sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Gabriel Gobron, espírita entusiasta, critica Bô Yin Râ, pela sua visão do Além, e contrasta-a com as conclusões do investigador Ernesto Bozzano.

Os fins do século XIX e começos do séc. XX foram na Europa, e não só, tempos de grande sucesso de doutrinas,  sociedades,  publicações, investigações, sessões psíquicas, ocultistas e espíritas, mas também de muita polémica, oposição, crítica, rivalidade, escândalo, fraudes. Se era natural que o Catolicismo e o Protestantismo, enquanto religiões institucionalizadas e presas ou fiéis a um depósito de ideias e dogmas, fossem críticos e opositores, já não seria tanto que os metapsíquicos, ocultistas, esoteristas, espíritas, teósofos, maçónicos se enredassem em lutas, por vezes justificadas, outras mais fruto de personalidades e organizações, gerando-se debates e polémicas que vale a pena por vezes estudar na história do esoterismo e das ideias sobre o Além, nomeadamente na sua relação com  princípios doutrinários e aspectos psico-espirituais ainda hoje algo enigmáticos, pelo menos para muitos.

Em relação ao espiritismo, o que teve mais em voga então, com a adesão de muitos valiosos cientistas, como Crookes, Lombroso, Flammarion, Richet, Aksakof, ou entre nós Leonardo Coimbra, em demanda das provas da sobrevivência da alma e da vida no além, observamos naturalmente muitas críticas de pensadores e padres católicos, tal o cardeal Lépicier ou, entre nós, o Arcebispo de Braga, numa pastoral de 1928 que foi rebatida por J. Freire.   Já nos meios ocultistas houve bastante permeabilidade, e nos teosóficos, já que a fundadora Madame Blavatsky tinha sido espirita e se proclamado mesmo como tal, houve uma inicial simpatia e circulação das duas doutrinas e colaboração das organizações. Surgirá porém um pensador de ortodoxias, René Guénon, que em duas obras marcantes deu uma machadada forte na respeitabilidade dos dois movimentos: Le Théosophisme, histoire d'une pseudo-religion, de 1921 e  L'Erreur Spirite, de 1923, que ficarão como das mais sistemáticas e coerentes críticas feitas, embora saibamos que Guénon enfermava de um certo fundamentalismo (bem maior em Frithjof Schuon) na afirmação da sua ideia ou concepção da Filosofia Perene e de uma metafisica intelectual, acima desse tipo de fenómenos, moralismos e adaptações ocidentais vulgarizadoras dos princípios metafísicos orientais, seguindo de algum modo na esteira de metafísicos de grande imaginação como Fabre d'Olivet e St. Yves d'Alveydre, algo bem patente no seu mistagógico livro O Rei do Mundo, sobre a mítica Agartha, acerca da qual tanto especulação se  tem gerado.

René Guénon

Ora talvez menos conhecidas foram as críticas ao espiritismo, e também ao teosofismo, por Bô Yin Râ (1876-1943), pintor e mestre espiritual contemporâneo de René Guénon (1886-1951) (e ter-se-ão encontrado uma vez, havendo referências na correspondência de Guénon e Evola a ele), expressas em alguns dos seus livros.

Bô Yin Râ

Embora a primeira obra de Bô Yin Râ traduzida para português em Portugal só surgisse no ano de 2000, o Livro do Deus Vivo, pela minha iniciativa e labor, e do qual esperemos que saia uma reedição bem melhorada, já sessenta anos antes, a Revista de Espiritismo, no  ano IV, nº 3, de Maio-Junho de 1930, publicava a tradução dum artigo de Gabriel Gobron, publicado na Revue Spirite de 1929, no qual fortes críticas eram lançadas contra Bô Yin Râ, a propósito da 2ª edição ampliada do seu Livro do Além, no qual o espiritismo era desaconselhado por uma série de razões, tais como a impossibilidade de se saber quem está por detrás dos fenómenos ou mensagens, e portanto da veracidade deles, o frequentemente serem entidades subtis sub-humanas que se divertem passando por humanas, podendo ter consequências graves na psique das pessoas que abrem as portas do seu interior. Para Bô Yin Râ as comunicações espirituais passam-se no foro interior da alma e não por incursões de entidades através dos mundos subtis externos. Escrevi um pequeno texto de oito traduções-citações do livro no blogue e, melhor, gravei já há uns anos a tradução do livro no meu canal do Youtube, dado o interesse do seu conteúdo, em dez leituras, a 1ª sendo: https://youtu.be/bXwOvKN8cjA

Ora as críticas de Gabriel Gobron não são muito procedentes e acabam por ser mais pessoais e jornalísticas em defesa do espiritismo do que doutrinais. Servem porém para retratar alguns aspectos da história das doutrinas sobre a vida da morte e das suas polémicas,  e o confronto do livro de Bô Yin Râ (1876-1943) com um de Ernesto Bozzano (1862-1943) tem interesse, embora os escopos das aproximações ao Além de ambos eram bem diferentes: Bô Yin Râ era um ser dotado de clarividência e que vivera  experiências psíquicas e iniciáticas, conhecendo ainda os fenómenos espíritas,e tenta ensinar a melhor preparação para o post-mortem, enquanto Ernesto Bozzano era um filósofo da ciência, formado na linha positivista e evolucionista de Edward Spencer e que só aos 44 anos foi desafiado a participar numa revista de estudos psíquicos, dedicando-se a tempo inteiro, após algumas experiência, ao estudo dos fenómenos, e em grande parte através de uma análise e comparação de tudo o que se passava e editava, juntando uma vasta biblioteca sobre a temática e que foi preservada até hoje na Biblioteca Bozzano, de Bodi, na Bolonha.

«Ernesto Bozzano, escritor insigne, profundo investigador, polemista brilhante e vigoroso,  cujo método, consistindo na discussão filosófica dos factos supra-normais, tem valorizado extraordinariamente o Espiritismo, porque demonstra a inanidade das outras hipóteses com que pretendem explicá-los. / Desenvolvendo uma actividade literária prodigiosa e fecunda, o grande mestre do Espiritismo, dotado de raras faculdades de análise e crítica tem produzido uma obra gigantesca: (...)»

Anote-se que nos números anteriores da Revista de Espiritismo, Bozzano era citado várias vezes e sempre com bastante deferência, tal como "erudito escritor", "grande mestre", "eminente escritor e filósofo", e no nº 6 de Novembro-Dezembro de 1928, e surgia no quadro de um Inquérito que a revista endereçava a espíritas famosos, ou as "principais mentalidades do espiritismo contemporâneo", no qual eram postos dois quesitos: Como chegara ao Espiritismo, e O que pensa do Espiritismo na evolução Moral da Humanidade. Curiosamente a 1ª resposta é a transcrição dum contributo auto-biográfico que ele fizera para a revista espanhola La Luz del Porvenir, enquanto a 2ª é original, escrita expressamente para a revista portuguesa. Ao lado da biografia pode ver a resenha biográfica bem valorizadora. Era portanto uma das autoridades mundiais do Espiritismo, e que então no seu apogeu iria sofrer, talvez sobretudo após a 2ª grande guerra, uma diminuição forte na Europa e nos meios científicos, derivada de vários factores e que ainda hoje nos interrogam, dada a grande qualidade de muitos dos investigadores e a subsistência de mistérios quanto à vida depois da morte, que não se podem dizer irrelevantes para a nossa vida terrena ou actual, pese o infra-humanismo que a Nova Ordem Mundial tenta impor, pelos media e digitalmente, e na qual não há espírito individual, nem além, nem Divindade. 

Gabriel Gobron, 5-VII-1895 a 8-VII-1941
 Vejamos então o que Gabriel Gobron, licenciado em Letras, autor de romances, jornalista de combate, ser religioso (chegara a converter-se ao Islão em jovem, quando estivera seis anos como professor primário na Argélia) e espírita ardente, escreve no seu artigo, que  comento levemente:
Na 1ª nota regista-se a hipótese dos artigos de Gabriel Gobron, traduzidos por um espírita português anónimo, virem a ser publicados em livro pela Federação Espírita Portuguesa, mas tal não veio a suceder pelos ventos karmicos opostos...

«É para nós espíritas uma viva alegria, comparar o Livro do Além, por Bô Yin Râ, e Crise da morte segundo a descrição dos defuntos que se comunicam ou, ou equivale ao mesmo, la Crisi della morte nelle descrizione dei defunti comunicanti, por Ernesto Bozzano. O Livro do Além é obra dum adversário do espiritismo, dum alemão que se apelidou com um sobrenome indú, para desempenhar o papel dum Ramakrishna ou dum Krishnamurti. A Crise da Morte é obra dum espírita italiano, colaborador regular da Revue Spirite, de Paris, cuja erudição e poder de argumentação não são negados pelos próprios adversários da hipótese espírita (M. René Sudre, por exemplo).» 

[Sabemos que esta questão do nome espiritual Bô Yin Râ, que Joseph Anton Schneiderfranken terá recebido dum mestre indiano que o iniciou na Grécia, não foi apreciada por alguns, tal Carl Gustav Jung, e registei: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/08/a-letter-of-jung-about-some-spiritual.html .  Gabriel Gobron lança a hipótese de ele ter adoptado um "sobrenome hindu" (em vez de lhe reconhecer a iniciação) com a intenção de se tornar, ou desempnehar mais facilmente o papel um novo guru, ou mahatma, qual Ramakrishna ou Krishnamurti, o que não nos parece o caso, tendo mesmo Bô Yin Râ escrito um pequeno opúsculo elucidativo Warum Ich Meinem Namem Führe. Porque levo o meu nome.]

«A obra de Ernesto Bozzano é um resumo de literatura transcendental [ou supra-física]. Acham-se aí comunicações de defuntos, geralmente de anglo-saxões, que foram obtidas por médiuns de educação católica ou protestante, ignorando tudo [?] de espiritismo. Ora todas estas comunicações estão em contradição violenta com certas afirmações cristãs, notavelmente sobre a questão do inferno eterno. Além disso todas estas comunicações, originárias de meios bem diversos, concordam duma maneira perfeita com os ensinamentos espíritas relativos à morte e ao além. E não estão em contradição a não ser em detalhes de ordem secundária.
Trata-se pois bem, segundo a p
alavra de Sir Arthur Conan Doyle, dum "nova revelação". [Afinal o novo Messias parece ser o espiritismo ou mesmo Ernesto Bozzano e a sua "literatura transcendental"...] E explica-se facilmente que o Senador e Sábio italiano Alessandro Chiapelli, numa carta tornada pública por Bozzan (Luce et Ombra, Março de 1930. Roma. pág 129) tenha sublinhado o potente interesse.
Regozijamo-nos em saber p
elo autor que as comunicações recebidas da Alemanha pelo Dr. Gustavo Zeller, as vindas de Itália, de Espanha, de França, do Brasil, da Inglaterra, dos Estados Unidos, etc. confirmam as revelações transcendentais reunidas na sua obra.
Segundo a sua experiência pessoal, o Professor Chia
pelli julga que o próprio fundo das declarações dos defuntos, tanto pela sua variedade de origem, como seu pelo acordo com a ciência espírita do Além, constitui uma realidade bem dificilmente discutível. Haveria pois, na série de artigos de Ernesto Bozzano da Revue Spirite, no livro La Crisi della Morte editado pelo Mondo Occulto de Nápoles, um «material» de primeira ordem sobre o Além.
E podemos dizer, não sem uma
certa altivez, que o espiritismo é muito provavelmente  a ciência actual mais profunda e mais certa sobre o Além. E o que é melhor ajuda: esta ciência é fundada na experimentação, em harmonia, portanto, com o gosto da precisão científica que o positivismo materialista ou naturalismo clássico universitário, desenvolveu e espalhou.
Ora o sr. Bô Yin Râ, espécie de
novo Messias, dá-nos uma revelação completa em 24 volumes custando 18,5 ou 150 francos o exemplar. O tomo II é o Livro do Além.»

[Comentário: A obra completa constará de quarenta volumes, e o Livro do Além, dado à luz em 1920, Das Buch des Jenseit, recebeu a sua forma definitiva apenas em 1928, provavelmente a edição que Gabriel Gobron conheceu ou leu já que era um bom poliglota, tal como a câmara municipal da sua vila natal Bayonville-sur-Mad explica numa nota biográfica. Quanto a querer ser um novo Messias sabemos como longe disso sempre Bô Yin Râ esteve, fazendo um trabalho recolhido e sem evento públicos, ao contrário de Krishnamurti, esse sim, embarcado por algum tempo no sonho mistagogo dos seus mentores Annie Besant e Charles Leadbeater, de ser o Novo Instrutor Mundial, Avatar ou Messias.]

«Em primeiro lugar esta obra é toda ela nitidamente anti-espírita. O autor verificou sem dúvida a solidez da essência espírita do Além: persegue-a com o seu ódio nas suas 200 páginas, o que todavia não o impede de pregar o Amor. Esta contradição dum «sábio» surpreendeu-nos penosamente.» 

[Comentário: Será que Bô Yin Râ, tendo verificado essa solidez, iria depois odiá-la? Não estaremos perante um certa hipocrisia (tanto mais que sábio está entre ásperas) quanto a ser "surpresa penosa", só justificada por artifício retórico? E será  que o pregar o amor é contraditório com críticas a metodologias de conhecimento psico-espiritual? Quanto a perseguir com ódio nas suas 200 páginas o espiritismo é um exagero enorme, pois a maioria das páginas são de simples ensinamentos, tal o do valor das orações pelos mortos, transmitidos com serenidade, como pode ouvir na gravação que realizei, e que talvez resuma num texto brevemente...]

«Além disso, o autor que acaba de deixar a Alemanha para tentar fortuna em França, afirma-se como um dos raríssimos conhecedores do Além, pelo facto de que, apesar de viver materialmente no meio de outros homens, não deixa de ser uma espécie de «mahatma», ou antes, de «guru» que vive já duma espécie de vida divina. A modéstia não é a virtude do sr. Bô Yin Râ. Esta atitude dum «sábio» causou-nos uma dolorosa impressão. Foi a nossa segunda decepção com ele.»

[Comentário: Gabriel Gobron exagera na decepção dolorosa em relação à falta de modéstia de Bô Yin Râ que, ao contrário do que diz, retirara-se da Alemanha para a Suíça em 1923, e só em 1925 estabilizara na sua morada definitiva junto ao lago de Lugano, sem nada de pensar ir fazer fortuna em França. Quanto a viver uma vida divina, como um «mahatma» ou grande alma e portanto conhecer bem a vida do Além, há que contextualizar, já que casou duas vezes, teve uma filha e educou ainda outra, foi pintor e relacionando-se com outros artistas, viveu uma vida simples, embora certamente para alguns ou muitos fosse um mestre, e desse ensinamentos que pressupõem uma boa realização espiritual].
«Mas há pior: o autor apela para a faculdade de crer dos seus leitores. Quando nos descreve o exército dos espíritos mistificadores que infestam o Além e retêm indefinidamente almas nas suas armadilhas, criando-lhes paraísos ilusórios, miragens enganadoras, etc. somos obrigados a acreditar no que ele nos conta. Ora o sr. Bô Yin Râ não deveria ignorar que o homem moderno, amadurecido pelo desenvolvimento extraordinário das ciência, já não quer crer mas saber. A este respeito, o fundo experimental do livro de Ernesto Bozzano e o método de comparação de dados experimentais que ele emprega, subministram provas que procuraríamos em vão nos dogmas de Bô Yin Râ.» 

[Comentário: Infelizmente a vários níveis os seres humanos na sua generalidade são obrigados a crer em certos mistérios já que não clarividentes quanto ao que se passa no além e apenas alguns terão a certeza por experiência e vivência. Não se trata tanto de saber se há uma vida depois da morte, e certamente que os investigadores espíritas, psíquicos e ocultistas contribuíram para uma alargamento do número de pessoas que aceita, acredita ou sabe intuitivamente isso. E também, certamente, o trabalho do prof. Bozzano reunindo e analisando milhares de casos, e tirando as suas conclusões sobre a sobrevivência da alma, foi ou é bem valioso metodologicamente. Mas  outra dimensão de conhecimento é saber-se que entidades existem nos mundo subtis, pois podem não ser apenas espíritos desencarnados, ou ainda como é a vida nesses planos subtis, pois as descrições dadas e que frequentemente não coincidem, são sempre subjectivas para quem não tem a mesma visão ou intuição. Quanto a chamar dogmas às indicações e recomendações de Bô Yin Râ parece exagerado, pois são as suas visões e compreensões, embora certamente as afirme como de fonte segura, mas que cada um só conseguirá assimilar conforme o seu discernimento e nível evolutivo. E nesse sentido escreveu: «Que as minhas palavras sejam capazes de despertar em ti sensibilidade mais íntima, para que de ti próprio surja aquela certeza que é a única que te pode salvaguardar tanto do cepticismo estéril como da entrega sem discernimento a diversas fantasmagorias de cérebros humanos seduzidos ou demasiadamente excitados!»]

«Pode-se dizer que um abismo separa o Livro do Além da Crise da Morte: o primeiro afirma; o segundo prova. Um é escrito por um dogmático; o outro por um cientista. Aquele continua o passado e os seus métodos de autoridade; este anuncia o futuro com as suas exigências positivistas e críticas. Esta terceira constatação é verdadeiramente angustiosa para a alta sabedoria do ex-teólogo alemão. Caminhamos com ele de desilusão em desilusão. 

[Comentário: Incorrecto é dizer que ele era um ex-teólogo, encaixando-o numa linha católica ou protestante, já que nunca estudou num seminário e até a sua visão de Jesus e dos seus ensinamentos não foi aceite por muitos deles. E embora Bô Yin Râ transmita nos seus escritos bastante convicção, nunca pediu às pessoas para aceitarem os ensinamentos como dogmas mas sim para fazerem o seu caminho espiritual e irem despertando o seu discernimento e religação espiritual, que entende ser interior e não através de mensagens ou canalizações vindas do subtil mundo exterior. Nestes sentidos escreveu: O que importa aqui não é o que tu acreditas ser a verdade, uma vez que as coisas das quais falo existem independentemente da tua aprovação ou negação. Não te dou um dogma de fé, mas mostro-te uma manifestação configurada da realidade, que por enquanto ainda não podes conhecer de outra forma do que por intermediário da apresentação por imagens através da palavra da linguagem humana»].

«Enfim, é estranho ver que a Bô Yin Râ falta mesmo originalidade: Um dos seus mais importantes capítulos tem por título: A arte de bem morrer. É uma ideia velha como o mundo. No sentido ocultista que lhe dá o autor, já ela foi desenvolvida por Schopenhauer nas suas Memórias sobre as Ciências ocultas! Bem antes dele!»

 [Comentário: Esta crítica de G. Gobron à falta de originalidade de Bô Yin Râ é talvez a mais incorrecta pois patentearia falta de cultura (o que não seria o caso pois Gobron era licenciado em Letras)  ou apenas má vontade, já que o intitular-se, e um dos mais importantes capítulos, diz ele ainda,  Arte de bem Morrer, mostra o conhecimento erudito por Bô Yin Râ dessa arte e que tantos escritores consagraram ao longo dos século e até como título de livros, sendo considerado  uma temática e didáctica religiosa, ou seja como é que os seres se devem preparar com arte e saber ao longo da vida para poderem morrer bem e sobreviverem melhor ainda no além. Um deles foi o grande Desidério Erasmo, embora seja valioso Gobron lembrar o estudo pioneiro e algo ocultista de Schopenhauer, sem que contudo se possa dizer que haja dependência, ou então falta de originalidade, tanto mais que a verdade é perene, e ao longo dos século foi captada mais ou menos, sobre o que seja, por alguns mais bem preparados. Sobre o bem morrer Bô Yin Râ dirá:«O essencial desta arte consiste em estar pronto, a qualquer hora, — no meio de planos para o futuro e actividades intensas, com saúde próspera e no vigor da força física — a passar para a “outra margem”, sem a possibilidade de regresso e com alegria serena e confiança segura», lamentando em seguida que tantas almas cheguem ao além não preparadas e sofrendo bastante por isso, poucas tendo o discernimento e os sentidos subtis despertos. O  parágrafo seguinte e final de Gabriel Gobron é também pouco fidedigno e algo sensacionalista]:
«A todos os respeitos, a
Crise da Morte é cem vezes mais recomendável que o Livro do Além dum autor que afirma, se contradiz, repete, é imodesto e apela para a credulidade e para a bolsa dos seus discípulos (3.600 francos a revelação completa!)»

Comentários finais: Certamente Gabriel Gordon desejaria que os espíritas franceses não lessem a obra da Bô Yin Râ pelas suas críticas não só a certos aspectos do espiritismo, nomeadamente a autoria das mensagens e o perigo da abertura da alma a entidades externas, como também à própria ideia da reincarnação,  que ele Gobron acabara até de afirmar ao apresentar em 1929 a obra de Gustave Gelley, autor espírita famoso, intitulada a Reincarnation, na editora de Jean Meyers. O prefácio levava o título La Reincarnation et les Temoignages de l'Histoire e nela valoriza-a muito, pois contrapõe  à dramática e injusta ideia de penas eternas a serena sucessão de vidas, «acreditada por 350 milhões de asiáticos, bem como pelos teósofos, ocultistas, espíritas, espalhados hoje sobre todos os pontos do planeta».
Gabriel G
obron colaborará em várias revistas e associações, nomeadamente na revista Le Fraterniste, que se intitulava exemplarmente Jornalismo de ideias, para encorajar e desenvolver os bons sentimentos de todos realizando assim uma União geral dos Voluntários do Bem, órgão do Institut général Psychosique, e onde no número 516, de Abril de 1936, além dum artigo seu, era levantado e interpretado o seu horóscopo pelo ocultista M. C. Poinsot. Apresentado como polemista fugaz, galardoado mesmo com um Prémio Internacional de Literatura em 1930, são muitas as suas colaborações ou referências, e vemo-lo escrever bastante sobre o ocultismo e os movimentos religiosos na  Rússia,  Japão e Europa. 

No Vietname, Gabriel Gobron com os responsáveis pelo Budismo renovado do Caodaismo.

Em 1936, no Congresso Mundial das Religiões realizado em Londres  apresentou uma comunicação como delegado oficial do Budismo renovado, pois entrara em contacto com o Caodaismo, movimento religioso e espírita do Vietname acabado de se formar, tornando-se instrutor em França, embora seja já póstuma a edição nas Éditions Dervy, em 1948,  do livro que preparava, Le Caodïsme, Budhisme rénové, spiritisme annamite, religion nouvelle en Eurasie, sobre essa nova religião de síntese entre Budismo, Taoismo, Confucionismo, Cristianismo e religião dos espíritos ou génios da Natureza (na base das tradições do Vietname), e baseado em orações ao Criador, ética confucionista,  e em  sessões de espiritismo, estas reservadas para os sacerdotes, pois senão poderia ser perigoso, relata (ou confessa) ele. Ainda há hoje cerca de 3 milhões de fiéis desta complexa religião, que teve pouco depois da sua fundação, pela presença francesa e de Gabriel Gobron, na Indochina, um representante dinâmico, entusiasta na Europa, infelizmente por pouco tempo pois desincarna com 46 anos de vida terrena apenas.

Caricatura bem abrangente da sua vida, de http://bayonville-sur-mad.fr/index.php/gabriel-gobron/

Como vemos uma personalidade multifacetada, uma vida bem dura, nascido de uma família de padeiros, professor, jornalista, pai de família, e cheio de aspirações místicas e fraternas, sindicalistas e libertárias, e que subitamente me saltou duma revista portuguesa de 1929 por ter confrontado as ideias sobre a vida depois da morte apresentadas por Bô Yin Râ no seu Das Buch des Jenseit, ou em francês desde 1929, Le Livre de l'Au Delá.
E se podemos encontrar bastantes art
igos de Gabriel Gobron online na Galica da Biblioteca Nacional Francesa, já se procurarmos no principal motor de busca de livros no mercado, o Abebooks, poucos encontramos dele, enquanto de Bô Yin Râ há 878 em oferta e de Ernesto Bozzano 220, muitos em português-brasileiro e espanhol, entre os quais a Crise da Morte e o que provavelmente vale mais  Povos primitivos e manifestações sobrenaturais. No Internet Archive encontra obras e artigos dos três autores, bem como sobre deles.
Boas pesquisas, l
eituras, compreensões, meditações e realizações.

Uma das belas pinturas de Bô Yin Râ do seu valioso livro Welten, Mundos, e intitulada Lux in tenebris, recomendada para contemplação. Que a Luz divina esteja abençoando ou brilhando em todos os valiosos espíritos referidos neste artigo!

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Do que religa mais a Terra e o Céu e como participarmos em tal unificação. Com duas imagens russas e duas portuguesas.

Estrela do Herói  (um cometa e foi dedicado ao seu filho George,) óleo do mestre russo Nicholai Roerich (1874-1947), notável explorador dos Himalaias, do Gobi, da Sibéria, autor de milhares de pinturas e de livros valiosos em indicações psico-espirituais. .
Ligando a Terra e o Céu encontramos de mais notável os meteoritos, os raios, as tempestades, as quedas de água, os arco-íris, os lagos, os mares, as montanhas, a agro-floresta, as árvores, arbustos e seus frutos, as aves, monumentos, templos, estátuas e colunas, pirâmides e obeliscos, grande penedos, menhires e falos, fogos, velas e incensos, sinos e Angelus, símbolos, armas e báculos, casas, terraços e chaminés, anjos e espíritos celestiais, devas da Natureza e os seres vivos, em si mesmos ou em trabalhos, lavouras, consagrar e dar graças pelos alimentos, funerais e velórios, estados beatíficos, poesias e cantos, compaixões, uniões, yogas, iniciações, comunhões e adorações, que tanto elevam as energias telúricas na aspiração ao alto como recebem as forças celestiais que correspondem às suas invocações e merecimentos, e com elas fecundam as almas, terras, seres e ambientes.
                             
O lago Balkai na Sibéria, óleo do russo Kuindzhi Arkhip Ivanovich,
(1842-1910), contemplável no Museu estadual de St. Petersburg, espelhando o céu e intensificando os seus raios e cores
A música e o canto são das mais criativas e dinâmicas participações e intensificações da religação entre a Terra e o Céu, por vezes ecoando neles a mítica música das esferas, o canto dos espíritos celestiais, ou o som subtil interno.
Os livros são também poderosos vórtices de energia subtis, tanto em si e na sua beleza e forma, como ao serem lidos ou ao serem escritos, mas poucos seres se consciencializam desta operatividade, desta irradiação subtil e mágica, dos fios a seres ou a planos elevados que eles contém.
Mesmo os livros parados, deitados sobre uma mesa, encostados num auxiliar de leitura ou de pé numa estante estão vivos cumprindo a sua missão de albergarem de poderosas potencialidades para quem os abrir e ler, ou apenas contemplar na capa ou numa ilustração, que por vezes em si é mais eficaz que muitas páginas, e deixar a sua alma seja fortificar-se, seja elevar-se na sabedoria e forças psíquicas, de várias fontes, que elas contêm, emanam, suscitam, impulsionam.
                                   
Do Afonso Cautela (biografia em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/07/afonso-cautela-vida-e-obra-com-um-video.html ), uma das publicações artesanais, cheia de formas vibratórias curativas.
Todavia poucas pessoas conseguem sentir essa unidade com o que contemplam, ou intuir as emanações que as rodeiam, ainda que não poucas ao longo da vida, ao abrirem um livro e encontrarem algo que lhes interessa muito, se têm admirado, dado graças e questionado sobre a sincronicidade, a comunhão psíquica e a Providência divina sábia que os faz abrir um livro na página que mais lhe interessa, embora não se interrogando se uma clarividência inconsciente os levou a abrir o livro em tal página.
Ligando a terra e o céu constante e especialmente estão ainda todas as imagens de seres que já viveram na Terra que agora se encontram nos mundo espirituais e que nós contemplamos, sintonizamos, saudamos. E por imagens entendemos quadros, bustos, estátuas, gravuras desenhos, fotografias. Todos deveríamos ter em nossas casas algumas imagens que cultuássemos com regularidade ou diariamente, lembrando-nos, dialogando, irradiando, recebendo. E muito se poderia dizer sobre esta valiosa comunhão, nomeadamente o que diz respeito a nossa vida no além, e com quem teremos convivialidade luminosa, no grande corpo colectivo espiritual da Humanidade e no nosso corpo espiritual que vamos desenvolvendo em terra...
E por fim devemos relembrar os exercícios interiores ascendentes e descendentes, as contemplações dos céus, do sol, da lua, estrelas e planetas, as comunhões com os mundos distantes, as invocações do Anjo da Guarda e do Arcanjo de Portugal, as orações e meditações os escritos e ritos, as peregrinações e subidas às montanhas ou descida às grutas, as concentrações, posturas, gestos (o principal, orar de braços abertos) e cerimónias que fizermos ou em que participarmos com tais propósitos de sentir, consciencializar e intensificar tal religação e união...
                                                
               O Arcanjo, ou Anjo Custódio, de Portugal, no mosteiro dos Jerónimos, Belém. Lux, Amor, Pax!

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O que é a Sabedoria, divina e humana? Pessoa divina, alma do mundo, qualidade anímica? Como conhecê-la e aprofundá-la?

Ícone russo da Santa Sabedoria.

Dia 7, quarta-feira, que se pode considerar o dia semanal da Sabedoria, pois está consagrado a Mercúrio, o mensageiro e intermediário entre os humanos e os deuses, o que liga os mundos pela palavra, a argúcia, a habilidade. "Yoga é a habilidade em acção" dir-se-á na Bhagavad Gita, da Índia, obra em que as noções de Karma e Dharma, se interligam muito com a de Sabedoria, pois além das causas produzirem determinados efeitos (karma) e há uma acção justa, um dever ou missão de cada um (svadharma), cooperante no Dharma cósmico. 
Viver na sabedoria é algo interior e exterior, pelo que pensamos e fazemos diariamente.Por exemplo, na casa ou habitação, conseguir dispor ou arrumar as divisões todas harmoniosamente, será pô-la sob a aura da Sabedoria, ou será mais Beleza, Eficácia espiritual, Ordem? Perfeição, no fundo ligados a ela?
Será olhar para qualquer direcção e lugar  encontrar
 e dispor,  as ideias, os objectos, livros, móveis, coisas, plantas nos seus próprios ou melhores lugares e relações, capazes de irradiarem as mais benéficas energias?
O que é a Beleza? Um raio da Divindade nas suas infinitas formas harmoniosas, captado pela nossa concepção e compreensão psíquica, mas além disso uma qualidade Divina e cósmica?
O que é a Sabedoria? Será a compreensão inteligente das essências e finalidades dos seres e coisas e dos meios de
nos harmonizarmos com elas, ou de as guiarmos para estados mais plenos?
                                                                   
Será o resultado do esculpir da nossa alma sob a
s melhores intenções e acções, com golpes, sofrimentos e falhas,  o resultado qualitativo psíquico do amadurecimento coerente e justo de todas experiências e meditações passadas ao longo da vida, e em que vamos aprendendo a discernir o que é verdadeiro e falso, apropriado e desadequado?
É a sabedoria  uma qualidade ou atributo da Divindade ou podemos considerá-la mesmo um ser, uma entidade, uma essência pessoalizada da Divindade, à qual nos podemos abrir, a qual podemos manifestar, denominada por alguns, sobretudo russos, Santa Sophia?
Ao querer agir com o máximo de Sabedoria, ao invocar tal qualidade, estaremos a entrar na aura de uma pessoa Divina que existe na Divindade e no seu Cosmos, ou que seja a respirar ou a trazer à manifestação algo dela? 

                                           
Qual a realidade da teorização que os filósofos místicos russos dos séc. XIX-XX, tais como Soloviev, Berdiaev, Florensky, Boulgakov e  Troubetzkoy alcançaram da Sabedoria, da Hagia Sophia, da Santa Sofia, como Pessoa Divina, e a que o pintor Nicholas Roerich dedicou algumas belas telas, como vemos em cima?
Deveremos fazer corre
sponder a Santa Sabedoria ao que já na Antiguidade fora consagrada como Anima mundi, a Alma do mundo, divina, que informa e orienta a Natureza manifestada emanada ou criada, e que hoje é designada por alguns como o Campo unificado ou unitário de energia consciência informação e que de certo modo, com diferenças, Carl G. Jung fazia corresponder ao inconsciente colectivo?
Ou deveremos antes aproximar-nos da santa Sabedoria que Platão e seus discerniram acima do mundo físico, o mundo das ideias, dos arquétipos, e que tanto subjaz o universo como de certos modos inspira ou pode inspirar os seres no seu devir?

Deveremos considerar a carta XXI do Tarot uma simbolização da realização da origem, fonte, princípio, essência do Mundo, a Divindade sábia, a Santa Sabedoria mesmo, já que vemos uma mulher luminosa no meio do quaternário dos elementos e evangelistas?
Talvez possamos dizer que quando cultuamos a Sabedoria na nossa vida estamos a irradiar tal potencial do nosso interior, e a fazer o ambiente corresponder mais à sabedoria, e que existe subjacente ao Universo, nos seres sábios vivos ou desencarnados, nas ideias sábias estruturadoras primordiais, na Sabedoria intrínseca da Divindade.
Será a Sabedoria apenas um nome para a Inteligência divina subjacente ao Universo, ou  é uma entidade divina, e neste caso,  corresponde ou não ao Espírito santo na Trindade, ou ao Logos-Sermo-Palavra-Verbo ou Filho, que Jesus Cristo manifestou ou foi em carne, ou ainda se ela fará parte de um Quartário divina, é  complexo de discernirmos sem meditações agraciadas, tanto mais que ela é inerente a toda a Divindade e não a Pessoas em exclusividade, ditas aliás consubstanciais, tanto mais que meditamos pouco e escassamente invocamos e pedimos a graça da Sabedoria, ou do discernimento, da visão providente e da acção justa em que ela consiste...
Talvez seja ainda o melhor não nos limitar pelas concepções dogmatizadas e procurar antes sentir animicamente e viver na nossa vida a Sabedoria, a capacidade de sermos justos, verdadeiros, bons, co-creadores ou cooperadores do que de melhor há, ou pode gerar-se, nos seres, na Humanidade e na Natureza. E se formos mais religiosos ou espirituais fazer com que aSabedoria em nós, através das práticas espirituais, cresça de modo a assemelhar-se e a unificar-se com a Sabedoria Divina primordial.
Num nível mais terra a terra, para concluirmos, devemos procurar ter e manter a nossa casa, sala ou escritório bem arrumado, para que a circulação energética telúrica, cósmica e dos objectos dispostos seja desimpedida, clara, benéfica, numa labuta ou revisitação diária.Tal como a oração incessante que Erasmo e outros recomendaram, ou seja, estarmos sempre numa intencionalidade de auto-consciência no bem e na verdade, e numa aspiração e intensificação da religação espiritual e divina, de modo a estarmos mais conscientes da presença espiritual e da Divindade e podermos manifestá-la  nos ambientes materiais e subtis em que nos encontramos, partes integrantes e cooperantes dum Kosmos, que significa em grego um todo ordenado e belo.
Bons discernimentos do que é mais certo ou errado, justo ou injusto, e boas harmonizações e religações com a Sabedoria tanto í
ntima e pessoal como cósmica e Divina.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Longa e próspera vida ao Irão, ao seu povo, história e mestres. Dezanove imagens, brevemente legendadas, para contemplar e se harmonizar.

   Nestes tempos que antecedem um provável confronto forte do império oligárguico ocidental, na sua vertente norte-americana, sionista e israelita, contra o Irão, forçado a responder por sua dignidade e honra às provocações de assassinatos constantes (desde o general Soleimani até Ismail Hanihey) por parte do regime sionista de Netanyahu, nada melhor para a verdade e a paz justa do que fortalecer a comunhão com os grandes mestres do Irão e com as suas maravilhas artísticas, literárias e espirituais, através da contemplação silenciosa de alguns ícones.

Nur Ali Shah, mestre espiritual. Ainda conheci o mestre descendente dele, Nur Ali Tabandeh,  quando estive no Irão, tendo gravado parte do diálogo, visível no youtube

As flores perfumadas, e as aves canoras, do Irão, quem não as tem no coração espiritual?
Pronuncia as tuas palavras  e mantras por vezes cheias de flores e cores, e encherás delas a tua alma e a de quem te diriges..
Saadi, sábio perene da religião do Amor...
Furdozi e as almas que cantou nos seus poemas históricos.
Nizami em visita ao Shah
                                          Medita com o infinito da natureza tingindo a tua alma

Letras floridas, coloridas e perfumadas brotam da alma nas orações e meditações
Abre os portais dos mundos espirituais com as tuas palavras, poemas e orações...
Poetas e guerreiros, cortesãos do amor à dama e à Divindade...



Do imortal "Livro dos Shas", por Firdausi: encontros na riqueza divina infinita.

Diademas invocadores dos nomes e qualidades da Divindade
Selos sagrados, a Luz (Nour) senhorial brilhando em quem os cultua e ilumina, desperta e manifesta em si.
Tempos primordiais do Irão zoroástrico, com a Beleza e a Força unidas.
Rosa do nosso coração:- abre-te e resplende com a presença Divina sublime.
Busca centrares-te no espírito e religares-te à Divindade

Fátima, ou Zahra, a filha do profeta e mulher de Ali, mestra radiante e amorosa da Divindade.

Que os Imams Shia ou xiitas nos abençoem, inspirem e fortaleçam vitoriosamente!.

domingo, 4 de agosto de 2024

Boas imagens para contemplação na "Pia Desideria", a famosa obra de emblemática amatória, seiscentista mas perene.

 A Pia Desideria, uma das obras de emblemata religiosa mais famosa, dada à luz em 1628, em latim, na vila de Antuérpia, da autoria de Herman Hugo e  ilustrada por Boetius Bolswert, contém entre os seus  46 emblemas ou imagens alguns que se destacam por  motivos artísticos, morais, psicológicos e espirituais e se considerarmos que a obra se destinava a facilitar as práticas de oração e contemplação, fornecendo textos e imagens que ajudavam a tal fim, devemos observá-los bem e escolhermos os que conservados de cor, ou no "cor-ação", poderão, com o tempo ou imediatamente, criar uma forma de pensamento indutora dum estado mental mais sereno e capaz de gerar a intensificação das ligações superiores ao espírito, ao mundo psico-espiritual, ao Divino.

                                        

  Antecedendo os quinze emblemas de cada um dos três capítulos ou livros em que a Pia Desideria está dividida, encontramos uma gravura inicial, a 0, e que em si mesmo ilustra e simboliza com simplicidade e claridade a alma na sua busca do espírito, do amor, do divino, já que mostra a jovem alma humana abrindo a camisa e fazendo sair do seu peito flechas de aspiração e de amor para o alto, para a misteriosa omniconsciência divina. É um dos emblemas que se fixará melhor no interior de pessoa e pode ser utilizado como molde configurador da nossa alma, do nosso campo energético psico-somático, ao começar a orar para melhorar e religar-se...
Os mais luminosos e unitivos emblemas não e
ncontramos no I livro pois, tal como o seu título, indica Gemidos da alma penitente, ele desenvolve em imagens e textos a necessidade de nos purificarmos, arrependermos e aperfeiçoarmos na relação com o mundo, os seres, os valores, embora um ou dois emblemas mostram já a alma contemplando o alto, tal como por exemplo aquele em que ela pede, recebe e contempla as energias purificadoras da água e da misericórdia divina:
                                    
No segundo II livro ou capítulo, Desejos da alma santificada, encontramos
mais gravuras que, contempladas, facilitam ou impulsionam o trabalho de controle dos pensamentos e criação de um ambiente anímico invocador do espírito e da adoração divina, e destacaremos a 16,  28 e a 29, tal como poderá ver em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2024/07/pia-desideria-o-ii-livro-e-os-seus-15.html

Persistir na concentração e na fé no Anjo da Guarda,  no Mestre, no Espírito, na Divindade Previdente.

Já no III Livro, intitulado Suspiros da alma amante, as gravuras apontarão movimentos e estados psíquicos da alma já purificada e unificada e logo capaz de não ficar presa horizontalmente e ser merecedora de um melhor contacto com o Divino, e nisso alguma delas destacam-se, tais as 36, 39, 42, 43 e 44. E se no II Livro víamos mais a alma a querer elevar-se, a tentar bater as asas e desprender-se da gravidade e dos pesos da Terra, agora no III Livro destaca-se  a descida das energias do céu, do mundo espiritual e divino. Veja em:  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2024/07/pia-desideria-ou-desejos-piedosos-o-iii.html

Vamos considerar e comentar todavia apenas o emblema 44, bastante valioso e sugestivo quanto ao  processo da graça, da contemplação, da visão, da adoração, da ligação entre a Terra e o Céu:

Observamos muitos raios de Luz divina que descem do alto do céu com um amplo  alcance sobre a alma mística que medita e aspira às bênçãos divinas e que sentada num monte alto, entre árvores e ravinas, exclama, em palavras extraídas dum salmo: - «Quão dilecto é o teu templo, ó Senhor das Virtudes. A alma ninha deseja ser conduzida ao adro do teu templo, mas desfalece, ajuda-me.» Podemos interrogar-nos como é que Deus, ou os seres celestiais do Templo cósmico nos podem ajudar? Do que depende, de que condições, e em que estado psíquico deveremos estar para as conseguirmos receber e alcançar?

Se orarmos, se meditarmos, se elevarmos as mãos e as energias anímicas à fonte divina, e se merecermos, os Anjos e Arcanjos que vivem nesses planos e que participam na vida cultual e teofânica cósmica abrem asas e alas para os influxos divinos e deixam derramar-se sobre nós que estamos num estado de aspiração, receptividade, amor e adoração, as correntes divinas luminosas. Pode-se dizer que quem medita na Divindade, se recebe um influxo energético forte facilmente pode reconhecer que não aguenta mais dada a magnitude divina, dadas as limitações do seu coração e cérebro, pelo que o emudecimento, o silêncio, o apofatismo são resultados naturais.
Sintomaticamente por vezes encontram-se ex
emplares das  edições da Pia Desideria  com gravuras cortadas ou desaparecidas,  e assim  há anos encontrei num alfarrabista, separada do seu livro mater, a versão francesa de 1686,  a mesma gravurinha 44, com pequenas diferenças da versão original latina de 1624, e arrancada por alguém que terá privilegiado a sua contemplação regular independente em vez  de estar limitada ou encerrada no livro. Ei-la:
                                          
A impressão da gravura na edição france
sa está invertida em relação à original e é menos cuidada, tanto nos pormenores da vegetação como sobretudo na corte celestial, com os anjos menos perfeitos no seu relevo, asas, instrumentos e faces. Jesus, ou o Amor divino, tem um ceptro e uma coroa, mas  a gravação não é tão perfeita como o original em que o Menino Amor divino está representado com asas, e sobre a coroa a cruz da ligação dos mundos. Também a legenda ou a letra é bem diferente já que a alma francesa, talvez mais sensual ou realista, exclama: "O Excesso de prazer transporta-me, quando do Céu se me abre a porta»,  que se compreende pois em certas vivências místicas ou graças do Céu ou mundo espiritual pode gerar-se grande alegria ou prazer, nomeadamente quando a visão espiritual ou mesmo a porta do templo divino, ou que seja do seu adro, se nos abre, na contemplação.

Passados 33 anos da 1ª edição de 1624, em 1657, Henricum Aertissens fazia sair dos seus prelos a  4ª edição e seja porque as chapas de cobre se tinham desgastado seja por outras razões tanto o frontispício como algumas gravuras eram novas, e o caso da numerada como 44 que temos considerado e que reproduzimos nesta versão posterior e menos ciudada:

Nesta 4ª edição, tanto o mar como os anjos musicais desapareceram e o que se destaca mais são as aureolas do Divino Amor, os Anjos a derramarem o que parecem pétalas de flores perfumadas, provavelmente aludindo à existência de uma natureza subtil bela nos planos espirituais, e finalmente o espaço-canal de ligação da Luz divina com a alma humana ser delimitado pela abrangência das mãos dela, o que nos remete para o orar com os braços abertos, ou como a soror Isabel do Menino Jesus  afirmava no começo do séc. XVIII: «o amor de Deus é mar sem fundo, rodeia e abraça o mundo todo; pois tudo isto tem uma alma que está unida com Deus: que como tem em seu coração esta grandeza do amor Divino, tem braços para abraçar o mundo, e um mundo inteiro; isto é, com orações.»

Podemos interrogar-nos quantos, dos milhares ou milhões de pessoas ao longo dos séculos, ao contemplar e rezar com maior intencionalidade estes emblemas e ícones de religação do ser humano ao Amor, a Jesus e Cristo, ao mundo espiritual e ao seu Templo Divino, beneficiaram de harmonização interna, de abertura da visão espiritual e de descida de bênçãos divinas, mas teremos de ser nós a concentrar-nos com alguma regularidade nestas imagens e suas ideias-forças, com os olhos abertos ora fechados,  para  beneficiarmos de melhores campos psico-mórficos e das bênçãos espirituais e divinas, tanto na sua imanência como na transcendência.

Bem aventurados os que lêem um bom livro encostados ao tronco duma árvore e amam a Natureza. Uma fotografia comentada.

                                Religar a Humanidade, a Natureza e a Divindade...

 Ligando a Terra, o Sol, os mundos subtis e espirituais estão as árvores, as almas e corpos, os livros, os agricultores, os que mais amam e cuidam da Natureza e dos seus ecosistemas e seres...

        Bem aventurados os que conseguem meditar ou ler um bom livro encostados ao tronco de uma árvore, com os pés em contacto com a terra, pois são os que a honram e amam, os que sentem a circulação ascendente telúrica e a descente solar, e logo realizam a bem-aventurança do Amor sábio cósmico e divino que entretece e anima tudo e todos.

sábado, 3 de agosto de 2024

Da aspiração perene e amorosa das almas místicas à Divindade, ao Bem, ao Amor e à Verdade.

A aspiração a Deus, a sua invocação devota ou mesmo intensamente amorosa, acompanhada de uma vida activa de serviço na comunidade, caracterizou as sorores místicas, e algumas imagens delas conseguem transmitir essa pureza, ingenuidade, utopia das suas vidas e crenças, sobretudo se as pensarmos agora no séc. XXI. Contudo, o amor e a coragem que viveram, a esperança e a fé que manifestaram,  ainda hoje nos impressionam e tocam quando lemos as suas vidas; e ao olharmos para este santinho rendilhado podemos levemente imaginar a qualidade da aura e das suas irradiações em filigranas coloridas e musicais que elas alcançaram em vida, e nós, quando desenvolvemos o auto-conhecimento interior, o amor à Divindade, ao próximo, à verdade, à Justiça, e mesmo à natureza e ao Cosmos infinito em que singramos.

Outrora bem protegidas em relação ao mundo, enclausuradas nos seus conventos e mosteiros, dedicadas plenamente à oração, ao louvor e à adoração divina, estas almas luminosas ainda hoje estão vivas em alguns de nós que continuamos a tentar purificar-nos, iluminar-nos e religar-nos ao Espírito e à Divindade. Neste santinho rendilhado, uma soror, uma jovem freira, com os olhos algo enternecidos e humildes, provavelmente perante a grandeza do mistério da Divindade a quem ela se consagrou, tem a cabeça coberta por um véu carapuça amplo e numa forma que sugere a  aura mental disciplinada e orientada para o sagrado, e sobre o hábito de cor negra um véu branco projecta-nos para a pureza de desejos e sentimentos ordenados no seu coração ardente para o Bem e para o Amor Divino, enquanto as mãos juntas desfiam as contas das intencionalidade benfazejas que o seu corpo e alma vão dedilhando e emanando pelos conhecidos e necessitados, vivos e mortos. A letra ou lema diz: "a Caridade leva a Deus", ou seja, o amor ao divino e ao próximo levam-nos a estados conscienciais de maior discernimento e responsabilidade e simultaneamente de paz e alegria, tão necessários à humanidade e ao planeta. Saibamos então orar, amar e servir o Bem com elas, na comunhão do corpo místico e iniciático da Humanidade.