sexta-feira, 22 de março de 2024

Sete ensinamentos das sórores Helena da Cruz e Maria do Céu, conforme a "Relação da Vida e Morte da Serva de Deus a Venerável Madre Helena da Cruz", de 1725, e dada à luz por Filomena Belo em 1993.

                                                          

A sóror Maria do Céu (11 de setembro de 1658 - 28 de maio de 1753),  foi uma das mais valiosas das nossas místicas pois aos dotes espirituais, devocionais e ascéticos que as caracterizavam acrescentou o de escritora, poetisa, dramaturga e biógrafa.

Ora quando uma religiosa e mística biografa uma outra,  e de quem era grande amiga e confidente,  poderemos contar certamente com mais fidedignidade, realidade e sensibilidade no que  se narra quanto aos mosteiros e às suas abnegadas almas e suas caminhadas internas.

Das qualidades da sóror Maria do Céu falam os seus livros, a sua vida, o ter sido duas vezes Abadessa de um dos conventos mais importantes de Lisboa, o da Esperança, hoje reduzido materialmente a um painel de azulejos e algumas colunas dentro do quartel dos Bombeiros, mas espiritualmente subsistindo no que nele de perene foi gerado e ao longo dos séculos tem sido cultivado.

Inclui-se nesta tradição Filomena Belo e a obra que deu à luz bem contextualizada em 1993 na editora Quimera, num in-8º de 251 páginas, intitulada Relação da Vida e Morte da Serva de Deos, a Veneravel Madre Elenna da Crus, obra escrita em 1725 por Sóror Maria do Céu e inédita na Biblioteca Nacional, onde se encontra também (e digitalizado) o Livro da Fundação, ampliação, & sitio do Conuento de N[ossa]. S[enho]ra da Piedade da Esperança da Cidade de Lix[boa], manuscrito com a bela portada reproduzida, de datação posterior a 1750, e que fala também das duas místicas.

Sendo a maioria das biografias das místicas portuguesas escritas por religiosos, ainda que por vezes incluindo extractos redigidos por elas, é como já dissemos muito valioso ouvir uma voz e sensibilidade feminina a testemunhar as peripécias das vidas santificadoras que tais sorores arrostavam, frequentemente com grandes dificuldades. E o facto da obra nunca ter sido publicada pode levar-nos a pensar que certo femininismo, face a um controle pelos padres religiosos masculinos, pode ter influenciado a sua não publicação até 1995, mas sabemos como a Parca corta vários fios.  Haveria outros aspectos que poderiam ter impedido a publicação que Maria do Céu desejava, ou que teriam desanimado algum admirador ou devoto da sóror Maria do Céu de tal empresa?

Se lermos sentida e cuidadosamente a obra, atentos ao que se destaca no conjunto das peripécias da sua vida, observamos apenas três aspectos que podem ter causado isso: a descrição dos comportamentos demasiado rigorosos, ou quem sabe se com algo de sadismo, do seu principal confessor, Padre Fr. Luís da Madre Deus e já no fim da obra, a menção de que tendo ele morrido, veio pedir a Madre Helena da Cruz que rezasse por ele porque "padecia graves penas", ou seja, estava em maus lençóis purgatoriais.

Este caso é paradigmático pois inclui outro factor que poderia ter sido censurador da publicação da obra, e é a existência de constantes casos de contactos da Madre Helena da Cruz com almas do outro mundo, ora santos, ora freiras, ora religiosos, mas também pessoas do mundo e mesmo o Demónio, e a quem Sóror Maria do Céu chama por vezes Lusbel.

Quando sabemos que a Igreja Católica prudentemente sempre tentou diminuir os contactos entre os vivos e os mortos, salvaguardando apenas as orações por eles, e de facto Helena muito rezava por eles, esta facilidade de eles irem e virem, aparecerem e falarem, podia ser visto como forte demais, e inseria numa vida de uma freira exemplar, que em vida e morta foi tida por sábia e santa, uma componente quase de espiritismo, de comunicação demasiado fácil com as almas dos mortos, não vistos como dormindo à espera da ressurreição ou completamente passivos, mas podendo manifestar-se no mundo físico dos vivos.  

Um comentário de sóror Maria do Céu a uma pergunta (que seria mais de curiosidade do que necessária) da madre Helena ao espírito do seu confessor e que ele não respondeu nem Maria do Céu explicita, insere-se contudo nessa linha algo de livre gnose, de querer saber mais sobre a vida do além: «Há-de se advertir, que ainda que a pergunta fosse desnecessária, contudo aquilo que se alcança a saber da outra vida, sempre aproveita aos que vivem nesta vida».  Ressalve-se porém que tais dons de clarividência e clauriaudiência, e visões e visitas,  eram comuns nas nossas místicas. embora sem que tivesse sido  expressado o desejo  de os compreender bem, como fez soror Maria do Céu..

O terceiro aspecto acrescentável foi o ter dispensado os trâmites legais para a realização de uma festividade que ela mesmo introduzira em Portugal e que foi a Festa do Divino Amor, culto que nascera em Nápoles por graça da suore Maria Vialli, e aí ficara ciosamente guardado até, após persistentes e demorados esforços, a Madre Helena da Cruz ter conseguido autorização papal para a celebrar em Portugal.

Anote-se que neste culto do Divino Amor, quem saiu da capela para onde foi a imagem dele tronar foi uma estátua do Menino Jesus, enviada para o convento da Luz, mas a Sóror Maria do Céu não dá muitos pormenores sobre as características da festa, que encontramos porém no Despertador do Amor de Divino em uma irmandade consagrada ao dulcissimo incêndio das almas, do Padre Fernando da Cruz, de 1695 e hoje digitalizado.  Adorava-se mais a 3ª Pessoa, o  Espírito de Amor e portanto  Jesus estaria em imagem talvez com um  coração mais vivo, embora só seja descrito com uma aljava e setas,  algo no estilo de Eros, e que as setas foram adornadas com pedras preciosas,  alcançando grande sucesso a celebração e a Irmandade, estendendo-se a outros mosteiros por iniciativas de freiras, mas com a madre Helena Cruz sua fundadora a afirmar expressamente que era só uma irmandade espiritual. 

 Esta festa, algo associada ao culto do Espírito Santo, e por isso se terá  escolhido para distintivo identificador dos fiéis dessa irmandade também denominada Confraria do Monte Divino, uma pomba dentro dum coração sobre um pano vermelho, não agradaria talvez a alguns mais ortodoxos e logo limitadores de excessos de culto ao Amor Divino, algo que na realidade acontecia a várias mais místicas, e o que levou alguns críticos modernos da religiosidade devocional a considerarem-nas quase como desequilibradas mentais por frustrações sexuais e afectivas, e por essas linhas andaram Manuel Laranjeira e Sílvio Lima. 

A quantos mosteiros se ampliou, por quanto anos se realizou, sabemos pouco embora o Despertador do Amor Divino, dedicado com grande entusiasmo devocional à Divina Pessoa do Espírito Santo, e contendo fabulosas orações, logo na reedição em 1698, antecedido pelos sábios elogios dos censores, tais como «tem virtude para acender na substância de todas as almas o suave fogo do amor de Deus», é «uma brasa viva cintilando faíscas de Amor divino eficazes», explique que, fundada pela Madre Soror Helena da Cruz, a Irmandade do Divino Amor  se alargara a quase todos os mosteiros do Reino.

                                                                  Despertador do amor divino, em huma irmandade consagrada ao dulcissimo incendio das almas, â delicio...
Os outros aspectos da vida da sóror Helena da Cruz são comum à maioria senão mesmo todas as nossas místicas seiscentistas e setecentistas: uma heroicidade tremenda nas penitências, flagelos, jejuns, ascese. Uma inquebrantável capacidade de obedecerem às superioras ou aos confessores e directores. Uma perseverante ou quase incessante prática de oração ou de ligação interna ao divino. Uma grande resistência e aceitação das doenças e sofrimentos. Lutas ocasionais contra forças negativas ou diabólicas. Grande capacidade de comunhão e união com Deus e com Jesus, donde êxtases, raptos, levitações.  Discernimento dos espíritos, dos corações, do futuro, logo grandes conselheiras. Capacidades de cura e intercessão.
O que nos transmite de ensinamentos espirituais a soror Maria do Céu a partir da vida da madre Helena da Cruz, com quem conviveu em grande amor tantos anos, mais de quarenta, já que a Madre Helena da Cruz chegou apesar de tanta penitência, doença e sangria corporal aos 92 anos?
O que nos transmite de ensinamentos, nomeadamente da casinha e Amor, ou do Horto do Esposo que edificaram, do ambiente místico em que viveram no convento da Esperança, hoje ainda ligado ao Fogo pois alberga os Bombeiros Sapadores à avenida D. Carlos, em Lisboa? Escolheremos alguns:
1º ensinamento: o dito que ouviu de S. Francisco de Assis, e que a confirmou na vocação de religiosa: «Hás-de ser minha». Tal como ela, ou em graus menores, algumas almas poderão ouvir, ou talvez apenas lembrar-se de tal dito, seja pronunciado por ele, seja por outros santos, seja por Jesus, e assim estimularem-se no caminho de aperfeiçoamento e realização.
2º, a excelente caracterização das potências da alma que Soror Maria do Céu faz a dada ocasião: «aquele coração cujo cristal estava tão empoado; aquele entendimento cujo discurso estava tão obscuro, aquela fé, cuja esperança estava tão desmaiada, tornaram a seu primeiro ser». Na realidade, eis boas sugestões de meditarmos sobre o cristal do coração, a claridade do entendimento e a esperança da fé para retornarmos a um estado mais puro ou de primordialidade...

3º, como a oração pode ser aprazível: «Entregou-se à oração aonde Deus em principiante a tratou como exercitada: começou logo a dar-lhe as suas doçuras, e tendo o néctar tão suave, por não despedir-se dele passava muitas noites neste exercício, até que à hora do despertar, lhe lembrava tinha passado a de recolher». Possamos nós perseverar na oração e merecer desfrutar a doçura e beatitude do Amor Divino.


4º, da função da ascese, diz Sóror Maria do Céu:« Coisas há maiores, que a Penitência, mas sem esta não se pode chegar a coisas maiores. Não se doma o espírito [mais certo seria, a alma, o complexo psico-somático], sem se mortificar o corpo; nem se vencem os brios da vontade, e as forças da tentação sem os golpes da disciplina; o Reino de Deus padece força, não se dão as suas delícias, sem ser à custa das nossas violências [ou esforços]. Aos antigos Filósofos sem serem santos, porque foram gentios [boa justificação, bem ecuménica], tomaram por timbre a mortificação porque eram sábios; parecia-lhes, que o homem que não refreia os apetites com as asperezas, é racional que caminha para bruto.»
Comentaremos: Ad astra per aspera, o reino dos céus só cede pela força. Sabermos dominar instintos e apetites é essencial no caminho de elevação.
5º, relatando a visão de duas mulheres que lhe pediram os merecimentos de certas mortificações que fizera [interessante intercessão, já que eram já espíritos fora do corpo], o que era sinal divino do seu valor, explicava Madre Helena: «serem os olhos das duas mulheres tão formosas, que representavam quatro estrelas das mais luminosas; estavam estas almas tão vizinhas a ver Deus, que já do céu se lhe comunicavam as luzes». Também referia, que «lhe disseram haverem sido casadas, que a Bem-aventurança fora feita para todos os estados...».
Valoriza assim o estado conjugal, e mostra a pujança luminosa dos corpos espirituais mesmo antes de entrarem no céu ou mundo espiritual, porque já vizinhas de Deus, expressão esta de vizinhança que Erasmo também gostava de usar para a nossa proximidade possível da Divindade.
6º, justifica a tão antiga animação das estátuas:«Os favores com que Deus honra aos que ama, têm tanto de maravilhosos, como de diversos; a uns permite lhe falem os Santos em suas formas, a outros em suas Imagens; e há alguns, que vejam estas animadas; porque como o Senhor dos impossíveis, sem afrontá-los, pode dar espírito ao lenho, como alma ao barro. Com este último e grande favor honrou por muitas vezes à madre Helena, sem que lhe negasse os mais, pois a mim confidente sua, me disse em sua ocasião, que estimasse muito a cela em que me recolhia (havia sido sua) porque nela estiveram muitas vezes os anjos; não estou certa se nomeou também Nossa Senhora, o mais posso afirmá-lo.»
Eis-nos com uma bela descrição da magia divina, da animação das estátuas e imagens, da visitação dos santos e dos Anjos, e como os locais e quartos ficam permeados por tais vibrações mais luminosas.
Finalmente, o 7º ensinamento transmitido por Maria do Céu acerca dum Natal da madre Helena da Cruz:«Em uma destas noites, sou testemunha, rompendo em gritos, por que o amor, ainda que o queiram calar, não podem, com os saltos com que o coração parecia romper o peito para desafogar, quebrou a vidraça de uma lâmina [imagem encaixilhada] que trazia em o seio. Semelhante a este excesso teve, nos que, como eram filhos do amor Divino, não cabendo em a esfera humana, per-rompiam em vozes, lágrimas e suspiros. Por muitas vezes viu em esta clara noite os Anjos da glória animados, e vestidos de luzes», chegando mesmo a ver Jesus menino perguntando-lhe «Queres-me muito?»
Eis-nos com mais algumas teofanias do Amor, dos Anjos vestidos de luzes e de uma desafiante locução divina do Amor e do mestre Jesus: "Queres-me muito?"
Fiquemo-nos por estes sete ensinamentos, outros talvez venham, e saudemos e demos graças por podermos comungar com tão valiosas místicas da nossa tradição Espiritual Portuguesa.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Poema espiritual que comemora o Dia e Noite da Poesia de 2024.

Ligação à serena música que acompanhou grande parte da escrita. Erik Satie: https://www.youtube.com/watch?v=FS6o3qFimsc

Perguntei à minha alma,

se poderia no meio da noite

receber inspiração e intuição 

para gerar poesia do coração?


- Soergue, axializa o teu corpo e aspira.

Concentra-te no cálice do coração

e irradia boas e veras vibrações 

que ele se encherá e as derramará . 


Cada momento é único e irrepetível

e a Divindade interior brilha ou desaparece.

O que escolhes ser  e acolher no Graal?

Aspiras e lutas pela verdade universal? 


Esta demanda de estar bem e criativo,

Esta aspiração à verdade e à multipolaridade,

Este fogo de amor que me queima,

Estas lutas diurnas e nocturnas,

farão de mim um portador do Graal,

capaz de o erguer e encher de Luz?


Infinita diversidade na subtil Unidade,

como harmonizar o ódio e a crueldade

com a compaixão, o amor e a bondade? 

 

- Ó Pedro, não te prendas nos extremos

e avança na tua senda luminosa.

Vive a verdade como a sentes, 

partilha-a com quem te entendes

e deixa as opiniões discutirem

onde está a Verdade e a Justiça.


Cultiva no teu coração a Divindade,

partilha-a com os poucos afins

e avança no Dharma ou sintonia

da Tradição Espiritual Portuguesa

e da Perene Universal que a todos une.


Caminha cantando os mantras que sentires,

as jaculatórias, poesia e ideias que gerares;

e partilha sentimentos, intuições e sabedoria,

escritos e avisos justos, necessários e verdadeiros. 


Ora pela justiça e a paz no mundo

e medita a presença divina interna.

Dialoga ao vivo e fluidicamente

com quem for da tua satsanga

ou grupo de almas afins.

 

Esta vida é uma passagem, Pedro,

deixa o teu coração arder livre

e com a Divindade comungar

e corajosamente a verdade irradiar.

 

Agora despeço-me, parto, vou,

longe ficarão de novo as palavras vivas,

que o Logos ou Anjo interior nos diz

animando-nos a avançar até à vitória e à paz, 

à multipolaridade, fraternidade e Divindade.

 

Ó alma, sê firme na tua identidade espiritual 

e na aspiração e religação ao ser Primordial. 

Aum, Amin, Hum, Hri, Ali...


quarta-feira, 20 de março de 2024

Do auto-conhecimento, encontros culturais, consciência inclusiva, fraternidade planetária e multipolaridade.

Sobre os encontros dos povos, culturas, tradições, religiões, ciências, rumo à Unidade multipolar.
 Os povos, nações, estados, federações de todo o mundo na sua riquíssima diversidade não se opõem nem excluem, pelo contrário enriquecem-se na diversidade, estimulam-se, complementarizam-se, completam-se.
Reintegrar e revalorizar as diversas tradições, conhecimentos, costumes e culturas à luz da modernidade científica e psíquica é importante, mas a complexidade de tal tarefa é contudo grande pela dificuldade de exame, observação, experimentação dos dados ou factores mais diversos, a que  acresce a insuficiência dos instrumentos metodológicos e científicos quanto a certas dimensões subtis e espirituais das experiências, para alem de dependerem ainda dos observadores que são sujeitos subjectivos, com as suas capacidade, afinidades e preferências, que as influenciam (mesmo ao nível das partículas), julgam e valorizam", pese o  desenvolvimento da Inteligência Artificial para realizar parte de tais funções...
A grande luta actual é a da mentalidade e hábitos consumistas informativos pouco lúcidos e muito manipulados face às descobertas científicas, as tradições, saberes e conhecimentos valiosos. Por um lado uma onda avassalante veiculada pela televisão, jornais, média, em grande parte superficial, enganadora, soterrando  valores e tradições milenárias. Por outro uma criatividade e originalidade imensa, com milhões de investigadores e estudiosos de tudo mas sempre com dificuldades de serem ouvidos e apoiados face ao que é proposto ou imposto pelos líderes oligárquicos da propaganda e hipnose colectiva.
Os perigos principais resultam da influência e adopção de comportamentos anti-naturais, estereotipados e de desejos e expectativas irreais, ou de adesões a projectos e partidos mentirosos e negativos que vão causar profundas danos na tessitura da harmonia individual, nacional e planetária, tanto ecológica  e política como psicológica e culturalmente.
Dever-se-ia em cada local, região e povo destacar os melhores valores, ideias e doutrinas, hábitos e costumes, artes e livros, parques naturais e monumentos, crenças e devoções, pessoas e mestrias, etc., etc.,  em termos de os mais positivos, úteis e adequados  serem protegidos, desenvolvidos, estimulados, divulgados...
Simultaneamente dever-se-ia fomentar o estender ou ampliar a consciência individual e colectiva para outras culturas, hábitos, crenças, religiões com sensibilidade, e com atitudes e intenções de respeito, tolerância e inclusividade, de modo a que crescentemente a consciência da harmonia e unidade planetária possa surgir mais nas mentes e nas interacções e comportamentos.
Nos níveis religiosos e espirituais, onde a cultura tem níveis muito profundos ou elevados, não se tem conseguido extrair uma súmula planetária religioso-espiritual e vemos antes hoje paradoxalmente em certas religiões e cultos ainda uma apetência separatista de poder, de domínio, de controle, em vez de busca sincera e em rede colectiva da verdade, do bem, da cura, do sagrado, do divino.
Essencial se torna então situar e educar as pessoas para a unidade na diversidade das religiões, tradições e cultos, para a relatividade dos seus preceitos, para o valor das suas práticas, para a criatividade das suas realizações, de modo a que os fundamentalistas ou ateísmos diminuam ou desapareçam e cresça a pertença à religião da humanidade filha da Divindade.
O encontro de povos, tradições, culturas, conhecimentos e capacidades não deve estar sujeito a manipulações, massificações e destruições tremendas tal como ainda se fazem no mundo inteiro em função da ganancia económica, de religiosidades fanáticas, de nacionalismo, de superioridades e hegemonias, de excepcionalismo.
É fundamental que se tente conhecer, aprofundar e transmitir experiências, conhecimentos, tradições e realizações científicas e ecológicas modernas que ajudem os povos na sua evolução e aperfeiçoamento multipolar. Por exemplo, a riqueza das suas histórias e criações, lendas e crenças. Os valores, originalidades e limitações das alimentações de certos povos. As formas de medicinas alternativas, com recolha, comparação e revalorização, mas também as últimas descobertas científicas, nomeadamente da física quântica. Os progressos na compreensão e explicação dos poderes psíquicos dos seres e a existência do Campo Unificado de energia consciência. Os desenvolvimentos imensos na ciência tecnológica e digital.
Quando se fala hoje de cultura nos povos ocidentais o que vem mais ao de cima são  os espectáculos artísticos: música, exposições de pintura ou escultura, bailados, e os livros e conferências surgem depois. E se olhamos para muitos dos seres mais mediáticos constatamos as características que lhes permitem tais sucessos mas que também reflectem limitações culturais, éticas e espirituais. 
 

A palavra Cultura  provém do particípio passado, cultus, do verbo latino colere, cultivar, fazer crescer, aplicado tanto aos trabalhos dos campos, nos quais a luz do sol  é o mais importante, donde os cultos solsticiais e equinóciais antiquíssimos, como também aos trabalhos religiosos  e adorativos de Ur, a primordialidade. Esta é a essência da cultura: cultivar de um modo adorativo ou luminoso a primordialidade e essencialidade luminosa. A aproximação, o respeito, o trabalho, o amor, a criatividade com ela, nas suas dimensões visíveis e invisíveis, em nós e nos outros, e que se iniciam ao abrirmos o olhar (físico e subtil) em cada manhã e culminam no desabrochamento do nosso corpo de luz ou espiritual, imortal.
Luz significa energia pura multidimensional e se quisermos nos seus níveis mais elevados, Luz Primordial e Divina e que é na manifestação cósmica a Vida que palpita em tudo e é depois no sistema solar a do Sol que nos alimenta e se concretiza nas mais diversas formas e estados de ser, energia, informação e consciência, uma luz que nós podemos e devemos qualificar e intensificar nas nossas percepções e contemplações, meditações, irradiações e acções.
Cultura  implica um aperfeiçoamento de consciência e um domínio ou utilização harmoniosa das energias, da matéria, das coisas: ora hoje domina-se demasiado o mundo físico material, temos todo o tipo de conhecimentos que usamos por vezes até inconscientemente, enquanto que a consciência, a essência subjectiva, a participação na mente cósmica ou na Razão ou Logos, e a religação espiritual e divina, é diminuta, comparativamente.
Essencial então se torna aprofundar a auto-consciência da consciência em cada um de nós, pois ela é na sua misteriosa essência a luz mais pura e original, é o espelho em que se reflecte o mundo exterior e onde se formam os nossos juízos de facto e de valor e logo acções, e que em geral está constantemente a ser bombardeada com informações exteriores e reacções, pouco respirando livremente e de modo a se transparentizar.
 
A dignidade consciencial de certos povos ditos "menos civilizados", a nobreza e sabedoria de muitos seres rurais ou iletrados, mostram-nos que a essência da cultura, o verdadeiro culto da luz na consciência e na vida, mais do que da acumulação intelectual resulta da receptividade e pureza interior em unidade humilde e harmoniosa com o ambiente, o Todo, a Primordialidade, numa coincidência e coerência entre o ser, o sentir, o estar e o agir.
Base da cultura será então tanto o auto-conhecimento, o aprofundar da compreensão do nosso ser de modo a que ele possa estar e agir melhor como o partilhar.
A cultura mais necessária nos nossos dias é a cultura interior, ou seja o auto-conhecimento, a gnose de si mesmo, o que se realiza sobretudo pela interiorização, a oração, a meditação, a contemplação, havendo já muitas propostas no "mercado" que se tem desenvolvido e, consequentemente, muita exploração ou mesmo patranha...
Há que tornar-nos cada vez mais conscientes de quem somos: um corpo, alma e espírito, a viver, a evoluir, a aperfeiçoar-se, a cooperar numa sociedade e época determinada, mas como elo de uma continuidade histórica familiar, local, nacional, planetária, e a diversos níveis desde os sanguíneos e genéticos aos culturais, profissionais e espirituais...
É urgente desenvolver-se, alcançar-se uma visão do ser humano que seja acessível e verificável em qualquer parte do planeta, ou seja, universal, tanto mais que em algumas tradições espirituais se falava do homem perfeito ou universal.
Falharam as religiões nos seus proselitismos e tendências de universalização opressivas ou forçadas. Falharam e falharão as revoluções ateístas e economicistas, ou as manipuladas por forças negativas, opressivas ou mesmo violentas, mesmo que se disfarcem sob nomes como transhumanismo e que é mais um infrahumanismo, nova Ordem Mundial, Agenda 2030, cidades de quinze minutos, passe vacinal, moeda só digital....
Hoje mais do que nunca é tarefa urgente apresentar uma visão mais profunda e verdadeira do ser humano natural e com o seu livre arbítrio lúcido, utilizando pra tal não só os recursos da ciência material como os da gnose espiritual, a qual tem sido beneficiada pelos muitos estudos comparativos entre religiões e suas vivências e biografias, práticas e doutrinas.
A relevância principal destes estudos é que eles são transformadores, revolucionários até, pois sendo os problemas, necessidades e conflitos materiais tão imensos, só havendo uma certa unificação e harmonia interior é que as pessoas podem começar a ter comportamentos e julgamentos mais imparciais, profundos e equilibrados e que farão diminuir os conflitos e dramas em todo o mundo.
O essencial da cultura, do ponto de vista interior, é apoiar, ajudar o homem e a mulher dos nossos dias a re-identificarem-se como seres espirituais, como corações perfectíveis, mentes capazes do sublime, co-participantes no Infinito, receptores de energias cósmicas, criadores dentro dum plano divino primordial que na Terra implica ecologia e justiça, multipolaridade fraterna e libertadora.
Quando esta consciência nasce e se reforça, a harmonização do planeta é mais fácil, o encontro das pessoas, povos e  culturas é mais enriquecedor e pacífico.
A mensagem deste pequeno texto é simples: não nos limitemos a posições políticas ou económicas, diplomáticas ou sociológicas, liberais ou socialistas, fascistas ou comunistas, cristãs ou islâmicas mas procuremos sobretudo a síntese do conhecimento e vivência profunda das maravilhas infinitas que o ser humano tem em si e no relacionamento com os outros e a Natureza, e na unidade cósmica infinita e primordial em que vive e tem o seu ser, e na qual retornará com mais ou menos luz e universalidade quando deixar o seu corpo terreno e avançar no corpo espiritual e fraterno que tiver despertado e desenvolvido...

terça-feira, 19 de março de 2024

"Até ao último europeu" será o novo lema ou mantra da oligarquia ocidental na sua hubris de domínio excepcionalista?

 O lema "até ao último Ucraniano" utilizado pelos políticos mais nacionalistas norte-americanos, e extremistas do ódio à Rússia, tais Anthony Blinken, Llyod Austin e o senador Lyndsey Graham, parece estar a propagar-se nas cabecinhas dos dirigentes da União Europeia que, na sua hubris de ainda quererem derrotar a Rússia, de não aceitarem que ela é de certo modo invencível neste caso e zona da Europa, começam a proclamar ou destilar esse lema subrepticiamente, na sua forma de se for preciso o envio e tropas europeias para lá (mais visivelmente, pois são já dezenas ou centenas os militares da NATO que desincarnaram anonimamente precocemente), no fundo implicando quase o "até ao último europeu", pois, certamente, no seu diabolismo do império Ocidental em degeneração completa, tencionam manterem-se indiferentes ao sofrimento dos povos, seguros que têm os seus bunkers ou casamatas, caso venham em resposta, a tal cruzar das linhas vermelhas traçadas pelo Kremlin, bombas nucleares para dizimar terras e vidas, embora certamente não seja Lisboa o alvo imediato, tal como recentemente o politólogo Viriato Soromenho Marques profetizou...
                                          
A pomba da Paz,
ou se quisermos, na tradição portuguesa, do Espírito Santo, que há poucos dias o Papa Francisco corajosamente levantou ou soprou para os dirigentes envoltos no conflito dos USA com a Rússia através da Ucrânia, numa entrevista à RTS.ch Radio Télévision Suisse, propondo até a mediação da Turquia, não agradou aos dirigentes mais extremistas da NATO, USA e União Europeia, alguns atrevendo-se mesmo a sugerir que teria sido melhor o santo Papa estar calado, pelo  parece cada vez mais difícil que não continue a mortandade trágica de tanto eslavo pela ambição de hegemonia excepcionalista do dólar e da oligarquia ocidental, e sua opressiva nova Ordem mundial...
                                           
Mesmo o "Deixo-vos a minha Paz, dou-vos a minha Paz", que teria sido pronunciado há c
erca de 2.000 anos por Jesus Cristo como seu testamento principal e último, antes de abandonar a Terra, e que ao de leve ainda pairaria nos mundos subtis da antiga Terra Santa e nos  seus seres fraternos, agora nem lá, pelo genocídio sionista dos Palestinianos apoiado pelos USA-UK-UE, nem na Europa cada vez descredibilizada e manipulada, encontra guarida a não ser em algumas almas mais pacíficas, bondosas, religiosas e ecológicas, mas frágeis e quase insignificantes perante o avençamento geral dos dirigentes e políticos ao dólar e euro, moedas de grupos financeiros implacáveis na sua ânsia de domínio, seja corrompendo seja oprimindo...
                                            
Esta pequena reflexão nasceu de neste dia último dia do Inverno, um dos chefes da
União Europeia, Charles Michel, Presidente do Conselho da Europa, ter avisado os estados membros que a União Europeia deveria passar para uma economia de guerra, já que os Russos estando a ganhar na Ucrânia querem vir por aí a baixo e, como já diziam Milhazes e Rogeiro no programa de Herman José e agora Viriato Soromenho Marques, além de muitos outros comentadores e políticos russófobos, querem avançar pela Europa  até chegar a Lisboa, ao Tejo das ninfas camoneanas e talvez aos pastéis de nata de Belém, as quais, sendo património nacional ou seja, turístico, têm de ser defendidas com unhas e dentes..
                                          
O que o belicista belga Charle
s Michel, em 2023 envolvido em escandalosas despesas de viagens em jactos privados, desejoso de uma CIA europeia e a ter que sair nas eleições de Maio de 2024 do seu cargo, e por isso tentando atirar-se para outros lugares graúdos,   escreveu num artigo de opinião publicado pelo Euractiv na segunda-feira, e publicado a 18 de Março no avençado jornal Público,  para justificar o investimento militar é basicamente: "A Rússia é uma séria ameaça militar ao nosso continente europeu e à segurança global. Se a resposta da UE não for correcta e se não dermos à Ucrânia apoio suficiente para travar a Rússia, seremos os próximos".
                                       
Na mesma linha tem estado o galaroz do Macron, talvez o mais avençado aos Rothschilds e à Nova Ordem Mundial, e que, para além de conselheiros e mercenários já em luta no Donbas (e são bastantes os mortos), numa entrevista ao jornal Le Parisien, publicada a 17 de Março, afirmou que uma operação terrestre poderá vir a ser necessária para combater as tropas Russas na Ucrânia.
Face a esta classe política péssima ocidental
que temos, o que podemos fazer senão orar e meditar, falar e agir, para que as forças espirituais e as bênçãos divinas toquem e influenciem cada vez mais almas e consigam, pela união multipolar dos seres mais fraternos, justos e dinâmicos, diminuir, desmascarar e vencer o diabolismo oligárquico e imperialista?
Boas interiorizações e orações, e muito discernimento, luz, Paz e Amor ...
                                               

segunda-feira, 18 de março de 2024

Místicas portuguesas dos séc. XVII e XVIII e seus ensinamentos. Contextualização e linhas de força do que será a conferência no I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística, a 26 de Abril, no Bom Jesus do Monte.

 Resumo programático da comunicação no I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística, Místicas portuguesas dos séculos XVII e XVIIIque virei a realizar de acordo com o alento do Espírito Santo, que conseguir merecer, no Bom Jesus do Monte, no dia 26 de Abril de 2024, pelo meio da tarde.
                                             
Nas raízes etimológicas, gregas, da nossa palavra mística, encontraremos os mistés, os iniciados ou iniciadas, que praticavam o silêncio não só receptivo preparatório, como até posterior, às experiências indizíveis que obtinham no decurso dos Mistérios.
Tal implica que, para além do corpo físico, ou do que vemos e experienciamos com os cinco sentidos e a mente, existem outros níveis de ser e dimensões que alcançam ou chegam até às profundezas ou alturas do Divino, as quais exigem contudo, para se nos revelarem e tornarem compreensíveis, que adoptemos modos de vida e práticas psico-espirituais correctos que nos permitam merecer as graças de estados intensificados de consciência, de amor, de união.
O místico é pois quem experienciou o que poderemos designar por sagrado, em sentido lato ou, em sentidos mais precisos, o espírito, o divino, ou ainda quem tem apenas a tendência, aspiração e sensibilidade para tal.
No Ocidente Cristão Português, a tradição mística é muito antiga e ininterrupta, e vem desde os eremitas da serra de Ossa até às milhares de sorores e almas religiosas que se protegeram em mosteiros e conventos e aí puderam soltar a ave-balão do seu coração, sem os pesos dos envolvimentos e preocupações mundanas, rumo às alturas ora devocionais ora mesmo místicas e de êxtase de que tantos testemunhos nos ficaram: hagiográficos, literários, artísticos ou mesmo de intercessão.
Esta comunicação baseia-se no estudo das vidas e ensinamentos de algumas místicas portuguesas dos séculos XVII-XVIII, da época do Barroco, freiras de diversas ordens, que se destacaram qualitativamente no seu magistério monacal e conventual, na ascese, nas práticas devocionais, no amor, nas graças, visões, uniões e êxtases, ou ainda na poesia e doutrina, por vezes com forte influência na sociedade, e baseia-se portanto no que elas realizaram. A fonte documental principal são cerca de dez livros do séc. XVIII escritos com diligente cuidado e sábio discernimento sobre as vidas delas, e contendo escritos ou falas das sorores, e mais um ou dois pequenos manuscritos de relações das suas vidas.
Espera-se que desta comunicação se possa avaliar melhor a qualidade do amor e de dádiva ao sagrado e ao Divino, e às Suas Pessoas, bem como da operatividade das vias que tais místicas portugueses seguiram em vidas tão abnegadas e ardentes quão luminosas e exemplares.»

 Como bibliografia podemos exemplificar com uma das mais instrutivas obras acerca das vidas das nossas sorores, Os Desposórios do Espírito celebrados entre o Divino Amante, e sua Amada Esposa, a venerável Madre Soror Mariana do Rosário, Religiosa de Véu Branco no Convento do Salvador da cidade de Évora composto por Frei António de Almada, Religioso dos Eremitas de Santo Agostinho na Província de Portugal, jubilado na Sagrada Theologia. Lisboa, na Ofcina de Miguel Manescal da Costa, 1766,

domingo, 17 de março de 2024

Da leveza dos corpo e almas. Desprendimento do mundo, amor a Deus. Sentidos espirituais, corações e elevações.

  Há pessoas que embora tenham os corpos bastante volumosos ou fortes são leves porque se enchem constantemente de vibrações de amor, de abnegação, de devoção, de adoração. O seu conteúdo interior material de ossos e de carne é como que subtilizado, aligeirado, desvanecido, sublimado e por isso elas avançam harmoniosamente, menos pesadamente no caminho da vida. 

Também podemos ver a imponderabilidade da sua massa corporal resultar de estarem a ser atraídos para os planos subtis e espirituais que penetram e envolvem a Terra e que assim os roubam à maior densidade e peso no plano físico e mesmo de certos planos psíquicos conflituosos e plenos de vibrações negativas, hoje em dia muito insidiosos e absorventes pelas manipulações das notícias do mundo pelos meios de informação. Por isso o recolhimento, a menor exposição possível aos canais televisivos é fundamental para nos conseguirmos elevar um pouco acima da horizontalidade infrahumanizadora que predomina...

Caso extremo e raro, e ainda hoje pela maioria duvidado, passava-se com os místicos e místicas antigos que foram vistos elevados do solo, centímetros ou metros, parados ou em voo, arrebatados pelos seus estados intensificados de amor à Divindade ou ao Bem. Dos mais conhecidos devemos nomear S. Teresa de Ávila e S. José de Cupertino, mas em Portugal houve também os que conseguiam derrogar a lei da gravidade e foram vistos a levitar, caso de S. Pedro de Alcântara, na Arrábida, ou de místicas como a  soror Maria Francisca da Conceição, clarissa em Trancoso, e a Madre Brízida de Santo António.. Podemos pensar que o desprendimento do mundo terreno, e as asas com que aspiravam aos céus e à Divindade nas orações e contemplações as conseguiam arrebatar no corpo e na alma, de certo modo testemunhando assim mais visivelmente a força do espírito, num corpo espiritual em acção.

Noutras pessoas é a comunhão com a natureza, o ar, o infinito, a beleza que os faz sair da densificação-coisificação corporal separada do Todo que eles ainda sabem sentir, assimilar e unir-se. Foram muitas as almas poéticas que se elevaram e extasiaram com os lírios do campo, os rouxinóis do Mondego, as serras de Sintra e da Arrábida, e lembramo-nos de Frei Agostinho da Cruz, o místico da Arrábida, tal como já no século XX o professor liceal e malogrado  poeta Sebastião da Gama, que tão bem a cantou na Serra-Mãe.

Há quem considere que o coração de tais almas, ao perseverar na humildade e oração, na paz e na alegria, ao estar quase sempre flamejante e confiante, liga-se incessantemente a uma correnteza espiritual que se intercomunica e de algum modo as eleva e subtiliza, uns chamando-lhe Alma do mundo, outros Espírito Santo, outros Campo unificado de energia consciência informação...

Para outros seres mais dedicados ao estudo e à meditação, o principal factor será a consciência desenvolvida ou apurada da presença espiritual Divina nas suas almas e corações que as eleva em relação a muitas das horizontalidades e pesos da vida, fazendo-as entrar em estados de amor, suavidade, alegria e leveza grandes. Nas místicas portuguesas dos séc. XVI, XVII e XVIII acontecia bastante essa forte consciência da Presença Divina no centro do peito e da alma, e deram testemunho disso várias delas, ora vendo-a, ora sentindo-a até queimá-las como fogo de Amor, tais como Brízida de Santo António, Mariana da Purificação e Mariana do Rosário.

 Muitos mais seres, se orassem e meditassem, poderiam alcançar tal consciência através dos sentidos espirituais, mas na maioria dos seres estes sentidos não estão despertos e activos devido à vida demasiado materializada e exteriorizada, e poucos conseguem confirmar por experiência própria o que lê ou ouvem de tais casos de maior despertar espiritual, e em geral deixam-se envolver em grupos e práticas de esoterismo duvidoso e perigoso pensando que por magias, ritos sexuais e cabalas conseguem dominar forças e até entidades e atingir estados a que chamam transcendentes mas que frequentemente os tornam desequilibrados, vítimas...  

Algumas pessoas que oram e meditam mais simplesmente  conseguem ver algumas luzes ou imagens nos seus momentos de interiorização mais conseguidos, e mesmo que venha tal dos planos subtis astrais e não dos mais elevados espirituais,  numa clarividência que pode provir de herança genética ou dos antepassados, ou por desenvolvimento voluntários, isso sempre os harmoniza e lucidifica, em vez de luciferizar. Embora o mais importante seja a nossa sinceridade no caminho do bem e da verdade e da aspiração e adoração da Divindade, certamente que é sempre valioso  ver símbolos,  os planos espirituais, os santos, os mestres e anjos, ou mesmo a presença espiritual e Divina, embora poucos obtenham tais graça, bem mais fácil de acontecer nos mosteiros (das várias religiões) em que as almas abnegadas, ao entregarem-se à vida tão difícil quão valiosa de recolhimento, oração, e santificação, viam frequentemente o mestre Jesus ou outros seres espirituais.

Já quanto ao sentido da audição subtil,  pese a tradição imaculada de Pitágoras ouvindo a música das esferas e de na mística portuguesa ter havido uma ou outra monja que conseguira ouvir a música celestial ou dos Anjos, caso da soror Mariana do Rosário,  em geral apenas ouviram as locuções internas do Mestre,  hoje pouquíssima gente o consegue, pois a barulholatria em que se vive na sociedade moderna é um factor impeditivo forte para conseguirmos sentir mais os ritmos cósmicos, os sons subtis internos, os diálogos com o ser amado divino.

Já na tradição indiana , ainda se valoriza nos nossos dias a meditação no som, palavra ou verbo divino,  Vak, Sat Naam, e do qual o Om é a sonorização audível mais apresentada e recomendada, embora certos mestres prefiram as quatro mahavakyas, as grandes afirmações, para se interiorizarem e despertarem espiritualmente, as quais remetem para a nossa íntima ligação com a Divindade, Brahman. E muitos meditam num nome divino, o ishta devata nama, aquele com que sentem mais acessível a ligação à Divindade, interna e do coração.

Assim na Índia há milhões de pessoas que diariamente pronunciam o Om muitas vezes, ou concentram-se no som do silêncio, o nada, mas poucos resultados e testemunhos surgem, além de um ou outro yogui dar algumas descrições. Os gurus actuais mais conhecidos destacam-se sobretudo pela  grandeza de vaidade exterior e pobreza de realização interior. Mas falam de tudo, abençoam e deixam-se adorar com uma facilidade impressionante, e mesmo Portugal não tem escapado a tais patranhices dada a fraca qualidade do nosso esoterismo e yoguismo.

Tais promessas gregas ou indianas eram infundadas, ou não soubemos qualificar-nos para aprofundar os caminhos para tal audição da música das esferas de que Pitágoras falava e teria ouvido, ou não é tal necessário?

Se lermos ou estudarmos algumas referências da sabedoria indiana vemos que fazem corresponder o som  com o elemento éter ou akasa ou espaço e que ouve-se pelo órgão do ouvido. Mas pouco falam do ouvido subtil,  um órgão subtil contraparte do ouvido físico, tal como olho espiritual o é dos olhos físicos. Como o poderemos ligar os dois ouvidos, como discernir e cumprir melhor as suas mais elevadas funções?

Podemos pensar que é ouvindo com bastante sensibilidade e recolhimento interior a música e a voz, que iremos despertar o ouvido espiritual. Ou pensar que falando e cantando luminosa e harmoniosamente,  o ouvido espiritual se harmonizará e afinará. Mas também há técnicas em que se fecham os ouvidos físicos, e se repete interiormente uma oração, uma jaculatória, um mantra e se tenta interiorizar a consciência por uma audição interna dessa vibraçao pronunciando-se dentro de nós.

 Como os órgãos do sentidos são influenciados pelo que experienciamos, despertaremos ou pelo menos harmonizaremos o ouvido espiritual se cantarmos, orarmos  harmoniosamente, vendo ou imaginando tal na sua subtileza e essencialidade. Entre nós, uma ou outra soror portuguesa, tão activas nos cantos e orações, conseguia, talvez pela sua sensibilidade e devoção maior, receber a graça de ouvir acompanhamentos subtis às suas actividades nos coros das missas, tal a Soror Mariana do Rosário, em Évora.

Assim, se nos interrogarmos, porque é que os nossos sentidos espirituais estão tão adormecidos, porque não conseguimos ver tanto com o olho espiritual, nem sentir com o coração, nem ouvir a voz do Mestre, talvez devamos reconhecer que eles estão cobertos ou soterrados de imagens, de impressões, de sons, de partículas karmicas (geradoras de influências) que obscurecem a visão ou a audição para dentro e para fora. As purificações visam remover essa matéria indesejável e por isso as pessoas no caminho místico e espiritual sujeitavam-se a muitas asceses e limpezas, embora hoje menos, pois também se abusava outrora do castigar do irmão corpo, como lhe chamava S. Francisco de Assis.

 A utilização predominante dos sons nasais nas práticas de oração, respiração e meditação orientais (e não só pois ao Aum indiano corresponde o Amen cristão, o Hum budista, o Amin islâmico)  visa, ao ressoarem mais na cabeça, provavelmente estimular a energia dos centros superiores cerebrais, e limpar os canais ou antenas mais altos da alma, de tal modo que sentimentos e emoções são gerados e as lágrimas ou risos, físicos ou só psíquicos, podem ser a contraparte  da intensificação da circulação da energia psico-espiritual do amor e do coração, seja ela auto-emanada, seja ela também recebida por graça de circulação de ligação do céu e da terra, ou mesmo de descida do mundo espiritual e Divino.... 

Todavia a graça da contemplação de Deus nasce da perseverante adoração e  amor com que possamos aspirar a religar-nos a Ele e não das técnicas, sendo certamente a leveza da circulação energética no microcosmo humano e a fé justificada ou seja a  confiança mais fundamentada  da sintonização do ser humano com Deus o que abre mais as portas da alma e do coração às graças divinas e à consciencialização delas

Escassas são porém as pessoas que se dirigem ao coração, que lhe falam, ou interrogam ou meditam, para que  espírito, almas do corpo místico da Humanidade,  Anjos ou mesmo a Divindade possam ser através dele sintonizados e   inspirações deles acolhidas. 

O culto do sagrado coração de Jesus e depois, historicamente (já só no final séc. XVIII)  de Maria, deve ser assumido também dentro de nós, seja porque temos o influxo de um ou ou outro desses grandes seres em nós, seja porque a nossa própria centelha divina está mais desperta e irradiante. Nomeadamente quando, apesar das dificuldades da vida,  há  estabilização da presença espiritual ou  quando a graça mais forte da presença Divina se manifesta.

Assim quando os seres e os seus corações estão mais purificados, leves e  receptivos, eles podem seja desferir votos e flechas benéficas para os outros como receber informações ou sinais do seu eu espiritual, dos mestres e anjos, e do universo subtil e espiritual. Comunicam assim acima das limitações do tempo e do espaço  circulam mais ligeira e harmoniosamente nos mundos subtis e imaginais, ou mesmo voando ou levitando, pelo menos nas legendas vivas que nos deixaram para emular.

sábado, 16 de março de 2024

Apresentação de "Primórdio [Cordis]" de Maria de Fátima Silva, no ALI, do Convento da Terra, no Torrão.

                                                                  

Para além do que direi in loco e de coração na inauguração da exposição da Fátima, no ALI do Convento da Terra, pediu-me o Mário Caeiro, o dinamizador, que escrevesse umas palavras:

Esta exposição da Maria de Fátima Silva, organizado pela associação do Convento da Terra, no Torrão, contém os núcleos principais da sua obra pictórica onde  as raízes arqueológicas, históricas, míticas e espirituais nos são apresentadas com  grande dinamismo de formas, cores e perspectivas, constituindo-se como pinturas cheias de simbolismo, de emoções, de tragédias e glórias, e que nos desafiam a senti-las e a compreendê-las, o que nem sempre é fácil tal a carga histórica e simbólica, pessoal e estética, com que a Fátima as investe.

Podemos discernir alguns núcleos, tal um primeiro da memória dos tempos da Atlântida e pré-históricos, através das suas pedras, megalitos, antas e monumentos, a que ela acrescenta as suas intuições, seja de cultos e sacerdócios, seja de Anjos e Deuses que habitavam tais locais sagrados e respondiam, ou correspondiam, às aspirações dos povos e orantes.

Esta é uma raiz que subjaz Portugal e cada a alma portuguesa que sente mais ou menos fortemente tais pilares e eixos dos tempos antigos que ainda sobrevivem ora na nossa paisagem ora apenas numa vaga memória ou imaginação colectiva, como é o caso da Atlântida, e que alguns rochedos ou ilhas próximas da nossa costa a fazem emergir imaginalmente do Oceano que a engoliu.

O segundo núcleo é o Amor de Inês e de Pedro, tanto na sua essência do amor intenso sentido e realizado como no da fragilidade trágica face às circunstâncias adversas mas capaz de se imortalizar, e que encontrou na Fátima a discípula preferida, ela se deixando mergulhar em tudo o que a fará sentir ou saber mais de tal vivência e história tanto trágica como gloriosa, atestada perenemente na estatuária dos dois amantes jazentes na brancura da eternidade no templo do mosteiro cisterciense de Alcobaça, e que ela tem repetidamente peregrinado, como aliás outros locais ligados à vida de Pedro e Inês, sempre atenta ainda ao que em gravuras e livros antigos pode recolher.

O terceiro núcleo fundamental liga-se aos Anjos e na maioria das suas pinturas eles estão presentes, em formas diversas, em conúbio com os seres humanos, os animais, as pedras, e introduzindo assim face à materialização progressiva da humanidade que se intenta infra-humanizar (WEF), um contra-discurso pictórico em que a dimensão espiritual surge intensamente presente no nosso quotidiano, e logo salvando-nos da redução a meros consumidores materializados do que os manipuladores meios de comunicação social querem e intentam. O Anjo apela à nossa interiorização, oração e meditação e  elevam-nos acima da horizontalidade para dimensões mais vastas da consciência e da existência e podem abençoar-nos com a sua luz,  paz, amor e lucidez.

É certamente  difícil avaliar os sentimentos e pensamentos que as obras e seus núcleos suscitarão nas pessoas que os virem, embora seja em geral agradável o todo qualitativo de cada uma das suas pinturas, nas cores, formas, conjuntos, movimentos, planos, personagens, narrativas e mensagens.

Teríamos de saber se, após as contemplarem mais ou menos demoradamente, ficaram com maior amor à terra, à arqueologia, à pré-história, às brumas das civilizações antigas, ou se ficam mais decididas a serem amor e não se deixarem matar pelos  inimigos externos ou mesmo internos, e assim se erguerem como cavaleiros e cavaleiras do Amor, Fiéis do Amor Divino na Terra e  entre os humanos e, finalmente, se conseguem sentir ou então (bem mais difícil) ver interiormente o Anjo, os Anjos, e se nas suas orações e meditações eles passam a ser invocados e orados, talvez aumentando o número e a força dos que ainda exclamam alguma versão da oração do "Anjo da Guarda, minha subtil companhia, inspira a minha alma de noite e de dia", e de tais práticas e esforços de religação recebem inspirações e energias.

Talvez possamos finalizar lembrando um quarto núcleo na tão rica e promissora obra da Maria de Fátima Silva: o mar, não só de amar mas daquele que abraça ou cinge toda a nossa costa ou, para quem vive no interior, as costas, pois a Fátima e a sua família, que a acompanha e apoia nas suas incursões e peregrinações, vivem mesmo junto ao Oceano Atlântico e assim recebem mais as suas vibrações harmonizadoras, purificadoras, inspiradoras...

E com este núcleo finalizamos estas breves  palavras escritas a pedido do Mário Caeiro para a inauguração da exposição da Fátima no Torrão, junto ao convento da Nossa Senhora da Graça, outrora das Terceiras e Sorores Clarissas, com a sua valiosa mística franciscana de amor divino, humano e da Natureza (e onde floresceram almas agraciadas), certamente uma terra muito promissora na linha do Agostinho da Silva que apelou a novos conventos, algo que vinha já de Antero de Quental com a sua Ordem de Mateiros, para se constituírem como enclaves de resistência económica, cultural, espiritual e fraterna, tal o Montado do Freixo Meio, do Alfredo Cunhal Sendim, no Alentejo profundo, face ao desumanismo ameaçador, onde se podem gerar criativa e dinamicamente actividades e crescimentos conscienciais belos e valiosos para as personas, para a Natureza, para a harmonia entre a Terra e o Céu.

Os quatro núcleos perfazem os Quatro elementos ocidentais tradicionais, a Terra e a Água, dos megalitos desde o Neolítico, da Atlântida e do Oceano, o Ar e o Fogo, dos Anjos mensageiros, anunciadores, comunicadores e do amor que uniu e une Pedro e Inês, e cada um de nós enquanto "Fiel do Amor" esforçando-se por realizar o lema da bandeira Amor omnia vincit, mais  desfraldada agora sobre o Convento do Torrão, e no nosso coração.

Pedro Teixeira da Mota.