuperem a sua «herança humana perdida». 
Mesmo assim termina com um aviso da sabedoria indiana para a insolência dos poderosos, citando uma sloka, talvez do Bhagavad Gita:«Pela injustiça pode-se ganhar prosperidade e o que parece desejável, e vencerem-se inimigos, mas  tais seres perecerão pela raiz».
 Numa linha que Erasmo apreciava e que era o cumprir-se o anel das três Graças, ou  unir o princípio e o fim, transcrevo agora o poema inicial desta última mensagem de Rabindranath Tagore, que é uma evocação dos mestres, da possibilidade de algum grande ser, salvador ou avatar se manifestar na Terra, esperança que se encontra em muitos povos, algo que na altura outro grande artista e mestre Nicholai Roerich também esperava em relação ao bodhisatva Maitreya, mas que no século XXI sabemos já que dificilmente ou mesmo não acontecerá a um nível exterior, pois as forças do mal são muito poderosas no mundo político, financeiro, farmacéutico e dos armamentos, ainda que disfarçando-se  e muitos corrompendo...
Será cada um que terá de religar-se com o seu espírito, o seu anjo e eventualmente com os Mestres, e ir lutando lucidamente pela justiça, a liberdade e a dignidade e realização espiritual humana, só, em família, em grupos, em redes, pouco se podendo esperar dos partidos e votações...

«O Grande Ser vem,
enviando arrepios através da poeira da Terra.
Nos céus soa a trombeta,
no mundo humano os tambores da vitória batem,
a hora chegou do grande nascimento.

Hoje os portões (gates) da fortaleza da noite
desmoronam-se em pó -
Na crista da aurora que desperta
a garantia de uma nova vida
proclama "Não temas".

O grande céu ressoa com os cantos (paeans) de vitória
 Àquele que chega ».

Fiquemos com o mantra tagoreano "Não temas" e com a fé e a visão da vitória das forças do Bem na Humanidade, com a ajuda dos Mestres ou grandes seres, dos Anjos e da Divindade. E de Rabindranath Tagore... Muito Amor para ele. Omm