sexta-feira, 19 de julho de 2024

Livros (8º) sobre Sonhos. Seis obras de Ernest Aeppli, Erich Fromm, Marie Coupal, Robert Pagès, H. Schultz-Hencke, Roger Caillois. Apresentação resumida por Pedro Teixeira da Mota.

                                                          

 CAILLOIS, Roger. L'INCERTITUDE QUI VIENT DES RÊVES, Paris, Gallimard, 1956. In-8º 168 págs.

No começo da justificação do livro, este  intelectual e sociólogo francês consagrado por uma longa vida (1913-1978) nos meios literários europeus e da Unesco, que passou pelo surrealismo e o sobrerealismo até chegar a ser eleito membro da Academia Francesa em 1971,  e que exigiu um rigor algo materialista para que não se caíssem nos excessos de imaginação e misticismo do começo da mentalidade da new Age, afirma bastante descrente e crítico que «os filósofos, de Shankara a Pascal e a Leibnitz, definiram de bom grado a realidade como um conjunto de sonhos bem interligados  Era para retirar a realidade ao mundo exterior e para apresentá-lo como uma fantasmagoria da qual a consciência despertaria um dia qualquer. Assim se estabelecia como que uma hierarquia: o sonho, a percepção, a iluminação ou conhecimento verdadeiro, que ordenava tanto os graus do saber como os da existência da realidade. Outros, entretanto, não deixaram de se interessar sobre o conteúdo do sonho, as imagens enigmáticas que o constituem e das quais se esforçaram por interpreta o sentido. Segundo as épocas e escolas acreditaram poder ler-se seja o futuro do sonhador ou os segredos inconfessáveis que ele esconderia ao seu próprio olhar. Compuseram em geral léxicos de símbolos que deveriam permitir decifrar, segundo o caso, mensagens sobrenaturais ou confissões duma consciência atormentada. Nenhuma destas duas preocupações tradicionais tem grande relação com o texto que se segue. Para mim, com efeito, os sonhos tem muito pouco mais sentido que as formas das nuvens ou os desenhos das asas das borboletas». Acrescentemos que da América do Sul, onde esteve durante a 2ª grande Guerra, trouxe uma bela coleção mineralógica, e que foi o grande tradutor de Jorge Luis Borges em França.

Anote-se que esta caracterização algo caricata, superficial e pouco interessada no auto-conhecimento pela via da compreensão de algo de tantas horas numa vida, ainda que certamente certeira em algumas crenças, práticas e interpretações exageradas e dogmatizantes, está acompanhada no livro por um esforço de compreender o que se passa com a consciência, para ele ausente do sonho que é apenas um espetáculo em geral anárquico de imagens e onde atribuímos erradamente ao nosso ser-imagem nelas uma continuidade de nós próprios, recusando-se Caillois assim a aceitar que elas se ordenem inteligivelmente às ordens de alguém que não é a sua consciência.  Provavelmente sem nunca ter tido sonhos mais vividos, provavelmente recusando a existência de um espírito e corpo espiritual no ser humano, Roger Caillois passará ao lado do aprofundamento, catarse, renovação e inspiração que os sonhos suscitam, como tantos seres ao longo do tempo vivenciaram.  

PAGÈS, Robert. ITINÉRAIRE DU SEUL. Essai. Paris, Robert Laffont, 1962. In-8º 227 p. 

Uma obra valiosa, das duas geradas por este (1919 a 2007) psicólogo e professor no CNRR francês, expondo nela um caminho do auto-conhecimento, pontuado pela sabedoria oriental e ocidental, com algumas referências ao dormir e ao sonhar. Abre com três valiosas citações, e o prefácio está imbuído de activismo esperançoso espiritual, e de gratidão aos seus iniciadores: os da tradição espiritual indiana, o crucificado Nietzche, e a mulher que o fez empenhar-se na luta contra o anjo e o demónio em si. Citamos a 1ª frase, as outras sendo de Al-Gazali e de Oswald Spengler: «Mais vale a cada um a sua própria lei de acção [o swadharma, dever próprio], mesmo imperfeita, que a lei de outrem mesmo que bem aplicada. Não se incorre em pecado [culpa ou falta] quando se age segundo a lei da sua própria natureza», Bhagavad Gita, XVIII, 47. 

Numa obra caracterizada pela aproximação e valorização da «migração para o interior de nós próprios, e que Aldous Huxley chama a Paz das Profundezas», Robert Pagés realçará quanto o sono e os sonhos nos revitalizam em cada noite, transformando-nos e enriquecendo-nos para avançarmos no caminho da procura da verdade e da acção necessária ou justa, para o qual considera como a base fundamental o estarmos conscientes no presente, a cada momento, o aqui e agora.

 

BOREL, Adrien & ROBIN, Gilbert. LES REVEURS ÉVEILLÉS. Paris, Gallimard, 1925. In-8º 219 p.

Boas aproximações aos sonhos, devaneios e ao inconsciente, visto como uma entidade dinâmica e em constante luta com a censura do Eu. Face à crescente rapidez do ritmo de vida  após a 2ª grande Guerra, realça a necessidade de se aprofundar um estado próximo do sonho, o estado de devaneio (reverie) em que se observam as imagens que se associam por si mesmas, e que pode ser cultivado ao descontrair-nos seja passeando, seja num sofá. Um nível mais elevado, a que chama songerie, escolhe um tema ou imagem e deixa-o prosseguir e interligar-se ou associar-se, na tonalidade afectiva desejada e mantida

O "Sonhador desperto", título da obra é então aquele ser «que se deixa ir pela meada dos pensamentos e que se esquece assim do que se passa à sua volta», aquele que se deixa entrar num divagar, que vive mais no mundo imaginário e satisfeito. São seres próximos do autista, pois neste «o pensamento não procura obedecer aos rigores da lógica racional. É uma lógica afectiva e incomunicável à pessoa normal. Um pensamento solto e fluido como o sonho. É um sonho desmesurado que desloca os limites do real e refaz o mundo de uma maneira original, muito inalcançável.» E fá-lo como artista que tece um outro mundo feérico, ou então como um receptáculo de tensões psíquicas, complexos afectivos que não se manifestaram e se mantém escondidos. Os capítulos seguintes da obra estudarão os diferentes devaneios ou "sonhares" da criança, do adulto, do mórbido, do ser médio e dos que chegam à obsessão. O equilíbrio do mundo interior e do mundo exterior, da afectividade íntima e da partilhada, das tendências e qualidades será então um fim que se procura ora sonhando descontraidamente ora sabendo determinar-nos no que se quer aprofundar e desenvolver.

FROMM, Erich.  LE LANGAGE OUBLIÉE. Introductions à la compréhension des rêves, des contes et des mythes. Paris, Payot, 1980, In-8º 212 p. 

Psicanalista de Berlim, judeu emigrado para a USA com  o nazismo, desfrutando de uma multiculturalidade de aprendizagem e diálogo que o ajudou a libertar-se de Freud e do seu puritanismo e abstração da vida, conseguiu desenvolver uma visão crítica dos padrões culturais da sociedade burguesa capitalista (para a qual o ser humano é um meio e não um fim em si, e que gera o passivo homo consumitor), bem como uma psicanálise mais humanista graças a uma aproximação multidimensional à psique humana, ao subconsciente e aos sonhos, vistos como linguagem universal. Capítulos do  livro: Introdução, Natureza da Linguagem Simbólica, a Natureza do Sonho,  Freud e Jung, História da Interpretação dos sonhos ( A primeira interpretação, não psicológica dos sonhos. A interpretação psicológica dos sonhos.) A arte de interpretar os sonhos. A linguagem simbólica nos mitos, nos contos, nos ritos e nos romances estudando de cinco mitos: Édipo, Criação, Chapéuzinho Vermelho, o rito do Sabat, o processo de Kafka. Prefere compreensão à interpretação. Este breve resumo dá apenas uma pequena imagem do psicólogo e psicanalista que teve grande voga nos pessoas dos movimentos new Age.

                                         

COUPAL, Marie. LE GUIDE DU RÊVE ET DE SES SYMBOLES. De A a Z, tous les sens de vos rêves. Ottawa, 2004. In-8º 567 p. Embora com alguns optimismos new age quanto aos mundos e realidades subtis, o extenso dicionário revela boas leituras de Jung, Adler, Freud, além de boa sensibilidade mas como todos os dicionários dá por vezes interpretações muito pessoais ou limitados a imagens ou símbolos que noutras pessoas teriam ressonâncias, leituras e  causas ou fontes bem diferentes. A Introdução, de quarenta páginas, é valiosa, com alíneas sobre: Linguagem simbólica e projecção pessoal; símbolos inatos e adquiridos; princípio feminino e masculino; símbolos gerais, cores, aspectos musicais, arquétipos, dos povos antigos, do alto e do baixo, de palavras inductoras, sonhos recurrentes. Conteúdo manifesto e latente. Fenómenos   de censura e de repressão. A deslocação, a condensação e a inversão. Personagens simbólicas: a sombra, o animus e a anima. Os tipos de sonhos. Sonhos em cores, e a preto e branco. Porquê trabalhar os sonhos. Para bem analisar o seus sonhos (Possuir algumas noções de psicologia, e falar dos sonhos e pesadelos). Meditação.

         AEPPLI, Ernest. LES RÊVES ET LEUR INTERPRÉTATION. Avec 500 symboles de rêves et leur explication. Paris, Payot, 1962. In-8º 308 p. 

Formado em Psicologia e em Letras, psicoterapeuta da escola de Carl Gustav Jung, o austríaco Ernest Aeppli, (1892-1954) apresenta um resumo da ciência psicológica de então, com alguma originalidade, pois após a 1ª parte sobre a Natureza do Sonho, ea 2ª A Interpretação do Sonho, onde passa por Freud, Adler e Jung, na 3ª parte, a mais extensa, cerca de metade do livro, sobre os Símbolos Oníricos, com 26 divisões, aborda o simbolismo do corpo humano, veículos e instituições acessórias, perigos, sonhos de escola e exames, dinheiro, morte, animais, igreja e cultos, com bastante cultura de arquétipos e tradições, chegando a descrever o processo yoguico da subida da kundalini ao longo dos vários centros nervosos até chegar à coroa da vida, certamente algo perigoso de ser feito por si mesmo ou guiado por satgurus de pacotilha Frequentemente corrigindo ou alargando as visões mais limitadas da psicanálise freudiana (excessivamente sexual) pela jungiana ,mais abrangente nas motivações e impulsos na vida, mas caindo por vezes no erro de definir sonhos por interpretações gerais quando cada imagem simbólica num sonho tem a sua verdade própria interpretável apenas no contexto dessa pessoa e da sua idade, evolução, sensibilidade e integralidade ou alinhamento, tanto mais que por vezes são elas, mais do que espelhos, efeitos de compensações. Realce-se, nesse sentido da pessoalidade, que Ernest Aeppli começa a obra assim: «O sonho pertence às experiências mais pessoais do ser humano. É ele e não outro que sonha» e pouco depois cita Jung para quem o sonho era uma conversa que se passa no inconsciente, provavelmente a tempo inteiro e de que nos chegam alguns fragmentos. Nessa direcção virá uma citação bem revolucionária um pouco à frente, de Pfaff, que muitos de nós já sentiram por vezes, embora não seja conveniente exagerar devido ao desgaste que se pode causar no cérebro e corpo: «só o corpo tem necessidade de sono, não a alma». Talvez por isso algumas almas, demasiado cansadas corporal e até animicamente, sonhassem ou desejassem a morte como adormecer um ficar a sonhar na mão de Deus. Antero de Quental, tão desgastado psico-fisicamente, andou por estas margens do além, coforme vemos em alguns dos seus sonetos nomeadamente Na Mão de Deus, a quem já consagramos alguns artigos neste blogue.

  Um exemplo mais conseguido das suas redacções interpretativas, sobre a paisagem no sonho: «Os sonhos do país ou paisagem da nossa juventude  podem ter um sentido positivo ou negativo. Durante a nossa evolução pessoal, todas as faculdades que a vida nos agraciou na origem não são utilizadas. Uma parte delas permanece latente na região da alma que contém as imagens da nossa juventude. Muitas vezes sonha-se numa certa rua de outrora, que nos tínhamos esquecido completamente. Deve-se perguntar então: Quem habitava esta rua, o que se passou aí, porque a usámos emprestada tantas noites seguidas? Com a ajuda do contexto e das ideias sugeridas automaticamente, pode-se responder; e acabar-se-à por fazer aproximações que reanimarão  uma parte do que foi deixado nessa rua com os seus habitantes. É esse conteúdo que convém no presente assimilar-se.».

Esta leitura dos sonhos como convites a reapossarmo-nos de vivências passadas numa orientação mais harmoniosa e dinâmica para que uma maior plenitude do ser possa brilhar e manifestar-se,  é proposta por vários estudiosos dos sonhos...

quinta-feira, 18 de julho de 2024

"Pia Desideria" ou "Desejos Piedosos": o II Livro, e os seus 15 emblemas reproduzidos e comentados.

   A Pia desideria, Desejos piedosos, de Herman Hugo, dada à luz em 1624 em Antuérpia, num in-12º de (28)-412-(3) páginas, foi a obra religiosa de emblemas com mais sucesso nos séculos XVII e XVIII, com dezenas de edições em latim e nas línguas vulgares,  constituindo um repositório de imagens de mensagem moral e espiritual que podemos admitir ou considerar como já bastante introduzido no inconsciente colectivo ocidental, sobretudo cristão, e logo operativo ao ser contemplado, lido, meditado, assimilado...

Tendo apresentado já num artigo mais historicamente a Pia Desideria, que está dividida em três livros, cada um com 15 emblemas e seus comentários, e tendo reproduzido os emblemas do I Livro, comentando-os, resolvi prosseguir com os quinze emblemas do II Livro, comentandos brevemente. Anote-se que houve noutras edições outros artistas a gravarem com simbologias diferentes os motes dos versículos bíblicos, as que reproduzo sendo as da 1ª edição, de 1624, em Antuérpia, realizadas pelo notável Boetius Bolswert (1580-1633), na tipografia de Henrick Aerstsfen (1586-1658). Não transcrevemos nem traduzimos os versículos bíblicos que constituem a legenda ou letra do emblema, que pode ler sob cada gravurinha em que a alma dialoga com o Amor Divino, ou o Anjo da Guarda, ou o Cristo, sob a forma de um Anjinho.
                                                                  
Neste emblema vemos a alma afastando as sugestões amorosas dum Anjo Cupido (ao fundo, um cavalo aos pinotes) e olhando antes para as leis ou mandamentos sócio-religiosos (ao fundo, o touro manso), patenteados pelo Anjo aureolado, que pode simbolizar o mestre Jesus, ou o Amor Divino, preceitos que a podem orientar para se tornar justa ou justificar perante Deus e a sua consciência ética mais elevada.

A alma, vestida como uma peregrina do caminho de Santiago, exprime o seu desejo em prece de ser guiada pelas inspirações mais elevadas e divinas e assim avançar no labirinto de cada jornada diária.
                                                             
A alma, num andarilho, algo partida e cansada, aspira e tenta avançar segundo as instruções do Anjo algo fisioterapeuta, que ecoa a sabedoria divina, o Mestre, a Divindade interna: porfia, persevera, usa a tua vontade conscientemente.
  
A alma, em dúvidas, pede que a severidade, o castigo, o temor, o medo, lhe sejam mostrados, sentidos, para se decidir pela via correcta e agradável ao Mestre, à Providência Divina.
    
A alma pede  ao Anjo da guarda que a faça evitar as tentações de vaidades e aparências, e que os seus olhos e a mente não sejam tão curiosos face aos estímulos diversos do mundo.
       
A alma pede ao seu Anjo e voz da consciência que a ajude a manter o seu coração conformado com o arquétipo divino e portanto sem manchas, limpo, puro, aberta apenas a inspirações do Bem.
                                                     
- Onde estamos melhor é nos campos, no meio das árvores e das aves, longe da agitação e poluição citadinas. Partamos, peregrinemos e desfrutemos a Natureza.
A alma pede ao Espírito, ao Anjo, ao Cristo, que a ajudem  a segui-los e a desfrutar das suas fragrância perfumadas.
A alma aspira a manter uma relação fraterna com o espírito, com o Anjo, com o mestre, como se fosse uma irmã mais nova, amada e protegida por eles. E promete amá-los, lembrar-se deles durante o dia a dia. pedindo-lhes inspirações, comungando com eles.
Não é fácil deitar-nos e descobrirmos o Anjo, o Espírito. Há que trabalhar, levantar-nos, orarmos e meditarmos e então talvez o possamos encontrar e sossegarmos.
A alma muitas vezes, deve decidir-se a deixar os seus confortos e ir à procura do Divino espírito pela noite a fora.
Nesta busca do Amado, que nos leva para além dos muros e guardas, subitamente podemos encontrá-lo, quem verdadeiramente mais nos ama. e  devemos então abraçá-lo, cingi-lo, estabilizarmos na unidade,
É bom caminhar às cavalitas dos que nos precederam no caminho, dos grandes seres e mestres que deixaram testemunhos que aumentam a nossa confiança no Anjo, na abertura ao espírito divino  em nós.
A alma que sabe sentar-se diante das árvores e à sombra do ser sagrado, respirar conscientemente, orar e contemplar o Divino, harmoniza-se, ilumina-se, serena.
Mesmo ignorantes de tantos aspectos misteriosos da vida na Terra, podemos sentir a comunhão interior com o amor, o espírito, o anjo, a Divindade  nisso desfrutarmos a paz e amor divinos e cooperarmos melhor com a Providência divina.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Lavrov: os Estados Unidos têm de deixar de querer ser os donos do mundo. O BRICS é uma realidade.

                                 

 O Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov, após ter participado nas reuniões do Conselho de Segurança na qualidade de presidente, afirmou numa conferência de imprensa nas Nações Unidas, que sob a nova Ordem mundial, os Estados Unidos terão de abandonar as suas ambições de decidir absolutamente tudo: .
“Têm simplesmente de aceitar a realidade e deixar de afirmar que os Estados Unidos decidem tudo em todo o lado”, disse o ministro quando questionado sobre o papel dos EUA na nova ordem mundial multipolar.
Neste contexto, Lavrov abordou a crescente quota dos membros dos BRICS no Produto
Interno Bruto mundial.
                                           

“É por isso que o mundo multipolar é uma realidade e não uma fantasia de alguém. Se olharmos para a quota-parte dos Estados Unidos e do Ocidente no PIB mundial há 50 anos, há 20 anos e agora nos nossos dias, mesmo só os cinco países fundadores dos BRICS já ultrapassaram os países do G7 há alguns anos em termos do maior produto interno bruto em paridade de poder de compra. E agora que mais cinco países se juntaram aos BRICS, esta proporção vai aumentar”, afirmou o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo.»
                                  
Eis a razão da grande luta a que assistim
os na Ucrânia e na arena mundial: a oligarquia financeira que constitui e que está por detrás do imperialismo norte-americano, da NATO, da União Europeia e do sionismo israelita não quer perder a sua excepcionalidade e impunidade de opressora e dominadora do mundo, que tem mantido devido ao papel do dólar infinito e corruptor e ao negócio dos armamentos. E que o BRICS está a pôr em causa.


domingo, 14 de julho de 2024

"O Anjo da Guarda", soneto de Luís de Magalhães, discípulo de Antero, e talvez inspirador de Fernando Pessoa.

Luís de Magalhães (13-IX-1859, Lisboa, a 14-XII-1935, Porto) foi um amigo de Antero de Quental, embora dezassete anos mais novo do que ele,  que se  destacou como escritor, poeta, governador civil, deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros, sendo monárquico  e tanto apoiando e colaborando na Liga Patriótica do Norte, presidida por Antero e coadjuvada por ele, Basílio Teles e Jaime Magalhães de Lima, em 1890, contra o Ultimato do imperialismo inglês, como mais tarde com a revolta da Monarquia do Norte, em 1919, algo corajosamente pois era uma aventura quase que, no seu anti-republicanismo, condenada ab initio. Na Frota dos Sonhos, de poesia bem valiosa, a parte Os Cantos do Prisioneiro, com onze sonetos, retrata o seu profundo e indomável carácter, embora encarcerado físicamente.

Dedicatória e assinatura de Luís de Magalhães.

Filho do famosíssimo tribuno e jornalista José Estêvão (1809-1862),  tinha também o dom da palavra, escrita ou falada, e destacar-se-á ao tempo de estudante em Coimbra  fundando e colaborando em revistas e jornais, tais como A Sátira e A Província, um jornal sobretudo político fundado por Joaquim de Oliveira Martins, em 1885, e por fim na Revista de Portugal, ao lado de Antero, Eça, Moniz Barreto e outros. Publicou os seus primeiros livros de versos em 1880 e 1881, Primeiros Versos e Navegações

Embora aderindo inicialmente ao Positivismo e à escola Realista, com o tempo foi desenvolvendo a sua doutrina numa linha tradicional, patriótico-nacionalista, patente no longo poema D. Sebastião, 1898, em textos político-económicos, e nos sonetos da Frota dos Sonhos, 1924, dos quais seleccionamos um por abordar a temática angélica, o subtil e misterioso Anjo da Guarda.  Quanto à temática psico-espiritual há vários sonetos, nomeadamente nas partes Ara íntima e Em Face da Esfinge, onde a leitura e meditação de Antero de Quental está mais visível. Pareceu-nos ainda   que Fernando Pessoa terá lido o soneto, e eventualmente nele se inspirado, como aliás noutros da parte Tuba Épica, que cantam os heróis da Pátria, embora a obra Frota dos Sonhos não esteja no que resta hoje da biblioteca do autor da Mensagem.

O Anjo da Guarda

Mesmo na ausência, andas a meu lado,
Que bem te vê, amor, meu coração,
Sombra amiga, adorada aparição,
De que sou, de contínuo, acompanhado.

Fluido vulto, de etérea luz nimbado,
Tal, adiante de mim, segues então;
E assim no mundo, pela tua mão,
Perto ou longe que estejas, vou levado...

Por isso, ao abordar os precipícios
Da vida, em cujo fundo, horrendamente,
Rugem quais feras, as paixões e os vícios,

Marcho confiante, olhando o abismo em face,
Como se caminhando à minha frente
Algum Anjo da Guarda me guiasse!
 
As ideias do soneto são simples: Luís de Magalhães intui ou pressente que está sempre acompanhado por um Anjo, que é um vulto fluídico e luminoso. Aliás, confessa mesmo que é o seu coração que o vê e sente como sombra amiga, como um vulto etéreo nimbado, como uma adorada aparição que lhe dá a mão.  Com esta presença contínua pode avançar por entre os perigos da vida, os abismos dos desequilíbrios emocionais, sentindo que o Anjo  vai à frente como que abrindo-lhe o caminho.
A sua sensibilidade ao Anjo é sobretudo à sua luminosidade e forma, e exprime bastante amor e confiança, embora o terceto final seja mais fraco na transmissão de uma relação com o Anjo, pois parece confessar ser mais um acto de fé em ser guiado por algum Anjo da Guarda, do que uma vivência com o seu Anjo da Guarda, certamente algo de difícil de ser contemplado e sobretudo de ser mantido continuamente.
Já o poema de Fernando Pessoa que  publiquei pela primeira vez (in Poesia Profética, Mágica e Espiritual, 1989) dos seus inéditos no espólio da Biblioteca Nacional, é bastante mais rítmico, e se em palavras e imagens pode ter sido influenciado pelo soneto de Luís de Magalhães, ou talvez apenas poetizado sobre o mesmo campo de energias, num ou noutro aspecto Fernando Pessoa distingue-se, pois o seu Anjo da Guarda é sentido não de mão dada mas sim pelas mãos postas sobre os seu ombros,  ambos avançando confiantes: Luís de Magalhães vencendo os abismos, Fernando Pessoa sentindo a luz da aurora a raiar ao fundo. Eis a parte final do poema, datado de 9-5-34, sob o título Sup. Incognytos:
Mãos do meu Anjo da Guarda,
Que bem guiais, como dois,
O meu ser que teme e tarda,
Postas firmes nos meus ombros
Sem de que eu veja de quem sois!
 
Vou pela noite infiel
Sentindo a aurora raiar
Por detrás de alguém que me impele
Mas já adiante de mim
Vejo a luz a começar (variante: se espelhar)».

Que consigamos ver ou sentir os Anjos, tal como eles poetizaram, ou como nós merecermos! Muita luz e amor angélicos em Luís de Magalhães e Fernando Pessoa.
                                                              

sábado, 13 de julho de 2024

A "Pia Desideria", ou "Desejos Piedosos" : o I livro, de Herman Hugo, e os seus emblemas de harmonização e religação espiritual e divina. Com hermenêutica original dos XV emblemas iniciais.

Frontispício, muito simbólico, da 1ª edição da Pia Desideria, de 1624.

 A Pia Desideria, Desejos Piedosos, foi a obra religiosa emblemática mais editada no século XVII, desde que em 1624  saiu pela primeira vez  em latim, num in-12º de 414 páginas, na tipografia de Henrici Aerstiensi, em Antuérpia. A obra estava dividida em três partes ou livros e cada um continha quinze gravuras de emblemas do diálogo entre uma jovem alma e Deus, ou Jesus Cristo, ou o Amor Divino, em geral representado por um Anjo jovem, que pode ser no fundo o Anjo da guarda da alma.  Foram desenhadas e gravadas por vários artistas, tais como Boetius Bolswert (a 1ª edição, sobre cobre), Christophe van Sichem (a 3ª, sobre madeira), Antonie Wierix e outros. Debaixo de cada emblema estava inscrita em latim a legenda, que era um pequeno versículo da Bíblia, desenvolvido depois numa reflexão meditativa em forma de poema e, por fim, comentado com múltiplos excertos (referenciados) de Padres da Igreja e da Bíblia. Algumas edições mais condensadas ou pequenas continham apenas a gravura com o mote das Escrituras, o poema e uma pequena frase a servir de comentário, o que as tornava mais pequenas, legíveis, atraentes e eficazes no tocar e despertar a alma espiritual...

A gravura em cobre do emblema, com o versículo da Bíblia, e o poema que o parafraseia.

O que justificaria tal sucesso? A humanização e democratização da  via mística obtida por um texto simples e imagens tocantes, que deixava de estar indicada ou transmitida apenas em missais, bíblias e livros de horas? O facto de ter sido rapidamente traduzida para várias línguas europeias, pondo assim a obra ao dispor do grande público, e ainda por cima em edições de bolso? O conteúdo do poema, os comentários exegéticos, ou sobretudo a receptividade às imagens muito queridas dos fabulosos desenhadores e gravadores Boetius à Bolswert (1580-1633) ou Cristophe van Sichem (1581-1688)? Contaria também a experiência, sabedoria e carisma do seu sábio autor humanista e sacerdote jesuíta, que tragicamente morreria cedo, aos 49 anos, numa epidemia de peste?
Ainda hoje poderá interessar-
nos e tocar-nos interiormente, ou o sucesso dependia de um público muito crente e devoto, e carente de literatura religiosa mais dirigida ao interior de cada ser, algo que começara no século XV com a Devotio moderna, e que a Imitação de Cristo, de Thomas a Kempis e depois o Manual do cavaleiro cristão de Erasmo, tinham realizado com grande eficácia e sucesso, tal como Marcel Bataillon, na sua monumental obra Erasme et l' Espagne, dada à luz em 1937, documentou excelentemente, e como eu citei várias vezes, em 2008, no prefácio e comentários ao Modo de Orar a Deus do grande humanista.
                                                              
Outro elo importante, no sentido de uma humanização e imaginação afectiva da religiosidade e da oração, foram os famosos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola,  escritos sob a influência da devotio moderna do abade Garcias de Cisneros e da Imitação de Cristo de Thomas a Kempis, e publicados pela 1º vez em 1548, descrevendo os modos de oração, as vias de purificação, e com todo o dramatismo a vida e paixão de Jesus,  que as pessoas liam, contemplavam (a partir de meados do séc. XVII quando as edições começaram a ser ilustrada, tal a da tradução portuguesa de 1687) e depois imaginavam na suas almas. Foram os Exercícios uma das primeiras metodologias de oração mental realizada em retiros de cerca de um mês individualmente e em grupos e que teve grande sucesso ao ser dinamizada pela Companhia de Jesus, chegando a Goa, como Fernão Mendes Pinto vivenciou, e até aos nossos dias.
                                                               

       O exame de consciência, numa edição de Antuérpia de 1680 dos Exercitia Spiritualia.

 Muito mais próximos da modulação afectiva do amor místico e do tipo de imagem da Pia Desideria foram os Amorum Emblemata, do humanista e pintor Otto van Veen, ou Otto Venius (1558-1629), muito viajado e influentíssimo à escala europeia. Publicados em 1608, os Emblemas do Amor estavam mais abertos à sabedoria pagã, com muitas citações de Ovídio, do que os  publicados em 1615, Amoriis divini Emblemata, embora o estilo artístico (angélico) fosse o mesmo. Mas  outros livros de emblemata de amor existiam e foram também influentes na iconografia amorosa angélica, tais os do sábio humanista Daniel Heinsius (1580-1655), que em 1601 publicara o  Quaeris quid sit Amor, Perguntas o que seja o Amor, e em 1607 o refundira sob o nome de Emblemata amatoria, com gravuras muito belas de Jacques de Gheyn, e na base do Anjo cupido, ou Amor Divino, agente ou dialogante. E muitos outros livros de Emblemas do Amor se seguiram...

Um dos emblemas gravados por  Jacques de Gheyn no Liebestheater, de Hensius, 1601
O autor da Pia Desideria, um sacerdote belga jesuíta, Herman Hugo (1588-1629), era bem conhecido (embora não tenhamos imagens dele), pois fora professor de humanidades no colégio de Jesuítas em Antuérpia e depois prefeito no colégio de Bruxelas, além de autor de  textos sobre a origem da arte de escrever e de polémica com um teólogo Luterano e outro Calvinista. Teria ainda o dom da oratória pois fora nomeado capelão chefe dos Exércitos espanhóis  do rei D. Filipe III no sul dos Países Baixos ou Holanda, vindo a escrever acerca do cerco de Breda, batalhas e fortificações, e viajado bastante e certamente conheceu Otto Venius e Daniel Hensius, pois moveram-se nos mesmos círculos culturais e políticos de Flandres e da Europa.
Quanto ao sucesso da sua obra talvez Herman Hugo
nos pudesse dizer até que ponto as suas intenções geraram os efeitos desejados nas pessoas,  algo de que  sabemos pouco para além do grande agrado (e logo uma presumível eficácia) com que a Pia Desideria, foi recebida, contando-se cerca de quarenta e duas edições em latim no século XVII e várias reimpressões, traduções  e adaptações no séculos XVII-XVIII, inclusive  na Espanha,   Rússia  e Portugal.
A versão portuguesa, que teve duas edições em 1687 e 1688, não foi uma simples tradução,
pois são diferentes tanto as imagens como o conteúdo do poema exegético, este sendo um cântico em duas oitavas, que já não eram de Herman Hugo mas do nosso Frei António das Chagas, seguindo-se um diálogo ou "solilóquio"  entre a alma e o seu divino esposo Jesus Cristo  introduzido pelo editor e livreiro bastante religioso José Pereira Velozo, em substituição dos textos das Escrituras e dos Padres da Igreja que faziam a exegese do lema ou legenda bíblica e da meditação poética na edição original, modelo seguido pela maioria dos editores e de acordo com a estrutura tripla do emblema. Brevemente abordaremos, e sobretudo comentaremos misticamente o contributo de Frei António das Chagas nesta versão da Pia Desideria adaptada pela mentalidade do editor à contextualidade portuguesa por ele visualizada. Anote-se que José Adriano Carvalho, na notável revista Via Spiritus, nº2, de 1995, dedicou um desenvolvido e excelente artigo a esta versão ou adaptação portuguesa, propondo a sua inserção nos movimentos reformistas da época.
A obra de Herma
n Hugo já no seu título, Pia Desideria emblematis Elegiis & affectibus SS. Patrum illustrata, ou seja Desejos piedosos ilustrados por emblemas, elegias e sentimentos dos santos Padres, dedicada ao papa Urbano VIII (publicando-se mesmo as suas armas numa gravura inicial, num sinal de reconhecimento da chefia de Roma), transparece a intencionalidade psico-espiritual da obra, à qual o desenho no frontispício  aponta, pois contemplamos três planos ou níveis  que reflectem a trina divisão da obra: em baixo, Daniel na cova dos leões, e é o estado de provação, correspondente ao I livro, Gemitus Animae Poenitentis, Gemidos da alma penitente. No 2º nível vemos duas figuras,  a de Moisés e a de Salomão, e corresponderá ao II livro, cujo título é Desideria Animae Sanctae, Desejos da Alma Santa. E por fim, correspondendo ao III livro, Suspiria animae amantis, Suspiros da alma amante, observamos ao alto David a tocar harpa, conforme o dito do Salmo 41,2 «tal como o cervo deseja a fonte da água...», e provavelmente S. Paulo com a espada e a orar, ladeando um enorme coração alado, e com uma abertura ao alto para a saída das correntes ígneas do Amor, que brota ou se inflama seja da obra, da alma devota-amante ou do coração divino.

                                                                    
A imagem da portada do livro era verdadeiramente um apelo imediato a tentarmos imaginar e sentir a intensidade da fonte divina do Amor, ou da sua correspondência em nós, da qual andamos tão esquecidos ou descrentes em geral, mas que, de acordo com o programa do livro, após as duas fases purgatoriais de gemidos e votos, se deve desvendar e fazer sentir, gerando os suspiros e aspirações instáticos e extáticos do Amor divino em nós, e de que tantas místicas e místicos deram testemunho ao longo dos séculos.
O sucesso na época deve ser ainda conte
xtualizado com o enfrentamento forte entre católicos e protestantes nos séculos XVI e XVII e assim as escaramuças de Erasmo e Lutero, ou de Herman Hugo contra Balthasar Meisner e Henricus Brandius, permitiam aos livros e panfletos derramarem a luz filtrada pelas duas visões conflituosas no acesso a Deus e a Jesus, a Protestante bastante mais seca, baseada na fé na literalidade da Bíblia e na moral, e a Católica  provida do culto ou reverência à santos e santas, Anjos e Nossa Senhora,  valorizando  a prática da Eucaristia, das devoções, peregrinações, relíquias, imagens o  que foi intensificado com a Contra-Reforma, e em parte substancial através dos livros e imagens, como este livrinho encerra e entesoura num estilo barroco.
Anote-se, neste confronto entre católicos
e protestantes, a publicação por um pastor protestante, Philipp Jacob Spener  de outra obra religiosa com o mesmo título de Pia Desideria, em 1675, mas sem emblemas e sem a devocionalidade amorosa e angélica, destinada à reforma pietista da igreja protestante.
Será que a diminuição da noção de pecado e da necessidade de purificação, bem como do fervor devocional, ou ainda capacidade de diálogo com Deus ou com o Anjo, afectam hoje a receptividade a esta obra? Certamente, e insistir nos gemidos de arrependimento, ou de saudade já pouco diz às pessoas. Parafrasear os já ultrapassados em tantos aspectos,
e tão violentos por vezes Salmos bíblicos, uma das fontes das legendas das gravuras e dos comentários, não dirá também muito senão a evangelistas mais agarrados ou mesmo fanáticos.  Contudo, não haverá no livro alguns estímulos à transformação ou metanóia interior, e algumas compreensões dos mistérios da alma e do espírito, do amor, da Trindade e da Divindade que ainda hoje valham?
Podemos valorizar a priori a conjunção dos estados de alma, representados pelas imagens, e as curtas frases bíblicas, como um bom instrumento de contemplação e meditação, pois cada leitor sentirá uma ou outra mais luminosamente, podendo até decorar e repetir ou meditá-las com regularidade.  Algumas edições ajudam nisso (tal a 1ª), pois recompilam no fim da obra os três vezes quinze versículos (a maioria do Cântico dos Cânticos) ou frases mantricas que foram propostos nas leg
endas.
                               
Haveria pessoas que sabiam de cor e conseguiam lembrar-se de algumas imagens e mesm
o de algo das mensagens dos comentários? Certamente, num saber de cor já não só das orações mais comuns mas de imagem (e eventualmente até de algo do texto), pois qualquer pessoa que leia e veja estas tão deliciosas imagens guarda na memória mais fortemente algumas delas, as que lhe dizem mais e que afloram facilmente à sua visão interior e podendo por isso ser utilizadas na meditação ou oração mental.
Como a contemplação e c
onservação interna de cor ou na memória de alguns dos emblemas é útil,  vamos então partilhar os emblemas da Pia Desideria, com os seus versículos, quais mantras ou frases sagradas, acrescentando-lhes breves comentários, iniciando neste artigo com os 15 emblemas do I Livro.

- Ó Deus, conheceis bem os meus desejos e gemidos. Faz com que brotem de mim mais setas de amor ardente para ti, exclama a alma na demanda... Emblema 0 ou imagem da matéria prima anímica.

- Quando acordo de noite, procuro a tua luz e desejo-te mais: Vem, ilumina-me!
- Oh Deus, esquece as minhas ignorâncias e distrações e estabiliza-me mais na interioridade silenciosa, na respiração, no espírito, em Ti.
- Oh Deus, ó Anjo da Guarda, dai-me a mão, libertai-me dos erros, curai-me.
- Sempre apanhada na roda do karma ou devir causal está a minha alma: dá-me forças para aguentar as dores e ainda assim avançar e aspirar a ti.
 -Corta os meus defeitos, mas mantêm-me na tua amizade e vizinhança, como orava Erasmo.
- Oh Deus, deixa-me contemplar a Tua face, nem que seja no Anjo...
- Quem me impulsionará os sentimentos que regarão e purificarão a minha alma, senão tu ó Divindade, Deus-Deusa, providência purificadora, harmonizadora e sábia?

- Ó Deus, ó Anjo, não me deixeis preso nos laços dos erros e ignorância, da morte e do mal.
- Ó Providência Divina, não sejas demasiado rigorosa e acede às nossas lágrimas, arrependimentos, purificações, orações e aspirações.
- Não me deixes soçobrar ou afogar nos remoinhos astrais, e que os teus anjos e guias me salvem e guiem.
- Não me deixes cair nas tentações que escandalizam e ferem os teus anjos e amigos e amigas.
- Ó Deus, dizem os astros que a minha vida termina, e o chorar e arrepender-me agora servirão de muito? - Não receies, não te afastes de mim, cultiva a oração e a meditação, e receberás a luz e o amor meus.
- Na passagem para o mundo espiritual terás de enfrentar o guardião do umbral. Prepara-te em vida, revendo à noite o que fizeste em cada dia e, através desta psicostasia pitagórica, melhorarás e abrirás os canais para as correntes superiores.
- Ó Deus, ó Anjo, afastai a hora da dona morte até eu ter cumprido a minha missão de luz e amor o mais possível, para que a minha alma espiritual se eleve grata e consciente até Vós.

E assim termina e conclui o I livro, intitulado Gemidos da Alma Penitente, constituído pelos quinze emblemas que comentamos livre, breve e rapidamente, esperando continuar com o II e III livros. Este texto é também uma pequena homenagem aos notáveis autores e artistas dos maravilhosos livros de emblemas, e à sua Sabedoria divina, hagia Sophia, e que estão hoje acessíveis digitalmente. Lux! Pax! Amor!

Um belo cul-de lampe, algo renascentista das oficinas de Antuérpia, numa das edições da Pia Desideria: filigranas do Amor Divino.